Règlement des 10km et Semi Marathon de Cannes

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Règlement des 10km et Semi Marathon de Cannes
Richard Romancini
Jornalista, doutor em
Ciências da Comunicação pela Universidade de
São Paulo
Professor adjunto da Universidade de São Paulo,
São Paulo, SP, Brasil.
Email: [email protected]. Currículo
Lattes: http://lattes.cnpq.
br/8558430008210817
RESENHA
O fluxo comunicacional
e a crise escolar
C&S – São Bernardo do Campo, v. 35, n. 2, p. 399-406, jan./jun. 2014
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Submissão: 18/05/2013
Decisão editorial: 23/03/2014
SIBILIA, Paula. Redes ou paredes: a escola em tempos
de dispersão. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012. 222
p. ISBN: 978-85-7866-069-7
Algo que chama a atenção no livro da pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação
em Comunicação da Universidade Federal Fluminense Paula Sibilia, Redes ou paredes, é a adequação
entre forma e conteúdo. Ao optar pelo formato do
ensaio na discussão dos modos como a escola tem
sofrido abalos nos dias de hoje, a autora desenvolve
um discurso ensaístico exemplar. Como notara Max
Bense: “Escreve ensaisticamente quem compõe experimentando; quem vira e revira o seu objeto, quem o
questiona e o apalpa, quem o prova e o submete à
reflexão; quem o ataca de diversos lados e reúne no
olhar de seu espírito aquilo que vê” (apud ADORNO,
2003, p. 35-36).
Esse raciocínio multifacetado enfoca uma indagação geral bastante complexa – “será que a escola
se tornou obsoleta?” (p. 9) –, entretanto, a argumentação do trabalho prima pela clareza. É possível discordar das avaliações ou ênfases do diagnóstico de
Sibilia, mas é necessário reconhecer que existe um
ponto de vista que organiza o discurso, o que lhe
dá coerência. Essa estrutura, ainda que tenha por
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vezes o tom tentativo do ensaio, é favorecida por
uma perspectiva teórica esclarecedora. Com base
nas discussões de conceitos e temáticas ligadas às
subjetividades, aos corpos, às instituições e à educação, as contribuições de autores como Foucault e
Deleuze, entre outros, combinam-se a um olhar para
aspectos da realidade que reforçam a validade das
interpretações.
O que justifica o interesse do trabalho para os
pesquisadores da área comunicacional é, principalmente, a premissa de que as tecnologias de comunicação se relacionam a transformações sociais
que, de uma forma ou de outra, afetam a escola.
As tecnologias são “mais fruto dessas mudanças que
uma de suas causas – embora uma vez inventadas e
adotadas, não parem de reforçá-las” (p. 176). Nesse
sentido, elas têm alcançado forte adesão das crianças e dos jovens por estarem relacionadas com os
modos de vida das novas gerações.
Ao contrário, a escola parece uma tecnologia,
isto é, “uma ferramenta ou um intrincado artefato
destinado a produzir algo” (p. 13), em menor sintonia,
se não incompatível, com as subjetividades atuais. O
exame desse ponto é feito com base em uma descrição histórica da instituição escolar e seu contexto
social. Nessa análise, evidencia-se que a escola “foi
concebida com o objetivo de atender a um conjunto
de demandas específicas do projeto histórico que a
planejou e procurou pô-la em prática: a modernidade” (p. 16-17). A educação formal constituiu um dos
instrumentos do Iluminismo, com suas preocupações
de desenvolver uma sociedade racionalizante e secularizada, capaz de unificar culturalmente os indivíduos, sob a tutela de um Estado. Em seu processo
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de desenvolvimento, o Estado cresceu, a ponto de
tornar-se uma espécie de megainstituição que dotava
de sentido as demais (família, fábrica, escola, etc.)
que organizam a vida moderna. Por isso, o enfraquecimento do Estado é, também, um ingrediente dos
problemas da escola, já que as instituições referidas
funcionavam a partir de engrenagens disciplinares
articuladas, hoje sem a mesma eficácia.
Desse modo, aflora uma sensibilidade menos
afeita às práticas tradicionais da escola, como a
aula expositiva, a leitura textual e a escrita como
meio de argumentação, do que às atividades típicas
dos chamados “nativos digitais”: ler imagens, jogar
videogames, lidar de maneira rápida com informações abundantes. Essa subjetividade, conjugada
a um ambiente no qual o consumo e a diversão
tornaram-se as linguagens e expectativas gerais,
enfraquece a instituição escolar. Agora, “a tríplice
aliança entre meios de comunicação, tecnologia e
consumo costuma competir com fortes chances [...]
por conquistar a atenção e as graças do alunato do
século XXI” (p. 66).
Os usos dos aparelhos de informática ou telecomunicações constituem, assim, “estratégias que os sujeitos contemporâneos põem em jogo para se manter
à altura das novas coações socioculturais, gerando
maneiras inéditas de ser e estar no mundo” (p. 51).
De modo que, se o modelo analógico da sociedade disciplinar foi a prisão – decalcada para outras
instituições como a escola –, a instância que marca
o mundo atual é o das redes de conexão global, intensamente utilizadas pelos jovens e “que já vêm se
infiltrando nas paredes da escola sem necessidade
de derrubá-las fisicamente” (p. 174).
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A inserção de novas lógicas nas escolas, de
modo a reinventá-las, para “dar densidade à experiência, despertando entusiasmo e vontade de
aprender” (p. 210) seria, em vista disso, uma necessidade. Porém, a mudança não deveria se esgotar
na adoção das novas tecnologias. Essa ação seria
apenas um primeiro (e mais fácil) passo. Sobre essa
dimensão do problema, o questionamento de fundo
é “até que ponto a tecnologia se integrará a um
projeto realmente inovador, capaz de concentrar de
novo a atenção do conjunto de alunos na aprendizagem” (p. 184).
Essa meta, para o qual o trabalho de Sibilia
aponta, implica transformar as escolas, de modo a
“redefini-las como espaços de encontro e diálogo,
de produção de pensamento e decantação de experiências capazes de insuflar consistência nas vidas
que as habitam” (p. 211). Os desafios são diversos,
conforme discute a autora, particularmente no que
diz respeito às diferentes lógicas do dispositivo pedagógico e das redes informáticas. Pares como confinamento/dispersão, conhecimento/transbordamento de informação, discussão/conexão exemplificam
algumas das zonas de conflito. De qualquer modo,
como o ambiente de hiperestimulação em que vivem
os jovens é o contexto atual, e a escola não conseguirá mudar isso, parece sensata a reflexão sobre a
mudança na dinâmica escolar.
Além disso, é importante notar que as questões
e impasses destacados no trabalho, no caso de países que não viveram de modo pleno sob um sistema
educativo digno da qualificação “moderna”, como
o Brasil, tornam as dificuldades mais acentuadas. As
condições socioeconômicas possuem um papel im-
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portante na educação e, no panorama de um mundo em que a desigualdade se acentua ou ressurge,
problemas tradicionais (formação e remuneração
dos professores, estado das instalações escolares,
etc.) somam-se aos contemporâneos. Desse modo,
o jovem Souleymane, do filme Entre os muros da escola (2008), no coração de um sistema educativo
(público) de qualidade, em sua condição familiar
precária de inserção à sociedade francesa, é bem
o exemplo dos tradicionais excluídos ou evadidos
da educação formal. O dado interessante é que,
num momento do filme em que excepcionalmente
parece sentir-se bem na escola, ele trabalha com
fotografias no computador, se expressa com a utilização das novas tecnologias, de um modo que não
consegue fazer com palavras. Como tantos jovens,
sobretudo dos países subdesenvolvidos, entra diretamente no mundo “pós-moderno” sem ter alcançado
as potencialidades da modernidade que a escola
buscava transmitir. No entanto, a complexa questão
relacionada com a “falta de sentido” da escola –
sentida por tantos estudantes, conforme destaca
Sibilia – parece não ser algo muito diferente quanto
a outras dimensões da vida de jovens como Souleymane. Assim, percebe-se o enorme dilema em que
vivemos: as tentativas são tão necessárias quanto
incertas, por motivos macroestruturais.
A educação e sua instituição privilegiada, a escola, representam momentos de preparação para
outras esferas de ação das pessoas. Elas só têm função plena na medida em que favorecem projetos
individuais e coletivos, que se relacionam frequentemente com conquistas de médio e longo prazos.
Como a época atual valoriza a dispersão, o tempo
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presente, o consumo e os prazeres efêmeros, não é
apenas a escola como instituição que é posta em
xeque, mas a própria educação. A tendência – numa
mirada pessimista, levando o argumento de Redes ou
paredes ao extremo – é que tenhamos que indagar,
em algum momento, se a própria ideia de educação
não se tornou obsoleta.
Referências
ADORNO, T. W. Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34,
2003.
ENTRE os Muros da Escola (Entre les Murs). Direção: Laurent Cantet.
Produção: Simon Arnal, Caroline Benjo, Barbara Letellier e Carole
Scotta. Intérpretes: François Bégaudeau, Agame Malembo-Emene,
Angélica Sancio e outros. Roteiro: Laurent Cantet, Robin Campillo
e François Bégaudeau. Paris, França: Haut et Court, 2008. 128 min.,
son., color.
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