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A R T I G O C I E NT(F I CO
P E SQ U I SA P A RT I C I PA N T E - U M A A LT E R N AT I VA NA E N F E R M AG E M
Lé l i a M a r i a Made i ra ·
MADEIRA, L. M. Pesquisa p a r t i c ipa n t e - uma a l ternat iva
na enfermage m .
R C 11. Bras. Htlf, Urasília, 3 7 (3/4 ) :
1 8 8-1 9 4 , jul ./dez. 1 9 84.
R ESUMO. Através de um trabalho fei to com o grupo d e enfermei ras d e uma u ni d ad e
ped i átrica sobre s u a atuação na ad m i ssão d a criança, a autora procura mostrar a efetivi·
dade d a pesqu isa partici pante como metodolog i a a lternativa a ser ut i l izada n a enfe r·
magem.
ABS1: R ACT. The author tries to show the effectiveness of participant i nvest igat ion as
an a lternative method o l ogy to be used by n u rsing se rv i ce. She describes a group of
ped iatric n u rses, taking into account thei r participation i n a chi ld h o'spital admission.
I N T R O D U ÇÃO
resul tados, mas que raramente, chegam a o conhe­
cimento da p o pul a ção pe s qui s ad a . Estes trabalhos
As dificuldades enfrentadas pelos pesquisa­ têm sido desenvolvidos através do método tradicio·
dores são bastante conhecidas no contexto e duca­ nal , positivista, de pesquisa, que se limita a classifi­
cional brasileiro. principalmente no que diz car, relacionar, descrever e constatar situações ou
respeito à aplicabilidade dos trabalhos. Sabe·se cven tos, sem se preocupar em modificar tais situa­
o quanto é difícil e oneroso o desenvolvimen to de ções ; busca-se apenas o c onhecimen l o cien t ífico
uma pesquisa para . após conclu ída, normalme n t e . sem a pretensrro de atuar sob re o pr o blema estu­
s e r simplesment e engavetada o u s e limi t a r ao meio d ad o . Nesta m e t o dol ogia se recomeJ l d a um distan­
ciamento e n tre o pe squ i s a d o r e os pe s q uisad os
acadêmico .
Nas pesquisas tradicionais, apesar de um pro­ para que não h aja "interfe rência" mi pesquisa ;
b lema ser estudado e analisado criteriosamente, os fatos são estudados de fora e as pessoas pesqui­
isto só é feito unilateralmen t e pel o pesqu isador. sadas são o "o bje t o da pesquisa . Neste caso,
Est e é geralmente considerado como alguém de seg u n d o V A LLE 6 , as popul ações são criteriosa­
status superior, que analisa a qpestão de fora, men te estudadas e dissecadas para, muitas vezes,
sem vivenciá·l a. Desta forma. não consegue atingir no fin al . na apresentação dos resul tados, não
e envolver os pe s quisado s para aplicar seus acha- ' aprove i t arem n e n h uma informação, ncm poss ívc l
dos que com t an t as dil1culdades foram evidcn­ orien taçãO para de terminados aspectos em que
estão envolvidos. Eles são simplesmente esque­
ciados.
Na enfermagem , como nas ou ': ras áreas, são cidos, não considerados, como se fossem produtos
realizadas ótimas pesquisas, com 'important íssimos descartáveis.
,
"
1 . Mestranda de Enferm a gem I'ediátrica da Escola de Enfermagem da USI'. Professor Assistente de Enfermagem I'ediá­
trica da Es cola de Enfermagem da UrMG.
1 88 - Reli.
L
Bras.
Enf, Brasília, 37 (3/4 ) , jul./dez. 1 9 84 .
Entretan t o , um novo tipo de pesquisa vem
sen do desenvol vid o , provenien t e da sociol ogia
e antropol ogia, porém j á com u p : icação em outras
áreas. B uma metodologia humanista, tendo sua
b ase no materialismo dial é tico e na qual , conforme
B RUSCHJNI & B A R ROS 0 2 , o processo e o pro­
du to da pesquisa são tomados de forma integrada,
gerando resu l tados que são u tilizados na transfor­
mação da realidade estudada e cujo objetivo é
trabal har em estreita interaç50 com os sujeitos
pesquisados. numa relação mútua de aprendizagem
e m todas as etapas do processo .
Para B RA N D Ã0 1 , o cientist a , nas ciên cias
sociais e humanas, é participante do que estuda e
deve se envolver no processo de mudança que o
grupo est ;í viven d o , esti m u la n d o-o a apro fundar
a v i s 5 0 d e sua a�� n o conj u n t a . Com se u t raba l l t o
deve recri a r . d e d e u t ro p a ra fora . for m a s concre­
tas, possibilitando às pessoas. gru pos e cl asses
participarem do direit o de pensar, produzir e d iri­
gir os u sos de se u saber à respe i t o de si próprios .
Nest a me t o dologia os pesq u i s a d ll s p a ss a m
a ser sujei t os da invest igaç�io ; o pesqu i s a d o r nUo
é mais o dono do saber e da verdade c , para que
a pesquisa seja e fe t iva é imprescind ívcl o envol­
vimento pesquisador/pesquisados. O mé todo
se preocupa com a qualidade do fenômeno e n50
com a quantidade em que ocorre , como na linha
posi tivis t a . Através da aç50-re fle x50-aç50 , está
sempre procurando atuar e modificar a situaç50
e s t udada.
No artigo do INSTITUTO DE A ÇÃO C U L­
T U R,A L l l DAC)3 . a fi rma-se que o o b servador
p a r ticipa n t e . ao invés de s e preocupar e OIl1 as
explicações dos fa t os que acon tecem, tcn tará,
a t ravés da aç50 e da pesquisa , fazer brotar no
grupo ullla comprcensITo do processo de m udança
que está experimen t a n d o , ca pacit ando a ssim o
gru po a redefinir e aprofundar a viSITO de sua ação
conjunta . Para MEN DON Ç A4 , isto vai ocorrer
a t ravés da ação educa tiva. capaz de desenvolver nas
pessoas a consciência cr ítica das causas de seus
problemas e , ao mesmo tempo, criar uma pronti­
dãq para atuar n o sentido da mudança. A parti­
cipaç50 da população é baseada n o "diál ogo
entre iguais" que pressupõe a crença de que todas
as pessoas possuem um p o tencial para serem pro­
tagonistas de sua própria história ; estITo forte­
mente motivadas para se organizarem e desenvol­
verem ações comunitárias ; possuem um nível de
expectativas sobre as possibilidades de mudança
social de sua realidade cotidiana e possuem um
acúmul o de experiências de vida, valores, crenças
e conhecime n t os que constituem um universo
cul tural que deve ser respei tado.
Fren te a estas caracter ísticas d a pesquisa
participante, conhe,c endo a realidade da pesquisa
n a área da saúde e a própria realidade da assistên­
cia de enfermagem , fomos levados a im plementa­
tar um trabalho c om o grupo de enfermeiras de
uma unidade pediátrica.
Na e n fermagem somos testemunhas da gama
de problemas e dif1culdades com que l idam os '
profissionais no seu dia-a-dia. No contexto hospi­
talar, principalmen te , vemos . uma discrepância
muito grande na atuação dessas pessoas, en tre o
que aprenderam e acreditam estar corre to e aquilo
que rea lmcnte estão fazen do. Esta incoerên cia,
freqüen t c men t e , l eva-as a agirem com um a l to
n íve l de insa t isfaçao e a té mcsmo a se a c o m o d a ­
r C J \ l ;h s i l u a ç õ e s ,
ralando sobre ação educa tiva como um
processo de capacitaç50 de indiv íduos e grupos
para assu mireJ\l a solução dos problcmas de
"
s a ú d e . M E N DO N Ç A
diz que este processo
inclui também o crcsciment o dos profissionais
de saúde, a t ravés d a re fl exão conjunt<l sobre
o tra b a l h o que desenvolvem e suas rel ações com
a melhoria das conuições de saúde da popula­
çãO.
Do mesmo modo, PINTOS ressal ta que o
t ra b a l h o educa tivo , com base na participaç50,
deve levar à superação da formaç50 aca demi­
cista e exclu sivamente tecnicista que o profissio­
nal de saú de (Jnédico, enfermeiro e out ros) traz
da universidade . É-l he necess:írio al cançar uma
co mpreen são mais to tal izadora , mais global da
realidade, den tro da qual se insere a problcmá tica
d e saúde .
O traba l h o propost o , inicia l mente, ao grupo
de e n fe rmeiras seria desenvolvido com a fina lidade
de proporcionar treinamen t o à pesquisadora que
implementaria a l gumas et apas da pesquisa para,
concomit an t emen t e , tra b a l h a r com . ou t ra popu­
laçlio , para sua dissertação de mestrado . No en tan­
to , o próprio compromisso e envolvimento criados
pela pesquisa participante , entre pesquisador e
pesquisados levou o grupo a se interessar e a sol i­
citar a cont inu aç50 do trabalho.
Duran t e todo o p rocesso e , principalmcn t e ,
n a e t a p a fina l , perceb i que coisas mui t o significa­
tivas aconteciam c om o grupo e comigo ; a meto­
dologia leva todos a refletirem sobre suas ações ,
sobre as contradições entre seu pensar, sentir e
agir e , conseqüen temente , a um crescimento
como pessoa e C0l110 profisssionaJ .
R ev. Bras. EIlf., Brasília, 3 7 (3/4) , jul. /dez, 1 9 84 - 1 89
J
Assim , surgiu a necessidade de relatar esta
experiência :) comunidade de e n fermeiros, para
que se a m p l i e o con h e ci m e n to de u m t i p o de
pesquisa alternativa a ser u tilizada na enfermagem.
R E LATO D A EXPE R I � N C I A
o trabalho foi implementado c o m o grupo d e
enfermeiras da uni dade pediá t rica d e u m hospital­
escola, governament al , na cidade de São Paulo. O
grup o era constituído por sete enfermeiras que
prestavam assistência nas 24 horas.
Etapas do trabalho
A pesquisa participante, segundo au tores
como B RAN DÃO ) , V ALLE6 e artigo do INSTI­
TUTO DE AÇÃO C U LT U R A L ( I D AC)J , é cons­
ti tuída por quatro e tapas consideradas fu n d amen ­
t a i s , que s 3 0 :
I n sc rç 3 0 do p e s qu i s a d o r 1 1 0 grupo ;
Col e t a de informações ;
O r ga n i z a ç ã o si s t e m á ti ca d a s i n fo rm a ç õ e s ;
Devol u ç ã o do m a t erial ao grupo.
Par t i n d o d a n cccssi d it d e de a p rc n d i z ad o da
própria pesquisadora , esta escol heu o tema e a
população com quem trabalhar. Optou-se pela
p ro � l emática d a admissão d a criança , n o que diz
respeito às ações d o ta) e n fe rmeiro(a).
que , a pesquisa só se realizaria se houvesse um
por parte de l a s .
Fren t e ao a ssen t imen t o do grup o passei três
dias na unidade, nos horários da manhã e da tarde .
Foram feitas observações assistemáticas do
processo de admissão, considerando c omunicação
ve rbal e não-verbal da criança, pais e pessoal da
e n fermagem. Após a s observações, foi feita uma
en trevista não estruturada, com pe rgunt a aberta
às pessoas da enfermagem (en fermeira e atendente
de enfermagem) envolvidas nas a dmissões observa­
das. Utilizou-se a seguinte pergunta : - O que você
acha da admissão da criança ?
Todas as informações foram colhidas com a
finalidade de se conhecer a realidade da a dmissão
da criança, feita p e l a enfermagem, e assim, traçar
um perfil provisório da problemática. A p ós a
organiz ação e anál ise de sses dados veri ficou -se
que o processo de admissão da criança est ava in­
c o m p l e t o e d e ficien t e ; apesar de h ave r p a r t ici pa­
ção da e n fe rm e i r a n e s t e m omen t o . nUo foi perce·
e J l vol v i m e n to
bido u m re l a cion a men to e fe t ivo e n fe r m e i r a - c r i a n ­
ç a - fa m íli a e sen tiu-se a i n d a ullla desi n tegração
neste grupo, quan to ao que pensam , sen t em e
fa z e m . Apesar de consi d e ra rem i m po r t a n t e a
a d m i ssfi o
da
c ri a n ç a , agiam
de for m a r o t i n e i r a ,
se gun d o o que l h e s era e x i gi d o p e l a instituição.
E mais, não se perce beu uma finalidade em suas
a t i vi d a d es desem penhadas; não se d e t e ct ou resul ­
tados ou efeitos p roduzidos no clien te o u e m si
mesmas, pelas suas ações .
Inserção no gl1lpO
É o
em que o pesquisador se a p ro­
xima d o gru p o e sc o l h i d o para se tornar c onhecid o ,
para obter o consenso do gru p o sobre o trabalho
e, ainda , para ob t e r a l gumas im pressões pessoais
que lhe possibili tem um d i agn ó s t i c o provisório
sobré a si t u aç 3 0 e n foca d a . O pesquisador vê o
grupo segundo sua percepção pessoal e fa z o levan­
t a men t o das p r i me i ra s h i p ó t e se s .
Nes t a e t a p a p r o c u r e i c o n h e c e r a u n i d a d e . o
g r up o de e n fe r meir a s e e xp l ic a r-l h e s qu a l e r a meu
objetivo com aquele trab al h o . Foi exposto d e for­
ma su cin t a o qu e se p re t en d e c o m a pes q u i sa par­
t icipa n t e e, c o m o o te m a e r a da escol h a da pesqui­
sadora , foi necessário busca r n o g ru p o , não só o
consen t imen t o para a re al iz ação do tra b al ho, m a s
t ambém saber se haveria intere sse por parte das
enfermeiras em participarem do mesmo.
Foi bastante destacada a necessidade de que
o tema fosse também do interesse do grupo, para
que pudéssemos chegar à e t apa final da pesquisa e, .
1 90- Rev.
m om en t o
Bras.
En[. Brasília, 3 7 (3/4) , jul./dez. 1 9 84 .
Coleta de informações
O obj e tivo fundamen t al nesta e t ap a é conhe­
a população, ou seja, descobrir o
grau de p e rc e p ç ã o e consc i ê n c i a das pessoas sob re
o p ro b l e m a . O pesquisador p a s s a a p e r c e ber c o m o
o grupo se vê na s i t u a ção em d e s t a que .
Q � an t o a o tema em questrro era necessário
c o n h ecer a p e r c e p ç ã o das en fe r m e i ra s sobre a
cer o que pensa
a d m i s s fi o da c r i a n ç a , para se t e r u ma ' v isão m a i s
amp l a d o g r u p o , d e sua organização
suas rel a ç õ es
C OIl1
in t e m a e de
que
a t o t a l id a d e c o n t ex t u al �m
e s t à o i n se ri d a s .
Para isto , u t i l izou -se a e n t r e v ist a aberta,
recolllendada c o m o i n st r u me n t o nesta meto­
d o l og ia por o fe rec e r ao entrevis tado maior opor­
tunidade para suas col ocações . Esta entrevis ta foi
fei ta individualmen te , valorizando-se os princ ípios
da comunicação não-diretiva, procurando expl orar
todas as informações consideradas significativas
para o estudo.
U t i l izou -se t a m b é m o sis t em a da gravação
das e n t revis t a s , após j u s t i t i c a t iva a o en t revi s t a d o
e permissão d o m e s m o . Es t e recu rso favoreceu a
aquisição das verbalizações na sua
ín t e gra e deu
maior op o rt u ni d a d e ao e n trevist ador de e s t a r
a t e n t o para pontos de i n t e re sse e , p rincipa lmen t e ,
à comunicação não-verbal , tão importan t e n e s t a
metodol ogi a . Pe rce beu -se , in icial men t e , por parte
de a l gumas pessoas,"' c e r t a timidez ou receio e m
falar ; no entanto, à me d i da q u e percebiam o clima
e s t u d o , ou sej a . t o d a s a q ue l a s que , d i re t a ou indire­
t ame n t e , se rel acionavam com o tema ou se cons­
a discus­
são da fase seguin t e . Depois foi feito um agrupa­
men t o por p e rgun t a e uma t e n t a tiva de ca tegorizar
os dados, de forma a favorecer a compreensão do
gr up o .
t i tuiriam ·em inst rumen t o s p o te n c i a i s para
Considerando as caracte r ís t icas das enfermei­
ras, como p or exem p l o seu níve l in t e l e c t u al , reso l ­
vem os destacar os d a d o s significativo s , p or ém
. mantendo as formas de expre ssão do próprio .
q u e col ocavam , se tornavam espontâneas, fazendo
en trevistado .
c o l ocações até pessoais , esquecend o-se do gra­
Durante a organização d o s dados, perce bemos
de acei t ação. de não-j u l gamen t o , de i n t e re sse pel o
va d o r .
várias con tra dições en t re o que a s e n fermeiras
sei s
e n t revi s t a d a s
Foram
e n fermeira s,
com
um tempo médio de vin te minutos p a r a c a d a
e n trevis t a .
a impor­
de isto se r do conhe cimen t o do gru p o , den­
diziam e o que faziam n a verd ade . Dad a
t ância
tro do processo de pesquisa partici pante , incl uímos
No p e r í o d o que s e passou e n t re a p r i m e i ra e
n o s d ad o s a se rem a p re se n t a d o s , a s o b servaçües
a segu nda fase . h ouve um maior envolvimen t o
d a pesquisadora com o gru p o , p e l o fa t o d e t e r
sido fei t o acompanhamen t o de a l u no s de gradua­
de a d missões fei t a s n a p rimeira fase d o t r a b al h o .
na
ção
unid a d e .
opor t u n i d a d e ,
Nest a
p ro c u re i
Devolução do material ao grupo
conhecer m e l h o r a sis t e m á t ica d a c I ín ica d a n d o
Es t a fase se caracte riza p e l a ten t a t i va de se
para sen t i r a l gu n s p r o b l e m a s vividos pela e n fe r­
fazer a l guma coisa a l ém da mera con s t a t ação dos
fa t ó s . Aqui perce bemos a nítida diferença e n t re
m agem
e sendo poss ível a p ro fu n d ar um pouco
mais nosso re laciona men t o .
a pesquisa tradicional e a p a r t icipan t e . A pesquisa
m om e n t o
p a r t icipa n t e vai além ; não deve sé de t e r n o reco­
da cole ta de dados, a maioria d a s enfe rmei ra s
já me c onhecia, demons trava éonfiar no trabalho
e percebia meu in teresse e m ajudá-las no que
n hec im en t o d o que exist e : o gru p o deve par ticipar
dos dados encontrados para, a t ravés d a conscien-
Isto
fo sse
roi
porque ,
importante
poss íve l .
solicit aram
Assi m ,
no
a
devolução
dos dados, pois queriam aprovei tar o que tinha
e analisar a
questão da admissão da criança. Elas se sen tiam
m o t i va d a s para i s t o .
fe ito,
sido
para
p o derem
discu tir
Organização dos dados
Inicial mente foi fei t a a t r a n s criç ã o , na ín t e ­
gra, de todas as entrevis tas, atentando sempre para
dados importan tes observados pelo entrevistador
d u ran t e a s e n t revis t a s .
Segundo a r t igo do I N ST I T UT O DE A Ç Ã O
C U LT U RA L ( \ D A C ) 3 ,
a o rganização do s dados
não sign i fica a composiç30 de u m re t ra t o defini­
tivo do gru p o , nem deve ser vis t a como um p ro­
tizaç ão , t e n t a r a superação dos problemas.
O
ponto
fun d amen t al
de s t a
.
m e t o d o l ogia
consiste em cap tar a s possi b i l idades naturais de
mudança no interior de cada situação e ativar
direção desta mu dan ç a . Através
de
um processo cont ínuo de ação-refl exão o
grupo analisa sua p r á tic a e procura redefinir suas
ações.
este p o t e n cial na
·
Segu n d o traba l h o s c o m o os de · B R A N D Ã O ,
V ALLE6 e do IN STI TUTO DE AÇÃO C U LTU­
RA L ( I D A C ) 3 o grupo, nesta etapa, passa a ser
e obj e t o do processo . É sujeito e n qua n t o
d i sc u te e ana l is a a s i t uação e se t o rn a o o bj e t o
d a pesquisa e n qu a n t o é a própria rea l i d ade exposta
suj e i t o
para discussã o . O papel d o pesquisador consis t e
em orie n t ar o e x a m e qu e o gru p o fai,
d o s d a d os
. e a t iv;í - I o a i r a d ian t e em sua anál ise .
N a pesquisa
No presente trabal h o , a p ó s organ :zação dos
par t icipan t e , os dados devem se cons t i t u ir n u m
d a d o s , p rocu rou-se contac lar com a s e n fe rmeiras
de t r a b a l h o , a través d o qu a l s e consiga
preencher o espaço entre a realidade e sua percep­
ção pelo grupo.
Procurou-se , dentro das entrevistas, destacar
. fodas . as idéias que fossem significativas para o
e marcar a reu nião , qu ando seria fei t a a devol u ç ão
duto
fin a l
m a t e ri a l
do
t ra b a l h o
realizado.
dos dados. Este contato foi feito com antecedên­
cia e o matetial preparado previamente em forma
de apostila foi reproduzido, sendo distribuído à
todas .
R e v. Bras. EIlf., Bras{Jia, 3 7 ( 3 /4 ) , jul./dez . 1 9 84 - 1 9 1
Na programação da reunião preocupou-se com
princípios de dinâmica de grupo e de comunicação
n ão-dire t iva, recomendados ncsta met odol ogia
para que as pessoas se sintam num clima aberto,
de não-julgamen t o , onde possam se col ocar espon­
t aneamen te e onde todos devem par ticipar da
melhor maneira poss íve l .
Foi pedido consen timento para gravação da
reunião, com jutifica tiva de que a , experiência
serviria como aprendizado para os coordenadores
e o material poderia também ser usado posteriormente pelos participantes.
.
Estavam p resentes seis enfermeiras, das quais
qua t ro haviam sido en trevistadas na fase de coleta
de dados; a reunião foi coordenada pela pesquisa­
dora e por uma colega que se interessara em
continuar o t rab alho com as enfermeiras ; a reu­
nião teve duração de I h 30 m i n sendo encerrada
pelo pró prio grupo .
Após esclareciment os iniciais e ra necessário
conhece( como o gru p o reagia a o m a t e r i a l o re re­
c i d o ; saher o q u e a qu e l e s dados que e l a s p r ú p r i a s
forncce ra m , est avam sign i fi c a n d o p a ra c a d a uma.
Para ist o foi feita a seguinte pe rgun t a :
- O que vocês acharam d o material que têm
em m!ios '?
Obtivemos as seguin tes .opiniões :
- "Você col oca com as nossas próprias
palavras, tanto que eu consegui me localizar . . ."
- ... . . se a gente lê com calma, a gen te vê que
tem muito erro que a gen te está cometendo e
que não deveria cometer."
- ... . . a gent e sente ... o que a gen te falou aqui . . .
s e a gen te age d e acordo , s e bate alguma coisa . . .
s e faz d e acordo c o m o que cada u m a pensa . "
- "A medida que a gente ·Iê , ,tcaba ficando
conscien t e de muitos· probleminhas ou falhas . . .
cada u m a q u e l e u , o u s e acha o u o bse rva de ter­
minadas a ti t u des que , analisan d o mais friamen t e ,
você n ã o tornaria a fazer . - . você p o d e v e r tudo
que está se passando . "
- " U , rapidinh o , e o que fica bem claro são
as tàlhas, aqui ficam bem eviden tes, basta ler . "
- "Pelo material . eu estou sentind o o grupo
um pouco ansioso e acho que é pel o con t a t o diário
com as mãe s . "
Pelas respostas listadas podemos verificar o
e feito que o contato com as informações provo­
cou em cada elemento do grupo. Após uma
simples leitura já conseguiam se identificar com
as verbalizações e também refletir sob re sua prá­
tica. A devolução destes dados funcionou como
.
. ,
1 92
-
R ev. Bras. EII!. Brasília, 37 (3/4 ) , jUl./dez. 1 9 84.
um espelho, onde o grupo viu refletida a prob le­
mática que estava vivenciand o .
Com o obje tivo d e dinamizar a discu ssão e de
levar o gru po a retletir e redefinir suas ações frente
à admissão da criança, foi fei t a a seguinte per­
gunt a :
- O que vocês gost ariam d e fazer daqui pra
frente ?
Nesta fase da reunião, já com o grupo descon­
traíd o , discutindo acaloradamente , chegando mui­
tas vezes a falar ao mesmo tempo , surgiram não só
propostas do que se poderia fazer c omo também
a maioria dos problemas col ocados foram ampla­
mente debatidos, com par ticipaçãO espon tânea
de todas.
A medida que cada uma ia dando sua sugestão
sobre o que fazer dali para diante, a questão colo­
cada e ra discu tida e, muitas vezes, era ampl iada e
daí surgiram vários tem a s conside rados prior i tários
pelo gru po p a r a a con t inuação dos tr a b a l h os Em
t o rn o d e a l guns deles fech ou -se a d iscussão, che­
ga n d o-se a 1 1 1 1 1 c o n s e n s o . Ou t ros fu r a J I I l e va n t a­
d o s p a ra post e riormen te sercm estudados.
Temas discu tidos :
a) QueslOes r el a cio n ad a s à a tuação da enfer­
mcira na a d m i ssão da criança ;
- Atuação da en fermeira para diminuir o
stress dn mãe e da criança na admissão ;
- Admissões feitas em horário impróprio ;
- Dificuldade de trabalho em equipe na
admissão ;
- Como abordar e o que perguntar à mãe
no momento da admissão ;
- Condu ta básica para coleta de dados na
admissão.
b) Atuação da enfermeira junto à mãe acom­
panhante :
-- Mãe acompan h a n te como fon t e de ansie­
dade para a en fc rmeira ;
- Fal ta de amadurecimento , de preparo do
profissional , pel a instituição ;
Aprend izagem segundo a vivência de cada
uma.
c) Atuação da enfermeira em situações de
c riança em est ado grave cuja mãe está desespe­
rada :
- Despreparo da enfermeira . para lidar com
esta situação ;
Dificuldade para l idar com a própria ansiedade ;
Tendência a fugir da situação ;
Despreocupação com a parte emocional
do p aciente ;
.
- Fal t a de e fe tividade nas açOes da enfennei­
ra , nes t e m om e n to .
Analisando as verbalizações das enfermeiras
verificamos que , at ravés da reunirro, elas consegui­
ram também, chegar a conclusões sobre o signifi­
cado des te trabalho para elas :
A partir do momento que se começa a
pensar, já é um passo a mais . "
- "A gen te observa que , p o r ser hospital. escola, a pessoa chega , vê aS ,çoisas erradas, critica
aí afora, mas com a gen te mesmo ninguém chega
e fala . . . Eu gostei muit o da L. ter vol tado . . . o pou­
co que a gente começou a fazer com esse negócio
de trabalho e tudo é um incentivo para nós . . . pelo
menos parar para pensar mais uma vez a gente
vai . "
"A ge n t e precisa de tempo para refl e tir,
mas ficar em reunião também enche . Não sai
nada do que a gen te vai levando no dia-a-dia.
Então a gente vê que é import ante um espaço
destes. "
- " N ós eSt a m o s precisa n d o de a l gu é m que
sen te com a gen t e numas reuniOes ."
Pelas informações ob tidas na reunilIo, consta­
t ou -se a i m p o r t ü n c i a da devoluçã o dos dados na
pesquisa par ticipant e . Es te encontro proporcionou
ao grupo, não ' só a oportunidade para e ntrar em
cont a t o CO I Í'! a re a l i d a d e d a admiss!io da cr i ança
que estão viven d o , mas também de discutire m ,
de questionarém pontos da problemática que
consideram prioritários no momento . Paralela­
mente , levou o grupo a conhecer os diversos pon­
tos dê vist a sobre a questrro e a tentar chegar a
c onsensos, considerando a contribuiçãO de cada
uma.
Durante a reunião, a través das colocações dás
enfe rmeiras, percebeu-se que elas tomaram c ons-·
ciência das defic1ências da a ssist ência llue estão
pres t ando à c ri a n ç a e à mãe e m sua hospi t a l izaçITo
e , o qu e é m a i s signific a t ivo, e l a s rec o n h e c e r a l ll
suas inadequ ações , procurando formas de mu­
d a n ç a . Acre d i t o que , com isto, a b riram novas
perspcd ivas d e a s s i s t ência p a ra o gru p o .
Ficou esc l a re c i d a a m i n h a fa l i a d e d i s p o n i
bilidade para con t inuar os t r a b al l i o s e decidiu-se
que , assim que elas se p ropusessem a iniciar algu­
ma atividade , procurariam orientação da colega
que se ofereceu como recurso .
Como pesquisadora, nesta e t apa, acredito
ter atingido os objetivos propostos e, também ,
-
ter conseguido levar o grupo a se tornar o sujeito
pesquisa, oferece n d o- l h es a oportunidade de
anal isar e discutir a questITo da sua a tuação na
admissão da crian ça.
da
CONC LUSOES
"
­
Nest a e xperiência pode-se COnstatar que o
trabal h o levou o grupo a : re fletir sobre su as ações ,
descobrir contradiçOes existentes entre o que
dizem e o que fazem, além de motivá-lo a ir a dian­
te em busca de mudanças, visando à melhoria da
assistência de enfermagem na admissão da criança
no hospital .
Ve r i fi ca-se t ambém , que o grupo est á apenas
começo
e que o trabalho nrrô terminou com a
no
reunião para a devoluçãO dos dados. O grupo,
nesta fase , tornou mais clara a sua visão <so bre a
a d m i s s!io d a c r i ança c , a c r e d i t a - se q u e , da í para
fre l l t e , e l e p ró p r io t o m a nÍ a s p rov i d ê n c i a s n e c e SSlÍ­
rias para solucionar as del1ciências detec tadas.
Como profissional me sen ti al tamente gra tifi­
cada ao término d e s t e trabalho. Apesar de todas
as ditlculdades ellfren tadas, especialmente . pela
fal t a de experiência em pesqu isa, posso a fi r m a r
que valeu a pena , p o i i. como fi c ou e vi d en c i a d o ,
é poss ível trabalhar com as e n fe rmei ras, l evando-as
a participar e a se conscientizar dos problemas que
vivenciam , busc ando soluções alternativas para os
mesmos.
Para mim, esta experiência significou não só
um treinamento, mas muito mais que ist o . A apli­
cação da pesquisa participan te ampliou meus
conhecimentos e minha capacidade para com­
preender e ab ordar os problemas l igados à minha
profiSSão.
Acre d i t o q u e e s t a met od o l o g i a s e ap r e se nta
c om o
a l terna U v a
para a
en fermage m ,
uma
vez
que leva o grupo a refl e tir sobre suas ações e a
rede fi n i -I a s . E i s t o acon t ece de u m a m a ne i ra agra­
d lÍ vc l , gra l i I k a l l t e , t a l l t o pa ra o p e s qu i; a d o r c o m o
pa ra os pcsqu i s a d o s c on d e , a re l açli o t, e t roca , de
" d i á l ogo e n tre ig uai s " vai proporcionar o cresci­
mento de todos.
MADEIRA, L. M. Participant research - an altcrnative
in nursing. R e v. Bras. Ertf. , Brasília, 37 (3/4 ) : 1 8 81 9 4 , J ul./Dec. 1 984.
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194
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ção de Mestrado - Escola d� Enfermagem de
Ribcirão Preto da USP) :
-
.

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