Néodécor taloché/grésé
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Néodécor taloché/grésé
A APRECIAÇÃO MUSICAL NA FORMAÇÃO DO MÚSICO Um estudo a partir da Educação Musical DAVI NERY ROCHA JUNIOR UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ - BRASIL "O ouvido do homem é o caminho para o aprender." (Aristóteles) Introdução Por quais caminhos acontece o processo de formação de um músico? A apreciação musical pode desempenhar um papel importante nesta caminhada? Durante a minha graduação em Música, comecei a pensar sobre estas questões na medida em que percebia que era comum para mim assimilar conceitos musicais abordados em aulas através da prática da apreciação musical. Parecia que esta forma de contato com a música poderia ser um caminho interessante para o processo de construção do conhecimento musical. Era curioso, porém, perceber que a apreciação musical era raramente estimulada e praticada nas aulas de música do meu curso, que tinham como principal objetivo a formação de músicos. A busca por entender o porquê disso me levou a questionamentos sobre as formas de interação com música que poderiam estar presentes ao pensar na formação de um músico. Tais questionamentos foram os impulsionadores para a realização deste estudo, para o qual fui pesquisar autores que possibilitassem aprofundar minhas reflexões. A busca na literatura da área de Música levou à percepção de que esta discussão está bastante presente na subárea de Educação Musical. Aparentemente a atenção maior para os processos de ensino e aprendizagem que é dada pela Educação Musical fornece uma abertura interessante para reflexões a respeito de como o conhecimento musical pode ser construído. Outro fator importante está na visão ampla dessa área a respeito do fazer musical enquanto atividade humana, integradora de conhecimentos e expressões de culturas e de indivíduos, transcendendo aos sons. O estudo apresentado neste artigo faz parte do meu trabalho de meu conclusão de curso na Universidade Estadual de Maringá. Seu objetivo é apresentar resultados de pesquisa sobre a apreciação musical e o seu papel na formação do músico, em conjunto com reflexões acerca do tema, objetivando responder meus questionamentos iniciais. Apreciação, um pilar da Educação Musical Segundo o verbete sobre educação da Oxford Companion to Music, escrito por Swanwick e Spencer (2002), "o objetivo fundamental do ensino de música está no desenvolvimento de uma apreciação musical rica e ampla, quer o aluno se torne um músico profissional, um amador dedicado ou um ouvinte sensível e atento". Por meio desta atividade, os educadores estariam estimulando os educandos a despertar seu potencial criativo e a se relacionar diretamente com tradições musicais. Mas como é definida a apreciação musical na área da Educação Musical? Diversos autores discorrem sobre este esta prática, considerada como uma das três principais modalidades do fazer musical, em conjunto com composição e performance (Bueno 2009, França 2002 e Swanwick 2003). Gobbi (2011) define que "apreciar música é ouvir com a capacidade de emitir juízo cognitivo". A apreciação não acontece somente pela percepção dos sons. É necessária uma atividade de cognição, de atribuição de significados à prática ouvir. Esta conceituação é muito próxima da de Stift (2008, p.35), que entende apreciação musical como "uma atividade de © 2012 ISBN 978-950-673-958-4 ROCHA JUNIOR - A APRECIAÇÃO MUSICAL NA FORMAÇÃO DO MÚSICO base, de reflexão, de atribuição de significados à música e à prática musical". O processo de atribuição de significados a sons percebidos é estudado amplamente em na tese de doutorado de Gobbi (2011). Nela, a autora discorre sobre o significado que uma música pode ter para um ouvinte, muito além da mera percepção dos sons, de fatores como hábitos de escuta, valores culturais e educação estética. Tal pensamento vai ao encontro das reflexões de Meyer (1956), pioneiro na pesquisa sobre significado em música e cujo trabalho é frequentemente citado em artigos sobre apreciação musical. Muitos autores entendem a apreciação musical como um processo ativo de audição. Segundo Bastião (2009, p. 29), "apreciar não significa somente ouvir, mas ouvir com atenção, compreensão, senso crítico e estético". Para a autora, esta atitude ativa do ouvinte deveria ser estimulada pelos educadores, especialmente devido ao fato da apreciação ser a forma mais acessível de engajamento com música dentre as modalidades do fazer musical. Além disso, Bastião defende que a atividade de apreciação não deve se limitar a contemplação distante. Em sua dissertação de mestrado, a autora desenvolve uma metodologia de para a prática da apreciação musical, chamada de AME - Apreciação Musical Expressiva, que integra audição, gesto corporal e reações afetivas do ouvinte. Outra educadora que dedicou estudos à apreciação musical foi Beyer. Em seu livro (2008, p.124), ela afirma que "a apreciação musical é uma troca entre diferentes universos de pessoas", uma atividade que integra sons a vivências pessoais, aprendizagens e perspectivas de mundo, "fundamental para qualquer nível ou idade na educação musical". Ouvir música é estar em contato direto com ela. Apreciá-la significa criar conexões dos sons percebidos com seus pensamentos, sua história, seus gostos e suas idéias. Este processo não acontece sem a percepção musical nem sem um pensamento focado na música. Assim como existem músicas, existem muitas formas de se ouvir música: "Ouvir é como respirar ou comer: a maioria das pessoas faz sem instruções diretas. Mas assim como especialistas no corpo humano têm sugestões para que se possa respirar mais eficientemente e nutricionistas têm princípios sobre como comer bem, também os educadores musicais têm diretrizes sobre como ouvir mais efetivamente, para tirar o máximo da música." (Flowers 2003, p. 28) Talvez seja complicado selecionar um método eficaz de se ouvir música, uma vez que cada repertório musical tem sua função e seu contexto. Uma missa, um show de rock e uma sinfonia têm funções diferentes e despertam atitudes de diferentes nos ouvintes, mas é possível dizer que cada ouvinte terá uma experiência uma experiência de apreciação diferente de um mesmo repertório, pois ela depende de componentes particulares de cada indivíduo: "Dizer que não há um único modelo ideal de apreciação significa mais que reconhecer a existência de inúmeras possibilidades de compreensão a cerca de um mesmo objeto, por parte de sujeitos distintos. É entender que determinadas circunstâncias nas quais a música se manifesta podem diferenciar-se a tal ponto que o próprio ato da escuta musical pode ser transformado radicalmente; a audição pode ser dirigida a propósitos diversos, dependendo do contexto em que a música se apresenta." (Moreira 2010, p. 145) Para Chueke (2003, p. 102), "educar o ouvido é algo que deve começar cedo e com repertório variado". Esta autora propõe que exista um único caminho para isso. Segundo ela, o educador musical deve ser capaz da proporcionar atividades de apreciação para os ouvintes, sem influenciá-los com julgamentos de valor. Como a experiência auditiva do aluno é um processo pessoal, único, e pode muitas vezes ter um caráter afetivo, o ideal é que ele seja construído sem preconceitos e visando a construção do gosto e da autonomia do aluno. A apreciação musical pode ser considerada uma pedra fundamental da educação musical. Ela é uma atividade de fácil acesso que pode ser praticada em qualquer estágio de formação musical. Objetivos e funções da Apreciação Musical para a formação do músico A apreciação de obras musicais pode ter diversos objetivos, conforme as intenções do ROCHA JUNIOR - A APRECIAÇÃO MUSICAL NA FORMAÇÃO DO MÚSICO professor. Uma delas seria complementar o aprendizado de elementos musicais trabalhados em aula. Segundo Stifft (2008, p. 35), "a apreciação musical, além de ser em si mesma uma dimensão da experiência musical, abrange a função de complemento das demais". Para Freire (2001), a apreciação musical pode ser utilizada como recurso para criação de conhecimento musical e para o desenvolvimento do pensamento crítico. Isto pode ser realizado, inclusive, por professores leigos em música, bastando que, para isso, eles contem um treinamento e um material de apoio adequado. Segundo Parejo (2008), a apreciação musical também favorece a capacidade de reflexão. Para esta autora, a Escuta Musical é uma atividade naturalmente transdisciplinar, e, assim como a experiência humana, ela é dotada de uma riqueza complexa e indescritível. Ela defende que a Escuta Musical abre janelas criativas para o ser humano. Em sua tese de doutorado, a autora aponta que vivenciou durante a sua formação musical experiências que inibiam a criatividade advindas de uma didática musical fragmentada e tecnicista, focada em resultados musicais de performances de um repertório específico. Parejo (2008) argumenta que a Educação Musical pode e deve buscar a experiência da complexidade na formação dos músicos. Escutar, imaginar, sentir, pensar, e apreciar música são atividades que devem fazer parte de uma educação musical do Século XXI. Esta visão integral e humana se faz presente também em Oliveira (2006, p. 34), que defende que "os educadores devem levar as pessoas a vivenciar atividades de apreciação musical de forma que estas desafiem as suas mentes, estimulem as suas imaginações, tragam alegria e satisfação a suas vidas". Qualquer modalidade do fazer musical se constitui de uma atividade artística, naturalmente complexa e humana. Apreciar música pode ser um belo caminho para a formação de artistas cada vez mais humanos e integrados consigo e com o mundo a sua volta. Como o mundo de hoje está cada vez mais conectado pelas novas tecnologias, a apreciação musical se tornou mais acessível. A facilidade de acesso à rede mundial de computadores e a seu riquíssimo acervo musical está transformando a maneira das pessoas interagirem com música. As consequências disto para os processos de formação do músico ainda não são totalmente claras, mas muitos educadores musicais têm discutido esta questão. O impacto das novas tecnologias para a prática da Apreciação Musical Assim como muitas atividades do ser humano foram afetadas pelas transformações tecnológicas dos últimos anos, a apreciação musical foi impactada pelas novas tecnologias: "A música e as formas de apreciação, produção e consumo musical evoluíram junto com os progressos da humanidade. O Homem, desde o seu surgimento, sentiu a necessidade de se comunicar com seus semelhantes. Vivemos em um mundo globalizado, onde a música é produzida e apreciada de forma digital." (Kieling, 2011, p. 19) Segundo Gohn (2007), o acesso a músicas de diferentes culturas se tornou fácil, rápido e barato pelas novas tecnologias. Isso gera novos desafios e possibilidades para a prática da apreciação musical. A facilidade de acesso a gravações e vídeos de diferentes localidades e períodos permite que os educadores musicais do Século XXI tenham uma grande gama de repertórios a escolher para o trabalhar com apreciação musical. As novas tecnologias possibilitam também cursos de ensino de música à distância. Seria possível desenvolver a apreciação musical neste contexto? Gohn (2005) afirma que sim e cita inclusive exemplos de trabalhos realizados neste sentido, como a Open University do Reino Unido. O autor aponta, porém, em seu artigo que nos cursos de apreciação musical a distância pesquisados, o foco estava na música ocidental de concerto e instiga outros educadores a desenvolverem trabalhos com novos repertórios musicais, visando que os estudantes tenham acesso a uma formação multicultural ampla. Curiosamente, parece que a amplitude acesso e de possibilidades gerada pelas novas Actas de las II Jornadas de la Escuela de Música de la U.N.R. ROCHA JUNIOR - A APRECIAÇÃO MUSICAL NA FORMAÇÃO DO MÚSICO tecnologias não é suficiente sozinha para despertar o interesse para a apreciação de músicas que fogem de seu meio cultural e do que é veiculado pelos veículos de comunicação em massa. Talvez um trabalho de conscientização e estímulo por parte dos educadores musicais possa fazer com que estudantes optem buscar de forma autônoma repertórios novos para construção de seu conhecimento. Outra questão importante das novas tecnologias está na rápida interação de músicos de localidades distantes, que podem compartilhar entre si suas atividades musicais para apreciação e crítica, auxiliando-se mutuamente nos processos de formação musical. Considerações finais A realização deste estudo me permitiu conhecer as concepções da área de Educação Musical sobre apreciação, percepção e escuta musical, formação do músico e construção do conhecimento musical. O contato com a bibliografia estudada me fez perceber como este assunto é amplo e complexo, podendo servir como objeto para reflexão e estudo em diversas pesquisas de cunho teórico e prático, dialogando com distintas áreas do conhecimento. Isto torna a apreciação musical um tema instigante e atual para a Educação Musical, especialmente com frente às possibilidades das novas tecnologias. Apesar desta amplitude de pesquisas, dentre as modalidades do fazer musical, a mais negligenciada durante o processo formal de formação costuma ser a apreciação. É comum currículos inteiros de cursos de música se fundamentarem somente na execução ou na criação musical. Talvez isso aconteça porque estas atividades produzem um resultado musical direto, que é passível de ser imediatamente reconhecido, avaliado e transformado. As consequências de uma atividade de apreciação musical não são claras e podem ter resultados imprevisíveis, pois ela trabalha com aspectos únicos e particulares de cada indivíduo, o que a torna subjetiva. Assim, a subjetividade é uma característica inerente da apreciação musical e esta questão está presente no trabalho de Del ben (1997), no qual o objeto de estudo está voltado para a problemática da avaliação da apreciação musical. Segundo a autora: "A avaliação da compreensão musical através da apreciação musical (... ) apresenta dificuldades inerentes. Ao contrário das atividades de execução e composição, a resposta dada através da apreciação não se constitui como um produto musical em si, pois o aluno não se expressa através da próprio música mas sim, através de meios verbais ou de outro recurso de representação dos processos presentes nesta atividade. Como não há um produto musical observável, a apreciação musical pode ocorrer somente como experiência particular do aluno. Desta forma, para que o professor possa compreender a experiência de apreciar música do aluno e diagnosticar seu nível de compreensão, torna-se necessário que ela seja traduzida de modo objetivo." (Del Ben, 1997 p. 2) No decorrer do meu estudo pude perceber como o papel da apreciação na formação do músico é múltiplo, pois ao mesmo tempo em que acompanha todo o fazer musical, ela pode complementar atividades e aprendizados. A apreciação também pode subsistir em si mesma, proporcionando prazer estético, além de participar ativamente na construção de conhecimento e vocabulário musical de um músico. Ela pode, quando bem empregada, se tornar uma ferramenta indispensável para a construção da opinião e da autonomia musical de um músico, assim como pode ser perigosa quando somente um modelo de interpretação apreciado é tido como único, verdadeiro, melhor ou mais belo. Daí a importância de sempre se trabalhar com a multiplicidade e amplitude de repertórios e de modelos de apreciação. Este artigo se limitou a apontar alguns dos caminhos apresentados por trabalhos acadêmicos da área de Educação publicados no Brasil nos últimos 15 anos sobre apreciação musical no processo de ensino de música. Espero que de alguma maneira ele possa contribuir para que mais profissionais da música venham a refletir sobre as possibilidades da apreciação musical na sua formação e na formação de seus alunos. ROCHA JUNIOR - A APRECIAÇÃO MUSICAL NA FORMAÇÃO DO MÚSICO Referências Bastião, Z. A. (2009). A abordagem AME – Apreciação Musical Expressiva – como elemento de mediação entre teoria e prática na formação de professores de música. Tese (Doutorado em Música). Salvador: Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Beyer, E. (2008). Pedagogia da Música: Experiências de apreciação Musical. Porto Alegre: Editora Mediação. Bueno, P. (2009). Uma proposta metodológica para se ensinar música musicalmente. IX Congresso nacional de Educação, Pontifícia Universidade do Paraná, Curitiba. 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