les acteurs du transport

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les acteurs du transport
Esta revista é parte integrante do Expresso nº 2163 de 12 de abril de 2014
O regresso de Cunhal e de outros resistentes
O que levou à queda do Estado Novo
Histórias de quem saiu e voltou
O que pensam Ana Maria Caetano, José Pacheco
Pereira, Artur Santos Silva e Gomes Canotilho
Cartazes e murais da Revolução
O Diário Secreto de Manuel Malaquias
12 de abril l volume 1
25
de
ABRIL
40 anos
© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1911920 - [email protected] - 82.155.164.188 (12-04-14 09:25)
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Edi to ri a l
Era uma vez
um paÍs que morreu
H
avia um país a 24 de abril — que morreu. E nasceu outro, a 25. Foi há 40 anos.
Foi um dia de festa, o dia em que muitos portugueses conheceram, pela primeira
vez, a liberdade. A democracia estava a chegar e a guerra iria acabar.
O país cansado, velho, bafiento, onde as proibições eram muitas, ferozes e iníquas,
e as permissões irrelevantes e anódinas, dava lugar a uma nova realidade. No país onde fora
proibido pensar — e até vender Coca-Cola ou usar isqueiro sem licença — passava a ser proibido
proibir, para usar a palavra de ordem do Maio de 68.
Já lá vão 40 anos. Cerca de cinco milhões de portugueses terão nascido entretanto. Assinalar um
aniversário do 25 de Abril é, hoje, falar de um passado distante na memória, com muitas leituras
e diferentes emoções. Mas é ainda um acontecimento em que a generalidade dos portugueses se
revê, mesmo em tempos difíceis.
Para celebrar mas também para recordar e dar a conhecer o que foi o 25 de Abril,
o Expresso decidiu editar duas revistas especiais — esta e a da próxima semana; associa-se depois
uma terceira, uma edição monotemática da habitual Revista do Expresso, nas bancas a 25. Em
Lisboa, o muralista GonçaloMAR pintou um mural alusivo ao 25 de Abril, que ilustra as capas
desta e da próxima edição. Nas páginas finais, o “Diário Secreto de Manuel Malaquias”, repartido
pelas duas revistas, foi escrito por Ana Maria Magalhães e por Isabel Alçada com o propósito de
contarem aos mais novos como se vivia antes de abril de 74 e como foi a chegada da liberdade.
Entrevistas a personalidades de referência, histórias de protagonistas pouco conhecidos,
episódios de alguns dos que regressaram a Portugal logo após a instauração da democracia e
de outros que se sentiram ameaçados no Verão Quente de 75 e partiram para o estrangeiro
compõem esta revista. Que dá também oportunidade de recordar alguns dos acontecimentos das
semanas que antecederam a queda do Estado Novo assim como, recuando mais no tempo, de
recontar como foi a luta contra a ditadura. Em várias páginas, oportunidade para ver ou rever
cartazes, autocolantes poemas e pichagens dos primeiros anos de liberdade. Na próxima semana,
depoimentos de quem nasceu perto de 1974 permitem perceber como veem estes 40 anos aqueles
que não podem ter lembrança do outro país.
Francisco Pinto Balsemão já disse mais de uma vez que o Expresso não teria sobrevivido, tal a
perseguição que a censura lhe movia, se o 25 de Abril não tivesse ocorrido um ano e quatro meses
após o início da sua publicação. Esse terá sido um dos menores dos grandes feitos dos militares
que derrubaram a ditadura. ^ João Garcia
Na capa: Mural de GonçaloMAR, na Rua 1º de Maio, em Lisboa
Diretor: Ricardo Costa Diretora de Marketing: Mónica Balsemão Direção Editorial do Projeto: João Garcia Diretor de Arte: Marco Grieco
Editor de Fotografia: João Carlos Santos Edição e Coordenação: José Pedro Castanheira e Paulo Paixão Projeto Gráfico: Paulo Barata Corrêa
e Rita Múrias Conto: Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada e Gonçalo Viana (ilustração) Capa: GonçaloMAR Textos e Fotos: Alberto Frias,
Alexandra Carita, Alexandra Simões de Abreu, Ana Baião, André Pato, André Rijo, António Pedro Ferreira, Cesário Borga, Christiana Martins,
Filipe Santos Costa, Frederico Carvalho, Gabriela Lourenço, Henrique Monteiro, Hugo Franco, Joana Pereira Bastos, Joana Vasconcelos, João
Tordo, José Pedro Castanheira, José Ventura, Luís Faustino, Luísa Meireles, Manuela Goucha Soares, Marco Costa, Margarida Mota, Naide
Gomes, Nuno Botelho, Nuno Fox, Paula Cosme Pinto, Paulo Paixão, Pedro Lomba, Raquel Moleiro, Rosa Pedroso Lima, Rui Cardoso, Rui Duarte
Silva, Tiago Miranda, Valdemar Cruz, Zita Martins Gestora de Marca: Susana Freixo Produção Gráfica: João Paulo Batlle Y Font Secretariado:
Conceição Domingos e Susana Rosa Copydesks: Expresso Documentação: Gesco Digitalização e Tratamento de Imagem: Medipress
25 Abril 40 anos | 3
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S UM Á RIO
08
OS OUTROS paSSageiROS
dO aviãO de ÁlvaRO cUnhal
Com o líder do PCP, em 1974, voltaram
a Portugal outros exilados. Muitos
evocam pela primeira vez essa viagem,
vivida entre a tensão e a euforia.
26
FORaM
& vOlTaRaM
Dez pessoas, dez trajetos, fuga
e regresso, antes e depois do
25 de Abril. Histórias de vida
que são retratos de Portugal,
na ditadura e na revolução.
28 | JÚliO pOMaR
Esteve quatro meses preso e
pintou os companheiros de cela.
30 | JOSÉ MigUel JÚdice
Em Caxias conheceu quem lhe
abriu as portas da advocacia.
32 | anTÓniO BaRReTO
Viveu 12 anos na Suíça, mas
sempre com vontade de voltar.
34 | JORge JaRdiM gOnÇalveS
Deixou Portugal em 1975,
após a nacionalização da banca.
36 | MÁRiO RUivO
Em Itália deu guarida a muitos
portugueses no exílio.
38 | leOnOR XavieR
Viveu sempre num ambiente
fechado, antes de ir para o Brasil.
40 | MÁRiO de caRvalhO
Foi preso e torturado. Na Suécia
teve acolhimento e ajuda.
42 | JOSÉ ManUel
eSpÍRiTO SanTO Silva
Passou por Caxias e Monsanto,
onde pagou parte da decoração.
44 | MaRia da piedade
MORgadinhO
Saiu de Portugal nas barbas da
PIDE, com uma filha ao colo.
46 | JaiMe nOgUeiRa pinTO
Defensor do império, partiu para
Angola após a revolução.
enTReviSTaS
20 | ana MaRia caeTanO
A filha do último chefe de Governo
do Estado Novo considera que o pai
“era mais socialista do que são os
socialistas de agora”.
50 | JOSÉ pachecO peReiRa
Para o historiador e comentador
político, “os portugueses
interiorizaram o discurso
de que não há futuro”.
110 | aRTUR SanTOS Silva
A realidade superou as expectativas
do presidente da Gulbenkian:
“Não acreditava que conseguíssemos
avançar tanto em 40 anos.”
80 | JOSÉ gOMeS canOTilhO
O constitucionalista diz o que mudava
e não mudava na Constituição.
E garante que o memorando da
troika é totalmente inconstitucional.
4 | 25 Abril 40 anos
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S UMÁ RI O
85
aBanÕES
no rEgiME
86 | no TEMpo Da aÇÃo DirETa
A última década e meia da ditadura foi
agitada por uma série de atentados.
57
EM conTagEM
DEcrEScEnTE
58 | anaToMia Da criaÇÃo Do Mfa
Criação, desenvolvimento e afirmação
do movimento dos capitães, cansados
da guerra e do rumo da governação.
62 | “porTUgaL E o fUTUro”
92 | UMa gUErra pErDiDa
Com o livro de António de Spínola, Caetano
percebe que o regime está por um fio.
Os militares sabiam que o conflito
colonial era impossível de ganhar.
66 | ‘BrigaDa Do rEUMÁTico’
96| o poDEr DoS capiTÃES
Quase todos os oficiais generais prestam
ainda vassalagem, mas já de pouco servirá.
Na guerra, o capitão é o homem-chave.
E está cada vez mais insatisfeito.
70 | o goLpE faLhaDo DaS caLDaS
98| 25 DE aBriL por DEnTro
Militares revoltam-se contra as exonerações
de Costa Gomes e de Spínola. Fica o aviso...
A noite decisiva, contada na primeira
pessoa por Natércia Salgueiro Maia.
74 | oS EfEiToS Do choQUE pETroLÍfEro
99 | corrESponDEnTES a LESTE
A frente externa nada ajuda: a subida dos
combustíveis perturba mais a sociedade.
Quando se deu o golpe, a imprensa
estrangeira estava a dormir na forma.
102
proTagoniSTaS
Recordações de episódios que espelham
bem a atmosfera de um tempo português.
102 | fErnanDa MaToS
104 | figUEira MEnDES
106 | ManUEL MaDEira piÇarra
116
DiÁrio SEcrETo
DE ManUEL MaLaQUiaS
iconografia Da rEVoLUÇÃo
18 | 48 | 78 | 90 | 108
conTo
ana Maria MagaLhÃES
E iSaBEL aLÇaDa
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O REG RESS O DO E X Í LI O
de paris a LisBOa nO
Há quatro décadas, um voo histórico Paris-Lisboa trouxe de volta a Portugal
Álvaro Cunhal. No mesmo avião vieram quatro dezenas de exilados políticos,
do PCP e extrema esquerda. Parte deles evoca pela primeira vez as peripécias
do dia 30 de abril de 1974, quando finalmente pisaram o solo de um país livre.
Uma viagem sob tensão e algumas picardias, antes da explosão de alegria
TEXTOS PAULO PAIXÃO
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O REGRESS O DO EXÍ LI O
DA RESISTÊNCIA À LIBERDADE (MIL DIAS, EDITORA)
aViÃO de CUnHaL
Nove participantes na viagem: José Cavaco, Maria do Céu
Cavaco, Domingos Abrantes, Conceição Matos, José Dias
e Victor Carvalho, na página ao lado, fotografados na
Alta de Lisboa, frente ao aeroporto, a 19 de março; nesta
página, Luís Cília, Carlos Vaz e Cláudio Torres, no mesmo
local, três dias antes. Ao seu lado, José Duarte, o oficial da
TAP de serviço na chegadas FOTOGRAFIAS DE NUNO BOTELHO
Álvaro Cunhal a desembarcar em Lisboa, no regresso
do exílio, recebendo as indicações de José Duarte.
No cimo da escada, Domingos Abrantes, Conceição Matos
e um funcionário da Air France, Gabriel de Sousa
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ABANÕES N O REGI M E
F
oi numa pequena agência
de viagens de Paris, de um
cidadão francês de ascendência
polaca, sobrevivente a três campos de
concentração nazis, que foi traçado
o plano de voo de quatro dezenas de
exilados portugueses em França. Todos
estavam ansiosos por voltar a Portugal mal
souberam do golpe militar que pôs fim à
ditadura, a 25 de abril de 1974.
No grupo, os membros do PCP,
acompanhantes de Álvaro Cunhal,
estavam em maioria. Mas havia também
oposicionistas sem filiação partidária ou
membros de outras formações. Quase todos
confiaram a logística do regresso à Office de
Voyages Lafayette (no 9º arrondissement,
junto às galerias Lafayette), gerida por
Maria Amélia Padez, nora de Gaston
Kotski, o dono da empresa. Durante a II
Guerra Mundial, Kotski driblou a morte em
Auschwitz, Dachau e Buchenwald. Militante
do PCP, Maria Amélia mantinha boa relação
com os vários grupos da oposição em Paris,
sem exceção (incluindo figuras socialistas,
como Mário Soares).
A lista de quem pousou no aeroporto
da Portela às 13h50 de 30 de abril de 1974
(segundo a hora registada pelos jornais
vespertinos dessa data) foi obra de tudo,
menos do acaso. O dedo de Padez decidira
quem viajou no voo AF501. Nesse dia, além
da companhia francesa, também a TAP
tinha uma ligação Paris-Lisboa. “Foi de
propósito que fiz embarcar Cunhal na Air
France, por ser uma viagem mais discreta”,
diz Maria Amélia, por telefone, desde
Luanda, onde vive há três décadas e meia.
“Organizei o voo para não haver oposições
ou conflitos lá dentro. Tentámos que não
viesse muita gente na Air France.”
Garantir a tranquilidade do líder
comunista, no exílio desde 1960, quando
protagonizara a célebre fuga do forte de
Peniche, foi assim o principal objetivo da
coordenadora da viagem. Com Cunhal
(falecido em 2005) vinha outro dirigente
do PCP, Domingos Abrantes, e a mulher,
Conceição Matos. Vários militantes
asseguravam a entourage do secretáriogeral, como Victor Carvalho, José Dias,
José Cavaco e mulher, Maria do Céu
Álvaro Cunhal na
chegada a Lisboa,
engolido pela multidão
e só muito a custo
protegido pelos
militares
Na página ao lado,
também no aeroporto,
José Mário Branco
no coro que cantou a
‘Grândola’, rodeado
pela família e amigos:
José Jorge Letria, Zeca
Afonso, Lucília Branco
(tia-avó), Isabel Alves
Costa (mulher), José
Duarte, Adriano Correia
de Oliveira e Sara
Monteiro (mãe). Entre
Zé Mário e Isabel vê-se a
nesga de uma cara: é
de Ary dos Santos
FOTOGRAFIA DE CARLOS GIL
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O REGRESS O DO EXÍ LI O
SERvIçO DE InfORmaçãO E DOcumEntaçãO ana - aEROpORtOS DE pORtuGaL, Sa
Foi preferida a Air France à TAP, para permitir uma viagem mais
discreta. À chegada ninguém conseguiu controlar os sentimentos.
A multidão quase esmagou Cunhal e ‘Grândola’ foi cantada em festa
Cavaco. Os seis juntaram-se para uma das
fotografias deste artigo.
Se a política dava a notoriedade a Cunhal,
e também a Abrantes, era a música que
tornava conhecidos dois dos passageiros:
José Mário Branco e Luís Cília. Perto deles
estava Carlos Vaz. Muito discreto, outro
viajante, hoje figura pública, o arquéologo
Cláudio Torres.
Até à chegada ao aeroporto, poucos
membros do PCP sabiam da vinda
de Cunhal. “Só três pessoas tinham
conhecimento disso: eu, Domingos
Abrantes e a Conceição Matos. O sigilo
foi mantido por razões de segurança”, diz
Maria Amélia Padez, 77 anos.
A aparição do líder causou comoção.
“Quando, já no aeroporto, disse ao Campos
Lima [outros passageiro, já falecido] que
o Cunhal também vinha, ele abraçou-se a
mim a chorar”, diz Padez. “O mesmo se
passou com o Jorge Reis” (então locutor
das Atualidades Francesas, que passavam
nos cinemas portugueses, igualmente
falecido). José Cavaco, 73 anos, recorda esse
momento: “Já estávamos eufóricos, porque
vínhamos para Portugal”. Mas “quando
vejo o Cunhal, então foi uma surpresa
extraordinária, uma coisa indescritível”.
TRANSBORDO DE EMOÇÕES
A vertigem do regresso a casa fez-se de
muitos outros sentimentos. Por alturas
do check in, já a apreensão tomara conta
de muitos. Como Cláudio Torres. “No
aeroporto, não conhecia ninguém — e não
queria conhecer. Estava numa enorme
tensão, nem sabia se podia embarcar. Vinha
ilegal, com passaporte falso. Mas não era
só eu que estava inquieto. Sentia-se um
ambiente de tensão enorme. Ninguém
falava com ninguém. Fugíamos uns dos
outros, a fingir e a olhar para o lado”.
Carlos Vaz, 72 anos, que fez a viagem ao
lado de Branco e de Cília, corrobora. “A
tensão era comum, pelo menos aos que
não traziam documentos. Eu tinha um
bilhete de identidade caducado e vários
passaportes falsificados”, diz, a sorrir. O
caso de Cília era diferente, sendo talvez
o único com o estatuto de “refugiado
político”, atribuído pela ONU. Lembra
que a burocracia foi facilitada porque o
“consulado em Paris começou a dar à
pressa vistos para uma viagem”.
Em Cláudio Torres — então interessado
na arquitetura vernácula da madeira no
centro da Europa, sobre a qual queria
fazer um doutoramento na Sorbonne — a
angústia tinha uma razão mais profunda, de
cariz familiar. “No final de 1973, comecei a
preparar as coisas para entrar em Portugal,
a todo o custo, para ver o meu pai, que
estava doente.” Tratava-se de Flausino
Torres, historiador, que viveu exilado na
Checoslováquia, entre outros países, e
que rompera com o PCP em 1968, por os
comunistas portugueses terem defendido a
repressão soviética da primavera de Praga.
Cláudio fugira para Marrocos em 1961,
indo no ano seguinte para a Roménia (aí
residindo até 1973). Pelo meio saíra do PCP,
por causa da primavera de Praga. Em 1974,
a sua determinação em voltar a Portugal
era absoluta. “Já tinha inclusive comprado
tinta para o cabelo, para me disfarçar.”
Maria do Céu Cavaco sentiu um pico de
alegria (a “surpresa” de ver Cunhal). Mas
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ARQUIVO “A CAPITAL/IP”
O REG RESS O DO E X Í LI O
depressa se impôs o instinto de autodefesa
a quem, mesmo em Paris, se habituara a ter
a vida vigiada pela PIDE, com o apoio da
polícia francesa. “A minha preocupação era
passar sem olhar, sem dar a perceber que
estava a reconhecer os meus camaradas,
para que eles passassem também
despercebidos. Havia uma insegurança
muito grande. Tínhamos de nos proteger.”
A festa do dia seguinte, com que sonhavam,
suscitava uma réstia de medo. “O que seria
o 1º de maio? Uma ratoeira?”
O estado de espírito de José Mário
Branco era idêntico. “No voo, o ambiente
era algo tenso. Dava a impressão que
todos sentiam o que nós próprios
sentíamos: será mesmo verdade que
Portugal foi libertado? Não iremos todos
ser presos à chegada?”, declara, num
depoimento escrito, a partir de questões e
tópicos colocados pelo Expresso.
Mais tranquilo estava Domingos
Abrantes. “Quando decidimos embarcar,
dois dias antes da viagem, havia um
mínimo de confiança”. A 25 de abril de
1974, o dirigente comunista vivia em
Paris há dois meses e meio, sendo o
responsável pela emigração (em França
e outros países europeus). Estava no
PCP há 20 anos (11 no Comité Central) e
resistira 11 anos nos cárceres da ditadura.
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O REGR ESSO DO EXÍLI O
Fugiu de Caxias em 1961. Com mais sete
militantes comunistas, protagonizou
a cinematográfica fuga no Chrysler
blindado que pertencera a Salazar. Com
Domingos estava Conceição. Passara dois
anos presa. Na cadeia foi barbaramente
torturada pela PIDE.
Em Paris, a angústia para o regresso foi
servida em pratos desiguais. Luís Cília,
hoje com 71 anos, admite que possa ter
havido alguma “tensão interior”, por
dúvidas em relação à chegada a Portugal.
“Ainda era cedo para se saber o que iria
acontecer”. De resto, Cília não se recorda
de “nada especial durante o voo”.
Até à descolagem (marcada para
as 11 da manhã), os sentimentos eram
ambivalentes — “um misto de tensão e
de alegria”, sintetiza José Dias, 75 anos.
Na primeira parte do voo, as coisas pouco
se modificaram. Na distribuição dos
lugares, os campos estavam marcados pela
geografia política. “O grupo do Cunhal,
uma vintena de pessoas — diz Zé Mário —,
ficou sentado no fundo do avião.”
O cantor estava na parte da frente, com
Cília e Vaz. Os caminhos de alguns já se
haviam cruzado com o PCP (e um deles
continuava lá). Branco fora expulso em
1965. Partilhou o voo com uma pessoa do
PCP que havia “estado implicada” no seu
afastamento, afirma o músico. Tratava-se
de Marques dos Santos (então funcionário
da OCDE, já falecido). José Mário garante
que viajava também outro “implicado”
na expulsão (Silas Cerqueira). Contudo,
vários passageiros não se se recordam da
vinda de Cerqueira ou negam esse facto
(como é o caso da filha, Cristina, que
garante ter o seu pai ficado em Paris).
NERVOSISMO NO AR
Menos linear e mais fascinante fora a
relação de Cília (em Paris desde 1964)
com o PCP. Chegou a ser expulso em 1969,
por Carlos Antunes, antes deste romper
com os comunistas (e fundar as Brigadas
Revolucionárias), mas seria readmitido dois
anos depois. E desde 1973 que o músico
tinha já um lugar insubstituível na história
dos comunistas portugueses, quando estes
adotaram o ‘Avante’ como hino. Uma
canção composta anos antes por Cília (e
nunca gravada pelo autor), curiosamente a
pedido de Antunes. “Era uma música para
passar na rádio. Dei a partitura e a letra, e
nunca mais pensei nisso”, relataria depois
Cília, em 1974 já com dez anos de carreira.
Sairia do PCP na década de 80, num “parto
sem dor”, diz a sorrir.
No “grupo dos cantores”, no jargão da
viagem, encontrava-se também Carlos Vaz,
com a companheira, a australiana Maureen
Loadsman. Vaz era refratário. Saíra de
Portugal em 1964, após ter conhecido na
pele a violência policial nas lutas estudantis
de 1962. Em França, nas vésperas do 25
de Abril, “andava metido com a LUAR”
(Liga de Unidade e Ação Revolucionária).
Desses tempos, lembra que o grupo pensou
“invadir a Covilhã” e recorda companheiros
de luta, como Camilo Mortágua e Álvaro
Morna (mais tarde correspondente em Paris
de diversos órgãos nacionais, já falecido),
além de outros operacionais, que pede para
não serem nomeados.
Na gare parisiense ou já no ar, nem
mesmo o bálsamo de Portugal estar a
poucas horas de distância inibia as dores
de cabeça. É esse o diagnóstico de Maria
Amélia Padez. “Quanto entrámos no
avião, estava toda a gente nervosíssima.
Era a emoção de voltar, do exilado que
regressa a casa. E Cunhal era o mais
nervoso. De tal modo que deixou cair
a refeição sobre o corpo. Eu ainda quis
buscar guardanapos para ele se limpar...”
A viagem foi vivida em tensão. “Estava toda a gente nervosíssima.
Era a emoção do exilado que regressa a casa. E Cunhal era o mais
nervoso. De tal modo que deixou cair a refeição sobre o corpo”
Na página ao lado,
Domingos Abrantes
e Conceição Matos.
Com Álvaro Cunhal,
há 40 anos (saídos
do autocarro que os
foi buscar ao avião),
e no mês passado, no
aeroporto de Lisboa
FOTOGRAFIA DE NUNO
cOLEçãO ANTÓNIO JOTTA
BOTELHO
Exilados em Paris
no 1º de maio de 74:
Hortense Campos Lima,
João Monjardino (único
exterior ao grupo,
pois viera de Londres),
Maria Amélia Padez,
Luís Cília e mulher
(Nina Cília) e Joaquim
Barradas de Carvalho
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O REG RESS O DO E X Í LI O
PCP
Já no espaço aéreo português, canta-se
e sacode-se a tensão. Há um despique musical
entre José Mário Branco e o grupo do PCP
Domingos Abrantes, que vinha ao lado,
lembra-se bem do “incidente”: “A certa
altura, ele entornou a comida, houve que
resolver esse problema.”
Conceição Matos foi solícita. “Ainda lhe
disse se não queria que eu fosse limpar...”
Mas por uma vez Cunhal dispensou a
distribuição de tarefas pelo coletivo. “Ele
disse: ‘não, não!’. E de seguida levantou-se
e foi ele limpar com água.” Assim, quando
regressa dos lavabos e se senta de novo
no lugar, é bem visível o fato molhado do
secretário-geral do PCP. Precisamente
quando estava prestes a aterrar em
Portugal, com a auréola do mais lendário
resistente ao fascismo.
Quando desce do avião, cerca das duas
da tarde — os termómetros rondavam
os 14 graus —, Cunhal destoa de outros
passageiros. É o único a envergar
gabardina. Não para o abrigar do frio,
vento ou chuva (inexistentes, de resto), mas
Cunhal a discursar no aeroporto, sobre
uma chaimite (fazendo lembrar a
chegada de Lenine a São Petersburgo,
em 1917). À frente, Luísa Amorim, da
CDE, que interveio na receção ao líder
comunista, e Dias Lourenço, do PCP.
Mais afastado (não se vendo nesta
imagem), mas também empoleirado
na chaimite, estava Mário Soares
para “cobrir o fato molhado”, diz Abrantes.
E assim ter um ar apresentável, para falar
aos jornalistas e, depois, se reunir com
António de Spínola, presidente da Junta de
Salvação Nacional (as novas autoridades
saídas do 25 de Abril, que substituíram
órgãos políticos da ditadura).
PORTUGAL NAS NUVENS
Há um momento, acima dos 30 mil pés,
em que se abre uma válvula de escape.
Não que o ambiente a bordo fosse
sepulcral — muitos passageiros cirandam
sem parar, o que motiva reparos da
tripulação. “As hospedeiras queixavam-se
que andava toda a gente de um lado para o
outro, o que para o equilíbrio do avião era
pouco aconselhável”, comenta Dias.
Mas ruído estrondoso só se deu quando
começou a ser sobrevoado o território
português. “Ao ser anunciada a entrada
no espaço aéreo, o Zé Mário começou a
cantar”, recorda Cláudio Torres, 75 anos.
“Sentiu-se então um estremeção, meio
palmas, meio gritos, um som de alegria.”
Comunhão que nem todos a bordo
partilhavam. Torres mantém viva ainda
a imagem de “duas velhinhas inglesas
aterrorizadas, sem saberem o que estava
a acontecer”.
Um alívio foi então sentido pelos
expatriados. “A tensão desvaneceu-se
quando alguém começou a cantar”, diz
Maria do Céu, 75 anos. “Houve uma
certa descompressão e sentiu-se mais
confiança. Afinal, podíamos cantar.”
A lembrança concreta dessas cantigas
é que está mais esbatida. “Seriam as
canções revolucionárias, de intervenção. E
também se cantou o hino.”
Já José Mário Branco — que não foi
possível fotografar para este trabalho —
tem um registo muito nítido do programa
musical. “De vez em quando, alguém
cantava canções em coro — curiosamente,
do fundo do avião, e com exceção do
‘Canta, camarada, canta’, apenas surgiam
canções populares anódinas do tipo ‘A saia
da Carolina’ ou ‘Ao passar a ribeirinha’”,
recorda. “Em reação” ao alinhamento
melódico comunista, Zé Mário e a mulher
(Isabel Alves Costa) começaram a entoar
“canções heroicas do Lopes-Graça, como
o ‘Terra Pátria’, ‘Acordai’, e ‘Jornada’”,
ou ainda o “‘Não há machado que corte’”
[este da autoria de Manuel Freire]. A
micro-geopolítica da esquerda lusitana
revelou-se então no seu esplendor,
fazendo fé na versão de Zé Mário. “Foi
uma espécie de batalha de canções entre
‘duas linhas’: uma ‘de esquerda’, a nossa;
e outra ‘de direita’, a do grupo de quadros
do PCP”, enfatiza o cantor.
Só nessa altura Cláudio Torres, até
aí metido no seu casulo, interage com
o mundo em redor. “Levantei-me e fui
ter com o Zé Mário. Eu conhecia-o de
Portugal, mas naquele momento, no
avião, não o estava a ver, só percebi quem
era por causa da voz. Era-me muito
familiar: na Rádio Portugal Livre, em
Bucareste [rádio do PCP], eu passava os
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discos dele.” Branco gravou o momento:
“Senti que alguém do banco de trás me
tocava nas costas... ‘Zé Mário, já não te
lembras de mim?’ Era o Cláudio Torres.”
O confronto musical passa então da
desgarrada para a fase da picardia,
ainda segundo as memórias de Branco.
“Quando o avião começou a descida, o
grupo do fundo começou a cantar o hino
nacional. Da nossa parte houve alguns
assobios. Eu levantei-me, virei-me para
trás e gritei: “Oh Marques dos Santos,
como é que vocês agora vão fazer com
o refrão?”De facto, que sentido faria,
naquelas circunstâncias, cantar “Contra
os canhões marchar, marchar”?
Victor Carvalho minimiza a disputa:
“O José Mário foi convidado por nós
para vir no avião, não houve despique
nenhum, embora houvesse divergências”.
Carvalho puxa para refrão outros versos:
“Contra o fascismo estávamos todos,
houve unidade. Nós vínhamos para
Portugal para que as coisas voltassem
para trás. Era essa a nossa esperança e
foi isso que fizemos.”
CANTO DE LIBERTAÇÃO
Jogos florais à parte, a verdade é que as
coisas nem sempre rimaram. Domingos
Abrantes, 78 anos, recorda-se bem (na
conversa mantida com o Expresso no
final do ano passado) de que “houve
várias bocas”, logo no embarque. E a
bordo foram “trocadas algumas piadas
entre os esquerdistas e o PCP”. Sobre as
cantorias em pleno voo, José Cavaco tem
“a ideia de ter ouvido um ligeiro despique”
(convergindo assim com o relato de Branco).
“Estávamos a cantar o hino, e a dizer ‘contra
os canhões, marchar, marchar’, quando
alguém disse: ‘Mas agora os canhões é que
nos libertaram!’. Então outra voz gritou:
‘Contra os patrões, lutar, lutar’”.
Apesar das desafinações políticas,
o canto foi deveras libertador. “Numa
altura do voo surgem as canções que
nos tranquilizaram”, diz Maria do Céu
Cavaco. “Se alguma coisa de muito mau
acontecesse, estávamos a cantar...”
Nem todos foram em cantigas ou
se deixaram embalar. “Cunhal ficou
praticamente todo o voo sentadinho,
tranquilo, enquanto outros estavam
na parte de trás a conversar, ele estava
sozinho, escrevia, escrevia. Não participava
nas canções, não se manifestava”, conta
Carlos Vaz, que a certa distância observava
o líder comunista. O isolamento tinha
razão de ser, explica Abrantes. “De certo
modo foi também uma viagem de trabalho,
ARQUIVO “A CAPITAL/IP”
O REGRESS O DO EXÍ LI O
o único encontro
entre cUnHAL e JAiMe neVeS
Numa das partidas da
história, o elemento
do MFA destacado por
Spínola para garantir
a segurança de Cunhal
estaria ano e meio
depois na trincheira
oposta à do PCP. Foi
quase à bala, pois o
país esteve à beira da
guerra civil. À frente
dos Comandos da
Amadora, Jaime Neves
foi o homem-chave
das operações do 25
de novembro, que pôs
fim ao verão quente
de 1975. No regresso
de Cunhal, estiveram
frente a frente, olhos nos
olhos, como na viagem
de autocarro entre o
avião e o aeroporto
— na fotografia, um
momento testemunhado
por Conceição Matos
e Domingos Abrantes.
Quase todos os
passageiros agora
entrevistados (com
exceção de Abrantes)
desconheciam ou não se
lembravam do militar
que chefiara a sua
proteção em 1974. E
quando é pronunciado
o nome de Jaime Neves
(então major), a reação
é de espanto e de
gargalhada.
O comando registou
muito bem essa data
e sem motivos para
grande alegria. Segundo
a obra “Homem de
guerra e boémio. Jaime
Neves, por Rui Azevedo
Teixeira”, a imagem
de Cunhal a discursar
sobre a chaimite “prova
a ingenuidade política
do líder comando muito
bem manipulado pelo
líder comunista. O que
estava previsto era que
Cunhal falasse de uma
varanda do aeroporto,
um lugar neutro, sem
conotação militar ou
política. Falando da
chaimite, criou-se logo ali
a ideia da união da tropa
com os comunistas”,
escreve o autor. Após o
aeroporto, atravessam
Lisboa lado a lado, até ao
encontro com Spínola.
Ao Expresso, Rui de
Azevedo Teixeira —
professor universitário
e antigo comando, que
baseou o livro em várias
conversas com Jaime
Neves (falecido em 2013)
— conta: “Na viagem para
a Cova da Moura, Cunhal
nada lhe pergunta, pelo
que Neves mantém a
boca fechada.” Contudo,
nesse dia, Neves “aprova
o homem. Cunhal era
‘um tipo com força’, que
estava ‘nervoso mas se
controlava muito bem”.
Para o autor, Neves
“respeita Cunhal pelos
seus ‘muitos anos de
mariazinha’ (prisão).
Sente respeito, mas
também desconfiança.
Não era ‘dos nossos’”.
Após o 25 de novembro,
mudam os sentimentos
pelos comunistas.
“Sente por eles um
‘ódio completo’.
Considera agora Cunhal
um ‘antipatriota, um
‘vendedor das colónias
aos russos’. O seu cartão
de visita é ‘Jaime Neves,
anticomunista’”.
Que balanço fez Neves do
encontro com Cunhal? —
“com quem se encontrará
uma só vez, ironicamente,
para o proteger”, revela
Azevedo Teixeira. “Se
devia ter-lhe metido um
tiro quando chegou?!
Na altura não pensei”,
confidenciou o militar ao
biógrafo. “Mas era capaz
de piorar as coisas.”
25 Abril 40 anos | 13
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O REG RESS O DO E X Í LI O
porque o Álvaro escreveu o discurso [que
leria depois à chegada] no próprio avião.”
Alheado do rebuliço, Cunhal foi cordial (e
cauteloso) para quem, fora do grupo do PCP,
o procurou. “Em dado momento, já havia
a ementa e alguém a pôs a circular, para
outros a assinarem. Eu peguei na minha e
fui ter com ele, pedindo-lhe a assinatura”,
diz Vaz. “Mas seria a primeira, ainda não
falara com mais ninguém. Cunhal disse-me:
‘Olhe, vá lá pedir mais assinaturas, para
eu não ser o primeiro. Quando tiver umas
quatro ou cinco, venha cá, que eu também
assino’. Mas não fui ter com mais ninguém,
acabando por ficar sem a assinatura dele. E
mais tarde até dei a ementa.”
SOBRESSALTO NA CHEGADA
A viagem aproximava-se do fim. Depois
do reencontro com a família e os amigos,
a festa do 1º de maio — entretanto
tornado feriado pela Junta de Salvação
Nacional, e pela primeira vez em
liberdade — ocupava já a mente de todos.
Quatro décadas depois, fazem-se
balanços dessas horas únicas na vida de
cada um dos refugiados. “Foi uma viagem
excecional, como nunca fizera”, diz
Carlos Vaz. Cília recorda um “sentimento
muito misturado, de emoção e de
alegria”. Abrantes fala de “uma coisa
muito difícil de descrever e ao mesmo
tempo de esquecer. Era a conquista da
liberdade, coisa que nunca tínhamos
vivido”. José Cavaco sacode das memórias
qualquer tensão. “Era a euforia de voltar
a Portugal”. Já Conceição Matos viveu a
“alegria maior” na véspera quando soube
que integraria o grupo de militantes do
PCP a acompanhar Cunhal. “No aeroporto
e no avião estava felicíssima, parece que ia
correr tudo às mil maravilhas, por saber
que ia voltar à nossa terra, ver a família.”
O final feliz com lágrimas não chegou,
contudo, sem um arrepio na espinha
para alguns passageiros. O episódio, que
“durou uns dois minutos, de tensão e de
silêncio”, é contado por Victor Carvalho,
70 anos. “Com o avião já parado, o
comandante pediu para Álvaro Cunhal
sair sozinho. Pensámos que poderia ser
para o deter”. Volvidos 40 anos, com a
história já escrita nos livros, pode parecer
que foi excesso de zelo dos comunistas.
Mas o contexto explica as coisas. “Quando
aterrámos, não sabíamos se a situação
estava mesmo segura. Pela janela do avião
víamos chaimites na pista e soldados
armados. Então, saímos dos nossos
lugares e metemo-nos à volta do Álvaro,
num cordão de segurança.”
Pedem a Cunhal para
sair do avião sozinho.
Os membros do PCP
pensam que é para o
prender. Fazem um
cordão de segurança
Abrantes dirá sobre aquela atmosfera:
“Quando desembarcámos, as incógnitas
ainda eram muitas. Havia uma situação
de certo modo incerta: estava derrotada
a ditadura, mas não estava derrotado o
fascismo.” Para José Dias, “havia sempre
aquela pontinha de suspeição. Poderia ser
uma maneira de isolar o Álvaro”.
O impasse foi desfeito. “Quando
anunciaram que só poderia sair o Álvaro,
ele disse: nós somos três, temos de sair
juntos. E acabámos por sair os três”, conta
Conceição, 77 anos.
Ao ouvir pelos altifalantes o pedido
para Cunhal sair sozinho, José Mário
confidencia à mulher: “Pronto, já vão
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O REGRESS O DO EXÍ LI O
SERvIçO DE InfORmaçãO E DOcumEntaçãO ana - aEROpORtOS DE pORtuGaL, Sa
NA LISTA
Do check IN
Milhares de pessoas foram
ao aeroporto. Os jornais falaram
de “uma enorme multidão arrebatada”
e de “um entusiasmo contagiante”
prender o homem. Verificámos depois
que era para lhe dar um tratamento
especial, não para o prender.”
Por essa altura, a comunicação entre
os militares encarregados de escoltar
Cunhal até Spínola e o líder do PCP era
feita através do oficial de tráfego da
TAP. Nessa tarde, o responsável pela
placa do aeroporto era José Duarte,
Segundo “O Século” de 1 de
maio de 1974, regressaram
de Paris 42 exilados.
Victor Carvalho contou
apenas um máximo de
40. Nesta reconstituição,
o Expresso identificou
37, ainda que entre eles
desconheça o paradeiro
de cinco. Pelo menos 12
pessoas já faleceram. Das
duas dezenas ainda vivas
(com a provável exceção
de um só caso, todos estão
acima dos 70 anos, e há
quem já tenha mais de 80
e até de 90), uma dúzia
aceitou ser fotografado e/
ou falar. Em certos casos,
por email e telefone,
como António Jotta, 71
anos, que vive em Paris, e
Jorge Frazão, 74 anos, que
se divide entre a capital
francesa e Madagáscar.
Ambos vieram celebrar
o 1º de maio a Portugal,
mas voltaram para França.
Frazão nem era para vir a
Lisboa: “Ia só levar os meus
sogros ao aeroporto, mas
entusiasmei-me e acabei
por comprar um bilhete.”
Francisco Mendes, 91 anos
(antes do exílio estivera
preso meia dúzia de anos
em Peniche), e Francelina,
90, os ex-sogros de Frazão,
residem também em Paris.
conhecido do grande público como
jornalista e divulgador de jazz. Ele é o
autor do programa “5 minutos de jazz”,
o mais antigo da rádio portuguesa, há
48 anos no ar. Há 40 anos, Duarte ouviu
do major Jaime Neves, destacado por
Spínola para a missão, a “ordem” para
informar o comandante do avião sobre
o estatuto VIP a conceder ao secretáriogeral dos comunistas — até à semana
anterior implacavelmente perseguidos
em Portugal.
Jaime Neves perguntou: “‘Alguém
conhece Álvaro Cunhal?’ As duas
assistentes que estavam comigo disseram
que não, eu respondi que sim”, conta
PeRDIDoS
& AchADoS
Quarenta anos depois,
há pormenores com versões
desencontradas.
Aeroporto de embarque?
Há quem jure que foi
Roissy-Charles de Gaulle
(recém-inaugurado), como
José Mário Branco, que tem
essa “ideia clara”. Outros
inclinam-se para Orly, mas
a maioria não se lembra. A
Air France tem dúvidas. “É
muito provável que fosse de
Orly”.
Boeing ou Caravelle? Maria
do Céu Cavaco e José Mário
Branco asseveram, de
forma espontânea, que foi
um Caravelle. Os restantes
pouco ligam: tinha asas e
voava, era um avião!. A Air
France esclarece: era um
Boeing B727 (e um voo de
carreira, não charter).
Quem comandou a
operação militar? Jaime
Neves é quem surge ao
lado de Cunhal. Contudo,
a segurança geral do
aeroporto estava a cargo
de Casanova Ferreira. O
funcionário da Air France
que deu as boas-vindas a
Cunhal diz que recebeu
ordens do “major Casanova,
do MFA”. Este nega: “Estava
a controlar a polícia, nada
tive a ver com Álvaro
Cunhal.”
Zé Duarte. ”Fala francês?”, prosseguiu
o militar. Ante a resposta afirmativa de
Duarte, Neves incumbiu-o de contactar a
tripulação.
Assim, na primeira imagem de Cunhal
em Lisboa, a descer a escada do avião, vê-se
José Duarte a apontar o caminho ao líder
do PCP. “Eu disse-lhe que não era do MFA,
mas que um capitão me encarregara de o
conduzir. Como funcionário da TAP, estava
ali para recebê-lo, o que fazia com honra e
alegria”, recorda o jornalista, 75 anos.
O homem dos “5 minutos de jazz”
esteve “uns cinco minutos à conversa
com Cunhal”. Lembra-se que o líder
comunista proferiu sobretudo “palavras
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O REG RESS O DO E X Í LI O
Joaquim Barradas
de Carvalho voltou
a Portugal em 1974,
vindo de Paris. Na imagem,
o historiador durante o exílio
no Brasil, com o seu grupo
de trabalho da Universidade
de São Paulo (1966 ou 1967)
mulher, Margarida Brandão
(que não pertencia ao
PCP, já falecida). Em Paris
ficaram os dois filhos do
casal (Miguel, com 13 anos,
e Joaquim, com 16). Não se
recordam de pormenores
do voo, mas Joaquim conta
episódios familiares que
envolveram o líder histórico
do PCP. “Cunhal passou
uns dias em casa dos meus
de circunstância”, mas mostrou sempre
“interesse na conversa”.
Como se sentiu Cunhal nesse momento:
eufórico, reservado, retraído, nervoso?
Responde José Duarte: “Nervoso não
estava, estava cool, mas estava tenso.
Muito atento para saber com quem
estava a falar, quem eram as pessoas que
o rodeavam, parecia-me atento a um
eventual atentado. Mas de resto pareceume brilhante e cauteloso nas respostas.”
Também a receber Cunhal esteve um
funcionário da Air France em Lisboa,
Gabriel de Sousa. Reformar-se-ia da
empresa ao fim de 47 anos, como chefe
de escala, sendo o primeiro português a
alcançar tal estatuto na transportadora
francesa. Contactado através da Air
avós paternos após a fuga
de Peniche [em 1960],
em Lisboa. O meu avô,
monárquico quando jovem,
não se opôs; limitou-se a ir
para a casa no Alentejo”.
Em 1974, Joaquim Brandão
de Carvalho recorda a
“estupefação de uma tia”,
irmã do pai, “mas de direita,
perante a moderação e o
estilo de Cunhal no discurso
no aeroporto”. Miguel tem
uma certa mágoa: “O meu
pai votaria sempre no PCP,
mesmo que já não estivesse
de acordo com nada”, diz.
“Ele entregou as terras do
Alentejo à reforma agrária, a
mando do PCP”, prossegue.
“Mas no seu funeral
estiveram mais pessoas do
PS do que do PCP. Daí o meu
azedume”.
France, Gabriel de Sousa conta que
transmitiu a Cunhal “as indicações sobre o
desembarque”, não se lembrando de “mais
detalhes”.
José Dias recorda-se de tudo e descreve
a apoteose. “A chegada foi inolvidável,
um acolhimento que não esperávamos.”
Logo num primeiro olhar, “o número
de pessoas ultrapassava em muito o dos
nossos familiares”, diz Dias. E depois de
ver todo o ajuntamento, “ultrapassava
também a esfera de militantes e de
apoiantes do PCP”.
porta estilhaçada
Domingos Abrantes reforça: “Não
contávamos com tamanha multidão.
Estivemos quase a ser esmagados, toda a
ARQUIVO “A CAPITAL/IP”
AVANTE
Entre os militantes do
PCP que acompanharam
Cunhal, havia homens
de cultura e académicos,
que a ditadura expulsara.
Como Joaquim Barradas
de Carvalho (1920-1980).
O 25 de Abril encontrou o
especialista na História das
Ideias e das Mentalidades
em Paris, após ter lecionado
nos anos 60 em São Paulo.
No AF501 veio também o
filósofo Vasco de MagalhãesVilhena (1916-1993). Em
1974 era investigador
na Sorbonne e no CNRS
(Centre National de la
Recherche Scientifique).
Celestino de Castro (19202007), arquiteto, também
voltou a Portugal no mesmo
voo. Exilado em França em
1965, foi figura destacada do
modernismo na arquitetura
portuguesa. Castro teria
papel relevante nas
construções hospitalares.
Barradas de Carvalho,
filho de um latifundiário
alentejano, de ascendência
aristocrática, entrou
para o PCP aos 17 anos
e manteve-se comunista
até ao fim da vida. Veio a
Portugal para o 1º de maio
de 74, acompanhado pela
CAPH - PROJETO MEMÓRIA DA FFCL/FFLCH- USP
INTELECTUAIS de VOLTA a casa
O filósofo Vasco
de Magalhães Vilhena,
em 1975, e o arquiteto
Celestino de Castro,
em 1996
gente queria abraçar o Cunhal, ainda
se partiu um vidro”. Com efeito, “uma
porta envidraçada estilhaçou-se por não
aguentar a força da massa humana”,
escreveu o “Jornal de Notícias” do dia
seguinte. Houve apertadas medidas de
segurança, asseguradas por militares
e um serviço de ordem do PCP, cujos
membros usavam uma braçadeira
vermelha.
“A receção tem outra característica”,
recorda Abrantes. “Foi a primeira
manifestação do PCP. Sem uma
autorização formal (e havia lá pessoas
que não eram comunistas, estavam
apenas a receber Álvaro Cunhal), e com
um certo grau de espontaneidade, mas
foi uma manifestação organizada.”
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O REGRESS O DO EXÍ LI O
Figuras cimeiras da oposição
estiveram na Portela, a saudar Cunhal.
Em representação do PS, Mário Soares,
Salgado Zenha e Tito de Morais. Pela
CDE compareceram Pereira de Moura,
Sottomayor Cardia e Luísa Amorim,
entre outros.
Cunhal responde primeiro aos
jornalistas (nacionais e estrangeiros), em
improvisada conferência de imprensa.
Fala depois no exterior do aeroporto,
em cima de uma chaimite (ladeado por
militares do Exército). Uma mise-enscène que faz lembrar a histórica chegada
de Lenine a São Petersburgo, em 1917.
Desfila depois pelas ruas de Lisboa,
antes de se avistar com Spínola, para a
primeira reunião com as autoridades
saídas da Revolução dos Cravos. São
marcos já inscritos nos anais desse dia 30
de abril de 1974. Outro momento dessa
tarde também se tornou icónico. “Cá fora
esperava-nos a minha mãe e uma série
de amigos, entre os quais Zeca Afonso,
Adriano Correia de Oliveira, Zé Jorge
Letria. Enquanto Cunhal discursava na
chaimite, cantou-se a ‘Grândola’”, recorda
Zé Mário, hoje com 73 anos. Para a
história ficaram essa imagem e esses sons,
como postais de uma nova era.
“Antes de nos separarmos”, prossegue
Zé Mário, “foi combinado um encontro de
cantores para essa mesma noite, onde seria
fundado o Coletivo de Ação Cultural, mais
tarde Grupo de Ação Cultural — Vozes na
Luta.” Ia começar uma das mais exaltantes
frentes de batalha da Revolução, em que as
cantigas fizeram as vezes das armas.
HOMENS NA CIDADE
Na chegada, nem todos ficaram logo
afogados nas emoções políticas e nos
braços de familiares e amigos. Cláudio
Torres mantinha-se dentro de uma
panela de pressão. “Continuava com
receio. Ao chegar ao aeroporto, sabia
que tinha de sair de lá depressa. Saltei
do avião logo após a saída do Cunhal.
Não fui na mesma direção, porque
estavam todos a olhar e a correr para
ele. Havia soldados por todo o lado,
com metralhadoras. Fugi para outro
lado, precisava de um buraco para
me escapulir. Não podia passar pelo
controlo, o meu passaporte era mais do
que falso. Saltei uma barreira (um militar
ainda me pediu explicações, mas depois
mandou-me seguir), vim para o exterior,
apanhei um táxi.”
Em vez da corrida para a
tranquilidade, um inesperado corrupio
estava a começar. “O taxista descobriu:
‘Ah, veio naquele avião?’Então, levou-me
a uma tasca, depois a outra, e a outra,
foi mostrar-me à mulher e aos filhos,
foi uma festa e quando cheguei a casa
Cunhal desfila pela cidade e reúne-se com
Spínola, Cláudio Torres percorre tascas
levado por um taxista, Zé Mário e José
Cavaco encantam-se com a luz de Lisboa
já não sabia onde estava”, prossegue,
entre risos. A família de Cláudio já se
encontrava em Portugal. “Não avisara
ninguém da minha chegada, porque nada
me garantia a segurança. A entrada em
Lisboa, gozar a cidade ao fim de tantos
anos, foi uma grande alegria. Mas só
me libertei verdadeiramente da tensão
quando o taxista me levou a beber uns
copos”, remata, ainda mais sorridente.
José Mário Branco haveria de cantar
mais tarde, no jeito que é só seu, o
significado desse dia: “Quando o avião aqui
chegou/ quando o mês de maio começou/
eu olhei para ti/ então entendi/ foi um
sonho mau que já passou/ foi um mau
bocado que acabou” (‘Eu vim de longe’, do
álbum “Ser Solidário”, de 1982).
A Zé Mário, as sensações do retorno,
após 11 anos de degredo, ficaram-lhe
também gravadas noutras pistas.“Fui
com o meu pai, no carro dele, ao Largo
da Misericórdia. Saímos para andar
um pouco pelas ruas. O que o mais que
me impressionou foi o sol a bater nas
esquinas das casas (a luz de Lisboa) e o
cheiro a fritos que saía das tascas.”
Ao início da tarde de 30 de abril
de 1974, segundo os registos da
meteorologia, em Lisboa o céu estava
“muito nublado”. Mas quem voltava do
exílio, no horizonte só podia mesmo
avistar uma cintilante aberta. Era
também o caso de José Cavaco. “Chego
cá e apanho um sol, o céu lindo de
Lisboa... Depois de sete anos de desterro,
foi uma coisa extraordinária.”
Num ponto, os lisboetas pareciam
mais lunares. Quem vinha da Europa
estranhava “o escuro da roupa das
pessoas”, concordam vários dos
passageiros do voo. Cavaco anui:
“Ah, completamente!” Contudo,
mostra-se pouco disposto a alumiar
agora essa face da realidade observada
há quatro décadas. “Eu estava mais
atento aos amigos, e às pessoas
que estavam a chegar, ao ar de festa
de tudo, e portanto não reparei tanto
nisso. O que estou a lembrar-me
é do sorriso da malta. Aquilo era uma
loucura. E foi um momento único”. ^
José Duarte, no
aeroporto de Lisboa,
observando a foto
em que surge ao lado
de Cunhal FOTOGRAFIA
DE NUNO BOTELHO
25 Abril 40 anos | 17
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© Arq. do Centro de doCumentAção 25 de Abril dA u. C.
© Arq. do Centro de doCumentAção 25 de Abril dA uC
“Não hei de morrer sem saber/
qual a cor da liberdade”,
escreveu Jorge de Sena, em 1956,
num misto de revolta e de esperança.
Teve de esperar 18 longos anos para
observar (do exílio nos EUA) esse
dia 25 de Abril de 1974, uma jornada
cristalina que Sophia viu com uma
luminosidade única. Nessa manhã,
foi apeada a mais velha ditadura da
Europa, 48 anos. O povo em festa
tomou conta das ruas e o cravo (no
cano das espingardas, nas mãos de
civis, em murais e cartazes, a traço
tosco ou com recorte artístico) foi
santo-e-senha da nova era. E se,
como reza a crónica, a primeira flor
empunhada por um soldado era
branca, vermelho ficaria o ícone
da revolução. Por todo o país, os
novos direitos (políticos, cívicos ou
laborais) são proclamados — nas ruas,
na TV, jornais e rádio, nas paredes
ou em cantigas que são uma arma.
A paisagem, sobretudo urbana,
do centro das cidades às cinturas
fabris, ganha tons vivos. Aqui se
revisita a iconografia desses tempos
vertiginosos, pontuada por poemas
marcantes ou letras de canções
na memória de muitos. ^ paulo paixão
© Arq. do Centro de doCumentAção 25 de Abril dA u. C.
Os novos
ventos
da liberdade
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“Esta é a madrugada
que eu esperava
O dia inicial inteiro
e limpo
Onde emergimos
da noite e do silêncio
E livres habitamos
a substância do tempo”
Sophia de Mello Breyner Andresen
“25 de Abril”
25 Abril 40 anos | 19
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25 Abril 40 anos | 20
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ANA
MARIA
CAETANO
“O meu pai era muito
mais socialista do que
são os socialistas de agora”
Entrevista
Henrique Monteiro
Joana Pereira Bastos
Manuela Goucha Soares
fotografiaS
rUI ôCHOA
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Ent r Evis ta
ANA
MARIA
CAETANO
Ana Maria Caetano,
durante a entrevista
ao Expresso, na sua casa
de Belas. Nas páginas
anteriores, junto
a um retrato do pai
da autoria de Maluda
A
mais nova dos quatro filhos de Marcello Caetano, o
último presidente do Conselho da ditadura, nunca
saiu de Portugal depois da Revolução dos Cravos. Aos
77 anos, está reformada da Função Pública, mas
continua a trabalhar no colégio de que é sócia, (também)
frequentado por alunos do ensino especial. Terapeuta da fala de
formação, muito ligada à psicanálise, Ana Maria Caetano é uma
mulher que se interroga e desconstrói verdades adquiridas. Diz
que o pai lhe faz muita falta, porque era um companheiro com
quem podia falar de tudo.
Como é que viveu o período que
antecedeu o 25 de Abril de 1974?
Estive sempre a trabalhar durante o
tempo em que o meu pai foi presidente do
Conselho. Trabalhava num serviço de
Estado onde o próprio diretor, o João dos
Santos [médico psicanalista e pedagogo],
era um homem de esquerda. Era um
homem excecional. Foi a primeira pessoa
que me telefonou no dia 25 de Abril... e,
quero acreditar, que me convidou para
trabalhar no Centro de Saúde Mental
Infantil e Juvenil de Lisboa por gostar do
meu trabalho. O mais curioso é que a
maior parte das pessoas que trabalhavam
com o João dos Santos eram de
esquerda... Eu achei tudo natural, tinha
tido uma vida com muito tempo dentro de
casa, era pouco politizada.
Pouco politizada como?
Era... Eu sei que era neta do meu avô [o
avô materno, João de Barros, foi
ministro da I República e opositor do
Estado Novo] e filha do meu pai, mas
nunca tinha tomado grandes partidos.
Quando fui trabalhar com o João dos
Santos, ele disse-me: “Ninguém tem de
saber de quem é filha.” E a verdade é
que houve pessoas que ao fim de não sei
quantos anos [no 25 de Abril] vieram ter
comigo e me disseram: “Eu não sabia de
quem tu eras filha.”
Isso significa que gostou de trabalhar
na equipa do João dos Santos?
As pessoas eram amáveis comigo, eu
fazia o meu trabalho. Conseguiu-se
conservar essa parte não política. As
pessoas falavam, havia um
descontentamento geral no salões dos
bons burgueses, ninguém gostava de ter
uma ditadura, mas havia uma espécie de
namoro entre a esquerda e a direita.
Então sabia que havia
descontentamento?
Toda a gente queria uma mudança, eu
sabia disso. Percebi a certa altura que os
grandes empresários queriam ter
monopólios e que o meu pai não lhos
queria conceder... Não estavam bem [com
a situação]. Houve um encontro entre o
meu pai e um desses empresários
proporcionado por mim e pela filha dele.
Quem era esse empresário?
Acha que eu tenho de dizer? As filhas
estão vivas.
Nós queríamos que dissesse...
Era o António Champalimaud, e foi pouco
tempo antes do 25 de Abril. Quando o
meu pai chegou a casa, perguntei-lhe se
tinha corrido bem, e ele disse que não.
Ainda lhe perguntei se ele tinha ideia do
que significava ter um empresário daquela
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Ent rEvi s ta
dimensão contra o Governo, e ele
respondeu que tinha.
Isso significa que o seu pai estava ciente
do descontentamento?
Sim. Pouco depois houve o Golpe das
Caldas... [Nessa noite] ouvi um telefonema,
ouvi o meu pai sair, e só pensava que
precisava de dormir porque na manhã
seguinte tinha de ir trabalhar. No dia
seguinte [17 de março de 1974] fui
trabalhar e quando regressei encontrei-o
em casa a uma hora que não era habitual.
Perguntei-lhe o que tinha acontecido, e ele
respondeu que ia havendo uma revolução,
mas que tinha falhado. Perguntei-lhe o que
poderia ter acontecido, e ele disse-me que
se o golpe não tivesse falhado poderia ter
sido morto ou ido para o exílio. Ainda lhe
perguntei como é que eu saberia disso, e
ele respondeu-me: “Pelos órgãos de
informação!”
O que fez o seu pai depois do Golpe das
Caldas?
O meu pai colocou o lugar à disposição do
Presidente da República [Américo Tomás]
por duas vezes. Depois de o livro [do
Spínola] “Portugal e o Futuro” ter saído, o
meu pai chamou o Spínola e o Costa Gomes
lá a casa, para eles tomarem conta do
Governo. Depois dessa conversa foi uns
dias para o Buçaco, para onde gostava de ir
para lhes dar tempo de assumirem [o
Governo]. O Tomás não quis aceitar a
demissão dele.
barulho, e eu só pensava que precisava de
dormir para ir trabalhar no dia seguinte.
O seu pai tinha algum plano para o caso
de haver mesmo uma revolução?
Não havia plano. Na noite de 24 para 25
de Abril atendi um telefonema por volta
das 3 horas. Era alguém, não me lembro
quem, que me pediu para o chamar. Não o
encontrei, ele deve ter saído por volta da
meia-noite, porque nessa altura ouvi
No Quartel do Carmo ficou claro o
apreço que o seu pai tinha pela
formalidade. A preocupação formal de
que o poder não caísse na rua...
O meu pai era um legalista.
Esteve em contacto com ele?
Ele só telefonou do Carmo às 3 horas da
tarde [de dia 25].
Teve medo?
Não. Só sei o que as coisas são depois de as
viver.
Não sofre de ansiedade?
Não é bem isso. Não prevejo.
Acha que ele foi surpreendido pela
adesão popular ao 25 de Abril?
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Ele tinha a perceção do que poderia
acontecer. Tinha curiosidade sobre o
comportamento das massas. Tinha
andado a ler um livro sobre isso pouco
tempo antes.
Recuando no tempo, quando o seu pai
tomou posse, houve uma ideia de que
com ele isto ia mudar...
O meu pai era a continuação do Salazar.
Mas era um homem mais novo, casado,
sempre em contacto com os alunos na
universidade... Queria muito poder
corresponder aos anseios desses jovens...
Lembro-me de ter ido a um cabeleireiro
onde estavam a dizer imenso mal dele,
porque isto estava num esquerdismo
terrível. E eu fiquei surpreendida de
ouvir dizer tanto mal, porque estava
habituada a ouvir dizer bem do meu pai.
Mas essas pessoas eram muito à direita e
não queriam responder à abertura.
Acha que o seu pai nunca foi em
Portugal aquilo que foi em Espanha o
Adolfo Suárez?
O meu pai não era democrata. Queria um
chefe, queria alguém que mandasse,
queria um escol formado pelas
universidades. No fundo, [queria] um
pai... Era paternalista.
Acha que a guerra colonial foi a
principal preocupação do seu pai
desde a tomada de posse? Ou a
principal preocupação foi a melhoria
das condições de vida e as reformas
sociais que fez?
Eu acho que ele era muito mais
socialista do que são os socialistas de
agora. Tinha um pensamento sobre o
Estado social. O Veiga Simão fez uma
reforma muito boa da educação, o
Silva Pinto na área social... Ainda se
fez muita coisa. O meu pai era um
homem que tinha mais preocupações
sociais do que as que eu vejo agora.
Hoje em dia, ninguém pensa no povo,
as pessoas pensam em si próprias,
cada maioria acaba por ser uma
ditadurazinha. Claro que há mais
liberdades... mas para mim liberdade é
a nossa liberdade de pensamento e a
liberdade de escolha.
O seu pai, quando tomou posse como
presidente do Conselho, escreveu ao
ministro do Interior pedindo-lhe para
humanizar o tratamento dado aos
presos políticos. Mas a verdade é que
no final do regime a repressão
aumentou muito. Ele deixou de ter
mão na PIDE no fim do regime?
Após a Primavera [Marcelista], o regime
começou a ser posto em causa por todos
os lados. A direita era mais por estilo, era
bonito dizer mal. [Do lado da esquerda]
nós tínhamos amigos e familiares que
estavam constantemente na prisão.
Saíam de lá e vinham-nos contar.
Essas pessoas tiveram algum
tratamento de favor?
Não. Mas essas pessoas contaram aos meus
irmãos que no início ninguém lhes tocou...
Depois houve uma altura em que correu
pior. O meu pai ia sabendo como é que o
PCP se estava a infiltrar... A Zita Seabra
conta que por ter havido uma abertura eles
infiltravam-se melhor. Por exemplo, os
comunistas não podiam trabalhar no
Estado, tinham de assinar um papel a dizer
24 | 25 Abril 40 anos
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Ent rEvi s ta
que eram anticomunistas, mas no meu
serviço havia comunistas.
A Ana Maria sabia?
Sabia que eram de esquerda, não sabia
que eram comunistas.
E no caso do Pedro Ramos de Almeida
[ex-dirigente do PCP], grande amigo
do seu irmão José Maria?
Sabia. Nós tínhamos um primo direito,
Tomás de Figueiredo, que viveu quase
sempre na prisão até 1974. Tinha feito
catequese com a minha mãe. A minha
mãe [nas suas aulas de catequese] formou
vários comunistas.
Como eram as relações do seu pai com
a PIDE?
Eram através do ministro [do Interior].
Não sei se tinha relações com o major
Silva Pais. Não sei, não faço ideia. Ele
soube desse aumento de autoridade e
deu ordens para que não fosse assim.
Está a dizer que a tortura era aplicada
sem o conhecimento do seu pai?
Sim, não iam telefonar a dizer o que iam
fazer. Mas é como as histórias da guerra:
ponha poder na mão de um homem e vai
ver o que é que ele faz... E eles [PIDE]
tinham poder. Quem mandava na PIDE era
o Silva Pais. Acho que o meu pai também
estava um bocado nas mãos deles.
O que quer dizer com isso?
Basta a história da ida para o Quartel do
Carmo, um sítio de onde não se podia
sair. Nós tínhamos sempre segurança à
porta de casa, e no dia 25 de Abril não
sabiam de nada. Fui eu que os mandei
embora. A multidão não avançou sobre a
nossa casa, mas podia ter avançado.
Mas avançou sobre o Carmo, e o seu
pai estava lá dentro. Exigiu que o
poder fosse passado para o general
Spínola, que foi até lá para assegurar
essa passagem. Houve um
comportamento diferente em relação
ao almirante Tomás e ao seu pai...
Não sabiam do almirante Américo Tomás.
Depois encontraram-no em casa, porque
ele ficou em casa. O meu pai saiu do Carmo
num Chaimite, protegido da multidão, caso
contrário davam cabo dele. Ainda esteve
preso na Pontinha e depois foi para a
Madeira. Telefonaram-nos a dizer para lhe
arranjarmos uma mala para ele levar para
a Madeira. O meu irmão João foi levar a
mala ao aeroporto, encontrou um militar
µ
Continuei a trabalhar
depois do 25 de Abril.
Talvez por estar
numa equipa de
esquerda, nunca tive
problemas. Perguntei
ao meu diretor se
devia ir aos plenários.
Ele questionou-me se
eu alguma vez tivera
benesses por causa
do meu pai. Disse que
não — e ele disse que
iria continuar a não
ter. E foi assim que
acabei nos plenários
da revolução que conhecia e acabou a
jantar com os militares da revolução.
Foi vê-lo à Madeira? Como foi a ida da
Madeira para o Brasil?
Fui. Ele esteve lá quase um mês. Um dos
membros da Junta de Salvação Nacional
era o Galvão de Melo, que era cunhado
do Correia de Campos, que tinha sido
secretário do meu pai. As conversações
começaram para que o meu pai ficasse na
Madeira ou fosse para o Brasil. Ainda
houve amigos em Espanha, como o
López Rodó, que lhe perguntaram se
queria ir para Espanha, mas ele preferiu
o Brasil. Foi para São Paulo [20 de maio],
ficou lá uns dias, e daí foi para o Mosteiro
de São Bento, no Rio de Janeiro.
Foi uma espécie de penitência ou era
crente?
Ser ou não crente não acrescenta nada às
pessoas. Os valores é que são
importantes. Ele foi para lá porque
precisava de tranquilidade, de descanso
espiritual. Tinha havido uma revolução,
ele tinha ido para o exílio...
Ele queixava-se do exílio?
A mim não, que eu não permitia. Quando
fui visitá-lo ao Brasil, na altura dos anos
dele, em agosto, os amigos de lá, o
[Pedro] Calmón e outros, perguntaram se
eu ia ficar lá. E o meu pai respondia-lhes:
“Não, que ela está com muita pressa de
viver a democracia.” Obviamente que não
me iria fazer queixas, até porque eu lhe
tinha dito que não tinha de sofrer a
escolha política dele. A escolha dele era
dele, não era minha.
Ficou em Portugal durante o PREC
[Processo Revolucionário em Curso]?
Não teve medo?
Fiquei. Não tive medo, só tenho histórias
fantásticas para contar. Fui abordada por
muitas pessoas que me diziam que
gostavam muito do meu pai. Não percebo
porquê, mas nunca tive nenhum episódio
de hostilidade, e tinha curiosidade de
viver [o que estava a acontecer].
Mas a Ana Maria era conhecida, foi um
rosto do mandato do seu pai.
Acompanhou-o publicamente em atos
de representação, a sua imagem está
ligada a uma certa renovação da
Primavera Marcelista, quando
começou a aparecer uma mulher
bonita e jovem ao lado do presidente
do Conselho. Isso foi um arejo na
imagem do regime...
Eu continuei a trabalhar [depois do 25 de
Abril]. Não sei se por estar numa equipa
de esquerda, muito psicanalisada, em que
as pessoas se interrogavam porque é que
se exclui uma pessoa, nunca tive
problemas. Quando voltei da Madeira,
havia plenários no meu serviço. Fui ter
com o meu diretor e perguntei-lhe o que é
que fazia, se devia ir aos plenários. O João
dos Santos respondeu perguntando-me se
eu alguma vez tinha tido benesses antes
do 25 de Abril por causa do meu pai.
Como não tinha tido, ele disse que iria
continuar a não ter, e foi assim que acabei
nos plenários, onde se falava do fascismo,
da ditadura, mas nunca se falou de
Marcello Caetano. No fim, quem acabou a
ser posto em causa foi o diretor do
serviço... apesar de ser um homem de
esquerda. Foi duro ver a tristeza do João
dos Santos.
Voltando à imagem pública, foi um
peso para si começar a acompanhar o
seu pai aos 31 anos, numa função de
representação, por causa de a sua mãe
estar doente?
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Ent r Evis ta
Eu gostei que houvesse um Parlamento e
partidos políticos e que exista discussão
política, desde que seja séria.
Combinei com o meu pai que eu tinha a
minha vida e ele tinha a dele e que por
isso o acompanharia o menos possível.
Mas foi uma opção que fiz, como fiz a
escolha de ficar com a minha mãe. Foi
uma escolha, e a verdade é que quando
acompanhava o meu pai num banquete à
noite ninguém me falava nesse assunto
no serviço [no dia seguinte].
Costumava falar de política com ele?
Falávamos de tudo. Não tínhamos
discussões ideológicas, porque fomos
habituados a ver o meu avô João de
Barros e o meu pai a terem uma
convivência fora de série. Eu tinha umas
ideias mais no ar, e o meu pai gostava de
ideias muito fundamentadas. Por isso
arrumava-me sempre. A história da
guerra de África vinha sempre à tona. Eu
fui madrinha de guerra de muitos amigos
e ia sabendo coisas. Não morreu nenhum
deles, mas tiveram mortes de soldados
por acidentes [nos pelotões deles].
O seu pai acreditava que a guerra
colonial podia ser ganha?
Ele pensava que podia ganhar aquilo
politicamente. Mas não havia tempo para
o que ele queria, os novos Brasis. Sofria
imenso com uma solução para África.
Não queria a guerra. Mas nós estávamos
a lutar contra os americanos e contra o
Partido Comunista. África tinha as suas
riquezas.
Como é que ele viveu no exílio, e à
distância, o desenrolar dos
acontecimentos? Foi acompanhando?
O meu pai e eu escrevíamo-nos todas as
semanas. Eu descrevi-lhe o PREC todo,
mas com um certo humor, com que nos
defendíamos. Mas ele também tinha
curiosidade de saber como estava a
funcionar a democracia.
O seu pai mostrava algum
arrependimento nas cartas que lhe
escrevia?
Não era arrependimento. Era uma
enorme angústia de saber onde teria
errado tanto, de saber como é que
poderia ter feito melhor. Isso é uma
dúvida que lhe ficou, aliás escreveu logo
o “Depoimento”. Mas ele nunca se
revoltou contra o povo. No exílio,
recebeu cartas de pessoas de norte a sul
do país que não o conheciam.
Na sua opinião, qual foi o maior
sucesso do 25 de Abril?
Qual foi o maior falhanço?
A crise económica não foi por causa do
25 de Abril. Aconteceu na Europa,
aconteceu na América. O maior falhanço
para mim foi a Assembleia... Eu, às vezes,
não gosto da maneira como são os
debates. Todos falam uma linguagem tão
própria, as ideias entrecruzam-se tão
pouco, é uma espécie de cassete.
Acha que a democracia não soube
produzir elites?
Acho.
µ
O meu pai não levava
a mulher e os filhos
a visitar Salazar,
como muita gente
fazia. Lembro-me
de que o Adriano
Moreira lhe foi
apresentar a noiva.
A minha mãe nunca
foi passar uma tarde
com Salazar, mas
havia um grupo
de senhoras que ia
Tem exercido sempre o seu direito de
voto?
Tenho. Mas não voto sempre nos mesmos,
voto por um programa de que goste. Já
votei extrema-esquerda, já votei Bloco de
Esquerda, porque estava contra os outros.
No Partido Comunista nunca votei.
Elegeu os Presidentes da República?
Nos últimos Presidentes votei em branco,
porque não sabia o que eles iam ser como
Presidentes.
Mas elegeu algum Presidente depois
do 25 de Abril?
O Eanes. Gostei dele, é um homem sério,
e vi o Eanes ali em cima do carro [na
campanha eleitoral de 1976, em Évora].
Como vê o país no momento atual?
Sinto que os governantes se governam a
si próprios. Hoje em dia há uma
corrupção que não existia antes. Não vejo
ideais em ninguém. É por isso que
admiro o Cunhal, nunca quis ter uma
casa nem viver burguesmente.
O seu pai admirava Salazar?
Era muito crítico, mas admirava-o.
Tinham uma relação próxima?
Não. Não eram amigos nesse sentido. O
Salazar achava que o meu pai era um
incómodo.
Conheceu Salazar?
Não. O meu pai não levava a mulher e os
filhos a visitar Salazar, como muita gente
fazia. Lembro-me de que o Adriano
Moreira lhe foi apresentar a noiva. A
minha mãe nunca foi passar uma tarde
com Salazar, mas havia um grupo de
senhoras que ia. ^
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Foram
&
voltaram
DepoimentoS recolhiDoS e eScritoS por
AlexAndrA SimõeS de Abreu
Dez figuras, dez histórias, em trajetos cruzados.
Uns saíram para o exílio forçado e regressaram
a Portugal após a revolução; outros deixaram o país já
em democracia, desiludidos com o estado das coisas e só
voltaram quando os ânimos acalmaram. Uns foram presos
(mas torturados só na ditadura). Eis o testemunho das
suas vivências — antes, durante e depois do 25 de Abril.
25 Abril 40 anos | 27
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FO RA M & VOltA RA M
Júlio Pomar
NAQUELA ALTURA
ERA QUASE INSTINTIVO
SER COMUNISTA
Esteve preso quatro meses. Fez o retrato dos
companheiros de cela. Mas quando se deu a revolução
estava já afastado da atividade política, dedicando-se
muito mais à vida artística e cultural, que vivia
intensamente, em Paris, onde estava desde 1963.
Hoje, diz que olha com outros olhos para um tempo
em que não percebia quem não era do PCP
87 anos
Pintor
N
asci num meio
de tendência
republicana, já
de esquerda.
Entrei para o Partido
Comunista Português (PCP)
não tinha 20 anos sequer.
Quem me levou foi o
Guilherme de Carvalho, um
militante de uma família
burguesa do Porto que
entrou na clandestinidade
muito cedo e que acabou
por morrer em Peniche.
Naquela altura era quase
instintivo ser do PCP, nem
percebia como é que não
se era do PCP. A guerra
ainda estava em todo o
seu esplendor, havia o
fenómeno das resistências
que era, evidentemente,
posto em grande foco.
Não é por acaso que pinto
um quadro chamado
“Resistência”.
Mas a minha ação não era
só feita através da pintura.
Eu era militante ativo.
Tinha reuniões de carácter
político, primeiro no
quadro do PCP e depois
no quadro do Movimento
de Unidade Democrática
(MUD) juvenil, que era
a tentativa de uma
organização legal.
Participei em muitas
reuniões clandestinas,
com todo o seu rigor e
o seu teatro. Para que
tudo fosse dificilmente
registado, cada pessoa
tinha um nome de guerra.
Tive vários. Cheguei a ter
o apelido Marques. Álvaro
Cunhal foi sempre Duarte.
Os olhos com que olhamos
hoje são completamente
diferentes dos daquela
altura, em que se vivia
um clima com censura,
em que os livros eram
peneirados e a informação
mais condicionada. A
pintura forçosamente
romantizada…
Fui preso na qualidade
de membro da comissão
central do MUD juvenil,
da qual fazia parte Mário
Soares. O motivo invocado
da prisão, do julgamento
e das condenações foi a
28 | 25 Abril 40 anos
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Júlio Pomar à porta do seu
ateliê-museu, em Lisboa
FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA
divulgação de notícias
falsas ou tendenciosas. Era
sempre a mesma coisa.
Dos membros da comissão
fui o último a ser preso.
Estava em viagem pelo país,
para entrar em contacto
com todas as comissões.
Fui detido no decurso
dessa viagem, em Évora.
Estive preso quatro meses.
Como já era conhecido a
polícia caprichou em ter
um comportamento não
criticável.
Éramos mais de 20 numa
cela. Fazíamos cursos, como
jovens empreendedores.
Eu fazia um de iniciação
µ
Em Paris, em 1963, sentia que uma atividade
política pura e dura estava longe de me encher
as medidas. Não sou um animal político
às artes plásticas. Íamos
ensinando uns aos outros
o que sabíamos. Fiz os
retratos da maior parte dos
meus companheiros de cela
e ofereci-lhos. Quando saí,
era para acabar de pintar os
frescos que tinha iniciado
no Cine-Teatro Batalha, no
Porto, mas, entretanto, o
governo mandou apagá-los.
Vou viver para Paris em
1963, numa altura em que
os quadrecos que pintava já
davam para a renda da casa.
Diminui a minha atividade
política e aumenta a
cultural e artística. Fui-me
afastando aos poucos do
partido. Estava mais focado
no meu trabalho. Sentia
que uma atividade política
pura e dura estava longe de
me encher as medidas. Não
sou um animal político.
Por pura coincidência,
vivi cá o dia 25 de Abril
de 1974. Tinha comprado
um apartamento em
Miraflores, um bairro ainda
em construção, e estava
de partida para Paris.
Por acaso liguei para um
amigo, o Manuel Torres, e
ele deu-me a notícia. Andei
a festejar nesse dia e nos
seguintes. Fiquei cá um
mês.
A altura do PREC foi
passada quase toda em Paris.
No verão quente vim cá
várias vezes. Via-se o país a
mudar e a querer acontecer.
Todo o processo que não
se tinha dado, a dar-se. A
minha ideia é que havia
uma grande imaturidade e
incapacidade de enfrentar a
situação tal como ela estava.
Havia o recurso a clichés.
Não via com bons olhos.
O otimismo seria mais um
querer ser otimista do que
uma constatação de. Não
fui exilado. Saí porque quis,
quando quis e regressei
quando quis. ^
25 Abril 40 anos | 29
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FO RA M & VOltA RA M
JOSÉ MIGUEL JÚDICE
DOU POR BEM EMPREGUE
O tEMPO QUE EStIVE PRESO
Festejou o 25 de Abril com um cálice de Porto, mas
defendia que Portugal se chamasse Lusitânia e que
a capital fosse transferida para Luanda. Foi detido
a 28 de setembro de 1974 e foi na cadeia de Caxias
que conheceu o homem que lhe abriu a porta
do escritório onde ainda hoje exerce advocacia
64 anos
Advogado
E
m abril de 1974
era assistente
universitário e
dava aulas de
ciência política e direito
constitucional no primeiro
ano da faculdade de direito,
em Coimbra. No dia 25 fui
acordado às 8h da manhã
por um amigo, Vieira de
Andrade, que apareceu em
minha casa com a mulher.
Disse-me que tinha havido
uma revolução durante
a noite. Abrimos uma
garrafa de vinho do Porto
e fizemos um brinde ao fim
do regime. Nessa altura não
fazíamos a mais pálida ideia
do que se tinha passado,
mas tínhamos uma certa
esperança de que o
general Spínola estivesse
envolvido. Sentimos que
acabava uma coisa em
relação à qual éramos
brutalmente contra.
Achávamos que Portugal
era um país colonialista
e éramos contra o statu
quo. Considerávamos,
também, que o regime dava
um poder desmesurado
aos patrões e que não
podia haver justiça social
se a banca fosse privada.
E defendíamos a reforma
agrária. A terra devia ser
trabalhada por quem a
tratava. Hoje não acho
isso sensato, mas na altura
tinha 24 anos.
Fui político profissional
durante algum tempo,
tentando lutar por aquilo
que me parecia ser a
solução mais adequada
para o país. E que passava
por criar um Portugal não
colonial em que a capital
fosse para Luanda e em
que cada um dos territórios
devia ter o mesmo
estatuto. Defendíamos
que passássemos a ter o
nome de Lusitânia. Era uma
visão muito baseada no
pensamento de Norton de
Matos, e também nas ideias
que Spínola defendia em
“Portugal e o Futuro”. Por
isso fizemos o Movimento
Federalista Português,
que procurou ter pessoas
ligadas aos mais variados
sectores.
Fui preso a 28 de
setembro de 1974. Estive em
Caxias três meses e meio.
Numa cela onde deviam
estar sete, estávamos 14.
Ao fim de 40 dias pude
receber visitas da família
e contactar um advogado.
Dou por bem empregue
os três meses e meio que
estive preso. Foi uma
grande lição de vida.
Quando fui bastonário
da Ordem dos Advogados
fiz a primeira homenagem,
e última, aos advogados
que defenderam presos
políticos antes e depois do
25 de Abril. É intolerável
ter havido presos políticos,
antes e depois.
Voltei a ser preso, por
um dia, a seguir ao 11 de
março e aí já senti que
a atmosfera era muito
diferente. Disseram-me
que eu já não saía e que
se houvesse outro golpe
semelhante iam às nossas
celas e fuzilavam-nos.
Em agosto de 1975 fui
sumariamente demitido
da função pública sem
poder defender-me. Deixei
30 | 25 Abril 40 anos
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FO RAM & VO lTAR AM
µ
Fui sumariamente demitido
da função pública em 1975.
Deixei de ter ordenado,
do qual vivia. Tinha dois filhos
e decidi ir embora
José Miguel Júdice regressou
a Portugal no início
de 1976. Ao chegar à fronteira
meteu-se na bagageira
do carro, para entrar
como saiu... incógnito
FOTOGRAFIA DE TIAGO MIRANDA
de ter ordenado, do qual
vivia. Tinha dois filhos e
decidi ir embora. Sai em
setembro. Primeiro fui
sozinho. Aparentemente
não havia nada contra
mim, nem sequer tinha
termo de identidade e
residência, mas temia que
o meu nome estivesse na
fronteira. Nessa altura
a revolução estava a
acelerar brutalmente. Não
quis correr riscos. Fui ter
com um contrabandista.
Passámos a pé, numa
zona sem ninguém. E se
alguém nos visse dizíamos
que íamos comprar
chocolates ou caramelos!
Tencionava ir para o Brasil.
Mas quando cheguei a
Madrid, estava lá muita
gente a tentar mudar o
estado das coisas e resolvi
ficar e dar uma ajuda. Vivi
três meses numa casa de
freiras, num quarto com a
minha mulher e os meus
dois filhos. Nessa altura
fazia parte do gabinete
técnico-político do
Movimento Democrático
de Libertação de Portugal
(MDLP), fazia análise
política e um programa
do governo, caso algum
dia o MDLP chegasse a
Portugal.
Com o 25 de novembro,
a minha família veio logo
mas eu ainda estive um
mês a ver como paravam
as modas. Regressei
em janeiro de 76, de
carro. Quando cheguei
à fronteira meti-me na
bagageira. Comecei a
tentar arranjar emprego
e devo a minha vida a ter
sido preso, porque foi
na cadeia que conheci
António Maria Pereira, que
me convida a entrar para
o escritório de advogados,
onde ainda estou. ^
25 Abril 40 anos | 31
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FO RA M & VOltA RA M
ANTÓNIO BARRETO
ERA MAIS RADICAL DO QUE
O pCp NA REVOLUÇÃO MAS
MAIS LIBERAL NA CONVERSÃO
Viveu 12 anos na Suíça, fugido à tropa, obcecado com a
ideia de voltar a Portugal e fazer política. Ficou conhecido
como o ministro que travou a reforma agrária, mas
acabou por dedicar-se à vida académica. Do 25 de Abril,
o melhor foi a liberdade, a saúde e o lugar das mulheres
na sociedade. O pior, a total incapacidade de o país se
governar e de haver discussões racionais entre adversários
71 anos
Sociólogo
E
stava em viagem,
num comboio,
algures entre
Colónia e
Amesterdão, na madrugada
de 25 de Abril de 1974. Só
soube que tinha acontecido
algo no dia seguinte, ao
passar por uma televisão no
hotel onde fiquei instalado.
De repente vejo imagens
de soldados que me fazem
lembrar Portugal. Fiquei
excitado. Pedi para me
traduzirem pequenas
notícias dos jornais, mas só
tive dados mais concretos
quando fui ter com o meu
irmão Paulo, que vivia a
poucos quilómetros de
Amesterdão. Fizemos vários
telefonemas. Fui a Paris,
onde já se organizavam
camionetas de portugueses
que queriam ir para ou a
Portugal. E quando voltei a
Genebra, onde vivia exilado
há 12 anos, os meus amigos
encontravam-se divididos e
especulavam. Era um golpe
de esquerda ou de direita?
Era Kaúlza ou Spínola?
Fiquei quase convencido
de que não era a direita.
Por intuição. Uma coisa de
direita, à séria, fazia-se em
meia hora e estava feito.
E de hora a hora havia um
acontecimento novo.
Só consigo vir a Portugal
em meados de maio. Nessa
altura tenho sentimentos
misturados. Um enorme
entusiasmo, alguma
perplexidade e ao mesmo
tempo familiaridade. Saía
de casa e alguma coisa
acontecia, individual,
coletiva, boa ou má. Estive
15 dias em Portugal. Dois
ou três dias em Lisboa a
tentar resolver a questão
militar — eu era refratário
— e a do passaporte.
Depois rumei ao Porto, para
ver os meus pais. Entre o
Porto, Vila Real e Régua
passo cinco dias de puras
emoções. Conheci gente
da família que nunca tinha
visto. A PIDE tinha ficado
com correspondência
entre mim e os meus pais,
onde havia fotos dos novos
familiares.
32 | 25 Abril 40 anos
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FO RAM & VO LTAR AM
A minha primeira
experiência política pós-25
de Abril aconteceu logo na
noite em que cheguei e foi
muito esclarecedora. Fui a
uma reunião do Movimento
de Esquerda Socialista
(MES) onde se discutia a ida
para Nova Iorque de Jorge
Sampaio como embaixador
de Portugal na ONU. O
objetivo de Mário Soares
era que Sampaio tratasse
da descolonização. Sampaio
impôs como condição levar
uma equipa composta por
José Medeiros Ferreira,
João Cravinho, Manuel de
Lucena e eu. Mas 99% dos
presentes naquela reunião
estavam contra e diziam
que Sampaio não devia
servir a burguesia. Ele
decidiu que não ia.
Na minha cabeça havia
uma pergunta constante:
volto ou não volto de vez?
Toda a gente queria a
democracia, até os bons
burgueses de classe média
alta. Percebi que tinha um
país ‘novo’ à minha frente.
Quando entro no avião
para regressar a Genebra,
sento-me, fecho os olhos e,
emocionado, disse em voz
alta: “Pronto. Já está. Vou
voltar.”
Entretanto, resolvi
passar uns dias de férias
na Grécia. No dia da minha
partida, os voos tinham
sido cancelados, por causa
de um golpe de Estado.
Furioso, meti-me num
comboio para o sul de Itália
e lá consegui boleia num
cargueiro, que ia para a
Grécia. O barco ficou retido
um dia e meio à frente do
Pireu, até que de repente
há uma enorme algazarra
na tripulação e grita-se:
“Podemos atracar, vai ser
instaurada a democracia.”
Tive o meu 25 de Abril em
Atenas!
Voltei definitivamente a
Portugal, em agosto, com a
certeza de que ia lutar pela
democracia civil e não por
António Barreto,
no Terreiro do Paço,
à porta do então
Ministério do Comércio
e Turismo, primeira
pasta que assumiu
no Governo
FOTOGRAFIA DE ALBERTO FRIAS
uma grande revolução de
esquerda. Tinha entrado
para o Partido Comunista
Português (PCP) em 63 e
saí em 69. Eu era muito
mais radical na revolução,
do que o PCP, mas muito
mais democrata e liberal na
conversão.
Em janeiro de 1975
inscrevo-me no PS. Em
setembro fui nomeado
secretário de Estado do
Comércio Externo, do VI
Governo Provisório. No I
Governo Constitucional
fui ministro do Comércio
e do Turismo, cargo que
acumulei, em outubro
de 1976, com a pasta da
Agricultura e Pescas. Dois
anos depois desentendime com o PS e com Mário
Soares, por causa do que
fizeram comigo e com a
reforma agrária. Voltei a
aderir ao PS em 86 e fui
eleito deputado no ano
seguinte. Abandonei a vida
partidária e política em 1991.
Mas, quando saí a primeira
vez, em 1978, devia ter saído
mesmo. Na política nunca se
deve ficar com um pé dentro
e outro fora. Devia ter ficado
fora. Ter feito gestos em que
não fui claro foram erros
que me perseguiram a vida
inteira. ^
µ
Em maio de 1975, na minha
cabeça havia uma pergunta
constante: volto ou não volto
de vez? Percebi que tinha um país
novo à minha frente. Quando
entro no avião para Genebra,
sento-me, fecho os olhos e,
emocionado, disse em voz alta:
pronto. Já está. Vou voltar
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FO RA M & VOltA RA M
JARDIM GONÇALVES
eRA MeLHOR QUe NÃO
TIVeSSe SIDO NeCeSSÁRIA
UMA ReVOLUÇÃO
O engenheiro que se tornou banqueiro saiu do país,
com autorização, para Madrid, e foi lá que aderiu
à Opus Dei. Regressou a Portugal, em 1977, para
integrar o conselho de gestão do Banco Português
do Atlântico, mas só depois de ver o seu nome
publicado em “Diário da República”
78 anos
Banqueiro
F
ui engenheiro
durante dez anos.
Três na área da
engenharia militar
e sete ligado aos portos,
hidráulica e obras. Em 1970,
fui convidado a integrar o
Banco da Agricultura, cujos
acionistas eram grandes
proprietários do Alentejo e
o Banco Popular Espanhol.
Não tinha formação nem
experiência nenhuma em
economia. Deixei o Porto
rumo a Lisboa para saber
como é que um banco
funciona. Nessa altura já
tinha quatro dos meus
cinco filhos. Fiz de tudo
em estágio. Balcão, caixa,
análise de risco, área de
estrangeiros, etc. Em
1975, quando a Banca é
nacionalizada, eu já era
administrador.
No dia 25 de Abril ouvi as
notícias na rádio, saí de casa
e fui para o banco, como
habitualmente. Já tinha
havido o 16 de março... Eu
acompanhava tudo aquilo
que se ia passando, mas não
tinha nenhuma atividade
política. Nunca estive em
nenhum partido, nem tive
problemas com algum
deles. Nem com o PCP.
A revolução começou
por ser um tema
corporativo, os militares
não aceitaram bem certas
decisões do governo e
depois, efetivamente, os
tempos não estavam para
a manutenção daquele
regime e ele cairia de uma
maneira ou de outra. Era
melhor que não tivesse sido
necessária uma revolução
como a do 25 de Abril, era
melhor que o regime, ele
próprio, tivesse feito a sua
renovação, mas é muito
difícil isso acontecer.
Saio do país em
1975, porque o banco
é nacionalizado. São
nomeadas comissões
administrativas, mas os
até aí administradores
dos bancos deviam estar
disponíveis durante três
meses para explicar
operações. Decidi ficar.
No entanto, percebi que
à banca não voltaria e
procurei regressar a
empresas de engenharia.
Fiz contactos, tive ofertas
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FO RAM & VO LTAR AM
Jorge Jardim Gonçalves,
no seu gabinete
FOTOGRAFIA DE ALBERTO FRIAS
de emprego, mas todas elas
não se concretizaram. As
comissões de trabalhadores
dificultavam a minha
entrada ou os próprios
empresários percebiam que
eu poderia ser uma fonte
de perturbação uma vez
que representava o lado do
capital colado ao anterior
regime.
Apercebi-me de que ia ter
dificuldades em sustentar
a família. Sabia que tinha
o meu nome na fronteira,
sabia que havia pessoas que
tinham saído, através de
herdades, rios, de variadas
maneiras. Eu não queria
seguir o mesmo caminho.
µ
Depois da nacionalização do banco, em 1975,
expliquei ao tenente Rosário Dias: tenho
familia, fiquei sem trabalho, quero ir a Madrid
Vivia na Estrela e o
meu apartamento, mais
exatamente o meu quarto,
ficava mesmo em frente
ao portão verde onde
costumava ver o professor
Marcello Caetano entrar e
sair. Atravessei a rua, bati
à porta e disse que queria
falar com alguém porque
precisava ausentar-me
do país. Recebeu-me
alguém em nome do
tenente Rosário Dias.
Expliquei-lhe: sou casado,
tenho família, fiquei sem
trabalho, não acredito que
venha a ter emprego nos
próximos dias, quero ir a
Madrid.
Fui de carro, com
autorização. Consegui
trabalho no Banco Popular
Espanhol. Primeiro fui
sozinho, a minha mulher foi
lá ter depois, com os filhos.
Com a venda de uma casa na
Foz, de um apartamento no
Porto e com o meu ordenado
conseguimos viver. A maior
despesa eram os colégios dos
miúdos. A minha ligação à
Opus Dei dá-se nessa altura.
Os colégios não eram da Obra
mas tinham a orientação
espiritual da Opus Dei.
Entretanto, o Presidente
da República faz a primeira
visita de Estado, a Espanha.
Nunca tinha visto o general
Ramalho Eanes. Henrique
Granadeiro foi quem me
indicou ao general Eanes, que
andava com aquela tarefa,
concertada com Mário
Soares, de fazer regressar as
pessoas a Portugal. Disse que
só voltava se tivesse trabalho
para sustento da minha
família. Corria o ano de 1977.
O ministro Medina Carreira
manda-me um convite para
integrar o Conselho de
Gestão do Banco Português
do Atlântico. Só voltei depois
de ver o meu nome publicado
em “Diário da República”.
Estive no BPA até sair para
o Banco Comercial
Português. ^
25 Abril 40 anos | 35
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FO RA M & VOltA RA M
MÁRIO RUIVO
espero morrer como
pessoa vincadamente
de esquerda
Fez parte do grupo da “Seara Nova”, foi militante
do PCP e deu guarida a muitos portugueses no exílio,
sobretudo em Itália, onde viveu de 1961 a 1974.
Entre eles, o seu grande amigo Mário Soares.
No dia 25 de Abril foi à televisão italiana explicar
o que se estava a passar em Portugal
86 anos
Biólogo
N
asci em 1927, em
Campo Maior.
Acompanhei as
vicissitudes do
meu pai e avô que fizeram
parte dos movimentos para
a implantação da república.
Consta que quem hasteou a
bandeira republicana lá na
terra foi o meu pai.
Vim sozinho para
Lisboa, para casa de um
tio materno, onde fui
preso pela PIDE em 1947,
juntamente com outros
membros da Comissão
Académica de Lisboa do
MUD Juvenil, Mário Soares,
Zenha e Fernando Pulido
Valente. Estive no Aljube e
depois fui para Caxias.
Saí do país em duas
ou três circunstâncias
conjunturalmente
diferentes. Da primeira vez,
saio porque sempre me
interessei cegamente pelo
pensamento científico,
pela investigação. Saí num
navio de investigação da
Sobornne, que passou
pelo Tejo. Percebi que
não podia trabalhar cá
porque não tinha as
“garantias de idoneidade
moral e cívica”. Mas saí
também porque tinha a
perspetiva de que estando
fora poderia continuar a
minha formação científica
e simultaneamente
contribuir para pôr fim
ao regime. Fui correio,
divulguei informação,
fui solidário com muitos
que saíram para o exílio.
Fiz parte do Partido
Comunista, com grande
honra.
Em meados dos anos
50, volto a Portugal para
trabalhar no Instituto de
Biologia Marítima. Nessa
altura, reintegro-me nos
movimentos que lutavam
contra o regime. Até que
um dia o diretor do Instituto
chama-me e diz: “Houve um
homem da PIDE que veio cá
ver o que é que fazes.” As
coisas estavam complicadas
e como tinha um convite
pessoal da FAO — Food and
Agriculture Organization,
em Roma, decidi aceitar e
fui estudar as sardinhas.
Fiquei em Roma de 1961 a
1974.
No dia 25 de Abril recebo
uma chamada de um amigo
que estava a acompanhar
a situação em Portugal.
Disse de que tinha eclodido
36 | 25 Abril 40 anos
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FO RA M & VO LTA RA M
em Lisboa um movimento
militar, cuja orientação
não era imediatamente
discernível mas que nos
levava a crer que poderia
ser esperada abertura para
um regresso de Portugal à
liberdade e à democracia.
O que foi confirmado. O 25
de Abril para os italianos
é o dia da libertação da
ocupação nazi alemã. Uma
vez que eu já lá estava há
bastante tempo e tinha
criado o Comitato Italiano
de Solidarietà con il Popolo
Portoghese, fui convidado
para ir à televisão fazer
uma apresentação e tentar
explicar o que se estava a
passar em Portugal.
Antes de partir para
Itália estive envolvido na
“Seara Nova”, que tinha
duas estruturas paralelas.
O comité da redação,
que evidentemente tinha
de organizar e arranjar
materiais e inventar
coisas para substituir
os frequentes cortes da
censura, e as atividades
clandestinas, ligadas a
vários tipos de movimentos.
Quando fui para Roma ia
mandatado de certo modo
para agir em nome do
grupo político da revista.
Tive muitos encontros
clandestinos, muita gente
veio bater-me à porta.
O sofá de minha casa
era chamado “o sofá
da unidade”. Dormiu lá
toda a gente. Católicos
progressistas, socialistas
— António Brotas, Alçada
Batista, Salgado Zenha,
Mário Soares, muitos...
Esse período
permitiu-me no plano
científico, mas sobretudo
ideológico e intelectual,
ter uma perceção da
evolução do mundo e
da evolução das Nações
Unidas em que estive
ativamente envolvido
como profissional. Tive
grande noção do processo
de descolonização, mantive
Mário Ruivo,
nas instalações
do ministério
do Ambiente, onde
preside ao Conselho
Nacional do Ambiente
e do Desenvolvimento
Sustentável | FOTOGRAFIAS
DE ALBERTO FRIAS
µ
Durante a década de 60,
muita gente bateu-me à porta,
em Itália. Em minha casa, o sofá
era chamado ‘o sofá da unidade’.
Dormiu lá toda a gente,
incluindo Mário Soares
contacto estreito com os
movimentos de libertação
e com os seus líderes, como
Agostinho Neto, Amílcar
Cabral… Deu-me uma
perspetiva não só do estado
do mundo, mas do papel
importantíssimo do sistema
das Nações Unidas.
Regressei a Portugal
no dia 27 de abril de 1974
com a mulher de Manuel
Tito de Morais e pedi
autorização à FAO para
me ausentar durante uns
dias. Regressei ao meu
círculo da “Seara Nova”
e participei ativamente
em manifestações, que
culminou comigo no cargo
de ministro dos Negócios
Estrangeiros, no V Governo
Provisório, a convite de
Costa Gomes e de Vasco
Gonçalves. Durou pouco
mais de um mês.
Espero morrer como
pessoa de esquerda,
acentuadamente de
esquerda, convictamente
socialista mas aberta à
evolução do mundo. Uma
coisa são as ideias, outra,
que sempre me interessou,
é como podemos construir
instituições que reduzam
os conflitos e que ajudem
a encontrar soluções.
Participei ativamente em
negociações complexas das
Nações Unidas e aprendi
bastante com isso. Hoje,
quando me perguntam o
que faço respondo: tento
fazer flutuar as jangadas.
A gente põe a bordo o que
puder e depois vê onde é que
desembarca. ^
25 Abril 40 anos | 37
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FO RA M & VOltA RA M
Leonor Xavier
NÃO ERA FASCISTA
NEM DEIXAVA DE SER.
VIVIA NUM MUNDO À PARTE
Em Portugal viveu sempre num ambiente fechado
e protegido. A primeira vez que viu um comunista foi
Octávio Pato, na televisão. Leonor Xavier tornou-se
uma outra mulher, depois de viver 12 anos no Brasil
71 anos
Escritora
T
inha três filhos,
com três, cinco
e oito anos,
quando se deu o
25 de Abril. Vivia na Rua dos
Remédios à Lapa e era casada
com um professor assistente
da Faculdade de Direito,
especialista em direito fiscal,
que durante os últimos 40
dias do governo de Marcello
Caetano foi secretário de
Estado do Planeamento. Foi
um amigo que telefonou às
7h da manhã a avisar-nos:
“Há uma revolução, não
saiam.” Na altura fazia
parte do grupo de pessoas
que estavam num certo
lugar dentro da sociedade
portuguesa e que não tinham
consciência da política. Eu fui
criada num ambiente onde
não se discutia nem política,
nem religião, nem dinheiro. A
minha consciência política só
surgiu no Brasil, onde percebi
que o buraco era mais abaixo!
Eu e o meu marido fomos
algumas vezes a Londres
ver os filmes proibidos.
Sabíamos que muitas coisas
não passavam cá. Mas
fazia parte de uma cultura
onde se convivia com isso.
Nunca vivi especificamente
perseguida. Fiz as greves
na Faculdade de Letras
como toda a gente da
minha geração, mas não fui
presa por estar na cantina
universitária.
Depois do 25 de Abril
ficámos aqui quase um ano.
O meu marido foi saneado
da Faculdade de Direito,
mas isso não afetou a nossa
vida, inclusive teve bastante
trabalho como jurista.
Partimos para o Brasil, por
um impulso. Ele tinha a tese
de doutoramento publicada
no Brasil e em dezembro
de 1974 foi lá fazer uma
conferência, onde surgiram
convites. Aceitou ser
professor da (PUC) Pontifícia
Universidade Católica de São
Paulo. Ele seguiu o impulso
da mudança para uma
vida diferente e eu aderia,
sem hesitar, às decisões do
meu marido nas questões
essenciais. Fomos a seguir ao
11 de março de 1975.
Diz-se que nessa altura
houve emigração política,
mas, sobretudo, houve
emigração económica. No
nosso caso não foi nem uma
coisa nem outra. Tínhamos
30 anos e uma respiração
maior do que o país onde
vivíamos. Estávamos numa
fase de coisas novas e
diferentes e o Brasil era
muito tentador.
Lembro-me de ter ficado
muito emocionada, logo que
cheguei, por ver tudo escrito
em português. Chegámos ao
hotel quase à hora do almoço
e fiquei de boca aberta com o
lado afetuoso dos brasileiros
e com o movimento de uma
cidade com 10 milhões de
habitantes. Foi uma golada,
que já deu o tom, o mote para
os anos que vivi no Brasil.
Antes de partir, nunca tinha
feito nada profissionalmente.
A minha profissão era a
devoção ao meu marido.
Havia essa absoluta dedicação
a um projeto de família. Eu
fazia as coisas que faziam
38 | 25 Abril 40 anos
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FO RA M & VO lTA RA M
as mulheres da minha
geração, mas lia muito, lia
os autores franceses e os
clássicos. A sensação que
tinha era como se metade
do mundo estivesse pouco
iluminado para mim. Eu
não acompanhava as coisas,
não sabia tudo o que de
clandestino se passava na
sociedade portuguesa.
A primeira vez que vi um
comunista foi o Octávio Pato,
na televisão. Não era fascista
nem deixava de ser. Vivia
num mundo ao lado.
O meu crescimento de
cidadania aconteceu no
Brasil. Um dia, num jantar,
o então marido da Ana
Maria Niemeyer, filha de
Oscar Niemeyer, tinha um
jornal, o “Copa Centro”, e
perguntou-me se queria
escrever sobre a noite.
Aceitei. Logo a seguir fui
a um jantar onde estava o
Nuno Rocha que na época
era diretor de “O Tempo”
e que me convida para ser
correspondente no Rio.
Voltei a aceitar. Em 1979
estava no Rio. Entretanto
comecei a escrever no
“Mundo Português”, que na
altura era do Champalimaud
e da família Espírito Santo.
Depois fui correspondente
do “Diário de Notícias” e
escrevi em vários jornais e
revistas brasileiros. Em 1984
separei-me. Três anos depois
regressei a Portugal.
Um dia acordei e pensei,
vou-me embora. Quando
voltei, em 1987 achei o país
difícil. As pessoas falavam
por metáforas e eram raras
aquelas que abriam mão
do seu dia a dia para ajudar.
Mas há um sentimento de
pertença. Sempre houve.
Quando vinha a Portugal
pensava, eu pertenço aqui.
Inventei o conceito de pátria
amada. Passei anos da minha
vida a escrever sobre os
portugueses do Brasil e a
escrever sobre o Brasil para
Portugal. A gente tem um
chão, tem uma identidade. ^
Leonor Xavier,
no jardim da Estrela,
onde passeava
os filhos
FOTOGRAFIA DE ANA BAIÃO
µ
A minha consciência política só surgiu no Brasil,
onde percebi que o buraco era mais abaixo!
A minha profissão era a devoção ao meu marido
25 Abril 40 anos | 39
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FO RAM & VOltAR A M
MÁRIO DE CARVALHO
Houve perspetivas
erradas que cultivei
e transmiti
Aos 15 anos ficou marcado pela prisão do pai. Aderiu
ao PCP, foi preso e torturado. Acabou por fugir de
Portugal, ajudado por estranhos. Diz sentir uma
enorme dívida de gratidão para com o povo sueco
que o acolheu e ajudou. Mas aquele não era o seu país
e por isso regressou logo após a revolução de 1974.
Encontrou um país em festa, com muita utopia
69 anos
Escritor
E
m 1974 estava na
pequena cidade
de Lund, no sul da
Suécia. A minha
mulher, mãe e filhas
tinham chegado há pouco
tempo. Quando recebi a
notícia, era manhã cedo e
tínhamos acabado de vir
do curso de sueco. Alguém
nos chamou de uma janela,
era um português que vivia
com uma sueca, e gritou
“houve uma revolução em
Portugal”. A apreensão
era grande. À noite
conseguimos encontrar
um apartamento vazio que
tinha um grande rádio.
Sintonizamos a emissora
nacional portuguesa
e, de repente, a voz do
José Afonso enche o
apartamento vazio. Foi
dos momentos mais
comoventes da minha vida.
Decidimos voltar.
Estávamos com asilo
político e o Estado sueco
já nos tinha dado uma
casa. Mas punha-se
outro problema. O meu
passaporte era especial
para estrangeiros e só
me permitia viajar na
Escandinávia. Até essa
altura nunca tive um
passaporte legal. Fomos até
ao consulado de Copenhaga.
Conseguimos um
passaporte para regressar a
Portugal mas passando por
países específicos.
Chegámos em maio.
Havia uma espécie de
política do sorriso em
todas as pessoas, de
afabilidade no trato,
que não era habitual.
Era como se houvesse
um banho de felicidade.
Havia altos e baixos fluxos
e refluxos. A história
acelerou espantosamente
e andava à solta. Houve
ações precipitadas, alguma
leviandade, alucinação,
próprias das revoluções.
Muita ilusão, muita utopia.
Disse muito disparate.
Houve perspetivas erradas
que cultivei e transmiti e
que não o faria hoje. Mas o
balanço é positivo.
Quando tinha 15 anos
fiquei muito marcado pela
prisão do meu pai. Estava
longe de supor que ele
estivesse ligado ao PCP. Foi
uma grande surpresa e tive
de reconfigurar as minhas
perceções. Participei nas
Juntas de Ação Patriótica,
que reunia várias tendências
políticas de resistência
40 | 25 Abril 40 anos
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FO RA M & VO ltA RA M
antifascista. Só me ligo ao
PCP em 1965, depois de um
belo dia, em que Saldanha
Sanchez me apanha no
corredor da faculdade de
direito de Lisboa e me diz:
“Vamos falar de politica?”
Fui preso a primeira vez em
1971. Vivia na Rua Andrade,
perto do Mercado do Forno
do Tijolo. Era um sábado.
Preparava-me para ir ver um
filme, “A Confissão”, com
o Yves Montand. Saio para
ir buscar o carro e reparo
que há um fulano que não
fazia parte da rua. Quando
ia entrar no carro aparecem
outros tipos. Meteram-me
num táxi e fui para a Rua
António Maria Cardoso.
Estive 11 dias sem dormir.
Primeiro três, depois seis e
mais dois. Batiam com força
na mesa e tiravam-me a
cadeira para não adormecer.
Tinha de ficar de pé. Quando
desfalecia, agarravam em
mim e colocavam-me a
andar de um lado para o
outro. Uma vez bateram-me
com o processo na cabeça.
O que me custou mais foi
a sensação de eternidade.
A incerteza sobre o fim
daquela tortura... mas nunca
tive medo de morrer.
Fui condenado a dois
anos de prisão maior, mas
acabei por cumprir 18
meses. Estive em Caxias e
em Peniche. Tive liberdade
provisória e aproveitei esse
ano para fazer o estágio.
Mas o Supremo acabaria
por confirmar a minha
pena e voltei a ser detido
em 1973. Mais seis meses.
Quando saio em liberdade
condicional, como estava
no serviço militar, soube
que ia regressar ao exército
mas para a companhia
disciplinar de Penamacor,
que era uma espécie de
extenso da cadeia militar.
Pareceu-me demais. Foi aí
que procurei sair do país.
Ainda hoje não sei ao certo
quem me ajudou. Não foi
ninguém do PCP e confesso
que sinto alguma mágoa
por isso. A pessoa que me
propiciou os primeiros
contactos foi o Vítor Lima,
economista. Tinha estado
Mário de Carvalho
voltou à rua onde foi
preso pela primeira vez,
perto do Mercado
do Forno do Tijolo,
em Lisboa
FOtOGRAFIA DE JOSÉ VENtURA
µ
Fui preso em
1971. Estive
11 dias sem
dormir. O que
me custou
mais foi
a sensação
de eternidade.
A incerteza
sobre o fim
daquela
tortura
preso comigo em Peniche.
Nunca mais o vi.
Só a minha mulher sabia
da minha partida. Levou-me
a Alcobaça. Aí alguém faz-me
uma pergunta, eu dou uma
resposta. Apresento um
papel meio cortado, ele
apresenta a outra parte.
Encaixam. Estava feita a
ligação. Levou-me de carro
até Pombal. Fui apresentado
ao passador, que tinha cara
de índio. Fomos de comboio
até ao Porto, apanhámos
uma camioneta para Chaves
e aí tomámos um táxi para
um ponto junto à fronteira
com Espanha. Atravessei
uma ribeira a pé e fui ter a
uma venda, onde um tal Pepe
vivia por cima. Estive lá uns
dias até que veio um casal
de madeirenses, que mal
compreendia, e fui com eles
de comboio para Paris. Mas
eu queria ir para a Suécia,
onde já estavam os meus
cunhados. Estive dois meses
e tal em Paris, até conseguir
documentos falsos. Entrei na
Suécia com o passaporte do
meu pai. ^
25 Abril 40 anos | 41
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FO RA M & VOltA RA M
José Manuel
espÍrito santo silva
Depois De sair Da prisão
eu e os meus irmãos
estivemos esconDiDos
Foi enviado para Caxias a 11 de março de 1975,
juntamente com os irmãos, nos próprios carros do
banco. Depois foi para Monsanto, onde a família decorou
parte da prisão. Saiu do país e só voltou em 1992
68 anos
Banqueiro
D
ois dias depois
do 25 de Abril o
banco abriu. Na
época, eu era
subdiretor e o meu irmão
Manuel Ricardo diretor. O
ambiente estava mais tenso.
Começaram a organizarse os sindicatos. E, apesar
de vários políticos hoje
responsáveis andarem a
dizer mal dos banqueiros
e dos industriais — na
rádio insultavam-nos e aos
Mellos, aos Champalimauds
—, o ambiente não era de
vingança.
Quando se deu o 28
de setembro, tomámos
algumas precauções. A
minha mulher e as minhas
duas filhas foram para
Madrid, onde estiveram
três dias. Voltaram e a vida
continuou normalmente.
Os problemas só surgem
a partir do 11 março de
1975. No dia em que fomos
presos, estávamos no
banco, quando às cinco da
tarde o tenente Rosário
Dias chegou e nos prendeu.
Levou-nos para Caxias, nos
nossos próprios carros.
Estivemos três meses em
Caxias, numa cela pequena.
Ficámos os 14 sempre
juntos.
Depois levaram-nos
para a prisão de delitos
comuns, em Monsanto,
onde estivemos mais mês
e meio. Quando chegámos
a Monsanto íamos de
blazer vestido e os outros
presos colocaram-nos logo
a alcunha de ‘os bacanos’.
O diretor de Monsanto
tinha sido durante vários
anos diretor da prisão
de Pinheiro da Cruz que
fica ao lado da Herdade
da Comporta e o meu
irmão Manuel Ricardo
convidava-o para ir lá ao
fim de semana. Quando nos
viu ficou espantadíssimo.
Recordo que, no dia em
que chegámos, havia uma
greve de fome por causa
de dois presos que estavam
no ‘segredo’. Para nós esse
era o primeiro dia em que
podíamos comer a comida
de casa. O Manuel Ricardo
convenceu o diretor da
prisão a deixar sair os
dois presos que estavam
no ‘segredo’. Isso caiu
muito bem no meio dos
outros presos. A partir daí
ficámos ali com um grupo
de amigos extraordinários,
apesar de estarem todos
presos por delito comum.
A minha mulher ia
visitar-me à prisão, tanto
em Caxias como em
Monsanto. A sala de visitas
em Monsanto era horrível,
por isso resolvemos
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FO RA M & VO lTA RA M
µ
Quando
chegámos
a Monsanto,
em 1975, íamos
de blazer
vestido e os
outros presos
colocaram-nos logo
a alcunha
de ‘os bacanos’
José Manuel Espírito
Santo Silva, na antiga
sede do BES, na Baixa
de Lisboa | FOTOGRAFIA
DE TIAGO MIRANDA
comprar mesas, cadeiras,
cinzeiros e arranjámos a
sala da prisão. Também
comprámos uma rede
de voleibol e a bola para
jogarmos
Enquanto estivemos
presos tentámos mudar
o nome do banco. Era
Banco Espírito Santo e
Comercial de Lisboa e
queríamos tirar o Espírito
Santo para ficar só Banco
Comercial de Lisboa. Mas
foi o Banco de Portugal que
na altura não autorizou por
considerar o nome Espírito
Santo muito importante
internacionalmente.
Eu e os meus irmãos
saímos no dia 26 de julho
de 1975. Logo que saímos
as barricadas feitas
pelo sindicato do banco
começaram a funcionar a
ver se nos encontravam.
Já prevíamos sair. Não
havia qualquer má gestão
do banco. A única coisa
pela qual fomos julgados,
foi o facto de um cliente
estrangeiro ter aberto
uma conta numa agência
em Coimbra sem ter o
número de passaporte e de
identificação. Saímos com
o passaporte apreendido
e nessa altura as nossas
famílias já estavam fora.
Estivemos dois dias
escondidos em casas de
amigos. Alguns deles
levaram-nos depois para
fora de Portugal. Saímos
pelo norte. Fomos para
Ourense, na Galiza. Aí
estava um outro grupo de
amigos que nos levou para
Madrid. Fomos para casa do
marquês de Deleitosa, que
trinta e tal anos antes tinha
estado em nossa casa com a
família, por causa da guerra
civil de Espanha.
Estivemos em Madrid
um mês a organizar a
vida de cada um. Eu fui
trabalhar para um banco,
em Londres. Mas sempre
com o intuito de, na primeira
oportunidade, voltar a
Portugal. Estive dois anos
em Londres e quando o
grupo se reestruturou fui
para Lausanne, onde lancei
a Compagnie Financière
Espírito Santo. A primeira
vez que regressei a Lisboa
foi por causa do Rei de
Espanha que numa visita
oficial tirou um dia para ir
ver a minha mãe à Quinta
do Peru. Na altura viemos
os 11 filhos recebê-lo. Foi
em 1978. Em definitivo só
regressei quando o banco
foi privatizado. Em 1986,
foi autorizado o Banco
Internacional de Crédito
(BIC) e ponderei voltar nessa
altura, mas tinha mais duas
crianças nascidas na Suíça
e o negócio tinha evoluído.
A partir de 1992 resolvi
mudar-me para cá. Porque o
centro de decisão do grupo
passou a estar em Lisboa.
Em 1995, no enterro do
meu irmão António, quando
estava a sair do cemitério,
sinto uma pessoa ao meu
lado a olhar para mim. Era
um preso com quem tinha
estado em Caxias. Disse-me
que soube do enterro de
um Espírito Santo e achou
que podia encontrar-me.
Tinha-se tornado artista
plástico e queria vender-me
umas peças! ^
25 Abril 40 anos | 43
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FO RAM & VOltAR A M
Maria da Piedade
Morgadinho
AbAndonei o meu
curso pArA ser
funcionáriA do pcp
Saiu nas barbas da PIDE com a filha mais velha ao
colo. Esteve em França, na Bélgica, Checoslováquia e
União Soviética. Mas foi na Roménia, juntamente com
o (ex) marido Aurélio Santos, que mais anos serviu o
PCP na clandestinidade. Ainda trabalha no partido
81 anos
Funcionária do PCP
F
ui privilegiada
por ter crescido
numa família
de sentimentos
democráticos, antifascistas,
com a minha mãe ligada
ao Partido Comunista
Português (PCP). Já eu
estava na clandestinidade
quando ela foi presa duas
vezes. Isso influenciou
muito a minha vida,
como o próprio ambiente
de Aljustrel, onde
nasci. Andava na escola
primária quando assisti às
manifestações, durante a
guerra, em que as mulheres
e os mineiros pediam
pão e trabalho e eram
brutalmente reprimidos
pelas forças do fascismo.
São imagens que marcam.
Fiz o liceu em Beja, em
casa de familiares — todos
eles com cadastro na PIDE
—, e depois vim para a
Lisboa, para a Faculdade de
Ciências, onde frequentei o
curso de Biológicas.
O meu primeiro ato
público foi em Beja, aos
16 anos, num comício da
oposição democrática de
apoio à candidatura do
general Norton de Matos à
Presidência da República.
Aderi ao PCP em 1954.
Três anos depois abandonei
o meu curso no 3º ano e
entrei para funcionária
do partido. E continuo
funcionária do partido até
hoje.
Vivi 17 anos fora do país,
mas não fui na qualidade
de exilada política para
o estrangeiro. Quando
saí de Portugal fui com
tarefas definidas, concretas,
determinadas pelo
secretariado do comité
central. Sai em 1957, nas
barbas da PIDE, com a
minha filha mais velha,
que tinha sete meses.
O controlo de toda a
juventude que saísse do
país era muito apertado.
Mas no verão de 1957
realizou-se o Festival
Mundial da Juventude, em
Moscovo, e a vigilância
afrouxou. O partido decidiu
que eu devia arriscar,
porque era mais cómodo
sair pelo aeroporto do que
a salto, clandestinamente,
com uma criança ao colo.
Fui para França.
Em 1956 tinha casado
com Aurélio Santos, de
quem estou divorciada
agora. Ele foi diretor da
Rádio Portugal Livre e
membro da direção do
partido. Tinha estado preso
e todas as semanas era
obrigado a apresentar-se
na sede da PIDE. A saída
dele foi preparada com a
ajuda do Partido Comunista
Francês, que lhe arranjou
44 | 25 Abril 40 anos
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FO RA M & VO ltA RA M
FOtOGRAFIA DE NUNO BOtElHO
µ
documentação falsa.
Ele saiu depois de mim.
Encontrámo-nos em
Paris e fizemos o resto do
percurso juntos, sempre
com identificação falsa.
Da França fui para a
Bélgica, depois estive na
Checoslováquia, a seguir na
União Soviética e depois fui
para a Roménia, onde estive
mais tempo, de 1963 a 1974,
ligada à Rádio Portugal
Livre. Tudo isto decorrente
das exigências e das
necessidades do partido.
Tive vários privilégios.
Ter as minhas filhas sempre
comigo, vê-las crescer,
chegar à noite e, embora
exausta de trabalho, poder
deitar a cabeça na almofada,
sabendo que não tinha a
PIDE a bater-me a porta a
altas horas da madrugada,
é algo que não tem preço.
Por isso, tenho grande
respeito por todos aqueles
que foram perseguidos
e forçados a exilar-se. E
também por isso a nossa
resposta era trabalharmos
o mais possível e o melhor
que sabíamos e empenhar
todas as nossas energias
numa tarefa que sabíamos
ser muito importante.
As nossas filhas sempre
souberam que estávamos ali
a desempenhar uma tarefa
muito importante. Mas
não sabiam o nosso nome,
só ficaram a saber o nosso
nome verdadeiro quando
voltámos.
Na madrugada de 24 para
25 quem estava de serviço
era a camarada Veríssima,
Maria da Piedade Morgadinho,
junto à sede do PCP,
onde ainda hoje trabalha
Ter as minhas filhas sempre comigo, vê-las crescer,
chegar à noite e saber que não tinha
a PIDE a bater-me à porta, não tem preço
que era a mais jovem. Ao
começo da manhã, telefona
para a nossa casa dizendo
que qualquer coisa se
estava a passar. Fomos para
as instalações da rádio.
Ligámos todos os aparelhos.
Antes do meio-dia ouvimos
na Emissora Nacional
o relato sobre o que se
passava no Largo do Carmo.
Continuámos em escuta.
Até que veio o comunicado
do MFA. Aí saltámos,
pulámos, rimos, chorámos.
No dia seguinte recebemos
a confirmação da revolução
via partido.
Fomos para França,
ao consulado, com
testemunhas, apresentar
a nossa verdadeira
identidade. Já com
passaportes portugueses,
desembarcámos no
aeroporto de Lisboa no dia
21 de maio.
Não tínhamos ninguém
à espera porque estivemos
muitos períodos longos
sem saber da família. Não
sabíamos quem estava
vivo ou não. Arriscámos,
metemo-nos num táxi
e demos o endereço de
uns familiares. Quando
chegamos à Visconde
Valmor, a casa era num rés
do chão, vimos as janelas
abertas, os cortinados
a esvoaçar e música lá
dentro, pensámos “está
tudo vivo, temos gente”.
Foram momentos muito
emocionantes. E, como
chegámos à hora do almoço,
foi lavar as mãos e sentar à
mesa. ^
25 Abril 40 anos | 45
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FO RA M & VOltA RA M
Jaime Nogueira PiNto
quando vi o tanque
na rua garrett pensei:
portugal acabou!
Defensor do império português e do Ultramar,
Jaime Nogueira Pinto partiu para Angola depois
da revolução. Já com um mandado de captura,
fugiu para a África do Sul. Seguiu-se o Brasil e Espanha
Jaime Nogueira Pinto
na Rua Garrett, em Lisboa,
onde viu um tanque
FOtOGRAFIA DE JOSÉ VENtURA
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FO RA M & VO ltA RA M
68 anos
Empresário
E
stava na tropa
quando se deu o 25
de Abril. Liguei para
o Estado-Maior do
Exército e disseram-me para
ficar em casa. Só ao fim da
tarde é que fui para as ruas
de Lisboa. Lembro-me de
chegar à Rua Nova do Almada
e ver um supermercado a
ser saqueado. Depois vi um
tanque a descer a Rua Garrett
e pensei: Portugal acabou.
Achava que o império ia
desmoronar-se, como veio a
acontecer, e eu pensava que
não fazia sentido.
Estive envolvido na
criação de muitos partidos,
como o Partido do
Progresso, onde se juntou
toda a gente que, na época,
era da direita nacionalista.
Todos esses grupos e eu
próprio, no dia 26 de abril,
estávamos ativamente
a fazer tudo o que fosse
possível para reverter um
pouco a situação.
Em julho de 1974 parto
para Angola. Como toda
a vida fui um defensor do
império português e do
Ultramar, achei que era
a maior das vergonhas
não ir lá e troquei com
um camarada que estava
mobilizado. Em Angola,
com uma série de gente
que lá estava e com a minha
mulher, a Zezinha (Maria
José Nogueira Pinto), que
veio ter comigo, fundámos
a Frente Revolucionária
de Angola, um movimento
resistente ao MFA. Depois
voei para o meu destino
militar, Carmona.
Entretanto, chega o 28 de
setembro. À noite, a Zezinha
foi aos correio telefonar
para Lisboa e a tia Maria
Pinto da Cunha disse que
tinham ido procurar o pai
do Eduardo. Sendo eu o pai
do Eduardo, era um sinal. A
partir daí preparámos a saída
para a Namíbia e depois
para a África do Sul, para
eu não ser preso. Nem eu
nem a Zezinha guiávamos,
portanto não foi fácil montar
um plano de evasão para
percorrer mais de 2000
quilómetros de carro.
Fui com o senhor
Esteves, um fazendeiro
nosso amigo, até ao Alto
Dondo. Lá encontrámo-nos
com a Zezinha, o Miguel
Corte-Real, o Zé Penha
Rodrigues e o Alfredo
Aparício, que vinham de
Luanda num outro carro.
Depois confiámos na old
µ
altura era o comissário
da África do Sul para a
Namíbia. A Zezinha, que
era muito previdente, tinha
levado um vestido e um fato
para mim, que vestimos.
Instintivamente percebi que
a melhor maneira de nos
deixarem ficar era mostrar
low profile e atenuar
o papel político ativo.
Passámos ali uns dias até
que fomos levados para um
campo de concentração,
feito durante a II Guerra
Mundial. Estavam lá cerca
de 400 portugueses de
Moçambique, envolvidos no
7 de setembro. Havia quem
disputasse uma laranja e
lutasse por uma maçã. Não
era obrigatório trabalhar,
mas aceitei ir para a cozinha
descascar cebolas e batatas
e a Zezinha foi para a
lavandaria. Só se podia sair
do campo com emprego
e embora os empresários
aparecessem todos os
voltámos a Pretória. Arranjei
emprego numa empresa
como tradutor. Depois
mudámos para Joanesburgo,
onde passámos um Natal,
o primeiro do exílio. Um
Natal triste e amargurado
também pelo luto dos
nossos sobrinhos que
morreram num desastre.
Entretanto, a Zezinha
veio à Europa buscar o
nosso filho Eduardo. Foi
averbado ao passaporte
dela como sobrinho, filho
do meu cunhado que deu
a autorização. No meio de
tudo fomos participando na
vida dos exilados políticos,
tentando fazer qualquer
coisa, seguindo tudo o que
se passava até ao 11 de
março. Como não deu em
nada e eu continuava com
mandado de captura, em
junho de 1975, partimos
para o Brasil, onde
trabalhei com o António
Champalimaud. Em junho
Confesso que custou-me regressar. Eu tinha
sido educado e formado na ideia de Portugal
ser um país grande, com importância...
boys networks. Passámos
por Nova Lisboa e Sá da
Bandeira até chegar ao
Catequero. Aí, uma prima
do Esteves chamou o
marido que nos levou até
à fronteira com a Namíbia,
onde estava o sr. Banana,
que nos deixou num ponto
seguro, limpo de minas,
para passarmos o arame
fronteiriço. O sol nascia e
começámos a caminhar pelo
meio do capim em direção
ao posto SAP (South African
Police) para pedirmos asilo
político. Os sul-africanos
puseram-nos numa escola
desativada onde dormíamos
em colchões e onde iam
chegando outros refugiados.
Dias depois partimos para
Oshakati e fomos chamados
ao administrador, que na
dias com ofertas, eu não
sabia fazer nada do que
procuravam — eletricistas,
marceneiros, canalizadores,
cabeleireiros.
A Zezinha, sempre
expedita, conseguiu falar
com o diretor do campo
e explicou-lhe a nossa
situação e porque não
conseguiríamos sair. Ele
pediu desculpa e disse: “How
could you be with such a
people?!” A Zezinha numa
fúria respondeu: “Olhe a
‘such a people’ fez coisas
extraordinárias, aguentou
aqui as vossas costas
durante muitos anos, quero
ver sem ‘such a people’ o
que é que vocês vão fazer!”
Apesar de tudo
conseguimos deixar o
campo de Cullinan e
de 1976 fomos para Espanha.
Colaborei na fase final dos
movimentos clandestinos
anticomunistas ELP e
MDLP. Entretanto, a forma
de voltar a Lisboa pela via
legal era apresentar-me
ao serviço, vestir a farda e
ir umas semanas à tropa.
Não aceitei. Se a alternativa
era ser julgado, que me
julgassem! Ficámos dois
anos em Madrid, onde
nasceu a nossa filha
Catarina. Voltei para
Portugal em 78. Fui julgado
e absolvido, em Santa Clara,
em 1981. Confesso que me
custou regressar. Eu tinha
sido educado e formado na
ideia de Portugal ser um país
grande, com importância, e
isto tinha passado a ser um
país pequeno. ^
25 Abril 40 anos | 47
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“Vi as portas da prisão
abertas de par em par
vi passar a procissão
do meu país a cantar.
Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido
Nunca mais nos curvaremos
às armas da repressão
somos a força que temos
a pulsar no coração.
Enquanto nos mantivermos
todos juntos lado a lado
somos a glória de sermos
Portugal ressuscitado.
Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido.”
PCP
José Carlos Ary dos Santos
“Portugal Ressuscitado”
48 | 25 Abril 40 anos
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O primeiro
Parlamento
democrático
A 25 de Abril de 1975, precisamente
um ano depois da Revolução dos
Cravos, os portugueses participam
pela primeira vez numas eleições
livres e universais. Foi a escolha
da Assembleia Constituinte, à
qual concorreram 14 partidos e
movimentos cívicos. Descontando
uma associação de Macau, de vida
efémera, que elegeu o deputado
pelo território, apenas seis forças
ganharam assento em São Bento: PS
(116), PPD (81), PCP (30), CDS (16),
MDP (5) e UDP (1). Estes partidos
marcaram os primeiros anos da
democracia em Portugal, quando o
quadro político-institucional estava
longe de estabilizar. Os quatro
primeiros atravessariam as décadas
seguintes, chegando ao presente
com expressão parlamentar. O MDP
diluiu-se no PCP, e a UDP integra
o Bloco de Esquerda. No dia das
eleições de 1975, PS e PCP estavam já
em barricadas opostas. Mas logo após o
25 de Abril ainda ensaiaram iniciativas
conjuntas. São dessas forças os
cartazes destas páginas, com slogans
e mensagens que refletem bem o
espírito da época. ^ paulo paixão
25 Abril 40 anos | 49
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25 Abril 40 anos | 50
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JOSÉ
PACHECO
PEREIRA
“Os portugueses
interiorizaram o discurso
de que não há futuro”
Entrevista
Henrique Monteiro
Joana Pereira Bastos
fotografiaS
António Pedro Ferreira
25 Abril 40 anos | 51
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Ent r Evis ta
JOSÉ
PACHECO
PEREIRA
Q
uatro décadas após o 25 de Abril, o historiador e
comentador político considera que não há ainda uma
cultura democrática plena em Portugal. Aos 65 anos,
José Pacheco Pereira diz que o país está a iniciar um
longo ciclo de empobrecimento e que milhares de portugueses
já não conhecerão vida melhor. O ainda militante do PSD teme
o fortalecimento dos extremismos como reação à insensibilidade
social dos “governantes criados em estufa”.
O Portugal que temos hoje é o país
que, no 25 de Abril, esperava vir a ter?
As pessoas que viveram aqueles
momentos viveram-nos de forma tão
imediata e tão intensa que a ideia de que
havia um projeto é uma ideia construída
um bocado a posteriori. Ninguém estava a
imaginar o Portugal que queria. Só o fim
do PREC é que permitiu esse processo.
Até aí, a solicitação do imediato, do
quotidiano e do conflito político duro,
sempre no limiar da guerra civil, não o
permitiam.
De qualquer forma, Mário Soares
tinha escrito “Portugal Amordaçado”,
em que defendia o ‘Descolonizar,
Democratizar e Desenvolver’, que
depois foi o programa do MFA.
O que aconteceu em 1974 e depois no
PREC foi muito além dos três D. Há um
saneamento profundo das estruturas do
Estado, a nacionalização dos grandes
grupos económicos, a reforma agrária, o
controlo operário, o que na altura se
chamava de conquistas da revolução. O
que é aplicado é um programa que
Cunhal tinha formulado e que, de alguma
maneira, estava implícito no acordo que
o Partido Socialista estabelece com o
Partido Comunista em vésperas do 25 de
Abril. O PS chega ao 25 de Abril com um
programa de Frente Popular, muito
parecido em muitos aspetos com o
programa do PC.
eleição do Soares. Só a partir dessa
primeira volta e da revisão constitucional é
que podemos considerar que esse ciclo
político termina, por um processo duplo
que é a vitória de Mário Soares para a
Presidência da República e a primeira
maioria absoluta de Cavaco Silva.
E convencido de que era um pequeno
partido. Até às eleições convence-se
que o PC era muito maior...
A influência do PS na vida política
portuguesa foi muito moldada pela
resistência ao PC durante o PREC. Não era
nada que estivesse previsto e antecipado. O
crescimento daqueles partidos nesse
período deveu-se essencialmente à
resistência ao Partido Comunista e, depois
desse período, à inscrição no
funcionamento do Estado e na
Constituição de uma certa hegemonia da
vida política partidária, destinada a
favorecer PS e PSD em detrimento do PC.
A verdadeira tática dos comunistas era o
controlo do MFA. E, num certo sentido,
isso só acabou quando acabou a influência
militar no processo político, ou seja, no
início da década de 80 e depois na primeira
Visto a esta distância, qual diria ser a
maior conquista de Portugal no pós-25
de Abril?
Sem dúvida a democracia política. Eu sei
que isto é difícil de transmitir às gerações
mais novas, mas, por exemplo, eu tinha
uma espécie de tique, que era antes de
chegar às casas em que vivia, ou onde
estava escondido, tirava sempre as chaves
do bolso com bastante antecedência, para
poder deitá-las fora se me apercebesse
que havia alguma coisa estranha à porta
de casa, porque a questão das chaves era
importante para a PIDE, para perceber os
locais onde estávamos. Esse tique ficoume muitos anos depois. Se estiver num
café, mesmo de costas, consigo perceber
se está alguém atento ao que eu estou a
fazer. Naqueles anos, particularmente
quando se tinha uma atividade política
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intensa, havia uma permanente sensação
de risco. O principal resultado histórico do
25 de Abril não é um programa
económico nem social. É político.
Devolver aos portugueses a
responsabilidade pelo seu próprio futuro,
num país onde funciona a democracia e o
primado da lei e onde as pessoas escolhem
com liberdade, sem medo de emitir as
suas opiniões. É evidente que nada disto é
perfeito. Nós não temos plenamente uma
cultura política democrática.
Porquê?
Há muitos aspetos que não são
democráticos na nossa cultura política
dominante, por exemplo a demonização da
política e dos partidos, que vem de antes do
25 de Abril. Houve 48 anos de
demonização da política e dos partidos. O
elogio do consenso, a inexistência de um
verdadeiro debate crítico, não apenas na
área da política, mas também da cultura,
por exemplo. É um país muito pequeno,
toda a gente se conhece, todos são primos,
os bens são muito escassos e a fome é
muita. Não temos um hábito genuíno do
debate. Há muito medo do confronto.
Quem está numa universidade a fazer uma
tese sabe que tem de ter algum cuidado se
fizer uma recensão crítica de alguém que
pode estar no júri. De um modo geral, isto
faz com que o nosso meio cultural, político
e intelectual seja muito abafado. Não se
respira um ar de grande liberdade, e isso é
uma herança de 48 anos de sanção sobre o
conflito. A riqueza das sociedades
democráticas está na diferença, não no
consenso.
Acha que esse medo do conflito
explica o facto de não haver sinais de
violência ou revolta, apesar da crise
profunda em que o país está
mergulhado?
O que eu acho mais perigoso é que é o
discurso melhor para o populismo. A
demonização da vida político-partidária e
por outro lado uma espécie de
sebastianismo e de populismo de espera.
Esta espera um dia encontra alguém.
Neste momento, se houver populismo,
ele virá de alguém que passe bem na
televisão. Estes processos são complexos,
mas estamos a criar um mundo em que
ou temos uma degenerescência cada vez
maior do sistema político-partidário ou
temos a criação de uma mitologia
populista de quem fala verdade, não
responde a interesses, parte a louça toda.
Há quem queira colocar-se nessa posição.
O facto é que não tem acontecido
em Portugal o que tem acontecido
noutros países, que é o fortalecimento
da extrema-direita ou da
extrema-esquerda.
Fazer a análise do fortalecimento da
extrema-esquerda ou da extrema-direita
apenas pelos resultados eleitorais
engana. Temos de ver também outros
indicadores. O que não há é uma
extrema-direita nem uma
extrema-esquerda organizada. Mas isso
tem também a ver com a considerável
hegemonia dos partidos do chamado
arco da governação.
Mas acha então que existe esse risco?
Existe esse risco. E também acho que há
risco de violência, mas não
necessariamente a violência que temos
visto na Grécia.
E há risco de populismo vindo dos
próprios partidos do sistema, PSD ou PS...
É mais difícil por causa do estado em que
os partidos estão hoje. O PSD e o PS estão
estruturados com base numa burocracia
política interna, o aparelho, que controla os
mecanismos de ascensão partidária. Mas já
há um fenómeno unipessoal com aspetos
populistas, que é o Paulo Portas... Quero
ver quem será o Miguel de Vasconcelos que
vai ser atirado pela janela, como em 1640.
Claro que os candidatos a Miguel de
Vasconcelos são Passos Coelho e Paulo
Portas.
E Sócrates..
Não, porque para todos os efeitos já
vieram outros a seguir. Eu nunca fui e não
sou manso com o Sócrates, mas acho que
Sócrates não dá para cobrir os estragos
que se fizeram nos últimos dois anos e que
são estragos de assinatura própria.
Que estragos são esses?
É ter pegado na herança, sem dúvida
péssima que receberam, e terem feito
tudo mal. E terem criado problemas
novos que não existiam e terem
desperdiçado a enorme disponibilidade
que os portugueses tinham para uma
política de sacrifícios se ela tivesse sido
feita desde o início de uma forma muito
diferente. Este Governo recebeu uma
herança muito negativa, mas recebeu
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também uma coisa raríssima em
democracia: as pessoas estavam
convencidas de que tinham de se
sacrificar para ajudar o país. Os nossos
governantes tinham uma ignorância
profunda do aparelho de Estado, que aliás
agravaram com medidas demagógicas,
como a de deitar fora as chefias da
Função Pública. Como foram substituídas
por boys e por assessores, a qualificação
do Estado para responder até à própria
aplicação do programa do Governo era
muito menor. Depois houve claramente
uma fase ideológica, com a ideia da
austeridade. Aplicaram uma receita que
tinha uma forte componente ideológica.
O Estado social está em risco?
Está em risco, em grande parte pelas
medidas que foram tomadas, que
transportaram a crise da economia para
cima do Estado social, quando na
realidade a crise podia ter sido
minimizada se tivessem sido tomadas
medidas alternativas. As pessoas estavam
disponíveis para fazer um sacrifício, mas
não estão disponíveis para fazer todos os
µ
O pior falhanço do pós-25 de Abril foi a
incapacidade de o país se equilibrar
economicamente?
Sem dúvida que isso é um problema, mas
é um problema entre muitos. Como nós o
enfrentamos como problema único ou
principal, as soluções que encontramos
são soluções que o agravam ainda mais.
Quando discutimos o problema do
endividamento das famílias, isso hoje é
apresentado como uma coisa
intrinsecamente má. Há 30 anos, se uma
pessoa tivesse de optar entre comprar
uma casa, endividando-se junto do banco,
ou arrendar uma casa, quando não havia
mercado de arrendamento, a opção
inteiramente racional e economicamente
vantajosa era pedir um empréstimo. A
demonização que se faz hoje e que tem
um moralismo insuportável, de que as
pessoas viveram acima das suas
possibilidades, esquece que muitas eram
decisões racionais...
gimnodesportivos e coisas absolutamente
absurdas. Mas, em grande parte, o excesso
foi fomentado pela banca. Muita da
governação económica, principalmente
desde Guterres, é condicionada pela banca,
em função dos seus interesses. Não
contesto que tenhamos vivido acima das
nossas posses, mas isso só funciona depois
de 2008. Há um aspeto económico muito
penalizador de medidas que são tomadas
apenas por racionalização de custos e que
acabam por ter um custo invisível muito
superior ao que se poupa. É esta
sensibilidade que o Governo não tem, pela
simples razão de que não faz a mínima
ideia do que é o país. Estes governantes
foram criados em estufa e viveram sempre
uma vida que não os pôs em contacto com
nada que não seja o controlo político. No
núcleo central político, não há ninguém
que não venha das estruturas partidárias.
Costumo dizer que nunca tiveram o
problema de estacionar o carro.
Mas o problema não é as pessoas
viveram acima das suas possibilidades,
é o Estado fazê-lo...
É um problema da política portuguesa?
Um dos problemas que mais pode pôr em
causa a democracia é a degeneração dos
Estes governantes foram criados em estufa e viveram sempre
uma vida que não os pôs em contacto com nada que não seja
o controlo político. Nunca tiveram o problema de estacionar o carro
anos mais sacrifícios sem nenhum
vislumbre de melhora. Porque para a
maioria das pessoas os sinais de retoma
não significam nada. As pessoas estão
convencidas de que na sua vida já não vão
conhecer nada de diferente ou melhor.
As pessoas interiorizaram o discurso
do empobrecimento?
Pior do que isso. Interiorizaram o discurso
de que não há futuro. Uma pessoa que
tenha 35 ou 38 anos, perca o emprego
numa fábrica, por exemplo, e não tenha
elevadas qualificações nunca mais vai ter
emprego na vida. A degradação das
condições de vida é cada vez maior. O peso
principal deste ajustamento não foi
necessariamente sobre os mais pobres dos
pobres. A oferta que este Governo faz aos
mais pobres dos pobres é que nunca mais
vão sair da pobreza, não é necessariamente
que vão empobrecer mais. É sobre a classe
média, e ao ser sobre a classe média é a
garantia de que isto não resulta. Porque não
há recrudescimento ou milagre económico
que não implique mobilidade social.
Mas o Estado vive acima das suas posses
em grande parte por uma combinação
entre os desvarios socráticos naquela fase
final e a sobrecarga social trazida pela
forma como este Governo enfrentou a
crise. Portanto, neste momento temos
uma dívida e um défice extremamente
difícil de controlar que é em grande parte
recente. É verdade que historicamente
gastámos sempre mais, mas a maioria
dos países, salvo duas ou três exceções,
funciona assim. Isso não é por si só
irracional, a não ser quando chegamos a
uma situação de crise e subitamente
tomamos todas as opções erradas.
aparelhos partidários, que é devastadora
no PSD e no PS. Impede que os partidos
forneçam o pessoal político que era
fundamental em democracia. Não têm
know-how, não têm carreiras, não têm
independência em relação aos interesses
económicos.
O que fizemos aos fundos estruturais?
Não estou a dizer que a forma como nós os
aplicámos seja isenta de culpas, mas ao
mesmo tempo os adquiridos dessa época
são fundamentais. Por exemplo, a
modernização do nosso sistema de
impostos, o saneamento básico, a mudança
radical que se deu no interior do país. É
evidente que depois se passou de padrões
mínimos de consumo para três pavilhões
Uma das coisas que também se tem
falado muito no pós-25 de Abril tem a
ver com a Europa, nomeadamente se
devíamos ou não ter aderido à Europa
e se devíamos ou não ter aderido ao
euro... Qual é a sua posição?
Fui favorável à entrada de Portugal na
Europa, porque o objetivo inicial dessa
entrada foi garantir uma estabilização do
nosso sistema político democrático. A
É a favor de uma alteração ao sistema
eleitoral?
Sou a favor de um sistema misto,
uninominal à alemã, mas sou mais radical
em matéria eleitoral. À medida que os
partidos se degeneram, sou a favor de abrir
o Parlamento a listas de independentes.
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Europa em que nós entrámos era uma
Europa construída como uma parte do
plano anticomunista. Para impedir o
crescimento do comunismo, a ideia era
construir uma Europa próspera e que
usasse em conjunto as suas reservas
estratégicas. Daí terem começado pelo
carvão e pelo aço. Monet, que conhecia
muito bem a Europa e sabia que os países
europeus não são como os Estados
americanos, dizia que se tinha de dar a
todos a perceção de que são iguais: o
pequeno Luxemburgo é igual à
Alemanha. E isto funcionou bem até ao
momento em que, face à perceção de que
o Leste ia ser muito difícil de reconverter
económica e socialmente sem uma
grande deslocação de capitais, há um
crescimento dos egoísmos nacionais.
E o euro?
O euro era uma medida lógica depois do
mercado único. Tinha um certo sentido
avançar para uma moeda única. A
integração das economias tinha sentido,
como resposta à globalização. O que não
tem sentido é o delírio político que tomou
conta da União Europeia, com o
abandono da política de coesão e a
progressiva emergência de um diretório
que passou a substituir a vontade do
consenso. Tinha de dar para o torto. A
que os franceses acrescentaram a
José Pacheco Pereira
durante a entrevista,
realizada no edifício
da redação do Expresso
tentativa de usar a União Europeia para
fazer uma política antiamericana; e os
alemães, que tinham interesse em voltar
a uma plenitude dos seus poderes,
nomeadamente em política externa,
precisavam, através da aliança com a
França e da União Europeia, ultrapassar
a menoridade em resultado da derrota na
Segunda Guerra Mundial. E a partir daí é
só asneira, a que os governantes fecham
magnificamente os olhos. Deixou de
haver referendos quando os referendos
começaram a dar para o torto. Passou a
haver um enorme equilibrismo político
para que não houvesse referendos. E
nalguns casos houve tantos referendos
até ganhar a União Europeia, ou seja,
deixou de se poder dizer que não. A
União Europeia não tem hoje quase nada
a ver com a sua origem.
E há alternativa a esta UE,
nomeadamente para Portugal?
A única alternativa que Portugal tem em
relação à UE é defender os seus interesses,
coisa que já não faz há tanto tempo que
presumo que já não saiba fazer.
E ainda tem autonomia para isso?
A autonomia vem do poder que cada
Estado assume. Portugal já não defende
os seus interesses há muito tempo. Não
sou federalista, porque não se pode
construir a Europa contra as realidades
nacionais. Não é fácil ter uma política
externa europeia a não ser sobre
questões menores, porque não podemos
esquecer que Gibraltar separa os ingleses
dos espanhóis, os franceses gostam dos
sérvios, os alemães gostam dos croatas e
dos eslovenos. O caos da política externa
americana e o caos da política externa
europeia só geram um mundo mais
perigoso.
Faz sentido a manutenção de Portugal
no euro?
O debate da saída tem sentido. Se
quando começou o programa de
ajustamento na Grécia os gregos
pudessem escolher entre perder 30%
com a saída do euro e perder 30%
durante três ou quatro anos com as
medidas de austeridade, eu, se fosse
grego, achava tentador sair do euro.
Perdia os 30%, mas o meu turismo
tornava-se altamente competitivo,
porque seria muito mais barato. Por isso,
da maneira como as coisas estão, a
questão da saída do euro tem de ser
trazida para o debate nacional. Não pode
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ser um não debate. Como a nossa posição
em relação à UE não pode ser de não
debate. Não podemos assinar tudo de
cruz. O pacto orçamental, por exemplo, é
absolutamente inaceitável. Eu comparo o
pacto orçamental aos chineses obrigarem
as famílias a pagar a bala com que se
executam os condenados à morte. É o
melhor exemplo da degeneração da
social-democracia europeia e da Europa
no seu conjunto. Eu entrei euro-otimista
no Parlamento Europeu e saí eurocético.
Acha viável uma união dos países do Sul?
Claro que é viável e faz sentido. Não digo
que tenha de passar pela saída desses
países da UE, mas para já faz sentido que
colaborem entre si. Colocados perante
problemas semelhantes, têm de ter
conversas entre si. E isso neste momento
não acontece.
E os separatismos, em Espanha ou na
Escócia, por exemplo?
Isso é outro problema. A quebra de
solidariedade e da coesão europeia
impregna os países todos, no sentido da
dissociação. A União Europeia hoje é um
diretório essencialmente alemão e um
conjunto de interesses diversificados, dos
agricultores franceses, da banca inglesa,
etc... Enquanto não se puder discutir os
subsídios atribuídos à agricultura
francesa com a mesma liberdade com
que se discute o défice português… Ou há
um milagre e se aceita limitar estes
interesses ou a União Europeia
transforma-se num mecanismo político
de hegemonia alemã sobre a Europa, que
já o é em grande parte. Na Grécia já há
uma forte reação antialemã.
A diminuição da coesão e o
crescimento desse tipo de sentimentos
pode ser perigoso?
Claro que pode. A quantidade de
problemas que estão debaixo do tapete
na Europa e de que ninguém fala...
Voltando a Portugal, falava há pouco
da força que tinha o movimento
estudantil antes do 25 de Abril como
um dos principais motores da oposição
ao regime. Como vê hoje o papel das
gerações mais jovens?
Há sempre uma certa tendência para ser
paternalista em relação às gerações mais
jovens. Uma coisa é certa: não lhes desejo
nenhuma nostalgia do passado. Mas uma
coisa eu posso dizer que não se aplica
necessariamente aos jovens, mas aos
µ
Estamos a iniciar
um ciclo longo de
empobrecimento.
Várias centenas
de milhares
ou até milhões
de portugueses
nunca vão conhecer
melhor vida. Está
a ser semeado um
discurso de divisão
— os novos contra
os velhos, o privado
contra o público, os
pensionistas contra
os contribuintes
da Segurança Social
— que destrói os
poucos laços que os
portugueses tinham
conseguido criar
entre si
portugueses no geral: uma das
consequências deste processo de
ajustamento é o regresso ao
provincianismo. Quem escapa são os
imigrantes. Quem cá fica vai de novo
voltar a um quadro intelectual cívico e
político com muito poucos horizontes, o
que é devastador para quem quer pensar
e crescer.
No início desta conversa dizia que
estávamos a chegar ao fim de um ciclo
iniciado no 25 de Abril... Que ciclo é
esse e o que vem aí?
Estamos a iniciar um ciclo longo de
empobrecimento. Várias centenas de
milhares ou até milhões de portugueses
nunca vão conhecer melhor vida. Não
estou a falar de pessoas em abstrato, estou
a falar de pessoas cuja qualidade de vida é
perdida aos 60 ou 70 anos. Tratados sem
respeito e sem dignidade, como velhos
acabados. Nunca pensei assistir em
Portugal a uma demonização da velhice
por razões instrumentais no plano
político. Estamos a semear um discurso de
divisão que destrói os poucos laços que os
portugueses tinham conseguido criar
entre si — os novos contra os velhos, os
trabalhadores do privado contra os
funcionários públicos, os pensionistas
contra as pessoas que pagam contribuição
social. E este discurso, que é muito eficaz
em períodos de empobrecimento, faz com
que cada um se acantone no seu egoísmo
particular. A distribuição desigual de
recursos inevitavelmente vai agravar a
conflitualidade social. O que vale é que
ainda estamos em democracia e, por
muitas objeções que se possam fazer, os
tribunais funcionam neste momento como
mecanismo do primado da lei, em último
recurso. Com o processo de ajustamento
está em curso uma desvalorização das
eleições. “Vão lá a votos, mas tudo fica na
mesma, votem em quem quiserem, mas as
eleições não servem para nada, o Seguro
vai para lá fazer o mesmo que o Passos
Coelho, as europeias não têm qualquer
papel, mesmo que o Governo leve uma
derrota monumental, etc...” Esta
desvalorização das eleições também é
uma receita para a conflitualidade social.
O que é espantoso é que eu digo estas
coisas e pareço um perigoso esquerdista.
Mas estas coisas são o mais trivial da
cultura democrática e da política
moderada.
Mas admite que com Seguro mude
alguma coisa?
Duvido. Mas, se houver eleições, há uma
maior margem política para tentar
outro tipo de soluções que hoje estão
bloqueadas e para negociar na Europa.
A única coisa que pode salvar o sistema
político-partidário é aplicar o modelo
Rui Moreira aos partidos. Ou as pessoas
que restam no PS e no PSD
que ainda têm prestígio nacional
— o Rui Rio, o António Costa, pessoas
que exerceram ou exercem cargos
públicos e que não estão de mal
com a opinião pública — criam
um entendimento entre si, à margem
dos partidos, e ganham uma grande
mobilização, ou então o sistema
político-partidário não tem saída. ^
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EM
conta
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dEcrEs
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No início de 1974 acumulam-se os sinais da desagregação
do Estado Novo. O Movimento das Forças Armadas ganha força
e o livro do general Spínola acelera o processo
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em co ntag e m dec r e sc e n t e
À ESPERA
DE ABRIL
0 5
FEVEREIRO
Anatomia
da criação do MFA
Nascido no verão de 1973, o movimento dos capitães do Exército
cresceu e organizou-se em reuniões realizadas em Alcáçovas, Óbidos
e Cascais, alargando-se a outras patentes, à Marinha e à Força Aérea
TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA
FOTOGRAFIA nuno fox
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em con tagem decres cent e
N
omeada a 5 de fevereiro
de 1974, uma comissão
de redação trabalha
afincadamente num
documento que sirva de base ao futuro
programa político do 25 de Abril.
Compõem-na o major Melo Antunes, o
tenente-coronel Costa Braz e os capitães
Sousa e Castro e Moreira de Azevedo.
“Encontrámo-nos por três vezes em minha
casa, na mesma rua onde ainda vivo, a
Margarida Palla, em Algés”, conta Manuel
da Costa Braz. No horizonte dos jovens
oficiais, capitães na sua grande maioria,
com uma idade média pouco superior
a trinta anos, está o fim da guerra,
sendo cada vez mais nítida a convicção
que tal objetivo implica o derrube do
regime. Depois de grande discussão,
Melo Antunes, Costa Braz e Sousa e
Castro redigem cada um o seu texto, a
ser apresentado a quem os nomeara: a
Comissão Coordenadora do Movimento
dos Oficiais das Forças Armadas (MOFA).
A guerra, iniciada em Angola em 1961
mas que rapidamente se estendera à
Guiné e a Moçambique, vai já no décimo
terceiro ano. À beira do esgotamento, os
militares — os profissionais, mas também
os milicianos — nada mais podem fazer.
A solução para a guerra não é militar
mas sim de ordem política, competindo
ao Governo e não às Forças Armadas.
O INÍCIO DA CONSPIRAÇÃO
Uma primeira atitude coletiva contra a
política de beco sem saída fora tomada
aquando do Congresso dos Combatentes,
realizado em junho de 1973, no Porto.
Organizado pela extrema-direita, o
congresso suscitara um abaixo-assinado
de protesto de 400 oficiais, entre os
quais Ramalho Eanes, que decidiram não
comparecer. No mês seguinte, a 13, fora
publicado o decreto-lei nº 353/73, relativo às
carreiras de oficiais do Exército. Desde 1964
que havia falta de candidatos à Academia
Militar, tornando cada vez mais escasso
o recrutamento de oficiais para as três
frentes, situação que o diploma torneava,
permitindo a rápida entrada no Quadro
Permanente (QP) dos oficiais milicianos.
Os capitães de abril Vasco
Lourenço, Nuno Santos Silva,
Luís Costa Correia, Moreira de
Azevedo, Luís Pimentel, Garcia
dos Santos, Frederico Morais,
Teófilo Bento, Pinto Soares,
Otelo Saraiva de Carvalho,
Parreira de Campos e Delgado
da Fonseca, no início de março
nas varandas da Associação
25 de Abril, em Lisboa
Temendo ser ultrapassados nas promoções,
os oficiais formados na Academia reagiram
em voz grossa, a ponto de o Governo ser
obrigado a recuar parcialmente, aprovando
em 20 de agosto o decreto nº 409/73.
Indignados com a atabalhoada
legislação, 51 oficiais do QP do Exército
em serviço na Guiné subscreveram a 28
de agosto uma exposição de carácter
profissional, que é considerado o primeiro
documento dos capitães. Era o início da
chamada “guerra dos papéis”, que, a 9
de setembro, ganhou corpo numa inédita
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em co ntag e m dec r e sc e n t e
reunião numa herdade em Monte Sobral
(junto a Alcáçovas, uma vila a 25 kms
de Évora), com 136 capitães, tenentes
e alferes a subscreveram um abaixoassinado ao presidente do Conselho,
Marcello Caetano, a pedir a revogação
dos controversos diplomas. Preparando
o futuro, elegeram uma comissão de
coordenação, de que faziam parte Otelo
Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço
e Sousa e Castro, entre outros. Como
assinala Maria Inácia Rezola (em “25 de
Abril. Mitos de uma Revolução”), era “o
nascimento do Movimento dos Capitães e
o início da conspiração”, que logo alastrou
a Angola e Moçambique.
Principal responsável pela controversa
legislação, o ministro da Defesa, general
Sá Viana Rebelo (mais conhecido entre
o jovem oficialato como o “meia nau”),
é afastado do Governo a 7 de novembro.
Pela primeira vez na história do Estado
Novo, a pasta é entregue a um civil, o
ex-ministro do Ultramar, Silva Cunha.
Mas nem a promessa de um substancial
aumento de vencimentos trava o
descontentamento. As reuniões sucedemse, mais organizadas e participadas,
mesmo se limitadas ao Exército. A
1 de dezembro, na Casa do Povo de
Óbidos, o movimento passa a designar-
se Movimento dos Oficiais das Forças
Armadas (MOFA) e decide eleger dois
“chefes prestigiados”: os generais Costa
Gomes e António de Spínola. Quatro
dias depois, na Costa da Caparica, a
coordenadora elege uma direção: Otelo,
Vasco Lourenço e Vítor Alves, equipa que
se manterá até ao 25 de Abril.
A SURPRESA MELO ANTUNES
A circular nº 1/74 do movimento data de
23 de janeiro. O tema já não são questões
corporativas, mas os acontecimentos
na Beira, em Moçambique, onde a
população branca contesta na rua a
alegada passividade da tropa. O assunto é
discutido num encontro de Otelo e Vasco
Loureço com Spínola, o primeiro desde a
constituição do movimento, e que não se
opõe à emissão do comunicado, noticiado
na BBC e no “Le Monde”. A agenda dos
‘capitães’ é cada vez mais política. A
eventualidade de um golpe de Estado,
como forma de pôr fim à guerra, começa
a ser encarada, da mesma forma como
urge a elaboração de um programa que
congregue os oficiais. Em casa de Vasco
Lourenço, no Estoril, é aprovado a 26 de
janeiro um texto programático elaborado
pelo capitão Moreira de Azevedo. E a 3
de fevereiro, em casa de Otelo, decide-
se fazer o levantamento das forças
militarizadas e policiais, incluindo a DGS
e a Legião Portuguesa. Como precaução,
Vasco Lourenço é encarregado de
elaborar uma lista de pseudónimos para
os membros da coordenadora e Otelo
passa a ser o ‘eng. Óscar Pinto’...
Na noite de 5 de fevereiro de 1974 realizase outras das importantes reuniões do
MOFA. Entre as 26 presenças na cave da
residência do coronel Marcelino Marques
há caras novas: o major Melo Antunes e os
tenentes-coronéis Garcia dos Santos e Costa
Brás. O único com currículo nos combates
da oposição democrática à ditadura,
Ernesto Melo Antunes, fora recrutado dias
antes por dois oficiais da Marinha, Almada
Contreiras e Martins Guerreiro; intelectual
autodidata, com três comissões em Angola,
arrasta consigo o trauma de combater no
“lado errado” da guerra.
Garcia dos Santos é um engenheiro
da arma de transmissões, de que é um
grande especialista. Quanto a Manuel da
Costa Braz, fora aliciado por Vítor Alves
e Sanches Osório, colegas no curso de
Estado-Maior. Com três comissões no
lombo, tem 38 anos e pertence ao naipe
dos militares mais velhos envolvidos no
golpe. Além disso é dos que têm patente
mais elevada, já que haverá apenas mais
Portugal e o mundo há 40 anos
SANDUÍCHES
COM prEçO LIVrE
Podem ser de fiambre ou
queijo, com ou sem manteiga,
mas as sanduíches em pão de
carcaça até 60 gramas deixam
de estar submetidas à disciplina
de preço e passam ao regime de
homologação prévia. de acordo
com esta, caberá aos industriais
do sector propor o valor a
aplicar. até então (09/02), as
sanduíches tinham de ser
vendidas a vinte e cinco tostões
em todo o país.
MENINgItE ALArMA
NOrtE DO pAÍS
mais duas crianças foram
internadas (14/03)no Hospital
de são João, no Porto, devido
à meningite. Já haviam
falecido dois menores e vários
estabelecimentos de ensino
foram encerrados na região
norte. tudo começou na zona
de gondomar, mas o diretorgeral de saúde, arnaldo
sampaio, desdramatiza
a situação. “apareceram
vacinas promissoras, com um
resultado muito satisfatório,
mas que ainda não estão
no mercado”, afirmava na
altura. desde então, a doença
infetocontagiosa passou a
fazer parte do plano nacional
de vacinação e tornou-se
uma patologia de declaração
obrigatória às autoridades
de saúde. em 1974 foram
registados 351 casos e, em
2012, os registos referem 76.
SOLjENItSyNE ExpULSO
DA UNIÃO SOVIÉtICA
o prémio nobel de Literatura
de 1970, alexander soljenitsyne
(na foto), chegou à república
Federal alemã (15/02), após ter
sido expulso da União soviética,
devido às suas críticas ao
regime. o escritor fora preso na
sua residência, nos arredores
do Kremlin, em moscovo,
uma detenção criticada por
intelectuais em todo o mundo.
o autor de “o arquipélago
gulag” denunciara os campos
de trabalho forçado da Urss.
trIbUNAL AbSOLVE
CHAMpALIMAUD
o tribunal absolveu antónio
champalimaud (na foto) no
polémico caso da Herança
sommer (06/04/1973), o
mais demorado da justiça
portuguesa no século XX.
a decisão dos juízes foi
unânime, ilibando o industrial
das acusações de apropriação
indevida de património que,
desde 1957, o seu irmão carlos
lhe fazia relativamente a um
lote de 10% do capital da
cimentos de Leiria, que
pertenceram ao tio
de ambos, Henrique
sommer. este
diferendo familiar fez
com que antónio
champalimaud
— que chegou a
ser considerado
o detentor
da sétima
maior fortuna
da europa
— fugisse
de Portugal,
tendo-se
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em con tagem decres cent e
A 5 de fevereiro de 1974, as ideias básicas
do programa do MFA já estavam definidas:
democracia, eleições e uma solução política
para a guerra (eufemismo para o fim
do conflito) e abertura de negociações
três ou quatro tenentes-coronéis entre
os golpistas, e um único coronel (Vasco
Gonçalves, o decano dos conspiradores).
O texto de Moreira de Azevedo volta a
ser discutido. “Toda a gente começou
a bater no documento”, considerando
que “estava muito aquém daquilo que se
queria, muito voltado para as questões
militares” — recorda Vasco Lourenço
no livro de memórias (“Do Interior da
Revolução”). Costa Braz é um dos mais
cáusticos: “Fui, com o Melo Antunes, um
dos críticos, fiz a síntese das principais
intervenções, bem como a proposta de
um novo alinhamento temático”. Para
a elaboração de um novo documento,
que sirva de base ao futuro programa, é
eleita uma comissão de redação, formada
por Melo Antunes, Costa Braz, Sousa e
Castro e pelo autor do texto chumbado.
Para Costa Braz, “esta reunião foi um
ponto de viragem do Movimento”.
Desta comissão saem três textos
— que Otelo publica no seu livro
“Alvorada em Abril”.“Não houve
grande consenso”, confirma Sousa
e Castro. “Mas as ideias básicas já
estavam definidas: democracia, eleições
e uma solução política para a guerra,
que era um eufemismo para o fim da
guerra e abertura de negociações.”
Os documentos são apresentados a
uma reunião a 25 de fevereiro, à qual
comparecem quadros da Força Aérea
e capitães das várias escolas práticas,
como Salgueiro Maia, de Cavalaria.
Avança-se para a convocação de um
plenário em Cascais, com o debate a
refugiado no méxico durante
cinco anos. com esta decisão,
o industrial acaba por
regressar a Portugal.
Duquesa De CaDaval
na lista Das mais
elegantes Do munDo
a lista (10/02) não é grande e
inclui apelidos sonantes como
rothschild ou Wyatt, mas
entre os 24 mais elegantes
do mundo há uma referência
a Portugal, com a escolha da
duquesa de cadaval. Uma
das casas mais antigas da
aristocracia nacional, o ducado
remonta a 1648 e a
d. nuno Álvares Pereira de
melo, o primeiro duque de
cadaval. claudine marguerite
marianne tritz recebeu o título
ao tornar-se a segunda mulher
de Jaime Álvares Pereira de
melo, 10º duque de cadaval.
Christiana Martins
aGEnDa CULtUraL
a publicação do primeiro
e do segundo volume de “Poesia
toda”, de Herberto Helder,
foi um dos mais importantes
acontecimentos literários de
pré-25 de abril. a 2 de março de
1974, maria teresa Horta, então
crítica no expresso, dedicavalhe o texto principal da secção
de Livros. e, sem papas na
língua, descrevia-o como “um
dos raros poetas portugueses
independentes, capaz de
compreender o que é escrever
poesia em liberdade”. os dois
polarizar-se em torno dos textos de Melo
Antunes e de Costa Braz.
Para os fundir, a comissão de redação
trabalha a 3 de março, em casa do capitãopiloto-aviador Seabra, em Algés. À reunião
juntam-se representantes da Marinha e
da Força Aérea, que exprimem as suas
condições e reservas. “A ideia era começar
a catequizar o pessoal da Força Aérea, que
estava muito renitente, com uma grande
vinculação ao Kaúlza de Arriaga”, explica
Sousa e Castro, para quem os paraquedistas
“eram uns guerreiros, que queriam andar
aos tiros”. A redação final, que exprime as
posições do Exército, é entregue a Melo
Antunes. “O Ernesto era bestialmente
preguiçoso a escrever”, recorda Costa Braz.
“Estava no curso do Estado-Maior, fora para
exercícios no Algarve e nunca mais fazia
o papel.” Assim que chega o manuscrito,
é datilografado por Sousa e Castro. “Foi
um documento decisivo”. Chama-se “O
‘Movimento’, as F.A. e a Nação”.
Simultaneamente, Otelo, Vítor Alves
e Hugo dos Santos avistam-se com um
grupo de oficiais do Quadro Permanente
oriundo de milicianos, para tentar esbater
tensões e desconfianças. A iniciativa é
coroada de êxito. No plenário de Cascais, a
5 de março, as duas categorias de oficiais
já vão remar na mesma direção. ^
volumes publicados há pouco
compreendiam todos os poemas
de Herberto Helder escritos
entre 1953 e 1971. Já nessa
altura, o poeta retrabalhava os
seus textos, introduzindo-lhe
alterações de composição, assim
como reorganizava conjuntos
de poemas que muitas vezes
acabavam por ser absorvidos
por outros conjuntos. as
qualidades de “operário
e artífice” das palavras,
retalhando-as com audácia,
permitiam com mais facilidade
a Herberto Helder escapar ao
lápis azul da censura, que ao lêlo provavelmente se perdia nas
suas ardilosas teias de imagens.
de fevereiro de 1974 era
“agosto de 1914”, da autoria
de aleksandr soljenistsyne,
célebre romancista russo,
que neste livro relataria
vividamente a história da
sua família. em segundo
lugar no top encontrava-se
a obra de mário Henrique
leiria “novos Contos do
gin-tonic”, um clássico da
literatura surrealista nacional.
estamos em plena Primavera
marcelista e nada aqui é já
muito convencional, cada
artista expressa-se como quer.
aLExanDra Carita
muito apreciado pela
crítica, a obra do poeta não
constava, porém, do top
de best-sellers (Herberto
Helder nunca foi um autor
para as massas). o livro mais
vendido da última quinzena
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em co n tag e m dec r e sc e n te
À ESPERA
DE ABRIL
2 2
FEVEREIRO
António de Spínola,
de luvas e pingalim,
passa revista a tropas
africanas na Guiné. Foi
em Bissau que trabalhou
o seu famoso livro
“Portugal e o Futuro»,
que apressou a queda
da ditadura
O livro
que anuncia o fim
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em con tagem decres cent e
arQUIVo “a caPItaL/IP”
P
Avalizado por Costa Gomes,
o superior hierárquico de Spínola,
“Portugal e o Futuro” transformou-se
numa bandeira. Assim que o leu,
Marcello Caetano percebeu
que o regime estava por um fio
teXto JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA
ortugal vive hoje, sem dúvida,
uma das horas mais graves,
senão a mais grave, da sua
História”. Assim começa, em
tom dramático, quase trágico, o livro
“Portugal e o Futuro”. Da autoria do
general António de Spínola, chega às
livrarias no dia 22 de fevereiro de 1974.
A primeira edição, com a chancela da
Arcádia — uma editora pertencente
ao poderoso grupo CUF — é de 50 mil
exemplares e esgota-se num ápice. O
sucesso do livro dá a exata medida da
saúde do regime.
A ideia de o escrever nascera em Bissau,
em outubro de 1972. Governador-geral
da Guiné ainda nomeado por Salazar,
Spínola entrara em rutura com Marcello
Caetano sobre os caminhos a seguir sobre
o fim da guerra. Na Guiné, ela arrastavase cada vez mais penosa, com a relação
de forças a pender de forma crescente
para o PAIGC. Caetano fechara todas as
portas a qualquer solução política para o
conflito: proibira Spínola de prosseguir
as conversações com o Presidente
do Senegal, Leopold Senghor, que se
oferecera como intermediário, e vetara
a hipótese de uma cimeira do general
com Amílcar Cabral, o líder do PAIGC.
“É preferível sair da Guiné por uma
derrota militar com honra, do que por
um acordo negociado com os terroristas”,
sentenciara o chefe do Governo. Chocado
com a crueza do argumento, Spínola
decidira passar ao papel as suas reflexões
políticas, caldeadas por 12 anos de uma
guerra sem horizonte.
Sucessivas versões, datilografadas pelo
sargento José Gonçalves, são enviadas a
alguns dos seus mais fiéis colaboradores.
Sobretudo militares de carreira: Dias de
Lima, Almeida Bruno, Carlos Morais,
Firmino Miguel, Carlos Azeredo, Robin
de Andrade, Carlos Fabião, mas também
o miliciano António Ramos. Civis são
sobretudo os dois consecutivos chefes de
gabinete: João Diogo Nunes Barata e José
Blanco. “Enviava-me fotocópias, pedindolhe que lhe desse a minha opinião”, recorda
o primeiro; “guardei a primeira versão
num dossiê com argolas”. De acordo com o
biógrafo, Luís Nuno Rodrigues, o segundo
é o autor do título, extraído de uma lista
de uma dúzia de sugestões. Quanto ao
conteúdo, inspira-se nos deputados
da ala liberal, Francisco Sá Carneiro e
José Pedro Pinto Leite, no ministro da
Educação, Veiga Simão, e no presidente da
Gulbenkian, Azeredo Perdigão.
Alguns dos adversários e inimigos de
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em co ntag e m dec r e sc e n t e
arQUIVo eXPresso
O Presidente da República,
Américo Tomás, condecora
Spínola. Tomás foi contra
a publicação do livro,
a que nas suas memórias
chamou “Portugal sem
Futuro”
Spínola — como Costa Gomes e Vasco
Lourenço — afiançam que não foi ele quem
escreveu o livro. O principal redator teria
sido o então major Jorge Pereira da Costa,
que chefiara o Serviço de Informações
Militares na Guiné, onde era conhecido
pela alcunha de “Astérix”. Pereira da Costa
escusou-se sempre a falar do assunto: “Isso
pertence a uma fase da minha vida que não
estou interessado em recordar”. Almeida
Bruno, um spinolista de sempre, diz que o
general “é quem escreveu, mas o Pereira da
Costa foi realmente uma peça vital”.
Com o manuscrito na bagagem,
o homem do monóculo regressa de
vez a Lisboa a 6 de agosto de 1973.
Condecorado com a “Torre e Espada”,
Caetano não desconhece que é um
dos generais mais prestigiados, que o
semanário Expresso elege como “Político
do Ano”. Na remodelação governamental
de novembro, convida-o para ministro
do Ultramar. Spínola rejeita — este e
outros cargos para os quais é sondado.
Até que, por sugestão de Costa Gomes,
chefe do Estado-Maior-General das
Forças Armadas, é criado um lugar
especial — o de vice-CEMFGA, número
dois da hierarquia militar. A posse é a 14
de janeiro de 1974, com Spínola a avisar
que as Forças Armadas não são a “guarda
pretoriana do poder”.
A publicação do livro implica uma
prévia autorização superior. Spínola
tenta evitá-la, mas Marcello insiste com
os regulamentos militares e oferece-se
para ser ele próprio a ler o manuscrito,
prometendo a “maior largueza de
espírito”. Como solução de compromisso,
o autor aceita sujeitar o livro à apreciação
do superior hierárquico, o general
Costa Gomes. Admitindo uma eventual
proibição, trabalha na sombra — como
dirá ao Expresso, na sua última entrevista
— para que o livro fosse “inevitavelmente
publicado, apesar da censura...”
O parecer de Costa Gomes é favorável:
“O general Spínola defende com muita
lógica uma solução equilibrada”.
Embaraçado com esta opinião, o
ministro da Defesa, Silva Cunha, inclinase para a proibição — uma solução que
o Presidente da República, Américo
Tomás, lamenta que não tenha sido
tomada. O chefe do Governo, porém,
discorda, porque isso equivaleria a
Portugal e o mundo há 40 anos
Pinochet Proíbe
atividades Políticas
o general que se tornou
Presidente do chile após o
golpe militar de 11 de setembro
de 1973 que derrubou
salvador allende decidiu
proibir todas as atividades
políticas durante cinco anos.
augusto Pinochet (na foto)
governou o chile sob ditadura
até 1990, tendo-se tornado a
seguir senador vitalício, cargo
criado especificamente para
si. em 1973 terão morrido
70 dissidentes vítimas da
violência do regime. o ditador
acabaria por falecer em 2006,
ironicamente considerado
o dia internacional dos
direitos Humanos, tendo
sido enterrado com honras
militares.
Jorge de brito
reconduzido no biP
a assembleia-geral do Banco
Intercontinental Português
(BIP, 22/02) decidiu reconduzir
o seu acionista Jorge Brito
Pereira para a liderança da
instituição financeira. em
1974, Jorge de Brito viria a ser
acusado de utilizar os
depósitos dos clientes para
os seus negócios pessoais.
acabaria por ser preso
durante o Prec (13/12/1974),
tendo estado preso ao
longo de ano e meio. o BIP
foi incorporado no Banco
Pinto & sotto mayor, na
altura nas mãos do estado,
como forma de saldar as
dívidas assumidas pela
instituição. Jorge de Brito
foi presidente do Benfica e
constituiu ao longo da vida
uma importante coleção de
arte, com mais de três mil
peças de pintura, desenhos,
objetos e livros. Parte desta
coleção foi negociada com a
Fundação gulbenkian, tendo
outras obras importantes
sido depositadas na Fundação
arpad-szenes-Vieira da silva.
Jorge de Brito faleceu em
Lisboa em 2006.
Posse do reitor da nova
universidade do Minho
o ministro da educação,
José Veiga simão (na foto
da página seguinte),
deu posse (17/02) ao
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em con tagem decres cent e
afrontar os dois generais, que gozam
de enorme popularidade junto dos
jovens oficiais. Contrafeito, Silva Cunha
autorização a publicação, “com a ressalva
de não conhecer o texto”.
Acabados de sair da tipografia, Spínola
oferece os primeiros exemplares a Tomás e
a Caetano. Presidente da República desde
1958, Tomás escreveu nas suas memórias
(“As Últimas Décadas de Portugal”)
que lhe bastou uma “primeira e rápida
leitura” para o crismar “profeticamente”
de “Portugal sem Futuro”. O exemplar
de Caetano é acompanhado de uma
dedicatória, como “testemunho da sua
identificação com a política de ‘renovação
na continuidade’ e ‘evolução sem
revolução’ em boa hora anunciada ao país”.
Só na noite de dia 20 é que Caetano
tem ensejo de o folhear. Julgava que seria
“apenas a exposição e defesa da tese
federalista” para os territórios ultramarinos,
que ele próprio defendera dez anos antes. O
livro, porém, é muito mais do que isso. “Já
não larguei a obra antes de chegar à última
página, por alta madrugada”, confessa na
obra “Depoimento”. “E ao fechar o livro
tinha compreendido que o golpe de Estado
militar, cuja marcha eu pressentia há meses,
era agora inevitável”.
OTELO: “UM LIVRO BOMBÁSTICO”
O livro sai a 22. Convocados por Caetano,
os dois generais apresentam-se em
São Bento nessa manhã. “Marcello
reitor da recém-criada
Universidade do minho,
carlos alberto Lloyd
Braga. a instituição
integra o grupo das
“novas Universidades”,
responsáveis pela mudança
do panorama do ensino
superior em Portugal.
as atividades académicas
iniciar-se só no ano
letivo de 1975/76. C. M.
Spínola ofereceu os dois primeiros exemplares
do livro, acabados de sair da tipografia,
a Tomás e a Caetano. A este o autor
fez uma dedicatória, identificando-se
com uma “evolução sem revolução”
Caetano recebeu-nos friamente”,
recorda Spínola, “com a declaração
de que aquele momento era dos mais
graves e dolorosos da sua vida”. Caetano
dispõe-se a entregar-lhes o poder e que
o reivindiquem junto do Presidente da
República. Os militares, contudo, rejeitam
a sugestão de conversações com Tomás,
que lidera a ala mais cega do regime.
À tarde, o jornal “República”, ligado
à oposição, traz como manchete: “A
vitória exclusivamente militar é inviável
— escreve António Spínola no seu livro
‘Portugal e o Futuro’ hoje posto à venda”.
Letras pretas em fundo branco, o
livro ganha imediatamente a dimensão
de best-seller. O embaixador dos
EUA em Lisboa, Stuart Scott, relata
para Washington que o livro atingira
Portugal “como um verdadeiro
relâmpago” e que constituíra uma
“autonomeação” de Spínola “para a
liderança nacional”. Muitos oficiais
passam a designá-lo pelo nome de
AGENDA CULTURAL
com uma atividade muito
intensa artisticamente,
Lisboa mostra ainda
trabalhos de pintura de
Paula Rego, Nadir Afonso,
Jorge Pinheiro, Cesariny,
António Charrua e Joaquim
Bravo. as exposições
individuais também se
multiplicam: “edmundo
oliveira silva e a sua
código de “a bíblia”. No “Alvorada
em Abril”, Otelo chama-lhe “livro
bombástico”. A conspiração ganha um
alento reforçado.
Ao preço de capa de cem escudos, a
primeira edição, da responsabilidade
de Paradela de Abreu, é de 50 mil
exemplares. A campanha publicitária
prevê um spot de oito segundos na RTP,
que a Censura proíbe. Primeira vítima,
Paradela é despedido da Arcádia em
março. É substituído por Nelson de
Matos, já depois do 25 de Abril. “Estreeime como editor com uma nova edição do
‘Portugal e o Futuro’. Fui a casa do irmão
de Spínola, em Massamá, em maio, para
introduzir várias emendas. Foi muito
delicado comigo, não foi nada aquele
general mandão...”
As cinco edições do livro vendem 220
mil exemplares — número astronómico
para uma obra de carácter político. Sem
contar com as edições em sete línguas —
incluindo o chinês. ^
paisagem abstrata na galeria
ottolini; ana Vieira e os
seus quadros de poliéster
tridimensionais na galeria
Judite dacruz; e a pintura
de silva Palmeira na galeria
opinião, completam a agenda
cultural em português.
Uma exposição de obras
de artistas europeus
representados no MoMA
(museum of modern
art) de nova Iorque, na
Fundação gulbenkian,
marca o início do mês de
fevereiro no mundo das
artes da capital portuguesa.
Peças de autores como
Balthus, Chagall, De
Chirico, Kandinsky, Klee,
Modigliani, Malevich,
Brancusi, Picasso, Matisse,
Tanguy ou Kokoschka
entre muitos outros são
pela primeira vez vistas
em Portugal e revelam ao
público uma nova visão de
uma arte a que não estava
habituado. Isto porque o
fecho de portas a vozes
dissonantes e a olhares
alternativos aos valores mais
conservadores mantinha
Portugal fora do mundo.
ao mesmo tempo, numa
curadoria de José ernesto de
sousa, artistas como Costa
Pinheiro, José Rodrigues,
Alberto Carneiro, Álvaro
Lapa, João Vieira e Eduardo
Nery apresentam as suas
“Ideias-Projeto”. A. C.
25 Abril 40 anos | 65
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em co ntag e m dec r e sc e n t e
À ESPERA
DE ABRIL
1 4
MARÇO
Generais
prestam
vassalagem
Caetano convocou os principais comandos militares a São Bento,
para um juramento de fidelidade ao regime. Costa Gomes e Spínola
recusaram juntar-se à ‘brigada do reumático’. Era a rutura final. No
dia seguinte foram exonerados, o que ampliou a ira dos capitães
TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA
M
arcello Caetano
aproveita os dias de
Carnaval de 1974 para
descansar e meditar no
seu habitual refúgio no Buçaco. Chefe do
Governo há mais de cinco anos, nunca
tivera tantos problemas como agora,
com a publicação do livro do general
Spínola, “Portugal e o Futuro”. De
regresso a Lisboa, a 28 de fevereiro pede
uma audiência urgente ao Presidente da
República. No livro “As Últimas Décadas
de Portugal”, Américo Tomás relata
que “o assunto tratado foi, quase que
exclusivamente, a difusão inconveniente”
do livro. O almirante é ríspido e critica
“as fraquezas” com que o caso fora
tratado, o que leva Caetano a pedir a
“exoneração” de presidente do Conselho
e a formação de um novo governo. O
chefe de Estado, porém, recusa.
Caetano procura retomar a iniciativa e
pede à Assembleia Nacional que aprove
uma moção sobre política ultramarina,
apoiando a conduta do Governo.
Cuidadoso, dá indicações para que o
texto a ser discutido pelos deputados não
belisque o livro.
Na tarde de 5 de março discursa em São
Bento para refutar as teses federalistas
do general, sem que, também ele, faça
uma única referência ao livro ou ao
autor. Ao invés, elogia uma coletânea dos
seus próprios discursos, a que chamara
“Razões da Presença de Portugal no
Ultramar”, acrescentando: “Como eu
gostaria que muitos portugueses lessem
essas páginas”. A sessão é transmitida
em direto pela televisão. “O discurso teve
larga repercussão no país e emocionou
fortemente”, assinala Caetano no
“Depoimento”, o livro de memórias
editado no Brasil ainda em 1974. “A
correspondência que todos os dias se
recebia na Presidência do Conselho”
atinge então “um dos seus números
recorde com mais de noventa por cento
de aplausos”. No debate da moção
apenas um deputado se distancia: João
Bosco Mota Amaral, que pugna por uma
“autonomia progressiva e participada do
ultramar” e que é fustigado por alguns
dos seus pares da ala ultra. A moção
manifesta o “apoio à política do Governo,
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Fototeca
em con tagem decres cent e
que vem sendo claramente definida
e sustentada pelo sr. presidente do
Conselho, em particular no que respeita
à defesa e valorização do Ultramar”. A
votação é unânime, o que só se torna
possível devido ao abandono ostensivo do
hemiciclo por parte do deputado açoriano.
Nessa mesma noite, 194 oficiais das
Forças Armadas reúnem-se em segredo
no ateliê do arquiteto Braula Reis, em
Cascais; aprovam um manifesto, que
servirá de base ao futuro programa
do MFA, e confirmam Costa Gomes e
Spínola como chefes do movimento.
Confortado pelo apoio unânime da
Assembleia Nacional, a 7 de março
Caetano recebe Spínola no seu gabinete.
O tema único da conversa, algo azeda, é o
livro, que o governante compara a “uma
confissão de fraquezas patenteada ao
inimigo”.
Decidida a pôr termo à conspiração dos
capitães, a hierarquia do Exército ordena
a transferência compulsiva de alguns dos
principais ativistas. O destino de Vasco
Lourenço e Carlos Clemente é os Açores,
enquanto Ribeiro da Silva irá para a
O chefe do Governo, Marcello
Caetano, agradece o juramento
da hierarquia militar. Costa Gomes,
que recusara ser o porta-voz das
Forças Armadas, foi substituído
pelo general Paiva Brandão
Madeira e David Martelo para Bragança.
Reunido de emergência, o movimento
dispõe-se a impedir aquelas sanções. O
capitão-tenente Almada Contreiras é
encarregado de transmitir ao ministro da
Marinha, almirante Pereira Crespo, que
o movimento não aceita a transferência
compulsiva dos quatro oficiais. Como
protesto, é programada a convocação
dos oficiais do movimento, para
comparecerem em massa no Ministério
do Exército, devidamente fardados, na
manhã de dia 9. Perante as informações
comunicadas ao ministro da Marinha,
a hierarquia militar emite uma ordem
de prevenção rigorosa para as Forças
Armadas e de segurança para dia 9.
Desde 1961, aquando da ‘abrilada’ — a
tentativa de golpe palaciano liderada
pelo ministro da Defesa, general Botelho
Moniz — que não era dada semelhante
ordem. O estado de prevenção impede a
saída dos oficiais das respetivas unidades
e inviabiliza o projetado protesto.
Vasco Lourenço e Ribeiro da Silva são
detidos no próprio dia 9; enviados para o
presídio militar da Trafaria, não tardam a
embarcar para as ilhas, consumando-se a
transferência compulsiva.
Caetano volta ao Palácio de Belém a 11,
para expor um projeto de remodelação
governamental. Tomás está transfigurado
e responsabiliza Caetano pela publicação
do livro, acentuando que “ignorância ou
inocência não são de admitir”. Ao contrário
do que sempre acontecera, o Presidente
faz reparos a todos os nomes submetidos.
“Mal disposto e visivelmente descontente”
— como o próprio reconhece —, Tomás
exige a exoneração, “sem demora”, de
Costa Gomes e Spínola dos cargos que
desempenham, o que parece deixar
Caetano “em pânico”; este concorda que
a audiência “terminou num ambiente
de certa tensão, como nunca sucedera”.
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Quando Tomás regressa do almoço, depara
com uma curta carta de Caetano, com um
segundo pedido de demissão, desta feita
por escrito. “A nossa conversa desta manhã
radicou-me a convicção de que não devo
continuar na chefia do Governo. Peço, pois,
a Vossa Excelência o favor de promover a
minha substituição.” O motivo invocado é
o maldito livro. “Pelo erro cometido devo
pagar”.
Boquiaberto, o Presidente aconselhase com os ministros da Defesa e do
Interior antes de convocar Caetano.
A exoneração volta a ser rejeitada por
Tomás: “Já é tarde para, qualquer de nós,
abandonar o seu cargo — temos de ir
até ao fim (ou seja, na realidade, vencer
ou ser vencido)”. Caetano não ignora
a popularidade dos dois generais junto
dos escalões intermédios das Forças
Armadas. Acredita que se os “conservar
nos seus postos” evitará mais “pretextos
para o recrudescimento da indisciplina”.
Mas para tanto torna-se necessário que
façam “qualquer coisa” que permita
“ao governo mantê-los”. A 12, expõe
aos ministros das pastas militares o seu
plano: promover uma cerimónia em que
o CEMGFA, Costa Gomes, acompanhado
do seu vice, Spínola, e de todos os
generais em serviço na metrópole, faça
uma “declaração solene” em como
as Forças Armadas não têm “política
própria” e que se dispõem a “cumprir
as diretivas traçadas pelos poderes
constituídos”. Garantida a vassalagem,
“nada impediria que fossem mantidos
nos seus lugares”.
Cabe ao ministro da Defesa, Silva
Cunha, convidar Costa Gomes. Segundo
o biógrafo, Luís Nuno Rodrigues, este
recusa-se “abruptamente a tomar parte
nessa reunião”. A justificação é dada anos
depois, em entrevista a Maria Manuela
Cruzeiro: “A generalidade das Forças
Armadas não concordava com aquela
manifestação: elas eram contrárias à
guerra, enquanto a manifestação era pela
continuação da guerra”. Costa Gomes
conta com a solidariedade de Spínola.
A rutura está consumada. Temendo as
consequências, o ministro da Educação
multiplica-se em contactos com Caetano
e Spínola. No livro “O 25 de Abril e o
Ultramar”, Veiga Simão conta que teve
quatro encontros com Caetano, a quem
fez chegar “propostas” do general, e que
sugeriu “o cancelamento” da vassalagem
do generalato. Sem êxito. Mesmo
assim, foi a pedido do ministro que, na
véspera da cerimónia, Caetano “acedeu
a receber os generais Spínola e Costa
Gomes”. As audiências realizam-se a 13.
O chefe do Governo avisa-os que a “nãocomparência” implica “a exoneração” de
ambos.
A “brigada do reumático” — como
ficou popularmente conhecida —
comparece no dia 14 na sala nobre do
Palácio de São Bento. Presentes todos os
arQUIVo “a caPItaL/IP”
em co ntag e m dec r e sc e n t e
Portugal e o mundo há 40 anos
Novo livro
de eNid BlytoN
“o circo Voltou” foi escrito em
1942 pela autora inglesa de
romances juvenis enid Blyton,
mas demorou 32 anos a ser
editado em Portugal. chega
(28/02) com a chancela da
Livraria clássica editora e é o
último volume de uma trilogia
sobre o universo circense. os
livros de Blyton, que escreveu
cerca de 800 obras, traduzidas
em mais de 90 línguas, e que
faleceu em 1968, continuam
a ser editados em Portugal.
entre os seus títulos mais
célebres estão as séries “os
cinco”, “aventura”, “clube dos
sete”, “as gémeas” e “noddy”.
Uma obra que que já vendeu
mais de 600 milhões de cópias
em todo mundo e garante um
final feliz.
vitória surpresa
do laBour
o Partido trabalhista,
liderado por Harold
Wilson, venceu (02/03)
inesperadamente as
eleições na grã-Bretanha e
a derrota dos conservadores
abre novas perspetivas
parlamentares. entre as
surpresas destas eleições,
surge também a candidatura
de Vanessa redgrave, pelo
Partido revolucionário
trotskista. a atriz, contudo,
não chegou a ser eleita.
J. pimeNta com
fé No futuro
a assembleia-geral da
sociedade Industrial de
construções e turismo
J. Pimenta aprovou por
unanimidade (04/03)
as contas de 1973. a
atividade do grupo abrange
restauração, arrendamento
de apartamentos mobilados
para habitação ou turismo
e construção de imóveis
para venda. o grupo diz ter
capacidade para construir
anualmente três mil casas e
ter terrenos para mais dez mil
habitações. este otimismo
empresarial chegou ao fim
com a revolução de abril
e, progressivamente, foi
esquecido o refrão do anúncio
publicitário, “pois, pois,
J. Pimenta”. C. M.
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em con tagem decres cent e
Caetano apresenta a Tomás um segundo
pedido de demissão, desta vez por escrito.
O motivo invocado é o maldito livro
de Spínola. “Pelo erro cometido devo pagar”
Costa Gomes e Spínola:
após o 14 de março,
ficam claramente em
rota cúmplice de colisão
com Marcello Caetano
governantes militares e a generalidade
dos comandantes de unidades, bem como
da PSP, GNR, Guarda Fiscal e Legião
Portuguesa, sem esquecer o diretor-geral
da polícia política, a DGS.
Costa Gomes e Spínola faltam à
sessão, no que são acompanhados pelo
secretário da Defesa Nacional, contraalmirante Tierno Bagulho. Também a
extrema-direita falta à chamada, nas
pessoas dos generais Kaúlza de Arriaga
e Silvino Silvério Marques, bem como do
irmão deste, brigadeiro Jaime Silvério
Marques.
O juramento de obediência é feito
pelo mais antigo dos chefes dos EstadosMaiores, o general do Exército Paiva
Brandão. O texto fora previamente
submetido a Caetano. “Estamos unidos,
firmes e cumpriremos o nosso dever
sempre e onde quer que o exija o interesse
nacional”. Caetano agradece: “Dou o
maior valor às palavras que em vosso nome
acabam de ser proferidas. O chefe do
Governo escuta e aceita a vossa afirmação
AGENDA CULTURAL
acabado de nascer, o Teatro
da Cornucópia leva à cena,
no terraço do capitólio, duas
peças de marivaux, “a Ilha
dos escravos” e “a Herança”,
num só espetáculo encenado
por Jorge Silva Melo, com
cenografia de Luís Miguel
Cintra. de um lado, um jogo
de casais, do outro, um jogo
de interesses económicos.
de um lado, uma ilha
de lealdade e disciplina.” Aos jovens oficiais
lembra que “ainda no princípio do século
as marchas se faziam a pé”. “O país está
seguro de que conta com as suas Forças
Armadas” e “em todos os escalões destas
não poderão restar dúvidas acerca da
atitude dos seus comandos”.
FALTA DE CoRAGEm moRAL
A cerimónia é transmitida em
direto pela RTP. Spínola chamalhe “manifestação pública de
subserviência”, que “destruiu
irreversivelmente a coesão das Forças
Armadas”. Otelo Saraiva de Carvalho
assiste na sala de oficiais da Academia
Militar ao que chama “encenação da
farsa”. Sobre os principais ausentes
escreve no “Alvorada em Abril”: “Há um
género de papéis que gente de espinha
direita se recusa a representar”. A 18
de março o Movimento dos Capitães
reage com brutalidade, dizendo
em comunicado que os generais da
“brigada do reumático” “nada mais
imaginária no mar egeu, do
outro, os arredores de Paris
do século XIX. em palco, os
protagonistas são Luís miguel
cintra, dalila rocha e orlando
costa. as peças do século XVIII
(1725) fazem parte de uma
obra considerada o expoente
máximo da máscara e da
mentira, onde a linguagem é o
principal instrumento no qual
se escondem as personagens.
a subtileza e a complexidade
psicológica são outras das
ferramentas utilizadas pelo
dramaturgo francês para
puxar para a tona de água
temas mais profundos da
condição humana.
na mesma altura, meados
de março de 1974, o Grupo
representavam do que a si próprios e à
sua falta de coragem cívica e moral”.
O passo seguinte é inevitável: a demissão
de Costa Gomes e Spínola. Foi “um
subterfúgio para fugir à execução frontal”,
lamenta Américo Tomás. “Estava traçado
o destino do país”, comenta Spínola. No
seu livro “O Ultramar, a Nação e o ‘25 de
Abril’”, o ex-ministro da Defesa, Joaquim da
Silva Cunha, lembra: “Quando receberam
as guias de marcha para se apresentarem
no Ministério do Exército, ambos, cada
um por sua vez, me procuraram no meu
gabinete, afirmando compreenderem que,
depois do que se passarwa, a decisão não
poderia ser outra.” Caetano sublinha que
aos dois exonerados “foram mantidas todas
as prerrogativas que lhes cabiam como
general de quatro estrelas". Para o lugar
cimeiro das Forças Armadas é nomeado o
general Joaquim Luz Cunha — ex-ministro
de Exército, ex-comandante-chefe em
Angola e que, semanas antes, estivera
envolvido numa conspiração do setor mais
ultra do regime, batizada de «kaulzada»… ^
de Campolide de Joaquim
Benite e Virgílio Martinho,
põe em cena “Filopópulas”,
no campolide atlético club.
a peça manter-se-á em
palco até abril com salas
permanentemente esgotadas.
“a ceia”, uma criação coletiva
do grupo A Comuna, é
referenciado pelo expresso
com um espetáculo
“fundamental” e a “não perder
por nenhum motivo”. trata-se
de uma recolha de textos de
Brecht, Gil Vicente, Antero de
Quental (na foto), da Bíblia,
do Corão, de Vinicius de
Morais e de Mário Dionísio,
que João mota encena de
modo sublime e com muito
sucesso numa sala alternativa
na av. almirante reis, “junto
à cervejaria Portugália”. se
tivermos em conta que o
teatro era, como o cinema,
completamente controlado
pelos censores, que adotavam a
política de que era mais fácil ao
povo entender a sua mensagem
do que aquela passada através
de obras literárias, por exemplo,
percebemos que os brandos
costumes começam a tornar-se
mais radicais. A. C.
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em co ntag e m dec r e sc e n t e
À ESPERA
DE ABRIL
1 6
MARÇO
O golpe
fracassado
das Caldas
A demissão de Costa Gomes e de Spínola provocou
a revolta de algumas unidades militares. O quartel
das Caldas, porém, foi o único a sair para a rua.
Na primeira batalha, o Governo cantou vitória
TEXTO josé pedro castanheira
É
a última remodelação
governamental do regime
nascido do 28 de maio de
1926. A reorganização
fora adiada mais do que uma vez, devido
às ondas de choque provocadas pelo
livro de Spínola. Os novos ministros,
secretários e subsecretários de Estado
tomam finalmente posse a 15 de março. A
cerimónia “foi concorridíssima”, recorda
Marcello Caetano no seu “Depoimento”:
“A assistência (...) acolheu-me com
demorada e calorosa ovação. (...) Tudo
parecia ir-se encaminhando para uma
progressiva normalização.”
Sensivelmente à mesma hora, Spínola
almoça no Hotel Embaixador, em
Lisboa, com o seu staff de oficiais, com
quem tecera na Guiné uma estreita
cumplicidade. As informações recolhidas
apontam para um ambiente “explosivo”
em várias unidades, com muitas vozes
dispostas a “uma reação militar” face
à demissão do general do monóculo,
mas também de Costa Gomes. Spínola
procura atenuar os ímpetos coléricos,
argumentando que o momento não é o
mais “adequado”.
Como antecipação à cerimónia de
vassalagem a Caetano, chegara a ser
agendado um golpe para 14. O respetivo
plano de operações fora trabalhado pela
comissão militar do movimento. O major
Manuel Monge era um dos seus membros:
“Chegámos a reunir em minha casa, em
Algés, mas a maior parte das reuniões foi
em casa do Casanova Ferreira, que era o
mais antigo, na Rua das Mercês, à Ajuda”.
Casanova regressara dias antes de uma
comissão na Guiné. “As reuniões já não
resolvem nada. Vamos é prà porrada!” —
argumentava, segundo relata o livro “O
Movimento dos Capitães e o 25 de Abril”.
O plano, que incluía o lançamento de uma
bomba de 250 kg sobre a Assembleia
Nacional (sugerido pelo próprio
Casanova), foi considerado “inexequível”.
A exoneração dos dois generais,
porém, faz extravasar o copo da
paciência de numerosos oficiais mais
ligados a Spínola. A 15, em algumas
unidades há protestos mais ou menos
espontâneos. No Centro de Instrução
de Operações Especiais, em Lamego,
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em con tagem decres cent e
gUstaVo coeLHo
Imagens do cerco
e rendição do quartel
das Caldas da Rainha,
obtidas pelo soldado
Gustavo Coelho.
Incumbido de controlar
o aeroporto de Lisboa,
o RI5 foi o único a sair
para a rua
a maioria dos oficiais insubordina-se e
toma conta da unidade. A indignação
estende-se ao Regimento de Infantaria
14, de Viseu. Em Santarém reúnem-se
representantes de várias unidades, entre
as quais a Escola Prática de Cavalaria
e o Regimento de Infantaria 5 (RI5),
das Caldas da Rainha. Aqui, é grande a
impaciência, até porque três dos capitães
entretanto detidos e transferidos para as
ilhas (Vasco Lourenço, Ribeiro da Silva e
Carlos Clemente) serviram na unidade.
Em Lisboa, a Comissão Militar decide
pôr em prática parte do plano que
fora congelado. O capitão Armando
Ramos é enviado para as Caldas, a
cujo regimento é atribuída a missão
de controlar o aeroporto de Lisboa,
um ponto nevrálgico. Os revoltosos
neutralizam facilmente o comando da
unidade. O capitão Virgílio Varela é um
dos líderes. Membro da coordenadora
dos oficiais do Quadro Permanente
oriundos de milicianos, Varela
participara no plenário de 5 de março
em Cascais, onde fizera um vibrante
elogio de Spínola.
Às 2 da manhã, o capitão Ramos
fala para uma trintena de graduados.
Diz que Spínola está a ser convidado
a chefiar as operações, que envolvem
muitas outras unidades. A sublevação é
descrita por Joana de Matos Tornada,
no livro “Nas Vésperas da Democracia
em Portugal”: “Sem ligações ou
coordenação, mas bem apetrechada e
com grande otimismo”, a coluna parte
às 4h da manhã. “Constituída por 13
ou 14 viaturas (cada uma com quase 10
militares), era uma coluna especial ao
integrar aproximadamente 10 oficiais e
100 soldados dispostos a mudar o país.
Bem municiada com armas ligeiras,
metralhadoras pesadas, morteiros, lançagranadas e muitas granadas de mão.”
CAETANO E TOMÁS
REFUGIAM-SE EM MONSANTO
Detido no seu próprio gabinete, o
comandante do RI5 consegue aceder ao
seu telefone privativo, através do qual
alerta o Quartel-General de Tomar,
que, por seu turno, informa Lisboa da
sublevação.
Marcello toma conhecimento do que
se passa por um telefonema do ministro
da Defesa. “Pelas três da madrugada (...),
dirigi-me conforme estava combinado,
para o Quartel General da 1ª Região
Aérea”. É neste bunker de Monsanto que
Caetano e Américo Tomás se refugiam
durante o resto da noite, em contacto
permanente com os ministros da Defesa
e do Exército, que, a partir do Terreiro
do Paço, dirigem as operações. Quanto a
Spínola, passa a noite na sua residência,
na rua Rafael Andrade, em Lisboa,
guardada por oficiais da sua confiança,
por sua vez vigiados por agentes da DGS.
Às 4h o Governo decreta a prevenção
rigorosa em todo o país. A coluna das
Caldas aproxima-se, entretanto, de Lisboa.
Pouco depois do Carregado e antes de
entrar na autoestrada, cruza-se com uma
força inimiga, da GNR, mas prossegue
o seu caminho. A três quilómetros da
portagem, com Lisboa à vista, os homens
do RI5 são abordados por Manuel Monge e
Casanova Ferreira, que haviam ido ao seu
encontro no “mini” branco do segundo.
As notícias são as piores: mais nenhuma
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em co ntag e m dec r e sc e n t e
Virgílio Varela,
um dos revoltosos do 16 de março
FotograFIa de JosÉ VentUra
unidade aderira ao golpe e a entrada
Norte da cidade está barrada por forças
fiéis ao Governo (Artilharia 1, Cavalaria
7, Caçadores 5, entre outras), pelo que
não resta qualquer alternativa senão
regressarem às Caldas. Monge e Casanova
incorporam-se na coluna. “Eu ia vestido
à civil, mas levava a farda num saco”,
conta o agora general Monge. “Assim que
chegámos, fardei-me. Os nossos camaradas
ainda nos ofereceram a fuga, através de
uma saída pelas traseiras, mas recusámos.
Estávamos ali para o melhor e para o
pior.” Cercado por forças fiéis ao regime,
o quartel fica sem eletricidade, água e
telefones. À Porta de Armas, reporta Joana
Tornada, começam “a aparecer alguns
jornalistas estrangeiros”. Comandante dos
sitiantes, o brigadeiro Pedro Serrano dá
ordem de rendição: “Tem um quarto de
hora para abrir o portão, sob pena de haver
sangue!” A resposta é dada por Casanova
Ferreira: “Só recebemos ordens do nosso
general Spínola!” Inevitável, a rendição é
decidida coletivamente.
Sob prisão, 68 oficiais são transportados
para o Regimento de Artilharia Ligeira 1,
Portugal e o mundo há 40 anos
Pescadores morrem
na Figueira da Foz
Luto e lágrimas marcaram
a tragédia do naufrágio
(01/03) que roubou a vida a
três pescadores na Figueira
da Foz, quando um barco
virou em plena rebentação.
outros tripulantes tiveram
de ser recolhidos por um
barco dos bombeiros.
dezenas de pescadores
assistiram ao afogamento
dos colegas, em pleno dia,
a 200 metros da praia e
as mortes deveram-se ao
facto de os profissionais do
mar não saberem nadar,
como explicou um dos
sobreviventes. as mortes
de pescadores na costa
portuguesa continuam
a acontecer e, no fim de
2013, num único naufrágio
faleceram seis pessoas.
destruída Praça
de touros de algés
Inaugurada em 1895, a
praça de touros de algés,
com capacidade para 7500
espectadores, pretendia
concorrer com o campo
Pequeno, que iniciara atividades
três anos antes. apesar de
ter sido, inclusive, cenário
de filmes como “a severa”,
a praça não garantiu a sua
sobrevivência e o objetivo de
ultrapassar o campo Pequeno
nunca foi alcançado, pois, após
vários anos de abandono e
degradação que se iniciaram
na década de 60, a praça foi
demolida em 02/03/1974.
escÂndalo Watergate
aFasta nixon
o Presidente dos eUa,
richard nixon, numa
mentir, omitir e esconder
provas, não teve como evitar
a resignação em agosto
de 1974. a investigação
que levou a este desfecho
foi desenvolvida por “the
Washington Post” e partia
da invasão a um edifício
denominado Watergate,
onde funcionava a direção
nacional do Partido
democrata, para instalar
escutas clandestinas.
reunião com empresários
norte-americanos (07/03),
reafirmou a sua inocência
no caso Watergate,
sublinhando que “um
ano já chega”. Por três
vezes repetiu que não se
demitiria, mas, no verão,
nixon voltaria atrás e
colocaria o seu cargo à
disposição. acusado de
crescem as exPortações
de calçado PortuguÊs
as vendas de calçado
português para o mercado
internacional aumentaram
28% nos primeiros nove
meses de 1973 (02/03),
quando comparadas com
o mesmo período do
ano anterior. regista-se
com especial destaque
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“Reina a ordem em todo o país”, rejubila o Governo. No rescaldo
do golpe são presos 33 oficiais, entre eles parte da ‘nata spinolista’
à entrada de Lisboa. A maioria fica detida
na enfermaria, mas os seis cabecilhas
seguem para a Casa de Reclusão da
Trafaria. Juntam-se-lhes outros três
capitães, bem como o tenente-coronel
Almeida Bruno, um dos mais conhecidos
oficiais spinolistas que a DGS procurara
debalde em sua casa e que acabara por
ser detido, ainda de noite, na Academia
Militar. Muitos outros militares do RI 5
(sargentos, milicianos, cabos e aspirantes)
são interrogados e transferidos para outras
unidades — num total de 175. O mesmo
sucede com os oficiais de Lamego. O que,
a prazo, se revelará um erro de palmatória
do Governo, que “em vez de apagar o fogo,
soprou as brasas, espalhando-as por todo
o lado...” — no dizer dos autores de “O
Movimento dos Capitães e o 25 de Abril”.
O regime respira de alívio. “Nessa
sublevação”, escreverá Américo Tomás,
“parece terem participado, principalmente,
os oficiais mais dedicados” a Spínola, “então
ainda seus fanáticos admiradores”. Reunido
de emergência no dia 17, o Governo faz um
balanço reconfortante. “Todas as tropas
haviam obedecido às ordens do Governo”,
o crescimento das
exportações para
a África do sul. a economia
nacional também alcançou
uma evolução positiva,
tendo crescido a um ritmo
de 5% ao ano, entre 1965
e 1971, de acordo
com uma publicação do
Banco mundial.
Passados 40 anos, a
economia portuguesa
encontra-se sob
intervenção do Fundo
monetário Internacional,
da comissão europeia
e do Banco central
europeu. e também as
exportações de calçado
voltam a evidenciar um
comportamento otimista,
com um crescimento de 4%
no primeiro semestre de
2012, quando comparado
com o mesmo período do
ano anterior. C. M.
notará Marcello Caetano; “e o público tinhase mantido sereno, sem quaisquer mostras
de nervosismo e menos ainda de aplauso
do ato da rebeldia”. Um comunicado da
Secretaria de Estado da Informação e
Turismo chega aos jornais a meio da tarde.
Num tom simultaneamente tranquilo e
triunfalista garante que “reina a ordem em
todo o país”.
MALOGRO PARA OS REVOLTOSOS
Conhecida por “Errecincada” (de RI5),
a revolta das Caldas salda-se por um
malogro. Para Otelo, “a aventura terminara
com um balanço altamente negativo
para nós”. Detidos ao todo 33 oficiais —
entre os quais parte da ‘nata spinolista’,
como Almeida Bruno, Manuel Monge,
Casanova Ferreira, Armando Ramos,
Farinha Ferreira, Virgílio Varela. Só serão
libertados na tarde de 25 de abril de 1974.
A 18, o vespertino “República” notícia o
malogro do golpe na página... desportiva.
Numa linguagem encriptada, para iludir o
Exame Prévio, o jornalista Eugénio Alves
reporta o que se passara no lead da notícia
sobre a vitória do Sporting sobre o FC
AGENDA CULTURAL
“A Flauta Mágica”, de
Mozart, marca a temporada
de ópera do teatro são
carlos. É a terceira produção
apresentada em Lisboa
em Fevereiro e cai no goto
da crítica. “É uma diversão
de longo fôlego da mais
simples fruição, uma ação
que se presta a especulações
sentimentais, cómicas,
dramáticas, moralistas e
disfarçadamente políticas
muito consistentes; e é acima
de tudo um pretexto para um
não acabar de variedades de
estilo e de combinações vocais
unificadas pelo estilo ímpar
de mozart”, escreve Francine
Benoit, no expresso de 16 de
fevereiro de 1974. a obra passa
ao crivo da censura e desperta
o interesse do povo que
acorre em massa a assistir ao
Porto, por 2-0: “Os muitos nortenhos que
no fim de semana avançaram até Lisboa,
sonhando com a vitória, acabaram por
retirar, desiludidos pela derrota. (...) Mas,
parafraseando o que em tempos disse
um astuto comandante, perdeu-se uma
batalha mas não se perdeu a guerra”.
No mesmo dia, o movimento reage,
através da circular 2/74, redigida por
Otelo e Vítor Alves. Critica os camaradas
“generosos e abnegados, sem dúvida, mas
excessivamente impacientes, a tentar
resolver a situação de modo imediato”. É o
último documento público do movimento,
que decide enveredar pela mais absoluta
discrição e segredo. Os mesmos oficiais
encontram-se no Café Londres com Melo
Antunes. Desanimado, este considera
“tudo liquidado”, mas compromete-se a
redigir um programa político, na linha
do manifesto aprovado no plenário de
Cascais. A primeira versão é apresentada
a 22, véspera do seu embarque para os
Açores. Burilado e discutido com Spínola,
é o Programa do Movimento das Forças
Armadas, que será divulgado ao país na
madrugada de 26 de abril de 1974. ^
espetáculo quando este passa
à cena no coliseu dos recreios
na mesma data, a oferta
cinematográfica é alargada.
“Persona”, de Ingmar
Bergman, está na sala
estúdio; “Perseguição
Impiedosa”, de arthur Pen,
com marlon Brando e Jane
Fonda, um filme para maiores
de 18 anos, está em exibição
no Londres, que tem ainda
em cartaz “Por Favor Não
Me Morda o Pescoço”, de
Roman Polanski. o apolo 70
exibe “drácula 72”, de alain
gibson; “Festival tom &
Jerry”, em cinemascope, um
filme da Walt disney, e ainda
“os Homens de amanhã”, de
stanley Kramer, e o grande
clássico de Orson Welles,
“O Mundo a Seus Pés”.
Já no que respeita às
novidades literárias há
a salientar “cuba ou os
caminhos da Liberdade”, de
Hugh thomas, “Hitler e as
religiões da suástica”, de Jeanmichel angebort, as obras
completas de alexandre
Herculano e “Papillon”, de
Henri charrière. obras de
cariz político contrário ao
do regime e moralmente
reprováveis pela anterior
cartilha dos censores. A. C.
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em co ntag e m dec r e sc e n t e
À ESPERA
DE ABRIL
1 7
Petróleo
acelerou
as mudanças
O mundo descobriu em 1973 uma nova guerra económica:
o boicote árabe à exportação de crude para a Europa e os EUA.
O embargo seria levantado no ano seguinte, mas em Portugal
o choque petrolífero já fizera mossa, fragilizando mais o regime
ARQUIVO EXPRESSO
MARÇO
TEXTO CHRISTIANA MARTINS
U
ma notícia de “A Capital”
revela o clima opressivo
que se vivia em Portugal
no início de março de 1974:
cada automóvel particular tinha um limite
máximo de vinte litros de combustível
para abastecer. Estavam proibidos
fornecimentos aos sábados, domingos e
feriados, assim como para competições
desportivas, “em terra, água ou ar”.
Interdito estava também o enchimento de
bidons ou outro vasilhame.
Uma exceção era aberta para turistas
— mas sem exceção para emigrantes e
residentes no estrangeiro —, que por
despacho do secretário de Estado da
Indústria podiam abastecer os seus
veículos aos fins de semana e feriados.
O diploma criava ainda “postos de
abastecimento de gasolina para uso
exclusivo dos veículos, nacionais ou
estrangeiros, ao serviço dos turistas”.
Na raiz deste estrangulamento da
vida portuguesa estava a conjuntura
internacional: o mundo conheceu então o
primeiro “choque petrolífero” da História.
Este surgiu em 1973, quando, numa
retaliação pelo apoio norte-americano a
Israel na guerra do Yom Kippur, estados
árabes, funcionando em cartel, boicotaram a
exportação de crude para países ocidentais.
A 17 de março de 1974, no entanto,
a situação viria a alterar-se, com o
levantamento do embargo. A notícia foi
manchete de “A Capital”: “O petróleo
dos países árabes volta a correr para os
EUA, após decisão tomada ontem em
Viena e recebida com uma sensação de
alívio em todo o mundo ocidental”. Os
portugueses respiraram melhor, mas as
consequências da crise ainda se fariam
sentir por muito tempo. A crise económica desencadeada pelo
choque petrolífero redesenhou todo o
panorama internacional, acentuando a
importância da energia na geoestratégia.
Em menos de três meses, os principais
produtores de petróleo subiram o preço
do crude de 2,90 dólares para 11,65
dólares o barril. Um sinal de alerta dado
a todo o planeta, que durante 25 anos
assistira impávido a um crescimento
económico apoiado na multiplicação por
cinco do consumo de petróleo.
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em con tagem decres cent e
Encher o depósito
tornou-se tarefa
concorrida. Para poupar
combustível, o truque
dos portugueses
era ir empurrando
o carro até à bomba
Os alicerces da economia tremeram
com o choque petrolífero de 1973. Nos
EUA, a crise durou dois anos, com o
Produto Interno Bruto (PIB) reduzido em
6% e a taxa de desemprego a aumentar
para o dobro. A economia japonesa, pela
primeira vez desde o fim da II Guerra,
contraiu-se.
O FIM DE UMA ERA
A época a que o historiador inglês Eric
Hobsbawm chamara a Era do Ouro,
uma das fases de maior prosperidade
económica da história mundial, chegara
ao fim. Instabilidade e crise passam
a ser conceitos banais do vocabulário
dos analistas. Anos mais tarde, Henry
Kissinger, estratego da política externa
norte-americana nas décadas de 60
e 70, no livro “Years of Upheaval”,
revelava a sua surpresa: “Como uma
transformação tão ampla e profunda
pôde acontecer repentinamente? Olhada
retrospetivamente, veem-se com nitidez
as sementes e os sinais daquela mudança
dramática. A revolução do petróleo,
como tantas revoluções históricas,
manteve um padrão. Era inevitável, mas
a sua inevitabilidade só foi vista depois”.
O mundo acordou surpreendido após
o tempo de abundância, financiado
pelo Plano Marshall, após a II Guerra
Mundial. A euforia associada àquele
período dificultara a tomada de decisões
duras a favor da reconversão energética.
Em 1960, a Esso reduziu o preço do
barril e a gula dos consumidores abriu
caminho ao surgimento de um cartel
de vendedores. A OPEP (Organização
dos Países Exportadores de Petróleo)
surgiu nesse ano, na Conferência de
Bagdad, criada por cinco países: Arábia
Saudita, Kwait, Irão, Iraque e Venezuela,
que juntos tinham 53% da produção
petrolífera mundial.
A viragem para a década de 1970
deu-se com cortes de produção no Irão,
Líbia e Argélia. Todos os instrumentos
eram válidos para negociar o aumento
de preços. Afinal, sete em cada dez
barris das reservas de petróleo então
conhecidas (fora do países do bloco
comunista) e dois terços do petróleo em
que se baseava o crescimento económico,
estavam em países islâmicos. Do outro
lado, os grandes estados compradores,
apoiantes de Israel. Seis de outubro
de 1973 amanheceu sob a ordem do
perdão: o calendário judaico marcava a
comemoração do Yom Kippur, mas esta
não foi a palavra de ordem naquele dia.
O deserto do Sinai foi palco de uma
invasão inesperada de egípcios e sírios.
Moshe Dayan, chefe do Estado-Maior do
Exército israelita, apoiou-se nas armas
compradas aos EUA e no heroísmo dos
seus soldados e, dez dias mais tarde,
o exército de David cantou vitória.
O problema é que não fora apenas esta
a guerra que rebentara.
Em resposta ao apoio acidental a
Israel, os estados árabes produtores de
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em co ntag e m dec r e sc e n t e
SEGUE O CAMIÃO-TANQUE!
Na carestia e na falta de combustíveis em
Portugal, viveram-se situações caricatas.
No início de 1974, alguns clientes foram
para a porta das instalações das empresas
de combustíveis, ficando à espera da saída
do camião-tanque. Quando este se fazia à
estrada, os condutores seguiam-no, para
assim saberem quais as bombas de gasolina
corBIs
petróleo reuniram-se em Viena de Áustria
e aumentaram o preço do barril. A par
disso, Síria, Egito e Tunísia decretaram
um embargo aos países considerados
hostis: EUA, Holanda e Portugal.
Pressionado por Washington, o
Governo de Lisboa permitira o uso da
Base das Lajes, nos Açores, por aviões
norte-americanos. A resposta árabe não
tardou e Portugal figurou na lista de
países a boicotar. Como se não bastasse
a alta do preço, agora havia um veto.
Manuel Boullosa — um dos responsáveis
pelo desenvolvimento da indústria
nacional de combustíveis, com a criação
da Sonap, em conjunto com Manuel
Queiroz Pereira — escreveu uma carta
a Marcello Caetano, sublinhando “o
princípio do fim da era do petróleo como
fonte principal de energia”. E foi também
Boullosa quem se esforçou por contornar
o embargo, com as suas ligações aos
países africanos de expressão portuguesa,
por ter invocado junto dos árabes a
existência de um milhão de muçulmanos
em Moçambique.
Portugal e o mundo há 40 anos
“OS LUSÍADAS” CONTRA
A DITADURA BRASILEIRA
o jornalista brasileiro
e diretor de “o estado
de são Paulo”, Júlio de
mesquita neto, foi agraciado
pela Federação Internacional
dos editores de Jornais com
a Pena de ouro da Liberdade,
em reconhecimento pela
sua luta contra a ditadura
militar. como estratégia para
contornar a censura, durante
os anos de chumbo, mesquita
neto publicava trechos de
“os Lusíadas” em lugar de
artigos vetados. morreria em
1996 para ser substituído pelo
irmão ruy na direção daquele
que ficou conhecido como “o
estadão”, jornal que disse ser
a sua vida.
FRIO AmEAçA
hUmANIDADE
a ameaça de uma nova
era glacial pode trazer
consequências desastrosas
à espécie humana, alertam
(10/03) os investigadores
do Instituto de estudos
sobre o meio ambiente, da
Universidade de Wisconsin,
nos eUa. as drásticas
alterações nas condições
climáticas afetam já todo
o mundo e, segundo estes
pesquisadores, deverão levar
a cobertura do continente
norte-americano por glaciares
há muito desaparecidos da
calota terrestre. Quatro
décadas mais tarde, o
receio generalizado é do
aquecimento global.
BRANDOA/FALAgUEIRA
gANhAm URBANIzAçãO
o secretário de estado do
Urbanismo e Habitação
aprovou o regulamento do
Plano de Urbanização da
Brandoa-Falagueira (14/03).
Ficam fixados os índices
de ocupação urbanística
dos terrenos e a criação
de espaços reservados a
parques de estacionamento,
habitações económicas
e zonas verdes. em 1962,
com o elevado número
de habitações irregulares
naquele que era conhecido
como o maior bairro
clandestino da europa,
este projeto foi falado pela
primeira vez. Quarenta anos
mais tarde, a freguesia da
Brandoa seria agregada à de
alfornelos para a criação da
encosta do sol. C. M.
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em con tagem decres cent e
No início de 1974, os portugueses viviam
pressionados pela falta de combustíveis.
O choque petrolífero veio perturbar
a sociedade e minou ainda mais as bases
do regime, favorecendo o 25 de Abril
Guerra do Yom Kippur:
o conflito israelo-árabe
originou a primeira
crise do petróelo
que eram abastecidas. Reza a crónica que
alguns automobilistas terão ido parar à
fronteira com Espanha. Num quadro em
que a realidade por vezes se confundia com
a ficção, corria até o rumor de haver quem
armazenava combustível na banheira!
Num depoimento para a “Visão
História”, Francisco Sarsfield Cabral
recorda quando ficou sete horas parado
em Lisboa para abastecer o automóvel.
O jornalista e economista de formação
não tem dúvidas sobre a importância da
crise petrolífera nos destinos políticos de
Portugal. “Estou convencido de que os
efeitos devastadores do primeiro choque
petrolífero em Portugal perturbaram
profundamente a nossa sociedade,
contribuindo para o sucesso da revolução
de abril. A economia portuguesa
tinha conhecido nos dez ou 12 anos
anteriores, a maior expansão da nossa
história. Ora, é sabido que as revoluções
costumam acontecer, não quando a
economia estagna ou cai, mas quando
o seu crescimento suscita grandes
expectativas de melhorias de nível de
vida, expectativas que não podem ser
satisfeitas, pelo menos integralmente
(...) A brutal alta do crude em 1973/1974
terá, como me parece, contribuído para
um ambiente propício à rutura do 25
de Abril. Em contrapartida, complicou
muito a vida dos portugueses nos anos
seguintes à revolução”.
Marcello Caetano, no livro
“Depoimento”, aborda este momento
histórico. Explica que a 11 de março de
197 procurara o Presidente Américo
AGENDA CULTURAL
a “Morte de um Caixeiro
Viajante”, de Arthur Miller,
estreia a 16 de março, no teatro
maria matos, em Lisboa, numa
encenação de Artur Ramos
e com Fernanda Borsatti,
Rogério Paulo e António
Montez nos papéis principais.
Uma obra-prima do realismo
psicológico, a peça, escrita em
1949 , relata o drama de Willy
Loman que, desempregado,
procura ajuda e vê os valores
económicos sobreporem-se
aos sociais, ao mesmo tempo
que, ao ser descoberto pelo
filho com uma amante, faz
desencadear o conflito entre a
Tomás, com o objetivo de o chamar “à
consciência” para as “graves questões a
que era preciso prestar pronta atenção”.
O crescimento da inflação, resultante da
crise do petróleo, era uma das urgências
a atalhar. Durante muito tempo,
Portugal utilizara o saldo positivo da
balança de pagamentos para conservar e
aumentar as reservas de ouro e divisas,
mas, explica o chefe de Governo, “as
implicações do encarecimento da
energia no custo de outros produtos
eram inevitáveis”. Mal passasse o
Carnaval, Caetano iria remodelar a área
económica do Executivo, mas, explica,
“o incidente da publicação do livro do
general Spínola” suspendera a medida.
Com o 25 de Abril, não teve tempo de a
executar. ^
ao mesmo tempo que a arte
moderna invade Lisboa, a arte
africana também é aplaudida
na Galeria Buchholz numa
mostra da autoria de
Malangatana.
retirado do álbum “Planet
Waves”, acabado de editar.
o mundo via e ouvia os
mesmos autores! A. C.
no cinema, Ingmar Bergman
dá cartas com “Lágrimas e
suspiros”, e André Delvaux
leva muita gente às salas para
ver o seu “amor Louco”, um
filme que apesar de todo o
seu sortilégio, escapa à crítica
da censura.
moral e a imoralidade. tudo o
que os bons costumes nacionais
reprovavam, mas que escapam
aos censores de marcello
caetano.
na musica, Bob Dylan,
a 1 de abril chega ao lidera
top-ten dos discos da semana
com o single ‘tough mama’
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“Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.
Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo qualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer”
78 | 25 Abril 40 anos
Ermelinda Duarte
“Somos livres (uma gaivota voava...)”
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Adrenalina
na revolução
Mais do que a MaioRia dos
partidos que haveriam de tornar-se os
pilares do regime, foram formações
com menor expressão eleitoral,
sobretudo de extrema-esquerda,
que agitaram os primeiros tempos
da democracia. Devido ao poder de
mobilização para manifestações, a
uma eficaz propaganda ou à forte
implantação em sectores profissionais
e estudantis. Muitas dessas forças
políticas foram fruto de cisões em
partidos existentes. Outras ainda
derivaram da evolução do movimento
comunista internacional. Ao tempo,
sobretudo nesses dias de brasa,
marxismo-leninismo, maoísmo ou
trotskismo eram inimigos figadais (na
doutrina e, muitas vezes, em batalhas
campais). Não houve só desavenças, no
entanto. A FUR (Frente de Unidade
Revolucionária, onde o PCP esteve
fugazmente) ainda reuniu diversos
grupos, mas foi aventura sem futuro.
Aqui se recupera numa parte da
memória desses dias febris, quando
a política se fazia sobretudo na rua,
tomada por uma miríade de grupos
e grupúsculos — hoje genericamente
desaparecidos, com siglas e
designações que se confundem na
mente dos não iniciados. ^ paulo paixão
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CONS T IT UIÇÃO
80 | 25 Abril 40 anos
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JOSÉ GOMES
CANOTILhO
CONS T I T UIÇ ÃO
TEXTO
Henrique Monteiro
Joana Pereira Bastos
FOTOGRAFIAS
LuÍs Faustino
O MEMORANDO
É TOTALMENTE
INCONSTITUCIONAL
Sem pestenajar e perante uma simples
pergunta, o constitucionalista responde
tudo o que mudava e não mudava na atual
Constituição. Haveria partes iguais, muito
diferentes e, até, radicalmente diferentes
A
prendeu a fazer sentenças no
Tribunal Militar de Viseu com
um ilustre magistrado, Rui
Vieira Miller Simões. Este juiz de toga
(havia juízes militares) escrevia sentenças
concisas e elegantes com uma caneta Bic
de ponta fina. Meia página bastava para
registar uma sentença. “Mais tarde voltei
a encontrar o magistrado e a sua fala era
outra: ‘Olhe, já não tenho letra fina nem
escrevo decisões judiciais.’” Foi por
histórias como esta que começou a nossa
conversa com Gomes Canotilho, um dos
maiores especialistas em constituições
(desde logo a Constituição da República
Portuguesa), professor catedrático de
Direito jubilado em Coimbra, Prémio
Pessoa em 2003, ex-militante do PCP e
hoje sem partido.
Em 1968, numa noite, teria de tomar a
decisão mais solitária de sempre: ir para
a guerra da Guiné ou desertar. Acabou
por seguir para a “Guiné do general
Spínola”. Não seria capaz de viver fora da
sua pátria. Decisão emocional à procura
de razões, confessa.
Dois anos depois voltou, foi para
Coimbra onde já tinha o lugar de
assistente e aí se manteve praticamente
toda a vida, a dar aulas e a percorrer
os sucessivos degraus de um
académico. Passou pela Alemanha,
como convém a um jurista e, além do
mais, constitucionalista, e esse facto,
juntamente com ter também lecionado
em Macau e ter visitado diversos países,
deu-lhe a visão da Europa e do mundo que
muito o ajudam a explicar a atual crise.
Mas é na Constituição da República
(CRP) e nas polémicas à sua volta
que se há de centrar esta conversa.
Canotilho lembra que a CRP só não
foi votada pelo CDS — “Na altura era
tudo social-democrata, socialista e
comunista”. E faz uma revelação: o
projeto de Constituição do PCP foi
feito em sua casa. “Eu, Lino Lima, Vital
Moreira, Jorge Leite e um funcionário
do partido. A minha mulher cozinhou
para todos. Em dias apresentámos um
projeto que não envergonhava ninguém
no plano jurídico formal. Nesse projeto
incorporava-se muito da ideologia do
PCP e da pretendida evolução socialista
que depois veio a ser muito contestado”
(recorde-se que Lino Lima já faleceu e
25 Abril 40 anos | 81
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CONS T IT UIÇÃO
que Jorge Leite, Vital Moreira e o próprio
Canotilho abandonaram o PCP).
Discutia-se se uma constituição deve
abrir-se à discursividade emancipatória
(“transição para o socialismo”, “aliança
povo-militares”, “irreversibilidade das
nacionalizações”). Na altura, um dos
objetivos centrais defendidos era ocupar
posições normativo-constitucionais que
garantissem uma perspetiva socialista de
governo e de sociedade.
Um outro problema era o da positivação
constitucional de direitos económicos,
sociais e culturais. Recorde-se que a
constituição recebe em larga medida
disposições jusfundamentais de
tratados e convenções internacionais
(Pacto Internacional de Direitos Civis
e Políticos, Pacto Internacional de
Direitos Económicos, Sociais e Culturais,
Normas da Organização Internacional
do Trabalho). Aquela geração acreditava
no Estado e nas suas funções e tarefas
redistributivas. De certo modo,
recebia o keynesianismo económico, o
programatismo socializante e a socialidade
de cariz social-democrata. Era um “dogma
de justiça social” a existência de um
sector público na saúde, na educação e na
segurança social.
Pode dizer-se que o PCP ganhou a
“batalha da Constituição”? É necessário
não subestimar o contributo do PS,
do PSD e até do CDS, na definição e
garantia exaustiva de direitos, liberdades,
na garantia da propriedade privada,
no recorte da autonomia regional e
local, na institucionalização do Tribunal
Constitucional. Mesmo na especificação
de limites de revisão, as cláusulas de
irrevisibilidade foram negociadas
(pelos encarregados da redação final,
Jorge Miranda e Vital Moreira). Em
rigor, os diferendos e diferenças das
forças políticas quanto à visão do
Estado e da sociedade encontram-se
normativamente sobrepostos (“consenso
por sobreposição”).
µ
Mas a opinião pública não
era mais radicalizada do que a
Assembleia Constituinte? A aguda
radicalização a pretexto dos esquemas
organizativo-políticos transporta
epifenómenos de mobilização social.
“Descobri nos meus arquivos uma
proposta redigida por mim, sugerindo
a criação de uma ‘assembleia popular’ e
de uma ‘assembleia das forças armadas’
(bicameralismo revolucionário)”.
OS MEMORANDOS DA TROIKA
SÃO UMA REVISÃO CLANDESTINA
Mas a ideologia mais exacerbadamente
“ideológica” é a do projeto de revisão
constitucional fracassado de Passos
Coelho, privatizar o que falta privatizar,
esconder a partilha do bolo orçamental
fazendo entrar no sector público (agora
não apenas estadual) a educação, a saúde
e o ensino privado. Os três memorandos
da troika constituem, por si só, uma
revisão radical e clandestina, sustenta.
Afirma ter aprendido alguma coisa
com o passar dos anos: que nada é
irreversível e que os frutos das conquistas
sociais nunca estão maduros. Mas há um
limite à subversão do Estado de direito
democrático-constitucional encoberta
pelos apócrifos estados de necessidade
(financeiros, políticos). O consenso
reclamado passa pelo povo. Para rever a
constituição é preciso povo. O consenso
não pode nem deve transmutar-se em
legitimações de “governo de técnicos” ou
de “entidades neutrais”.
Mas se fosse Gomes Canotilho a ter a
incumbência de, neste momento, fazer
a constituição, ela seria muito diferente?
Vamos por partes. Comecemos pelo
preâmbulo. No preâmbulo — de valor
simbólico — subsiste a narrativa de
transição para o socialismo. Não vale a
pena que um registo simbólico se converta
em foco de contestabilidade. Deixaria
imperturbado o catálogo de direitos porque,
mesmo no contexto da globalização, ele
Comecemos pelo preâmbulo. No preâmbulo
— de valor simbólico — persiste a narrativa
de transição para o socialismo. Não vale a
pena que um valor simbólico se transforme
em foco de contestabilidade
condensa os bens e os valores mais elevados
de uma sociedade (dignidade, liberdade,
igualdade, solidariedade e justiça). Mas
há um ponto em que “reatualizou” as
convicções. Sabem qual é? E, sem esperar
pela resposta, que “aliás, não sabemos”,
Canotilho dispara: manteria a contestada
normativização jusfundamental dos
direitos, liberdades e garantias dos
trabalhadores. Num tempo em que as
troikas censuram “convenções coletivas
de trabalho” e “portarias de extensão”, em
que se procuram individualizar contratos
bilaterais de trabalho, devemos tomar a
sério o carácter inovador da Constituição
quanto ao sentido jusfundamental de
organizações sociais. Numa sociedade de
diferenciação funcional onde germinam
“matrizes comunicativas anónimas” (o
termo é de um sociólogo, Gunther Teubner)
como “os mercados”, “a comunicação
social”, “as empresas de notação”, os
“conglomerados de devassa comunicativa”
(dos serviços de informação às memórias
de registo privado), os cidadãos têm de
enfrentar forças totalizantes geradoras da
“banalização do bem” (peço emprestada a
ideia de Tony Judt). Pode explicar melhor,
perguntamos-lhe. E Canotilho tenta: como
se controlam, se legitimam, se julgam essas
organizações e matrizes comunicativas?
Quem controla os mercados, quem controla
a devassa comunicativa, quem manda
nos offshores? Num mundo de matrizes
excludentes ficamos desarmados e estamos
isolados. O mesmo se passa com um país:
um país orgulhosamente só, é um país
impotente e desarmado. Isto obriga-nos
a reforçar a sociedade civil organizada
no mundo do trabalho e no mundo
empresarial produtivo. Daí a nossa crença
na UE e a discordância relativamente aos
que não compreenderam as lógicas da
globalização e da queda do muro de Berlim.
NORMAS PARA LIMITAR
O ESTADO TAXADOR
Continuamos com a revisão. Que
outros arranjos encontraria? Na parte
económica, muitas das normas, depois
da adesão à União Europeia, sofreram
uma “redução eidética”. Em termos
mais simples: foram colocadas “entre
parêntesis”. Evitaria, por isso, algumas
irritações sistémicas retirando as normas
referentes a “constituição industrial”,
“constituição do comércio” e “constituição
agrária”. De qualquer modo, e contra os
ventos dominantes, reforçaria o sector
público dos serviços essenciais. Não é com
a Constituição que se faz uma revolução,
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CO NS T I T UI ÇÃO
mas a lei constitucional tende a revelar a
identidade de um povo.
Que emendas proporia em sede de
constituição financeira e fiscal? Esse
é um dos temas mais politicamente
intensos. Perante a derrogação sistemática
desta Constituição, colocaria normas
mais claras sobre os limites do “Estado
tributário expropriativo” (sobretudo dos
rendimentos do trabalho) e do “Estado
taxador” discricionariamente impositivo
de contribuições extraordinárias, onde se
combina o pior de dois mundos (impostos
e taxas insuportáveis e insustentáveis). E
quanto à organização do poder político?
Para Canotilho o equilíbrio de poderes
recortado na Constituição é razoável.
Mesmo tendo em conta que o regime é
caracterizado como semipresidencialista (e
ele prefere designá-lo como “parlamentar
quanto à forma de governo”). É o
governo e não o Presidente da República
que deve governar. Mas há campos
político-constitucionais que mereciam
explicitações constitucionais. Desde logo, o
dos “poderes presidenciais” no âmbito da
defesa nacional e das relações externas. A
guerra do Iraque revela a irredutibilidade
das interpretações do Presidente (na
altura Jorge Sampaio) e do governo (de
Durão Barroso). Não se podia nem devia
José Gomes Canotilho,
numas escadarias da
Fundação Gulbenkian
circunscrever a um “exercício semântico”
de leitura da Constituição. Estava em causa
o envio de tropas (de forças militarizadas
da GNR) para o teatro de operações e o
comandante-chefe das Forças Armadas era
o Presidente da República.
Registe-se também a indispensabilidade
da compreensão parlamentar da forma
de governo. Falta, porém, desambiguar
o sentido dos poderes do Presidente
na demissão do governo. “Creio que
existe confusão, alimentada pelo texto
constitucional, entre dissolução do
Parlamento quando está em causa o
regular funcionamento das instituições e
demissão do primeiro-ministro quando o
problema é o do regular funcionamento
do governo”. Jorge Sampaio (e já outros
presidentes antes dele, como Ramalho
Eanes e Mário Soares) “fez uma
“interpretação do regular funcionamento
do governo (demissão de Santana
Lopes com dissolução da Assembleia da
República) que não foi a minha”. Qual era
a sua? Canotilho entendia que Sampaio
podia nomear outro primeiro-ministro
do PSD que tivesse assento na AR (por
exemplo, Manuela Ferreira Leite).
Chegou a escrever isto numa exposição
a Sampaio. Mas o Presidente pode
demitir o primeiro-ministro sem usar
a bomba atómica da dissolução? O
“regular funcionamento do governo
não tem de passar pela dissolução da
AR”. Canotilho insiste que a demissão
do executivo por perturbação real do
“regular funcionamento do governo”
carece de clarificação em sede de revisão
constitucional.
E, quanto ao sistema eleitoral? No sistema
eleitoral, Canotilho é defensor do sistema
alemão (sistema de lista e de círculos
uninominais), não lhe repugnando um
círculo nacional para otimização dos “restos
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CONS T IT UIÇÃO
µ
Coloca-se um problema ideológico muito
intenso: quais são os serviços que devem ser
do Estado? Já não é os CTT, os transportes ou
a EDP. Agora a questão coloca-se na Saúde,
na Educação, na própria Segurança Social
eleitorais”. Mas continua a não defender
uma cláusula limitativa da conversão de
votos em mandatos. “Não se devem evitar
novas forças com assento parlamentar.”
E na parte de organização dos tribunais.
Talvez se imponha uma referência ao
sistema de interjurisdicionalidade, ou
seja, de vários tribunais, nacionais,
supranacionais, internacionais a exercerem
funções de jurisditio (Tribunal Europeu
dos Direitos do Homem, Tribunal de
Justiça da União Europeia, Tribunais
Arbitrais). Talvez seja necessário “precisar
a autonomia e independência do Ministério
Público, bem como a sobreposição
da função de defensor da legalidade
democrática e de defensor da legalidade e
de advogado do Estado” e a criação de um
Conselho Superior de Justiça.
E sobre o Tribunal Constitucional?
Sobre o TC haveria muito a dizer.
A maioria dos políticos, dos jornalistas,
dos juristas, até, não sabe para que
serve, como funciona, diz Canotilho. Há
discussões acesas porque, no início do
séc. XX, na Áustria, é criado um tribunal
constitucional já não para julgar casos
concretos, como nos EUA, mas para
fazer fiscalização abstrata dos atos
administrativos. Da ideia de legislador
negativo inerente a esta fiscalização
resvalou-se para a discussão sobre o
defensor da constituição, entendido
como instância neutra. Com Hitler e
o seu poder totalitário, esta questão
perde-se, mas volta à agenda depois da
guerra, com o TC alemão e o italiano. Os
tribunais constitucionais fiscalizam não a
política mas a constitucionalidade de atos
político-jurídicos. “Veja a mais recente
sentença do Tribunal Constitucional
alemão, que, dizendo haver fortes
indícios de inconstitucionalidade nas
propostas financeiras e bancárias, já
salienta o reenvio para o Tribunal de
Justiça da UE”, mas reservando para
ele, subtilmente (como fez na sentenças
sobre o Tratado de Maastricht e sobre
o Tratado de Lisboa), a última palavra
sobre os limites da integração.
Qual o grande problema, então?
Canotilho não tem dúvidas: “É que quem
ler os três documentos do memorando
de entendimento, verifica que eles
violam a nossa Constituição.” Em muitos
princípios básicos, desde o princípio
da igualdade, da igualdade perante
os encargos públicos, da equidade, da
não retroatividade, da proteção, da
segurança, da confiança e dos direitos
sociais. Depois, coloca-se um problema
ideológico muito intenso: quais os
serviços que devem ser do Estado e
os que não devem? É que já não é os
CTT, os transportes ou a EDP. Agora a
questão coloca-se na Saúde, na Educação
e na própria Segurança Social. “Esta
é a verdadeira batalha — o “PREC
social-privatizador” que estava no projeto
de Constituição de Passos Coelho.
Mas a Constituição deve ser uma arma
de luta ideológica ou deve dar hipóteses
a qualquer modelo? “Não é crime uma
Constituição postular um sistema de
ensino público, de saúde e de segurança
social, deixando aberta a possibilidade de
desenvolvimento de sistemas privados de
modelos convencionados.”
“UM TRATADO DA RAZÃO CÍNICA”
Voltamos aos memorandos. Diz Canotilho
que os memorandos de entendimento são
uma revolução no país. Não é só a justa
causa de despedimentos; ou as questões
de perda de rendimentos, nas pensões e
nos seus efeitos retroativos. É em quase
tudo! “Parece um tratado da razão cínica”.
Como dizia Tony Judt, quando hoje se
fala de convergência e de igualdade tem
sido sempre para menos salários e menos
direitos. Isso não exclui a revisão das
políticas públicas e da sustentabilidade
económico-financeira.
“Claro que depois há outra visão: vale
a pena colocar o problema das taxas
moderadoras? Vale! Vale a pena discutir
se o sistema de pensões deve ter um teto
máximo.”
Mas há também a geração que não
tem reforma nenhuma. “É o problema
geracional e dramático. Todos nós temos
filhos e netos e quase todos nós somos
convocados a ajudá-los. A proteção da
família consagrada na Constituição — e
bem! desestrutura-se com as arritmias
económico-sociais e com políticas cegas
a verdadeiros direitos públicos dos
agregados familiares (impostos, proteção
social, creches)”.
A globalização e a europeização
vieram também mostrar a importância
relativa das constituições no âmbito
da socialidade estatal e constitucional.
Mas vale a pena salvar o sistema social
europeu. Na Alemanha, o SPD impôs
um salário mínimo que Merkel não
queria e obrigou a reduzir a idade de
reforma de 67 para 63 anos. No plano
político, pode dizer-se “e nem sei se devo
dizer, que os partidos de esquerda não
estavam preparados para a globalização.
Para a direita é mais fácil, com a
aceitação dos mercados, das regulações
e desregulações, da inobservância de
instrumentos de regulação de trabalho”.
E Canotilho insiste: “A ideia de
austeridade pode ser positiva se bem
doseada e compreendida. Um país
endividado não tem autonomia, nem
independência e afasta os investidores.
Tudo isto é verdade! Mas tem de
haver espaço para o Estado social. E a
social-democracia, o personalismo cristão,
o liberalismo social são tão próximos entre
si, e tão afastados dos modelos chineses
ou indianos, indonésios ou filipinos, do
Bangladesh ou da Tailândia, que nos
custa a compreender como é que se pode
apoucar a Europa social. A Europa é o
lugar mais estimulante do mundo para
viver” e para desenvolver uma sólida
emancipação individual e social.
“Há que ter um otimismo racional”,
conclui Canotilho. ^
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ABA
NOES
NO RE
GIME
Os atentados iam sacudindo os alicerces da ditadura,
os militares já consideravam a guerra colonial uma causa
perdida e entre oficiais intermédios germinava a revolta
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ABAN ÕES NO REG I M E
No tempo
da ação direta
A última década e meia da ditadura foi agitada por
um rosário de operações audaciosas de uma oposição
rebelde. Registo desses prólogos do 25 de Abril
TEXTO FREDERICO CARVALHO
O
que faz cair um
regime? Muitas
coisas combinadas.
Nos tempos em que nada era
certo, houve sempre quem
recusasse a espera perfilada
de medo. Salazar tremeu
no pós-2ª Guerra Mundial e
apanhou um susto em 1958,
com as multidões da campanha
de Humberto Delgado. Num e
noutro caso, mostrou que não
sairia a bem. Na sombra, a lição
foi aprendida. A ação direta
contra a ditadura renasceu
com um novo tipo de operações
audaciosas, que a PIDE foi
incapaz de matar no ovo.
A imprensa internacional
tratou como novela de
aventuras os 13 dias de
sequestro do luxuoso paquete
“Santa Maria”, em janeiro
de 1961, por um comando
de 25 exilados portugueses
e espanhóis liderados pelo
capitão Henrique Galvão. Este,
dissidente do salazarismo,
proclamou ter mandato de
Humberto Delgado. O “Santa
Maria” foi tomado no mar
das Caraíbas, depois de largar
da Venezuela, e acabou por
rumar ao Recife, no Brasil,
após ser rebatizado “Santa
Liberdade”. Com mediação
dos EUA do recém-eleito
John Kennedy, que recusou
qualificar a operação como
pirataria, o navio foi entregue
às autoridades brasileiras,
que deram asilo político aos
ocupantes.
Ainda antes de o ano findar,
novamente com comando de
Galvão, um grupo armado
chefiado por Hermínio da
Palma Inácio tomou um
avião da TAP que voava de
Casablanca para Lisboa.
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A BA NÕ ES NO REGI ME
O desvio do “Santa
Maria” tornou Henrique
Galvão uma figura na
imprensa internacional.
Nesta página, o hoje
coronel Varela Gomes,
numa imagem de 2005
FOTOGRAFIA DE RUI OCHÔA
Sobrevoando a baixa altitude
Lisboa, a margem Sul do
Tejo, Beja e o Algarve, largou
milhares de panfletos contra a
ditadura, regressando depois
a Marrocos: novas manchetes
na imprensa mundial.
Camilo Mortágua esteve
em ambas as ações, depois de
ser emigrante na Venezuela.
Continua hoje a não regatear
elogios à audácia de Galvão,
embora se tenha desiludido
com a politiquice do exílio
português no Brasil: “O dia
em que Galvão se convenceu
que seria apoiado pelo
Departamento de Estado
norte-americano como
alternativa a Salazar foi
o dia da nossa separação.
Ficámos convencidos de
que não continuaria com a
ação direta.” Palma Inácio,
Camilo e mais três ou quatro
decidem, em 1966, partir para
Paris e daí lançar-se em novas
aventuras.
De Beja às BomBas
Antes, na madrugada de 1 de
janeiro de 1962, mais uma
operação temerária tirara o
sono a Salazar: a tentativa
de ocupação do quartel de
Beja, que os conspiradores
esperavam ser detonador
para o levantamento do sul do
país por Humberto Delgado,
entrado clandestinamente
em Portugal. O capitão João
Varela Gomes, hoje coronel,
que assumiu à última hora
o comando militar de uma
operação que sabia estar muito
precariamente montada,
continua a considerar que “no
ambiente de 1961, aquilo não
era assim tão desajustado.
Em 1958, o Delgado, com a
sua presença, tinha levantado
multidões. Mas Beja foi uma
descoordenação. É o fracasso
a que foram condenados todos
os movimentos juntando civis
e militares. É uma mistura que
não dá”. Dezenas de revoltosos
civis foram chefiados por
Manuel Serra, enviado de
Delgado mas que perdera
o contacto com o general.
Muitos anos depois, Serra
desabafaria: “Se houvesse
telemóveis naquele tempo...”
Passariam anos até nova
bofetada na ditadura. Em
maio de 1967, Palma Inácio e
os seus assaltaram em pleno
dia o Banco de Portugal na
Figueira da Foz. Fugiram
numa avioneta e passaram
a fronteira a pé, com 30
milhões de escudos, fortuna
enorme, para financiar a
revolução. “Éramos um
grupo de aprendizes de
feiticeiro”, recorda Camilo
Mortágua: “Fugimos com os
sacos de dinheiro às costas
mas estávamos borrados
de medo, achávamos que
toda a gente estava a ver.” A
reivindicar o assalto surgiu
uma nova sigla — LUAR,
Liga de Unidade e Ação
Revolucionária.
A LUAR acabaria por ser
abalada por um fiasco, uma
ocupação guerrilheira da
Covilhã, em 1968, que findaria
ainda antes de começar, com
a captura de Palma Inácio
e restantes conjurados.
Mortágua, que não participou
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ABANÕES N O REGI M E
Das onze sabotagens da
ARA, a mais audaciosa foi
na base militar de Tancos,
em 1971, com a destruição
de 13 helicópteros e aviões e
danos noutros. Em maio de
1973, anunciou uma “pausa
temporária” para favorecer a
luta política aberta. “Houve
debate na direção do PCP e
não deve ter sido pequeno,
eu estava em Moscovo e
chegaram-me os ecos”, conta
Coutinho. “Mas se não se
desse o 25 de Abril se calhar
Camilo Mortágua,
antigo operacional
da LUAR, numa rua
de Alvito (Alentejo),
onde reside
FOTOGRAFIA DE TIAGO MIRANDA
Em baixo, estado do
quartel-mestre-general, em
Lisboa, após o atentado das
Brigadas Revolucionárias
ARQUIVO “A CAPITAL/IP”
nessa aventura, elogia ainda
hoje “os carregadores de
piano da revolução” e declara
“fidelidade absoluta” à
memória do seu audaz amigo:
“Quando penso no Palma
lembro-me da personagem
do romance ‘Cabra-Cega’,
de Roger Vaillant, o Marat,
pseudónimo da resistência:
conseguir uma mulher
vale quase tudo, às vezes
comprometem-se coisas.”
E chegou o derradeiro
lustro, com uma novidade:
as ações armadas do PCP.
Depois de anos de preparação
e inércias, na madrugada de 26
de outubro de 1970 duas cargas
explosivas abriram um rombo
no navio “Cunene”, transporte
usual para a guerra colonial,
acostado em Lisboa. “O nome
ARA (Ação Revolucionária
Armada) nasceu só nessa noite,
quando foi preciso fazer um
comunicado”, conta o então
jornalista Carlos Coutinho,
que foi o principal operacional.
a ARA reaparecia, e até com
um fôlego um bocadinho mais
alargado.”
Também nesses anos
entraram em ação as
Brigadas Revolucionárias,
nascidas da dissidência
com o PCP e tendo apoios
em núcleos católicos
anticolonialistas.
Capitaneadas por Carlos
Antunes e Isabel do Carmo,
as Brigadas estrearam-se em
7 de novembro de 1971 com
uma bomba nas instalações
da NATO na Fonte da Telha.
As suas bombas atingiram
instalações militares, o
Ministério das Corporações
e, até, o quartel-general
português, em Bissau, e o
quartel-mestre-general, em
Lisboa. Foi sua a derradeira
ação direta contra a
ditadura: uma carga no
casco do navio “Niassa”,
que largava para a Guiné
carregado de tropas. Foi no
dia 9 de abril de 1974.
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A BA NÕES NO R EG IME
Carlos Coutinho, autor
de alguns dos mais
espetaculares atentados da
ARA, o braço armado do PCP
FOTOGRAFIA DE TIAGO MIRANDA
Aos homens e mulheres
que arriscaram tudo nestas
operações tornou-se usual
chamar heróis românticos,
uma espécie de rótulo
de consolação aplicado
aos inconformados que
perseguem objetivos acima
das suas forças. E como
se veem eles, a décadas de
distância?
nem santos,
nem heróis
Camilo Mortágua é o mais
cáustico: “Romântico? A
palavra justa é ingénuo. No
meu caso, tem a ver com
uma coisa mais intuída
que digerida e assumida.
Mitificar esta atividade
de revolucionário é um
disparate. Mantermos a
capacidade de nos rirmos
das nossas insuficiências é
fundamental. Não há santos
nem heróis.”
Varela Gomes recorre a
uma imagem: “Estamos à
beira do rio e cai uma criança
à água. Toda a gente fica ai,
ai! Até que há um louco que
se atira à água e às vezes até
morre a tentar. Se queres
salvar a criança não ficas na
margem a filosofar.” Mas
ele próprio não enjeita a
filosofia, citando Hannah
Arendt sobre a “desoladora
contingência” do homem que
ao lançar-se na ação como
afirmação da sua liberdade
nunca pode dominar todas
as consequências dos seus
atos, pois o futuro é sempre
imprevisível.
Carlos Coutinho tem a
resposta racionalizada:
“Tenho a noção do herói das
epopeias clássicas, depois
os cristãos substituíram o
herói pelo santo, e aqui não
há uma coisa nem outra.
Há pessoas que numa dada
Para Carlos Coutinho,
num contexto como o da ditadura,
“as pessoas ou são honestas
consigo próprias, e arranjam
coragem; ou não são, e passam
a ser cúmplices da situação”
circunstância ou são honestas
consigo próprias, e arranjam
coragem suficiente; ou não
são, e passam a ser cúmplices
da situação. Cúmplice,
não queria ser. Sabia que
corria riscos grandes, por
exemplo em Tancos, mas
entrei. Quando acabava,
já podia regressar à minha
humanidade e aí até tremia.
Isto é ser herói? Não, é ser
consequente.” ^
25 Abril 40 anos | 89
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“Um e dois e três
era uma vez
um soldadinho.
De chumbo não era,
como era
o soldadinho?
(...) Soldadinho lindo
és também
filho do povo
e contigo vamos
construir
um mundo novo”
José Mário Branco
“Ronda do soldadinho”
90 | 25 Abril 40 anos
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O movimento
que um dia
foi de todos
© Arq. do Centro de doCumentAção 25 de Abril dA u. C.
APÓS 1974, os portugueses tiveram
de se familiarizar com muitas
novas siglas, umas efémeras, outras
duradouras. A primeira delas, e a
mais perene, irrompeu logo no dia
25 de abril, quando os comunicados
na rádio anunciavam o Movimento
das Forças Armadas (MFA). Num
primeiro momento, o MFA e os
homens que lhe deram corpo surgiram
como os primeiros heróis românticos
da nova era. Haviam libertado o país
das amarras de uma ditadura que
durara quase meio século, sem terem
precisado de disparar um tiro. No
imediato, em todos os quadrantes foi
prestado tributo ao movimento dos
capitães. A participação dos militares
nas campanhas de dinamização
culturais levou a revolução ao país
profundo. E o papel central do MFA
na cena política ficou consagrado
na fórmula, defendida pelo PCP
acima de todos, “aliança Povo —
MFA”. O carácter consensual do
movimento durou algum tempo... Até
as coisas terem começado a aquecer
politicamente (tanto entre civis como
entre a tropa).^ paulo paixão
25 Abril 40 anos | 91
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ABANÕES N O REGI M E
melo Gomes
“Na Guiné, os soldados
viviam em condições
infra-humanas”
luís araújo
“Tornou-se claro
que era uma guerra
impossível de vencer”
ramalho eanes
“O poder tentou
sistematicamente
soterrar a realidade”
Valença Pinto
“Era um pesadíssimo
sacrifício de vida
sem sentido”
crónicas de uma
guerra perdida
Os militares portugueses que passaram pela guerra colonial
— e fizeram o 25 de Abril — perceberam que aquele era um conflito
impossível de ganhar, portanto, inútil. Combateram 13 anos à espera
de uma solução do poder político, que este se recusou a encontrar
O
hoje almirante
Melo Gomes,
ex-chefe de
Estado-Maior da Armada, foi
o último militar português a
deixar a Guiné-Bissau, a 15 de
outubro de 1974, finalizando
a maior operação de retirada
anfíbia de que há memória
na Armada portuguesa:
2500 homens, com armas e
equipamentos, numa única
noite. Foi na Guiné que
cumpriu como 1º tenente a
primeira e única Comissão
em África e foi lá que se
tornou um dos três elementos
da Comissão Coordenadora
na Guiné do Movimento das
Forças Armadas (MFA).
Quando chegou a Bissau,
em maio de 1973, depois
de cinco anos de “missões
de luxo” ao serviço da
NATO, já o PAIGC usava os
temidos mísseis Strella, que
retiraram o domínio do ar
às forças portuguesas. Foi
recebido por um camarada
com uma risada: “Vens
cá para a entrega disto!”
Não demorou a perceber
porquê. “Condições
infra-humanas”, foi como
qualificou a situação em que
se encontravam no terreno
as tropas portuguesas
no último ano da guerra
colonial. A declaração
unilateral de independência
haveria de ser no mês de
setembro seguinte.
O general Luís Araújo,
chefe de Estado-Maior
das FA até 6 de fevereiro
último, tem uma recordação
semelhante do tempo em
que fez a guerra. Coube-lhe
Moçambique, entre outubro
de 1972 e outubro de 1974.
Era também tenente e foi
destacado para uma terra
de guerra, Moeda, no Norte.
No meio do acampamento,
cercado de arame farpado,
o poste do estandarte e um
cartaz, à laia de boas-vindas:
“Aqui trabalha-se, luta-se e
morre-se...” O desenho de
uma caveira e duas tíbias
cruzadas diziam o resto.
“Era um jovem piloto aviador
de 22 anos, fui para lá imbuído
do espírito de defesa da pátria,
mas ao fim de três meses
estava a defender-me a mim
e aos meus subordinados”,
explicou. “A guerra é um ato de
sobrevivência em que é herói
quem faz o inimigo morrer
pela pátria dele.” Em 1973,
também a Frelimo já estreara
os Strella e voar era um feito de
perícia contra a morte, entre o
disparo dos mísseis e as rajadas
das kalashnikovs. Percebeu
cedo, entre conversas e os
panfletos semiclandestinos que
abundavam, que aquela guerra
era impossível de vencer: “Era a
terra deles, as nossas linhas de
comando estavam a milhares
de quilómetros, as deles eram
logo ali.”
ARquIvO EXpRESSO
TEXTO LUÍSA MEIRELES
92 | 25 Abril 40 anos
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A BA NÕ ES NO REGI ME
esPírito santo
“Em 1974, a guerra
estava contida,
mas até quando?”
Pina Monteiro
“A Escola Prática de Infantaria
era uma máquina
de fazer oficiais”
adriano Moreira
“A Salazar não lhe ocorreu
que a mudança pudesse
vir de baixo”
Spínola numa ação no mato,
acompanhado por três dos seus
homens: Almeida Bruno (de G3),
João Marcelino e Alves Morgado
25 Abril 40 anos | 93
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Ramalho Eanes,
ex-Presidente da República, fez
cinco comissões e passou pelos
três teatros de guerra colonial,
e ainda esteve na Índia e em
Macau. Em 1973, já conspirava
contra o regime e há vários
anos que tinha a noção que o
tempo da guerra se esgotara e
que os políticos não o tinham
aproveitado para encontrar
uma saída. Em junho, tinha
sido um dos militares do
quadro a dar abertamente
o nome numa concorrida
petição contra o Congresso dos
Combatentes, uma frustrada
iniciativa do Governo para
demonstrar o indemonstrável:
que as FA apoiavam a solução
da guerra para as colónias.
Em dezembro desse ano,
em vésperas de partir para a
derradeira comissão, com o
MFA já consolidado e decidido
a derrubar o regime, o então
major de 38 anos foi recebido
por Marcello Caetano, que o
tentou convencer do que ele
tinha por inconcebível: que
havia que continuar a guerra.
Contudo, o que o chocou
verdadeiramente foi perceber
que o chefe de um Governo
que só nesse ano mobilizara
mais de 149 mil homens para
a guerra (o maior número de
que havia memória), não tinha
a menor ideia que um militar
da sua idade já tinha mais de
dez anos de combate efetivo.
A GUERRA PELA GUERRA
“O poder usou a guerra
pela guerra e tentou
sistematicamente ‘soterrar’
a realidade”, disse o general
ao Expresso. Os homens
da sua geração começaram
por ver a guerra como “um
desígnio nacional”, a defesa
de um império, de um
Portugal transcontinental
e multirracial. A defesa
do ultramar era a defesa
da pátria — e esta a da
República.
Homens como Eanes
fizeram a Escola do Exército
já marcada pelo início da
reorganização promovida
pela NATO, nos anos 50, mas
a eclosão da guerra, em 1961,
lançou-os de chofre noutra
As coisas foram-se
complicando no campo
de batalha, à medida
que o ‘inimigo’ se dotou
de melhores meios
Com o avanço
da guerra,
os militares
percebem
que seriam
responsabilizados
pela derrota
realidade: a das guerras
revolucionárias e subversivas,
em cujo combate o Exército
havia de se tornar perito.
Nesse mesmo ano, foi criado
o Centro de Instrução de
Operações Especiais, em
Lamego, e a doutrina que foi
sendo elaborada será ainda,
mais de 20 anos depois, uma
mais-valia insubstituível nas
“missões de paz” que as FA
são chamadas a cumprir.
“Quando fazem a guerra,
as FA fazem o que devem,
mas essa consciência muda
quando se apercebem
que o poder político não
faz um esforço para lhe
pôr fim”, disse Eanes,
explicando o processo de
germinação do 25 de Abril.
“Em África, à medida que
o ‘inimigo’ se dotou de
mais e melhores meios,
os militares perceberam
que se arriscavam a uma
derrota e que poderiam ser
responsabilizados por isso,
tal como acontecera em
Goa, em 1961”, quando as
forças ali estacionadas, sem
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ARQUIVO EXPRESSO
A BA NÕ ES NO REGI ME
homens nem meios, foram
obrigadas a render-se e os
seus comandantes punidos
pelo poder político. A lição
havia sido assimilada.
O argumento da falta de
resposta do poder político é
recorrente. Às vésperas do
25 de Abril, num prodígio
de gestão de meios escassos
versus recursos humanos e
equipamentos, os militares
tinham conseguido manter
uma guerra de 13 anos,
em três distantes “teatros
de operações” — o “maior
esforço militar da nossa
história”, como escreveu o
general Abel Cabral Couto. E
barata, diga-se de passagem,
numa espécie de “rotos
contra os maltrapilhos”,
como assinalou o general
Valença Pinto, que fez duas
comissões em Angola. Na
Guiné, nos idos de 1973, a
guerra estava dada como
perdida, com largas zonas de
território de acesso interdito,
controlada em Angola e mais
ou menos estabilizada em
Moçambique.
“A guerra estava contida,
mas até quando?” indagou
o general Espírito Santo,
que fez duas comissões, em
Moçambique e Angola. Não
seria por acaso que foi o
núcleo de combatentes que
passou pela Guiné (entre
eles Spínola ou Ramalho
Eanes) quem primeiro se deu
conta da impossibilidade de
levar por diante a guerra. A
estratégia do “inimigo” era
a da “manobra de lassidão”,
de desgaste contínuo das
forças, do ponto de vista
material e moral, no terreno
mas também na retaguarda, e
estava a dar resultado.
Sem homens, o regime
fazia cada vez mais apelo aos
milicianos. Só nos primeiros
cinco anos de guerra, os alferes
milicianos passaram de 2300
para 10 mil, mais do dobro dos
do quadro permanente, num
cenário que se agrava com o
tempo. Pina Monteiro, o atual
CEMGFA (o primeiro que não
fez a guerra, mas participou
no 25 de Abril) tem isso bem
claro. A Escola Prática de
Infantaria, onde foi colocado
em 1973/74, era “uma máquina
de fazer oficiais” à pressa, “de
aviário”, como lhes chamavam.
Nos níveis mais baixos, a
instrução dos recrutas era
rápida e “contaminada” pelos
relatos de quem a fazia.
O PONTAPÉ DE SAÍDA
No terreno, a presença dos
milicianos era mais do que
evidente. O tipo de guerra
(“de quadrícula”, ocupação
do território) dava relevo às
companhias, cerca de 100
homens comandados por um
capitão. A título de exemplo,
em 1973, no Leste de Angola,
havia 68 companhias nos
quatro distritos, organizadas
em 12 batalhões. Só três eram
comandadas por um capitão
do quadro.
Haviam de ser pois estes
os obreiros da revolução que
chegou — quem mais? Eram
os capitães que estavam no
terreno e muitos com muitos
anos de guerra às costas.
“A degradação da preparação,
associada à flexibilização
do recrutamento e, entre
os oficiais, o sentimento de
desagregação do regime,
gerava uma desmotivação
completa”, disse Valença Pinto.
“Era um pesadíssimo sacrifício
de vida sem sentido. Tornarase evidente que a guerra não
tinha solução militar, portanto,
era inútil, o regime estava
num beco sem saída.” Daí à
constatação da inutilidade do
regime foi um pequeno passo.
Paradoxalmente, é o regime
que acaba por propiciar o
“pontapé de saída”, com o
seu célebre decreto-lei de
julho de 1973, que permite
a equiparação dos oficiais
milicianos aos do quadro. Se
o catalisador da revolta foi,
pois, a luta dos “puros” contra
os “espúrios” (os milicianos),
portanto, corporativa,
rapidamente evoluiu para
O 25 de Abril
foi fruto
da degradação
militar, do
cansaço geral e
do atrevimento
dos oficiais de
baixo escalão
o objetivo de pôr fim ao
regime, com a organização
do MFA a firmar-se, num
país em erupção política,
exausto e exaurido, e um
regime esgotado e isolado
internacionalmente.
O livro que Spínola lança em
fevereiro em 1974 (“Portugal
e o Futuro”) é uma antevisão
do fim do regime. Ele e Costa
Gomes (respetivamente
vice-chefe e chefe de
Estado-Maior-General das
FA) haveriam de ser demitidos
logo em março, porque se
recusarem a apresentar-se na
cerimónia do “beija-mão”ao
poder dos oficiais — generais,
conhecida como a ‘Brigada do
Reumático’. Era o estertor do
regime.
O esforço da guerra
consumia 17% do orçamento
em 1973, mas eram apenas
3,2% do PIB. Portugal
conseguiu aguentar a guerra
porque crescia a cerca de
6% ao ano. Mas em 1973
tudo desaba com a crise do
petróleo e das bolsas. No
fundo, como disse Espírito
Santo, “o 25 de Abril foi fruto
da degradação do aparelho
militar, do cansaço geral e do
atrevimento dos oficiais de
baixo escalão”. No momentochave, a hierarquia, tão
acarinhada pelo regime,
olhou para trás e ninguém
a seguiu. Foi a revolução.
“A Salazar não lhe ocorreu
que a mudança pudesse vir
de baixo”, disse Adriano
Moreira. O Estado Novo
acabava como começara —
pela poupança e às mãos do
Exército.
O que veio depois foi a
maior transformação de uma
instituição em Portugal. Nas
fileiras das FA, sobretudo
no Exército, onde assentou
o maior esforço da guerra,
chegaram a estar 236 mil
homens. Hoje, mal chegam
aos 32 mil homens. “Até os
dinossauros para sobreviver
tiveram de se transformar
em lagartixas”, rematou a rir
Espírito Santo. ^
25 Abril 40 anos | 95
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TIAGO MIRANDA
ABANÕES N O REGI M E
O POder dOs CaPitães
Numa reunião com 400 militares, em setembro de 1973, na Guiné,
os oficiais deram o primeiro sinal público da sua insatisfação. A revolta
não parou de aumentar e em novembro já se fala em golpe militar.
A 5 dezembro, na Costa da Caparica, nasce o 25 de Abril
TEXTO Cesário Borga
I
nício dos anos 70 do
século XX, algures na
região de Farim, GuinéBissau. Uma mulher pede
arroz à porta da companhia
ali aquartelada. O soldado
que a atende não sabe como
atuar e chama o comandante
da companhia. O capitão diz
à mulher que deve ser o chefe
de posto e não ele a resolver o
problema, mas o chefe de posto
não está... “E agora?”, pergunta.
“Agora”, responde a mulher, “é
o capitão e Alá quem resolvem.”
O comandante da
companhia era o então capitão
Vasco Lourenço. A história
ocorreu em 1970/71 e espelha
o essencial da estrutura
operacional do exército em
África, imposta por 13 anos
de guerra. Nela, o capitão
transforma-se na referência
para as populações que vivem
no território guardado pela
companhia e no timoneiro dos
soldados com quem partilha,
dia e noite, os imponderáveis
de uma imprevisível guerra
de guerrilhas. Uma vivência
que fez destes homens os
quadros-chave das forças
terrestres e os comandantes
operacionais decisivos das
Forças Armadas.
Organizado em regimentos,
comandados por coronéis
e generais, o Exército, ao
instalar-se em África, é
obrigado a pulverizar-se
em batalhões e estes em
companhias, separadas entre
si por dezenas de quilómetros.
No essencial uma
companhia contava com cerca
de 100 soldados, quatro ou
cinco alferes, quase sempre
milicianos e outros tantos
sargentos. No topo o capitão,
comandante da companhia, é
o responsável pela execução
operacional, a adaptação de
planos, os combates e as suas
consequências, humanas e
militares, a sorte dos seus
homens, a segurança das
populações civis. Enfim, o
primeiro fazedor da guerra,
o homem com poder. Nesta
posição aprofunda o sentido
crítico e, com o tempo,
acha-se no direito de ser
escutado pelos superiores,
de apontar fragilidades e
apresentar propostas.
A 18 de abril de 1974,
capitães, majores e tenentes,
delegados das regiões militares
do Movimento dos Capitães,
decidem em Lisboa que o
golpe se fará entre 22 e 29
de abril. Nesse dia, aqueles
homens, oficialmente quadros
intermédios das Forças
Armadas, já nada têm a ver
com os quase anónimos oficiais
que circulavam nos regimentos
no início dos anos 60.
CONTESTAÇÃO AOS
ULTRAS DO REGIME
Em junho de 1973, a partir
da Guiné, beneficiando da
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A BA NÕ ES NO REGI ME
DR
capitão vai, pouco a pouco,
evoluindo, passa a incorporar
tenentes e majores.
Aspeto atual da
Casa do Povo de
Óbidos e fachada do
monte alentejano,
em Alcáçovas,
locais de duas das
mais importantes
reuniões do MFA
abertura facilitada pelo
general Spínola, 400 oficiais
contestam o congresso dos
combatentes, dominados pelos
ultras do regime. À cabeça dos
contestatários aparecem os
nomes de Ramalho Eanes e
Firmino Miguel. O movimento
instala-se no continente de
forma organizada, e, com
outros líderes, desencadeia
a oposição aos decretos
que visavam a promoção
de milicianos ao quadro
permanente através de cursos
de formação profissional.
A 9 de setembro, próximo
de Alcáçovas, 136 oficiais
reúnem-se para aprofundar a
contestação àqueles diplomas.
Entretanto, o conceito de
GOLPE nO HORiZOnTE
A contestação aos decretos
evoluirá, nos meses seguintes,
para a ideia do recurso à
força, com o objetivo de
derrubar o regime. Quando
a operação armada se
decide, os capitães sentem-se
capazes de a planificar,
coordenar, executar sem
o recurso a complexas
máquinas de Estado-Maior.
Não é de estranhar que
nas vésperas do golpe as
opiniões oscilassem entre
o entusiasmo e o ceticismo.
Otelo Saraiva de Carvalho
falava de 80% de êxito e Vítor
Alves de 20%.
24 de novembro de 1973 é o
dia em que pela primeira vez
se discute a possibilidade de
um golpe militar. Na reunião
realizada numa casa que ficava
paredes-meias com a colónia
balnear infantil de “O Século”,
em São Pedro do Estoril, as
palavras inesperadas de um
dos raros tenentes-coronéis
que começavam a aparecer soa
como um trovão e influencia
o rumo dos acontecimentos.
O tenente-coronel Ataíde
Banazol exorta as dezenas
de oficiais presentes a
abandonarem a “guerra
dos papéis” e a porem em
marcha um golpe de Estado.
Apresentou um plano. Estava a
formar um batalhão em Évora.
Dentro de semanas partiria
para África. Propunha-se
ocupar de imediato a cidade,
formar uma junta militar e
incentivar à sublevação as
unidades de todo o país. A
proposta foi rejeitada, mas a
reunião seguinte, realizada em
Óbidos, a 1 de dezembro, já
colocava a intervenção armada
no topo da agenda.
Em 5 de dezembro, na
Costa da Caparica, nasce o 25
de Abril. Aí se opta pelo golpe
militar, mas acompanhado por
um programa político. Uma
decisão crucial que vai libertar
No posto
de comando
do MFA,
na Pontinha,
aparece um
tenente-coronel
disposto a aderir
à revolução.
O major
Sanches Osório
manda-o para
a cozinha
arranjar uma
refeição quente
para todo
o pessoal
o 25 de Abril da dependência
das ideias deste ou daquele
general e permitir ao
movimento dos capitães lidar
com a sublevação das Caldas
da Rainha, em 16 de março.
Encontros posteriores,
em Lisboa e em Cascais,
consolidam as decisões
tomadas na Costa da
Caparica, e os principais
líderes da operação são agora
conhecidos da generalidade
dos oficiais comprometidos
com o movimento: Vasco
Lourenço, Otelo Saraiva de
Carvalho, Melo Antunes,
Vítor Alves, Hugo dos Santos,
Fisher Lopes Pires, entre
muitos outros. Eram, porém,
nesse tempo, gente anónima
e de pouca importância
aos olhos dos generais e
governantes que se esgotavam
nos paços de São Bento em
cerimónias de mútua lealdade.
Podemos imaginar a cara de
horror dessas personagens se,
na noite de 24 de abril, antes
de irem dormir, alguém lhes
contasse que, no dia seguinte
de manhã, ao acordarem, as
Forças Armadas e o país eram
governados por capitães. É no
decorrer dessa noite em que o
país se deita com a ditadura e
acorda com a liberdade, e ao
longo do dia 25 de abril, que
se sucedem cenas espelhando
essa nova realidade.
ADESÕES ‘in EXTREMiS’
O capitão Candeias Valente
contava que na Cova da Moura
foram aparecendo alguns
coronéis a oferecerem-se
timidamente para colaborar,
e dois deles ficaram sob
o seu comando. O major
Sanches Osório descreve
como no posto de comando
da Pontinha lhe apareceu um
tenente-coronel disposto a
aderir à revolução. O major
manda-o para a cozinha
arranjar uma refeição quente
para todo o pessoal. “Depois,
adianta, apresenta-se no posto
de comando e diz: a refeição
está pronta precisam de mais
alguma coisa?”, conta Sanches
Osório, citado no livro “A
Hora da Liberdade”, de Joana
Pontes, Rodrigo de Sousa
Castro e Aniceto Afonso.
Na Pontinha já se
encontravam presos, entre
outros, Marcello Caetano e o
almirante Henrique Tenreiro.
A essa hora, quem entrasse
no posto de comando do MFA
quando a vitória já estava
garantida e, curioso, indagasse
pelas pilhas de mapas de
estado-maior, complexos
sistemas de comunicações,
deparava-se com a
simplicidade dos aparelhos
de rádio e, pendurado na
parede, um único mapa; o das
estradas do Automóvel Clube
de Portugal. ^
25 Abril 40 anos | 97
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ABAN ÕES NO REG I M E
Natércia Salgueiro Maia, numa
das suas raras fotografias (em
casa, em Santarém, em 1993)
FOTOGRAFIA DE RUI OCHÔA
Natércia
Salgueiro Maia
Como EU vivi o 25 dE abril
Quarenta anos depois, a viúva do capitão
Salgueiro Maia — que à frente dos seus
homens da Escola Prática de Cavalaria
marchou de Santarém para Lisboa —
mantém na memória a noite que mudou
o rumo do país. Sabia desde cedo quais
eram os planos do marido, cujas reuniões
já vinham dos tempos da Guiné, entre
71 e 73. “Os militares tinham noção que
tinham de ser eles a tomar uma atitude e
quando as pessoas se reúnem, começa-se
a pensar em conjunto e estas decisões
acontecem.” Quando Salgueiro Maia
regressou a Portugal, em outubro de 73,
Natércia nunca se opôs, pelo contrário:
na privacidade do lar ouviu e apoiou o
marido nos preparativos da revolução.
“Nunca fomos inconscientes, sabíamos
que havia riscos. Mas o otimismo era
grande, não púnhamos a hipótese de
algo correr mal.” Por isso mesmo nunca
planearam o que Natércia, com 31 anos
na altura, deveria fazer caso o golpe de
Estado falhasse. “Apenas sabia que devia
continuar a minha vida normalmente
para não levantar suspeitas. No dia 25,
mesmo ouvindo pela rádio que as coisas
tinham avançado, arranjei-me e saí de
casa para dar aulas como se nada tivesse
acontecido.” No dia anterior, a professora
de matemática viu o marido sair de casa
com um pacote de lenços no bolso, por
causa da sinusite, e com uma caixa de
cigarrilhas. Não foram precisas palavras.
µ
Vi o meu marido
passar na nossa
rua, em Santarém,
com a coluna
da Escola Prática
de Cavalaria através
dos buraquinhos
da persiana. Sabia
que andavam
pides a controlar
o nosso prédio
e não podíamos
dar nas vistas
“Ele nunca fumava, a não ser em dias
de festa. Interpretei aquilo como um
sinal de que iam avançar e de que tudo
iria correr bem. Nunca precisámos de
falar muito para compreendermos o que
o outro queria dizer.” Natércia sabia o
significado das músicas que deveriam
passar na rádio a partir das cinco para
a meia-noite. A única pessoa com quem
partilhava o segredo era com o primo que
estava a passar uma temporada com o
casal. Mas, mesmo com ele, naquela noite
trocou apenas olhares sem nunca proferir
uma palavra sobre a revolução. “Vi o meu
marido passar na nossa rua com a coluna
da Escola Prática através dos buraquinhos
da persiana. Sabia que andavam pides a
controlar o nosso prédio e não podíamos
dar nas vistas.” O telefone de casa tocou
uma primeira vez e uma pessoa não
identificada perguntou se as tropas já
tinham saído de Santarém. Natércia
fez-se de desentendida e desligou.
O telefone continuou a tocar e, por
prevenção, nunca mais o atendeu. Até que
a adrenalina a levou à exaustão. “Estava
psicologicamente tão cansada que acabei
por passar pelas brasas. Quando acordei
ouvi dizer que precisavam de médicos
e fiquei zangada comigo própria. Tudo
podia ter acontecido e eu não sabia.” Os
comunicados na rádio tranquilizaram-na.
Mas só quando viu na televisão as imagens
do marido no Largo do Carmo é que
ficou mais calma. E sem esconder um
sorriso de quem conhecia bem o capitão,
Natércia disse para si mesma: “Lá tinha
de estar ele no sítio de maior confusão!”
Só sossegou totalmente quando o abraçou
em Lisboa, com “uma lágrima no canto do
olho”, num misto de orgulho e de amor.
E ainda hoje enaltece-o pelo bom senso
no dia da revolução. “Naquele dia a maior
virtude foi ter conseguido resolver tudo de
forma pacífica. Curiosamente, nós cá em
casa nunca gostámos muito de grandes
alaridos e confusões.” A calma vivida
em casa de Salgueiro Maia foi levada
para as ruas de Lisboa nesse dia,
que se encheram de cravos e olhares
de esperança. O capitão tornou-se
um herói, mas para Natércia ele será
sempre o “eterno namorado”. ^
PAULA COSME PINTO
98 | 25 Abril 40 anos
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A BA NÕES NO R EG IME
UMA sUrpresA pArA
Os JOrNALIsTAs De FOrA
A imprensa internacional foi incapaz de antecipar o 25 de Abril.
Houve mesmo quem saísse de Portugal nas vésperas do golpe
militar... Mas passada a estranheza, a atração de correspondentes
e enviados estrangeiros pela Revolução dos Cravos foi incondicional
TEXTO Margarida Mota
A
revolução
portuguesa apanhou
o mundo de
surpresa e Werner Herzog em
contrapé. O jornalista suíço,
com escritório em Madrid,
viera até Portugal por alturas
do levantamento das Caldas
da Rainha de 16 de março.
Convencido de que nada
aconteceria a curto prazo,
regressou à capital espanhola
a 22 de abril, ignorando
alertas de que algo poderia
estar iminente... “Tinha falado
com um militar que me disse
para esperar algum tempo
e não voltar já para Madrid.
Chamava-se António Reis.
Eu pensava que ele era um
romântico sonhador e não
acreditei. Quando ouvi as
notícias no dia 25 percebi que
ele sabia de tudo”, recorda.
“Talvez tenha sido melhor
assim... Teria sido terrível eu
saber o que ia acontecer sem
poder dizer a ninguém.”
Werner apanhou o último
comboio do dia 25 para
Portugal, onde chegou na
manhã de 26. Para poupar
dinheiro — trabalhava
em regime freelance —,
hospedou-se em pensões
baratas na Avenida da
Liberdade onde, em
condições precárias, ia
dando resposta às crescentes
solicitações da imprensa
estrangeira. Chegou a
trabalhar simultaneamente
para dois jornais suíços
(“Tagesanzeiger” e “Basler
Zeitung”) e dois alemães
(“Frankfurter Rundschau” e
“Stuttgarter Zeitung”).
A Revolução dos Cravos
colocara Portugal na primeira
página dos jornais como nenhum
acontecimento antes. Nos dias
seguintes, reabertas as fronteiras,
afluíram a Lisboa repórteres
de todo o mundo. “Chegaram
bastantes, mas poucos estavam
preparados para entender o que
se passava”, diz. “Lembro-me
de um jornalista da televisão
suíça que tentava seguir os
acontecimentos e saber quem
era quem. Fomos para a Estação
de Santa Apolónia, onde uma
multidão ouvia um discurso.
‘Quem é aquele? Quem é
aquele?’, perguntou-me. ‘Chamase Mário Soares. E acaba de
regressar do exílio em Paris’...”
Visto do exterior, o
Portugal de inícios de 1974
denotava nervosismo. O
golpe frustrado das Caldas
era a prova de que algo
mexia, mas a possibilidade de
uma revolução estava longe
Werner Herzog, com uma foto em que o jornalista está
junto dos protagonistas da história. Em baixo, José
Rebelo, que em 1974 estava em Paris, no “Le Monde”
FOTOGRAFIAS DE WERNER HERZOG E ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
25 Abril 40 anos | 99
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ABANÕES N O REGI M E
no jornalismo que haveria de
torná-la, a partir de janeiro
de 1975, correspondente em
Portugal da Associated Press,
que funcionava num escritório
apertado da Praça da Alegria,
por cima do Maxime.
O laboratório fotográfico
era a casa de banho.
Nos dias agitados após a
revolução, Emma trabalhou
também como guia-intérprete
de repórteres que chegavam,
alguns acabados de cobrir a
guerra no Vietname, como o
fotógrafo alemão Horst Faas,
premiado com um Pulitzer.
“Um dia, fui com um jornalista
americano, que também tinha
estado no Vietname, para a
zona do RALIS. Os tropas
estavam armados com G3 e
o povo gritava: ‘Armas para
o povo! Armas para o povo!’
Nós estávamos na frente da
manifestação. A dada altura, ao
ouvir-nos falar inglês, alguém
gritou: ‘Está aqui a CIA!’
Ficámos um pouco aflitos.
Comecei a pensar como é que
podíamos sair dali. Ele disse:
‘É assim: agachas-te e começas
a recuar de costas por baixo
dos braços deles.’ E assim
saímos dali. Eram épocas
de grande desafio.”
das expectativas. “O ‘Le
Monde’ não atribuiu grande
importância ao 16 de março”,
recorda José Rebelo, exilado
em Paris e então membro
da administração do diário
francês, do qual viria a ser
correspondente em Portugal
entre 1975 e 1991. “Pensou
que era uma escaramuça
entre militares. De tal
forma que enviou a Portugal
um jovem estagiário, o
Dominique Pouchin.”
Como era vespertino, o
“Le Monde” noticiou o 25
de Abril na edição que saiu
para as bancas à uma da
tarde. Os tanques nas ruas
e a ausência de violência —
“o carácter romântico da
revolução”, como diz José
Rebelo — foi crucial para
o sucesso mediático dos
acontecimentos. “Não sei se
houve outro facto na história
do ‘Le Monde’ que tenha
justificado um tão grande
número de artigos sobre
Portugal...” O jornal chegou
a ter enviados especiais em
Lisboa, Porto, Açores e em
Angola.
QUARTÉIS-GENERAIS
NOS HOTÉIS
Em Lisboa, os jornalistas
estrangeiros tinham
tendência a agrupar-se
por hotéis. “Os franceses
ficavam no Mundial, os
ingleses iam mais para o
Tivoli e os americanos para o
Sheraton”, recorda. “Depois
constituíamos autênticas
redações. No sétimo andar
do Hotel Mundial, havia
jornalistas do ‘Le Monde’,
do ‘Nouvel Observateur’,
de revistas de direita, como
‘Le Point’ ou ‘L’Express’,
ou do ‘L’Humanité’, órgão
do Partido Comunista
francês. Trabalhávamos ali,
jantávamos todos juntos,
partilhávamos o que víamos e
rentabilizávamos ao máximo
os contactos uns dos outros.”
Entre a legião de enviados,
José Rebelo recorda um da
agência Nova China: “Vinha
com cozinheiro e tudo.”
O facto de Portugal pertencer à
NATO e, sobretudo, o futuro de
Angola atraía especialmente
jornalistas do Leste.
Emma Gilbert recorda o dia
em que foi recrutada para ir
traduzir para inglês o anúncio
de formação do I Governo
Provisório, feito por Sanches
Osório, porta-voz da Junta de
Salvação Nacional. “Eu não
quero exagerar, mas havia, à
vontade, uns 500 jornalistas”
naquela sala do Palácio Foz,
sede do Secretariado Nacional
de Informação.
Nascida em Portugal e de
nacionalidade dinamarquesa,
Emma era fluente em inglês.
Conhecedora da realidade
local, foi logo contratada pela
agência sul-africana Argus, a
primeira etapa de uma carreira
Emma Gilbert,
nascida em Portugal
e de nacionalidade
dinamarquesa. Sandy
Sloop, com uma foto
em que surge em cima
de uma chaimite
FOTOGRAFIAS DE JOSÉ
VENTURA E NUNO BOTELHO
CARA CANSADA
DE TANTO SORRIR
Quarenta anos depois, Sandy
Sloop não tem dúvidas que o
25 de abril de 1974 foi, “talvez,
o dia mais importante” da sua
vida. Este norte-americano
nascido no Brasil — que,
entre 1977 e 1990, foi o
correspondente em Lisboa
da agência United Press
International — chegara a
Portugal em 1971 “a caminho
de África”, o seu principal
interesse, mas também com o
objetivo de estudar português
e “descobrir o que era a
ditadura”.
Soube da revolução de
madrugada e correu logo
para a rua, “para participar
na história que se fazia”.
“Escrevi um postal para a
família para ter pretexto para
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A BA NÕES nO R EG IME
andar na rua.” Percorreu
Lisboa de lambreta: tentou,
sem sucesso, chegar ao
aeroporto; no Rossio, viu uma
esquadra da NATO partir ao
longe e assistiu à passagem
da coluna de Salgueiro
Maia a caminho do Quartel
do Carmo — saudada por
cravos vermelhos e flores de
todos os tipos. No Largo do
Carmo, Sandy assistiu aos
acontecimentos em cima de
um chaimite. Quando voltou
para casa, já de madrugada,
“sentia os músculos da cara
cansados de tanto sorrir”.
Pouco depois da
revolução, foi contactado
pela embaixada dos EUA e
aceitou acompanhar, durante
uma semana, dois jornalistas
norte-americanos (do
“Baltimore Sun” e do “Chicago
Tribune”) e um australiano
(do “The Age”, de Melbourne),
profissionais batidos, com
experiência de histórias
quentes, como parecia ser o
caso “pelo que significava para
Portugal, mas também em
termos africanos.”
“No nosso primeiro almoço,
levei-os ao Bonjardim, o rei
dos frangos, junto ao Rossio.
Um deles perguntou-me: ‘Você
que mora cá, como é que reage
a isto tudo?’. Eu disse: ‘Bem,
para mim, isto é uma espécie
de orgasmo coletivo’. Ele
comentou: ‘É uma expressão
muito forte, mas eu trabalho
para um jornal de família...
Tenho a impressão que não
vou poder citá-lo’.”
Sandy refere que os
três eram “praticamente
analfabetos” em relação a
Portugal. Durante décadas,
além do caso do “Santa
Maria” e do início das guerras
em África, muito pouco
tinha acontecido no país que
tivesse chamado a atenção da
imprensa estrangeira. “Havia
muito poucos jornalistas
estrangeiros acreditados em
Lisboa antes de 25 de abril.
Estariam provavelmente em
Madrid ou em Paris e ficavam
com um olho cá.”
Chegados a Portugal
na década de 60, a norteamericana Martha de la
Cal e o marido, o fotógrafo
inglês Peter Collins, eram
exceção. Pela mão de Martha,
a revolução portuguesa
chegou à revista “Time”, com
uma ilustração de Spínola a
fazer a capa da edição de 6
de maio de 1974. Falecida em
2011, a jornalista recordou,
numa entrevista de 2008, o
desconhecimento do mundo
em relação a Portugal. “Eu
mandava muitíssimo material
para a redação central em
Nova Iorque, onde havia
jornalistas muito bem pagos
só para escrever. Depois a
‘Time’ enviava-me o que
eles escreviam para eu fazer
correções. A primeira coisa
que me mandaram no dia 25
de abril dizia: ‘Desde Fernando
Capa da “Time” de 6 de maio
de 1974 (com reportagem de
Martha de la Cal) e Ramón
Font, o catalão que se perdeu
de amores por Lisboa em 1974
FOTOGRAFIA DE ALBERTO FRIAS
Nos EUA,
na redação
da “Time”,
julgava-se que
Portugal era
Espanha.
E mesmo
entre nuestros
hermanos
havia uma
grande
ignorância
sobre a
situação
do lado de cá
da fronteira
e Isabel de Espanha que não…’
Eu mandei de volta a dizer:
‘Não! Estamos em Portugal!
Não é Espanha!’ Sabia-se
muito pouco sobre o país.”
Mesmo em Espanha,
Portugal era uma realidade
desconhecida. “Conhecíamos
Fátima, Eusébio, Amália e
o vinho do Porto. Ninguém
pensava ir a Portugal”, recorda
Ramón Font, o catalão que
viria a ser correspondente em
Lisboa da agência EFE, da
Radio Nacional de Espanha e
da TVE. “Eu conhecia o livro de
Spínola (‘Portugal e o Futuro’)
e, porque estava politizado,
sabia quem era Mário Soares e
Álvaro Cunhal.”
excursão política
A trabalhar numa rádio de
Barcelona, fez-se à estrada
decidido a “saber o que era
a liberdade. Com um grupo
de amigos do jornalismo, do
cinema, do ensino, fizemos
uma excursão política a
Portugal, durante uma
semana”. Marcou-o muito a
visita ao jornal “República”,
onde se impressionou com
a figura de Raul Rego. “Eu
não sei quanto tempo aqueles
jornalistas dedicavam ao seu
trabalho, porque passavam
horas a receber colegas
estrangeiros e nunca diziam
‘não posso’. Estavam sempre
disponíveis para explicar as
coisas seriamente.”
Ramón Font diz que o
golpe das Caldas colocara-o
“de prevenção”. Ainda assim,
não deixou de se sentir
surpreendido quando soube
da revolução. “O 25 de Abril
foi uma surpresa para toda a
gente, sobretudo pelo seu estilo
e ausência de violência. Foi
o que me fascinou. Lembrome de uma conversa, muitos
anos depois, com o dono do
restaurante Tavares em que lhe
disse: ‘Deixe de se queixar! Os
tanques passaram em frente a
este restaurante, um símbolo
do antigamente, e ninguém
partiu os vidros’. Ele disse: ‘É
verdade, desculpe!’” ^
25 Abril 40 anos | 101
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PROTAG ON IS TA S
Em momentos
mais banais
ou singulares
da vida de alguns
portugueses estão
bem vincados traços
marcantes do 25 de
Abril. Não só desse
dia propriamente
dito mas também
do estado do país
no fim da ditadura
ou da euforia
revolucionária.
Histórias
de protagonistas
que espelham bem
a atmosfera de um
tempo português
Fernanda Matos
Festa de anos
em Caxias,
a 25 de Abril
Veio de França para celebrar
o aniversário do namorado que
estava na prisão. O reencontro,
adiado por 24 horas, acabaria
na cervejaria Trindade
TEXTO Paula Cosme Pinto
FOTOGRAFIA nuno FoX
F
ernanda Matos vinha no
comboio Paris-Lisboa
na noite de 23 de abril
de 1974 quando foi intercetada
pela PIDE. Foi a primeira e
única vez que tal lhe aconteceu,
embora tivesse passado os
quatro anos anteriores a ajudar
amigos a passarem a fronteira
para fugir da guerra colonial.
Nessa noite Fernanda fez-se
de “desentendida” em todas as
perguntas sobre os camaradas
da LUAR (Liga de Unidade e
Ação Revolucionária) com quem
partilhava os seus dias em Paris.
“Tinha medo de ser presa à
chegada a Portugal, mas estava
fora de questão revelar fosse o
que fosse.”
Chegou a Lisboa no dia 24
para visitar o namorado que
estava preso em Caxias e que
faria anos no dia seguinte. Mas
mal sabia que a celebração
daquele aniversário de Luís
Filipe Guerra ficaria para a
história da vida de ambos. “Ele
fazia parte do grupo do Palma
Inácio que foi preso ao tentar
raptar o Silva Pais [diretor da
PIDE]. Havia um pide infiltrado
no grupo e acabaram por ser
apanhados num café antes de
iniciarem a operação.” Fernanda
não via o namorado desde
novembro, altura em que fora
preso, mas este conseguira que
ela tivesse autorização para a
visitar no dia do seu aniversário.
Uma atmosfera única
“No dia 25 preparei-me para
o visitar, só que a estrada para
Caxias estava cortada. Os
militares não nos disseram o
que estava a passar-se, mas
ao voltarmos para o centro de
Lisboa percebemos. Estava
instalado um ambiente de
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PROTAGO NI S TA S
Fernanda Matos,
no Parque das Nações,
em Lisboa
Quando os amigos começaram a ser enviados para
a guerra, tratou de os ajudar a saltar a fronteira
gente maluca, as pessoas
falavam umas com as outras,
esfusiantes, sem medo. Nunca
mais vivi uma atmosfera
assim”, lembra Fernanda, que
acabou por só conseguir voltar
a ver o namorado no dia 26.
“Passámos a noite à porta da
prisão, lado a lado com muitas
figuras políticas. Depois de
muita pressão lá os deixaram
sair e foi uma saída triunfal,
as fotos correram o mundo.
Acabámos todos a beber cerveja
na Trindade, foi um dia de festa
que fica marcado para sempre”,
conta hoje a técnica oficial de
contas, de 64 anos.
Fernanda não voltou para
Paris, nem casou com o
namorado. “Das mulheres
esperava-se apenas que
casassem e tivessem filhos, mas
eu tinha outros horizontes.” A
verdade é que Fernanda era
uma mulher muito diferente
das portuguesas da época. Aos
18 anos foi “ver mundo num
inter-rail”. Depois, entrou na
faculdade, onde encontrou
“uma juventude muito crítica
e politizada”. Na cantina da
Faculdade de Medicina ousava
ver filmes proibidos pela
censura. “Enquanto uns viam,
outros faziam vigilância.” E
juntava-se regularmente com
amigos em cafés para ler jornais
e discutir política. “Éramos
provocatórios. Lembro-me
de irmos ao café A Mexicana
e percebermos que havia lá
um pide. Falávamos ainda
mais alto quando o víamos e
chegámos a pôr-lhe papéis no
carro a chamar-lhe ‘assassino’ e
pidesco’”.
A “adrenalina da idade
ajudava”, mas era a revolta
que sentia desde que o irmão
mais velho fora enviado para a
guerra colonial que a corroía
por dentro.
AfinAl, PAris
Pode esPerAr
Quando os amigos mais
chegados começaram a ser
sinalizados como contestatários
e enviados para a guerra como
castigo, Fernanda não teve
dúvidas: “Era meu dever ajudálos no meio daquela injustiça.”
Num Citroën 2 CV levava-os
até ao Gerês, onde passavam
a fronteira para Espanha.
“Ainda não havia sistemas
informáticos, portanto era
mais fácil fugir ao controlo da
polícia.” De seguida, os amigos
apanhavam autocarros para
França, destino que Fernanda
também acabou por ter.
Foi para Paris por vontade
própria, para estudar
sociologia, e lá conheceu
“muitas mentes livres,
pensadoras”. Juntou-se aos
revolucionários da LUAR,
distribuía o jornal da Liga aos
nossos emigrantes “para os
fazer pensar no que se passava
no país” e ajudava quem
precisasse de passaportes
falsos para escapar ao regime.
Quando embarcou no
comboio para Lisboa para
visitar o namorado na prisão,
trazia na bagagem aqueles
tempos de “liberdade de
pensamento e de expressão”.
Tempos que guarda bem vivos
até hoje. “Tirei um bilhete de
ida e volta mas acabei por ficar
com ele como recordação.
Vou a Paris todos os anos, mas
depois da revolução achei que
ainda valia a pena acreditar em
Portugal. O meu lugar era aqui
outra vez.” ^
25 Abril 40 anos | 103
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PROTAG ON IS TA S
Figueira Mendes, na sala
onde há quatro décadas fez
julgamentos (na mesa, peça
de damasco vermelho com
o pavilhão real usado pela
Câmara de Grândola)
Figueira Mendes
O autarca que foi juiz
Poucas semanas após o 25 de Abril, os portugueses
experimentaram as primeiras eleições livres,
de braço no ar. Foram as escolhas da comissões
administrativas que governaram as câmaras
TEXTO PAULO PAIXÃO
FOTOGRAFIA ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
104 | 25 Abril 40 anos
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PROTAGO NI S TA S
A
votação teve lugar
no campo de
futebol. Figueira
Mendes, o homem que
conduziu os destinos do
município de Grândola
nos primeiros passos da
democracia — e voltou ao
cargo quase quatro décadas
depois, nas autárquicas de
setembro passado —, recorda
aquele momento.
“Foi em maio de 1974.
Todos os membros da
comissão administrativa
foram eleitos por braço no ar.
Depois, entre eles, é que me
designaram presidente”, diz.
Logo a 25 de Abril de 1974
foram demitidos o Governo
e os governadores civis. Aos
poucos, entre os presidentes de
câmara (cargos de nomeação
durante o Estado Novo), uns
saem pelo seu pé, outros são
afastados. “A quase totalidade
pediu a demissão ou foi
exonerada automaticamente”,
explica Maria Antónia Pires
de Almeida, investigadora e
autora da obra “O Poder Local
do Estado Novo à Democracia.”
“As populações
mobilizaram-se e pela
primeira vez a ação
popular teve resultados
práticos na organização do
poder político”, afirma a
historiadora. “Nos concelhos
do Alentejo isso foi muito
frequente”, devido ao papel
do PCP, que “assumiu a
liderança local”, acrescenta.
À frente da comissão
administrativa de Grândola,
Figueira Mendes herda os
poderes antes nas mãos dos
presidentes de câmara. E entre
essas competências figurava,
ocasionalmente, a de juiz, nas
“faltas ou impedimentos” do
magistrado.
RetRatos
de outRo tempo
Pelo estatuto judiciário
vigente em 1974, o juiz de
direito era substituído pelos
conservadores do registo
predial e do registo civil.
Mas na ausência destes, ou
tratando-se de uma mulher,
avançava “o presidente da
câmara municipal do concelho
sede da respetiva comarca ou
quem as suas vezes fizer”.
Ainda por cima, Grândola
não tinha comarca, com sede
em Alcácer do Sal desde
a reforma judiciária feita
após o fim da I República.
Fischer Sá Nogueira,
juiz conselheiro jubilado,
lembra-se desses caminhos
alentejanos, calcorreados na
segunda metade da década
de 50, quando era um jovem
delegado do procurador
da República. “Todas as
semanas, deslocava-me um
dia de Alcácer a Grândola,
acompanhando o juiz.” Eram
outros tempos, recorda. “A
função de juiz só podia ser
administrativas, condutores
apanhados sem carta, por
exemplo”. As chamadas
“contravenções” (hoje
designadas contraordenações),
esclarece Sá Nogueira.
Figueira Mendes, hoje
com 71 anos, recorda-se,
particularmente, de um
julgamento, em que aplicou
“pena suspensa de coima” a
um conterrâneo, “apanhado
pela GNR a conduzir sem
documentação”. Tratava-se da
sanção mais leve — a alternativa
era a multa. “Mas como é
que eu, um revolucionário, o
poderia condenar?”,interrogase, bem disposto.
Embora suave, o veredicto
fez mossa na relação entre
os dois grandolenses, pois
o prevaricador queria a
da comissão administrativa de
Grândola espelha bem isso.
Há um licenciado em direito,
é verdade... Mas lá estão um
operário metalúrgico, um
industrial de serralharia,
um operário corticeiro, um
encarregado de fábrica, um
comerciante e um empregado
de escritório.
tRiButo a Zeca aFonso
As primeiras deliberações
refletem a atmosfera desses
tempos. Logo na primeira
reunião, a 15 de julho de 1974
(três dias depois da posse,
dada pelo “secretário” do
Governo Civil, “servindo de
governador”), é assumida
a designação de “comissão
democrática administrativa” —
quando a lei apenas consagrava,
A um conterrâneo, apanhado pela GNR
a conduzir sem carta, aplicou uma pena suspensa.
O prevaricador, que queria a absolvição a todo
o custo, esteve uma dúzia de anos sem lhe falar
exercida por homens. Era uma
sociedade em que o patriarca
mandava”.
No segundo semestre de
1974, quando a “vila morena”
fervia politicamente, Figueira
Mendes fez “uma meia dúzia
de julgamentos”. Foram
realizados numa sala por
onde passa muita da história
local. Foi os primeiros Paços
do Concelho; depois, serviu
de cadeia no rés do chão e
de tribunal no primeiro piso,
juntando ainda o notário e
o registo civil. Mais tarde,
tornou-se sede do PCP, estando
na origem de um braço de ferro
com a câmara (do socialista
Carlos Beato), que procederia
ao despejo, acabando tudo em
tribunal. Voltou à posse da
autarquia, sendo agora galeria
de exposição. Um observatório
da canção de intervenção está
no horizonte.
O autarca julgou casos
simples, de “pequenas infrações
absolvição a todo o custo.
Como retaliação, “esteve uma
dúzia de anos sem me falar”,
diz o antigo autarca-juiz.
a Renovação
das elites locais
A função judiciária foi
exceção no dia a dia. Ajuda,
no entanto, a caracterizar a
sociedade e as instituições
portuguesas no início da
democracia.
Em 1974, a eleição das
autoridades locais foi uma
pedrada no charco. “As
comissões administrativas
mudaram completamente
os grupos que estavam no
poder. Até então, o típico
presidente de câmara era
um notável local, que num
meio rural costumava ser um
latifundiário”, explica Maria
Antónia Pires de Almeida.
Com a Revolução dos Cravos,
tudo mudou. O “Diário da
República” com a nomeação
secamente, a formulação de
“comissão administrativa”.
Uma definição reafirmada,
aliás, na reunião de 20 de
dezembro de 1974. Então, é
decidido não sujeitar ao Governo
Civil o plano de atividades e
bases para o orçamento de 1975,
por se tratar de uma “disposição
legal de orientação e sabor
fascista que a todos os títulos
se impõe sanear nas suas mais
profundas raízes”.
Pelo meio, e menos de
dois meses após o fim da
ditadura, os eleitos agem em
sintonia com a notoriedade
da sua terra. Pelo facto de
‘Grândola, Vila Morena’
ter “servido de senha” ao
25 de Abril e de o povo ter
aceitado a canção como
“um hino” e um “símbolo da
liberdade”, os membros da
comissão administrativa, por
unanimidade, atribuem a José
Afonso o título de “cidadão
honorário de Grândola”. ^
25 Abril 40 anos | 105
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PROTAG
ONNIS
IS TA
S S
PR
OTAGO
TA
Manuel Madeira Piçarra
Um diretor de jornais
entre a Censura e o PREC
O fundador do “Diário do Sul” teve de haver-se
com a Censura. No PREC, viu o jornal de Évora
ocupado e ficou preso em Caxias 37 dias, dividindo
a cela com banqueiros ou o duque de Palmela
TEXTO PAULO PAIXÃO
FOTOGRAFIA ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
106 | 25 Abril 40 anos
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PROTAGO NI S TA S
Manuel Madeira Piçarra
na redação
do “Diário do Sul”,
jornal que dirige
desde 1969
Na ditadura, um artigo “muito duro” sobre
a União Nacional levou-o ao Tribunal da Boa Hora.
No Verão Quente esteve detido pelos militares
N
uma vitrina do
arquivo do “Diário
do Sul”, Manuel
Madeira Piçarra guarda com
esmero cartões trocados
com figuras que marcaram a
política e as letras nacionais.
Lá estão os cumprimentos
de Salazar, Craveiro Lopes,
Ferreira de Castro, Mário
Soares, Vergílio Ferreira (o
escritor, que lhe “pegou a
doença dos jornais”, foi seu
professor no Liceu de Évora)
ou Marcelo Rebelo de Sousa.
O portefólio não espelha
qualquer vínculo políticopartidário do ainda rebelde
homem de 83 anos (faz
amanhã 84). No fascismo,
a Censura olhou-o de viés,
como “anarquista”; no PREC
(Processo Revolucionário em
Curso), era tido por “fascista”.
De permeio, na Primavera
Marcelista, resistiu ao canto
da sereia para engrossar as
fileiras do Estado Novo. A
correspondência de Piçarra,
as histórias que desfia ou até
a coleção de máquinas de
escrever, com verdadeiras
relíquias, apenas atestam a
sua longevidade.
“Sou o único diretor de
jornal que vem do tempo do
salazarismo”, conta a sorrir.
Só no “Diário do Sul” o papel
é desempenhado desde 1969.
Mas, já antes, em meados da
centúria (1951), estava ao leme
da revista literária “Horizonte”
(pela qual, além de Vergílio,
passaram Régio, Namora e
Lima de Freitas, entre outros).
Começou aí o jogo do gato e
do rato de Piçarra com o lápis
azul. A partir de 1959, envolvese no “Jornal de Évora”, um
trissemanário cujo êxito o fez
sonhar com um diário. Mas
o Estado Novo nutria por
ele “embirração”, por ser do
“reviralho”.
Namorado
pelo marcelismo
Um artigo “muito duro sobre
os representantes da União
Nacional” levou-o ao Tribunal
da Boa Hora, em Lisboa. Com
tal conta-corrente não admira
que o pedido para criar o
diário tenha chumbado três
dezenas de vezes. A luz verde
só acendeu com Marcelo
Caetano no poder, graças
aos bons ofícios de um novo
governador civil de Évora
(José Castelo Branco).
A democracia não chegou
sem que Piçarra tenha
resistido a assédios para
integrar a Ala Liberal na
Assembleia Nacional e, a
poucos meses do 25 de Abril,
“organizar politicamente o
Alentejo”, com a missão de
cooptar novos líderes locais.
Depois de 1974, o “Diário
do Sul” foi atravessado pelas
tensões desse tempo (e a
planície alentejana, dominada
pelo PCP, era particularmente
explosiva). A 13 de março de
1975, acabara de fracassar
o golpe spinolista, Piçarra
viu o jornal ocupado. “Eram
militantes comunistas, de
terras à volta de Évora”,
diz, ressalvando que o PCP
nunca reconheceu tal facto.
“Fui assaltado um mês antes
do ‘República’”, reivindica a
primazia, em tom de ironia.
O assenhoreamento durou
pouco. Dois dias volvidos,
recuperou o jornal. Mas foi
sol de pouca dura: ao fim 48
horas, nova investida.
A promessa ouvida na
manhã de 17 de março, no
quartel-general da Região
Militar Sul, de que tudo seria
resolvido na mesma tarde,
tem desfecho de sinal oposto.
Atraído à caserna, Piçarra
sente nas costas os canos de
duas armas e ouve ordem de
prisão dos militares.
Segue-se a viagem
de Évora a Caxias, “no
Mercedes preto do segundo
comandante”. No forte onde
a ditadura mantivera a ferros
muitos presos políticos,
são agora aglomerados
centenas de detidos no clima
revolucionário. “O chefe dos
guardas pediu aos militares o
meu mandado de detenção,
mas estes nada tinham.”
perseguido No prec
Após horas de espera, é
mandado para uma divisão (a
“Sala 1, 2º Direito”, título do
livro em que depois relataria
os dias de custódia. Partilha
a cela com gente famosa que
só conhecia de nome: José
Roquette, Manuel Ricardo
Espírito Santo, Quirino
Mealha (presidente do Banco
Borges), Luís Holstein (duque
de Palmela) e Francisco
Spínola (irmão do general).
“Estive lá 37 dias, mas
ninguém me perguntou
nada. Uma noite, ao jantar,
chamam por mim, para
me libertarem. Mas eu não
queria sair sem ser ouvido,
para evitar que voltassem
a colocar-me lá dentro.
Escrevi isso mesmo num
papel enviado ao comandante
do forte. Na mesma folha,
ele respondeu de seguida,
mandando-me abandonar a
prisão urgentemente, pois era
comandante do forte e não
carcereiro.”
De novo em Évora, Piçarra
assiste de fora à publicação do
“Diário do Sul” até novembro
de 1975, quando os ocupantes
editaram o último número. O
jornal estava “semidestruído”.
Pretenderam devolver-lho
logo, mas recusou, por
querer um ressarcimento e
garantias. Nunca recebeu
um tostão. “Ninguém nos irá
indemnizar”, concluiu então.
Caxias, uma “experiência
rara”, não “deixou marcas
nem rancores”. Foi em frente.
“Ponho uma pedra de cem
toneladas sobre tudo.” A
publicação do “Diário do Sul”
é retomada em julho de 1977. ^
25 Abril 40 anos | 107
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Internacionalismo
proletário
© Arq. do Centro de doCumentAção 25 de Abril dA u. C.
DesDe o primeiro momento, o processo democrático português foi
inspirador para o mundo — e ao mesmo tempo foi recetivo a mensagens vindas
de outros contextos revolucionários. Por um lado, com um discurso sobre as
ainda colónias africanas que lutavam pela independência — e do lado de cá
toma-se partido por determinado movimento do lado de lá — e na celebração da
amizade com os povos de Leste ou latino-americanos. Neste quadrante, foi um
impulso e uma esperança para quem, no Brasil, lutava contra a ditadura militar.
Pelo outro lado, a evolução do processo português foi feita com a incorporação
de muitas referências estrangeiras (o caso mais marcante foi o Chile, com a
exaltação da figura de Allende na resistência a Pinochet). ^ paulo paixão
108 | 25 Abril 40 anos
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“Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim”
© Arq. do Centro de doCumentAção 25 de Abril dA u. C.
Chico Buarque de Hollanda
“Tanto Mar”
25 Abril 40 anos | 109
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ARTUR
SANTOS
SILVA
“Não acreditava
que conseguíssemos avançar
tanto em 40 anos”
Entrevista
Henrique Monteiro
Joana Pereira Bastos
fotografiaS
nuno botelho
25 Abril 40 anos | 111
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Ent r Evis ta
ARTUR
SANTOS
SILVA
Artur Santos Silva
fotografado no seu
gabinete, na Fundação
Calouste Gulbenkian
O
presidente da Fundação Calouste Gulbenkian e antigo
diretor do primeiro banco privado português viveu
com euforia o 25 de Abril, mas confessa ter tido medo
durante o PREC. Hoje, teme que estejam em risco
as maiores conquistas da democracia, como o Serviço Nacional
de Saúde ou a expansão do sistema de ensino. Aos 72 anos, Artur
Santos Silva não poupa críticas ao “ataque massivo às pensões”, que
diz ameaçar a confiança no Estado. Mas, apesar da crise profunda
que se vive, acredita que o país será estudado lá fora como exemplo
de uma recuperação de sucesso.
Para si, o 25 de Abril foi uma surpresa
ou tinha a perceção que a mudança
estava iminente?
Com o fim de Salazar houve alguma
esperança de que o regime se abrisse e de
que se iniciasse uma reforma, mas isso
não aconteceu. O meu sentimento era o
de que, em 1973-74, o regime estava perto
do fim. A consciência de que a Guerra
Colonial só podia ter uma saída política e
uma maior liberalização da economia
vieram reforçar as contradições… Havia
uma enorme especulação na área
imobiliária e no mercado de ações e, no
final de 1973, a crise do petróleo veio
alterar radicalmente a envolvente externa.
Também no plano internacional se sentia
uma pressão, estava a sentir-se uma
pressão adicional para uma mudança.
Porém, quando o golpe militar de 16 de
março falhou, pensei que o regime fosse
apertar mais o controlo, nomeadamente
sobre as Forças Armadas.
O país democrático que idealizava é
parecido com o que temos hoje?
A evolução que o nosso país teve no plano
social foi muito superior ao que esperava.
Acreditava que uma sociedade aberta e
democrática nos ia trazer muito, mas estava
consciente das limitações que existiam a um
progresso rápido, nomeadamente o baixo
nível de qualificação da população, as
desigualdades, as assimetrias regionais, a
inexistência de uma ampla classe média,
uma agricultura manifestamente ineficiente,
etc... Nunca pensei que com as qualificações
dos nossos recursos humanos
conseguíssemos avançar tanto. Isto,
também, só foi possível porque houve uma
solidariedade europeia, que nos
proporcionou meios financeiros muito
significativos.
Como viveu o período do PREC?
Em relação ao 25 de Abril, os primeiros
momentos foram da maior euforia.
Depois, consciencializei-me de tudo o que
estava em causa para que a mudança
política se consolidasse. Mais tarde, muito
me preocupou o curso dos
acontecimentos. A radicalização foi
crescente, e isso foi-se sentindo ao nível do
poder político-militar, do movimento
sindical, dos media, da universidade.
Que consequências teve esse período?
Com o 11 de março há uma aceleração
da radicalização. A primeira onda de
choque das nacionalizações foi nos
sectores da banca e seguros, a que se
seguiram as mais importantes empresas
de outras áreas da economia. Foi um
erro enorme. A irracionalidade na
gestão dos bancos revelou-se em
especial na gestão dos riscos de crédito,
que passou a ser essencialmente
política. As empresas apresentavam
mensalmente listagens com montantes
de salários e pagamentos a fornecedores
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a efetuar e que eram prontamente
financiados. Com a decisão de
nacionalizações sem qualquer critério
económico destruíram-se centros de
racionalidade que demoram muito
tempo a criar. Para terem lugar as
eleições para a Assembleia Constituinte,
os partidos foram obrigados a celebrar
um pacto com o MFA, comprometendose a consagrar na futura Constituição o
princípio da irreversibilidade das
nacionalizações, quer de empresas, quer
da propriedade na zona da reforma
agrária. Houve também muitas prisões e
perseguições realizadas da forma mais
arbitrária, que geraram grande pânico.
Teve medo?
Tive. Estava então convencido de que
podíamos ter uma situação anarquizante,
com todos os riscos inerentes, ou um
novo regime totalitário, mas de esquerda,
com a complacência do poder militar.
No Porto isso sentiu-se como em
Lisboa?
No Norte, as nacionalizações só
abrangeram uma unidade de pasta de
papel, uma empresa de cervejas, dois
bancos e algumas companhias de seguros.
Mas houve uma forma disfarçada de
nacionalizações, que foi a intervenção do
Estado na gestão de empresas, o que criou
a maior insegurança e incerteza. Lembrome de um caso singular e paradigmático,
o da Têxtil Manuel Gonçalves, mas houve
muitos outros. Havia a esperança de que
as eleições para a Constituinte
conduzissem a uma clarificação. Pelo
contrário, assistiu-se a uma forte
aceleração da radicalização. Mário Soares
foi impedido de falar no 1º de Maio, a que
se seguem duas grandes manifestações
nas ruas de Lisboa contra o ilegítimo
controlo do jornal socialista “A República”
e da Rádio Renascença. Depois, em julho,
um impressionante comício do PS no
Estádio das Antas, a contestar o poder
político-militar estabelecido e a falta de
liberdades, a que se seguiu, em Lisboa, o
da Fonte Luminosa. Foram esses
movimentos de rua que deram mais força
aos militares moderados. Quando Vasco
Gonçalves deixa de ser primeiro-ministro,
há um período de umas semanas até ver
quem lhe sucede e depois forma-se o VI
Governo Provisório, liderado pelo
almirante Pinheiro de Azevedo e no qual o
dr. Salgado Zenha é ministro das Finanças
e que me convida para secretário de
Estado do Tesouro. A partir da
clarificação político-militar resultante dos
acontecimentos de 25 de novembro, o país
entrou num quadro de normalização
democrática muito positivo, como se nada
de radical tivesse acontecido antes. Com
dois pilares do regime anterior, as Forças
Armadas e a Igreja Católica, a aderirem
totalmente à democracia e a contribuírem
para a sua consolidação.
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Na sua opinião, qual é o maior sucesso
deste Portugal pós-25 de Abril?
Apesar de sermos uma sociedade muito
desigual em qualificações e rendimentos,
mostrámos uma excecional coesão. O caso
mais significativo foi o da chegada e
integração dos retornados das ex-colónias.
O país teve um aumento de população na
ordem das 700 mil pessoas, muitas delas
em idade ativa, que em geral chegaram
sem quaisquer haveres para começarem
uma nova vida. Criou-se, então, um fundo
para apoiar o lançamento de novas
iniciativas empresariais, que conseguiu
resultados espetaculares. Outro grande
sucesso foi a criação do Estado social.
Praticamente não tínhamos saúde pública,
evidenciando, por exemplo, dos piores
indicadores entre os países da OCDE ao
nível da mortalidade infantil, quando hoje,
em mortalidade infantil, apresentamos os
mais favoráveis resultados à escala
mundial. O pilar do Estado social em que
fomos mais bem sucedidos é sem dúvida o
da saúde. Na educação também fizemos
um progresso extraordinário. No final dos
anos 60, só 1% da população tinha estudos
superiores e só havia cerca de 30 mil
estudantes universitários. Hoje temos 400
mil. Também a Segurança Social veio
gradualmente a cobrir toda a população.
Outro aspeto muito importante é a forma
como o nosso país se adaptou rapidamente
às regras do mercado comum no período
de transição, bem como, a seguir, na
aceleração do movimento de integração
europeia, como a criação do mercado
único. Por outro lado, os fundos europeus
permitiram modernizar muitas das nossas
incipientes infraestruturas.
Mas essa não foi uma oportunidade
perdida?
Muita gente diz que só se pensou no
cimento, mas a verdade é que o país não
tinha infraestruturas essenciais — cerca de
50% das casas sem abastecimento de água,
saneamento básico e energia elétrica, uma
rede de estradas que não aproximava o
litoral do interior, um sistema de
telecomunicações arcaico. A modernização
dos serviços de educação (escolas e
universidades) e de saúde, tudo isso foi feito
essencialmente com os fundos europeus.
Assim como a modernização da nossa
indústria e da nossa agricultura. Muita
gente diz que a agricultura portuguesa foi
destruída, mas isso não é verdade. O salto
que a agricultura deu em eficiência é
impressionante. Há 20 anos tínhamos 80
mil produtores de leite, que produziam um
µ
É impressionante
constatar que, de 1984
até ao final dos anos
90, o PIB per capita,
em paridade de poder
de compra, tivesse
passado de cerca de
55% para perto de
80%. Só que, quando
olhamos para 40 anos,
somos muito
influenciados pelos
tempos mais recentes.
Com a adesão ao euro,
o país teve uma ideia
artificial de
abundância
milhão de toneladas. Hoje, com menos de
um décimo dos produtores, produzimos
dois milhões. O sector que mais exporta
hoje é o agroalimentar, ou seja, as indústrias
que estão a jusante da agricultura.
Cometeram-se muitos erros em relação à
floresta, mas em muitos domínios, como a
horticultura, a fruticultura, o vinho ou o
azeite, por exemplo, houve um salto
extraordinário. É verdade que agora,
olhando para trás, vemos que podíamos ter
investido mais na qualificação. Mas tivemos
de abrir o sistema de ensino a todos, e esse
processo não se fez da maneira mais
planeada. É impressionante constatar que,
de 1984 até ao final dos anos 90, o PIB per
capita, em paridade de poder de compra,
tivesse passado de cerca de 55% para perto
de 80%. Só que, quando olhamos para 40
anos, somos muito influenciados pelos
tempos mais recentes, em especial a partir
do início do século. Com a adesão ao euro, o
país teve uma ideia artificial de abundância,
não tanto pelo lado do rendimento, mas
pelo aumento do consumo, através do
crédito.
Muito fomentado pela banca…
Sobretudo ao nível do crédito à habitação. A
procura de habitação própria dinamizou a
indústria da construção civil e a criação de
emprego. Porém, de 2000 até aos nossos
dias, o crescimento acumulado foi apenas de
3%, só comparável ao modesto crescimento
da Itália. Este resultado é muito
dececionante, sem esquecer que, neste
mesmo período, o endividamento externo
duplicou, tal como o endividamento público.
Depois de 2008-2009 fomos vítimas do
impacto da crise e não beneficiámos de
adequadas respostas nas políticas europeias.
Fui um forte adepto da entrada no euro.
Hoje não tenho dúvidas de que a falta de
supervisão a nível macroeconómico
permitiu a geração de resultados muito
negativos. Mas nem pensar em sair do euro.
Nem neste momento?
Isso teria consequências devastadoras. Mas
a verdade é que o euro exigia um elevado
grau de competitividade das economias
que nele participassem para poderem
integrar uma moeda única. Nós
preenchíamos todos os requisitos exigidos,
nomeadamente o ratio de dívida pública
em relação ao PIB, abaixo de 60%, bem
como um défice público em relação ao PIB,
inferior a 3%. Porém, em termos externos,
o crescente desequilíbrio da balança
corrente evidenciava a falta de
competitividade da nossa economia. Ter
uma moeda própria é ter um instrumento
importante para corrigir alguns aspetos da
falta de competitividade externa. Como
disse, faltou uma supervisão sobre as
nossas políticas financeiras, de maneira a
que não descarrilássemos. Isso não foi feito
pela UE. Fomos recebendo avisos, mas não
houve uma efetiva supervisão. Até porque
os dois países mais importantes da zona
euro, a França e a Alemanha, disseram
unilateralmente em 2002 que não iam
respeitar o limite do défice público. Com a
crise aberta pela falência da Lehman
Brothers, assistimos na Europa a uma
situação muito séria do sector financeiro.
Muitos bancos — em especial da Alemanha,
Reino Unido, Irlanda, Holanda e, também
em menor escala, da França — tinham feito
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investimentos massivos em produtos
tóxicos, o que exigiu em muitos casos
recapitalização, a ser feita pelo Estado e
que deu lugar, de facto, à nacionalização de
muitos deles. A partir de 2008, defendeuse que a Europa devia ter uma política
económica e financeira expansionista e que
não devíamos preocupar-nos com os
limites do défice e da dívida pública.
Os Estados deviam injetar dinheiro na
economia, aumentar os investimentos
públicos, etc…
Aliás, em 2007 e 2008 conseguimos um
resultado muito positivo, reduzindo o
défice público de 2005 para 2007 de 6%
para cerca de 3%. Porém, em 2009 e 2010,
as contas públicas derrapam e o défice
público veio a ultrapassar 10% em 2010.
E chegados aqui?
Olhando para trás, acho que o nosso
grande erro foi o de não termos
interiorizado as consequências de
estarmos numa moeda única, ainda por
cima sem adequado acompanhamento da
execução de políticas macro e sem um
banco central com funções típicas. O BCE
tem funções muito limitadas. Em geral,
um banco central tem três objetivos:
defender o valor da moeda, promover o
crescimento económico e o emprego. Nós
temos um banco central que só tem uma
preocupação — o controlo dos preços,
para que não haja uma inflação acima dos
2%. Ora, como se está a ver, muito mais
grave do que uma inflação é uma deflação.
Há pouco, quando falava nas principais
conquistas do pós-25 de Abril, falava
no Estado social. Acha que está a ser
posto em causa?
Está a ser posta em causa a confiança no
Estado pela forma arbitrária, afetando
direitos adquiridos a beneficiários de
sistemas de pensões. O estudo da reforma
das pensões é uma das principais
prioridades e constitui uma área em que é
altamente desejável que haja um consenso
partidário. Mesmo que não seja possível,
como eu desejava, um consenso mais
amplo, há três áreas em que esse
entendimento é imprescindível: o
financiamento do nosso sistema de
pensões, a normalização das relações com
os nossos melhores (da universidade à
ciência) e a modernização do nosso sistema
de justiça. Quando era ministro, Vieira da
Silva fez uma reforma do sistema de
pensões que foi considerada exemplar. Na
altura fomos apontados como o país da
União Europeia com o sistema de pensões
mais sustentável. O que aconteceu, então?
O aumento do desemprego e a ausência de
crescimento económico vieram pôr tudo
em causa. O Estado viu as suas receitas
fiscais (IVA, IRC, IRS) reduzirem-se, ao
mesmo tempo que passou a ter muito mais
custos com as prestações sociais. Só com a
economia a crescer, estimulada pelo
aumento do investimento privado,
poderemos inverter o ciclo em que
estamos. Os fundos europeus que vamos
ter no próximo quadro têm de ser
predominantemente orientados para a
modernização e renovação do nosso
sistema produtivo, bem como para concluir
a requalificação das nossas escolas. Tudo
devemos fazer para não pôr em causa os
alicerces do Estado social.
A saúde e a educação públicas estão
em risco?
É fundamental não sacrificar o que se
conseguiu na saúde nas duas últimas
décadas, mas é natural que se estruture um
novo sistema de financiamento.
Pessoalmente, acho desejável que as pessoas
paguem em função do seu rendimento.
Dir-se-á que já pagam os impostos em
função do rendimento. Entendo, pois, que
µ
Temos de saber
mostrar que
a democracia é
compatível com
o rigor nas políticas
financeiras (...)
A política de finanças
públicas tem
de ser rigorosa
quem não pode pagar nada deverá pagar e
quem pode deve pagar mais. Em relação à
educação, compreendo que no Básico e
Secundário haja uma dimensão mínima das
unidades de ensino. Por outro lado, tem de
haver um grande esforço de formação
permanente dos professores, sendo
montado um estimulante e racional sistema
de avaliação. O nosso país tem de continuar
a apostar numa melhoria do sistema de
educação, mas os cortes têm de ter o seu
critério bem explicitado. Por outro lado,
estou muito preocupado com o
esvaziamento dos quadros de topo da
Administração Central do Estado, pois
precisamos de pessoas de altíssima
qualidade na Administração Pública. Hoje
em dia, as pessoas que trabalham nas
direções-gerais não têm um longo período à
sua frente para realizarem um projeto
sólido. É muito importante que tenham
remunerações compatíveis, independência e
tempo para fazer obra.
Está confiante na recuperação do país?
Em 1979-80, com quatro governos,
Portugal conseguiu num ano e meio anular
um desequilíbrio externo de 10% do PIB, a
partir do acordo que fizemos com o Fundo
Monetário Internacional. Fomos então um
case study de sucesso das políticas de
estabilização do FMI. Em 1983-85
tínhamos o maior desequilíbrio externo da
história da OCDE — 14% do PIB — e em
dois anos e meio conseguimos atingir uma
situação de equilíbrio, com medidas que
assentaram sobretudo nos instrumentos de
política monetária — taxa de juro, taxa de
câmbio e enquadramento ao crescimento
do crédito. E fomos mais uma vez um caso
de sucesso a enfrentar um sério
desequilíbrio externo. Agora, pela terceira
vez em menos de 35 anos, precisámos de
recorrer a uma ajuda externa de capitais
públicos. Temos de saber mostrar que a
democracia é compatível com o rigor nas
políticas financeiras. O nosso país não
pode continuar a deteriorar o seu
endividamento perante o exterior. A
política de finanças públicas tem de ser
rigorosa. Finalmente, precisamos de
requalificar as nossas instituições.
Devolver a maior dignidade ao exercício de
funções públicas — Governo, Parlamento,
poder local —, aumentar a eficácia da
Administração Central, dignificar a justiça,
gerir melhor o território — da qualidade
urbanística das cidades ao melhor
aproveitamento dos nossos recursos
naturais, da floresta à agricultura
e ao mar. ^
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CONTO
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DIÁRIO SECRETO DE MA NUEL MAL AQUIAS
ANA MARIA MAgAlhães e IsAbel AlçAdA
ILUSTRAçõES
gONçAlO VIANA
Apresentação de
MAnuel MAlAquiAs
Aos olhos das crianças que nasceram e cresceram em
democracia a celebração dos 40 anos do 25 de Abril dificilmente se reveste de significado. Para que valorizem
esse acontecimento histórico, é indispensável disponibilizar elementos que ajudem a formar ideias acerca
de uma época que em absoluto desconhecem, ou percecionam como estranha e distante. A personagem a que
demos o nome de Manuel Malaquias foi imaginada para
servir de ligação entre o passado e o presente.
Em 1974, Manuel, no início da adolescência,
vive em Lisboa com a família, frequenta o
liceu, tem amigos e paixonetas. Os pais formam um casal típico da época: ele mais ativo e informado, ela mais discreta e protetora. A irmã, já na universidade, participa nas
lutas estudantis. O tio preferido, o tio Luís,
solteirão de ideias progressistas, mantém
contacto com movimentos da oposição. É
ele quem, na sequência da vigília de protesto da capela do Rato, toma a iniciativa
de sensibilizar Manuel para a necessidade
de prestar atenção e de se informar sobre
o que verdadeiramente se passa em Portugal. Então Manuel, abalado pelas revelações do tio, inicia um diário secreto na madrugada do dia 1 de janeiro de 1973, onde,
ao longo de ano e meio, irá registando factos que o impressionam, opiniões contraditórias, descobertas inesperadas, múltiplas
surpresas. As páginas deste diário permitem ao jovem leitor de hoje acompanhar os
últimos dias da ditadura e as peripécias da
revolução dos cravos, através das vivências
de alguém que, com a mesma idade, presenciou os acontecimentos.
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CONTO
Diário Secreto
1º Registo
Lisboa, 1 de janeiro de 1973
s
ão 5 horas da manhã e não
consigo dormir. Esta noite, para
mim, não foi só passagem de
ano, foi passagem a outra etapa da vida.
Consegui que a família me deixasse ficar
em Lisboa para ir a uma festa e depois
dormir em casa do tio Luís. Tudo por
causa da filha do cônsul do Brasil que me
pôs a cabeça a andar à roda desde o dia
em que se apresentou à turma, separando
um pouco as sílabas do nome: “Sou a Têrê-sa”. A festa não me desiludiu. Depois
das doze badaladas houve beijos de boasfestas, apanhei um da Teresa e fiquei de
cara a arder. Saí convencido de que tão
cedo não me podia acontecer mais nada
de extraordinário, afinal enganei-me. As
revelações que me iam projetar noutra
fase seriam obra do tio Luís. Encontrei-o
no Largo do Rato com ar transtornado.
Arrastou-me para dentro de casa e só lá
dentro falou:
— Fui preso!
— Porquê?
— Não cometi nenhum crime.
Prenderam-me a mim e a todos os que
estavam a rezar pela paz na capela do
Rato.
Tremiam-lhe as bochechas, faíscavamlhe os olhos azuis, eu não sabia o que dizer.
Achava estranhíssimo que o tio passasse a
de Manuel Malaquias
noite de fim de ano a rezar e ainda mais
estranho que alguém pudesse ser preso
por causa disso.
— Parece-te normal?
— Não!
— Claro que não. Só num país atrasado,
num país onde não há liberdade,
acontece uma coisa destas. Foi incrível.
A polícia apareceu em força. Vinham
armados, traziam cães, bloquearam a
rua, trataram-nos como se fossemos
bandidos, levaram-nos para a esquadra.
— Para quê?
— Para nos identificarem. Alguns
seguiram para a prisão de Caxias. A
outros, como eu, soltaram-nos. Mas
ficaram com a lista completa das pessoas
que se juntaram...
— A rezar pela paz?
Respondeu com um sorriso ambíguo.
— Neste caso, rezar pela paz significou
protestar contra a guerra colonial.
Sabíamos que a reunião nos punha em
perigo, mas não podemos continuar
de braços cruzados. Está tudo farto de
ver os filhos irem morrer em Angola,
em Moçambique, na Guiné. A guerra é
injusta, uma teimosia deste governo de
ditadura. Quem se atreve a discordar fica
marcado, é perseguido, pode ser preso e
torturado.
— Pela PIDE?
— Sim. O nome mudou para DGS, mas é
a mesma coisa, polícia política. Existe para
espiar e prender quem se opõe à ditadura.
Calou-se, eu fiquei a pensar. O que
acabava de ouvir não era novidade
absoluta, mas tinha-me passado ao lado.
A minha vida decorria sem sobressalto
no circuito casa-escola-amigos. Ninguém
me falava de política, já surpreendera
adultos a comentar questões relacionadas
com a PIDE, sem lhes prestar atenção.
O tio Luís acabava de pôr ponto final no
meu alheamento. Queria saber mais e ele
retomou o assunto.
— Nos países civilizados as pessoas são
livres de debaterem ideias e formarem
partidos políticos. Há eleições a sério,
quem ganhar, ganhou. É a democracia.
Em democracia há liberdade e a liberdade
é um direito do ser humano.
Acenei que sim.
— É preciso lutar para que o país mude.
Provavelmente nunca pensaste nestas
coisas, és muito novo. E nunca sai nada
nos jornais, na rádio ou na televisão,
porque os tipos da censura cortam as
notícias que consideram revolucionárias
ou inconvenientes. Aposto que amanhã
impedem a divulgação do que se passou
na capela do Rato. Vocês crescem
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DIÁRIO SECRETO DE MA NUEL MAL AQUIAS
de olhos fechados, isto não pode
continuar!
De repente percebi que já não estava
só de acordo com ele, estava conquistado
para uma causa. Não queria continuar na
ignorância, nem viver num país atrasado.
Mas que fazer? O tio apontou-me o
caminho:
— Acorda, Manel! Informa-te. Quando
discutirmos em família, faz perguntas,
compara opiniões para adquirires ideias
próprias. O país há de dar uma volta. Não
sei se ainda cá estarei para ver, mas tu sim.
Não disse mais nada, eu saí da sala
com a sua mensagem a ressoar dentro
da cabeça. Já decidira informar-me. Mas
quando fiquei sozinho, voltei a sentir a
emoção do beijo de boas-festas que me
deixara em brasa. E dividi-me entre o
desejo de um dia ajudar o país a dar uma
volta e o desejo secreto de que chegue
o dia em que eu e a Teresa havemos de
sair para dar uma volta. Neste estado de
espírito, quem é que consegue dormir?
2º Registo
Lisboa, 6 de janeiro de 1973
À
hora do almoço fui à
papelaria onde costumo
comprar canetas à senhora
Clementina. Encontrei-a empoleirada
num escadote a massacrar a parede com
marteladas que espalhavam nuvens de
caliça. Quando o prego se imobilizou,
retirou da prateleira uma fotografia
emoldurada e pendurou-a com gestos
carinhosos. Depois olhou para mim,
ainda de cima do escadote.
— É o meu sobrinho preferido. Foi
chamado para Angola, está no mato.
Nunca me teria lembrado de ir
perguntar à senhora Clementina o
que pensava da guerra em África,
para colecionar opiniões, conforme
recomendara o tio Luís. Mas já agora,
como vinha a propósito, aproveitei.
— Ele está em zona de combate?
— Está. — Sacudiu a caliça dos cabelos
e desceu do escadote. — A gente aflige-se,
mas temos que defender o que é nosso.
Angola é nossa. Quando os terroristas
desataram a matar gente, o Salazar
mandou logo a tropa para os meter na
ordem.
— Pelos vistos não conseguiu, já
morreu há vários anos e a guerra
continua em Angola, em Moçambique,
na Guiné.
— Mas há de acabar.
— Acha?
— Claro, Manel. Os nossos soldados
são os melhores do mundo. Então andas
a estudar e não sabes isso? Eu só fiz a 3ª
classe e sei.
— Só andou na escola três anos?
— No meu tempo era assim. Os rapazes
iam à escola quatro anos e as raparigas
três. Quem não tivesse dinheiro para
continuar, procurava trabalho.
Voltou a olhar a moldura e suspirou.
— O Salazar faz muita falta.
Queixavam-se de que governava o país
com mão de ferro, mas se ainda cá
estivesse, já a guerra tinha acabado.
Em vez de comentar, comprei uma
caneta e saí a pensar no que diria o tio
Luís sobre aquela opinião que recolhera
por acaso. Aos sábados janta connosco,
vi-o nessa noite. Esperei para falarmos
porque chegou entusiasmadíssimo
com o primeiro número de um jornal
chamado Expresso. Mostrou-o ao meu
pai, discutiram notícias e artigos, quase
todos escritos por pessoas que ambos
conhecem. Ao folheá-lo deparei com
assuntos que contradizem o que o tio
Luís me explicou na passagem do ano.
Segundo ele, vivemos em ditadura,
não há partidos políticos, nem eleições
e o governo prende as pessoas que se
lhe opõem. Ora na primeira página do
Expresso fala-se sobre eleições. E na
segunda sobre um Congresso da Oposição
Democrática. Fiquei impaciente por
perguntar “Tio, afinal como é?” Mas
esperei porque se a família ouvisse punhase a dar palpites e não me apetecia.
O tio achou graça. Esclareceu as
minhas dúvidas.
— É verdade que o governo persegue e
prende os opositores. Quem é considerado
perigoso devido às suas ideias, ou está
preso ou fugiu para o estrangeiro. Quanto
a partidos políticos, são proibidos. Existe
um, organizado há muito, o partido
comunista, mas os comunistas ou estão
na cadeia, ou fugiram, ou vivem por aí
escondidos, na clandestinidade. Há outros
movimentos, e sei que lá fora um grupo
prepara em segredo a formação de um
partido socialista.
“O meu tio Luís mostrou
o Expresso ao meu pai:
discutiram notícias e artigos”
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CONTO
“Sei que os estudantes
universitários chamam gorilas
aos homenzarrões que o governo
mandou para as faculdades”
— E as eleições?
— São aldrabadas. Aceitam listas de
opositores sem partido, mas falseiam os
resultados e ganham sempre os apoiantes
do governo. Quando o Salazar ficou
inválido, em 1968, e foi substituído pelo
Marcelo Caetano, acreditou-se que o país
ia evoluir para a democracia. Afinal só
houve mudanças ligeiras. Nas eleições
de 1969, incluíram nas listas do governo
30 homens que defendem progresso sem
revolução. Chamam-lhes Ala Liberal. Mas
tudo o que propõem é reprovado pelos
outros deputados.
— Então ficamos na mesma?
— Como a lesma. Mas os da Ala Liberal
não desistem, por isso fundaram este
jornal. Vão ter de fintar a censura para
informar as pessoas.
— Não sei é se as pessoas querem…
Contei-lhe o que se passara na papelaria
e ele deu-me um conselho.
— Não fiques pelas aparências, Manel.
Julgas que recolheste uma informação e
recolheste outra. A senhora Clementina
não tem espírito crítico por ser ignorante.
Manter as pessoas na ignorância foi uma
aposta da ditadura. Povo sem instrução é
fácil de iludir e de controlar.
Sozinhos à mesa, olhámos a mousse de
chocolate que sobrara do jantar. E em silêncio
rapámos a taça. Gosto imenso do tio Luís.
3º Registo
Lisboa, 11 de maio de 1973
A
minha irmã mais velha
apareceu em casa a sangrar da
testa, com as meias e a camisola
rotas, num estado miserável. Atrás vinha
o namorado cheio de nódoas negras na
cara. A mãe ficou em estado de choque e
só gaguejava:
— O que foi? O que foi?
— Foram os gorilas, mãe, os gorilas!
No ano anterior, aquela cena talvez me
fizesse pensar em gorilas enfurecidos,
escapados do jardim zoológico ou de
algum circo, mas agora já estou bem mais
informado sobre o que se passa no país.
Sei que os estudantes universitários
chamam gorilas aos homenzarrões que o
governo mandou para as faculdades, com
a missão de os vigiarem, de impedirem
reuniões e protestos, de castigarem
ou prenderem quem se atrever a não
cumprir ordens. Afinal a presença deles,
em vez de atemorizar excitou os ânimos
e, ultimamente, tem havido conflitos
quase todos os dias. A mãe sempre pediu
à Rita que não se metesse em política e
ela durante algum tempo pareceu pouco
interessada. Mas desde que namora o Gil
e sobretudo depois de ter ido passar férias
a Inglaterra onde conheceu e conversou
muito com estudantes ingleses e de outras
nacionalidades mudou completamente de
atitude. Quando regressou, tornou-se muito
ativa e faz gala em pertencer à associação
de estudantes da Faculdade de Letras, que
por sinal está proibida. Pelos vistos nem
esta sova que lhe deram os gorilas, surtiu
o menor efeito. Vai continuar a envolverse nos movimentos de contestação. Isso
mesmo repetiu várias vezes.
— Se eles pensam que nos dominam
à força de pancadaria, estão muito
enganados.
Em vez de se ir lavar e desinfetar pôsse a reviver os acontecimentos numa
fúria arrebatadora.
— Isto é uma vergonha! Não admira
que no estrangeiro façam troça de nós.
A mãe nem imagina o que eu ouvi em
Inglaterra.
— Sim, mas agora acalma-te.
— Acalmar? Onde é que já se viu
matulões descerebrados a guardar
estudantes universitários? Nós temos
direito às nossas opiniões e a poder
divulgá-las. Somos estudantes, não
somos carneiros!
A mãe fitava-a estarrecida. O Gil
também não tirava os olhos dela, num
êxtase apaixonado. Naquele momento
ocorreu-me uma expressão que as
circunstâncias tornavam inoportuna
“contemplava-a com olhos de carneiro
mal morto”. Tive de fazer um esforço
para não rir. Rita não se apercebeu e
continuou a barafustar.
— Os tipos bateram na malta a torto
e a direito. Até um professor apanhou
pauladas!
— E afinal porquê?
— Pouco importa o “porquê”. Desta
vez estávamos a discutir as formas
de avaliação, mas isso não interessa,
podíamos estar a discutir outra coisa
qualquer. Eles atacam cegamente a
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DIÁRIO SECRETO DE MA NUEL MAL AQUIAS
pretexto de que estão proibidas reuniões
em que participem mais de quatro
pessoas. Acha normal, mãe? Nos países
civilizados as pessoas reúnem-se quando
querem, discutem o que entendem,
dizem e escrevem o que pensam. Aqui
ideias novas são para calar e engolir.
Tentam enfiar-nos rolhas pela boca
abaixo. E ai do rapaz que se manifeste
contra a guerra, esse vai mais depressa
parar à tropa e a zona de combate.
Quem reclamar contra o governo é logo
rotulado de comunista quer seja quer
não. E todos sabemos qual é o destino
dos comunistas. Parece-lhe que isto pode
continuar eternamente?
— Não há nada que dure eternamente,
minha filha. Havemos de viver num país
livre.
Talvez a Rita não esperasse aquela
resposta. Eu não esperava. A frase, o
tom, a expressão foi uma surpresa que
nos emudeceu. De repente tornou-se
claro para ambos e certamente também
para o Gil que até a nossa mãe, sempre
tão discreta, também deseja mudanças
e gostaria que não tardassem. Talvez
se mantenha passiva e evite certo tipo
de assuntos por medo. Talvez faça as
recomendações que nos faz por se sentir
na obrigação de proteger os filhos. Mas
anseia pela liberdade. Não há de ser
a única pessoa que tem esperado em
silêncio e vai dar largas à alegria quando
chegar a hora. Suponho que todas essas
pessoas estejam impacientes. Um país
livre, viver em liberdade. Eu próprio
começo a impacientar-me.
e famoso, partilha as opiniões ingénuas
da senhora Clementina da papelaria que
só estudou até à 3ª classe. E gritava-as
com tais ímpetos, que ficou escarlate e
com as veias da testa quase a rebentar.
— Angola, Moçambique, Guiné, Cabo
Verde, São Tomé e Príncipe, Timor são
terras tão portuguesas como o Minho ou o
Algarve. Portugal é um país uno e indivisível.
Dizer o contrário é negar a nossa História,
de que tanto nos orgulhamos. É trair os
navegadores que desembarcaram nas costas
de África, na Ásia, na Oceânia há mais de
quinhentos anos. Fomos nós que demos
mundos ao mundo.
O pai respondeu-lhe num tom brando,
mas bastante irónico.
— Ó Ricardo, respira fundo que
ainda te engasgas de tanto patriotismo.
Ninguém quer negar a História ou
desvalorizar os feitos dos grandes heróis
que se atreveram por mares nunca
dantes navegados. Mas não podemos
cristalizar, virados para o passado. Temos
de resolver os problemas do presente e
preparar o futuro.
— Precisamente. Muitas famílias
portuguesas se fixaram nas terras do
ultramar. Qual será o futuro delas se as
abandonarmos?
— Não se trata de abandonar, trata-se
de negociar.
— Negociar com terroristas?
— Acho que chegou a altura de
banirmos a palavra terrorista. Nós temos
de nos entender com os movimentos de
libertação que lutam pela independência
da sua terra. E quanto mais depressa o
fizermos, melhor para todos.
Agradou-me a serenidade do meu pai e
a maneira inteligente de defender os seus
pontos de vista.
— Os outros países europeus que
também ocuparam territórios em África
e na Ásia perceberam bem mais cedo
que a era do colonialismo chegou ao fim.
Olha lá a França, a Inglaterra, a Holanda,
a Bélgica, umas vezes a bem, outras
nem tanto, nas últimas décadas foram
reconhecendo a independência das suas
colónias.
— Nós não temos colónias, temos
províncias ultramarinas!
— Achas que esse disparate ainda
convence alguém?
— Claro! E a prova está no congresso
que os próprios militares organizaram
no Porto. Não querem entregar aquelas
terras riquíssimas aos países estrangeiros
que as cobiçam. Porque o verdadeiro
“Estalou uma discussão violentíssima. Não me
espantou que falassem da guerra, ultimamente
quase todas as discussões vão lá parar”
4º Registo
Lisboa, 22 de julho de 1973
A
os domingos à tarde é costume
aparecerem amigos dos meus
pais para lanchar e jogar às
cartas. Hoje, ia o jogo a meio, quando
estalou uma discussão violentíssima, o
que não é nada habitual. Fiquei curioso
e como não percebia o que diziam,
resolvi entrar discretamente e sentar-me
num canto a ouvi-los. Não me espantou
que falassem da guerra, ultimamente
quase todas as discussões vão lá parar.
Espantou-me sim e muito que o doutor
Ricardo defendesse encarniçadamente
o envio de tropas para África. O tio Luís
tinha-me dito que só pessoas ignorantes
se deixam iludir por estas decisões do
governo, mas afinal não é bem assim.
Pelos vistos, o doutor Ricardo, advogado
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CONTO
problema é esse, cobiça! Mas os militares
não se vergam, querem combater.
— Estás a esquecer os que não foram
ao congresso. Tu, Ricardo, e os que
pensam como tu, neste momento
pertencem a uma minoria. A população
cansou-se. O mundo está contra nós. A
própria Igreja se distancia e pede outras
soluções. E digo-te mais. Os oficiais de
carreira ficaram furiosos por ter saído
aquele decreto que abre portas da
carreira militar aos oficiais milicianos
que não fizeram o curso como eles
fizeram. Há grande descontentamento
nas forças armadas. Se queres que te
diga, não me admirava que qualquer
dia tomassem a iniciativa de derrubar
o governo e de pôr ponto final neste
regime político apodrecido.
— Estás louco?
— Olha que não, Ricardo. Pressinto
que não tardaremos a assistir a uma
revolução e o palco vai ser Lisboa.
Aquelas palavras excitaram-me. Eu já
tinha visto muitas vezes, na televisão ou
no cinema, revoluções noutras partes do
mundo. Conforme a época, a luta era com
espadas, aos tiros, a lançar bombas. Mas
agora, ao vivo e aqui à porta, como seria?
Saí da sala e esforcei-me ao máximo por
imaginar uma revolução em Lisboa. Por
muitas voltas que desse à cabeça, não
consegui imaginar nada de jeito.
5º Registo
Lisboa, 3 de novembro de 1973
N
ão há nada melhor do que estar
com os amigos num café. Hoje
reunimos um grande grupo
a contar anedotas, a rir, a falar disto e
daquilo. Mas para mim, bom mesmo, foi
quando ficámos só eu, o Jorge e a Teresa.
No princípio do ano estive apaixonado
por ela. Por alturas da Páscoa quem não a
largava era o Jorge. Discutimos o assunto
francamente, concordámos que, além de
gira e simpática, nos atrai por ser brasileira
e ter aquela maneira muito própria de
falar. Faltou descobrir se algum de nós lhe
interessa, a dúvida impediu avanços, lá se
passou o verão, desde que recomeçaram as
aulas andamos sempre os três. Por agora,
somos amigos inseparáveis.
O Jorge é filho de um jornalista,
costuma partilhar connosco informações
confidenciais, quando ficámos sozinhos
fez sinal para unirmos as cabeças. Não
me pareceu necessário segredar porque
os outros tinham-se ido embora e só
“Hoje, no café, reunimos um grupo de amigos.
Rimos, mas também falámos da Guiné”
restavam dois empregados entretidos a
arrumar a loiça por trás do balcão. Ainda
assim o Jorge preferiu falar em surdina.
— Sabem que a Guiné declarou
independência há mais de um mês?
A Teresa já tinha ouvido qualquer coisa,
o que não admira porque é filha do cônsul
do Brasil. Eu não fazia a mínima ideia e
fiquei confuso pois nesse caso a guerra
devia ter acabado e não acabou.
— Pois não — explicou o Jorge ainda mais
baixo — o meu pai disse que os guineenses
têm uma parte do território controlado e
decidiram não esperar mais. Apesar da luta
nas outras zonas, declararam que são um
país independente. O meu pai também me
disse que o governador que lá está, o general
Spínola, quis convencer o governo português
a entrar em negociações porque já percebeu
que não consegue vencê-los pelas armas.
— E então?
— O nosso governo recusou e insiste em
continuar com a luta. Só que vários países do
mundo já reconheceram a independência da
Guiné e ontem a assembleia geral da ONU
também reconheceu. Um amigo nosso, que
vive em Nova Iorque, telefonou a contar e a
barafustar. Diz que Portugal está mal visto
e cada vez mais isolado, que devíamos ter
vergonha.
Quem é que gosta de ter vergonha do
seu país? Ninguém. Senti um desconforto
tremendo.
— Porque será que o governo teima em
não negociar? Ao menos com a Guiné...
— Bom — lembrou o Jorge — Se
negociar com a Guiné, Angola e
Moçambique exigem tratamento igual e
adeus colónias!
A Teresa mantinha-se calada. Olhava
para um, olhava para outro, a certa altura
interrompeu-nos.
— Vocês ainda não perceberam como
é que tudo isto vai acabar? Eu sei muito
bem.
Parecia segura e nós desconfiámos.
Teria resolvido armar em engraçada? Ou
em adivinha capaz de ler o futuro nas
estrelas? Afinal o que nos disse fazia todo
o sentido.
— O Brasil também foi em tempos
uma colónia portuguesa. Um dia
declarou a independência. E depois?
Depois, nada. Passou a ser um parceiro,
um país amigo. É o que vai acontecer às
outras colónias. O meu pai diz sempre
que não se pode travar a marcha da
história e que esta guerra é inútil.
Não sei quando, mas todas as colónias
portuguesas se vão tornar países
independentes.
Sorria, os lábios deixavam à mostra
dentes realmente lindos, nenhum de nós
duvidou que ela estava certa, que tinha
razão.
Fui para casa a pé, sozinho e pensativo.
Se a solução era tão óbvia, por que
motivo os governantes não a aceitavam?
— A guerra começou em 1961, já
estamos em 1973. Quanto terá o país
gasto em armas, munições, navios para
levar as tropas, jipes para as deslocações
no mato? Quantos soldados terão ido
para África durante estes anos de guerra
sem fim? Quantos terão morrido?
As perguntas que me assaltavam a
mente ficavam todas sem resposta e
incomodavam-me brutalmente.
— Ainda não tenho idade. Mas se isto
continua, um dia chega a minha vez. Não
é por medo, mas não quero participar
numa guerra inútil e já estar morto
quando todos se puserem aos abraços a
festejar a paz entre países amigos. ^
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BPI é Marca de Confiança
na Banca em 2014.
O BPI foi reconhecido como Marca de Confiança na
Banca*, depois de 13 anos em que um outro Banco foi
BPI
40%
2014
20%
2013
2º Banco
27%
2014
sempre o distinguido. O nível de confiança do BPI subiu
de 20% para 40%, registando a única subida de todo
o sistema financeiro português. O BPI agradece
este voto de confiança e tudo fará para continuar
33%
2013
3º Banco
2014
9%
a merecê-lo.
2013
13%
* Estudo organizado pelas Selecções do Reader's Digest há 14 anos em 10 países.
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