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Plano Capa_final:Apresentação 1 27-10-2014 11:46 Página 1 HISTÓRIA da InaNDÚSTRIA região de Leiria madeira Esta revista faz parte integrante da edição 1581 do Jornal de Leiria, de 30.10.2014 e derivados EDIÇÃO Jornal DE LEIRIA Plano Capa_final:Apresentação 1 27-10-2014 10:09 Página 2 Patrocinios_madeira:Layout 1 27-10-2014 12:57 Página 3 Este fascículo dedicado ao sector da indústria da madeira e derivados, que integra o projecto História da Indústria na Região de Leiria, tem o APOIO O projecto História da Indústria na Região de Leiria, que engloba sete fascículos, não teria sido possível sem o APOIO História da Indústria_Madeira_indice:Layout 1 [4] [ M A D E I R A E 27-10-2014 13:00 Página 4 D E R I V A D O S ] ÍNDICE RICARDO GRAÇA Naus rasgam mares a partir do Pinhal de Leiria . . 06 Estação do comboio potencia negócio das madeiras 15 Falta de união dos empresários inviabilizou Terra do Móvel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17 Substituição do pinheiro pelo eucalipto preocupa empresas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .20 Medidas de combate ao nemátodo contestadas . .26 Concorrência dos pellets pode ameaçar indústria da madeira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .28 Portugal quer reconquistar mercado da resina . .30 Dívidas asfixiam empresas . . . . . . . . . . . . . . . . . . .34 Engenharia de Madeiras emprega 90% dos alunos 36 Madeira passa de défice a excedente comercial .38 Futuro das madeiras passa pela exportação . . . . .40 Opinião . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .46 História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 12:41 Página 5 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] PASSIVIDADE O pinheiro foi sempre uma espécie protegida pelos diferentes monarcas que governaram o País. um momento muito difícil. Porque o pinheiro tem vindo a ser substituído pelo eucalipto, por ser uma espécie que D. Dinis e D. Isabel semearam pinheiro cresce mais rapidamente, apesar da sua ma- bravo no Pinhal de Leiria e promoveram, as- deira ser consumida quase exclusivamente sim, a sua expansão. pelas celuloses. Nos séculos que se seguiram, a protecção das matas nacionais foi uma constante, para garantir madeira para a construção de naus. Havia reflorestamento florestal e eram adoptadas medidas para evitar incêndios. O Pinhal de Leiria era de tal forma importante, que o seu abandono pelo Marquês de Pombal levou a Rainha D. Maria I a demiti-lo. Porque este é um lobby poderosíssimo, difícil de combater. Porque não há políticas de reflorestação. E o pinheiro, que foi protegido ao longo de séculos, pela qualidade da sua madeira e pela importância da resina que produz, parece ter caído em desgraça. Desesperados por verem os seus negócios ameaçados, os empresários têm procurado O filho, D. João VI, que lhe sucedeu no tro- madeiras alternativas para dar resposta às en- no, ordenou que se semeassem pinheiros nos comendas. Outros começaram a importar lugares onde eram cortados e em terrenos matéria-prima. baldios. Após as invasões franceses, o Pinhal de Lei- Não serão estas medidas apenas cuidados paliativos? ria voltou a ter um papel preponderante, já que Não se deveria antes atacar a origem do pro- a sua madeira foi utilizada para reparar edifí- blema e apostar em políticas de reflorestação? cios, mosteiros, pontes, fábricas e habitações. A Associação das Indústrias de Madeiras Com a diminuição da importância da cons- e Mobiliário de Portugal compromete-se a se- trução naval, a madeira do Pinhal de Leiria pas- mear pinheiros nas zonas mais atingidas pe- sou a ser utilizada sobretudo pelas indústrias los incêndios. que se instalaram nas suas proximidades. Hoje, as matas nacionais continuam a ser determinantes, sobretudo para o sector das madeiras. Faz sentido que seja uma associação a assumir um papel que compete ao Estado? Não estaremos todos nós, cidadãos, a ser demasiado passivos? Aliás, elas são a réstia de esperança dos empresários do sector, que estão a atravessar Alexandra Barata FICHA TÉCNICA Edição: Jorlis - Edições e Publicações, Lda. Director: João Nazário Coordenação: João Nazário Redacção: Alexandra Barata e Lurdes Trindade Serviços Comerciais: Sandra Nicolau Design Gráfico: 386design Paginação: Isilda Trindade, Rita Carlos Fotografia: Ricardo Graça Impressão: Ondagrafe, Lda Tiragem: 16.000 N.º de Registo: 109980 Depósito Legal n.º: 5628/84 Distribuição: Jornal de Leiria, edição n.º 1581, de 30 de Outubro de 2014 [5] História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:36 Página 6 Naus rasgam mares a partir do Pinhal de Leiria Muitas das embarcações que desbravaram os mares na época dos Descobrimentos foram feitas com árvores do Pinhal de Leiria. A preocupação em preservar esta mancha florestal foi transversal a quase todos os reis que governaram Portugal. Com a perda de importância da construção naval, a madeira contribuiu sobretudo para o desenvolvimento de diversas indústrias. 27-10-2014 11:25 Página 7 CÂMARA MUNICIPAL DA MARINHA GRANDE História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] No século XV a febre da construção naval e do comércio domina inteiramente a nação “A massa lenhosa do Pinhal de Leiria, por assim dizer inesgotável, era a fonte principal onde quási todos acorriam para a levarem depois aos estaleiros da construção naval”, afirma António Arala Pinto, antigo chefe da Circunscrição Florestal e autor de O Pinhal do Rei, em alusão a finais do século XIV. Os Descobrimentos prolongaram-se pelos séculos seguintes, pelo que continuava a ser necessário construir embarcações para desbravar os mares. “No século XV a febre da construção naval e do comércio domina inteiramente a nação”, refere Arala Pinto. Tal como sucederia no século seguinte. “(...) Foi um período febril em que se desenvolveu tôda a actividade marítima dos portugueses tanto na instensificação das construções navais, como nos seus aperfeiçoamentos.” O investigador faz referência à existência de diversos estaleiros no País, dos quais destaca “Porto, Lisboa, Lagos,Viana, Setúbal, Cezimbra, Aveiro, Pederneira (Nazaré), etc.” Próximo do Pinhal de Leiria, o porto da Pederneira teve bastante importância, como se lê na obra O arqueólogo português. “À Pederneira (…) encomendavam os reis a construção das carcassas das naus e caravelas e na rude e tisnada população dos seus pescadores se recrutavam muitos dos bravos marinheiros que levaram o vitorioso nome de Portugal às costas da Mauritânia e da África, aos palmares da Índia e a tantas outras longíquas regiões de Álém-Mar.” Arala Pinto acrescenta que “gosou por isso a Pederneira de certos privilégios que pelos diferentes monarcas lhe iam sendo concedidos e >>> [7] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [8] [ M A D E I R A E 27-10-2014 12:17 Página 8 D E R I V A D O S ] Arranque das raízes dos pinheiros VIDAS DE CARVÃO confirmados”, como, por exemplo, os pescado- o ciclo famoso das nossas conquistas e des- res desta zona podiam ir pescar fora dos mares cobertas, das audaciosas e longínquas na- da sua costa. vegações dos nossos pilotos, que os estaleiros da Pederneira redobraram de activida- À Pederneira (…) encomendavam os reis a construção das carcassas das naus e caravelas e na rude e tisnada população dos seus pescadores se recrutavam muitos dos bravos marinheiros de na faina de construir naus e caravelas, as quais eram, na frase de Cadamosto, as melhores que então sulcavam os mares.” E se dúvidas restassem quanto à importância deste porto, a Carta de D. Manuel aos regedores de Alcobaça, escrita em 1500, encarrega-se de as dissipar. “Nós ordenamos ora de em a Pederneira mandar fazer certas caravellas que avemos mester e cumprem o nosso serviço e porque poderá ser que ave- A importância deste estaleiro destaca- remos mester algua madeira pera ella, assim se, sobretudo, nos últimos anos do século XV como pera liame como tavoado e pera outra e primeiro quartel do século XVI, depois da obra, vos rogamos muito e encomendamos descoberta do caminho marítimo para a Ín- que dos pinhaes matas e defezas desse dia. “Foi neste período brilhante que forma mosteiro ajaaes per bem e mandeis que en- História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:51 Página 9 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] viando a isso lá o nosso almoxarife os offi- nhuma pessoa dentro das ditas mattas nam cor- ciaes e carpinteiros lhe deixem cortar e aver te nenhuma madeira, nem tire nenhuma cas- livremente.” ca, nem cosrtisa, sob pena de quem quer que o O autor de O Pinhal do Rei recorre ain- fizer pagar por cada carrada de madeíra, ou pao da ao historiador António Oliveira Mar- de jorro dous mil rs (...) e que perca a dita ma- ques para explicar a importância da cons- deira, lenha (...) e ferramenta com que cortarem trução naval. “De 1497 a 1612, diz-nos Oli- as ditas cousas.” veira Martins, teriam ido para a Índia 806 No século seguinte, as Ordenações e Leys do naus, e se a estas dermos uma média de 800 Reyno de Portugal 1727 determinam mesmo o toneladas poderemos fazer um cálculo apro- repovoamento florestal.“Farão semear e criar pi- ximado do volume lenhoso e até do núme- nhaes nos montes baldios, que para isso forem ro de árvores necessárias para estas em- convenientes, e os farão defender, e guardar. E barcações.” nos lugares que não foram para pinhaes, farão plantar castanheiros, e carvalhos, e outras ár- Visto a grande falta que ha de madeira para naos, galeões e mais navios de meu serviço (...) será necessario guardarense tambem algumas matas de particulares vores, que nas ditas terras se podem criar.” “Se no tempo de D. Fernando se dão gratuitamente as madeiras do referido pinhal para a construção naval, se as Ordenações Manuelinas comunicam os fogos e o corte das árvores de fruto, se os Filipes promulgam o Regimento do Monteiro Mor do Reino de Portugal, em que só se concedem madeiras mediante requerimentos dirigidos ao monteiro-mor da terra, e se “Para o número de árvores indicado as Ordenações e Leys do Reyno de Portugal (D. por Oliveira Martins teriam sido necessárias João IV e D. João V) ordenam a plantação e en- 3.425.500 árvores, o que representaria um xertia de árvores frutíferas e florestais e a se- corte raso numa área (500 árvores por hec- menteira de pinhais, o Marquez de Pombal pro- tare) de 6.851 hectares, ou seja, mais de me- mulga o Regimento para o Guarda Mor dos Pi- tade da superfície do Pinhal de Leiria”, as- nhaes de Leiria”, sintetiza Arala Pinto. segura Arala Pinto. “E se pudessemos fazer contas com as madeiras dispendidas nos barcos empregados na pesca marítima, fluvial e na da pequena cabotagem?” Oliveira Martins acrescenta que a actividade dos estaleiros portugueses não se limita a fabricar as naus da Índia. “Numerosas armadas saíram do Tejo para as guerras marítimas europeias, e construíram-se navios muito maiores do que os da Índia. Fa- Foi ordenada a limpeza do aceiro exterior «se anda roto e bem limpo», de forma a evitar que quaisquer fogos nos pinhais particulares circunvizinhos pudessem passar para o Pinhal de Leiria ziam-se carracas de sete e oito cobertas com alojamento para dois mil homens e porões para mil toneladas de carga.” O investigador destaca a importância deste documento, por conter informações A protecção das matas constituiria, assim, técnicas. “Foram indicados os locais dos uma preocupação durante a Dinastia dos Fili- cortes de madeira para a Ribeira das Náos, pes (1580 a 1640), em que é criado um novo Re- os desbastes, a fazerem-se de forma que o gimento. “Visto a grande falta que ha de madeira «Pinhal não fique por partes calvo», os au- para naos, galeões e mais navios de meu servi- mentos da área florestal com a arborização ço (...) será necessario guardarense tambem al- de um ou outro «picoto» (medão) que se ve- gumas matas de particulares”, refere o docu- nha a formar, e principalmente junto ao por- mento, transcrito em O Pinhal do Rei. to da Pederneira (Nazaré), sua demarcação, O Regimento determina ainda que “ne- etc, etc.” >>> [9] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 10 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:28 Página 10 D E R I V A D O S ] CÂMARA MUNICIPAL DA MARINHA GRANDE Depósito e Serração de Madeiras nas Tercenas O Regulamento criado pelo Marquês de ração a vento devia “trabalhar não só de dia, mas Pombal estabelece ainda medidas para evitar também de noite, quando fizer vento certo, e não os incêndios. “Foi ordenada a limpeza do acei- houver tormenta”. O investigador cita as Me- ro exterior «se anda roto e bem limpo», de for- mórias Económicas para explicar que, além de ma a evitar que quaisquer fogos nos pinhais par- não dar nenhum proveito à Fazenda Real, o en- ticulares circunvizinhos pudessem passar para genho tinha o seu mecanismo tão mal calcula- o Pinhal de Leiria, nenhuma pessoa podendo do que se incendiou devido ao atrito. caçar com armas de fogo e quando tal se fizes- Apesar desta tentativa industrial ter sido mal se, para a montaria aos lobos, era necessária a sucedida, Arala Pinto acredita que se devem a licença do guarda-mór”. Marquês de Pombal as Fábricas Resinosas do “Nada esquece ao seu espírito, proibindo até Engenho, e talvez a de S. Pedro de Moel, de que os covões de abelhas no pinhal pelo facto de en- falam as referidas Memórias. “A exploração in- tão se fazerem fogueiras com lançamento de dustrial chama mais população para junto do pi- fumo, afim de afuguentar as abelhas para se po- nhal e dá origem ao logar do Engenho, inicial- der fazer a extracção dos favos de mel”, acres- mente circunscrito ao recinto murado e às re- centa Arala Pinto. sidências do escrivão, recebedor, mestre, con- O Marquês de Pombal criou ainda a Fábrica da Madeira da Marinha, a nascente do Pinhal de Leiria, e determinou que o engenho de ser- tramestre, guarda e moço da Fábrica da Madeira da Marinha.” Em 1777, D. Maria I demitiu o Marquês de >>> História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:28 Página 11 [ M A D E I R A RESINA DEVORAVA EMBARCAÇÕES DOS INIMIGOS “A aplicação inicial dos produtos resinosos, alcatrão e pixe, consistia na breagem e alcatroamento das embarcações, das talhas, e como material de destruição nas abordagens”, revela Arala Pinto em O Pinhal do Rei. “Uma vez inflamado e derramado sobre as embarcações inimigas, cor- E D E R I VA D O S ] [ 11 ] Nos anos 40, era tudo muito difícil. Não havia motorizada, não havia nada. O meu pai foi a pedalar até Coimbra para conseguir o alvará para criar a empresa. E, quando tinha de ir a Lisboa, marchava de manhã e só chegava lá à noite. Manuel Primitivo, 80 anos, empresário, Leiria reria pelo tombadilho, iria até ao castelo de prôa, ao velame, às enxárcias, tudo devorando.” O antigo chefe da Circunscrição Florestal cita as Memórias Económicas para explicar a importância desta actividade na Marinha Grande. “Ha duas fabricas resinosas (...). Huma destas, situada junto ao Lugar da Marinha, foi incendiada pela tropas francezas, que apenas deixarão os seus fornos em numero de dezasseis. A outra, em S. Pedro de Moel, tem oito fornos da mesma construcção, e em ambos se preparão os breos, pixes, alcatrões e aguas-razes, que são de mui boa qualidade, alem das aguas ruças, que vão tendo sahida no commercio para o uso da tinturaria.” Na sua obra, o investigador destaca a importância da produção de alcatrão, obtido através da queima de madeira. Em 1807, por exemplo, manufacturaram-se dois mil barris de oito arrobas cada um, com um lucro líquido de 13.280$000 réis, fora o ganho do carvão. “Esta prosperidade do anno de 1807 está quase ani- Na altura do 25 de Abril de 1974, era eu miúdo, andávamos com umas obras na Baixa da Banheira. O meu pai saiu daqui com portas e carpintaria para um prédio.Viu muitos militares, mas não se apercebeu do que se estava a passar. Só quando regressou é que soube que havia uma revolução em Lisboa. Saul Saraiva, 49 anos, empresário, Batalha quilada. Actualmente não se podem fabricar mais de quinhentos barris por anno; a falta de gente, de numerario, e de transportes impede não só qualquer melhoramento dos muitos, que poderião pôr por obra, mesmo que as coisas tornem ao seu primitivo estado. Os males da guerra não são fáceis de reparar.” Tendo em conta a importância deste produto, D. João VI determina o aumento da sementeira e a cultura dos pinhais, de forma a obter mais vantagens com a extracção de resina. Nomeia um novo director das Fábricas Resinosas, Cultura e Sementeiras dos Pinhais Reais de Leiria e investe em equipamentos para a instalação fabril. Com a construção da Fábrica da Resinagem, em 1859, desaparecia da Marinha Grande o fabrico de pez e do alcatrão, feito pelo Estado.“Os particulares que tentaram o seu fabrico (…) não viram coroado de êxito as suas tentativas industriais, porque o breu e o pixe já não tinham grande procura nos mercados nacionais”, constata Arala Pinto. O site do Instituto da Conservação e Florestas refere que, só em 1871, a Fábrica de Resinagem da Marinha Grande destilou 295 mil kgs de resina, provenientes da resinagem efectuada em 276 mil árvores. A primeira vez que fui para a Argélia, fiquei num hotel de quatro estrelas, com um funcionário da empresa. Matámos mais de 20 baratas no quarto e a sanita não tinha autoclismo, mas um balde. Tivemos de pôr roupa em cima da cama para dormir, porque a água era tão escura que não percebíamos se os lençóis estavam lavados. Filipe Neves, 32 anos, empresário, Leiria História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ M A D E I R A E 12:19 Página 12 D E R I V A D O S ] CÂMARA MUNICIPAL DA MARINHA GRANDE [ 12 ] 27-10-2014 para o fabrico do alcatrão (…)”, lê-se em O Pinhal do Rei. O antigo chefe da Circunscrição Florestal explica que “no tempo do Marquês de Pombal, principalmente depois do terramoto [1755], a afluência de madeiras do Brasil ao Arsenal da Marinha, em Lisboa, fez que do Pinhal de Leiria se desviasse a atenção dos governantes.” “Os superintendentes desta mata nomeados por aquele ministro, com residência na cidade de Leiria, o maior desenvolvimento populacional no perímetro do Pinhal e a entrada livre dos povos e dos gados, originavam abusos a que se tornava necessário pôr cobro.” O tempo do Marquês de Pombal, principalmente depois do terramoto [1755], a afluência de madeiras do Brasil ao Arsenal da Marinha, em Lisboa, fez que do Pinhal de Leiria se desviasse a atenção dos governantes Após ter tido conhecimento da “negligência” na administração dos pinhais de Leiria, em 1783, D. Maria I despede os “officiaes e empregados das três repartições” que os administravam, pelo estado de decadência a que as matas nacionais chegaram, Resineiro na sua actividade de extracção de resina devido à falta de desbastes e de limpeza, quando a madeira que ali existia podia ter sido aproveitada para obras públicas. Sete anos mais tarde, o ministro e Secretá- Pombal e colocou ao seu serviço o ministro Mar- rio de Estado dos Negócios da Marinha e Ul- tinho de Melo e Castro. E se o seu reinado fica tramar, Martinho de Melo e Castro, constatou os marcado pela construção da Basilica da Estre- abusos ao percorrer o Pinhal de Leiria e refor- la e pela fundação da Academia Real das Ciên- mou “quase todos os ramos da sua administra- cias, Academia da Marinha, Casa Pia, Bibliote- ção” e colocou guardas junto do pinhal. ca Nacional e Jardim Botânico, Arala Pinto sus- Nesse ano, em 1790, Mello e Castro cria um tenta que a “protecção do arvoredo” também lhe novo regulamento para o Real Pinhal de Leiria, mereceu muita atenção. a que se anexa um “sítio chamado Amor”, onde “(…) Na sua época se fazia grande im- são estabelecidas as obrigações de todos os que portação e reexportação de madeiras do Bra- ali trabalham: administrador, juiz conservador, sil e êste facto influiu até certo ponto no mestre do pinhal, guarda na Fábrica da Madei- abandono a que nos últimos tempos de ra, cabo dos guardas do pinhal, fieis guardas do Pombal foi votado o arvoredo do pinhal de pinhal e um patrão dos saveiros. Leiria, quási que exclusivamente aproveitado Arala Pinto considera, contudo, que a téc>>> História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:28 Página 13 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] nica da arborização se desenvolveu, sobretudo, «espingardas, cutelarias», peças de artilharia «de com D. João VI, que sucedeu no trono à mãe, D. que muito precisarão os meus reinos» era o que Maria I. “Das viagens de estudo ao estrangeiro ordenava D. João VI, depois de ouvir as indica- ordenadas por D. Maria I brotam os frutos. É José ções do nosso primeiro silvicultor”, lê-se em O Bonifácio de Andrade e Silva [silvicultor] que de- Pinhal do Rei. pois de andar dez anos pelos países da Europa, Em 1799, D. João VI determina que se faça volta a Portugal erguendo bem alto o pendão da «o augmento dos pinhaes e semeem pinheiros arborização.” nos lugares de que elles irregularmente se cor- “Árvores revestindo as areias para estas não tão». Ordena ainda que se dêem «sementes de entupirem os canais, nas serras para evitarem pinheiros a todas as pessoas que as pedirem, a erosão das águas pluviais, o arrastamento da para cultivalas nos terrenos baldios» e ordena terra fértil das montanhas e o assoreamento dos a «erecção de Fórnos de Alcatrão, e Breu».” nossos portos, e ainda para que «houvesse ma- As invasões francesas chegam à Marinha deiras, lenhas e carvão em abastança para fa- Grande, em 1811, e deixam um rasto de des- zer trabalhar aturadamente as ferrarias», pois truição. Para evitar saques, o Pinhal de Leiria foi o país precisava de ter fornos donde saíssem utilizado para esconder objectos de valor. “Em >>> DR PINHAL DE LEIRIA JÁ EXISTIA ANTES DE D. DINIS mado tal desenvolvimento de forma a ter a importância apontada por D. Fernando?” Apesar disso, D. Dinis e a sua mulher, D. Isabel, acabaram por ter um papel muito importante na expansão do Pinhal de Leiria. Em O Pinhal do Rei, Arala Pinto conta que foi “D. Denis, nos seus passeios cinegéticos D. Isabel, a quem D. Dinis doara Leiria, que lan- nos arredores de Monte Real (...) encontrou, çou à terra as primeiras sementes (penisco) de junto à costa, uma mancha enorme de arvo- pinhas que uma embarcação portuguesa trou- redo resinoso que se veio a chamar Pinhal do xe de França. Rei, Pinhal Real, Pinhal da Marinha e Pinhal “D. Denis entusiasmado com o lindo de- de Leiria, albergando caça em abundância e senvolvimento do nascedio, e desejoso de ter em possuindo material lenhoso inexgotável para abundância material lenhoso para a constru- a construção de sem número de embarcações ção naval, diz aos mareantes que para a outra (...).” A afirmação é de António Arala Pinto, an- viagem lhe tragam mais semente daquela”, re- tigo chefe de Circunscrição Florestal e autor lata o silvicultor. de O Pinhal do Rei, obra publicada em 1938. A semente em causa, de pinheiro bravo, foi Arala Pinto não acredita, por isso, que te- depois lançada noutras clareiras e transpor- nha sido o rei D. Dinis a semear o Pinhal de tada também pelo vento, por toda a costa por- Leiria. “(…) Na carta de doação passada por tuguesa a Norte do Tejo. “A História deveria D. Afonso Henriques [reinou no século XII] ao apelidar D. Denis como rei fomentador.” Mosteiro de Alcobaça se faz referência à Na obra D. Dinis, de 2005, o autor José de mata de Pataias e S. Pedro de Moel, assim Sotto Mayor Pizarro cita Maria Rosa Mar- como D. Denis [reinou nos séculos XIII e XIV] reiros, doutorada em História, que manifesta faz referência na sua carta foral «aa foz do val a mesma posição de Arala Pinto. “Se a inicia- do Madeyro». tiva da plantação do pinhal não pertenceu a O investigador lança mais uma questão D. Dinis, pois temos conhecimento da existên- para sustentar a sua posição. “Mediando ape- cia de pinheiros nesta região desde a Pré-His- nas 42 anos entre o reinado de D. Denis e o de tória, a este rei deveu-se, com certeza, o orde- D. Fernando, como é que o pinhal podia ter to- namento da mancha florestal litorânea (...).” [ 13 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 14 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:30 Página 14 D E R I V A D O S ] 1920 foram encontrados (...) objectos de ouro e Em resposta à solicitação de Porfírio Ca- prata (brincos, anéis, colheres) (...); e em 1932 (...) minha, foi aprovada a construção de um cami- 25 moedas de cobre e uma de prata do tempo nho de madeira entre o Pinhal de Leiria e S. de D. José.” Martinho e de dois “hiates” para efectuar o trans- As obras na foz do Lis, em 1800, marcaram porte de produtos florestais para Lisboa. “Com o início de uma época de prosperidade para a a realisação d’ estas obras conseguir- Vieira e para a região de Leiria e, em 1842, D. João há um grande augmento de receita para as ma- VI determina que o embarque das madeiras do tas, e abastecer a capital de madeira combus- Pinhal de Leiria se faça na foz do Lis, que tor- tivel e substâncias rezinosas”, refere o admi- nara a ser navegável. nistrador, citado no Boletim do Ministério das -se- Obras Públicas de 1858. Em 1920 foram encontrados, no Pinhal de Leiria, objectos de ouro e prata e, em 1932, 25 moedas de cobre e uma de prata do tempo de D. José, escondidas dos inimigos franceses “O material lenhoso precisava de ter um escoadouro, os antigos portos de S. Pedro, Vieira, Pederneira e Lavos achavam-se assoreados, e as madeiras, ainda que não tivessem tanta aplicação na construção naval, eram requisitadas para obras de restauro de edifícios e para as de fomento”, garante o antigo chefe da Circunscrição Florestal. A inauguração da primeira linha férrea no Após as invasões francesas, sucedem- País entre Lisboa e o Carregado, em 1856, tam- -se os pedidos aos administradores do Pinhal bém veio facilitar o transporte de madeira. “Bre- de Leiria para disponibilizarem madeira para vemente se acabará e abrirá á circulação o ca- reparar estragos em edifícios, restaurar mos- minho de ferro dos pinhais de Leiria ao porto teiros, palácios, pontes, habitações e fábricas e de S. Martinho; e por elle será mais facil ap- para a construção e reparação de naus. proximar os productos de limpeza e desbaste “Todo este movimento de madeiras prove- d’esta vasta propriedade de maiores centros de nientes do Pinhal de Leiria (…) veio a ter o seu consumo”, refere o Boletim do Ministério das declínio quando, em 1850, apareceu a chapa de Obras Públicas de 1860. ferro a substituir o taboado. Igualmente, as cadeias de ferro e as cordas de arame tiraram a grande importância que até então se dava às cordoarias”, assegura Arala Pinto. O Boletim das Obras Públicas de 1853 regista a existência, em 1850, de apenas 33 embarcações em todos os portos de Portugal, com um total de 5.432 toneladas, o que constituía uma preocupação para o então administrador geral Todo este movimento de madeiras provenientes do Pinhal de Leiria (…) veio a ter o seu declínio quando, em 1850, apareceu a chapa de ferro a substituir o taboado das matas, Porfírio Caminha, pela receita diminuta em 1852. Com a diminuição da importância da cons- “Achando-se o deposito da Vieira abasteci- trução naval, a madeira do Pinhal de Leiria pas- do de madeiras no fim do anno de 1851, e con- sou a ser utilizada sobretudo por indústrias que siderando-se o pequeno numero de hiates que se instalaram nas suas proximidades. Além da havia para as conduzir aos seus destinos no Fábrica Resinosa do Engenho e da Nacional Fá- anno seguinte, achei prudente não fazer córtes brica de Vidros, o Boletim do Ministério das de madeiras, senão em pequena quantidade, Obras Públicas de 1860 dá conta que se “mul- para não ficarem do mesmo modo em deposi- tiplicam as fábricas de vidro, as olarias, as ce- to para o presente anno (…), as quaes talvez ain- râmicas, aparece a indústria da lima manual (…), da este anno não sejam conduzidas, pela mes- tenta-se o fabrico de briquetes (...), o enfarda- ma razão da falta de transportes maritimos”, lê- mento do mato para ser consumido nos fornos se na obra de Arala Pinto. das padarias de Lisboa, etc”. História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 12:46 Página 15 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] BLOGUE O PINHAL DO REI ESTAÇÃO DO COMBOIO POTENCIA NEGÓCIO DAS MADEIRAS A proximidade da estação de comboios Nos anos 40, existiam cerca de 20 serrações na Estação. Próxima da estação de comboios e do Pinhal de Leiria, foi um importante centro abastecedor de madeiras para a construção e obras públicas, à semelhança de Pataias e Monte Redondo ristas e, mais tarde, motoristas”, justifica. foi um factor determinante para a criação de Também ligado ao negócio da madeira, José diversas serrações nas suas imediações, na Luís Guarda diz que, nessa época, havia cerca primeira metade do século XX, que abaste- de 20 serrações na Estação. “Havia uma relação ciam as empresas de construção e grandes muito próxima entre os madeireiros. A Estação obras públicas. era uma família”, observa. Encostada à estação de comboios, a Es- “À excepção da Baquelite Liz e de uma panhola era considerada a escola dos serra- serração de mármores, toda a gente estava dores. Fazia travessas para os caminhos-de- ligada à serração de madeiras”, confirma Si- ferro, conta Sidónio Violante, 67 anos, que co- dónio Violante. meçou a trabalhar no sector aos 14 anos. “Na Gândara, a serração de Eduardo “Nos anos 40, vinha muita gente de fora Lopes e a Baquelite Liz contribuíram para ur- trabalhar para a Espanhola”, acrescenta José banizar a zona. Aqui [Estação], como se ga- Luís Guarda, 70 anos. “Precisavam de serra- nhava algum dinheiro, mais pessoas foram es- dores, mecânicos, aplainadores, moto-ser- tudar.” >>> [ 15 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 16 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 12:47 Página 16 D E R I V A D O S ] O caminho-de-ferro era muito importan- vessemos no casino, pelo que os negócios eram te nessa altura. "Recebíamos mercadorias para sempre bons para o Estado”, afirma Sidónio Vio- a serração, que eram transportadas por comboio, lante. Enquanto cá fora se comprava o metro cú- como folhas de serra ou cordel de sisal para atar bico a 4,5 contos, nos leilões os preços chegavam as madeiras”, recorda José Luís Guarda. a atingir 20 contos. “Quem comprava madeira na Numa época em que ainda não havia car- mata tinha um certo estatuto industrial.” ros, o pai de José Luís Guarda apanhava a automotora às 5 horas e chegava a Lisboa às 8h30. “Ia ver o que é que os clientes precisavam: soalho, barrotes ou forro para tectos.” “As madeiras eram descarregadas em armazéns ou em carroças, em Lisboa, para serem A construção era a mola real de todo o negócio. Em Leiria, não havia comércio distribuídas pelos empreiteiros”, explica José Luís Guarda. “A construção era a mola real de José Luís Guarda revela ainda que, quan- todo o negócio. Em Leiria, não havia comércio.” do se abatiam os pinheiros das matas nacionais, A proximidade do Pinhal de Leiria também deixava-se sempre um por parcela, para que as era determinante para o negócio das serrações, suas sementes fossem espalhadas pelo vento e já que era ali que se abasteciam de matéria- se garantisse a reflorestação dessa área. -prima, bem como em pinhais de particulares. Quando ouviam as moto-serras a trabalhar, Entre os anos 40 e 60, a venda de parcelas as pessoas que viviam ali perto juntavam-se das matas nacionais era feita por leilão, na Ma- para apanhar a lenha, para depois ser vendida. rinha Grande, revela José Luís Guarda. “A sala "Nos anos 60, cheguei a contar 20 e tal pessoas estava sempre cheia. Vinham pessoas de todo à volta de um pinheiro." o País”, acrescenta Sidónio Violante. “Entrávamos naquele jogo, como se esti- A ânsia por apanhar a maior quantidade de lenha possível, levava as pessoas a arriscarem muitas vezes a vida. E chegou mesmo a haver mortes, como a da D.Vitória, que foi atingida por uma árvore que caiu quando foi apanhada pelo CONCORRÊNCIA pinheiro que estava a ser cortado. DESLEAL DAS EMPRESAS DO NORTE ouvidos e deu-se a fatalidade. Sidónio Violan- Os gritos para que se afastasse não foram te acrescenta que bastava a árvore não ser bem cortada ou a influência do vento para provocar um acidente. Além da dureza do trabalho dos madeirei- A Associação de Madeiras do Centro foi ros, era também comum haver acidentes de tra- criada por um conjunto de empresários do sec- balho quando se empilhava a madeira à mão ou tor, após a revolução de Abril. O pai de Sidó- a manusear ferramentas de corte. nio Violante, que detinha “talvez a maior em- Tanto José Luís Guarda como Sidónio Vio- presa do distrito de Leiria”, onde chegaram a lante estiveram ligados ao sector ao longo de dé- trabalhar 150 pessoas, foi o primeiro presi- cadas, dando continuidade a negócios de famí- dente. O próprio Sidónio Violante foi o segun- lia. No primeiro caso, José Luís Guarda diz que do. “O primeiro contrato colectivo de trabalho começou a perceber que “a madeira tinha os dias e a primeira tabela salarial foram assinados contados” em 1995, quando apareceram os por mim”, assegura.“Sentíamos a concorrên- alumínios e as cofragens metálicas. cia desleal das empresas do Norte, que paga- Já Sidónio Violante conta que, após o 25 de vam abaixo do salário mínimo e não pagavam Abril de 1974, a construção esteve parada qua- horas extraordinárias”, justifica. Foi graças ao tro ou cinco anos, o que deu origem a muitas fa- seu empenho que foi possível alcançar um en- lências. Além disso, refere que a tecnologia evo- tendimento entre todos os empresários e pôr luiu e a construção começou a consumir pro- fim a essas disparidades. dutos mais avançados. História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:38 Página 17 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] RICARDO GRAÇA FALTA DE UNIÃO DOS EMPRESÁRIOS INVIABILIZOU TERRA DO MÓVEL Do pinho da região, os artífices de Vilar de Prazeres fizeram os primeiros móveis na década de 1940. Daí nasceu um dos maiores centros de mobiliário do País Os primeiros artífices em Vilar dos Praze- deve estar presente no acto criador, já em cur- res surgiram na década de 1940 para produzir so, da marca Terra do Móvel e de outras acções móveis de pinho que vendiam especialmente nas que visam a internacionalização das suas em- feiras e mercados da região. Durante mais de dez presas.” anos trabalharam sem máquinas e ferramentas A marca Terra do Móvel nasceu, assim, em que lhes permitissem expandir os seus negócios. 2004 com apenas 30 empresas, embora a ideia Só em 1957, quando surgiu a electricidade, Vi- seria juntar mais empresários à associação. Pro- lar dos Prazeres se tornou “uma das aldeias, se- mover o mobiliário produzido na região e esti- não mesmo a aldeia, mais industrializada do País mular novas competências das empresas as- e, a nível concelhio, uma das principais fontes ge- sociadas, tendo em vista ganhos de competiti- radoras de riqueza e emprego”, lê-se no texto do vidade, numa óptica em que o benefício global projecto-lei, que serviu de suporte à elevação de fosse superior ao da acção individual. Estes fo- Vilar dos Prazeres a vila, em 2004. “O estatuto ram os princípios subjacentes à criação da Ter- de vila é mais consentâneo com a visibilidade que ra do Móvel, que chegou, durante alguns anos, >>> [ 17 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 18 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 12:25 Página 18 D E R I V A D O S ] LURDES TRINDADE param em projectos empresariais inovadores, mas “a crise económica estava instalada, a dificuldade de financiamento era uma realidade e a rentabilidade das vendas um problema”. À semelhança do que aconteceu em todo o País, também em Vilar dos Prazeres as empresas de mobiliário que estavam demasiado dependentes da construção civil “foram arrastadas para a crise”, embora, na opinião de Purificação Reis, “tenha faltado aos empresários espírito associativo no timing certo”. Em 2010, o presidente da Terra do Móvel, Carlos Silva, demitiu-se do cargo, com o argumento de que, “em resultado das insolvências, a associação estava Para Anselmo Henriques, os empresários têm pouco tempo para reflectir em estratégias de médio e longo prazo reduzida a menos de metade das empresas”. Em declarações ao Mirante, o também sócio da Vilarplaca/Matima - Comércio de Madeiras, que pediu a insolvência em 2011, apontava como caminho a exportação. a promover “acções inovadoras” na região. O I Salão do Móvel, que juntou artigos de fábricas de Vilar dos Prazeres e da região de Toscana, no âmbito de uma parceria com o Centro Experimental do Móvel daquela cidade italiana é um dos exemplos, inserido num projecto transnacional liderado pela Nersant A evolução no mobiliário a nível europeu foi muito rápida e a reacção da indústria deVilar dos Prazeres foi demasiado lenta (Associação Empresarial da região de Santarém) e alavancado numa candidatura comunitária INTERREG IIIC Sul. Considerava que, como “as empresas não possuíam dimensão adequada para enveredar Em parceria com Toscana e Haute Proven- por esse caminho”, a solução passaria por ce (França), promoveram-se acções na área do “uma equipa comercial unida”. Não foi isso que design, com o apoio do Departamento de Arqui- aconteceu, confirma Purificação Reis, ao refe- tectura e Design da Universidade de Florença. De- rir-se “à dificuldade de as empresas se asso- senvolveram-se protótipos de móveis, alguns ino- ciarem no desenvolvimento de projectos con- vadores com recurso a produtos ecológicos, en- juntos, por não terem a mesma percepção da tre outros projectos. realidade”. “Isso não ajudou a dar o passo necessário Algumas empresas participaram em projectos inovadores, mas a crise económica estava instalada à inversão da situação, nomeadamente à aquisição de capacidade de exportação”, sublinha a directora executiva da Aciso. “A evolução no mobiliário a nível europeu foi muito rápida e a reacção da indústria de Vilar dos Prazeres foi demasiado lenta.” Faz notar ainda que aos empresários “faltou capacidade de antecipação da Purificação Reis, directora executiva da Aci- crise” e “uma estratégia consensual para a in- so - Associação Empresarial Ourém- Fátima, que ternacionalização”, que “levou à criação do acompanhou a situação como directora da Escola showroom em Fátima, que não tinha nem di- Profissional de Ourém, confirma que algumas mensão nem expressão para competir no mer- empresas “fizeram fortes investimentos em no- cado nacional”. vos equipamentos e em novos layouts”. Partici- “Não foi uma boa opção”, diz Purifcação História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:38 Página 19 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] Reis, corroborada por Custódio Eugénio, 67 sector da madeira e produzindo pés de plásti- anos, empresário de Vilar dos Prazeres, que em co e cavilhas de madeira, a empresa exporta cer- 2011 encerrou a Móveis Ideal “por opção, sem dí- ca de 20% da produção para os PALOP, para os vidas a fornecedores, operários e à banca”. O em- Emirados Árabes Unidos e Alemanha, prevendo presário, que mantém hoje uma exposição de o alargamento a outros mercados. móveis em Vilar de Prazeres, acredita que “o sho- “Não é fácil às empresas que se encontram wroom dividiu muito os empresários que, já de em dificuldades exportarem”, diz ainda o di- si, nunca estiveram muito unidos”. “Fátima não rector financeiro da Artimol, ponderando “não vende móveis, vende velas e santos. Mataram só os custos envolvidos, mas a falta de tempo tudo quando optaram por Fátima.” para procurar novos mercados e superar desafios como a língua ou a cultura”. Mesmo as- Vilar dos Prazeres para voltar a existir com a expressão que teve, terá de ser reinventado sim, acredita que as empresas sobreviventes conseguirão “dar a volta, inovar e, mais tarde, internacionalizar-se, mas precisam de ser apoiadas, tal como são as grandes empresas.” Para Purificação Reis, “o Mundo mudou e o sector de mobiliário de Vilar dos Praze- A Artimol é uma das empresas que resis- res, para voltar a existir com a expressão que tiu à crise em Vilar dos Prazeres. Anselmo teve, terá de ser reinventado. As poucas em- Henriques, 36 anos, gestor, conta que “há casos presas que tiveram capacidade para se de empresários que se associaram em empre- manterem em actividade terão aqui um pa- sas especializadas em determinados produtos, pel determinante”. outras que continuam a lutar com os seus pla- Também Custódio Eugénio acredita que nos de recuperação e outros que estão bem fi- “ainda existem boas empresas a trabalhar, que nanceiramente. Mas, a maioria fechou”. “terão um papel fulcral no futuro” de Vilar dos Anselmo Henriques considera que “as di- Prazeres. “Basta que apostem em novos pro- ficuldades mantêm-se, porque a crise está dutos, em inovação e que se consolidem para longe do fim. As empresas de madeira e de- avançarem para outros mercados, para não fi- rivados que resistiram foram-se adaptando carem dependentes das grandes superfícies e e vivem sem crédito”. do mercado nacional. Espero que se tenha Comercializando materiais para todo o aprendido com os erros do passado”. DR CENTRO biliário do País.” Três anos depois, a vila já DE MOBILIÁRIO REDUZIDO A CERCA DE 20 EMPRESAS representavam uma facturação superior a 100 tinha “mais de uma centena de empresas, que milhões de euros e 1.500 postos de trabalho”, refere, por seu lado, o jornal Notícias de Ourém. Em 2010, todo o sector dava “indirectamente emprego a cerca de duas mil pessoas”, sendo “um motor de funcionamento da eco- Quando a associação Terra do Móvel foi nomia local, embora não se tenha investido na criada, em 2004, “existiam 55 agentes econó- reconversão do tipo de produção, face à con- micos na área do fabrico de mobiliário, além corrência, revelou o ex-presidente da Terra do de muitas outras actividades afins, entre Móvel, Carlos Silva. Com a crise, as falências máquinas, matérias-primas e derivados, que foram-se sucedendo. Hoje, Vilar dos Prazeres formavam um cluster de empresas que che- contará com cerca de duas dezenas de em- gou a ser um dos principais centros de mo- presas de mobiliário e derivados. [ 19 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 20 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:39 Página 20 D E R I V A D O S ] RICARDO GRAÇA RICARDO GRAÇA A escassez de pinho, matéria-prima mais utilizada no sector, está a deixar os empresários desesperados, por verem o seu futuro ameaçado. Face ao agravamento dos preços, uns estão a procurar madeiras alternativas, enquanto outros estão a rejeitar encomendas. A plantação desenfreada de eucaliptos é o alvo das críticas. História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:39 Página 21 RICARDO GRAÇA [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] [ 21 ] SUBSTITUIÇÃO DO PINHEIRO PELO EUCALIPTO PREOCUPA EMPRESAS Jorge Primitivo diz que, daqui a dez anos, vai haver muita indústria a parar RICARDO GRAÇA “Se tivessemos dez vezes mais madeira, vendíamos dez vezes mais”, assegura Jorge Primitivo, 49 anos, administrador da J. Primitivo Madeiras. Preocupado com a falta de pinho, que tem estrangulado a actividade da empresa de Santa Catarina da Serra, Leiria, revela que os empresários do sector se debatem ainda com o agravamento dos preços. “A madeira aumentou 30% desde Janeiro de 2013. Até ao fim do ano, pode vir a aumentar mais dez ou 15%.” Além de contestar a inexistência de uma política de reflorestação em Portugal, o empresário lamenta a facilidade com que hoje se plantam eucaliptos. “Temos menos 85% do volume de pinho que tínhamos em 1975. Há zonas do País onde não temos um pinheiro, como Caldas tem hoje, vai haver muita indústria a parar”. da Rainha ou Rio Maior. E os nossos governantes “Hoje, estamos a exportar paletes. Daqui a uns assobiam para o lado.” anos, se calhar, estamos a importar.” “A política tem sido ao contrário. As celulo- Administrador da Madeca, empresa de Ca- ses é que encomendam as leis aos senhores do xarias, Ourém, que também se dedica ao fabrico Terreiro do Paço”, denuncia Jorge Primitivo. “Há de paletes, Paulo Verdasca, 50 anos, aponta o uns anos não era permitido plantar eucaliptos dedo aos sucessivos governos, desde o 25 de em REN [Reserva Ecológica Nacional] e RAN Abril até hoje, pela “inexistência de políticas flo- [Reserva Agrícola Nacional], agora, pode-se, des- restais”. O antigo presidente da Federação Eu- de que o engenheiro florestal o entenda.” ropeia de Fabricantes de Embalagens e Paletes de Madeiras assegura que, enquanto diri- Há zonas do País onde não temos um pinheiro, como Caldas da Rainha ou Rio Maior. E os nossos governantes assobiam para o lado gente associativo, foi alertando para a “delapidação do património”, que não estava a ser reposto na mesma ordem. “Cortávamos, mas não plantávamos. Hoje, deve haver 400 e tal mil hectares de pinheiros, devido aos incêndios florestais, ao abandono das populações do interior, que deixaram de defender as florestas, e ao nemátodo, que surgiu Face a esta situação, o administrador da em- em finais dos anos 90”, assegura o empresário. presa que se dedica à produção de paletes e pro- “Nos anos 80, auge da indústria, havia 1,1 mi- dutos em madeira para construção, acredita que, lhões de hectares.” “daqui a dez anos, com os consumos que exis- Paulo Verdasca lamenta que a política flo>>> História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:39 RICARDO GRAÇA Página 22 A Madeca está nas mãos da família Verdasca desde final dos anos 40 restal esteja centrada no eucalipto. “Temos de ar- mento dos custos do pinho, levando mesmo à pa- ranjar um ponto de equilíbrio para não extin- ralisação de algumas serrações.” O problema, res- guirmos uma indústria com a outra. Temos de salva, é que “este aumento não se reflecte no pre- ver o que é melhor para o País. Não podemos ço de venda, pois começam a surgir no merca- olhar só para o nosso umbigo”, alerta. “Trans- do madeiras alternativas e mais baratas”. formar Portugal num eucaliptal é pôr as pessoas todas a trabalhar à beira-mar.” “Há pouco peso associativo das PME da fileira da madeira, um problema que nos afecta Apesar de reconhecer que é pouco atrac- porque a legislação existente é feita à medida das tivo investir na plantação de pinheiros, tendo em empresas de celulose, que têm bastante mais for- conta o tempo que estas árvores demoram a ça”, denuncia o administrador do Grupo Valco. crescer, o administrador da Madeca garante que “Se as empresas na indústria de serração, mo- a empresa tem tido a preocupação de contribuir biliário e até na resina encerrarem vai muita gen- para a reflorestação do País, desde os anos 50. te para o desemprego”, avisa. Rui Oliveira, 57 anos, administrador do Gru- José Gaspar, 66 anos, administrador da So- po Valco, na Caranguejeira, Leiria, considera que promad, localizada nos Pousos, Leiria, diz que “se perdeu uma oportunidade única de fazer o “a nova legislação veio agravar a situação, in- emparcelamento ordenado, plantando sobretudo centivando a plantação de eucalipto e criando pinheiro, e tornando a floresta rentável, após o dificuldades à florestação com o pinheiro”. incêndio de 2004, em que arderam 92 hectares”. O administrador da empresa de serração de “Como não houve ordenamento, as pessoas madeiras e aplainamento de madeira de pinho olharam para o futuro a curto prazo, deixando para a construção considera, por outro lado, que os terrenos em pousio ou plantando eucalipto”, “os incêndios das últimas décadas e o temporal lamenta Rui Oliveira. “A eucaliptalização da flo- de Janeiro de 2013 destruíram centenas de pi- resta em todo o País tem sido justificada com a nheiros, não tendo havido a preocupação de os necessidade de obter resultados a curto prazo, replantar”. mas sem se pensar nas consequências a médio e longo prazo”. Além do aumento dos preços, o filho, Frederico Gaspar, 36 anos, gestor da Sopromad, en- “Assiste-se à penalização das indústrias que tende que a substituição do pinheiro pelo eu- sofrem com a falta de matéria-prima e ao au- calipto e o surgimento do nemátodo constituem >>> História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:39 Página 23 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] [ 23 ] INCÊNDIOS BENEFICIAM CELULOSES AIMMP vai comprar algumas toneladas de sementes e fazer plantação de pinheiros nas zonas mais atingidas pelos incêndios “Até ao aparecimento da primeira celulose em Portugal, em 1985, tínhamos cerca de oito mil ignições por ano. A partir daí, passámos a ter entre 30 e 34 mil”, garante Vítor Poças, presidente da Direcção da Associação das Indústrias de Madeiras e Mobiliário de Portugal (AIMMP). Em consequência disso, a área de eucalipto passou de 200 mil hectares para cerca de um milhão. A substituição da floresta por eucalipto constitui, assim, uma preocupação para Vítor Poças pelo impacto que está a ter nas empresas. “Setenta por cento dos fogos são de origem criminosa, o que constitui um risco elevado para os silvicultores, que deixaram de se sentir atraídos pelo investimento, a longo prazo, em pi- mos uma mata desgovernada que tem sido ge- nhais.” rida pelos interesses das celuloses”, denuncia O presidente da AIMMP revela que ardem, Armando Vizela Cardoso, antigo presidente da em média, todos os anos cerca de 100 mil hec- Associação dos Industriais de Madeiras do tares de floresta, pelo que, hoje existem apenas Centro (AIMC). “Permite-se a plantação de eu- 500 a 600 mil hectares de pinho, quando, nos caliptos, que secam 20 litros de água por dia, mas anos 80, havia 1,2 milhões hectares. Contudo re- ninguém está procupado com isso.” conhece que, nos últimos anos, o número de incêndios diminuiu. Vizela Cardoso justifica o desinvestimento na plantação de pinhais e a “planta- Após ter abordado o assunto com diversos ção de eucaliptos em todo o lado” com “os in- governantes com responsabilidades neste ma- teresses económicos ligados às celuloses” e téria, com a Polícia Judiciária do Porto e em Bru- a protecção à indústria de papel. “A deser- xelas, Vítor Poças concluiu que a situação se tificação deveu-se a isso. Devia condicionar- mantém porque “há lobbies poderosos por trás se a plantação de eucaliptos às zonas onde disto”. há mais pluviosidade. Ou seja, nunca abai- “O combate às ignições só pode ser ganho xo da zona de Aveiro.” com o aumento da investigação policial espe- “Secou-se uma indústria que empregava di- cializada e com a alteração das medidas penais. recta e indirectamente, até ao ano 2000, 100 mil É um assunto de Estado. Isto não pode ser en- pessoas. As principais fábricas de serração fe- carado como uma brincadeira”, defende o líder charam”, lamenta o antigo presidente da AIMC. associativo. “Podiam mandar prender os in- “Não se põem as pessoas competentes nem co- cendiários no início do Verão”, sugere. nhecedoras nos lugares.” Apreensivo com a escassez de matéria-pri- “Hoje estamos a sofrer um erro estratégi- ma, Vítor Poças revela que “a AIMMP está a pen- co do rei D. Dinis, que teve a triste ideia de plan- sar comprar algumas toneladas de sementes de tar o pinhal de Leiria”, ironiza Vizela Cardoso. pinheiro, alugar um helicóptero e fazer planta- “Se ele não tem feito isso, as areias já estavam ção de pinheiros nas zonas mais atingidas pe- em Badajoz. Seria uma praia fantástica. Com um los incêndios”. bocado de sorte, esgravatávamos a areia e saía “Precisávamos de ter uma floresta, mas te- petróleo.” DR História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:39 RICARDO GRAÇA Página 24 Transformar Portugal num eucaliptal é pôr as pessoas todas a trabalhar à beira-mar as principais ameaças a um sector que devia ser tividade da Madeiras Vale da Catarina, na Ca- encarado como o “petróleo de Portugal, do ranguejeira, Leiria. “Já perdi muitos negócios ponto de vista macro-económico”. para exportação por não ter matéria-prima. Há uma série de empresas que consomem entre 500 Chamam malucos a quem manda plantar pinhais. Um pinheiro demora 40 anos a crescer e os eucaliptos ao fim de 15 anos já dão corte a 900 toneladas por dia”, denuncia António Casalinho, 65 anos. “Isto vai conduzir ao encerramento de empresas em barda.” “Talvez haja madeira para uma década. E a pouca madeira vai ser bem paga”, acredita António Casalinho, que encara o futuro com preocupação, por não haver uma política de reflorestação no País. “Chamam malucos a quem Para contrariar esta crise, a Sopromad tem manda plantar pinhais. Um pinheiro demora 40 apostado na internacionalização dos seus pro- anos a crescer e os eucaliptos ao fim de 15 anos dutos. Além disso, dotou a empresa de tecno- já dão corte.” logia avançada e aumentou a capacidade de pro- O empresário atribui a escassez de pinho, dução, adquirindo uma empresa de carpintaria mesmo nas matas nacionais, aos fogos e aos eu- e transformação de madeiras de pinho, em caliptos. “Antes, comprava três lotes na mata, com Coimbra. “Fomos obrigados a reinventar-nos, 1500 m3 cada um. Este ano, comprei um”, revela. com mobiliário com design e outros compo- Agostinho Órfão, 57 anos, gerente da Ma- nentes em madeira, que suprimem a falta de nuel Órfão & Filhos, empresa da Caranguejei- matéria-prima”, justifica José Gaspar. ra, em Leiria, que fabrica produtos para cons- A falta de pinho também tem afectado a ac- trução e paletes, defende que a solução para a História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:39 Página 25 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] falta de pinho passa pela venda dos lotes das ma- mercado em que a procura é maior que a ofer- tas nacionais. “Temos encomendas, mas não nos ta, com os preços a aumentar de dia para dia e podemos comprometer, porque não há matéria- correndo-se o risco de um dia não haver pinho, -prima.” o recurso terá de ser a importação ou o encer- “Quem é que vai plantar um pinhal para es- ramento”. perar 50 anos e depois dar quase metade ao Es- Leonel Marto defende que no momento da tado em impostos? Em vendas superiores a 25 reflorestação, os proprietários dos terrenos ou mil euros é a doer”, afirma Agostinho Órfão. “Ago- quem gere as florestas, “optam pelo eucalipto, ra, se se plantar eucaliptos, daqui a dez anos está porque é o que cresce mais rápido e o que lhes feito. É uma diferença muito grande.” dá mais dinheiro a curto prazo”. “Há também os proprietários que abando- Há proprietários que abandonam os terrenos depois de serrados os pinheiros, sem a preocupação de ali plantar o que quer que seja nam os terrenos depois de serrados os pinheiros, sem a preocupação de ali plantar o que quer que seja”, assegura o director executivo da Martos & Cª. “Depois surgem os matos e mais focos de incêndio, correndo-se o risco de matar o resto da floresta de pinho.” A Martos & C.ª tentou colmatar esta lacuna com a importação de matéria-prima, principal- Para fazer face à escassez de pinho, o gerente mente do Brasil, até que encontrou uma solu- da Manuel Órfão & Filhos diz que está a serrar ção alternativa no mercado nacional. “Defen- choupos e acácias para fazer paletes. “Agora, pre- demo-nos, criando um produto conhecido no ga-se o que há.” Admite, por isso, a possibilida- mercado – painel lamelado colado – utilizado em de de vir a importar madeira, embora receie que mobiliário e bricolagem”, explica Leonel Marto. o mercado não aceite preços mais elevados. Manuel Pereira, 57 anos, gerente da Soma- Sem condições para importar matéria-pri- pil, empresa de compra e venda de madeira e de- ma e preocupado com o agravamento de preços rivados, de Regueira de Pontes, Leiria, também do pinho está Firmino Cardeira, 63 anos, sócio- foi obrigado a procurar matéria-prima noutros -gerente da Pisomóvel, empresa de materiais mercados, depois de muitos dos seus fornece- para madeiras destinados a fabricantes de mo- dores terem fechado as empresas ou terem mu- biliário, localizada em Pataias, Alcobaça. “O pi- dado de área de negócio. nho aumentou cerca de 20% desde Fevereiro ou Embora o empresário prefira utilizar pinho Março, de tal forma que os agricultores da região nacional, por ser de “melhor qualidade, mais den- de Pataias dizem que é uma boa época para ven- so e ter garantia de durabilidade quando sub- der os seus pinheiros.” metido a tratamento”, também importa muita Para este empresário, a escassez de ma- matéria-prima dos Estados Unidos. téria-prima “é um dos principais obstáculos “Recentemente, começámos ainda a co- com que os empresários do mobiliário se con- mercializar bambu, um produto vindo da Chi- frontam”, ao qual se junta o “aumento de pre- na, mas transformado com tecnologia holande- ços que muitos não são capazes de suportar, sa”, revela Manuel Pereira. “É prensado para o tendo em conta os prazos cada vez mais aper- fabrico de decks e outros pisos, mas também dá tados impostos pelos fornecedores e os pra- para móveis e outras aplicações. Não sendo ma- zos mais dilatados dos pagamentos por par- deira, é uma alternativa à madeira e é de cres- te dos clientes”. cimento rápido.” Manuel Marto, 57 anos, recorda que em 1981, O gerente da Somapil alerta ainda para quando criou a Martos & C.ª, nas Colmeias, Lei- facto de haver menos pinho nacional, devido ria, produzia madeiras para a construção civil e à sua substituição pelo eucalipto, que contri- paletes para a indústria, utilizando pinho, sem buiu para disparar os preços do pinho no mer- problemas de fornecimento. cado. “Neste momento, já pagamos 65 euros Hoje, a realidade é completamente diferente. a tonelada na serração, quando antes custa- Leonel Marto, director executivo, diz que “num va 40 euros. E a tendência é para aumentar.” [ 25 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:40 RICARDO GRAÇA MEDIDAS DE COMBATE AO NEMÁTODO CONTESTADAS Página 26 Em Espanha, se há suspeitas de nemátodo, cortam as árvores, em vez de se porem a fazer análises e estarem meses à espera dos resultados, como em Portugal Detectado em Portugal pela primeira vez em sujeita a um choque térmico, à excepção das pa- 1999, o nemátodo-da-madeira-do-pinheiro é letes, porque podem ser utilizadas para trans- considerado um dos organismos com maior po- portar produtos para o estrangeiro. tencial destrutivo desta espécie. Conscientes que Para o administrador da J. Primitivo, empresa o tratamento térmico é indispensável para evi- que se dedica à produção de paletes e produtos tar que este micro-organismo se propague, os em madeira para construção, a solução ideal pas- empresários contestam, no entanto, algumas das sa por proceder como em Espanha. “Se há sus- medidas adoptadas para o combater. peitas de nemátodo, cortam as árvores, em vez Jorge Primitivo, 49 anos, administrador da J. Primitivo Madeiras, em Santa Catarina da Ser- de se porem a fazer análises e estarem meses à espera dos resultados, como em Portugal.” ra, Leiria, questiona porque é que não é obri- Armando Vizela Cardoso, antigo presiden- gatório submeter a tratamento térmico toda a te da Associação dos Industriais de Madeiras do madeira. “Se o objectivo é não pôr madeira com Centro, tem a mesma posição. “A forma como este nemátodo na praça pública, por que razão não processo está a ser gerido é mais um sinal da in- é obrigatório tratar tábuas, que podem ser da competência na gestão da floresta. Continuam mesma árvore utilizada para fazer paletes?” a ver-se pinheiros secos, que deviam ser logo Vítor Poças, presidente da Associação das abatidos e removidos do local”, argumenta. Indústrias de Madeiras e Mobiliário de Portu- Além das restrições em relação ao transporte de gal (AIMMP), confirma que se a madeira for madeira nas zonas afectadas com nemátodo, que apenas para vender no País, não precisa de ser tantas vezes obriga os empresários a fazerem História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:40 Página 27 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] mais quilómetros para chegarem ao destino, ou- Saraivas – Serração e Carpintaria, na Batalha, as- tra das medidas criticada prende-se com a obri- segura que, embora se tenham abatido muitos pi- gatoriedade de usar uma rede com insecticida nheiros na zona Centro, devido ao nemátodo, para cobrir a madeira durante o transporte, por “está quase tudo espalhado”. “Hão-de ter mui- forma a evitar que o insecto vector transporte tas dificuldades para o parar”, afirma. “Andam a o nemátodo para outras árvores. abater as árvores secas, em vez das verdes, onde Agostinho Órfão, 57 anos, gerente da Ma- aparece o nemátodo”, justifica. nuel Órfão & Filhos, empresa da Caranguejeira, em Leiria, que fabrica produtos para construção e paletes, diz que, apesar de ser obrigatório utilizar essa rede, “ninguém a usa”. O empresário defende que é demasiado grande (20mx10m), o que dificulta a sua colocação, e considera o preço muito elevado (900 euros), tendo em conta que “só dura um ano”. Cometeram-se muitos erros. Algumas medidas tomadas pelas autoridades europeias potenciaram o alastramento do nemátodo para a zona Norte do País A pulverização da rede com insecticida coloca ainda a questão da segurança de quem a “O nemátodo é um problema que não tem manipula. Já houve pessoas que desmaiaram, sido devidamente acompanhado pelos gover- por se tratar de um produto tóxico. “E o seguro nantes e que tem dado cabo do nosso pinhal, não cobre o motorista se cair da carga”, assegura ameaçando a nossa principal matéria-prima”, Agostinho Órfão. Todos estes obstáculos levam afirma José Manuel Gaspar, 66 anos, adminis- a que considere que não faz sentido exigir a sua trador da Sopromad, empresa de serração de ma- utilização e a acreditar que o que se pretende é deiras e aplainamento de madeira de pinho dos apanhar as empresas em incumprimento para Pousos, Leiria. se poder aplicar coimas. O empresário contesta ainda o consumo O presidente da AIMMP concorda que o uso energético com os tratamentos fitossanitários, destas redes é “demasiado penalizador” para as obrigatórios nas empresas exportadoras, e que empresas. Além da sua “operacionalização” e da também consomem “muito tempo”. ameaça para a saúde dos operadores, diz que a “Estes tratamentos trouxeram um acrésci- sua “eficácia é duvidosa”. “Há sempre espaço por mo de custos às empresas na ordem dos 8 a 10% onde o insecto vector pode escapar”, afirma. do valor da madeira”, garante Vítor Poças. “Com Já Paulo Verdasca, 50 anos, administrador da a agravante de que veio prejudicar a indústria Madeca, empresa de paletes de Caxarias, Ou- portuguesa em relação às congéneres europeias, rém, considera que “a indústria tomou todas as ao retirar-lhe competitividade nos negócios. No medidas necessárias”, mas “falta a produção [sil- caso das paletes, por exemplo, os preços são dis- vicultores] dar resposta à calamidade”. cutidos ao cêntimo.” “Cometeram-se muitos erros. Algumas me- Além de ter estado envolvida na luta con- didas tomadas pelas autoridades europeias tra o embargo aos produtos portugueses, a potenciaram o alastramento do nemátodo para AIMMP tem pressionado ainda a Direcção-Ge- a zona Norte do País”, denuncia o administra- ral de Saúde europeia e o Governo português dor da Madeca. Por outro lado, considera que “há para que sejam liquidados os fundos de solida- falta de uma estratégia nacional”. riedade às empresas que tratam o nemátodo. Apesar disso, Paulo Verdasca deu um con- O dirigente associativo revela que, embora tributo importante enquanto presidiu à Fede- os fundos referentes aos anos de 2010 e 2011 te- ração Europeia de Fabricantes de Embalagens nham ficado por pagar, a AIMMP conseguiu des- e Paletes de Madeiras, em 2003 para que uma bloquear os do ano 2013, depois de ter feito um das medidas que estava a ser equacionada, não manifesto público em Lisboa. “As empresas re- fosse posta em prática. “Falou-se em embargar ceberam uma quantia avultada. Agora, ando a os produtos portugueses, devido ao nemátodo, exercer pressão para que a União Europeia vol- mas conseguimos evitar que isso sucedesse.” te a abrir um novo quadro de financiamento dos Saul Saraiva, 49 anos, encarregado geral da tratamentos.” [ 27 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 28 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:41 Página 28 D E R I V A D O S ] DR CONCORRÊNCIA DOS PELLETS PODE AMEAÇAR INDÚSTRIA DA MADEIRA “A produção industrial de pellets assumiu um protagonismo muito relevante no sector flo- É fundamental garantir que a utilização de matéria-prima para fins energéticos não comprometa utilizações com maior valor acrescentado leira do pinheiro bravo, sendo os restantes 20% provenientes de outras espécies”. restal e no contexto económico nacional como Significa que, transversalmente ao sector da actividade exportadora.” A informação é do pri- biomassa, a disponibilidade de matéria-prima, meiro estudo prospectivo para o sector flores- ou seja, de pinheiro bravo, é uma das maiores tal em Portugal, promovido pela AIFF - Asso- preocupações do sector”, sublinha o estudo. ciação para a Competitividade da Indústria da O documento da AIFF avança ainda que as Fileira Florestal. Adverte ainda para a necessi- unidades de produção de pellets têm a sua “maior dade de “garantir que a utilização de matéria- concentração a Norte do rio Douro e na zona -prima para fins energéticos não comprometa centro, entre os distritos de Viseu e Leiria”. utilizações com maior valor acrescentado nacional nas indústrias das fileiras florestais”. É, aliás, no distrito de Leiria que se encontram algumas das maiores empresas, como o A advertência surge na sequência da in- Grupo Enerpellets, que só nas suas duas uni- formação da Associação Nacional de Pellets dades industriais, em Pedrogão Grande e Alco- Energéticas de Biomassa (ANPEB), que reve- baça, tem uma capacidade de produção anual la que “cerca de 80% da matéria-prima utiliza- efectiva de cerca de 250 mil toneladas de pellets, da na produção de pellets é proveniente da fi- lê-se no site da empresa. História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:42 Página 29 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] Em 2012, foram produzidas em Portugal cer- ser fácil lutar contra isso, porque “as empresas ca de 690 mil toneladas de pellets, representan- de serração não têm massa crítica para lutar con- do um aumento de 8% face a 2011. Hoje existem tra esses grupos económicos.” “unidades com capacidade de produção superior Para Vítor Poças, presidente da Associação a 100 mil toneladas/ano”, diz o estudo da AIFF. das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Por- A produção de pellets em Portugal é vista tugal (AIMMP), “é uma desgraça económica e como um dos “piores inimigos” pelos empresá- ecológica que as empresas de pellets estão a co- rios da fileira da madeira. “Dantes, eram incên- meter”. dios, a seguir foi o eucalipto. Agora, são os pel- Argumenta que o Estado português “licen- lets.” Agostinho Órfão, 57 anos, gerente da Ma- ciou demasiadas indústrias, às quais foram nuel Órfão & Filhos, na Caranguejeira, Leiria, fala concedidos apoios e subsídios comunitários para da concorrência destas empresas que deviam uti- a sua criação”. Na sua opinião, “essas empresas lizar apenas desperdícios da madeira e das flo- deviam valorizar e limpar as matas, mas como restas. “Vieram com incentivos para derreter a não há matéria-prima suficiente, chegou-se ao biomassa, não para cortarem a matéria-prima”, cúmulo de comprarem madeira para triturar e sublinha o empresário. fazer pellets.” “Estamos encharcados de fábricas de pellets Preocupado com as consequências para o industriais. Daqui a dez anos, estamos depena- sector, o dirigente associativo afirma que a dos ou falidos e, das 20 fábricas de pellets, só vão AIMMP está empenhada em encontrar uma for- estar seis”, avisa Jorge Primitivo, 49 anos, admi- ma de se “proibir o consumo de madeira para nistrador da J. Primitivo Madeiras, em Santa Ca- a queima acima de um determinada dimensão”. tarina da Serra, Leiria. Embora não veja incon- Reconhecendo que “há uma quantidade ex- veniente na existência de fábricas de pellets, “des- cessiva de fábricas em relação ao potencial do de que sejam feitas com subprodutos de serra- País”, João Verdasca, 52 anos, presidente do Con- ções e florestais”, o empresário sublinha que o selho de Administração da Madeca, fábrica de problema é que “se vai buscar madeira, está a fa- paletes de Caxarias, Ourém, pretende, contudo, zer-nos concorrência”. rentabilizar o subproduto que não está a ser Já Rui Oliveira, 57 anos, administrador do aproveitado na sua fábrica de paletes.Vai alar- Grupo Valco, também considera “os pellets uma gar a sua área de negócio aos pellets, mas garante praga” e “um crime deixar entrar madeira das ser- que a Madeca “não irá abater árvores para esse rações nessas empresas”. Sublinha, contudo, não fim”. “Há fábricas a fazer 20 toneladas por hora. Vamos fazer apenas quatro toneladas por hora.” ARQUIVO/JL O mesmo garante Leonel Marto, director executivo do Grupo Martos. Consciente das críticas às empresas de pellets, explica que não utilizará madeira na sua produção. A nova unidade industrial de pellets, construída em Colmeias, junto ao parque empresarial do Grupo, “vai utilizar um subproduto libertado do processo produtivo da madeira (estilha e serrim de pinho) e dar-lhe valor acrescentado”, explica o gestor. Vão ser produzidas, por ano, 25 mil toneladas deste biocombustível sólido para o segmento doméstico, dirigido ao mercado nacional e à exportação. Leonel Marto, director executivo do Grupo Martos, garante que não vai usar madeira na produção dos pellets [ 29 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 30 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:42 Página 30 D E R I V A D O S ] DR PORTUGAL QUER RECONQUISTAR MERCADO DA RESINA Portugal foi o segundo maior exportador de resina do Mundo e o primeiro da Europa, chegando a produzir 170 mil toneladas. Hoje é o segundo maior importador Os produtores portugueses estão a voltar a Para inverter o cenário actual, já chegou ao investir na resinagem. Querem reconquistar Ministério da Agricultura e do Mar uma proposta uma actividade que nasceu na Marinha Gran- da ResiPinus para que a actividade seja inte- de e que já foi próspera no País. Em 1975, Por- grada no próximo Plano de Desenvolvimento tugal foi o segundo maior exportador de resi- Regional (PDR) 2014-2020. na do Mundo e o primeiro da Europa, chegando a produzir 170 mil toneladas. “Preservar o pinhal, criando medidas de apoio à resinagem e a sua ligação a boas práti- Hoje, com a falta de matéria-prima, o cas silvícolas e à defesa da floresta contra in- abandono da floresta e a forte concorrência de cêndios” é o que se pretende com esta propos- outros países produtores, é o segundo maior im- ta, acrescenta Pedro Cortes, engenheiro agro- portador. nómico em Ourém, que há mais de cinco anos “Queremos mudar esta posição, criando estuda o fenómeno da resinagem em Portugal. condições para que a actividade renasça e flo- O especialista argumenta que a resinagem, resça em Portugal”, revela Hilário Costa, presi- além do seu potencial económico, é um dos prin- dente da ResiPinus, a primeira associação cipais mecanismos de defesa da floresta. “Nin- criada em Portugal de destiladores e explora- guém vai à floresta com a frequência de um re- dores de resina. sineiro.” História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:42 Página 31 [ M A D E I R A “A resinagem é, muito provavelmente, a actividade com maior intensificação de ocupação de mão-de-obra por área, pois pode ocupar um operador durante seis a nove meses por cada E D E R I VA D O S ] Hilário Costa diz que Portugal consome entre 80 a 90 mil toneladas de resina por ano LURDES TRINDADE 20 a 30 hectares de floresta”, sustenta Pedro Cortes. Um dos argumentos de peso para relançar a actividade prende-se com o facto de a China e o Brasil, os dois grandes produtores mundiais de resina, “terem ficado sem capacidade de resposta às necessidades dos mercados, aumentando os preços e dando margem a Portugal para voltar a competir a nível internacional”. Hilário Costa, que é também sócio-gerente da empresa Costa & Irmãos, empresa de resinagem que exporta mais de 80% da sua produção, revela que, com a nova realidade internacional, “as empresas de primeira transformação de resina poderão exportar mais e, assim, criar melhores condições aos resineiros”. Conta que o abandono da resinagem em Portugal coincidiu com o boom da produção de resina na China e consequente redução de preços, “fazendo com que os produtores deixassem 300 mil hectares de área defendida e 20 mil hec- de ter capacidade para acompanhar o merca- tares de área resinada apoiada". do”. Ao mesmo tempo, “este fenómeno coinci- Prevê-se também “a sua integração nos pla- diu com o ponto alto da construção civil em Por- nos municipais, com a criação de equipas com tugal e consequente êxodo rural”, revela. um mínimo de quatro resineiros, que explorarão uma área de 100 hectares e ficarão com- A resinagem é, muito provavelmente, a actividade com maior intensificação de ocupação de mão-de-obra por área prometidos a vigiar 1.500 hectares de floresta”. A partir daí, “haverá um pagamento de 150 euros/ano por hectare para o proprietário florestal e 45 mil euros/ano por hectare para a equipa de resineiros que terá de trabalhar todo o ano na floresta”, revela Pedro Cortes. Neste momento, em Portugal, “há apenas Pedro Cortes acrescenta, ainda, que “os in- 600 resineiros, seis empresas de primeira cêndios devastaram grandes áreas de pinhal, transformação e cinco de segunda transfor- que foram abandonadas ou substituídas por eu- mação, enquanto no passado existiam dezenas calipto sem qualquer ordenamento”. de empresas, que fecharam”, afirma Hilário Cos- Hoje, “se se pretender preservar o pinhal ta. “As condições actuais dos resineiros não são existente e alavancar a resinagem como po- atractivas do pronto de vista laboral, daí a im- tencial económico, ter-se-ão de mudar as po- portância do PDR e da mudança de legislação.” líticas de ordenamento florestal, apoiando os re- Um dos factores que pode ser vantajoso sineiros por prestarem um serviço público”, ob- para a resinagem em Portugal prende-se com serva. as novas orientações da União Europeia (UE) A proposta apresentada ao Ministério da [ 31 ] quanto ao apoio à resina natural. Agricultura aponta para “a criação, a nível na- Vítor Poças, presidente da Associação das cional, de 200 núcleos de defesa contra incên- Indústrias de Madeiras e Mobiliário de Portu- dio por resinagem, correspondendo a cerca de gal (AIMMP) e também vice-presidente da Con>>> História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 32 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:43 Página 32 D E R I V A D O S ] federação Europeia da Indústria de Madeira, es- LURDES TRINDADE clarece que a UE “tem vindo a fixar limites ao uso de formaldeído, ou seja, de colas feitas a partir de produtos sintéticos”. Isto significa que “a redução dos limites do seu uso pode potenciar a utilização de resinas naturais do pinheiro, em que a zona Centro é muito forte”, acredita o líder associativo. Na Europa, cerca de 70% do formaldeído é utilizado para a preparação de resinas sintéticas (resinas de uréia e resinas de fenol-formaldeído), aplicadas em sectores como a indústria de madeiras e derivados, abrasivos, plásticos, tintas e vernizes, papel e celulose, têxtil e fundição. Em Portugal, as empresas de segunda transformação, mesmo as que importam resina, têm privilegiado o produto natural. Neste momento, “depois do Japão, Portugal é o maior consumidor de pez louro, pelo que toda a resina que Adriana Monteiro admite que a falta de matéria-prima é uum dos problemas da indústria de primeira transformação se consiga extrair e transformar no País tem escoamento garantido por parte dessas empresas que consomem entre 80 a 90 mil toneladas/ano”, bora a produção seja menor. Adriana Monteiro, declara Hilário Costa. O empresário diz que 28 anos, gerente da empresa, considera que a fal- “existe, contudo, uma distância muito grande en- ta de matéria-prima “é um dos problemas das tre o que se produz (cerca de 7/8 mil toneladas empresas de primeira transformação, ultrapas- de pez louro) e o que se consome, pelo que a sada que está, pelo menos para já, a situação da aposta neste sector é plenamente justificada”. competitividade internacional”. A Resal transforma “cerca de 400 toneladas A União Europeia tem vindo a fixar limites ao uso de formaldeído, ou seja, de colas feitas a partir de produtos sintéticos de resina nacional por ano”, além da “prestação de serviço que faz para empresas de segunda transformação”.Também tem conseguido escoar a sua produção, procurando as empresas que fazem os melhores preços”. Neste momento, o futuro da resinagem no País “está dependente da integração da actividade Só o Grupo Costa & Irmãos transforma por no Plano de Desenvolvimento Regional e dos ano entre 2500 a 3000 toneladas de resina, “as- apoios que se conseguirem obter”, garante Pe- segurando quase metade da produção nacional”. dro Cortes. Na sua unidade produtiva no Carriço, em O especialista diz mesmo que, se não exis- Pombal, a resina é transformada em dois tir apoio, a resinagem “terá tendência a desapa- produtos principais: a terebentina (ou aguar- recer”. Pode “manter-se nos níveis actuais por rás), usada pelas indústrias farmacêutica, de mais alguns anos, mas sempre com uma ten- perfumaria, de produtos de limpeza e de tin- dência decrescente”. tas, entre outras; o outro produto é a colofónia Ao contrário, se o Ministério aceitar as pro- (ou pez louro), que tem também um vasto le- postas, “a resinagem passará a ser uma activi- que de aplicações, como tintas de impressão, dade económica interessante”, acredita Pedro adesivos, colas, ceras depilatórias, pneus e até Cortes. “A produção nacional aumentará para pastilha elástica. mais do dobro, criando empregos em zonas ru- O mesmo acontece na Resal, em Tartaria,Albergaria dos Doze, no concelho de Pombal, em- rais despovoadas e prestando serviços ambientais e de defesa contra incêndios.” História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 12:23 Página 33 [ M A D E I R A “NASCERAM-ME OS DENTES NA RESINA” E D E R I VA D O S ] Trabalha com o filho, Humberto Neves, 20 anos, que desistiu dos estudos há seis anos. “Quero regressar à escola, para um curso relacionado com a floresta”, diz, lamentando não ver “mais gente nova na resinagem”. O jovem resineiro diz que, “se não forem os mais velhos, a actividade morre”, pelo que “Nasceram-me os dentes na resina e defende “a dignificação de uma profissão que caem-me os dentes na resina.” A imagem pode contribuir para o crescimento da eco- serve para ilustrar as mais de quatro déca- nomia do País”. das de actividade de José Francisco Marques, 50 anos, ao serviço do pinhal. Colectado como explorador de resina, José Francisco Marques argumenta, ainda, Residente em Albergaria dos Doze, o re- que se trata de uma profissão “muito mal sineiro tem a carta profissional desde os 13 tratada e que se não fosse a família a aju- anos, que tirou “num barracão no Vale das dar, não conseguiria pagar ordenados e im- Moitas, em Pombal, com especialistas da postos”. Num dia normal de trabalho, o re- Zona Florestal de Marinha Grande”, quan- sineiro colhe “mil quilos de resina”, que ven- do “a resinagem era a profissão da maioria de “a uma única empresa por cerca de um dos homens e mulheres da freguesia”. euro a 1,10 o quilo, dependendo do preço do José Francisco Marques lembra que “mor- mercado”. Segundo diz, “vai dando para vi- reu tudo com o incêndio de 2005. A floresta foi ver, mas mais importante, é a paixão pelo pi- abandonada ou substituída por eucalipto e as nhal”. pessoas ficaram sem emprego ou mudaram de Praticada manualmente, a resinagem in- profissão”, conta o resineiro que, nesse ano, mu- clui várias operações no pinhal, que decor- dou a actividade para o Pinheirinho, também rem entre 1 de Maio e 30 de Novembro. Fa- em Pombal, onde explora 18 mil bicas por ano. zem-se alguns cortes no tronco do pinheiro “Já cheguei a colher mais de 60 mil bicas que provocam a libertação da resina que é re- anuais, antes do incêndio, agora não há pinhais.” colhida num recipiente preso à árvore, a bica. LURDES TRINDADE [ 33 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 34 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:43 Página 34 D E R I V A D O S ] RICARDO GRAÇA DÍVIDAS ASFIXIAM EMPRESAS Os problemas de tesouraria que muitas empresas atravessam e as dívidas que ficaram por Os balões de oxigénio que suportavam algumas empresas rebentaram e a maioria foi obrigada a fechar e a mandar para o desemprego centenas de pessoas principais concorrentes de Paços de Ferreira deixam os móveis nas lojas à consignação. pagar após o encerramento de outras criam di- As dívidas à Saraivas - Serração e carpin- ficuldades adicionais a quem conseguiu sobre- taria, na Batalha, ascendem a 300 mil euros. Saul viver aos tempos mais adversos. Saraiva, 49 anos, encarregado geral, justifica esta José Monteiro, 58 anos, sócio-gerente da Al- situação com o encerramento de algumas em- mipe, fábrica de móveis maciços da Marinha presas e a falta de liquidez de outras. “Fecham Grande, revela que tem mais de um milhão de uma a duas casas por ano e algumas são das euros na rua. “Entre 2008 a 2010, houve 860 mil mais antigas.” Não conta, por isso, recuperar 50 euros que não recebemos por falência ou en- a 60 mil euros daquele montante. cerramento de lojas. Está tudo em tribunal.” O problema, explica Saul Saraiva, é que Para evitar novas dívidas, José Monteiro re- os clientes da serração só liquidam as factu- vela que foi alterado o sistema de cobranças. Para ras depois de receberem o pagamento da par- garantir o pagamento dos clientes, o passou a ser te dos seus clientes. “Se só recebem a 90 dias, o comercial a fazer as cobranças e deixaram de pagam a 90 dias. Se só recebem a 120 dias, pa- aceitar letras. “Só aceitamos pagamentos via gam a 120 dias.” A dilatação dos prazos afec- transferência bancária ou cheque.” Esta posição, ta, assim, a actividade da Saraivas, que paga admite, irá fragilizar a empresa, já que os seus a madeira aos silvicultores antes de cortar as História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:43 Página 35 [ M A D E I R A árvores, para conseguir melhores preços. E D E R I VA D O S ] dor da Artimol, empresa de artigos de mobiliá- António Casalinho, 65 anos, sócio da Ma- rio, de Vilar dos Prazeres, Ourém, , recorda o “des- deiras Vale da Catarina, na Caranguejeira, Lei- calabro total” que foi para a maioria das em- ria, diz que os 260 mil euros que tem de dívidas presas que viviam apenas voltadas para o mer- correspondem à facturação de dois meses. “Só cado nacional e dependente de um ou dois clien- uma multinacional deve-me 51 mil euros.” tes e da banca.” “Os balões de oxigénio que as suportavam Podia ter uma grande serração e ser uma grande dor de cabeça. Assim, tenho uma pequena serração e uma pequena dor de cabeça rebentaram e a maioria não se aguentou, sem dinheiro para pagar aos fornecedores, ao Estado e à banca, sendo obrigada a fechar ou a pedir insolvência e a mandar para o desemprego centenas de pessoas”, afirma Anselmo Henriques. Em contrapartida, Custódio Eugénio, 67 anos, empresário de Vilar dos Prazeres, Ourém, Consciente que algumas facturas não vão refere o caso das empresas que passaram difi- ser liquidadas porque as empresas fecharam, culdades por não lhes ter sido concedido crédi- António Casalinho procura minimizar os pre- to. “As empresas não tinham dinheiro, não pa- juízos, ficando com máquinas e equipamentos. gavam aos fornecedores que, por sua vez, fica- “Podia ter uma grande serração e ser uma gran- vam sem liquidez. Foi dramático ver grandes em- de dor de cabeça. Assim, tenho uma pequena presas a encerrar assim que os bancos fecharam serração e uma pequena dor de cabeça.” as torneiras e os clientes deixaram de pagar.” “No tempo do meu pai, nas décadas de 50 e 60, a madeira vendia-se às carradas e os empresários sabiam que iam receber, porque nessa época a palavra valia mais que um contrato escrito”, conta José Manuel Gaspar, da Sopromad, empresa de serração de madeiras dos Pousos, Leiria. “Hoje é muito difícil receber.” Firmino Cardeira, sócio-gerente da Pisomóvel, empresa de mobiliário de Pataias, Alco- Só houve um jovem empresário que fez questão de nos pagar tudo. Foi para a Alemanha trabalhar e só regressou quando saldou todas as suas dívidas baça, defende que muitas empresas vivem com dificuldades devido aos compromissos Purificação Reis, directora executiva da assumidos com a banca antes de rebentar o sub- ACISO – Associação Empresarial Ourém- prime, em 2008. “Estavam alavancadas em cré- Fátima, explica que muitas empresas de Vilar ditos e, de repente, tudo lhes foi cortado.” dos Prazeres foram obrigadas a fechar, ar- “As dificuldades nas cobranças que, por sua rastadas pela “quebra da construção civil e pe- vez, vão provocar atrasos no pagamento aos for- los incobráveis”. Perderam, assim, alguma ca- necedores” são apontadas pelo empresário pacidade financeira que seria importante como um dos grandes entraves do sector. Com para a conquista do mercado externo ou “os preços mais elevados da matéria-prima e os para apostar em inovação. prazos de pagamento cada vez mais apertados Se há empresas que contam receber parte por parte dos fornecedores, as empresas fica- das dívidas, Manuel Pereira, sócio-gerente da So- rão sufocadas.” mapil, diz que já perdeu a esperança em voltar Quem fornece os materiais “receia as insolvências e os planos de recuperação porque a ver as centenas de milhares de euros que ficaram nas mãos dos clientes. teme que, nesses casos, seja obrigado a con- “Só houve um jovem empresário que fez ceder prazos muito dilatados para poder re- questão nos pagar tudo. Foi para a Alemanha tra- ceber”. Esse poderá ser mais um contributo balhar e só regressou quando saldou todas as para o encerramento de fábricas, acredita Fir- suas dívidas e endireitou a sua vida. Não há mui- mino Cardeira. tos assim”, conta o empresário de Regueira de Anselmo Henriques, 34 anos, administra- Pontes. [ 35 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 36 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:43 Página 36 D E R I V A D O S ] RICARDO GRAÇA ENGENHARIA DE MADEIRAS EMPREGA 90% O curso de Engenharia de Madeiras da ESTG de Viseu diplomou cerca de 500 alunos, nos últimos 15 anos DOS ALUNOS A Escola Superior de Tecnologia e Gestão Face às limitações impostas pelo Ministé- do Instituto Politécnico de Viseu é a única ins- rio da Educação e da Ciência referentes à tituição do ensino superior a dar formação es- abertura de novos cursos, o Instituto Politécni- pecífica na área da Engenharia de Madeiras em co de Viseu (IPV) foi impedido de aumentar o Portugal. Nos últimos 15 anos, diplomou cerca número de vagas, pelo que optou por não abrir de 500 alunos nesta área. Destes, cerca de 90% o curso de Engenharia de Madeiras para poder estão integrados no mercado de trabalho. abrir Tecnologia e Design de Mobiliário. João Luís Pereira, director do curso, expli- A grande diferença é que, para se candi- ca que a licenciatura em Engenharia de Ma- datarem a Engenharia das Madeiras, os alunos deiras esteve impedida de abrir vagas nos úl- tinham de fazer duas provas específicas, en- timos três anos lectivos, pelo que entrou em pro- quanto que para se candidatarem a Tecnologia cesso de cessação. Este encerramento surge na e Design do Mobliário só têm de fazer uma. sequência da criação da licenciatura em Tec- O facto de os cursos de Engenharia terem nologia e Design de Mobiliário, em 2012/2013. passado a incluir cumulativamente duas provas, História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:44 Página 37 [ M A D E I R A em que uma “grande parte dos alunos não con- E D E R I VA D O S ] te, em Tecnologia e Design de Mobiliário. segue obter boa classificação”, é a principal jus- Além disso, João Luís Pereira refere que en- tificação apontada por João Luís Pereira para o trou em funcionamento, no ano passado, a li- decréscimo do número de candidatos. O curso cenciatura de Tecnologias da Madeira na Escola sentiu ainda o impacto do decréscimo popula- Superior de Tecnologia de Felgueiras, cujas uni- cional e da proliferação de cursos superiores. dades curriculares das áreas científicas de En- Tendo em conta estes desenvolvimentos, o genharia de Madeiras são asseguradas por do- director do curso garante que foi definido um pla- centes do IPV. Contudo, tem tido um número re- no para possibilitar a conclusão da licenciatura duzido de candidatos. aos alunos ainda no sistema e que não pretendam mudar de curso. Atento aos problemas que têm afectado o sector das madeiras e derivados, o docente de- O Departamento de Engenharia de Madei- fende a criação de um plano de ação nacional, ras disponibiliza ainda o Curso de Especializa- que envolva desempregados de longa duração ção Tecnológica (CET) de Técnico de Design de e as forças armadas na limpeza do mato, des- Mobiliário e o Mestrado em Engenharia de bastes e plantações, sob a coordenação de es- Madeiras. Este CET, que já vai na nona edição, pecialistas dos serviços florestais ou outros até ao ano lectivo passado, formou 92 alunos, dos técnicos. Com a adopção desta medida, acredi- quais cerca de 65% optaram pelo prosseguir es- ta que se contribuiria para evitar incêndios e tudos em Engenharia de Madeiras e, atualmen- combateria a falta de políticas de reflorestação. RICARDO GRAÇA EMPRESÁRIOS Ferreira. “Muitas empresas fecharam porque PEDEM MAIS FORMAÇÃO varam e não conseguiram fazer a transição. Vi- os empresários não diversificaram, não inoviam de mão-de-obra pouco especializada e quando foram confrontados com a concorrência dos países asiáticos sucumbiram.” Mário Santo, sócio-gerente da Geometria Filipe Neves, administrador do Grupo NS, do Móvel, sente que a falta de formação es- também sente dificuldade em encontrar mão- pecífica para técnicos da madeira é um han- de--obra especializada, pelo que, quando ne- dicap do sector. Não se refere apenas a licen- cessita de pessoas qualificadas, recorre a ou- ciados, mas a carpinteiros, manuseadores de tras empresas. Além disso, os funcionários empilhadoras, técnicos de acabamentos e ou- mais antigos dão formação aos mais novos. tras áreas relacionadas com a produção, Albano Rodrigues, director do CFPIMM - como o desenho técnico e assistido por com- Centro de Formação Profissional das Indústrias putador. da Madeira e do Mobiliário, em Paredes, Por- “Hoje, as empresas têm de apostar em re- to, tem consciência de que no eixo Ourém/Pa- cursos humanos qualificados, caso contrário taias “há muito a fazer em matéria de forma- não acompanham as tendências dos merca- ção”, apesar de, na última década, o Centro ter dos”, diz, por seu lado, Rui Ferreira, adminis- realizado uma média de 20 acções por ano. trador do Grupo Valco, para quem “seria nor- “A nossa perspectiva é conseguir, no cur- mal existir na região, se não uma escola, pelo to prazo, que a nossa oferta cresça substan- menos algumas disciplinas ou um curso diri- cialmente”, sublinha o responsável, que pre- gido às madeiras”. tende “reactivar o trabalho de parcerias com “Esses cursos estão mais ligados a Paços agentes locais, como já aconteceu no passado, de Ferreira, mas também deviam estar em Lei- para chegar ao final do primeiro semestre de ria, onde há grande intensidade de floresta e 2015 com uma intervenção na região bastan- de empresas ligadas à madeira”, defende Rui te mais elevada”. [ 37 ] 27-10-2014 11:44 Página 38 RICARDO GRAÇA História da Indústria_Madeira:Layout 1 MADEIRA PASSA DE DÉFICE A EXCEDENTE COMERCIAL De um défice comercial de 11 milhões de euros em 2011, o saldo da balança comercial do distrito de Leiria ultrapassou 21 milhões em 2013 Os produtos de madeira apresentaram na tor que subsistiram à crise e outros que sur- região uma boa performance no que respeita ao giram no mercado, não têm cruzado os braços, comércio internacional, passando de um exce- procurando novos mercados para escoar os dente comercial de oito milhões de euros, em seus produtos. 2012, para 21 milhões de euros, em 2013. Uma Mas não foi apenas a região que obteve subida assinalável, considerando que em 2011 bons resultados em termos de comércio in- este sector registava um défice comercial de 11 ternacional. No País, o sector da fileira florestal milhões de euros. representou no seu todo, em 2013, 9,5% das ex- Os números do Instituto Nacional de Esta- portações nacionais, correspondendo a 4,5 mil tística mostram que nos últimos dois anos fo- milhões de euros. Estas vendas ao exterior ram registados saldos comerciais positivos que equivalem a 70% do VAN (Valor Acrescenta- contribuem para o bom desempenho do distri- do Nacional) e a cerca de 3% do PIB (Produ- to. Em 2013, as empresas reforçaram as vendas to Interno Bruto). Os principais parceiros ao exterior em 22% face a 2012, corresponden- comerciais foram Espanha, Franca, Itália e Ale- do a 3% no total das exportações da região. Ao manha, Angola, Suécia e Reino Unido. contrário, as importações diminuíram 14% face a 2012. Se nos concentrarmos apenas nos sectores da madeira e mobiliário, representados Apesar das dificuldades que as empresas pela AIMMP - Associação das Indústrias de da região têm sentido no mercado nacional e Madeiras e Mobiliário de Portugal, o desem- de muitas terem encerrado portas, principal- penho também foi bastante positivo, regis- mente no ano de 2011, os empresários do sec- tando-se em 2013 mais de dois mil milhões de História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:45 Página 39 RICARDO GRAÇA [ M A D E I R A realça, contudo, “que as áreas de uso florestal a um aumento de 9% face a 2012. em Portugal incluem as superfícies arboriza- Esta associação representa cerca de cin- das (correspondente aos povoamentos flo- co mil empresas, que asseguram cerca de 50 restais) e as superfícies temporariamente de- mil postos de trabalho. O presidente da asso- sarborizadas (superfícies ardidas, cortadas e ciação, Vítor Poças, destaca “o equilíbrio exis- em regeneração)”. Os matos e pastagens cons- tente no saldo positivo da balança comercial tituem “a classe seguinte de uso do solo com de sectores tradicionais que necessitam de ser maior área, correspondendo os matos a 52% reconhecidos e acarinhados pelo poder polí- desta classe e as áreas agrícolas a 24% do ter- tico e pela sociedade em geral”, dando como ritório continental”. exemplo a indústria da madeira e mobiliário Já a área arborizada (povoamentos) au- que representou um saldo comercial de 645 mentou (+0,4% por ano) durante o mesmo pe- milhões de euros e a indústria da pasta celu- ríodo. O eucalipto (dominado pela espécie eu- lósica e papel com um saldo de 654 milhões de calyptus globulus) é a principal ocupação euros. florestal do Continente em área (812 mil ha), No caso da floresta os números não são tão pinheiro-bravo (714 mil ha). Refere ainda o mesmo estudo que a área floresta, constituída por 60% de pinho, e des- de pinheiro bravo apresenta uma forte redu- truir toda uma indústria recordista na manu- ção (-13%) relativamente à superfície arbori- tenção de emprego nas indústrias de base flo- zada (povoamentos) e de -27% quanto à su- restal”, adverte Vítor Poças, em comunicado. perfície total (povoamentos e superfícies tem- A área florestal em Portugal ocupava, em porariamente desarborizadas, superfícies cor- 2010, 35,4% do território, tendo diminuído tadas, ardidas e em regeneração). Significa que entre 1995 e 2010, correspondendo a uma taxa a área total de pinheiro bravo diminuiu 263 mil de perda líquida de -0,3% por ano. Mesmo as- hectares entre 1995 e 2010. A maior parte des- sim, segundo o estudo mais recente das áreas ta área transformou-se em matos e pastagens dos usos do solo e das espécies florestais, do (165 mil ha), 70 mil em eucalipto, 13 mil em es- Instituto da Conservação da Natureza e das paços urbanos e 13,7 mil em áreas florestais Florestas (ICNF), Portugal está na média dos com outras espécies arbóreas, revela o mesmo 27 países da União Europeia (37,6%). O ICNF estudo. Distribuição das áreas totais por espécie/grupo de espécies Valores em milhões de euros Outras folhosas Mobiliário 2068 6% 1278 897 Pinheiro-bravo 1064 978 623 673 26% 516 Castanheiro 1% Pinheiro-manso 6% Outras resinosas 2% Fonte: AIMMP Eucaliptos 23% 604 2009 [ 39 ] o sobreiro a segunda (737 mil ha), seguido do queimar mais de 100 mil hectares anuais de Exportações da madeira e mobiliário entre 2009 e 2013 461 D E R I VA D O S ] euros de vendas ao exterior, correspondendo animadores. “Não poderemos continuar a Madeira E 2010 2011 2012 2013 Carvalhos 2% Sobreiro 23% Fonte: Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ornamento do Território. Dados de 2010 Azinheira 11% História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 40 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:47 Página 40 D E R I V A D O S ] RICARDO GRAÇA RICARDO GRAÇA A internacionalização é apontada como a solução para garantir o futuro do sector, mas a escassez de matéria-prima pode comprometer essa saída. Apesar do optimismo de muitos, teme-se que nos próximos anos mais empresas encerrem portas. História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 12:32 Página 41 RICARDO GRAÇA [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] [ 41 ] FUTURO DAS MADEIRAS PASSA PELA EXPORTAÇÃO Rui Oliveira confia no potencial do Magrebe e dos países de expressão portuguesa para a expansão do sector “É preciso acrescentar valor ao produto, através do design, e melhorar a qualidade dos recursos humanos do sector, aumentando as competências linguísticas para a exportação. ” Vítor Poças, presidente da Associação das Indústrias de Madeiras e Mobiliário de Portugal (AIMMP), acredita que o futuro passa pelo mercado externo. “Quem não exportar nos próximos dez anos vai ter muitas dificuldades”, avisa o dirigente associativo, que acredita que, no futuro, “haverá menos empresas” no sector das madeiras e derivados. “As que resistirão serão as de maior dimensão.” As empresas que tiverem capacidade financeira, organizativa e recursos humanos capazes de acompanhar as transformações actuais do sector continuarão a ter viabilidade ropa, África, Extremo e Médio Oriente, a Valco dispõe também de uma empresa em França e outra em Angola, a Angolmade, que tem funcionado apenas como armazém de produtos Para Rui Oliveira, 50 anos, administrador do para a construção civil e revenda. Em breve, ini- Grupo Valco, com sede na Caranguejeira, Lei- ciará a produção de portas e outros materiais. ria, a saída do sector passa pelos mercados ex- A procura de novos mercados tem sido tam- ternos, “pelo Magrebe [Marrocos, Sahara Oci- bém a estratégia de José Monteiro, 58 anos, só- dental, Argélia e Tunísia] e países de expressão cio-gerente da Almipe, fábrica de mobiliário da portuguesa, onde há carência de habitação”, uma Marinha Grande, que, apesar das dificuldades, vez que acredita que, a curto prazo, “não have- está confiante no futuro. rá crescimento no País”. Quando começou a sentir uma quebra no O administrador do grupo, que fabrica, co- consumo nacional, entrou no mercado espanhol mercializa, importa e exporta artigos para a in- e, mais tarde, em França, país que hoje repre- dústria da madeira, está convicto que “as em- senta 75% da facturação. presas que tiverem capacidade financeira, or- José Monteiro está ainda a tentar entrar nos ganizativa e recursos humanos capazes de mercados da Bélgica e Marrocos, o último dos acompanhar as transformações actuais do sec- quais considera “mais apetecível por ficar mais tor continuarão a ter viabilidade”. perto” [questões logísticas] e ter um grande po- Exportando “50% do que produz” para a Eu- tencial para fazer um showroom. “Também te>>> DR História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 42 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:48 Página 42 D E R I V A D O S ] RICARDO GRAÇA Mário Santo sente insegurança na Europa e quer explorar outros mercados internacionais nho pessoas interessadas no Senegal e na Gui- Apesar do mobiliário continuar a ser a prin- né”, acrescenta o empresário, que está a anali- cipal área de negócio do Grupo NS, o empresário sar a viabilidade desses negócios. acredita que, até ao final do ano, a hotelaria re- Sete anos após a entrada no mercado da ho- presentará mais de 50% da actividade. telaria, Filipe Neves, 32 anos, administrador do Além de fazer hotéis “chave-na-mão”, Fi- Grupo NS, em Leiria, acredita que esta área de lipe Neves diz que, a nível interno, “toda a gen- negócio vai ganhar cada vez mais importância te quer renovar, nomeadamente no Algarve”, o no futuro. que deixa em aberto novas perspectivas de negócio. Em França, há negócio. Ponto final. Não há mais nada. Em África, há negócio e há amizade Envolvido na construção de oito hotéis no exterior, depois de já ter concluído dois, Filipe Neves está confiante no futuro.“Faço sempre negócios em todos os países onde vou, justifica.” Exportando mais de 90% da sua produção, tendo em França o seu principal mercado, Má- Com uma forte presença no mercado ex- rio Santo, gerente da Geometria do Móvel, em- terno, sobretudo em África, Filipe Neves quer en- presa de Leiria vocacionada para a execução de trar noutros países desse continente, com o qual projectos de arquitectura de interiores e peças gosta especialmente de trabalhar. “Gosto mui- exclusivas de mobiliário, mostra-se “optimista em to do povo africano. Em França, há negócio. Pon- relação ao futuro, mas também realista”. to final. Não há mais nada. Em África, há negócio e há amizade.” Por isso, embora tenha “a capacidade de produção esgotada com a exportação para História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 12:38 Página 43 [ M A D E I R A França”, pretende “diversificar os mercados internacionais, devido à insegurança que se vive na Europa”, diz o empresário. E D E R I VA D O S ] Manuel Pereira conta ampliar as instalações para dar resposta às encomendas “Produzimos mobiliário para todas as áreas, embora nos últimos anos nos tenhamos especializado no sector empresarial”, explica Mário Santo. “Nomeadamente, em espaços comerciais de ourivesarias e marcas de relógios, restaurantes, cabeleireiros de topo e muitas outras marcas também reconhecidas a nível internacional.” O empresário tem a sua imagem de marca também na Suíça, Espanha, Inglaterra, Itália, Bélgica e em muitos outros países. “Temos tido solicitações de várias partes do mundo”, garante. Quando não tem capacidade de resposta, encaminha as encomendas para empresas portuguesas. Não há carpintaria que não exporte para França, apesar de se falar muito na crise e no excesso de oferta série, mas também fazemos mobiliário por meVinte por cento do total das vendas da So- dida, para hotelaria e lojas de móveis e para mapil, empresa de Regueira de Pontes, Leiria, grandes superfícies no mercado nacional”, que comercializa madeira e derivados, destina- conta Firmino Cardeira, que aguarda a conso- se ao mercado externo, percentagem que Ma- lidação da empresa para se poder lançar no nuel Pereira, 57 anos, pretende aumentar no fu- mercado externo.“Para já, não é fácil, porque ex- turo. Muitas vendas são feitas através dos portar também implica custos elevados.” clientes que exportam para França e Angola. “Não há carpintaria que não exporte para França, apesar de se falar muito na crise e no excesso de oferta”, sustenta o empresário, observando que “os portugueses têm a vantagem de praticar preços inferiores aos franceses”. A empresa vende directamente para Fran- Há cinco anos, disse que iam fechar 20% das empresas, mas fecharam mais e vão fechar ainda mais ça, Holanda, Bélgica, Grécia, Angola, Jordânia e outros países, especialmente decks e soalhos, e A falta de matéria-prima é outro factor que trabalha com madeira maciça nacional e inter- poderá dificultar, no futuro, a exportação de pro- nacional e com madeira exótica. Para dar res- dutos portugueses.Vítor Poças adverte que, caso posta ao volume de encomendas, conta ampliar a situação não se altere, terá de se recorrer “à as instalações em 2015. utilização de madeiras alternativas ao pinho, Já Firmino Cardeira, 63 anos, sócio-geren- como o carvalho, o castanheiro e a nogueira”. te da Pisomóvel, encara o futuro como “um dia O aumento da importação é outro cenário que de cada vez”. Há 34 anos no mercado dos mó- coloca em cima da mesa. veis, em Pisões, Pataias, é uma das poucas empresas daquela região que resistiu à crise. “Estamos vocacionados para produzir em António Casalinho, 65 anos, sócio da Madeiras Vale da Catarina, em Leiria, vê o “futuro negro”. “Há cinco anos, disse que iam fechar >>> [ 43 ] LURDES TRINDADE História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 44 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 11:49 Página 44 D E R I V A D O S ] Carlos Fiúza e o pai,Carlos Gomes Fiúza, exportam sempre em parceria com outras empresas RICARDO GRAÇA 20% das empresas, mas fecharam mais”, la- cada vez mais pequenas, Saul Saraiva diz que menta. “E vão fechar ainda mais e, quanto maio- pondera muito bem os investimentos.“O que nos res forem, mais depressa fecham.” faz ter 50 anos no mercado é o trabalho honesto Fabricante de madeiras para construção há e a seriedade.” mais de 40 anos, António Casalinho garante que “O futuro passa por se ser inovador, criati- já perdeu “muitos negócios” no exterior por não vo, trabalhar segundo as regras do mercado e ter matéria-prima. “Talvez haja madeira para cumprir a legislação escrupulosamente.” André uma década. Se importarmos, o valor sobe para Afonso, gerente da empresa Afonso, com sede o dobro. Não vejo solução.” na Bajouca, Leiria, está optimista, mas alerta para “a necessidade de manter as florestas lim- Os empresários devem criar novos produtos, desbravar novos mercados e reaproveitar o que existe na floresta pas e não as deixar ao abandono”. O empresário adverte que não faz sentido continuar a “desperdiçar pinho de qualidade, quando se pode recorrer a outros produtos e madeiras alternativas para o fabrico de pellets”. Confiante que “o pior já passou”, Carlos Fiúza, 36 anos, gestor da Carpintaria Fiúza, em Lei- Já Saul Saraiva, 49 anos, encarregado geral ria, tem tido a capacidade de encontrar soluções da Saraivas - Serração e Carpintaria, na Bata- para se manter no mercado, apesar de ter sen- lha, olha para o futuro com “alguma preocu- tido o impacto da crise na construção civil. pação”, também devido à escassez de pinho. Ma- E se, no passado, fazia sobretudo roupeiros, nifesta-se ainda apreensivo com o facto de não hoje faz cozinhas. “Os nossos clientes deixaram haver grandes obras e de terem perdido mer- de construir prédios e dedicaram-se às remo- cado para os compósitos. delações. Foi o espírito de sobrevivência”, jus- Tendo em conta que, hoje, as margens são tifica Carlos Fiúza. História da Indústria_Madeira:Layout 1 27-10-2014 11:49 Página 45 [ M A D E I R A E D E R I VA D O S ] “Quando chegou a crise à construção, em mazém central. Recentemente criou um cen- 2008, fizemos um estudo para internacionali- tro de distribuição em Leiria e outro em Paços zação, mas chegámos à conclusão que se con- de Ferreira, que juntou aos armazéns em Lis- seguissemos viver com menos, para quê estar a boa e no Algarve. arriscar?”, conta o empresário. “Vamos expor- “Temos a consciência tranquila sobre a tando sempre em parceria. Estamos na segun- forma como no passado acautelámos o fu- da linha.” turo. Respeitamos a crise, mas sentimos for- “Estaremos muito atentos aos sinais do ças e engenho para a enfrentar e chegar com mercado e tudo faremos para sermos rápi- a nau a bom porto, com capacidade para dos a reagir e nos adaptarmos às mudanças”, continuar a navegar”, explica José Faustino. afirma José Faustino, sócio-gerente da em- O empresário reconhece que “os resul- presa de derivados de madeira Balbino & tados mais gratificantes são a solidez da equi- Faustino (B&F), com sede no Facho, em Al- pa durante 34 anos e o facto de a B&F com- cobaça. “Queremos prestar um serviço de ex- prar nos cinco continentes onde tem plafonds celência.” de crédito suficientes para todas as suas ne- A empresa cresceu para a Zona Industrial do Casal da Areia, em Alcobaça, onde tem o ar- cessidades, além de capacidade financeira para suportar sem rombos a actual crise”. RICARDO GRAÇA ESTUDO PARA O SECTOR FLORESTAL EM PORTUGAL QUER REDUZIR IMPORTAÇÕES Alterar o cenário significa“criar condições que atraiam capital para o sector, em particular para a produção, pois o investimento florestal, dadas as suas características de retorno a longo prazo e elevada percepção de risco associado, é pouco atractivo”, sublinha o presidente a AIFF. O estudo prospectivo aponta quatro grandes medidas para a mudança: promover a gestão florestal agru- A Associação para a Competitividade das In- pada, profissional e certificada; desenvolver a in- dústrias da Fileira Florestal (AIFF) pretende con- vestigação e formação; tornar positiva a rentabi- trariar o aumento da importação de matéria- lidade individual da produção florestal (através de -prima nos próximos anos. incentivos ao investimento) e promover a reforma O primeiro estudo prospectivo para o sector estrutural de governação do sector florestal. florestal em Portugal, apresentado no III Con- Mas sugere também a existência de contra- gresso Anual da AIFF, sobre o tema “Indústrias tos programa plurianuais, isenções de IMI, IMT de Base Florestal: acrescentando (o) futuro”, tra- e imposto de selo, incentivos fiscais ao investimento, ça dois cenários para o sector: um de manuten- apoio financeiro público a projectos florestais e ção da situação actual e outro de desenvolvimento agroflorestais, bem como limites às taxas de li- de novas ideias. cenciamento, vigilância policial nos espaços flo- “Se as tendências actuais se mantiverem”, traduzidas “na reduzida oferta de matéria-prima, o cenário será desastroso para a competitividade das empresas”, lê-se no documento. restais e programas de comunicação e educação cívica. Este estudo, que simula um projecto para 30 anos, baseia-se na evolução da produção nacio- Mas, se se romper o ciclo vicioso actual,“será nal das três espécies florestais mais relevantes na possível reduzir significativamente o valor da im- área do abastecimento industrial (eucalipto, pi- portação, contribuindo para a sustentabilidade nheiro bravo e sobreiro) e nas diferenças entre a das empresas do sector e, consequentemente, do procura e a oferta de cada uma delas, dando con- País”, explica João Ferreira do Amaral, presidente ta das“crescentes pressões”em relação ao pinheiro da AIFF, no documento. bravo. [ 45 ] História da Indústria_Madeira:Layout 1 [ 46 ] [ M A D E I R A E 27-10-2014 12:44 Página 46 D E R I V A D O S ] OPINIÃO COMO VÊ O FUTURO DA INDÚSTRIA DA MADEIRA E DERIVADOS? A floresta atravessa A nossa empresa tra- uma crise sem precedentes. balha a madeira, mas re- Do desinvestimento nas vestida com materiais al- arborizações e manutenção ternativos, como o PVC e dos povoamentos; fogos, CPL. A base é sempre a pragas e doenças nas dife- madeira. Temos opções rentes espécies e alterações mais sustentáveis e varia- climáticas; desproporção entre o investimento in- das, com mais opções de escolha para o cliente. dustrial e a produção de matéria-prima. O apa- Produzimos componentes para decoração, desde recimento de novas indústrias, os pellets, acentuou portas, aros, rodapés, pavimentos a roupeiros. A os problemas da economia florestal; monopólios madeira tornou-se um produto de luxo, devido à que não valorizaram a matéria-prima junto do pro- sua escassez, daí a importância das soluções al- dutor, tornando “interessante” o investimento na ternativas. Nunca trabalhamos para grandes arborização; o risco do investimento demasiado obras de construção civil. Optamos pelos traba- elevado afasta potenciais investidores; o Estado lhos pequenos e remodelações, por isso não não assume o seu papel regulador/coordenador. sentimos tanto o peso da crise. O mercado nacional Foram anos de gastos no acessório e sem apro- está a melhorar, mas também exportamos. O fu- veitar os recursos financeiros a cuidar da flores- turo passa pela continuidade do nosso trabalho, ta. Alterar isto implica o esforço de todos. procurando a qualidade e a inovação. Pedro Serra Ramos, presidente da Anefa Jaime Filipe Grosso, Gosimat, Leiria Desde 1986, a nossa O estrangulamento do empresa trabalhou es- sector nos últimos anos sencialmente para a cons- levou ao encerramento trução civil. Chegou a im- de empresas e ao despe- portar madeira para pro- dimento de milhares de duzir pavimentos. Com a trabalhadores. A indústria crise na construção, ape- sofreu com o crescimen- sar de mantermos a mesma actividade, apostá- to desmedido no final do século passado. O co- mos fortemente noutro segmento de negócio, as mércio sofreu com forte abrandamento do con- caixas para a indústria exportadora, como por sumo. A chegada a Portugal de gigantes mun- exemplo os moldes. Damos um maior contribu- diais de distribuição piorou a situação. Muitas lo- to à economia nacional, pois trabalhamos com jas redireccionaram o negócio para projectos in- madeira portuguesa e com destino aos mercados tegrados de decoração, mas a reacção foi tardia. internacionais. Estamos optimistas. Embora haja A criação de marcas, algumas a operar a nível dificuldades, é possível criar com a madeira internacional, atenuou as dificuldades, mas os uma grande variedade de aplicações. Temos de casos de sucesso são poucos para compensar as ser criativos. O problema é a falta de matéria- perdas globais. E os próximos anos não se -prima, mas aí também temos de nos adaptar. anunciam melhores. Emídio Brandão, jorna- Afonso Ferreira, Irmãos Ferreira, Leiria lista, Mobiliário em Notícia Plano Capa_final:Apresentação 1 27-10-2014 10:10 Página 47 Plano Capa_final:Apresentação 1 27-10-2014 10:10 Página 48