Coordonnées du demandeur Organiser
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CONASEMS Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde Revista CONASEMS Novembro - Dezembro - 2009 • Ano VI • Nº 32 ISSN 1679-9259 DIRETORIA EXECUTIVA Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Extraordinária Saúde Indígena /Sul - Kelen Carmo dos Santos Mercosul - Lisete Palma de Lima de Fronteiras - Iolanda Pereira da Silva de Acompanhamento do Pacto - Joseane Mota Bonfim Saúde Bucal - Alzane Adriano Scor Saúde Mental - Maria do Carmo Cabral Carpintero Amazônia Legal - Raimundo Alves Costa Amazônia Legal - Eduardo Novaes Medrado Amazônia Legal - Andreia Fabiana dos Reis Direito Sanitário - Maria Juraci de Andrade Dutra Direito Sanitário - Maria da Conceição de Farias Rego Ciência e Tecnologia - Jorge Otavio Maia Barreto Assistência Farmacêutica - Francisco Isaias Capitais - Marcelo Gouveia Teixeira Regiões Metropolitanas - Marcos Ramos PRESIDENTES DOS COSEMS Presidente - Antônio Carlos Figueiredo Nardi Vice-Presidente - Aparecida Linhares Pimenta Vice-Presidente - Alexandre Jose Mont’alverne Silva Diretor Administrativo - Norberto Fabri Junior Diretor Administrativo – Adjunto - Paulo Faria do Vale Diretor Financeiro - Antônio Carlos de Oliveira Junior Diretor Financeiro – Adjunto - Edmundo Costa Gomes Diretor de Comunicação Social - Celso Luiz Dellagiustina Diretor de Comunicação Social – Adjunto - Afonso Emerick Dutra Diretor de Descentralização E Regionalização - Gustavo Couto Diretor de Descentralização E Regionalização – Adjunto - Roseane Maria Barbosa Meira Diretor de Relações Institucionais E Parlamentares - Jader Teixeira Gardeline Diretor de Relações Institucionais E Parlamentares – Adjunto - Maria Adriana Moreira 1º Vice-Presidente Regional - Região Norte - Nilton Vale Cavalcante 2º Vice-Presidente Regional - Região Norte - José da Silva Monteiro 1º Vice-Presidente Regional - Região Nordeste - Suzana Cristina Silva Ribeiro 2º Vice-Presidente Regional - Região Nordeste - Murilo de Andrade 1º Vice-Presidente Regional - Região Centro Oeste - Elizeth Lucia de Araujo 2º Vice-Presidente Regional - Região Centro Oeste - Lucélia Borges de Abreu Ferreira 1º Vice-Presidente Regional - Região Sudeste - Mauro Guimarães Junqueira 2º Vice-Presidente Regional - Região Sudeste - Luis Carlos Reblin 1º Vice-Presidente Regional - Região Sul - Valdemar Fonseca 2º Vice-Presidente Regional - Região Sul - Fabia Richter Antunes Conselho Fiscal - 1º Membro - Romina Alves de Brito Conselho Fiscal - 1º Membro / Suplente - Joseilson Camarra Silva Conselho Fiscal - 2º Membro - Maria do Horto Conselho Fiscal - 2º Membro / Suplente - Irineu Passold Conselho Fiscal - 3º Membro - Raul Moreira Molina Barrios Conselho Fiscal - 3º Membro / Suplente - Francisca Ederlinda Dias Conselho Fiscal - 4º Membro - Sueli das Graças Alves Pinto Conselho Fiscal - 4º Membro / Suplente - Fabio Luis Alves Conselho Fiscal - 5º Membro - Frederico Marcondes Neto Conselho Fiscal - 5º Membro / Suplente - Danuza Carneiro Colares Ciago SECRETARIAS EXTRAORDINÁRIAS Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Gomes Trigueiro Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Extraordinária Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria Secretaria - Atenção à Saúde/Norte - Claudiane Barreto Lamarão - Atenção à Saúde/Nordeste - Atenção à Saúde/Centro Oeste - Gercilene Ferreira - Atenção à Saúde/Sudeste - Rubens Moulin Tannure - Atenção á Saúde/Sul - Marina Ricardo Martins Descentralização Regional e Regulação/Norte - Solivan Antonio de Oliveira Descentralização Regional e Regulação/Nordeste - Porcina dos Remedios Descentralização Regional e Regulação/C. Oeste - Fatima Melin Mendes Descentralização Regional e Regulação/Sudeste - Ademar Arthur Chioro dos Reis Descentralização Regional e Regulação/Sul - Carocina Santana Financiamento/Norte - Isabel Maria de Lima Velasco Financiamento/Nordeste - Josefa Petrucia Melo Morais Financiamento/Centro Oeste - Zulene Ferreira Diniz Ferraz Financiamento/Sudeste - Gilson Urbano de Araujo Financiamento/Sul - Jeronimo Paludo Gestão Trabalho e Educação/Norte - Juliana Conceição Dias Garcez Gestão Trabalho e Educação/Nordeste - Solane Maria Costa Gestão Trabalho e Educação/Centro Oeste - Ludmila de Queiroz Cozac Machado Gestão Trabalho e Educação/Sudeste - Gisele Vittal Gobbi da Gama Cruz Gestão Trabalho e Educação/Sul - Margarete Debertolis Promoção Vigilância em Saúde/Norte - Jani Kenta Iwata Promoção Vigilância em Saúde/Nordeste - Maria Nelman de Azevedo Promoção Vigilância em Saúde/Sudeste - Maria Celia Vasconcellos Promoção Vigilância em Saúde/Sul - Roberto Ruiz Promoção Vigilância em Saúde/Centro Oeste - Maria Rosaria Muller Participação e Contr. Social/Norte - Ronaldo Jose Alves dos Reis Participação e Contr. Social/Nordeste - Willames Freire Bezerra Participação e Contr. Social/Centro Oeste - Marceli Regina Santos Torres Participação e Contr. Social/Sudeste - Conceição Aparecida Pereira Rezende Participação e Contr. Social/Sul - Tarcisio Crocone Planejamento e Programação/Norte - Robson Rodrigues Mangueira Planejamento e Programação/Nordeste - Firmino Filho Planejamento e Programação/C. Oeste - Maria Claudia Gelio M. Martins Batista Planejamento e Programação/Sudeste - Eunice Caldas Dantas Planejamento e Programação/Sul - Haroldo Ferreira Município Pequeno Porte/Norte - Percio Luis Favacho Inajosa Município Pequeno Porte/Nordeste - Pedro Herman Madeiro Município Pequeno Porte/C. Oeste - Jader Luiz Borges Correia Município Pequeno Porte/Sudeste - Andrea Passmani B. Corteletti Município Pequeno Porte/Sul - Paulo Borges Município Médio Porte/Norte - Sara Silva Medeiros Município Médio Porte/Nordeste - Maria Cristina Sette de Lima Município Médio Porte/C. Oeste - Elenir T. da Silva Neves de Carvalho Município Médio Porte/Sudeste - Odilio Rodrigues Filho Município Médio Porte/Sul Saúde Indígena/Norte - Francisco Euzir da Costa Saúde Indígena /Nordeste - Lindinalva Dantas dos Santos Saúde Indígena /Centro Oeste - Nelson José Fernandes Saúde Indígena /Sudeste - Juliana Soneghet Louzada COSEMS - AC - Tels: (68) 3244 1470 /(68)99742452 Leila Maria da Silva Lopes COSEMS – AL - Tels: (82) 3336 7304 Pedro Hermann Madeiro COSEMS - AM - Tels: (092) 3643-6338 / 4663 / 6300 Maria Adriana Moreira COSEMS - AP - Tels: (96) 3271 1390 José Monteiro COSEMS - BA - Tels: (071) 3371-8703 / 3115 5946 Suzana Cristina Silva Ribeiro COSEMS - CE - Tels: (85) 3101 5444 / 3219 9099 José Policarpo Barbosa COSEMS - ES - Tels: (27) 3185 5853 Luis Carlos Reblin COSEMS - GO - Tels: (62) 3201 3412 Husam Kamal Sammar COSEMS - MA - Tels: (98) 3232 7057 Iolete Soares de Arruda COSEMS - MG - Tels: (31) 3287 3220 / 5815 Mauro Guimarães Junqueira COSEMS - MS - Tels: (067) 3383 4069 / 3312 1108 Norberto Fabri Júnior COSEMS - MT - Tels: (65) 3644 2406 / 2123 1238 Mário Lemos de Almeida COSEMS - PA - Tels: (091) 3223 0271 / 3224 2333 Jader Gardeline COSEMS - PB - Tels: (083) 3218 7366 Porcina dos Remédios G. Trigueiro COSEMS - PE - Tels: (081) 3221 5162 / 3181 6256 Maria Cristina Sette de Lima COSEMS - PI - Tels: (086) 3211 0511 Luimar de Jesus Santos COSEMS - PR - Tels: (044) 3218 3150 Marina Sidinéia Ricardo Martins COSEMS - RJ - Tels.: (021) 2240-3763 Antonio Carlos de Oliveira Júnior COSEMS - RN - Tels: (84) 3222 8996 Solane Maria Costa COSEMS - RO - Tels: (69) 3342 2316 / 3216 5371 Afonso Emerick COSEMS - RR - Tels: (95) 3623 0817 Robson Rodrigues Mangueira COSEMS - RS - Tels: (051) 3231-3833 Arilson Cardoso dos Santos COSEMS - SC - Tels: (048) 3221 2385 / 3224-0267 Celso Luiz Dellagiustina COSEMS - SE - Tels: (79) 3214 6277 / 3346 1960 Murilo Andrade COSEMS - SP - Tels: (011) 3066-8259 / 8146 Maria do Carmo Carpintero COSEMS - TO - Tels: (63) 3218 1782 Eduardo Novaes Medrado CONSELHO HONORÁRIO Raimundo Bezerra (em memória), Paulo Dantas, José Eri Medeiros, Armando Martinho Bardou Raggio, Gilson Cantarino O´Dwyer, Edmundo Gallo, Gilberto Tanos Natalini, Neilton Araújo de Oliveira, Silvio Mendes de Oliveira Filho, Luiz Odorico Monteiro de Andrade, Silvio Fernandes da Silva, Edmundo Costa Gomes e Helvécio Miranda Magalhães Junior. Distribuição: Ministério, Secretarias Estaduais, Secretarias Municipais, Prefeituras, Universidades, Instituições Nacionais e Internacionais, Diretores e Administradores de Entidades Públicas e Privadas ligadas à saúde. Esplanada dos Ministérios - Ministério da Saúde Bloco “G, Edifício Anexo, “Ala “B”, sala 144 - Cep: 70.058-900 - Brasília-DF Tel: (61) 3223-0155 Homepage: www.conasems.org.br Email: [email protected] PRODUÇÃO Projeto Gráfico Id arteseventos Edição geral Giovana de Paula Criação e Direção de arte Helma Kátia Revisão Elizabete Matheus Reportagens free lancer Sheila Messercshmidt Edma Cristina Alencar Aline Fonseca André Assis Fotos Valdenir Rezende Suki Ozaki Karina Zambrana Suely Sobral Acervo SMS/Mundo Novo-MS Divulgação Cemepar Diagramação Felix Junior Jadson Alves Ilustrações Felix Junior Jadson Alves Wilson Neto Impressão: Athalaia Gráfica Tiragem: 25.000 exemplares Miolo: Papel Ripasa Kromma Gloss 90 g/m2 Editorial Existe um consenso entre os defensores da saúde pública de que a Estratégia de Saúde da Família é a base propulsora das linhas de cuidado do Sistema Único de Saúde (SUS). Com tamanha responsabilidade, essa estratégia ainda busca superar inúmeros desafios, que vão além da sua necessidade clara de expansão no território nacional. Um desses desafios fundamentais é a valorização da medicina de família e comunidade. Muitos municípios brasileiros, sobretudo os mais afastados dos grandes centros urbanos, tem dificuldade de fixar médicos de família, o que compromete a qualidade do serviço de saúde. A rotatividade desses profissionais também tem se mostrado elevada, dificultando a continuidade do atendimento às famílias que necessitam do SUS. Muitos são os desafios e diferentes soluções vem sendo evidenciadas. Sabe-se, por exemplo, que valorizar o médico de família não significa apenas garantir bons salários, mas sensibilizar os futuros profissionais para o papel social da função, envolvendo as universidades nesse processo. A reportagem especial dessa edição trata justamente desse assunto, mostrando o sentimento dos profissionais e as iniciativas do poder público. A revista CONASEMS também traz nesse número uma matéria especial sobre a força tarefa nacional para evitar no próximo ano mais uma epidemia de dengue. Apesar dos indicadores revelarem uma queda significativa da doença em quase todos os estados brasileiros, nem por isso as autoridades estão de braços cruzados. O trabalho é permanente. Nessa edição, a entrevista especial revela a experiência e o entusiasmo da nova presidente do CONASS (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), Beatriz Dobashi. Ela fala da sua trajetória profissional, dos planos de trabalho à frente do conselho e faz reflexões sobre o SUS. Confira ainda os artigos, outras reportagens e muito mais. Desejamos a todos boas festas e um ano novo com muitas conquistas. Editorial Editorial Curtas Entrevista Beatriz Dobashi Teses Núcleos do CONASEMS Artigo Tecnologias em saúde Hipertexto Construindo o SUS Dengue Especial Medicina de família e comunidade Desenvolvimento CEMEPAR Artigo Parcerias na saúde Recortes do Brasil Mato Grosso do Sul Perfil Claunara Schilling Artigo Fixação de profissionais Mensagem de Natal Memória Índice ccurtas urtas HOMENAGEM O Ministério da Saúde homenageou, no início de novembro, o CONASEMS e o CONASS com a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz. A Medalha é concedida em reconhecimento à atuação de pessoas e instituições que contribuíram para a consolidação da epidemiologia e das ações de prevenção e controle de doenças no Brasil. Ilustração: Wilson Neto SEMINÁRIO NACIONAL DE REGULAÇÃO O Ministério da Saúde, o CONASS e o CONASEMS organizaram, nos dias 23 e 24 de novembro, o Seminário Nacional de Regulação. Esse Seminário é o primeiro de uma série de seis encontros com recortes regionais que serão realizados em 2010 e visa qualificar a gestão da atenção em saúde nas áreas de regulação, controle e avaliação de sistemas e serviços. O objetivo é também colher elementos norteadores para elaborar estratégias de ação e cooperação entre todos os entes envolvidos. PROESF O Ministério da Saúde divulgou em novembro a relação dos municípios candidatos a participar da fase 2 do Programa Estratégia Saúde da Família (PROESF). A lista completa pode ser conferida no portal do CONASEMS (www.conasems.org.br). Quem não tem pendências a sanar deve encaminhar logo o projeto, já os municípios que ainda têm exigências a cumprir necessitam agilizar seu cadastro. O prazo para o Ministério empenhar recursos termina dia 17 de dezembro. Curtas Fotos: Valdenir Rezende Por Giovana de Paula A médica sanitarista Beatriz Dobashi, primeira mulher a assumir a presidência do CONASS, traz desde a universidade o desejo de contribuir com a saúde coletiva. Durante a sua longa trajetória profissional, ela tem se dedicado integralmente à gestão pública, tendo assumido diferentes funções nas esferas municipais, estaduais e federal. Reconhecida pela sua capacidade administrativa e pelo rigor ético no gerenciamento do patrimônio público, Beatriz pretende priorizar na sua gestão à frente do CONASS a retomada do papel político da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), que foi sendo esvaziado pelas discussões técnicas. Nessa entrevista ela passeia pelos principais temas em discussão no Sistema Único de Saúde (SUS), com um olhar maduro mas ao mesmo tempo apaixonado. Entrevista Revista CONASEMS – Como você se sente sendo a primeira mulher na presidência do CONASS? RC – Qual a sua trajetória profissional na saúde pública? Beatriz Dobashi – Falaram muito nisso na mídia, durante a posse, mas acho ruim a gente ter que festejar, porque se não houvesse discriminação seria normal. Infelizmente ainda é um acontecimento, dos 27 estados brasileiros somente três tem secretárias de saúde: Goiás, Pará e Mato Grosso do Sul. Não é que o CONASS discrimine as mulheres, é que as mulheres são minoria na entidade, então a chance de serem eleitas é sempre menor. Recebi vários e-mails e dentre eles tinha um do Gilson Cantarino, que eu gosto muito, que me tocou. Ele disse que não era importante ser a primeira mulher, mas ser a Beatriz Dobashi. Falou da minha forma de pactuar, de dialogar, de criar consenso, que é uma característica importante para o CONASS. É difícil reunir 27 pessoas, com um cargo executivo alto, e fazer uma assembléia para chegar a um denominador comum. Eu acho mais complicado do que no CONASEMS, porque os municípios são de tamanhos diferentes mas a forma de atuação é parecida, enquanto no estado não. Tem estado como o BD – Eu me formei em medicina na federal do Mato Grosso do Sul em 1975. Meu interesse pela saúde pública dentro da escola se deve a um sanitarista importante, um dos principais sanitaristas aqui do estado, já falecido, que transformou a cadeira da saúde pública em uma matéria transversal que perpassava a faculdade inteira. Isso era uma inovação enorme! Aprendi com ele todas essas questões que estão colocadas hoje na saúde da família – visitas domiciliares, trabalho com grupo de gestantes, de hipertensos, de idosos, indicadores de saúde, notificações e curvas de controle. Logo que me formei comecei trabalhando como médica de família, que ainda não tinha esse nome, em uma unidade básica de saúde em Campo Grande. Era um centro de saúde tão pequeno e embora eu fosse a única médica conseguia fazer o trabalho porque vinha dessa escola. Quatro anos depois de formada, o estado foi dividido e fui convidada para trabalhar na secretaria do estado montando toda a estrutura estadual da saúde, que Rio de Janeiro em que o gestor é secretário de saúde e defesa civil. Mas estou muito contente por ter sido eleita por unanimidade, pela confiança das pessoas no meu trabalho. A minha principal bandeira é resgatar o espaço tripartite de pactuação, que eu acho muito esvaziado. Ao longo do tempo nos acostumamos a fazer uma plenária do CONASEMS e uma assembléia do CONASS para tirar as posições dos gestores e depois levar para o fórum tripartite, que é a CIT. A CIT tinha que ser um espaço de discussão política, mas a pauta foi sendo esvaziada, começaram a levar questões operacionais, que podem ser discutidas nos grupos de trabalho com os técnicos, não precisa ser uma discussão de gestores. Os secretários devem discutir questões políticas, fatores que estão impedindo que essas políticas sejam colocadas em prática, questões fundamentais como financiamento e diversidade regional. Estou levantando uma bandeira de resgate do pacto, porque celebramos um pacto no sentido de qualificar a gestão. começou como uma fundação e depois passou a ser secretaria. Fiquei dez anos no estado trabalhando em todas as áreas, passei pela epidemiologia, pelo planejamento, fui secretária substituta, secretária interina, até que saiu um concurso para o Ministério da Saúde. Passei como médica no concurso para a Fundação CESP, que depois foi transformada em Funasa, em 1991. Voltei emprestada para o estado para trabalhar com projetos grandes de saneamento rural até 1998, quando o prefeito me convidou para trabalhar no município. Fui secretária municipal de saúde de 1998 a 2004, trabalhei como coordenadora técnica do CONASEMS de 2005 a 2006 e voltei para o estado para assumir a função de gestora estadual. É uma trajetória na saúde pública, nunca fiz outra coisa. Entrevista RC – O que na sua opinião cabe a cada um dos entes federados – União, estados e municípios – na gestão do Sistema Único de Saúde? BD – A partir da Constituição de 88 os sistemas municipais passaram a se organizar, pois até então existiam poucos municípios com rede própria, com uma gestão estabelecida. Nosso próprio movimento foi em busca da municipalização, por conta desse conceito de que a decisão está mais perto do munícipe. Os estados tiveram então uma crise de identidade: se a municipalização é o caminho, se o Ministério faz as normas e dá o dinheiro, qual é o papel do estado? O Pacto pela Saúde vem resgatar isso, porque nasceu do nosso sentimento de que tínhamos nos envolvido muito com as normas, o furor normativo do SUS, e esquecemos o cerne da reforma sanitária que é a responsabilidade solidária entre as três esferas de governo. Quando a Constituição disse que a saúde é direito do cidadão e dever do estado, sem definir que esfera do estado, o movimento sanitarista esperava que essa partilha fosse trabalhada desde o início, mas nós não fizemos isso. A partir de 2003 tivemos que resgatar o dever do estado, nos perguntar como pactuar se somos uma unidade federativa onde a União, os estados e os municípios tem autonomia. Esse é o principal segredo BD – Acho que uma grande lacuna hoje, decorridos três anos do Pacto, é a avaliação. Não aquele monitoramento que vem sendo feito dos indicadores, mas a avaliação política do Pacto. Que tipo de avanços tivemos, como isto está se dando nos estados como um todo? Na CIT de outubro pedimos ao Ministério que aprofundasse a discussão da avaliação política do Pacto. Ficou combinada uma CIT extraordinária em janeiro e daqui até lá o CONASS, o CONASEMS e o próprio Ministério discutirão internamente essa avaliação, recolhendo dados e depoimentos, porque não podemos deixar que seja mais uma norma esquecida. Temos 27 estados aderidos, nem todos os municípios, mas precisamos saber qual foi o alcance do Pacto. Precisamos saber se o estado está colocando dinheiro novo, se está fazendo a discussão para qualificar os colegiados de gestão regionais, que são novidades importantes do Pacto, se está pensando nas redes, nas linhas de cuidado, na regulação. Precisa ter relatos, ter troca de experiências para saber se isso está realmente acontecendo. do SUS. Embora a decisão esteja no município, e achamos que a municipalização é o caminho, o estado tem que assumir a responsabilidade juntamente com o município, tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista técnico. A União enxerga o Brasil como um todo e os estados enxergam o seu território. O estado não fragiliza a municipalização, ele a fortalece, porque quando as questões vão para além do território do município é importante que tenha um outro ente que enxergue isso sem tirar a autonomia dos municípios. Quando o estado assume esse processo de pactuação, ele qualifica as regiões, ajuda no financiamento das ações especializadas. Eu acho que esse é o grande encanto do Pacto pela Saúde: resgatar a responsabilidade solidária entre União, estados e municípios. RC – Qual a sua posição sobre o financiamento da saúde? RC – Como está o processo de efetivação do Pacto na prática? BD – Não resta nenhuma dúvida de que a saúde necessita de mais recursos. Quando comparamos com outros países que não tem a universalidade e, no entanto, investem mais, chegamos à conclusão de que precisamos de mais recursos. Não dá para fazer festa para tantos convidados e reduzir a comida. Como você cria um sistema universal e faz um caminho inverso de redução do estado, de escassez de recurso? O governo federal, na minha opinião, se afastou um pouco da luta pela regulamentação quando estabeleceu que só pode cumprir a emenda se tiver um novo imposto. Isso criou um impasse para a regulamentação, que é muito importante porque vai trazer recursos novos de todas as esferas, sobretudo da União. Dentro do CONASS defendemos a luta pela aprovação da emenda com ou sem a CSS (Contribuição Social sobre a Saúde). Não sei se essa decisão tem algum resultado Entrevista porque, se o governo federal fala que não consegue cumprir sem ter a CSS, e o Congresso aprova sem ela, será que a União vai cumprir? Não é uma aprovação inócua? Tem também uma questão muito mais de ideologia que precisamos pensar melhor. Por que não estamos conseguindo sensibilizar o congresso e a sociedade como um todo de que é preciso mais recurso para a saúde? Nosso discurso não tem mais eco, não encontramos mais os deputados e senadores sensibilizados com a falta de dinheiro na saúde, não encontramos a população sensibilizada com isso, nem os conselhos, as centrais sindicais. Você tem o congresso muito mais sensibilizado pelo clamor da sociedade contra os impostos do que pela falta de recursos. Se você pensar bem estamos falando de um imposto baixinho, democrático, que pega todo mundo que tem conta bancária e no entanto nada disso sensibiliza o congresso. Vivemos em um país de altíssima taxa tributária e quando falamos de um novo imposto, em que pese o seu mérito, as pessoas não querem mais saber. Talvez a gente precise pensar como está o nosso projeto do SUS, vinte anos depois. Perdemos a batalha para os meios de comunicação, eles não são capazes de ter uma agenda positiva da saúde. O orçamento de 2010 tem um buraco de R$ 8 bilhões, principalmente na alta e média complexidade, que custa caro, e não sabemos se vamos ganhar essa luta. RC – O problema da assistência, principalmente na área especializada, se resolve em parte pelo financiamento. Por outro lado, o que falta ainda é uma inversão maior do modelo? BD – São vários fatores. Na verdade já pensamos no modelo que organiza em linhas de cuidado a partir da atenção básica, que garante o acesso à atenção especializada, que faz a humanização dos serviços, que promove a qualidade de vida, que busca a intersetorialidade como um passo para a integralidade da atenção. Temos esse discurso, mas em muitos lugares ele está longe da prática. A gente fala da saúde da família como a propulsora, a base das linhas de cuidado, mas qual estratégia? Temos muitas experiên- Entrevista cias bem sucedidas, mas muitas não. Em vários lugares ainda temos médicos que não ficam tempo integral, que não se articulam com a equipe, e por sua vez as equipes não tem vínculo com o usuário para ir além da consulta, do curativo, do remédio e da vacina. Como fazemos promoção da qualidade de vida se na saúde o médico faz 16 consultas, o enfermeiro 16 curativos, o agente comunitário faz as visitas e tudo isso está fragmentado? Não temos uma equipe que se sinta responsável pela qualidade de vida de determinadas famílias, saiba onde elas moram, porque estão adoecendo. Nossa cobertura da saúde da família aumenta, mas a qualidade não acompanha. Não estamos mais no momento de discutir modelo, estamos no momento de discutir como o modelo pode funcionar na prática. Temos 5.565 municípios com realidades diferentes, enquanto uns caminharam muito, outros não caminharam nada. São 27 estados, enquanto uns fortalecem a atenção básica com dinheiro, com apoio técnico, com discussão, outros não. RC – Os problemas da atenção básica estão muito relacionados também à formação dos profissionais de saúde? BD – Claro. Muitos especialistas reivindicam um emprego no SUS, mas como o sistema não consegue absorver todos como especialistas, eles vão trabalhar na atenção básica com a visão da especialidade. Esse movimento que o MEC está fazendo junto com o Ministério da Saúde de influenciar nas residências, de co-financiar as bolsas das residências, de interiorizar e de fazer residências nas especialidades que a gente necessita, é importante. Mas também é importante a modificação dos currículos, que não andou muito dentro das faculdades. A interdisciplinaridade, por exemplo, é um assunto controverso nas faculdades. Não basta simplesmente dizer que se comunica com a enfermagem, a medicina, a engenharia florestal, é preciso haver interdisciplinaridade de currículos mesmo, de abordar assuntos que são comuns de maneira comum. A gente quer um profissional que se comprometa com a mudança da prática sanitária e não que vá só fazer consulta. RC – Voltando ao financiamento, por que os estados são os que menos cumprem a Emenda Constitucional 29? BD – Proporcionalmente temos essa situação hoje: pelo último dado que tenho cerca de 35% ou 40% dos municípios não cumprem; dentre os estados esse número sobe para cerca de 50%. É claro que o descumprimento por parte do estado em montante passa a ser mais importante porque repercute em uma série de municípios. Tem governadores que são contrários, mas acho que essa situação mudou um pouco. Vejo hoje bastantes iniciativas do estado investindo, por exemplo, na atenção básica, no co-financiamento do sistema de urgência e emergência, do SAMU, da UPA. Acho que o estado acabou trilhando caminhos que o levaram obrigatoriamente a aumentar a alocação de recursos, mas ainda temos lugares - que eu saiba Maranhão, Rio Grande do Sul - com aplicação baixa. É um salto importante para os governos sair de um patamar muito baixo para chegar ao que determina a Emenda. Os municípios foram gradativamente, com esse processo da municipalização, se adequando e tendo que assumir mais responsabilidades, por isso muitos aplicam mais de 15%. Hoje temos menos estados que não cumprem, mas de qualquer forma a regulamentação resolveria essa resistência dos governadores, até pela possibilidade de cumprir gradativamente, porque se a Emenda fosse aprovada agora eles teriam os próximos quatro anos para chegar lá. em todas as suas secretarias, mas isso não tem nenhuma repercussão nos estados restantes, pelo menos eu não conheço. A fundação estatal de direito privado é uma unidade que faz contrato de gestão seja com o município, o estado ou a União, estabelecendo uma orçamentação para conseguir determinadas metas. Fazemos isso muito desarticuladamente na administração direta. É claro que ela tem questões mais flexíveis que a administração direta, como o regime CLT, cujo relacionamento com o servidor é muito mais fácil do que no regime estatutário. Hoje temos uma dificuldade enorme de contratar médico de especialidade e a fundação facilitaria esta contratação. É uma fundação pública, mas é SUS, não estamos privatizando nada, estamos só mudando a esfera de gestão. RC – Como o CONASS tem trabalhado pelo cumprimento da Emenda, sensibilizando os governadores? BD – Acho que o CONASS tem feito isso. O Osmar Terra, que ficou duas gestões no CONASS, assumiu como bandeira a regulamentação da Emenda. Ele fez um trabalho forte dentro do congresso e, no entanto, o estado dele é um dos que menos cumpre. Isso foi um exemplo para nós, porque com a regulamentação o governador tem que cumprir. O CONASS assumiu a bandeira a favor da regulamentação e a favor da Contribuição Social sobre a Saúde. Cada secretário com o seu governador também tem feito um trabalho de sensibilização. Não acredito que os governadores sejam empecilho, posso estar sendo ingênua mas não vejo isso dentro do CONASS. RC – Qual a sua posição sobre as fundações estatais? BD – Sou completamente a favor. Elas são formas de gestão de unidades públicas que dão mais transparência à gestão, porque trabalham com contrato de gestão. Isso é muito importante. A administração pública direta não tem essa prática da transparência, de metas a alcançar, como existe no setor privado. Temos a experiência brilhante do governo de Minas, que tem feito contrato de gestão RC – Como você vê o problema da judicialização? BD – No meu estado estamos fazendo um trabalho de formiguinha que talvez agora esteja dando os primeiros frutos. Em 2004 fizemos um primeiro evento juntando todos os juízes, defensores, promotores, procuradores e gestores para discutir questões como direito coletivo e direito individual. A universalidade não pode ser entendida como uma regra por si só, é preciso um mínimo de protocolo para usar bem o dinheiro público. De lá para cá tem acontecido vários eventos. Em 2009, pela primeira vez começamos a ter pedidos negados com uma argumentação baseada nos nossos próprios argumentos. Então a gente acha que a semente foi plantada. O SUS é direito de todos, mas é uma rede, tem linhas de cuidado, linhas de atenção. Por que a pessoa se recusa a estar nessa rede e quer só um medicamento? Não somos banco, nem farmácia, Entrevista somos um sistema de saúde. Nossos pacientes tem que estar nas nossas unidades, participando das ações multisetoriais e recebendo os medicamentos que protocolamos, não com base no custo, mas com base em consensos da sociedade científica que indicam que determinado medicamento serve para tal patologia. Aquelas ações que cobram o papel do gestor tem que existir, mesmo porque a justiça está aí para defender o direito do cidadão. Agora, defender que o paciente possa ter acesso a protocolos que não são do SUS, muitas vezes medicamentos que não tem registro, não tem eficácia comprovada, não tem nenhuma evidência clínica, científica, é muito ruim porque desarranja o sistema. Por outro lado a gente precisa que os protocolos sejam atualizados porque a ciência avança. O combate à judicialização é muito mais interno do que convencer o juiz de que ele não pode dar uma liminar para aquela pessoa que está correndo risco de vida. Precisamos dentro do SUS convencer os profissionais a prescreverem de acordo com o protocolo ou apontarem para nós o erro do protocolo e não simplesmente prescrever uma coisa que não temos. Na saúde não existe nada que tenha uma única causa, por isso temos que trabalhar em diversas frentes: colocar nossas razões para o judiciário, trabalhar internamente para que todos usem o protocolo e sermos ágeis suficientes para ter protocolos atualizados, com incorporações que sejam necessárias. RC – Como você avalia hoje a política do Ministério da Saúde para o SUS? BD – Não dá para fazer uma análise isolada, acho que o Ministério tem iniciativas e posturas muito positivas. Houve uma evolução grande depois da reforma constitucional, quando o Ministério da Saúde assumiu funções específicas que antes eram do Ministério da Previdência. Ele vem evoluindo, superou essa discussão pura e simples das normas quando sentou para discutir o Pacto pela Saúde conosco. Mas o Ministério da Saúde também é multifacetado, fragmentado, como as nossas secretarias, e isso atrasa um pouco a discussão política, a pactuação. Uma questão muito presente na pauta do CONASS e CONASEMS hoje é o fato de estarem sendo publicadas muitas portarias que não foram pactuadas, enquanto outras, que nós já pactuamos, não foram publicadas. Isso é uma quebra do pacto, é um grande problema que o CONASS e o CONASEMS querem discutir com o Ministério, porque pode pôr a perder toda a discussão que tivemos a partir do Pacto pela Saúde. Essa prática tem que terminar, ela já estava abandonada e começou a aparecer agora com muita freqüência. Estamos pedindo uma pauta com o ministro no sentido de discutir essa questão porque muitas vezes a iniciativa é da área técnica, não passa por uma coordenação política do Ministério. Entrevista RC – O que você pretende priorizar no CONASS e como deve se estabelecer a parceria com o CONASEMS na sua gestão? BD – Institucionalmente o CONASS e o CONASEMS tem conseguido colocar na mesa as suas diferenças e trabalhar com elas muito mais do que com o Ministério da Saúde. Muitas vezes a discussão não se dá com a figura política do ministro, dos secretários ou da secretária executiva, mas se dá muito num nível técnico. Por isso a gente fala em resgatar a tripartite, porque ela é um fórum de discussão entre as três bancadas – CONASS, CONASEMS e Ministério da Saúde. O que tem acontecido é que como os secretários não vão à CIT, a bancada do ministério não é política e então ficamos discutindo com os inúmeros técnicos. Em relação às prioridades, estabeleci a bandeira de resgatar a CIT porque para mim ela é a base de todas as outras questões. No CONASS temos ainda onze prioridades para o período 2009-2010. É claro que eu fiz parte desse processo de seleção dessas prioridades e não vai ser assumindo a presidência que vou esquecê-las. Elas continuam na nossa pauta e dizem respeito exatamente às questões mais contundentes do Pacto. São elas: sustentabilidade da atenção primária; implementação do Pacto; redução das desigualdades regionais; solução para recursos humanos num nível tripartite; resposta do estado para o problema dos medicamentos de dispensação excepcional; aprovação da Emenda 29; o projeto para a Amazônia Legal; a violência, principalmente na primeira infância; o fortalecimento da CIT; e essas alternativas de gerência das unidades públicas como as fundações. RC – Para finalizar o que existe no SUS que mais entusiasma você? BD – Meu pensamento mais simplista quando saí da faculdade era que para mim não teria valor nenhum ficar no consultório e resolver um problema específico daquela época, daquela pessoa. Eu me sentiria muito mais gratificada cada vez que conseguisse resolver o problema de um grupo, de coisas que ficassem para a coletividade, que representassem uma construção coletiva, um benefício para todo mundo. Isso na época da juventude, com 22 anos, quando saí da faculdade. Mas essa idéia da saúde como um direito de cidadania continua sendo para mim a coisa mais fantástica, essa universalidade que inclusive atrai os outros países. É muito triste alguém ter um problema de saúde e não poder fazer nada quanto a isso. Outra coisa que me fascina é a intersetorialidade da saúde e por isso acho que não tenho outro lugar para trabalhar que não seja na saúde pública. Ilustração: Jadson Alves Núcleos do CONASEMS qualificam atuação da entidade As decisões políticas do CONASEMS são subsidiadas pelo trabalho técnico da entidade em diversas áreas estratégicas para o SUS. A reportagem de Edma Cristina de Góis mostra o que os núcleos de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde e de Promoção e Vigilância vêm priorizando. Teses Durante o XXI Congresso Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, ocorrido em 2005 em Cuiabá, foram criados alguns eixos estratégicos para nortear a atuação do CONASEMS. Esses eixos tem tratado de questões complexas e muitas vezes polêmicas, contribuindo com a política de valorização do Sistema Único de Saúde. Na época foram criados dez núcleos temáticos para o aprofundamento de temas de saúde, visando subsidiar a tomada de decisões. Nesta reportagem vamos conhecer um pouco mais do trabalho realizado pelo Núcleo de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde e pelo Núcleo de Promoção e Vigilância do CONASEMS. Núcleo de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde Estudos e pesquisas demonstram que os municípios brasileiros são hoje os grandes contratadores da força de trabalho em saúde no país. De acordo com os dados da AMS/IBGE, de 2005, 68,8% dos empregos públicos em saúde são de responsabilidade dos municípios, 7,3% da União e 23,9% dos estados. É diante desta realidade que está um dos grandes desafios do Núcleo de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde do CONASEMS, mas não o único. A lista de desafios é ampla e insere o Núcleo, hoje com 23 integrantes, entre secretários, colaboradores e assessores, em vários conselhos e comissões do Sistema Único de Saúde (SUS). Em relação à contratação de profissionais de saúde, o CONASEMS entende que é necessário definir uma estratégia de ação solidária e cooperativa entre as esferas de governo. “Os municípios atendem a muitas responsabilidades, mas o orçamento não acompanhou esse processo”, justifica a coordenadora técnica do Núcleo, Elizabete Matheus. De acordo com ela, esse é um passo fundamental para garantir a autonomia de gestão do município, sem perder de vista as diretrizes nacionais pactuadas no âmbito do SUS. Na prática, os municípios não recebem os recursos com total liberdade de gerenciamento. Os valores são repassados quando a gestão local adere a um determinado programa, tornando o processo engessado e distante da realidade da região. Sem contar que ainda provoca intensa pressão nos municípios e dificuldades concretas na gestão municipal. O núcleo discute questões como essas diariamente, por meio da articulação com os secretários extraordinários nas regiões e com a coordenação política. “A agilidade da discussão virtual, no cotidiano, ajuda a definir ações para realidades diferentes do país. Além disso, fazemos encontros presenciais com membros dos núcleos”, acrescenta a coordenadora técnica. Um dos papéis de toda essa equipe é subsidiar a tomada de decisão da diretoria. Para a coordenadora política do núcleo e vicepresidente do CONASEMS, Aparecida Linhares Pimenta, os gestores municipais necessitam de maior Teses empenho do Ministério da Saúde e dos Estados para a busca de soluções para a área de gestão do trabalho, em função da complexidade do tema. “Apesar dos municípios serem os principais contratadores da força de trabalho em saúde, a gestão do trabalho não pode ser um tema exclusivo dos gestores locais. O MS e os Estados deveriam participar de uma forma mais ativa para que os gestores municipais enfrentem o desafio de fazer uma gestão do trabalho mais solidária para a consolidação do SUS”, acrescenta. Ela reconhece que após a criação da SGTES/MS, o tema da gestão do trabalho entrou na pauta dos atores do SUS, mas em cima de questões muito gerais que ainda não refletiram no cotidiano das gestões municipais. Em dezembro, durante o encontro promovido pelo Departamento de Gestão e Regulação do Trabalho/ MS, será aprofundada a questão da contratação, apontando caminhos para a área, como por exemplo uma legislação que possibilite maior governança na gestão do trabalho, ao contrário do que ocorre hoje. O passo seguinte será a mobilização para tentar aperfeiçoar a legislação junto ao Congresso Nacional. O núcleo também tem atuado junto à Câmara de Regulação do Trabalho em Saúde, buscando resgatar o papel do Estado no controle da criação de novas profissões, garantindo que os trabalhadores em saúde de cada região realmente atendam às demandas necessárias da comunidade. Agenda do núcleo Outros temas mobilizam a agenda do Núcleo. É o caso do Programa de Estruturação e Qualificação da Gestão do Trabalho do SUS (PROGESUS), que promove apoio técnico e financiamento aos municípios. O CONASEMS espera que esse projeto seja ampliado para mais municípios e que o Ministério da Saúde e os estados contribuam financeiramente com a implementação de uma política de valorização dos profissionais. O Plano de Cargos, Carreira e Salários (PCCS) é outro assunto relevante para o núcleo. As diretrizes que estabelecem as orientações para a implementação do PCCS nas três esferas de governo foram aprovadas, mas é preciso fazer valer essa resolução, principalmente com a contrapartida financeira dos estados e União. Outro braço de ação é o PRÓ-SAÚDE, considerado um programa estrutural para o CONASEMS. Os principais aspectos de discussão do PRÓ-SAÚDE giram em torno da mudança curricular dos cursos da área de saúde, a integração ensino-serviço e o uso de metodologias inovadoras que estimulem o aluno como sujeito no processo ensino aprendizagem. É importante destacar que o CONASEMS também vê a necessidade de contrapartida financeira por parte dos estados e da União para adequar as unidades de saúde às exigências dos espaços de aprendizagem. O aprofundamento do papel das secretarias municipais de saúde no processo de construção do Ilustração: Jadson Alves PRÓ-SAÚDE é uma das questões importantes para o Núcleo. Compreende-se que gestores devam ter papel de atores políticos, seja na busca de apoio técnico ou de recursos financeiros. O TELESSAÚDE, outra estratégia, possibilita que os profissionais de saúde tenham suporte na hora de dar diagnósticos e avaliar o estado clínico do paciente. Em alguns locais do país, sobretudo as áreas geograficamente isoladas, a estratégia é fundamental para a segurança da equipe médica assim como para o sucesso do tratamento. Ciente do sucesso dessa empreitada, uma da lutas do Núcleo de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde do CONASEMS é para que novas parcerias tornem possível a ampliação do TELESSAÚDE para o restante do Brasil. “Assim potencializaremos também a ferramenta para a implementação da política de educação permanente”, avalia Elizabete. Na prática, o serviço do TELESSAÚDE é possível a partir de uma plataforma virtual por meio da qual os profissionais de saúde podem trocar informações, observar exames e opinar sobre diagnósticos. É uma consulta à distância mas ao mesmo tempo possível porque ocorre em tempo real, graças à tecnologia. Para o CONASEMS, o TESESSAÚDE necessita ter mais agilidade na formação da segunda opinião e qualificar a equipe envolvida no programa. Em educação permanente, o Núcleo de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde do CONASEMS tem se preocupado com a baixa execução financeira dos estados e municípios. É necessário produzir um documento para orientar estados e municípios sobre como gastar os recursos, visando agilizar os processos educativos que possibilitam a mudança de práticas. Para isso, no entanto, alguns desafios são colocados, como a necessidade dos municípios de terem apoio técnico dos estados. Sem isso, o trabalho pode ficar comprometido. Na Comissão do UNASUS (Universidade Aberta do SUS), as expectativas são boas. A meta agora é a rede de apoio às universidades e fortalecimento à atenção básica. Até 2011 pretende-se capacitar 52 mil profissionais de nível superior na Estratégia de Saúde da Família. É importante que o curso tenha uma identidade nacional ao mesmo tempo respeitando as realidades diversas do país. Soma-se a isso a definição do percentual de educação presencial, para que os alunos se socializem com os demais profissionais da Estratégia de Saúde da Família. Outra aposta do núcleo é a integração de todas as ações programáticas desenvolvidas pelo Ministério da Saúde na área de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde. O diálogo entre essas estratégias proporcionará o fortalecimento da política, causando impacto na qualidade dos serviços de saúde. Núcleo de Promoção e Vigilância Participar, produzir subsídios técnicos na perspectiva do município para temas em debate nos fóruns tripartite e promover o apoio e aprofundamento das discussões junto à Diretoria do CONASEMS são atribuições do Núcleo de Promoção e Vigilâncias. Ele distribui sua atenção em cinco grandes áreas: as vigilâncias epidemiológica, sanitária e ambiental, a promoção da saúde e a saúde do trabalhador. Hoje, 485 profissionais participam das discussões pautadas pelo Núcleo em um grupo na internet ([email protected]), entre eles 36 representantes estão em mais de 90 fóruns de pactuação tripartite nos quais são discutidas as questões de vigilância, que o CONASEMS tem representação. Cada região do Brasil tem um secretário municipal na Diretoria do CONASEMS, que compõe as Secretarias Extraordinárias de Promoção e Vigilâncias e que participam da formulação das posições políticas da área. Atualmente, uma das principais demandas do Núcleo é a revisão da portaria 1172, que regulamenta o financiamento e a estrutura da vigilância em saúde em todo o país. O momento é de construção e de adequação deste regulamento ao Pacto Pela Saúde, que é o principal instrumento normativo do SUS. Outra demanda importante é o atendimento às demandas da portaria 2728, que dispõe sobre a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador – RENAST. Neste caso a regulamentação de uma coordenação tripartite nacional e a reformulação do Manual Técnico da Renast são as tarefas próximas. Estão em discussão ainda a implementação o Sistema Nacional de Saúde Ambiental, o papel da Anvisa na coordenação do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, a inserção operacional da vigilância sanitária na vigilância em saúde, o refinanciamento das ações de vigilância em saúde e a integralidade da atenção à saúde, principalmente focada na integração da vigilância em saúde com a atenção básica, e a revisão dos instrumentos do Pacto pela Saúde para isto. “O CONASEMS advoga que a integralidade é o princípio formulador de uma atenção à saúde mais conseqüente e por isso principal norteador das discussões e proposições estruturantes da política de vigilância em saúde” avalia Marcos Franco, coordenador técnico do Núcleo. Teses Ilustração: Wilson Neto A Política Nacional de Gestão de Tecnologias em Saúde: uma construção coletiva para a equidade no SUS Por Jorge Otávio Maia Barreto O desenvolvimento tecnológico e a expansão do complexo industrial da saúde podem impulsionar de várias maneiras a inserção de novas tecnologias no mercado de saúde. A incorporação de tecnologias sem critérios explícitos, bem como o uso inadequado destas, trazem riscos para os usuários, aumentam os custos e comprometem a efetividade do sistema. É certa a necessidade de uma base normativa nacional que se contraponha ao processo desordenado de incorporação tecnológica no SUS, expresso, por exemplo, no fenômeno da judicialização, que muitas vezes tem obrigado o sistema de saúde a garantir a oferta de procedimentos e medicamentos destituídos de evidência científica, causando significativo impacto nos gastos, sem o respectivo benefício para a população. Nesse aspecto, a instituição da Política Nacional de Gestão de Tecnologias em Saúde (PNGTS), pela portaria no. 2690/2009, do Ministério da Saúde, é um marco normativo para o aprimoramento da atividade regulatória no SUS, especialmente no que diz respeito à incorporação e gestão das chamadas tecnologias em saúde. Elas envolvem desde medicamentos, equipamentos e procedimentos técnicos, até sistemas organizacionais, informacionais, educacionais e de suporte, programas e protocolos assistenciais destinados à atenção à saúde. A PNGTS é o resultado de um debate coletivo, iniciado em 2005, capitaneado pelo Ministério da Saúde, que teve como ponto de partida a necessidade de institucionalização de uma política nacional com diretrizes gerais para orientar a implantação da avaliação, incorporação e gestão de tecnologias no sistema de saúde. Deste debate participaram ativamente o CONASEMS e o CONASS, além de instituições de pesquisa, universidades, agências reguladoras e diversos outros setores ligados às atividades de produção de tecnologias em saúde. A proposta foi também submetida a consulta pública em 2006, obtendo mais de 400 contribuições, oriundas de instituições de ensino e pesquisa, planos de saúde, associações profissionais, gestores, e diversos outros setores da sociedade. Artigo O recém publicado texto da PNGTS é, portanto, caracterizado como uma construção participativa. Isso explica, em parte, a receptividade das instâncias deliberativas colegiadas do SUS para com a proposta da PNGTS. No Conselho Nacional de Saúde, a aprovação se deu por unanimidade, repercutindo as posições igualmente positivas já adotadas pelo CONASEMS e CONASS. Outro aspecto importante é que a PNGTS se coaduna com os princípios do SUS, especialmente com a equidade, uma vez que a tomada de decisão para incorporação tecnológica envove mais de 5.500 municípios, com necessidades específicas e diferentes tetos financeiros. Responde, assim, aos anseios de gestores e da população em geral, ao atribuirse o papel de nortear os processos de avaliação, incorporação, difusão, gerenciamento da utilização e retirada de tecnologias no sistema de saúde, a fim de subsidiar a tomada de decisão quanto à incorporação ou não de tecnologias pelo SUS. Esse é um aspecto dos mais importantes. O seu caráter recomendatório aponta para manutenção da autonomia da tomada de decisão pela gestão, mas amplia, de forma relevante, as bases de evidências sobre as quais a decisão pode fundamentar-se. Propõe a maximização dos benefícios de saúde a serem obtidos com os recursos disponíveis, assegurando o acesso da população a tecnologias efetivas e seguras, em condições de eqüidade. Isso se dará mediante a orientação dos gestores do SUS e da saúde suplementar nos processos de incorporação e avaliação de tecnologias, tornando esses processos institucionais, ponderando conseqüências e custos para o sistema de saúde e para a população. Dentro outros, destacam-se como princípios da PNGTS: o uso de evidências científicas para considerar os atributos de segurança, eficácia, efetividade, eficiência, e os impactos econômicos, éticos, sociais e ambientais da tecnologia avaliada; a disseminação de informações junto aos gestores, profissionais de saúde e à população sobre as tecnologias avaliadas, mediante linguagem adequada ao público-alvo, de forma transparente e contínua; a independência dos processos de avaliação promovidos e das decisões de incorporação tomadas pelos gestores de saúde; a ética em pesquisa envolvendo seres humanos será considerada para comprovação de boas práticas no processo de avaliação de tecnologias e o envolvimento de diferente atores sociais, observando o princípio da precaução e considerando a universalidade do acesso, a equidade e a sustentabilidade das tecnologias. As diretrizes da PNGTS, por outro lado, destacam a importância da participação da gestão do SUS no processo de implementação de suas ações, seja ao subsidiar a tomada de decisão mediante a disponibilização do conhecimento científico de forma acessível e clara, seja ao fortalecer as estruturas governamentais e prever a articulação político-institucional e intersetorial, com a constituição de mecanismos formais junto à Comissão Intergestores Tripartite (CIT) para orientar a oferta de tecnologias em saúde. Certamente, esse é um processo que apenas teve seu início e ainda há muito a discutir e realizar. As ações para a implantação e consolidação da PNTGS, assim como foi a sua concepção, devem ser uma construção coletiva e, uma vez definido qual o objetivo que se pretende alcançar, deve-se avançar na sua concretização. A gestão de tecnologias em saúde ainda se encontra na fase inicial de desenvolvimento em nosso país, mas merecem reconhecimento os esforços desempenhados pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde, notadamente através do Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT), para a institucionalização da avaliação e gestão de tecnologias em saúde, bem como para a disseminação do respectivo conhecimento para a tomada de decisão na gestão do SUS. Cabe-nos a busca pela incorporação, na prática cotidiana da gestão municipal do SUS, dos princípios e diretrizes da PNGTS, notadamente quanto ao uso de evidências para a tomada de decisão e, mais do que isso, a promoção da disseminação da utilização da informação nas discussões locais e regionais, como forma de conferir capacidade crítica aos atores sociais envolvidos na consolidação do SUS, fomentando o debate social do SUS fundamentado, também, nas melhores evidências disponíveis. Como dito, esse é um processo que está iniciando, mas que conta com a grande vantagem de possuir um marco normativo de relevo, construído de forma participativa e democrática, o qual deverá nortear a implementação das ações para a avaliação e gestão de tecnologias em saúde no Brasil, a fim de proporcionar maior equidade para a construção do direito universal à saúde em nosso país. Jorge Otávio Maia Barreto é secretário municipal de saúde de Piripiri (Piauí) e secretário extraordinário de Ciência e Tecnologia do CONASEMS. Email: sms@piripiri. pi.gov.br,[email protected]. Artigo Ilustração: Felix Junior Hipertexto No site da Secretaria Municipal de Saúde Pública de Campo Grande você encontra informações sobre o funcionamento das unidades de saúde e dos hospitais, além de dados sobre programas de referência e serviços. É só acessar www.pmcg.ms.gov.br. Você pode acompanhar o trabalho dos núcleos temáticos do CONASEMS através do endereço eletrônico da entidade: www.conasems.org.br. Lá estão disponibilizados relatórios, documentos, agenda dos núcleos, dentre outros. Acessando www.conass.org.br, você encontra informações diversificadas sobre o trabalho da entidade, como notas técnicas, publicações, projetos, etc. As principais notícias sobre a atuação política do conselho também estão publicadas no site. No portal do Ministério da Saúde (http://portal.saude.gov.br) você pode ter informações detalhadas sobre a campanha nacional de combate à dengue. Hiper Texto Não é hora de relaxar Novas diretrizes para prevenção e controle de epidemias de dengue, lançadas pelo Ministério da Saúde, CONASEMS e CONASS, incentivam o trabalho contínuo de redução de casos da doença no Brasil, como mostra a reportagem de Aline Fonseca Construindo o SUS Passada a euforia da divulgação pelo Ministério da Saúde da redução de 47,9% nos casos de dengue no Brasil e 63% de mortes (no período de janeiro a 4 de julho deste ano) , agora é hora de enfrentar desafio maior: manter os números reduzidos e o trabalho de controle à doença para o ano que vem, pois de janeiro a maio a dengue entra em seu pico no país. Nessa batalha, a palavra-chave é mobilização – tanto dos gestores, que precisam estar preparados para atuar de forma eficiente e planejada, quanto da comunidade, que precisa ser incentivada a se responsabilizar e atuar no enfrentamento da doença. Em julho, após meses de discussões, o Ministério da Saúde, o CONASEMS e o CONASS lançaram um documento inédito no país criando as “Novas diretrizes para prevenção e controle de epidemias de dengue”. “A nova estratégia não traz novidades na área tecnológica, mas propõe o trabalho integrado dos serviços, o reposicionamento das equipes de saúde, um fluxograma de prioridade de atendimento aos pacientes e principalmente a intersetorialidade, mostrando que todos – comunidade, profissionais e gestores da saúde – somos responsáveis pelo combate à doença”, explica o coordenador técnico do Núcleo de Promoção e Vigilância do CONASEMS, Marcos Franco. “Nós estamos reafirmando a estratégia de que apenas com uma grande união – do governo, da sociedade, das pessoas, de todos –, envolvendo as escolas, a comunidade e com um forte comprometimento das prefeituras em manter as cidades limpas, em fazer o trabalho técnico que precisa ser feito, podemos combater a dengue”, afirmou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, durante a Caravana da Dengue, que percorreu mais de 10 mil quilômetros e nove estados durante o mês de novembro. A iniciativa tem como objetivo mudar a estratégia no enfrentamento da dengue e padronizar a forma de agir. O documento integra as ações de vigilância e assistência em saúde para o combate da doença nos estados e municípios e também organiza a rede de atendimento, dá mais acesso a informações ao paciente e à população, mas também dá agilidade maior ao controle da doença. A base para o documento foram os planos de contingência elaborados em 2008, em 13 estados prioritários. Nesses estados, estratégias foram discutidas e construídas, já avançando na questão da mobilização e organização do atendimento. Com o resultado das ações, a experiência nesses estados serviu de subsídio para amadurecer uma diretriz nacional. “A nova estratégia é exemplo de experiência acumulada que pode ser utilizada como padrão para evitarmos mortes”, explica Giovanini Coelho, coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue. Construindo o SUS Uma das grandes vantagens das novas diretrizes foi a construção tripartite. “Esse é o primeiro aspecto relevante, pois as diretrizes foram construídas em consenso entre as três esferas”, afirma. O combate e a prevenção à dengue estão entre as prioridades do governo federal, estados e municípios. Estão mantidos os recursos investidos nas ações de 2008/2009, incluindo a incorporação de R$ 128 milhões ao Teto Financeiro de Vigilância em Saúde. Para 2009, o Teto Financeiro para todo o país será de R$ 1,02 bilhão. Além do Teto, houve investimento de R$ 55 milhões em compras diretas do Ministério da Saúde até outubro deste ano especificamente para combater a dengue, com ações como campanha publicitária, treinamento e capacitação, equipamentos e insumos, entre outras atividades. Mobilização de gestores A redução no número de casos de dengue em 2009 foi observada em 20 estados e no Distrito Federal. No entanto, os estados do Acre, Amapá, Bahia, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso apresentaram aumento no número de casos. Em todo o país, os casos graves de dengue caíram 79,2%. Esses casos correspondem à soma dos registros de Dengue com Complicações (DCC) e Febre Hemorrágica de Dengue (FHD). O balanço parcial do Ministério da Saúde revela uma redução de 63,2% nas mortes em decorrência da dengue, em todo o país. O papel dos gestores será essencial para que a redução de casos tenha continuidade. Estados e municípios deverão adequar seus planejamentos às novas diretrizes e dessa forma organizar a rede de atendimento e o trabalho de campo para se tornarem mais rápidos na prevenção e combate. “A preocupação do CONASEMS é que os gestores estejam preparados para o ano que vem e possam reduzir ainda mais o número de casos”, diz Marcos Franco. “O gestor de saúde tem um papel importante de liderança nesse processo, porque ele tem a responsabilidade de garantir a articulação com as outras áreas”, afirma Giovanini Coelho. “É uma figura importante na consolidação dessas diretrizes.” Um exemplo citado por Giovanini foi o da Bahia. Durante a Caravana da Dengue, em novembro, ele esteve em Salvador, onde a Secretaria Estadual de Saúde já estava reunindo todos os secretários municipais e órgãos relacionados à questão da dengue para discutir as ações a serem executadas. A demanda, portanto, partiu do estado. “Como a dengue tem uma série de macrofatores externos ao setor saúde, é necessário articular com as outras áreas”, diz o coordenador. Organização do atendimento Um dos pilares do documento é a organização da assistência. Foi criado um fluxograma para o aten- dimento de pacientes nos serviços de saúde por meio da classificação de risco. São quatro os níveis de classificação: azul/Grupo A (atendimento de acordo com o horário de chegada), verde/Grupo B (prioridade não urgente), amarelo/Grupo C (urgência) e vermelho/ Grupo D (emergência, atendimento imediato). Para cada classificação existe um nível de atenção à saúde. Dessa forma, os pacientes no nível azul serão atendidos em unidades da Atenção Primária (Saúde da Família), os de nível verde em unidades da Atenção Secundária com suporte para observação (UPAs, Pronto-Socorro), os de nível amarelo, em unidades de Atenção Terciária com leitos de internação e os de nível vermelho, em unidades de Atenção Terciária com leitos de UTI. “Se fosse resumir em uma frase diria que é de fundamental importância essa organização, pois dá prioridade a quem precisa de atendimento imediato e a agilidade no atendimento vai fazer a diferença”, diz a secretária de Saúde do município de Borba (AM), Adriana Moreira. Com esse fluxograma, a expectativa é assegurar a qualidade do atendimento, mas também a redução do tempo de espera, o que pode reduzir o número de quadros que resultem em morte. Serão distribuídos 600 mil cartazes com essa classificação, orientando profissionais de saúde no atendimento de pacientes com dengue. “É uma ação simples, apenas uma reorganização, mas muito eficaz”, diz a Diretora de Vigilância e Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande, Ana Lúcia Lírio. Campo Grande pode ser considerada como modelo na assistência por classificação de risco, pois desde 2008 esse procedimento é realizado. A sistematização dos critérios é uma das grandes vantagens das novas diretrizes. “A organização vai ser fundamental para garantir o diagnóstico precoce e evitar o acúmulo de pacientes em determinadas unidades como o pronto-socorro”, afirma o coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue, Giovanini Coelho. Mobilização Outro ponto importante do documento é a intensificação da mobilização da população. Afinal, combater a dengue é também uma luta pela mudança de hábitos. O Ministério da Saúde apresentou pesquisa realizada entre 15 e 24 de maio deste ano com 2.057 pessoas maiores de 16 anos e moradores do Rio de Janeiro sobre o assunto. O levantamento mostrou que 44% da população acredita que cabe à própria sociedade a liderança no combate à dengue. Por isso, a idéia é conseguir, por meio de diversos meios de comunicação, a adesão consciente e voluntária de toda a sociedade, além de dar mais acesso a informações sobre prevenção e enfrentamento da doença. Ações de mobilização e de comunicação serão utilizadas não apenas nos momentos de crise e também serão diferenciadas de acordo com o período (epidêmico ou não epidêmico, dependendo da época do Construindo o SUS ano) e com a região, respeitando a linguagem, conhecimento e realidade de cada uma. As novas diretrizes incluem como ações importantes o estímulo a atividades educativas em escolas, associações, igrejas, clubes, entidades de classe, comércio, instituições públicas e privadas. A multiplicação de informações, nesse caso, vai ser uma aliada à prevenção. Nas escolas, por exemplo, podese incluir o tema nos materiais didáticos, além da veiculação de filmes educativos. “Uma das questões da complexidade do controle da dengue é justamente a de que a sociedade precisa ter um papel mobilizador”, diz o coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue. “É preciso entender que cada vez mais a participação da sociedade se torna ferramenta fundamental no controle da dengue, através de ações que precisam ser efetivadas no cotidiano. Mas esse é um processo complexo, porque exige ações que estimulem mudança de comportamento e isso não vai ser da noite para o dia”, explica Giovanini Coelho. mudado e mostrou-se mais eficiente. A atuação pode ser vista em números: em 2007 e 2008 não houve nenhuma morte por dengue e em 2009, até agora, uma. Há dois meses, Campo Grande começou a se adequar às novas diretrizes, estratégia que veio em boa hora pois constatou-se a entrada de dois novos sorotipos da dengue desde 2007, o que pode elevar o número de casos em 2009. Já está havendo uma integração dos agentes epidemiológicos com os agentes comunitários, a triagem nas unidades de saúde começa a ser feita no atendimento administrativo. “Temos que redobrar os cuidados e priorizar a atuação onde há mais casos. Por ser a dengue um problema crônico na região, o trabalho dura o ano inteiro”, explica Ana Lúcia Lírio. “Tem que haver envolvimento de todos e parceria”, diz. Gincana da dengue As ações propostas pelas novas diretrizes começam a ser adotadas pelos municípios. Algumas experiências municipais, no entanto, serviram de exemplo para a construção da nova estratégia. É o caso do município de Campo Grande, que há três anos combate a dengue de forma intersetorial e com assistência organizada. Em 2007, Campo Grande, uma cidade com 750 mil habitantes, teve 45 mil casos notificados da doença. Esse foi o sinal de alerta para a adoção de uma estratégia mais eficiente para reduzir os índices. A partir disso, a Secretaria Municipal reorganizou a assistência – os pacientes passaram a ser classificados de acordo com o risco –, os profissionais de saúde (em todos os níveis) foram capacitados, mas a medida mais importante foi a sensibilização da comunidade com a criação de uma gincana interbairros. A gincana começa em outubro e termina em dezembro. Cada bairro da cidade é convidado a participar e o ganhador recebe R$ 30 mil. As tarefas estão ligadas à prevenção como a retirada de pneus, limpeza de terrenos. “É o tipo de ação que condiciona e sensibiliza a população a participar desse combate. Sem a comunidade não se consegue reduzir ou evitar a doença”, afirma a Diretora da Vigilância e Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande, Ana Lúcia Lírio. As ações foram tão eficazes que em 2008 os casos notificados diminuíram de 45 mil (2007) para 1.776. Desde então, a Secretaria Municipal organiza mensalmente uma reunião para discutir e tentar sanar os problemas existentes, ou seja, a prevenção e organização dura o ano todo. Além disso, os agentes epidemiológicos visitam os locais com maior incidência de casos a cada dois meses e o larvicida utilizado foi Construindo o SUS Agentes Mirins No município de Araucária (PR) o sucesso na prevenção à doença – nunca houve caso notificado e a última vez que se achou focos do mosquito da dengue foi em 2007 – vem da parceria com as escolas da região. Anualmente, a Secretaria Municipal de Saúde capacita 172 crianças como agentes mirins no combate à dengue. Esses alunos atuam como mini fiscais da prevenção: detectam pequenos criadouros nas proximidades de suas residências, chamam a atenção dos pais e orientam seus amigos nas escolas. A ação tem sido realizada desde 2002, quando a idéia da formação de agentes mirins surgiu no grupo de ciências de uma escola. A cada ano, em novembro, novos pequenos agentes são treinados. “Eles acabam sendo os nossos multiplicadores e, além disso, a escolha “O município tem articulado um trabalho integrado entre as ações da atenção básica com as ações da vigilância e de forma intersetorial. Somente dessa forma conseguimos diminuir o índice”, acredita a secretária municipal de Saúde, Adriana Moreira. Para envolver a população local, a secretaria também utiliza as escolas como multiplicadores. “Para combater a dengue precisamos envolver controle social, promover atividades de educação em saúde junto às escolas, envolver o comitê de municípios potencialmente saudáveis, além de divulgar nos meios de comunicação”, diz a secretária municipal. Comemorar, mas não relaxar envolve toda a cidade no período que antecede o pico da doença. Tornou-se um padrão no município”, explica o coordenador do Centro de Controle de Zoonoses da Secretaria Municipal de Araucária, Antônio Pestana. Além da equipe de agentes mirins, o município conta ainda com uma equipe permanente para a prevenção à dengue. São cinco agentes de combate a endemias, que se integram a outros 100 agentes comunitários de saúde. Eles mapeiam a cidade por área de abrangência e a cada quatro meses visitam cinco mil imóveis em média, fazendo o levantamento das condições das residências e dando orientações. “A parceria com os agentes comunitários é importante, porque eles já trabalham com a prevenção à dengue e acaba sendo um trabalho mais completo”, explica Pestana. Alguns fatores deixam Araucária em vantagem quando o assunto é dengue: o clima não favorece o surgimento da doença, que não é endêmica ali. No entanto, a preocupação é com a expansão da refinaria da região, que trouxe cerca de nove mil trabalhadores vindos dos mais diversos estados brasileiros. “A prevenção nesse caso é essencial, pois com muitas pessoas vindas de fora qualquer descuido pode trazer a doença”, diz o secretário Municipal de Saúde de Araucária, Haroldo Ferreira. “Vamos manter a vigilância para manter o número de casos nulos.” Com a nova estratégia divulgada pelo Ministério da Saúde, CONASS e CONASEMS, o município começou a recapacitar todos os profissionais de saúde. A parceria com a comunidade e escolas continua firme. “Essa é a base do sucesso para a atuação com a população: informação, educação e comunicação”, diz Pestana. Controle social No município de Borba, no Amazonas, o trabalho de combate à dengue também envolve o controle social. Com cerca de 30 mil habitantes, Borba teve no ano passado 31 casos notificados e em 2009 (até agora) foram 11. A prevenção e mobilização devem ser permanentes. No município de Santos (SP), por exemplo, a doença tem uma história de endemicidade há dez anos. “Tivemos de aprender a combatê-la”, afirma o secretário municipal de Saúde, Odílio Rodrigues. Em 1997, Santos teve 829 casos notificados. Em 1999, o número subiu para 7.179 e em 2001 o auge: foram registrados 10.596 casos. “As condições urbanas e climáticas em Santos favorecem o surgimento da doença e, mais ainda, como cidade balneária e com grande circulação de pessoas pelo porto, as ações devem ser continuadas”, explica Odílio. Outro problema são os imóveis fechados, que só abrem para temporada e por isso não recebem a visita de agentes de saúde. Segundo levantamento da Secretaria Municipal de Saúde, cerca de 38% das unidades imobiliárias da cidade não foram visitadas por estarem fechadas. A batalha para evitar uma nova epidemia no município começa com ações de controle e prevenção, desenvolvidas o ano inteiro. Entre as estratégias adotadas estão o monitoramento da evolução dos casos suspeitos. Nesse trabalho entram em ação os agentes do Programa de Controle e Prevenção à Dengue e o os técnicos da Seção de Vigilância Epidemiológica. Além disso, há capacitação das equipes dos prontosocorros, unidades básicas e de saúde da família. Diariamente, os agentes da dengue vistoriam imóveis para eliminar criadouros do mosquito Aedes aegypti. Existe ainda uma ação específica em cerca de 370 imóveis considerados ‘especiais’ e em outros 120 ‘pontos estratégicos’. Os imóveis especiais são aqueles com grande concentração de pessoas (escolas, hospitais, supermercados, clubes e centros esportivos) e os pontos estratégicos, endereços que funcionam como importantes locais de criação e dispersão do mosquito (ferros-velhos, cemitérios, pátios de contêineres, entre outros). A secretaria também criou um grupo executivo para discutir a melhoria da assistência aos pacientes com casos suspeitos. Em 2007, o número de casos baixou para 839. Em 2008 houve redução de 89,7% em relação a 2007 no número de casos registrados. Em 2009, o número Construindo o SUS de casos registrados até 4 de novembro foi de 127. “O número vem caindo, mas é sempre ingrato comemorar qualquer tipo de redução, porque é preciso ficar sempre alerta e não relaxar para que os números não voltem a subir”, acredita o secretário de Saúde de Santos. A participação da comunidade é fundamental. Por isso, a Secretaria Municipal de Saúde de Santos promove capacitações em empresas e promove atividades educativas nos bairros, uma forma de orientar sobre as maneiras de conter a proliferação do inseto. “Ou a gente tem a participação de todos, porque o Poder Público não pode fazer tudo sozinho, ou não contemos a doença”, diz Odílio. Sociedade co-responsável A participação da população no município de João Pessoa (PB) tem sido efetiva nos últimos quatro anos e é conseguida por meio de oficinas, palestras e também comunicação. As ações de mobilização são direcionadas às localidades sinalizadas pelo perfil epidemiológico. Em 2008, o município registrou 914 casos. Em 2009, até agora foram notificados 102 casos, uma redução significativa em relação ao ano passado. Desde 2005, o município realiza uma campanha publicitária com recursos próprios cujo objetivo é informar e criar a co-responsabilidade da sociedade. Nas duas últimas campanhas realizadas (2008 e 2009) foram colocadas em evidência a figura da larva, cuja forma de combate é simples, e que todos podem ser um agente em ação. A estratégia obteve sucesso. A população, inclusive crianças, vêm contribuindo no combate ao vetor. Na campanha publicitária de 2009 a população foi colocada com Super Heróis, simbolizando os bons resultados alcançados. “Acho que a população participa de forma mais efetiva quando a sua participação é reconhecida. Hoje em João Pessoa observamos a população como aliada nesse combate”, afirma a secretária municipal de Saúde, Roseane Barbosa Meira. A Secretaria de Saúde está à frente de todas as ações e as decisões são discutidas e compartilhadas. “Entendemos que os gestores têm de colocar a den-gue como agenda prioritária na gestão”, afirma a gestora municipal. O Plano de Contingência 2010 do município já foi elaborado tendo como base as diretrizes propostas pelo Ministério da Saúde. O plano é ousado e prevê a unificação dos territórios da Vigilância e Atenção. “Nosso grande desafio é discutir com os agentes comunitários de saúde suas atribuições no controle da dengue que estejam relacionadas no manual do Ministério da Saúde deste ano. Já estamos na fase de discussão e construção deste processo que vai se efetivar com a unificação dos territórios”, explica a secretária. O município vem adotando uma política voltada para a construção de um trabalho intersetorial e interinstitucional entre diversas secretarias municipais, Polícia Militar, Exercito, Ministério Público, entre outros. Também existe um comitê municipal para o combate à dengue cuja formação é intersetorial e interinstitucional e tem como propósito discutir ações de vigilância, prevenção e controle para o enfrentamento ao Aedes aegypti. Novas diretrizes para prevenção e controle da dengue 1) Assistência ao paciente, estruturação e organização : Os pacientes são classificados em quatro níveis de risco, de acordo com a gravidade dos sintomas clínicos. Os casos mais simples serão atendidos pela atenção básica e os mais graves, em hospitais com leitos de UTI. 2) Vigilância Epidemiológica: Notificação online, monitoramento da situação epidemiológica por meio das 24 unidades do CIEVS e monitoramento local 3) Controle vetorial: Adesão dos municípios para a realização do Levantamento do Índice de Infestação por Aedes aegypti. Informações sobre métodos, equipamentos e insumos a serem utilizados no controle do vetor. Trabalho integrado entre o Agente Comunitário de Saúde e o Agente de Controle de Endemias. 4) Comunicação, publicidade e mobilização social Orienta ações da mídia em períodos de menor transmissão e em períodos de maior transmissão divulga dados e orientações sobre sintomas e atenção à saúde 5) Gestão e financiamento: Criação de grupos intersetoriais e planos contingenciais locais, além de reforço das responsabilidades das três esferas de gestão do SUS na alocação de recursos para combater a doença. Construindo o SUS Foto: Karina Zambrana Muito além do “postinho” A medicina de família e comunidade é valorizada em diversos países do mundo, sobretudo aqueles que tem sistemas universais de saúde. No Brasil, o reconhecimento do trabalho dos médicos de família vem se dando aos poucos, embora o Estado necessite cada vez mais desses profissionais no Sistema Único de Saúde, como mostra a reportagem de Sheila Messerschmidt. Especial Criado em 2004 como principal linha de atuação da Atenção Básica à saúde dos brasileiros, o Programa Saúde da Família fincou raízes e tornouse uma estratégia de Estado. Garantir aos pacientes um atendimento universal e qualificado na porta de entrada do sistema passou a exigir muito mais que vontade dos administradores públicos ou incremento orçamentário. O sucesso da Estratégia Saúde da Família (ESF) depende de um tipo de profissional conhecido e reconhecido pelo mundo todo, mas ainda raro por aqui: o médico de família. De acordo com estudo do pesquisador Sábado Girardi, do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), existem no Brasil aproximadamente 330 mil médicos exercendo medicina. Somente 1600 são médicos de família. Basta olhar um retrato de outros países com sistemas universais de saúde, como o do Brasil, para percebermos que ainda há muito chão a percorrer quando o assunto é formação de médicos generalistas – isto é, aqueles que atuam na ponta do atendimento. Em Portugal, 23% dos médicos são generalistas; na Espanha e na Finlândia, 37%; na Bélgica, 46%; na França, 54%; e no Reino Unido, os generalistas já somam 60% do total de médicos que atuam naquele país. “No Brasil, os generalistas não chegam a 5%. Os médicos que optam por trabalhar com saúde da família não são suficientemente valorizados”, observa o assessor técnico do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), Silvio Fernandes da Silva. Ele conta que o país vive a cultura do glamour pela especialidade médica, como consequência da falta de valorização do profissional generalista. Para Silvio Fernandes, existem dois aspectos que reforçam a condição de médico de segunda linha aos generalistas. O primeiro, objetivo, diz respeito à falta de uma carreira segura, com salário e vínculos estáveis; o segundo é subjetivo e simbólico, pois trata da questão de sentir-se parte de algo importante como é a atenção primária. “O médico precisa se sentir valorizado ao exercer este tipo de atividade. Por exemplo, na Inglaterra, os médicos generalistas se sentem motivados para isso. Há uma tendência no Brasil de achar que quem vai trabalhar como médico de equipe da Saúde da Família não deu certo como especialista, e só sobrou esta opção para ele”, afirma Silvio Fernandes. O reconhecimento do médico de família faz parte das características das sociedades de países como a Inglaterra e o Canadá, que têm há mais tempo seus sistemas de saúde orientados para a atenção primaria. Seus modelos de atenção à saúde são baseados nos médicos de família. No Canadá, por exemplo, o acesso fácil ao médico de família é defendido pela sociedade, inclusive na diferenciação com a sociedade norteamericana. Especial Espanha e Portugal também optaram por sistemas de saúde com coordenação a partir dos médicos de família. E muitos outros países têm feito o mesmo independentemente do grau de desenvolvimento: Noruega e Holanda, na Europa; na América Latina, o Chile; ou em países em processo de democratização, como a Tailândia, a Etiópia, e países do leste Europeu. O presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), Gustavo Gusso, diz que é essencial que haja incentivos por parte do governo para a formação de médicos de família e para as carreiras dos profissionais. Sem isso, Gustavo acredita que será impossível o Brasil alcançar o número de médicos de família necessário para atender minimamente a porta de entrada do sistema de saúde, como é a proposta da ESF. No Ministério da Saúde, a diretora do Departamento de Atenção Básica (DAB), Claunara Schilling Mendonça, destaca que o papel do médico de família na política proposta para o Sistema Único de Saúde (SUS) é fundamental, pois é esse o médico que tem a formação adequada para responder aos problemas prevalentes (o que não significa pouco complexos) de uma dada população, sem distinção de gênero, idade ou tipo de problema. No entanto, a diretora percebe que há uma contradição entre a forma brasileira de fazer atenção primária, e a formação dos profissionais de saúde para trabalharem na atenção primária. “Por isso não temos médicos de família suficientes no Brasil”, avalia. Em alguns países que também priorizam a atenção básica, a quantidade de vagas de residência médica é regulada, reservando 50% do total para a Medicina de Família. A ESF criou um mercado maior para os profissionais trabalharem, mas não se trata de uma especialidade nova no Brasil. A residência nesta área é reconhecida pela Comissão Nacional de Residência Médica desde 1981, através da Resolução CNRM n. 07/81. Na época, era designada Medicina Geral Comunitária, tendo recebido o nome atual em 2002, Medicina de Família e Comunidade. De acordo com o DAB, a ESF tem, atualmente, 29.800 equipes. Somente 1.100 contam com médicos de família e comunidade. O título é obtido de duas formas: por meio da residência ou por certificação dada pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). A entidade aplica uma prova nos candidatos a especialista, que devem ter, também, no mínimo quatro anos de atividade na área. A diretora do DAB revela que o Ministério da Saúde vem apoiando a SBMFC nos processos de certificação de forma descentralizada no país. “A idéia é aumentar o número de médicos que hoje estão trabalhando na Saúde da Família com a especialidade”, conta Claunara. Ainda assim, o ritmo é lento, apesar de ter aumentado a cada ano. Do total de vagas de residência em Medicina de Família oferecidas no país, apenas metade são ocupadas. Existe ainda a proposta de uma especialização em larga escala para todos os médicos que estão atuando na ESF. Com isso, além de aumentar a quantidade de profissionais especialistas em Medicina de Família certificados, haveria um salto na qualificação para a prática da atenção primária à saúde. Fortaleza (CE): residência na rede Se encontrar a força de trabalho própria para atuar na ESF é a questão, a capital do Ceará saiu na frente ao garantir, a partir da formação, oportunidades para o profissional que quer trabalhar com a medicina de família. Em Fortaleza, desde 2006, um programa de residência médica na rede pública do município atrai médicos recém formados de todo o país com um diferencial que pesa para quem está ingressando no mercado de trabalho. Percebendo que a área era pouco atraente para os recém-formados, a prefeitura resolveu pagar uma complementação à bolsa dos residentes. De R$ 1.800, o auxílio salta para R$ 3.600 com a complementação oferecida aos residentes pela prefeitura. “Sabemos que o valor é pouco. Levando em conta que a dedicação da residência é de até 60 horas semanais, teria de ser um pouco mais atrativo. Mas o município está em plena efervescência na formação profissional”, comemora o secretário municipal de saúde, Alexandre Mont’Alverne. São oferecidas entre 30 e 40 vagas para residência de família e comunidade, que é credenciada pelo Ministério da Educação. A residência é feita na rede básica, onde foram habilitadas 76 unidades. Os médicos também fazem plantões, já que devem atender algumas urgências, como obstétrica, clínica e pediátrica, ainda que sendo médicos de família. Uma turma já foi formada e outra terminará a residência no final de 2009. O secretário de saúde de Fortaleza garante que os resultados são bons. “Em primeiro lugar, o nível dos médicos de família que fazem a residência é ótimo. A formação específica diferencia estes profissionais dos demais”, afirma Alexandre. Atualmente, a ESF chega a cerca de 40% da população, um índice relativamente baixo, mas uma conquista e tanto se considerar que a cobertura triplicou nos primeiros quatro anos da atual gestão, que está em seu segundo mandato. O resultado positivo refletiu em todo o sistema. Em 2007, quando completou um ano de implantação da ESF em Fortaleza, observou-se uma redução de 22% da demanda nas emergências dos nove hospitais do município. Fortaleza tem 230 médicos de família concursados e cerca de 30 terceirizados. A existência de uma carreira para os profissionais é mais um atrativo, em razão da estabilidade, mesmo com as trocas de governo. Por lá também se investe em educação permanente, segundo o secretário de saúde. Já no aspecto financeiro, as vantagens ficam por conta das Especial progressões salariais, vantagens por titulação acadêmica, gratificação por área de risco e um adicional sobre o salário das equipes que atendem localidades mais distantes do centro. Ocorre que, apesar de todo o incentivo, não há garantia de permanência na rede para os residentes. Ainda que exista a carreira de médico de família em Fortaleza, o ingresso é por concurso público. E o secretário calcula que o alto gasto com pessoal e com saúde impede novas contratações. Belo Horizonte: carreira estável Dra. Telma atende paciente na unidade de saúde A médica Telma Cilene Rodrigues, 40 anos, é generalista. Natural de Francisco Sá (MG), graduou-se em Montes Claros, em 1996. Fez residência em clínica médica em Belo Horizonte e começou a trabalhar em serviços de urgências. A rotina durou quatro anos, período em que Telma começou a questionar o que realmente queria da medicina. “Percebi que era uma médica de atendimento”. Sua idéia de voltar a ter contato com os pacientes de maneira mais duradoura ganhou novo fôlego quando soube das políticas de saúde da família que o Município de Belo Horizonte já vinha implementando em 2003. No ano seguinte, ela fez concurso e passou a integrar o quadro de médicos da ESF na capital mineira. Belo Horizonte conta com 523 equipes da ESF. Em 2008, essas equipes realizaram quase 1,4 milhão de consultas médicas. Atualmente, 60% das consultas básicas, 77,7% das consultas de hipertensos e diabéticos e 56% dos atendimentos a crianças com asma são feitos pelos médicos de saúde da família. A cobertura da população da capital de Minas Gerais chega a 75%. Telma já fez especialização em Medicina de Família promovida pela Prefeitura em convênio com a UFMG. A médica garante que, uma vez inserida no programa desenvolvido pelo município, começou a acreditar e a conhecer melhor a medicina de família. “Hoje posso dizer que sou uma entusiasta da ESF”, afirma. No entanto, Telma vê dentro da classe médica algumas barreiras que entravam a valorização da medicina de família. “Há alguns anos ninguém sabia o que era ser médico de família, hoje todo mundo já conhece. A valorização já está acontecendo. Mas temos que trabalhar mais isso”, sugere. Para ela o vínculo que o médico estabelece com as famílias e com os pacientes é uma das causas de sucesso da estratégia. “A humanização é você olhar no olho do paciente e saber as angústias, conhecer a família e a vida dele, a casa onde mora, qual é a profissão. Olhar de maneira integral”, conta. “Tenho muitos pacientes com possibilidades de terem um convênio médico, mas eles me procuram porque consideram o atendimento da Saúde da Família mais qualificado. Dentro da unidade eles são escutados. É muito bom”, avalia. Nova Ubiratã (MT): demanda espontânea Caroline Maruyama Zacardi, 28 anos, trocou o litoral do Rio de Janeiro, em Niterói, pelo interior do Mato Grosso. Está certo: ela admite que não foi bem uma escolha. A médica, que há quase um ano atua no município de Nova Ubiratã (MT) em uma das três equipes da ESF, diz que aproveitou a oportunidade de começar algo novo. Até então, ela havia trabalhado por seis meses no Exército. Natural de São Paulo, Caroline foi atraída pelo salário de cerca de R$ 9 mil (valor líquido) oferecido pela prefeitura. O contrato é precário, mas a médica está aguardando a nomeação para o concurso realizado no município para o cargo de médico da ESF. Ela passou em primeiro lugar entre duas vagas. Especial Em Nova Ubiratã, que tem apenas nove mil habitantes e fica distante cerca de 500 quilômetros da capital, Cuiabá, a cobertura da ESF chega a 98%. O secretário de Saúde, Marco Antônio Norberto Felipe, afirma que convencer bons profissionais médicos a permanecerem no município é um desafio. “O problema é o salário. Temos secretarias pagando R$ 17 mil ou R$ 18 mil líquido. Mesmo com um salário desses, a rotatividade é alta”, conta. De acordo com o secretário, os que se formam em Cuiabá preferem ficar na capital e ganhar R$ 6 mil do que ganhar mais no interior. Caroline acredita que é um grande desafio para o profissional fazer a opção pela medicina de família, porque a própria população tem limitações para compreender o que deve fazer o médico de família. Ela conta que muitas vezes, no dia-a-dia, se depara com o que chamam de demanda espontânea, isto é, o paciente que vai no posto fora do horário da equipe, que pede uma consulta não programada. Para a médica, a solução passa por uma reeducação da população. “Eles são acostumados a correr para o posto quando dá uma dorzinha de barriga. E a gente acaba não tendo tempo para passar a informação para a população. As coisas saem do controle”, critica. A idéia, diz Caroline, é a partir do ano que vem colocar para funcionar a ESF como tem que ser, “doa a quem doer”, brinca. E, sem apoio das autoridades políticas, a rotina não mudará. Além da demanda espontânea, Caroline fica alguns dias da semana de sobreaviso, à espera do chamado da unidade de pronto-atendimento para uma eventual emergência. E ela quase sempre acontece, mas nem sempre é necessária. Houve caso, até, de um paciente chegar com o cachorro nos braços – o atendimento era para o animal. precisamos. Em geral, eles fazem a formação voltada para uma especialidade. A visão social da medicina é secundária. Às vezes, contratamos um bom medico, mas ele passa numa residência e abandona a saúde da família”, lamenta o secretário. Em São Lourenço do Sul, para garantir a permanência dos médicos de família na zona rural, a Secretaria de Saúde criou uma gratificação por distância percorrida. O valor pode representar até 60% a mais no salário dos médicos. A intenção do secretário com a valorização é evitar a rotatividade e manter o vínculo dos médicos com a comunidade, que é completamente diferente. Este é o universo que a médica Andrea adotou e priorizou para sua carreira. Buscou formação na área, fez especialização em saúde pública e curso de humanização. Para chegar ao título de especialista, ela aguarda completar os quatro anos de exercício da medicina de família. Quer fazer a prova da SBMFC, o que para ela será mais uma valorização. “Não estou aqui apenas fazendo uma ponte, quebrando o galho”, diz. Apesar de o município não oferecer muitas chances de crescimento e o salário baixo se comparado a outras localidades do Rio Grande do Sul (R$ 3.900), Andrea se dedica com empenho à profissão. Ela conta que criou vínculos de amizade na comunidade, o que lhe proporciona, até mesmo, acesso às famílias dos pacientes, quando necessário. A consequência é a alta resolutividade, já que 90% dos problemas de saúde podem ser resolvidos por um médico de família. “Depois de um ano, ano e meio, parece que a coisa está andando melhor. É com o tempo que se vê a diferença. A falta de continuidade é um grande empecilho para o sucesso da ESF”, conclui a médica. São Lourenço do Sul (RS): planejamento e valorização Vitória da Conquista (BA): A médica Andrea Quintana Langone Minuzzi, 27 anos, decidiu que queria ser mais do que “uma médica de postinho”. Ela conta que era assim que seus colegas da faculdade de medicina se referiam à opção de trabalhar com medicina de família. Graduada em 2006, Andrea começou logo a atuar na ESF. Há três anos, ela está em São Lourenço do Sul (RS), município de 43 mil habitantes da região sul do estado. capacitação permanente O secretário de saúde, Arilson Cardoso, conta que as seis equipes da ESF conseguem uma cobertura de 46% da população como um todo, e de 96% da área rural. A opção foi priorizar esta parcela da comunidade por haver mais dificuldade de acesso. Até o final do ano, o secretário quer intensificar os atendimentos pela ESF na zona urbana e, para isso, já está com previsão de formação de mais três equipes. A contratação não é por concurso, mas um convênio com o hospital local. Arilson Cardoso revela que tem muita dificuldade de contratação de médicos. “O médico não tem a formação para o que nós A médica Maria de Lourdes Freitas Fontes soma 35 anos de carreira e não cansa de aprender. Há quatro ingressou na ESF de Vitória da Conquista (BA) e descobriu que, de alguma forma, sempre havia feito medicina de família, ainda que à sua maneira. Para ela, o contato com a comunidade é essencial para desenvolver a medicina de uma maneira integral. “Na medicina não se abarca todo o conhecimento, mas na medicina de família a gente tem de atender todas as pessoas, todas as patologias. Pelo menos para você conseguir dar uma primeira atenção e encaminhar a pessoa. Eu sinto que é uma responsabilidade muito grande, mas ao mesmo tempo é algo muito prazeroso de se fazer”, conta Maria de Lourdes. Ela acredita que o médico de família deve ter uma visão política. “Tem que gostar de gente, das pessoas, tem de fazer vínculo”, explica. Para ela, sem isso, não há saúde da família. “Quando eu recebo elogios do paciente, eu sei que não sou ótima como a capacidade Especial técnica de medicina. Mas qual é o diferencial? A pessoa se sente acolhida, se sente atendida”, relata. Recentemente, Maria de Lourdes fez o curso de terapia comunitária, com apoio da secretaria de saúde do município. Conta que aprendeu ainda mais sobre ouvir as pessoas. “Às vezes, o que o paciente quer falar, e nem sempre consegue, tem uma relação com o mal estar. Está com falta de ar, mas tem mesmo é um problema familiar. O que faz o corpo adoecer? É o marido que bebe, a filha que está se prostituindo. São patologias que você não pega quando a pessoa simplesmente consulta”, comenta a médica. Vitória da Conquista tem procurado valorizar os médicos de família com a garantia do vínculo de trabalho (CLT) através de uma associação (semelhante à OSCIP), fundada pela Sociedade Civil Organizada com a finalidade de contratação de pessoal da ESF. Além disso, a secretaria de saúde desenvolve uma política de educação permanente. Os médicos são estimulados a participarem de atividades de produção científica: cursos de capacitação, especialização em Saúde da Família, em Saúde Mental, congressos, pesquisas e a integrarem com a rede de ensino superior existente no município. “Temos participado de inúmeros projetos de qualificação associados às pesquisas, a exemplo da terapia comunitária, assistência farmacêutica (farmácia viva) e projetos na área de enfrentamento da violência”, conta a secretária de saúde do município, Suzana Cristina Ribeiro. Em Vitória da Conquista também há programa de residência médica em saúde da família na rede pública. Existem no município 38 equipes de saúde da família. A cobertura corresponde a cerca de 51% da população, sendo 100% de cobertura na zona rural. A idéia é atrair e fixar os profissionais, não só por meio de bons salários e carreira, como pela realização e participação em cursos, especializações, com custo do município. Tudo para garantir a qualificação. Juruti (PA): desafio geográfico Há quase dois anos, o médico Leonardo Costa de Souza, 31 anos, vive uma rotina quase missionária. Graduado em Cuba, onde a medicina social é forte, ele aceitou o desafio de assistir uma comunidade no interior da Amazônia. No município de Juruti (PA), Leonardo vive todos os desafios que um médico de família imagina um dia poder enfrentar. “Até paciente com mordida de porco do mato já tive de tratar”. Depois de fazer residência em medicina de família no Acre, seu estado natal, Leonardo foi contratado pela Prefeitura de Juruti para a ESF. Ele recebe R$ 15 mil (valor líquido) e folga 10 dias seguidos no mês, para poder cursar uma especialização em dermatologia, em São Paulo. Os benefícios são para equilibrar a rotina pesada de trabalho na comunidade em que vive. O local é distante: à cidade de Juruti chega-se apenas de Especial barco ou lancha a partir de Santarém (PA), aonde há transporte aéreo. Chegando à cidade, novo percurso de barco até a Vila Muirapinima (nome de uma tribo indígena). Lá está a casa patrocinada pela prefeitura em que o médico vive. A população da vila é de cerca de 2.500 pessoas, mas Leonardo também faz atendimento nas localidades ribeirinhas. São 32 no total e muitas delas migram por causa da pesca. Nessas, o atendimento chega de ambulancha (um barco com equipamento médico adaptado). Ao todo, a cobertura do médico chega a cinco mil pessoas. “Não dá para fazer o que realmente é a medicina de família. O ideal seria diminuir esta comunidade para cerca de 400 a 450 famílias. Teria de delimitar a área e focar nela”, avalia Leonardo. “Na medicina de família, temos de saber de tudo. Se eu não sei como tratar, pesquiso”, afirma. Leonardo diz que, além das dificuldades geográficas, enfrenta a crença local de confiar excessivamente na fitoterapia e, até, no curandeirismo. “Os pacientes chegam em péssimo estado, em geral com infecções graves porque antes tentaram outras coisas, colocaram casca de árvore, ervas”, diz. Leonardo sabe que a mudança passa pela cultura da comunidade. A secretária de saúde do município, Ana Márcia Cunha, diz que, num primeiro momento, a intenção foi fortalecer a assistência, já que a cidade passou por uma grande expansão em razão da exploração da bauxita por uma multinacional. A secretária conta que, desde o ano passado, está fortalecendo a medicina de família. Na zona urbana, são três unidades da ESF. “Hoje temos uma cobertura de 36% da população. Nessas unidades básicas o que temos fixos é o enfermeiro. O médico faz atendimento itinerante na sua região de abrangência. Não conseguimos ter um médico e um dentista em cada região”, lamenta. A secretária, como boa parte dos gestores do SUS, sabe que grande parte dos atendimentos podem ser resolvidos na ponta, lá na atenção básica. Foto: CEMEPAR Central de Medicamentos e de Riquezas O Centro de Medicamentos do Paraná (CEMEPAR) é referência nacional na produção desses insumos. Como mostra a reportagem de Edma Cristina de Góis, o centro mantém um estreito relacionamento com os municípios para a produção de remédios. Desenvolvimento Do Paraná desponta umas das experiências de êxito da saúde do país, dando exemplo de que um bom serviço não só melhora a vida das pessoas como pode gerar riquezas para a região e potencializar o crescimento de toda a comunidade. A história da concepção do Centro de Medicamento do Paraná (CEMEPAR) começa em 1951, embora só venha a existir oficialmente a partir de 1985. A estrutura do CEMEPAR é única no Estado do Paraná e no Brasil. Ele é responsável pelo gerenciamento de medicamentos e imunobiológicos, cumprindo-se a maioria das etapas do ciclo de “Assistência Farmacêutica”, inclusive no mesmo espaço físico. e acompanhamento da utilização de medicamentos. Destas atividades, somente a dispensação dos medicamentos aos pacientes não é realizada diretamente pelo CEMEPAR. Além disso, o centro mantém constante intercâmbio com as coordenações Estaduais dos mais variados programas da Secretaria de Saúde, onde estejam inseridos medicamentos, bem como com a Vigilância Epidemiológica (VISA), no que diz respeito à Farmacovigilância. Como tudo começou Subordinado à Superintendência de Gestão de Sistemas de Saúde (SGS), da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA/PR), o centro tem como propósito a garantia do acesso da população aos medicamentos dos programas oferecidos pelo Ministério da Saúde e pela própria SESA/PR. Além disso, também é responsável pela implantação e implementação da Política de Assistência Farmacêutica no Estado. Nos anos de 1950, em pleno período desenvolvimentista do país, foi criado o Laboratório Químico Farmacêutico (LQF), com o objetivo de atender a uma pequena demanda de órgãos de saúde do Estado, sobretudo na produção de produtos manipulados. Mais de 20 anos depois, o laboratório consolidou sua atividade industrial e foi credenciado à Central de Medicamentos do Ministério da Saúde (CEME). Na avaliação da diretora do CEMEPAR, Deise Sprada Pontarolli, entre os programas gerenciados destacam-se os medicamentos destinados à Assistência Farmacêutica Básica, os medicamentos estratégicos, incluindo soros e vacinas, os medicamentos excepcionais e os medicamentos especiais, ou seja, aqueles com padronização estadual. A partir disso, o LQF passou a contribuir significativamente na produção oficial de medicamentos não apenas para o Paraná, mas para todo o país. O reconhecimento da qualidade e da eficiência do serviço ficou claro quando o LQF passou a ser classificado entre os primeiros do sistema CEME. Essa fase coincide com anos de muitos investimentos em equipamentos, grande parte deles financiados pelo CEME. Um dos principais motores do Centro, a Assistência Farmacêutica, é estruturada tendo por base o Ciclo da Assistência Farmacêutica, que abrange as atividades de seleção, programação, aquisição, armazenamento, distribuição, dispensação Desenvolvimento Na década de 1980 os dois importantes segmentos de atuação eram o da produção de medicamentos, realizada pelo LQF, e a da logística de recebimento e distribuição de medicamentos, realizada pela Central de Medicamentos Básicos da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (CMB). Esta recebia e distribuía os medicamentos enviados pela CEME, com destaque para os programas estratégicos, alguns medicamentos básicos e destinados à saúde mental, além de ter sob sua responsabilidade o armazenamento dos imunobiológicos, como soros e vacinas. Até que em 1985, por razões estratégicas e operacionais, as estruturas do LQF e CMB foram unificadas, dando origem ao Centro de Medicamentos do Paraná, o CEMEPAR, mas sem a unidade de produção de medicamentos, desativada em 1999. Hoje o CEMEPAR conta com uma sede própria, localizada ao lado do Jardim Botânico em Curitiba, e se tornou uma referência nacional no trabalho que realiza. Desafios Todo o trabalho de estruturação da Assistência Farmacêutica no Estado do Paraná executado pelo CEMEPAR vem sendo construído ao longo dos anos. Alguns pontos, no entanto, são ainda desafios, sobre os quais a direção do centro concentra seus esforços. Alguns desses aspectos são a estruturação dos diversos setores e serviços relacionados à Assistência Farmacêutica, almoxarifados e farmácias das 22 Regionais de Saúde do Estado, e o apoio técnico aos municípios para a organização dos serviços de Farmácia. Outro ponto de atenção e que tem relação com propostas do CONASEMS é a educação permanente dos profissionais envolvidos na Assistência Farmacêutica, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Por meio da capacitação, acredita-se em um melhor aproveitamento dos profissionais, envolvimento destes com a atividade exercida e, por fim, na satisfação da comunidade, quem está de fato na ponta da cadeia. Dois outros aspectos são a busca constante do uso racional dos medicamentos, conhecendo-se com mais detalhes inclusive os resultados de sua utilização pelos usuários do Sistema Único de Saúde e a correta utilização dos recursos públicos para a aquisição dos medicamentos, já que estes geram impacto significativo nos recursos destinados à saúde. Em números O CEMEPAR dispõe de uma área física de aproximadamente 4.500 m2 , que contempla as atividades de gerenciamento da assistência farmacêutica e almoxarifado de medicamentos, imunobiológicos e insumos. São 49 funcionários, sendo 12 deles farmacêuticos. A distribuição dos medicamentos feita pelo CEMEPAR só tem aumentado nos últimos anos. Em 2003, foram mais de 82 milhões de unidades. Os investimentos em medicamentos em 2008 ultrapassaram R$ 260 milhões, sendo R$ 140 milhões só para medicamentos excepcionais. O valor total gasto em 2008 representa um crescimento aproximado de 113% em relação a 2003, quando se investiu cerca de R$ 120 milhões em todos os programas. Até setembro de 2009, essa produção já passava de 153 milhões, mobilizando mais de R$ 250 milhões. O alcance no atendimento também chama a atenção. Somente de usuários beneficiados pela Secretaria de Saúde, cadastrados no Componente de Medicamentos de Dispensação Excepcional (CMDE), para citar exemplo, são hoje 68 mil. O programa abrange pessoas portadoras de doença rara ou de baixa prevalência, com indicação de uso de medicamento de alto valor unitário ou que, em caso de uso crônico, seja um tratamento de custo elevado. Também se inclui neste projeto doenças prevalentes, com uso de medicamento de alto custo unitário ou que, em caso de uso crônico, seja um tratamento de custo elevado, desde que haja tratamento previsto no nível da atenção básica, ao qual o paciente apresentou intolerância ou refratariedade ou o diagnóstico para o agravo esteja inserido na atenção especializada. O componente, que em breve será denominado Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, foi estruturado no Estado a partir de 2005, com a implantação de um sistema de informação gerencial (SIG), denominado SESAFARM. Este prevê, desde o início do processo apresentado pelo paciente na Regional de Saúde, a auditoria médica, o cadastro do usuário, o registro da dispensação dos medicamentos e a geração automática das APACs (autorização de procedimento de alta complexidade). O SIG serviu de base para o Ministério da Saúde desenvolver o SISMEDEX, disponibilizado hoje a todas as Secretarias de Estado da Saúde. Desenvolvido a partir do SESAFARM, programa que se tornou referência nacional, o SISMEDEX foi criado pelo Ministério da Saúde no começo do ano. Trata-se de um novo sistema de informações para o controle de medicamentos excepcionais e especiais. O objetivo do novo sistema é proporcionar a melhoria e a agilidade no gerenciamento dos programas de medicamentos excepcionais e especiais. Em especial três áreas foram incrementadas com a implantação do SISMEDEX, o controle do fluxo de estoque em tempo real, o nível de gerenciamento, possibilitando mais detalhamento das informações, e a obrigatoriedade de inclusão no sistema dos resultados dos exames dos pacientes. Para capacitar os funcionários que lidam diretamente com o programa, o CEMEPAR promoveu treinamentos e cursos destinados à participação dos farmacêuticos e médicos avaliadores das regionais de saúde do Estado. Desenvolvimento Ilustração: Wilson Neto PARCERIAS NA SAÚDE Por Lenir Santos e entre entes privados sem finalidades lucrativas, é possível estabelecer colaboração para a execução dos serviços de saúde. Temos discutido muito a questão das parcerias e terceirizações na saúde. Muitas são as formas de se terceirizar serviços públicos. A própria Constituição, em seu art. 175 dispõe que incumbe ao Estado a prestação de serviços públicos, os quais podem ser executados diretamente ou mediante contrato de concessão ou permissão, sujeitos ao regime de licitação. Os serviços públicos que podem ser concedidos ou permitidos são sempre serviços exclusivos do Estado, prevendo a Constituição o regime de concessão ou permissão. Todos esses serviços são remunerados por tarifas pagas diretamente pelo usuário do serviço. As concessões e permissões de serviços públicos são uma forma de terceirização constitucional. A própria Constituição a prevê. Por isso é preciso cautela quando se fala em terceirização, uma vez que muitas podem ser constitucionais ou legais. O cidadão quando anda num transporte coletivo está usando um serviço público terceirizado, previsto na Constituição. Na área da saúde – que não é exclusiva do Estado, a qual é permitida à iniciativa privada que nela pode atuar nos termos do art. 199 da CF – também se prevê uma forma de participação do setor privado, ainda que de outra forma. O § 1º do art. 199 da CF permite ao Poder Público contratar ou conveniar com o setor privado sempre que seus serviços forem insuficientes para o atendimento da população de uma determinada área. Esses serviços privados, que se pressupõem já existentes e que irão complementar os serviços públicos, seria uma forma de terceirização, uma vez que serviços de terceiros complementarão os serviços públicos. Esses contratos sujeitam-se à lei de licitação (Lei 8.666/93), podendo ser declarada a inexigibilidade de licitar sempre que houver inviabilidade de competição, o que pode ocorrer freqüentemente no SUS, em razão do necessário fracionamento da contratação de serviços de saúde para se constituir redes de serviços. Quanto ao convênio, que tem por finalidade estabelecer parcerias, cooperação entre entes públicos Artigo Essas parcerias podem ser realizadas para a execução de programas, projetos e demais atividades de saúde, havendo entidades que se voltam para a execução dessas atividades como as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs), as Organizações Sociais, as entidades beneficentes de assistência social (entidades filantrópicas), todas elas consideradas parceiras do Poder Público, tendo a Constituição garantido-lhes preferência na complementaridade do SUS. Mesmo que até o presente não tenha sido disciplinado o exercício dessa preferência, cada ente federativo poderá dispor sobre o tema em seu território. O importante a ressaltar é que o SUS pode complementar seus serviços com os serviços de terceiros, devendo apenas cuidar para não transpassar ao setor privado a gestão dos serviços públicos de saúde, própria de entes públicos; tampouco contratar para atuar dentro dos serviços públicos profissionais autônomos, violando o concurso público para ocupar cargos ou empregos públicos. Lembramos que algumas atividades desenvolvidas pelas Unidades Públicas de Saúde podem ser contratadas por meio do setor privado, desde que não se caracterizem como atividades principais, tais como: atividades laboratoriais, radiologia e outros serviços diagnósticos, bem como algumas especialidades médicas. É possível, ainda, contratar serviços de terceiros – consultas médicas, por exemplo – no próprio consultório do médico, que pode se dar sob o formato de contrato de credenciamento. Em todos os casos, exceto nos convênios, a licitação é necessária ou a sua dispensa ou a sua inexigibilidade, quando for o caso. A área da saúde é uma área que contempla o setor privado como complementar de suas atividades. O importante é respeitar os limites previstos na Constituição e na Lei 8.080/90, art. 24, não terceirizando a gestão pública e não violando o concurso público nos casos em que esse se impõe em razão da atividade a ser desempenhada pela administração pública mediante cargos ou empregos públicos. O Poder Público não pode prescindir do setor privado, contudo não pode permitir que esse último venha a ser substitutivo do próprio Poder Público. Lenir Santos é advogada especialista em direito sanitário. Foto: Suki Ozaki Os municípios do Mato Grosso do Sul vem desenvolvendo estratégias em saúde pública adaptadas às necessidades epidemiológicas da região. Um dos pontos fortes tem sido o incentivo às políticas de humanização do atendimento e o trabalho intersetorial, como mostra a reportagem de André Assis. Recorte do Brasil Mato Grosso do Sul nasceu da separação com o antigo território de Mato Grosso, no dia 11 de outubro de 1977, quando o presidente Ernesto Geisel assinou a Lei Complementar nº 31 criando o estado, com capital em Campo Grande. Com uma extensão territorial de 357.124,962 Km2, atualmente, o Estado possui 78 municípios, 165 distritos, quatro mesorregiões e 11 microrregiões geográficas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/2000). O predomínio do clima tropical, com chuvas de verão e inverno seco, caracteriza a vegetação de cerrado na região. Mas, é o chamado complexo do Pantanal – revestimento vegetal em que se combinam cerrados e campos – que surge como a “menina dos olhos” dos sul-mato-grossenses; a maior área alagada do mundo que abriga mais de 260 espécies de peixe, 95 de mamíferos, 167 de répteis e 35 espécies de anfíbios, sendo mais de 650 aves já catalogadas. Recortes do Brasil Mato Grosso do Sul teve inúmeros migrantes do Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e São Paulo e de imigrantes de países como Alemanha, Espanha, Itália, Japão, Paraguai, Portugal, Síria e Líbano. A grande diversidade de raças e culturas contribuiu para o desenvolvimento de um povo simples, acolhedor, com identidade única e repleto de alegria. Outra importante marca na formação do Estado foi a presença de índios na região. Atualmente, é o segundo do Brasil em número de habitantes ameríndios, de várias etnias (Atikum, Guarany – Kaiwá e Nhandéwa –, Guató, Kadiwéu, Kamba, Kinikinawa, Ofaié, Terena, Xiquitano). Com uma população de 2.336.058 (Ministério da Saúde/2008), a economia é essencialmente pecuária. Mas, não se pode desconsiderar a importância da indústria na produção de gêneros alimentícios, seguida da transformação de minerais não-metálicos e da indústria de madeira. Foto: Suki Ozaki Em relação ao turismo, possui fauna e flora reconhecidas internacionalmente. Além do pantanal, um exemplo é o município de Bonito, um paraíso de águas cristalinas. Aos que visitam as terras sul-matogrossenses, outros destinos imperdíveis são: Costa Rica, Bodoquena, Corumbá, Coxim e Rio Verde de Mato Grosso. O perfil da gestão pública tem sido o trabalho para o desenvolvimento de maneira integrada. Os gestores da Saúde Pública, por exemplo, tem desenvolvido mecanismos para que a promoção da saúde seja vivenciada tanto nos municípios fronteiriços, nas comunidades índigenas, nos assentamentos rurais quanto nos centros urbanos. O objetivo principal é proporcionar o melhor atendimento possível, sempre com responsabilidade social, de maneira humanizada e respeitando os princípios básicos do Sistema Único de Saúde (SUS): universalidade, equidade e integralidade. Assim, em 2007, Mato Grosso do Sul foi o primeiro estado do país a contar com 100% de adesão dos municípios ao Pacto pela Saúde, que é um conjunto de reformas institucionais pactuado entre as três esferas de gestão (União, estados e municípios) do SUS, com o objetivo de promover inovações nos processos e instrumentos de gestão. O Pacto redefiniu as responsabilidades de cada gestor, em função das necessidades de saúde da população, na busca da equidade social. Em virtude da celebração do Pacto, o Estado trabalha com o conceito de redes de atenção, organizadas a partir da Atenção Básica e contemplando as linhas de cuidado prioritárias: saúde da mulher, do homem, da criança, do idoso, do trabalhador, e atenção às urgências e emergências. No entanto, só essas redes não bastam para promover a qualidade de vida, sendo necessário incorporar ações de segurança, educação, saneamento, habitação, assistência social, proteção ambiental, geração de emprego e renda. Ou seja, atuação sobre os determinantes sociais da saúde. Para tanto, a integração das políticas tem sido prioridade da gestão estadual da saúde. Recortes do Brasil Campo Grande A capital sul-mato-grossense está eqüidistante dos extremos norte, sul, leste e oeste do Estado, fator que facilitou a construção das primeiras estradas da região. Fundada há 110 anos, Campo Grande faz divisa com seis municípios. Distante a 1.134 Km de Brasília é passagem obrigatória para os visitantes chegarem ao Paraguai e Bolívia; além de possuir uma localização estratégica em relação ao Mercosul e aos grandes centros consumidores do país. Campo Grande possui uma população de 747.189 habitantes (MS/2008). Destaca-se no Brasil em desenvolvimento e crescimento, de forma organizada e planejada. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH/2000) é de 0,814, e já ocupa a segunda melhor posição no Estado. A gestão municipal apresenta 77 unidades de saúde divididas entre Saúde da Família, Básica de Saúde (urbanas e rural), Centros Regionais de Saúde 24 horas e Unidades de Referência, além de hospitais para atendimento de média e alta complexidade. Uma das prioridades da Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau) é a implantação da Política de Humanização nas unidades de saúde, ação esta que prioriza o ser humano, seja usuário ou trabalhador. Os frutos desse trabalho receberam reconhecimento nacional. Durante o 2º Seminário Nacional de Humanização – “Trocando experiências. Aprimorando o SUS”, realizado em agosto deste ano, em Brasília (DF), três premiações foram conquistadas por profissionais de saúde do Estado, duas de Campo Grande: a professora do curso de Enfermagem, Suélen Ribeiro Miranda Pontes Duarte; e a professora de Educação da Associação Brasileira de Enfermagem de Mato Grosso do Sul, Silene Ribeiro Miranda Barbosa. Esses trabalhos tiveram como proposta a execução de ações de valorização e a melhoria para os serviços, o relacionamento da equipe interdisciplinar e a inserção da humanização como disciplina para o curso de Enfermagem. Outra iniciativa importante tem se voltado para a população indígena. Estima-se que cerca de oito mil indígenas vivam hoje na área urbana de Campo Grande. Pensando nessa população, a secretaria municipal de saúde lançou em novembro deste ano o Plano de Trabalho na Atenção Básica aos Povos Indígenas. O plano prevê a admissão de profissionais para atender os bairros com maior concentração de indígenas na Capital. Os Centros Regionais de Saúde dos bairros Tiradentes, Noroeste, Vida Nova e Indubrasil serão reforçados com a contratação de médicos, dentistas, auxiliares dentistas, enfermeiros, agentes de saúde indígenas e assistentes sociais. De acordo com o secretário de saúde do município, Luiz Henrique Mandetta, todos os profissionais serão capacitados para atender as necessidades particulares das populações indígenas. No caso dos agentes de saúde, serão priorizados indígenas na contratação, bem como nas outras áreas em que houver profissionais formados nos respectivos setores. O custeio dessas contratações e da implementação do plano será feito via convênio com a Funasa, que repassará R$ 46,4 mil ao mês, em um total de R$ 556,8 mil. O convênio tem duração de um ano. Recortes do Brasil O Plano de Atenção Básica à Saúde Indígena levou dez meses para ser concluído e foi elaborado junto com os conselhos de saúde e saúde indígena. Além da aldeia urbana Marçal de Souza, Campo Grande tem outras três comunidades indígenas. Vitória contra a Dengue Campo Grande viveu há dois anos uma das piores epidemias de dengue de toda a história da cidade. No total, foram mais de 45 mil casos notificados, com quase três mil confirmados e duas mortes. Para combater a dengue, a gestão municipal integrou todas as secretarias, mas não bastava os gestores trabalharem em conjunto, se a população não assumisse sua responsabilidade na promoção da saúde. Vencer o mosquito era imprescindível, já que diariamente o número de pessoas acometidas pela doença disparava. Era preciso encontrar estratégias para promover a saúde e trazer de volta a tranquilidade aos munícipes. Esse combate foi realizado com a participação dos secretários municipais e toda a equipe desde a área jurídica, até a área técnica. Um desses exemplos foi a atuação jurídica, na medida em que era preciso facilitar a entrada de agentes de saúde nos imóveis. Entre os fatores que agravavam a situação estavam os prédios e residências fechados ou abandonados, muitos com piscinas e caixas d’águas abertas, criadouros das larvas do mosquito Aedes aegypti. Aliados a esses mecanismos legais, foram implementadas ações desde a limpeza da cidade até a ocupação de terrenos antes utilizados pela população como “lixões”, onde foram instaladas empresas de reciclagem, graças aos incentivos fiscais, como isenções no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). A Secrataria Municipal de Saúde de Campo Grande (SESAU) detectou as falhas na prevenção à dengue, como linguagem inadequada para sensibilizar a população em diferentes idades, deficiências no trabalho de campo, onde os agentes comunitários respondiam tanto pela Atenção Básica como pela aplicação do Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD). Com a divisão em seis meses para cada área, a força de trabalho ficou prejudicada. Entre as medidas, a criação do agente comunitário de endemias foi uma das alternativas. Foi preciso estabelecer um plano de atendimento com redução dos danos, estratégias eficientes, pontuadas pelo secretário do município, Luiz Henrique Mandetta: “Criamos a classificação de riscos, antecipando o tratamento, em nossos dois Hospitais Dia, que foram transformados em unidades 24 horas, onde abrimos leitos para internações e a regulação dos casos foi feita pelo Samu, dando suporte para a Atenção Básica. Com critérios, estabelecemos o fluxo, com acompanhamento constante do gabinete, capacitamos a enfermagem, além de contratarmos hospitais particulares para fazer os exames, que passaram a ser reais. Se houve falha na prevenção, ela foi compensada no atendimento ao cidadão”, destaca. Recortes do Brasil No tocante ao envolvimento da sociedade, a Sesau, baseada em pesquisas, elaborou um plano para despertar na população o interesse em debelar a epidemia: uma gincana popular com prêmio em dinheiro, na qual as equipes se multiplicavam com a principal missão de coletar na cidade todo material que serve de criadouro do mosquito, como pneus, plásticos, garrafas, entulhos de construção. A equipe vencedora seria aquela que somasse mais pontos, nas várias atividades organizadas pela secretaria. Dessa forma, a capital venceu a epidemia e, em 2008, o número de notificações de dengue despencou para menos de dois mil casos. No entanto, a luta contra o mosquito e as ações de combate à doença seguem fortes, atualmente, na gincana “Campo Grande Sem Dengue”, estão inscritas 25 equipes com média de 20 participantes, cuja premiação total atinge o valor de quase R$ 100 mil. Sidrolândia Com 61 anos de existência e uma população de 39.636 habitantes, o município de Sidrolândia fica a 64 Km da capital do Estado. Na última década houve um crescimento significativo do município, devido à instalação de várias indústrias, principalmente do setor têxtil e alimentício; além da instalação de assentamentos. O município é um dos campeões, no estado, em número de assentamentos rurais. Recortes do Brasil Na 22ª posição no Estado em relação ao IDH (0,759), a saúde é uma das áreas que mais recebe investimentos. As ações de prevenção e promoção realizadas pelos agentes comunitários de saúde que, em 2009, conseguiram atingir 100% de cobertura populacional, são exemplos positivos – já que a instalação da primeira equipe da Saúde da Família, em Mato Grosso do Sul, foi no município. De acordo com a Secretária Municipal de Saúde, Tânia Maria Patório Rossatto, o avanço da qualidade de vida da população é visível: “em relação à estratégia da saúde da família, a diferença é que não se cuida só da doença, cuida-se também do indivíduo, da prevenção, da promoção da saúde. Para realizar o trabalho e obter sucesso é necessário muita dedicação e investimento. Fora isso, o crescimento na oferta de serviços de qualidade na área da saúde para os moradores de Sidrolândia são muitos, pois existe a preocupação de sempre que possível trabalharmos em parceria com o Estado. Assim, além de executarmos ações temos a contribuição e o apoio necessário da secretaria estadual, inclusive nas capacitações dos nossos profissionais de saúde conseguindo, dessa forma, resultados ainda mais animadores”, declara. Entre as parcerias que deram certo no município está o projeto Toque de Vida, que tem o objetivo de incentivar a criação de redes de desenvolvimento comunitário em saúde para lideranças comunitárias, e aos profissionais de saúde para a prevenção ao câncer de mama, tendo como público alvo: médicos, enfermeiros, agentes e líderes comunitários, esses como multiplicadores dessas ações preventivas às mulheres, profissionais de saúde e comunidade em geral. Outro projeto com aceitação significativa da população é o de Prevenção ao Tabagismo. “Este projeto é realizado já há cinco anos e é tão bem aceito pelos moradores da região que, há seis meses, também implantamos na delegacia a pedido dos detentos. O médico que faz visita periódica ao local percebeu a vontade que muitos tinham em parar de fumar, conversou com eles e então começamos o trabalho. A adesão foi tão grande que ficamos surpresos, no começo era uma média de 100 participantes por reunião e, nos últimos meses, já alcançamos quase o dobro. Nesse período, 41 pessoas, ou seja, 36% dos participantes ativos já deixaram de fumar”, conta. Na área da saúde da mulher, a secretaria oferece oficinas abordando temas como sexualidade e auto estima, auto exame, alimentação saudável, atividade física, auto cuidado para melhora da qualidade de vida, métodos contraceptivos, importância do aleitamento materno, além de desenvolver um programa voltado para a mulher gestante: com tratamento clínico e preventivo, orientação com a higiene bucal e a importância da higienização, risco de transmissão vertical e os cuidados com a saúde do bebê. O fato de no município existirem 17 assentamentos rurais faz com que a secretaria ofereça os serviços de saúde de uma forma diferenciada. Ao todo são 11.584 pessoas que moram nesses assentamentos. Os moradores das aldeias Córrego do Meio e Lagoinha, com 777 habitantes, e os do Distrito de Quebra Coco – com mais 2.350 habitantes – também recebem um atendimento com a preocupação de que as culturas locais sejam respeitadas. Os assentamentos Capão Bonito I e Capão Bonito II contam, cada um, com uma unidade de saúde fixa onde a equipe de saúde da família - composta por médico de família, enfermeiro, auxiliar de enfermagem, agentes comunitários de saúde, cirurgião dentista, auxiliar de consultório dentário e técnico em higiene dental - atendem, além dos moradores desses locais tidos como referência, aqueles que também moram nos assentamentos São Pedro, Vacaria, Capão Bonito III, Barra Nova I, Barra Nova II e Estrela. Já no assentamento Eldorado, que abriga mais de três mil famílias, a secretaria implantou uma unidade de saúde móvel que conta com consultório completo, consultório odontológico e sala de procedimentos. “Nessas unidades, as visitas diárias são acompanhadas pelo cirurgião dentista, pois o trabalho dele exige mais tempo, dependendo da situação do paciente. Como o assentamento tem uma extensão muito grande, antecipadamente os agentes de saúde comunicam o local de atendimento e o cronograma do ônibus para que aqueles que necessitam do serviço possam se programar e ser bem atendidos”, explica Tânia Rossato. Com a consciência do sentido amplo de saúde, desde 2007 o Governo do Estado está investindo em saneamento básico (tratamento de água e coleta e tratamento de esgoto) no município. Dados da concessionária de água do Estado mostram que foi investido R$ 1,2 milhão em obras já concluídas, mais R$ 60 mil que estão em execução e outros R$ 480 mil estão programados para o ano de 2010. Na área de vigilância em saúde, durante a epidemia da gripe A (H1N1) o município, em parceria com o estado, capacitou profissionais de saúde que estiveram de prontidão para atender todos que procuraram as unidades de saúde e alertou a população por meio de mídia impressa e falada sobre a doença. Dessa forma, das 12 notificações (de acordo com as definições orientadas pelo Ministério da Saúde) apenas uma foi confirmada. No caso da dengue, Sidrolândia conseguiu diminuir significativamente o número de casos notificados de 550, em 2007, para 69 no ano passado. Este ano, no período de janeiro até a primeira quinzena de novembro, o município registrou a notificação de 48 casos da doença. “Os resultados mostram que o trabalho em conjunto, além da informação e as visitas realizadas pelos agentes de saúde, são ferramentas fundamentais no combate ao mosquito Aedes aegypti”, afirma a secretária de Saúde. Recortes do Brasil Recortes do Brasil Foto: Suki Ozaki Naviraí Emancipado em 1963, Naviraí conta com uma população de 45.267 habitantes. Localizado a 350 Km da capital, ao sul no Estado, contabiliza oito equipes de saúde da família, um centro de especialidades e um hospital público, onde estão disponibilizados 64 leitos. O município, também como Campo Grande, tem no Programa de Humanização um dos principais destaques da gestão. Instituído formalmente desde 2007, com o intuito de fortalecer os vínculos e apoiar propostas inovadoras que garantam melhorias nos serviços de saúde, conta com uma comissão composta de profissionais que sistematicamente desenvolvem um projeto de avaliação da satisfação do usuário, em todas as unidades de saúde. De acordo com a secretária municipal de Saúde, Sônia Sueko Irokoro, os resultados são apresentados nas reuniões do Conselho Municipal de Saúde, incluindo assim a participação do usuário nas discussões, o que tem fortalecido o relacionamento entre a população e os servidores da área. “Conquistamos importantes avanços, principalmente nas rotinas do Hospital Municipal, que implantou o acolhimento de porta de entrada do pronto socorro, a visita aberta, o alojamento conjunto na maternidade e a educação continuada envolvendo todos os profissionais. Tudo isso refletiu muito positivamente no aumento da satisfação, não só do usuário como também dos trabalhadores daquela unidade”, afirma a secretária. Além disso, Naviraí é um dos dois municípios que é suporte regional do Programa Viva a Vida do MS, âncora da gestão estadual, que consiste na promoção da qualidade de vida no Estado, mediante a adoção de políticas públicas integradas, inclusivas, inovadoras e voltadas para o desenvolvimento sustentável. Dentre os eixos de ação destaca-se o fortalecimento da participação da comunidade, pelo entendimento da importância de que os atores sociais que compõem o território é que elencam as suas necessidades e acompanham as ações da gestão pública na execução das políticas públicas, avaliando objetivos, processos e resultados. Fazem parte do programa 16 municípios que juntos somam aproximadamente 290 mil cidadãos. O principal critério de seleção para ingressar no Viva a Vida foi o levantamento dos menores IDHs de Mato Grosso do Sul. Esses municípios estão localizados nas regiões Sul-Fronteira e Conesul: Aral Moreira, Sete Quedas, Coronel Sapucaia, Itaquirai, Juti, Eldorado, Antonio João, Paranhos, Tacuru, Japorã, Iguatemi, Mundo Novo, Amambai e Laguna Caarapã; sendo que Ponta Porã e Naviraí são municípios considerados referências regionais do programa com IDHs de 0,780 e 0,751, ocupando a 9º e 31ª posição respectivamente. Mundo Novo Distante a 458 km da capital de Mato Grosso do Sul, a história oficial de Mundo Novo teve início em 1976, na divisa com a cidade paraguaia de Salto del Guayrá e com Guaira (PR). Tem uma população de 16.441 habitantes, conforme dados do Ministério da Saúde. De acordo com a Secretaria Municipal de saúde, por causa da fronteira com o Paraguai, o combate as drogas surgiu como um dos pontos de destaque na promoção da saúde. “A nossa população trouxe para a secretaria as dificuldades relacionas ao consumo de álcool e drogas. Partindo daí, elaboramos uma política pública para auxiliar no combate”, afirma a secretária de saúde, Rosária de Fátima Ivantes Lucca Andrade. Neste município, a intersetorialidade é a chave para atender a comunidade de maneira sistematizada e integrada. “Acompanhamos o dependente químico e sua família, prestamos todo o suporte no tratamento. Estamos trabalhando em parceira com a Segurança Pública, Indústria, Habitação, tudo para auxiliar na recuperação dos dependentes”, destaca. Recortes do Brasil Ilustração: Jadson Alves Claunara Schilling Mendonça Perfil Por Luis Fernando Rolim Sampaio Os gaúchos tem muitas características peculiares e creio que todos reconhecem isso. Não é só pelo chimarrão e pelo churrasco, pelos tches e barbaridades. Para os que moram em Brasília, tem a bandeira do “Rio Grande” colada no pára-choque do carro. Mas tem também um jeito especial, tão direto e sem rodeios que às vezes espanta outras gentes do Brasil, acostumadas com a prosa longa, e com muitas voltas, antes de se chegar ao centro da questão. Alguns dizem que quando conversam parece uma briga. Eu mesmo não concordo. Como um bom mineiro, acho que tem um pouco de exagero nisso. Mas, se tem gremista e colorado na mesma mesa, ai é melhor nem comentar. A Claunara conheci na primeira Mostra Nacional de Saúde da Família faz alguns anos. Uma médica de família e comunidade, com muito orgulho, formada na UFRGS, que num posto de saúde do Hospital Conceição começou sua vida profissional como residente. Uma amiga em comum, gaúcha, casada com um mineiro, nos apresentou. Quando nos conhecemos, eu era secretário municipal, mas nas idas e vindas de prefeitos me mudei para Brasília e foi aí que nos tornamos amigos. Quando fui trabalhar no Ministério, em 2001, recebi uma missão da Heloiza Machado: compor uma equipe para ajudar os municípios mais populosos a implantar a saúde da família. Claro, me lembrei da tal gaúcha que tinha um nome esquisito e que coordenava o PSF de Porto Alegre. Vamos lá ver o que se passa em POA e convidar a moça. Quando marquei minha visita ela pensou (e me confessou mais tarde): lá vem aquele “povo do ministério”. Esse preconceito inicial passa, entretanto, quando a gente vira o próprio “povo do ministério”. E foi isso que aconteceu. Após alguns meses Claunara muda-se para Brasília. A experiência de conviver com a Clau foi uma oportunidade ímpar. Mesmo com o nervosismo gaúcho, e com uma economia de palavras de quem está sempre com pressa, conheci uma pessoa carinhosa e cuidadosa, honesta e fiel; uma militante com garra na defesa de idéias e ideais, e, sobretudo, com uma enorme competência técnica. Uma fonte de aprendizado para quem está por perto. Muitos dessas idéias e ideais nós compartilhamos, e acredite: são baseados em evidência! Alguém ainda duvida da superioridade dos sistemas de saúde baseados na Atenção Primária a Saúde - APS? Nós não, mas preferimos ir mais longe: queremos os sistemas de saúde liderados pela APS. A Clau é capaz de debater por horas o tema sem se cansar; mais ainda, agora que concluiu seu mestrado com um estudo primoroso sobre as tendências das internações por condições sensíveis a APS no município de Belo Horizonte. À frente do DAB vem conduzindo sua gestão com a seriedade e o compromisso de sempre Hoje está adoçada pelo seu companheiro que faz música e canta como ninguém, um gaúcho da melhor qualidade. Se puder dizer mais alguma coisa: ela está mais mineira que quando a encontrei pela primeira vez! Luis Fernando Rolim Sampaio é médico e ex-diretor do DAB Perfil A fixação de profissionais de saúde no cerne Por Aparecida Linhares Pimenta, Elizabete Matheus e Silvio do debate Fernandes da Silva Neste mês de novembro, o CONASEMS, por meio de representantes de seu Núcleo de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde e do Núcleo de Relações Internacionais, participou do “Seminário Internacional sobre Fixação de Profissionais de Saúde em áreas remotas, isoladas e de maior vulnerabilidade”. O evento foi realizado em Recife/PE e promovido pela Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde. Este tema é considerado prioritário pela Diretoria do CONASEMS, uma vez que os gestores municipais de saúde têm vivenciado dificuldades concretas de fixar profissionais de saúde, em especial, o médico, acarretando prejuízos na prestação dos serviços de saúde da população brasileira. Assim sendo, o Seminário foi uma oportunidade para aprofundar o debate sobre o tema e buscar saídas solidárias e cooperativas entre as três esferas de governo. A partir das diversas experiências internacionais apresentadas, das reflexões e do debate ocorridos no evento, podemos apontar algumas considerações que são importantes para o aprofundamento do tema com os municípios e a diretoria do CONASEMS. O problema de fixação está relacionado não só com questões geográficas e econômicas, mas também com questões sociais e culturais, visto que existe uma tendência de fixação de profissionais em regiões onde existem mais recursos financeiros, econômicos e com maior desenvolvimento social e cultural. Houve consenso entre os participantes de que estamos tratando de um problema complexo, e no geral há reconhecimento de que seu enfrentamento depende de intervenções em quatro categorias: (1) educativas; (2) regulatórias; (3) incentivos financeiros e (4) condições de trabalho. A Organização Mundial de Saúde (OMS) ressaltou, durante o evento, que devemos utilizar as melhores evidências (estudos e pesquisas) sobre o tema, avaliálas à luz de diferentes contextos regionais para propor um conjunto de recomendações globais, mas sem ser prescritivo. Alguns países (tais como o Canadá) se referiram à importância de selecionar estudantes que residem em áreas rurais ou remotas, em função de possuírem maior probabilidade de se fixar no interior. Artigo Registraram, ainda, que o médico que atua nestas áreas deve possuir múltiplas destrezas e habilidades e criaram Escola de Medicina específica para formar médicos para a área rural. Outra experiência apresentada foi o programa de financiamento estudantil implementado pelos EUA em que o estudante pode liquidar a sua dívida com o Estado através da prestação de serviços nas áreas rurais ou remotas. Caso ele opte pela prestação de serviços e não cumpra o que foi acordado, fica obrigado a pagar a sua dívida em valores que equivalem a três vezes o da prestação de serviço. Esta medida resultou em um aumento de estudantes nas áreas de necessidades. No nosso entendimento o Seminário reafirmou a percepção já manifestada anteriormente por nossa entidade de que o problema da disponibilização de profissionais de saúde - e de forma muito particular do médico - é complexo, está presente nos diferentes países e exige estratégias múltiplas e combinadas para seu enfrentamento. Para tanto, gostaríamos de destacar alguns apontamentos: 1. Especificamente com relação aos médicos, para este ano de 2009 a disponibilidade para o SUS pode ser sintetizada da seguinte forma: • Existem 387 municípios sem médico residindo; • Existe carência importante de médicos para a AB: a disponibilidade de médicos de saúde da família e comunidade é muito baixa, inferior a 10%, sendo que deveria ser da ordem de 50%, além da elevada rotatividade de profissionais nessas áreas, já que 70% ficam menos de três anos no mesmo posto de trabalho; • Existe falta de médicos especialistas em diversas áreas, como mostram estudos recentes elaborados pela comissão instituída pelo MEC e MS, e acompanhada pela CNRM; • Existe dificuldade objetiva de trabalho em áreas geograficamente muito afastadas dos grandes centros urbanos por problemas de acesso e de fixação, e nas periferias das grandes cidades por fatores diversos, a maioria relacionada à violência urbana; 2. Com relação aos profissionais de enfermagem e de odontologia é necessário que o CONASEMS aprofunde os conhecimentos sobre a disponibilidade e dificuldade de Ilustração: Wilson Neto COMBATE A DENGUE fixação; parece-nos que as variáveis divergem substancialmente das que interferem na questão do médico, pois os gestores municipais habitualmente não têm dificuldades para suprir vagas de postos de trabalho nessas áreas; 3. As medidas nos campos educativos, de regulação e de incentivo financeiro e de melhoria das condições de trabalho que estão em curso no Brasil, no geral, tem o apoio do CONASEMS. A questão que precisa ser respondida é: São medidas suficientes para enfrentar este problema? Parece-nos que não e, sem negar a importância das mesmas, como contribuição ao debate, apontamos a seguir os temas que a nosso ver precisam também assumir um caráter de relevância na agenda tripartite do SUS referente a esse problema: A. É necessário construir um consenso entre os gestores públicos, a partir das evidências internacionais, sobre quantos médicos o Brasil precisa para atender a população nas diferentes áreas de especialidades (saúde da família/AB e outras especialidades). A proporção de médicos por usuário adotado como adequada na AB do SUS é inferior ao necessário, segundo mostram as evidências internacionais; aqui é da ordem de 1/3.500 e o mais razoável é que fosse de 1/2.000 B. Os diversos interesses que interferem nesse assunto (seja no sentido de limitar ou de ampliar as vagas existentes) são muito fortes e o interesse, digamos, ‘republicano’ fica secundarizado. As evidências empíricas dos gestores e as evidências em sistemas de saúde mais avançados estão mostrando claramente que não só temos graves problemas na distribuição de médicos, mas também temos problemas importantes na oferta (quantitativo). Faltam médicos para atender as necessidades do SUS e os que existem não são adequadamente distribuídos no território nacional e nas especialidades para atender a necessidade social; C. Nessa perspectiva é necessário que se tenha em mente as seguintes questões: Quantos médicos faltam para atender as necessidades da população? Qual é o perfil do médico que está em falta no SUS? Uma lição adicional trazida pelo seminário é que precisamos de médicos com múltiplas habilidades e destrezas para atuar em cidades distantes dos grandes centros. Médicos que saibam atuar como generalistas e também em pequenos hospitais fazendo partos, cesáreas, cirurgias, dando suporte à vida de pacientes graves enquanto aguardam encaminhamento para outros cen-tros, etc. O processo de formação deve estar condizente com essas múltiplas necessidades; D. Com relação à carreira, incentivos financeiros, melhoria das condições de trabalho, é preciso, entender que a implementação deve estar associada à superação de alguns obstáculos com os quais se defrontam as gestões descentralizadas, tais como os efeitos da LRF, os tetos de salário tendo como base o do prefeito, a longitudinalidade e carreira etc.. A carreira nacional não resolverá o problema e poderá gerar outros. O Ministério da Saúde e as SES podem contribuir com o apoio técnico e financeiro visando estimular os municípios a implementar a carreira municipal que valorize os profissionais de saúde, e construindo alternativas específicas para os municípios em condições de maior fragilidade, trabalhando em conjunto com os gestores na viabilização destas alternativas; E. É necessário investir na melhoria das condições de trabalho como: equipamentos, medicamentos, salários altos; task-shiftting (delegação de tarefas para outros profissionais); Telessaúde/Telemedicina; F. Outras estratégias devem ser construídas, tais como serviço civil obrigatório, facilidades no financiamento do curso, validação de diplomas, brigadas de médicos em situações peculiares. O debate pode e deve continuar e como encaminhamento do Seminário ficou definida a criação de um grupo de trabalho interministerial com as participações do CONASEMS e CONASS para o aprofundamento do tema e a busca de alternativas para o tema. Aparecida Linhares Pimenta é vice-presidente e coordenadora política do Núcleo de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde do CONASEMS. Elizabete Matheus é coordenadora técnica do Núcleo de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde do CONASEMS. Silvio Fernandes da Silva é coordenador técnico do Núcleo de Relações Internacionais do CONASEMS. Artigo Mensagem de Natal Queridos amigos e amigas, parceiros, guerreiros na luta em defesa da saúde Queremos aproveitar este ano que se finda e o próximo ano que se aproxima para refletir sobre os acontecimentos, a jornada do dia-a-dia e concluir, ao final, que tivemos um saldo de crescimento e aprendizado. Agradecemos a todos que contribuíram com o CONASEMS e sobretudo com a luta em defesa da maior política pública de inclusão social – o SUS. Aos funcionários, assessores do escritório do CONASEMS, agradecemos imensamente pelo trabalho, dedicação, cooperação e confiança depositada à nossa Diretoria. Aos nossos amigos da Diretoria do CONASEMS, aos presidentes dos COSEMS, aos nossos grandes parceiros do CONASS, do Conselho Nacional de Saúde e do Ministério da Saúde nossos sinceros agradecimentos pelos momentos intensos que vivemos juntos, com muita negociação e acima de tudo com muita seriedade na construção do SUS, de forma cooperativa e solidária. Passamos por um ano de movimentadas reuniões, oficinas, cursos, plenárias, mobilização pela regulamentação da EC 29. Momentos alegres e difíceis, mas que nos proporcionaram reflexões significativas. Sem dúvida, não somos as mesmas pessoas que éramos no início do ano. Segundo Fernando Pessoa, “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. Esperamos ter força e tranqüilidade para enfrentar os desafios e que os sentimentos de coragem, superação e justiça possam estar presentes em nossos novos dias. Afinal, temos uma luta árdua pela frente em prol da regulamentação da EC 29, da consolidação do Pacto pela Saúde e, sobretudo, para garantir a saúde pública como direito à vida e à cidadania. Desejamos que este Natal potencialize a construção de um caminho de amor, alegria e de esperança e que possamos aprender com os erros do ano que se finda e brindar o ano bem vindo com um sorriso e muito gás para os desafios do ano de 2010. O verdadeiro espírito do Natal é o amor e esperamos que possamos exercitar nossa capacidade de doação e que os corações se iluminem para a partilha do amor ao próximo. Que possamos realizar os nossos sonhos e compartilharmos com todos os que acreditam no SUS. Desejamos a todos um Feliz Natal e um excelente Ano Novo, repleto de paz e alegria e, principalmente, muita disposição para a luta municipalista e do SUS! Ilustração: Wilson Neto Antônio Carlos Figueiredo Nardi Presidente do CONASEMS Mensagem de Natal Por Helma Katia Quem vem pra beira do mar Dorival Caymmi Andei por andar, andei E todo caminho deu no mar Andei pelo mar, andei Nas águas de Dona Janaína A onda do mar leva A onda do mar traz Quem vem pra beira da praia, meu bem Não volta nunca mais Memória Foto: Suely Sobral Quem vem pra beira do mar, ai Nunca mais quer voltar, ai Quem vem pra beira do mar, ai Nunca mais quer voltar
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