The London Eye LONDRES, Grande Bretagne Descriptif
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CONFLITOS NO PATRIMÔNIO CULTURAL PRESERVADO: intervenção arquitetônica do Museu das Minas e do Metal SABINO, PAULO ROBERTO. (1); SOARES, EDUARDO FAJARDO. (2); HOFFMAN, FELIPE. (3) 1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Doutorado/NPGAU [email protected] 2. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Mestrado/NPGAU [email protected] 3. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Mestrado/NPGAU [email protected] RESUMO A preocupação com o Patrimônio Cultural e sua inserção na paisagem tem contribuído para aumentar as discussões em torno das intervenções arquitetônicas em edifícios tombados, inserindo novos atores e trazendo os debates cada vez mais próximos da participação da opinião pública. Entretanto, percebemos que tal discussão ainda está distante da população que usufrui deste patrimônio que faz parte de sua identidade e de sua memória. Muitas vezes as intervenções no patrimônio e suas consequências para a paisagem urbana e cultural são decididas em instâncias políticas e com interesses privados, com graves consequências para o patrimônio, mesmo quando este é protegido por leis de tombamento em diversas instâncias. Este trabalho analisa o processo de intervenção arquitetônica realizado no Museu das Minas e Metal na cidade de Belo Horizonte, dentro do projeto de criação do Circuito Cultural da Praça da Liberdade pelo governo do Estado de Minas Gerais. Visa identificar os conflitos de interesses entre os diversos órgãos envolvidos e as consequências para a preservação do patrimônio e da paisagem cultural. Para tanto foram analisados artigos, depoimentos, documentos e notícias relacionadas ao processo de intervenção, este material foi cotejado com as normas de preservação do patrimônio, como cartas e convenções nacionais e internacionais, bem como as leis de tombamento de órgãos municipais e estaduais. Os resultados deste trabalho revelam uma tensão no processo de intervenção do patrimônio com diversas discussões e conflitos entre os envolvidos, que vão desde a decisão da finalidade do uso do imóvel até os processos jurídicos relacionados ao descumprimento da lei de tombamento do edifício e do conjunto da Praça da Liberdade e sua inserção na paisagem cultural. Entendemos que a falta de uma abordagem mais democrática no encaminhamento de decisões acerca do patrimônio e da paisagem cultural causa graves consequências à integridade e acesso ao bem cultural. Os interesses políticos e privados, muitas vezes se sobrepõem ao interesse público o que acaba resultando em um descaso com o patrimônio que se torna mero elemento de disputa. A coexistência entre o moderno e o antigo é totalmente possível numa paisagem cultural, desde que os conflitos sejam norteados por princípios de preservação patrimonial e não por ideias de espetacularização arquitetônica, muitas vezes associadas aos interesses econômicos privados. Palavras-chave: Patrimônio Cultural, Paisagem Cultural, Arquitetura, Museologia, Museus. Praça da Liberdade: uma breve trajetória Conhecida atualmente por reunir um conjunto de equipamentos culturais a Praça da Liberdade é muito mais que isso, pois é símbolo de um ideal político e social sob o qual a cidade de Belo Horizonte foi construída. O projeto da praça e os edifícios em seu entorno representam um patrimônio da população local, bem como do próprio país. Percebemos que os diversos processos de intervenção aos poucos estão transformando a praça e alterando suas características arquitetônicas. A construção da cidade de Belo Horizonte no final do séc. XIX representava o ideal republicano positivista sob à ordem monárquica representada pela antiga capital Ouro Preto. A Praça da Liberdade foi concebida como o local central do poder e das manifestações cívicas da nova cidade. Inicialmente planejada para receber apenas o Palácio do Governo, a Praça da Liberdade passou também a concentrar os prédios das secretarias de Estado. A localização da Praça da Liberdade no antigo Alto da Boa Vista proporcionou um local de grande visibilidade. Sua forma a transformou em um ponto encontro de três grandes avenidas: duas convergentes: Brasil e Bias Fortes, e uma central, a atual João Pinheiro, inicialmente Avenida da Liberdade, que se prolonga até o Palácio da Liberdade. Tal configuração estabelece o domínio do poder civil, ao contrário das cidades tradicionais onde a Igreja domina o ponto central das praças e das cidades. A paisagem arquitetônica da Praça da Liberdade, de estilo eclético, composta pelo Palácio da Liberdade e três Secretarias de Estado - O edifício da Secretaria de Segurança Pública viria ser construído somente nos anos de 1930 - sofreu diversas alterações desde sua construção em 1895. A primeira grande alteração foi a transformação do jardim de inspiração inglesa em um novo desenho com ascendência francesa na década de 1920. A última grande intervenção ocorreu em 1991, quando a feira de artesanato que acontecia no local desde os anos 1960 foi transferida. Já no início do séc. XX a paisagem arquitetônica da Praça da Liberdade começa a sofrer modificações com a construção de novos edifícios com estilos arquitetônicos distintos, entre eles destacamos a construção em 1937 do Palácio Arquiepiscopal em estilo Art Déco, incluindo a religião junto ao poder político. A vanguarda arquitetônica moderna do arquiteto Oscar Niemayer representada por dois edifícios construídos respectivamente em 1954 e 1960, o Edifício Niemeyer e a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. Outro edifício de estilo modernista é o prédio da futura Escola de Design da Universidade Estadual de Minas Gerais - UEMG, inaugurado em 1965 que abrigava a antiga sede do Instituto de Previdência 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 2 dos Servidores do Estado de Minas Gerais - IPSEMG. A arquitetura contemporânea pode ser considerada no edifício do Museu de Mineralogia Professor Djalma Guimarães, de 1985. Apesar das diversas inserções que são realizadas ao longo do tempo no conjunto paisagístico da Praça da Liberdade, esta ainda representa um local de reconhecimento e memória para a população da cidade de Belo Horizonte, além de um dos poucos conjuntos preservados do projeto da cidade. Local de encontro e de manifestações cívicas e culturais, a praça tem em sua ambiência e também em seu entorno um espaço de sociabilidade. Embora tendo seu início vinculado ao espaço de poder e das atividades oficiais (JULIÃO, 1992), a Praça da Liberdade possui hoje um caráter de fundamental simbolismo para a identidade da cidade de Belo Horizonte e de seus habitantes. Corroborando neste sentido órgãos de defesa do patrimônio da cidade de Belo Horizonte entenderam que o conjunto arquitetônico e paisagístico da Praça da Liberdade fosse declarado um bem tombado. Assim a Praça da Liberdade é protegida pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico – IEPHA-/MG em 1977 e pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte em 1991 e 1994. Tais ações foram necessárias para impedir que o conjunto fosse ameaçado pela sanha de modernismo que sempre assombrou a cidade desde sua inauguração. Segundo Letícia Julião, Belo Horizonte foi sendo destruída e reconstruída "E na sua sede insaciável do novo, a cidade anunciava a instauração de uma lógica de rompimento contínuo com sua genêse [...] inflingindo à sua paisagem e monumentos um envelhecimento precoce" (JULIÃO, 1992. p. 45). Esta motivação da busca do novo em detrimento do antigo não ficou restrita ao início do séc. XX, no ano de 1971 Oscar Niemayer apresentou ao governo do Estado um projeto que previa a demolição do Palácio da Liberdade que, segundo o premiado arquiteto, tratava-se um bolo de noiva, um estilo de mau gosto, para em seu lugar Niemayer sugeriu uma torre de vidro. (PALÁCIO... 2006, p. 20). A Praça da Liberdade, mesmo passando pelas transformações que a moldaram ao longo dos anos, chega ao presente como uma imagem fiel e representativa do próprio processo histórico da cidade, de suas mudanças, destruições e busca pela modernidade. Uma busca desenfreada que a transformou no que é hoje, um misto de estilos e formas arquitetônicas, a primeira vista desordenado, mas que simboliza e preserva a organização social da cidade. De espaço de poder político para centro cultural o uso da Praça da Liberdade e de seus prédios foi reformulado pelo projeto do Circuito Cultural da Praça da Liberdade que parece 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 3 mudar somente o foco do poder: de político-ideológico, para político-econômico com viés cultural, uma tendência mundial que transforma cultura e museus em espetáculo e atribuí à iniciativa privada a gestão dos bens culturais públicos. O Circuito Cultural da Praça da Liberdade foi criado em 2005 por iniciativa do governador do Estado Aécio Neves e da secretária de cultura Eleonora Santa Rosa. Segundo a secretária "Esse circuito vai alavancar Belo Horizonte como uma cidade de turismo de negócios [...]" (O FUTURO... 2006, p. A6) O projeto previa a ocupação dos edifícios públicos da Praça da Liberdade que seriam desocupados após a construção da Cidade Administrativa localizada no chamado vetor norte da Região Metropolitana. A ocupação de cada edifício seria realizado em parceria com a iniciativa privada. Com a previsão de início de algumas das atividades para 2006 (NOVIDADES... 2005, p. G4), o primeiro espaço só foi inaugurado em 2010, o Museu das Minas e do Metal, que passou a ocupar o antigo edifício da Secretaria de Educação. O projeto como um todo foi alvo de diversos processos na justiça sobre as intervenções arquitetônicas que colocavam em risco um patrimônio tombado. Segundo o arquiteto Benedito Tadeu de Oliveira: "As intervenções propostas para as edificações tombadas pelo IEPHA/MG e pelo Município de Belo Horizonte, não visam restaurá-las, mas sim descaracterizam-nas, na medida em que não respeitam seus espaços internos e suas volumetrias, suas intenções plásticas e seus ornamentos, os sistemas construtivos e os materiais originais dessas edificações." (OLIVEIRA, s/d) A sociedade civil conseguiram alguns resultados positivos nos processos, porém não impediram totalmente a descaracterização do patrimônio e o desrespeito as leis de tombamento. Uma das decisões favoráveis foi a não instalação da sede da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais no edifício da Secretaria da Fazenda cujas intervenções modificariam totalmente o edifício. Após seis versões do projeto original e uma ação do Sindicado dos Arquitetos – SINARQ/MG o projeto foi abandonado dando lugar ao Memorial Minas Gerais Vale (FONSECA, 2009). Por outro lado as ações não foram suficientes para impedir a intervenção no prédio da Secretaria da Educação. O projeto interfere não somente nos elementos arquitetônicos do edifício como também na paisagem arquitetônica do conjunto da Praça da Liberdade, igualmente tombada pelos órgãos de defesa do patrimônio. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 4 O descaso com os acervos públicos Para melhor compreender o processo de implantação do Museu das Minas e do Metal dentro do projeto maior de criação do Circuito Cultural da Praça da Liberdade deve-se antes entender a relação da gênese deste museu com dois outros espaços museais que existiam pregressamente no edifício da Praça da Liberdade. O primeiro deles é o antigo Museu de Mineralogia Professor Djalma Guimarães, um museu fundado em 1974 que funcionou até o ano de 1992 em um edifício tombado de estilo neo-gótico construído em 1914, localizado na Rua da Bahia, esquina com Avenida Augusto de Lima. Este edifício que hoje abriga o Centro de Cultura Belo Horizonte e Centro de Referência da Moda já foi sede de diversas instituições histórico-culturais de Belo Horizonte, como o Conselho Deliberativo da Capital, a Biblioteca Municipal, a primeira rádio da cidade, as aulas inaugurais da Escola de Arquitetura da UFMG, a Câmara Municipal, o Museu de Mineralogia Professor Djalma Guimarães e o Museu da Força Expedicionária Brasileira. O Museu de Mineralogia nomeado em homenagem ao importante engenheiro e geoquímico que se dedicou ao ensino da geologia em Minas Gerais e por todo o país, foi reaberto em junho do ano 2000 em um prédio localizado na Praça da Liberdade. A edificação originalmente inaugurada em 1992, conta com concepção pós-moderna e foi projetada pelos arquitetos Sylvio de Podestá e Éolo Maia para abrigar inicialmente um centro de apoio turístico, mas passou posteriormente a abrigar o Museu de Mineralogia. Apelidado de Rainha da Sucata, alcunha que se originou pela utilização, em seu revestimento, de chapas de aço cuja propriedade mais visível é sua oxidação controlada, o que lhe proporcionava um aspecto de ferrugem, acolheu em seus andares até o ano de 2010 o acervo do Museu. Tal acervo era composto de cerca de 3.000 amostras de minerais, rochas, minérios, gemas, fósseis e meteoritos, bem como objetos pessoais e de pesquisa pertencentes a Djalma Guimarães. Com o fechamento do Museu no final da primeira década do séc. XXI originou-se uma movimentação por parte da sociedade e de entidades relacionadas ao campo da geologia, preocupadas com a destinação de tal acervo, notadamente as relacionadas ao ensino da geologia onde o Prof. Djalma Guimarães havia lecionado. Tal apreensão acirrava-se sobremaneira devido as críticas ao “sistemático desmantelamento dos órgãos geocientíficos do Estado” (DUTRA, 2011, p.27) de Minas Gerais e por, no mesmo ano de fechamento do Museu, o Governo do Estado iniciar a construção da Cidade Administrativa, obra com valor estimado em cerca de 1,5 bilhões de reais. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 5 O segundo espaço museal diretamente implicado no processo de gestação do Museu das Minas e do Metal é o antigo Museu da Escola de Minas Gerais, parte integrante do Centro de Referência do Professor que se localizava no “Prédio Rosa” o antigo prédio da Secretaria de Educação na Praça da Liberdade. A Secretaria de Educação permaneceu neste edifício até o ano de 1994, quando foi transferida para uma nova sede, no bairro da Gameleira, passando a abrigar desde então o Centro de Referência. Pioneiro no Brasil, o Museu da Escola de Minas Gerais contava com um acervo de mais de 5.000 objetos, constituído por mobiliários, objetos escolares, livros, cadernos, cartazes, cartilhas, mapoteca, manuais de ensino, fotografias, documentos textuais e arquivo de depoimentos orais. Iniciativa comemorada e destacada no país e no exterior o Museu da Escola teve seu acervo tombado definitivamente aprovado pelo IEPHA em 26 de setembro de 2005. Neste mesmo ano com o inicio das discussões a respeito da formação de um circuito cultural na Praça da Liberdade, iniciam-se também as diversas propostas de destinação do antigo prédio da Secretaria da Educação, que culminarão com a expulsão do Museu da Escola de suas dependências. Inicialmente apresenta-se a proposta de manutenção do Centro de Referência do Professor e do Museu no edifício, através da execução de um projeto de expansão e revitalização com vistas a integrar o Centro de Referência ao projeto do Circuito Cultural conforme protocolo de intenções firmado com o Governo do Estado. Tal projeto teria apoio da Fundação Roberto Marinho e seria executado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha. No entanto no desenrolar dos acontecimentos estabelece-se a transferência do Museu do espaço, em detrimento de um novo projeto, que passa a funcionar provisoriamente entre os anos de 2007 e 2011 no Instituto de Educação de Minas Gerais em espaço diminuto. Por fim em 2012 o acervo do Museu é transferido para a sede da Escola de Formação e Desenvolvimento Profissional de Educadores, Magistra, passando a ser nomeado Museu Ana Maria Casasanta Peixoto, em homenagem a docente da Universidade Católica, da Faculdade de Educação e do Programa de pós Graduação em Educação da UFMG, que se dedicou ao estudo da história da Educação. Foi uma das responsáveis pela implantação do Centro de Referência do Professor e do Museu da Escola. Com o abandono do projeto para ampliação do Centro de Referência do Professor no edifício da Praça da Liberdade, novas propostas tomam forma para a ocupação do Prédio da Antiga Secretaria de Educação, curiosamente, muda-se a destinação do edifício, bem como os patrocinadores da proposta, mas mantêm-se a execução do projeto pelo mesmo profissional, que pouco ou nada altera na medida em que se modifica a destinação da edificação. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 6 O uso do museu como espetáculo Inaugura-se então no edifício, em março de 2010, o Museu das Minas e do Metal, com projeto arquitetônico de Paulo Mendes da Rocha e Pedro Mendes da Rocha e projeto museográfico de Marcello Dantas no qual o investimento estimado do Grupo EBX, para a inauguração do projeto, foi de cerca R$ 23 milhões. O museu tem por objetivo utilizar de forma lúdica tecnologia de ponta para mostrar o universo das rochas, os processos de transformação dos minérios e a importância deles para a vida humana e seu desenvolvimento social, econômico e cultural. Apresenta dois eixos temáticos principais: o Museu das Minas e o Museu dos Metais que subdividem-se em ambientes dotados de projeções e equipamentos “interativos”. É transferido para o novo museu o acervo do antigo Museu de Mineralogia Djalma Guimarães que ganha uma seção dentro do Museu das Minas e do Metal. No entanto no ano de 2013, com a crise no grupo mantenedor do Museu, a EBX, o convênio para a manutenção da instituição não é renovado o que faz com que o Governo do Estado tenha de procurar uma nova empresa para financiar o equipamento. Durante este período para que o Museu não necessitasse fechar suas portas sua administração foi assumida pelo Estado. Estima-se que o custo mensal para operação da instituição seja de cerca de 150 mil reais. Por fim em dezembro de 2013 firma-se parceria com o Governo do Estado para que uma nova empresa assuma a manutenção e a gestão do Museu, a Gerdau. Com evento de inauguração desta nova fase para a instituição realizado em meados de 2014 em que são definidas uma nova identidade visual para a instituição, inaugurados novos espaços e o Museu passa a ser denominado de MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal. Diversas problemáticas se revelam a partir do processo e da trajetória de implantação deste Museu. Podemos destacar aqui algumas das tensões políticas envolvidas e que de certa maneira perpassam pelas questões que definem o campo patrimonial como um campo de disputas e de embates. Tal ponto pode ser exemplificado pela maneira controversa como esta instituição foi implantada, fazendo parte de um projeto político mais amplo, onde foram dissolvidas duas outras instituições museológicas já consolidadas e preexistentes no espaço. O Museu de Mineralogia Djalma Guimarãens que se localizava no prédio conhecido como “Rainha da Sucata” e o Museu da Educação de Minas, que juntamente com o Centro de Referência do Professor ocupavam o prédio da Secretaria de Educação. Museus são fenômenos sociais e, como tais, estão intrinsecamente relacionados às sociedades que os geram. Teóricos que tratam do universo dos museus vêm empregando 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 7 uma expressão para se referir ao campo dos museus: a expressão “diversidade museal”. Desta forma diante da diversidade de instituições museológicas que tem surgido no contemporâneo se destaca o fenômeno da proliferação dos chamados museus-espetáculo. Na conceituação de Abreu, os museus-espetáculo: "[...] são edificados em escala global. Espaços enormes, edificações assinadas por renomados arquitetos contemporâneos, de altíssima tecnologia com realidade aumentada, HQ code, vídeos em 3D, holografias, experiências midiáticas inovadoras conjugadas com propostas arrojadas de gestão criativa e uma boa dose de empreendedorismo. Muitos destes museus são hoje efetivamente mais modernos que grande parte das empresas de ponta em diversos setores. Não há limite de criação para esses templos da cultura e do entretenimento." (2012, p.14) Ainda conforme a autora tais instituições corresponderiam a uma necessidade de atendimento as demandas de uma cultura ocidental moderna, onde a noção de indivíduo associa-se à ideia de privado, de interioridade, ocorrendo uma separação entre indivíduo e sociedade, que leva as pessoas a medirem a vida social em termos de sentimento pessoal, em oposição a uma noção de experiência enquanto vivência compartilhada por um grupo com vínculos sólidos, intergeracionais. Com a implantação do Circuito Cultural grande parte das edificações do entorno da Praça da Liberdade assumiram funções culturais, no entanto se vê que na definição das novas instituições estas tem se caracterizado como projetos marcados por uma espetacularização arquitetônica, muitas vezes associadas aos interesses econômicos privados. A opção de se abrigar novos projetos financiados por grandes empresas, notadamente instituições financeiras e empresas ligadas ao setor de exploração mineral em detrimento dos equipamentos culturais preexistentes no espaço e que se constituíam como demandas sociais legítimas da população local, demarca claramente a construção de um processo político, alicerçado na projeção da cidade através de um marketing urbano que se utiliza da cultura local como mercadoria. É preciso continuar a se questionar este processo de transferência de valores do patrimônio público para as mãos do setor privado, os espaços da Praça são em sua maioria geridos através de verbas advindas da renúncia fiscal que, no entanto são abertamente utilizadas na produção de um marketing cultural para as empresas. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 8 "[...] se for para investir recurso público via isenção fiscal ou investimento direto é melhor reforçar instituições já consolidadas. Mas talvez aí esteja a questão que não surge no discurso dos representantes do Estado. No discurso de projetos que recebem incentivo e patrocínio de empresas, cultura, história e arte são tratados como mercadoria, avaliadas por seu valor de exposição e caem na temporalidade e no ritmo da mídia e do mercado. De um lado a perenidade do mercado, da moda e de outro a noção de legado, de herança, de perpetuação no tempo associada ao patrimônio." (BAHIA LOPES, 2006) Faz-se necessário acompanhar de perto esta aproximação das instituições museais com a lógica do mercado, às exigências do marketing e do consumo cultural. Tais estratégias podem ser capazes de trazer um público e conferir uma visibilidade como nunca visto antes para os museus, mas têm convertido suas exposições em espetáculos, nos quais o museu se transforma em espaço para o puro consumo cultural, fazendo com que sua função educativa e social fique em segundo plano. Nas últimas décadas os museus passaram por grandes transformações e estas mudanças tem se refletido fortemente em seu aspecto físico: [...] tanto pela necessidade de adequação as novas tecnologias de conservação e adequação as obras, quanto pela necessidade de incluir em seu programa de atividades, lojas, cafeterias, restaurantes e a oferta de um sem número de objetos e publicações; e ainda pela busca de formas arquitetônicas cada vez mais espetaculares numa disputa acirrada onde ‘[...] ele, o museu, é obra antes mesmo que alguma obra tenha sido nele mostrada [...]’" (FALCÃO, 2003, p.52) Como apontado pelo autor os museus, na medida em que passam a competir no mercado do turismo e do lazer, começam a incorporar as suas já tradicionais funções, uma função comercial. Esta incorporação por parte dos museus de espaços de consumo garantiu a alguns deles a alcunha de “shoppings culturais” ou ainda “museus shoppings”, que segundo Vaz (2004), seria utilizada para identificar este padrão de grandes museus com forte sentido comercial. Na disputa para atrair investidores e consumidores, estes passam a procurar oferecer um “produto diferenciado”, diferenciação que pode advir da oferta de diferentes serviços, ou da 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 9 atribuição de uma “grife” arquitetônica que objetivaria conseguir o maior espaço possível nos meios de comunicação. O que transforma a construção do edifício em espetáculo pelo simples fato deste ser de autoria deste ou daquele profissional (FALCÃO, 2003). Desta forma observa-se que os museus devem hoje evitar alinhar-se ao processo de massificação dos produtos culturais, não se rendendo aos imperativos do mercado. De uma produção industrial de cultura, de uma indústria do turismo que longe de promover uma democratização do acesso aos bens patrimoniais, operam, na verdade, uma espetacularização do patrimônio. Não se trata aqui de se manter alheio à realidade das novas tecnologias e formas de comunicação, o museu pode sim lançar mão do espetáculo para potencializar sua capacidade informacional e comunicacional, porém estes jamais deverão se tornar mero espetáculo. Faz-se necessário utilizar tais meios sem abrir mão do compromisso das instituições museológicas com o desenvolvimento de uma consciência crítica, da educação pela preservação da memória. A intervenção no edifício da Secretaria da Educação O edifício da Secretaria do Interior teve sua construção iniciada em 1896 e já em 1930 passa a abrigar a Secretaria de Educação e Saúde. O prédio de arquitetura eclética, teve projeto de José de Magalhães seguindo o estilo da nova capital, com elementos neoclássicos de composição simétrica. As pinturas internas e externas foram realizadas por Frederico Antônio Steckel durante os primeiros anos do séc. XX. O artista alemão foi contratado pela Comissão Construtora para decorar vários outros edifícios públicos e residenciais na nova capital. Conhecido como Prédio Rosa por sua pintura externa predominante e da coloração das cantarias da fachada, passou por várias reformas significativas, em 1928 sofreu uma ampliação com a adição de um bloco em "U" criando o pátio interno. O tombamento em 1977 pelo IEPHA incluiu a ampliação por esta respeitar as características originais do edifício. Em 1992 concluiu-se uma grande obra de restauração que buscou recuperar os elementos originais bem como preparar o edifício para o Centro de Referência do Professor. A publicação Arte e Arquitetura no Palácio da Educação (ARTE..., s/d) descreve alguns elementos singulares da arquitetura do edifício, onde destacam-se as quatro colunas de mármore-rosa extraídas da pedreira do Acaba Mundo que ostenta a fachada principal; a semicúpula de metal revestida de estuque com um busto feminino em mármore simbolizando 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 10 a República e a inscrição Secretaria da Educação que coroa a fachada. No átrio encontram-se portões de ferro fundido, trabalhados em arabescos com as iniciais do Estado. O forro do Hall principal é formado por painéis separados por gradis de ferro fundido. A escadaria principal em estrutura metálica é importada da Bélgica e é composta em estilo Art Nouveau, possui degraus e corrimãos de madeira. Dois postes de ferro fundido sustentam globos para iluminação (fig. 1). O interior tem pinturas parietais de Frederico Steckel. Outro elemento de grande valor para a cidade é o elevador de 1923, ainda em operação. O primeiro a ser instalado em Belo Horizonte. Fig. 1 - Escadaria em estrutura metálica da Secretaria de Educação. A edificação passou por vários usos após ser sede da Secretaria do Interior e Secretaria da Educação e Saúde, passa em 1948 a acolher a Secretaria da Educação. De 1994 a 2007 passa a funcionar no local o Centro de Referência do Professor e o Museu da Escola, como visto anteriormente, ambos serão deslocados para a instalação, dentro do projeto do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, do Museu das Minas e do Metal. A primeira proposta para a ocupação do espaço é a implantação do Centro de Indústria, Arte e Cidade, que contaria com financiamento da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais – FIEMG. No entanto a proposta de intervenção no edifício provocou a reação de diversos especialistas em patrimônio. O que resultou em uma Ação Civil Pública movida pelo 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 11 SINARQ/MG contrária a execução do mesmo. Tal mobilização teve como resultados a necessidade de uma reelaboração do projeto e o abandono do empreendimento pela FIEMG. No entanto o projeto que foi oficialmente lançado em 2005 e que devido a estas complicações se encontrava em suspenso, foi retomado em 2009, desta vez, com patrocínio do grupo EBX, para a implantação do Museu das Minas e do Metal. Apesar da mudança do uso o projeto, de autoria de Paulo Mendes da Rocha e Pedro Mendes da Rocha, não foi totalmente alterado causando graves agressões ao edifício e ao conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade, que como já vimos são tombados pelos órgãos públicos de defesa do patrimônio. Para o arquiteto Benedito Tadeu de Oliveira foi convidado "para o desenvolvimento do projeto de intervenção um arquiteto que não tem preparo e sensibilidade para reconhecer valores intrínsecos dos bens culturais, especialmente os tombados." (OLIVEIRA, 2007, p. 1). Destacamos a seguir as intervenções de maior impacto: Demolição de paredes divisórias internas do bloco posterior com pinturas parietais; Abertura de vãos (1º e 2º pavimento) e nas paredes que conformam o pátio; Locação de banheiros no interior do bloco frontal, com destruição de paredes, pisos, pinturas parietais e forro de tela; Retirada de telhados posteriores e platibandas para agenciamento de um novo volume (3º pavimento) de cor vermelha, que sobressai aproximadamente 6 metros na porção posterior do edifício; Locação de uma caixa de escadas e uma caixa de elevador, com estrutura metálica e acabamento em vidro, situadas na porção posterior do edifício, que sobressaem com uma altura aproximada de 8 e 9 metros, respectivamente, acima do limite da elevação posterior original. Ao cotejarmos tais intervenções com as convenções internacionais de preservação do patrimônio percebemos a gravidade e o desrespeito em relação ao patrimônio cultural. Segundo recomendação da Carta de Restauro italiana: 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 12 “Toda intervenção na obra [...], deve ser executada de tal modo, e com tais técnicas e materiais, que possa ficar assegurado que, no futuro, não tornará impossível uma nova eventual intervenção de salvaguarda ou de restauração.” (CARTA...,1972, p. 9) Observamos nas figuras 2 e 3 que as intervenções propostas intervém diretamente na estrutura do edifício original, impossibilitando a retirada da nova construção sem que esta não cause danos ao edifício original. Fig. 2 - Estrutura metálica inserida no estrutura original. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 13 Fig. 3 - Cobertura do pátio interno. A Carta de Restauro italiana também orienta que: “... toda intervenção deve ser previamente estudada e justificada por escrito [...] A realização do projeto para a restauração de uma obra arquitetônica deverá ser precedida de um exaustivo estudo sobre o monumento..., relativos à obra original, assim como aos eventuais acréscimos ou modificações.” (CARTA...,1972, p. 12) O Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural - CDPC apresenta argumento em seu relatório sobre o projeto de intervenção que atesta um possível descaso com o levantamento detalhado e exaustivo de obra em um bem tombado: “[...] a proposta não apresenta diagnóstico detalhado do estado de conservação, nem mesmo a anamnese, prospecções, levantamento arquitetônico atual detalhado com especificações de materiais e épocas construtivas, elementos fundamentais para embasar um projeto de restauração desta envergadura [...]” Outra convenção utilizada para balizar as ações em patrimônio arquitetônico tombado é a Carta de Veneza do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, em relação ao volume e uso de cores orienta em seu artigo 6º: 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 14 “A conservação de um monumento implica a preservação de um esquema em sua escala. Enquanto subsistir, o esquema tradicional será conservado, e toda construção nova, toda destruição e toda modificação que poderiam alterar as relações de volumes e de cores serão proibidas. [...] Os acréscimos só poderão ser tolerados na medida em que respeitarem todas as partes interessantes do edifício, seu esquema tradicional, o equilíbrio de sua composição e suas relações com o meio ambiente.” (CARTA..., 1964, p. 2) Percebemos pela figura 4 que não houve respeito a volumetria do edifício nem no uso das cores, onde o vermelho é utilizado de forma agressiva sobre o sóbrio rosa original da edificação. Pode-se entender que a utilização do vermelho visa destacar a intervenção contemporânea em contraste com o antigo, mas neste caso esta se sobrepõe, impondo-se a construção original. Fig. 4 - Estrutura sobre o edifício da Secretaria de Educação. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro 15 Considerações Finais Este artigo não se propõe a demonizar as ações relativas ao Circuito Cultural da Praça da Liberdade bem como com as intervenções que já foram realizadas. Mas tem a pretensão de ser mais uma colaboração na preservação do patrimônio público e pelo respeito às legislações e convenções nacionais e internacionais. A intervenção arquitetônica não pode se sobrepor ao bem tombado e sim ser instrumento para sua preservação, possibilitando a universalidade de seu uso. O campo do Patrimônio é constituído pelas formas de conflito e negociação que conformam o território das cidades. Somente a instituição de leis e órgãos de fiscalização não bastam para preservar os bens culturais. Como vimos, mesmo com ações na justiça de entidades representativas da sociedade civil e o tombamento em dois órgãos de proteção não foi garantia para a salvaguarda para uma edificação. A preservação de bens culturais é antes de tudo uma mentalidade que deve considerar questões legais e éticas, além da participação ativa da população. Toda intervenção em bens culturais deve buscar a negociação e o equilíbrio das partes interessadas sendo necessário para tanto a criação de um modelo de gestão patrimonial eficiente nos quais os interesses sejam orientados para o bem comum e não para situações pontuais de celebração política. Toda intervenção sempre produz uma modificação no bem cultural. É sempre um processo de ressignificação e de recriação sobre a matéria que conseguiu sobreviver ao tempo. Referências Bibliográficas ABREU, Regina. Museus no contemporâneo: entre o espetáculo e o fórum. In: LOURES OLIVEIRA, A.P.P. e MONTEIRO OLIVEIRA, L. (org.) Sendas da Museologia. 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NOVIDADES, a curto prazo. Pampulha, Belo Horizonte. 10/16 dez. 2005, p. G4. O FUTURO, é o conhecimento. Pampulha, Belo Horizonte. 21/27 dez. 2006, p. A6. OLIVEIRA, Benedito Tadeu. Circuito cultural da praça da liberdade em Belo Horizonte, MG: um desrespeito a um monumento nacional. Disponível em: <http://pt.scribd.com/ doc/81474008/Circuito-Cult-p-Liber-Desrespeito> Acesso em: 10 jun. 2014. OLIVEIRA, Benedito Tadeu. Reflexões sobre a Praça da Liberdade. Estado de Minas, Belo Horizonte, 17 fev. 2007. Pensar, p. 1. PALÁCIO, quase foi ao chão. Estado de Minas, Belo Horizonte. 04 dez. 2008. Gerais, p.20. VAZ, Lilian F. O papel dos equipamentos culturais na revitalização urbana. p.225-238 In: Livro do Seminário Internacional Museus e Cidades. Org. Afonso Carlos Marques dos Santos; Carlos Kessel; Cêça Guimaraens. 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