Presentation ACMI Common Romandie

Transcription

Presentation ACMI Common Romandie
ONE
QUER CIDADE MAIS
ANTROPOFÁGICA DO
QUE CURITIBA?
Revista One 10 – R$ 18,00
Consuelo Cornelsen
À MODA DA CASA
é tudo verdade, 32 – 45 >
LOADING – MUDANÇAS EM CURSO
lifestyle, 20 – 27 >
O MAIS BRASILEIRO DOS CASTELOS
Flávio de Souza em por aqui, 10 – 15 >
Como você vê o mundo hoje?
enquete, 08 – 09 >
Carta a um homem surpreendentemente óbvio
pretexto cotidiano por Tátila Pereira, 16 – 17 >
Três dias, outra cidade
Juliano Monteiro em etecétera, 18 – 19 >
2
Em processo
Anette Skarbek em casa, 28 – 31 >
A Revista One está de cara nova! Em sua edição #10, depois de
experimentações, pesquisas, alguns erros e outros acertos, ela atingiu a
maturidade gráfica e editorial. A diagramação agora tem a assinatura do
diretor de arte Anderson Maschio, dono de olhar e talento singulares. Basta
folhear as próximas páginas e se deixar surpreender com seu trabalho
formidável. A forma de abordagem dos conteúdos também passou por
mudanças, e passa a responder às diretrizes da impecável diretora de
redação Julie Fank. Sob a sua batuta, cada edição da Revista One terá um
fio condutor principal.
Nesta primeira edição da nova fase da One, optamos por explorar o
fenômeno do hibridismo. Nele, conceitos arraigados e tidos como imutáveis
ganham novas perspectivas. A quebra de paradigmas é a palavra de ordem.
O tema não poderia ser mais pertinente. Afinal, o mundo, a sociedade e até
mesmo o jornalismo não são mais os mesmos de uma ou duas décadas atrás.
A equipe de fotografia, jornalismo e colunistas também foi reformulada,
mas sem perder seus balizadores fundamentais estabelecidos desde o
momento de fundação da Revista One, que são a ousadia e a provocação,
atreladas ao bom gosto. Sejam bem vindos os profissionais Camila Rehbein,
Rafael Dabul e Rayssa Baú, entre nossos colunistas que carregam a
bagagem de quem sabe o que está falando.
Existe uma frase que foi mencionada na Edição 4 “The best is yet to
come” (O melhor está por vir). De fato, continuamos com muita esperança,
otimismo e luta, fazendo a One com todo o gás e uma energia que só quem
faz e quem ama sabe. Esperamos que vocês leitores, a partir de agora,
apreciem a nossa nova proposta de publicação, mais estruturada, mais
provocativa, mais madura - um sinal dos novos tempos.
Jeni Baggio
A casa da moda
editorial, 46 – 57 >
Fashion down
voz da veste por Flávio Machado, 58 – 59 >
Por que você ouve música?
linhas de bamba por Guga Azevedo, 72 – 73 >
Entre flamingos e gaiolas
Paradis Club em spots, 74 – 77 >
Repa-gin-ado
Gin Hendrick’s em spots, 78 – 79 >
Anos 50 e 60 traduzidos em açucar
Sweet Lolla em spots, 80 – 80 >
3 bares sensacionais para fazer amigos e conhecer pessoas
minha curitiba por Camila Fabre, 84 – 85 >
3 esconderijos para achar ingredientes impecáveis
minha curitiba por Manu Buffara, 86 – 87 >
3 cafés para matar a saudade da França
minha curitiba por Nieli Braz de Proença, 88 – 89 >
a história da capa, 92 – 93 >
one_line, 94 – 95 >
onde quer que esteja, 96 – 96 >
CONTRA TODAS AS CATEQUESES
Consuelo Cornelsen em capa, 60 – 71 >
O final é só um detalhe
sobre café e cigarros por Vergínia Grando, 98 – 98 >
CRONOPICES
À MODA DA CASA
é tudo verdade, 32 – 45 >
Fosse Julio Cortázar, meu escritor predileto, a escrever esta carta,
entraria numa discussão editorial-existencial-mercadológica sobre a
presença ou não de título, a necessidade ou não de carta, ou a escolha
fidedigna de personagens dado o contexto vampirístico em que a revista está inserida – ou a simples divisão do mundo em tipo de pessoas. Ele ainda viraria este texto de cabeça para baixo e, provavelmente,
convocaria algum de seus personagens para discutir, afinal, qual o
objetivo de um texto precedendo outros tantos textos que vão, melhor
do que este, ilustrar o tema da edição. O escritor argentino, infelizmente, não apareceu para escrever – ele está lá num mundo ao qual
não temos acesso –, e só me confundiu sendo hipoteticamente citado
como participante. Ainda assim, é dele que empresto dois conceitos
que, invisivelmente, me guiaram na criação de um novo conceito editorial para uma revista que ousa ser a primeira já no nome. Do processo
paradoxal e descontínuo de entendimento e interpretação do mundo,
retiro o hibridismo, esse modelo de sobrevivência num mundo que
não obedece mais a padrões e estereótipos. Do processo de criação
de personagens, utilizo a melhor definição de seres pensantes de que
já tive notícia: cronópios, famas e esperanças. Explico: em dois polos
opostos, figuram famas e cronópios. Enquanto os primeiros asseguram-se de que tudo esteja correndo bem para exercer o lado prático
da vida, os últimos vivem em mundo onde o mais importante é a poesia, onde quer que ela esteja. No meio disso, existem os esperanças,
criaturas sendentárias que veem o mundo passar diante dos olhos.
Costurar esses dois fios por meio de nossas matéria-primas – pessoas e informação – foi um processo artesanal. Tínhamos que redesenhar um projeto de consumo de textos, fotos e projeto gráfico com
o cuidado de redefinir um público e contemplar quem antes nos lia
apresentando-se como um novo-já-existente-produto que deveria ter
o frescor dos-últimos-tempos-da-última-semana e vigência de três
meses. Tarefa difícil e desafiadora para uma cronópia recém-chegada
a Curitiba. Com o olhar de quem precisava desvendar uma cidade
além das questões geográficas e com a ajuda de uma equipe fixa, que
tá orgulhosa que só, e de colaboradores que sabem como ninguém
contar histórias, não foi difícil construir uma malha de pessoas que,
sério!, você precisa conhecer. São pessoas que, sem essa de entraves
ou limitações e a despeito de qualquer padrão, sabem dar valor para
cultura, arte e poesia – no sentido mais abstrato dela. São criaturas desconcertantes, insólitas, antológicas, fantásticas e, acima de
tudo, questionadoras. Elas têm alguma coisa a dizer. Foram elas que,
ao lado de nossa equipe, ajudaram a desvendar a Curitiba invisível
que acontece aqui, logo abaixo de nós. Nessa onda, nosso mote é
tentar chacoalhar as fronteiras tão insistentemente colocadas quando
o assunto é arte, idade ou tecnologia. E sobre fronteiras, aliás, não faltam discussões – que vão desde discussões sobre masculino-feminino,
rua-passarela, cidade-pessoas ao inevitável planejamento urbano. A
revista está respirando cronopices e transpirando um mundo mais
democrático, com lugar para toda manifestação autêntica. Esses estranhos mecanismos que modelam o mundo à imagem de modelos a
serem seguidos estão em processo de ruptura – a própria Revista One
é uma delas: uma ruptura sincera com um tiquinho de frio na barriga
e uma penca de questionamentos mesmo diante dos ecos que a sustentam. A Revista One não é mais a mesma, mas você ainda é?
Julie Fank
LOADING – MUDANÇAS EM CURSO
lifestyle, 20 – 27 >
O MAIS BRASILEIRO DOS CASTELOS
ONE
Flávio de Souza em por aqui, 10 – 15 >
direção de redação
Julie Fank
direção de arte
Anderson Maschio
jornalista responsável
Gustavo Zielonka
mtb 4378 pr
redação
Camila Rehbein
Rayssa Baú
produção
Cassio Fabri
Como você vê o mundo hoje?
enquete, 08 – 09 >
colunistas
Flávio Machado
Guga Azevedo
Tátila Pereira
Vergínia Grando
Carta a um homem surpreendentemente óbvio
pretexto cotidiano por Tátila Pereira, 16 – 17 >
Três dias, outra cidade
fotografia
Rafael Dabul
Juliano Monteiro em etecétera, 18 – 19 >
direção comercial
Jeni Baggio
Em processo
Anette Skarbek em casa, 28 – 31 >
representação comercial
A casa da moda
Mídia Santa
R. Padre Anchieta 2050 cj 1507
Bigorrilho, Curitiba, PR
(41) 3039 3009
editorial, 46 – 57 >
Fashion down
voz da veste por Flávio Machado, 58 – 59 >
Bazar de Mídia
R. Euclides Bandeira 1979
Centro Cívico, Curitiba, PR
(41) 3044 0545 • (41) 9638 0808
Por que você ouve música?
linhas de bamba por Guga Azevedo, 72 – 73 >
entregas
Entre flamingos e gaiolas
Paradis Club em spots, 74 – 77 >
Av. Cândido de Abreu 140 sl 204
Centro Cívico, Curitiba, PR
(41) 3079 3666
Repa-gin-ado
Gin Hendrick’s em spots, 78 – 79 >
One
é uma publicação trimestral da
Editora Sofia Romano Eireli
R. Julio Zaninelli 51, casa 1
Bom Retiro, Curitiba, PR
(41) 3016 6139
Anos 50 e 60 traduzidos em açucar
Sweet Lolla em spots, 80 – 80 >
3 bares sensacionais para fazer amigos e conhecer pessoas
sugestões
[email protected]
minha curitiba por Camila Fabre, 84 – 85 >
acesse
www.onecuritiba.com.br
3 esconderijos para achar ingredientes impecáveis
minha curitiba por Manu Buffara, 86 – 87 >
3 cafés para matar a saudade da França
minha curitiba por Nieli Braz de Proença, 88 – 89 >
a história da capa, 92 – 93 >
one_line, 94 – 95 >
onde quer que esteja, 96 – 96 >
CONTRA TODAS AS CATEQUESES
Consuelo Cornelsen em capa, 60 – 71 >
O final é só um detalhe
sobre café e cigarros por Vergínia Grando, 98 – 98 >
4
COLLEZIONE
SIMMETRIAAMBIENTI.COM.BR
CARLOS DE CARVALHO, 1707
41 3027 3100
/SIMMETRIAAMBIENTI
/SIMMETRIA_AMBIENTI
6
“Em todos os lados do mundo, as
pessoas só querem ser felizes.”
enquete
< Alex Corbi, 28 anos, programador
Em um dia no
Passeio Público,
a nossa equipe
perguntou para as
pessoas o como,
afinal, elas acham
que o mundo está
hoje. Tem todo o
tipo de resposta,
olha só!
“O mundo é como uma casa com vários
cômodos, onde cada ambiente é um
lugar diferente. Curitiba parece a sauna,
todo mundo tá bem à vontade”
Marguerite Thierry, 29 anos, estudante >
“O mundo é uma bosta e eu não
pertenço a ele. Como Jesus disse
e está escrito na Bíblia: ‘Eu não
pertenço a esse mundo, nem vós’.”
COMO VOCÊ VÊ
O MUNDO HOJE?
< Nill Alves, 25 anos, tatuador
por Rayssa Baú
fotos Camila Rehbein
8
“O mundo está cada vez pior com
muita violência e medo. A gente
tem que ficar atrás das grades e do
cadeado para se sentir segura.”
Verônica Fernandes, 62 anos, pipoqueira >
“O mundo não está fácil nem difícil, mas se eu fosse
mais novo e tivesse melhores estudos, poderia ajudar
a mudar alguma coisa. Me sinto impotente por não
poder fazer nada para melhorar.”
< João Ozires, 67 anos, aposentado
“Vejo o mundo de pernas para o ar. O ser
humano vive de maneira errada. Há 7
bilhões de pessoas no mundo e 1 bilhão
delas não tem acesso a comida e a água.”
Nicolas Troncoso. 29 anos, agrofloresteiro >
“O mundo está cada vez menor com
tantos meios de comunicação.”
< Álvaro Galeano, 30 anos, agente de turismo
por aqui
Nos exatos 20 anos de estreia
da série Castelo Rá-tim-bum,
conversamos com o criador, ao lado
de Cao Hamburger, de personagens
que até hoje fazem parte de uma
memória coletiva. Flávio de Souza,
recentemente radicado em Curitiba,
fala sobre a TV Cultura, o castelo e
novos projetos
O MAIS BRASILEIRO
DOS CASTELOS
por Julie Fank
fotos Rafael Dabul
10
12
Em algum lugar do Bom Retiro, em Curitiba, nostalgicamente,
esperávamos por um porteiro que exigisse senha. Sem
trilha sonora, suspense ou qualquer plift-plaft-stil, fomos
recepcionados por um homem simpático e tranquilo, recém
radicado na cidade e feliz por poder abandonar a correria e
insegurança de São Paulo. A paixão por Curitiba é declarada,
sempre que vinha, tinha pena de ir embora: “Eu adoro
aqui. Eu vim pra cá porque não queria mais morar em São
Paulo. Lá é bom para trabalhar, mas não para morar. Lá é
sujo, poluído, violento. As pessoas se acostumam a isso lá...
Todo mundo é estressado e mal humorado.”. Ele adianta,
um pouco antes de começar a entrevista: “Sou o Tíbio, tá?!”.
Disse que até pensou em fazer uma camiseta com essa frase
para deixar de ser confundido com alguém que nem é seu
irmão gêmeo, mas reconhece que a timidez e a altura são, de
fato, semelhanças com o ator que viveu o Perônio, Henrique
Stroeter: “É muito engraçado isso porque eu não me ofereci
para fazer o papel, mas, não sei por que, o Cao inventou
que eu era parecido com o cara que fazia o Perônio. Eu não
sou parecido, é só ver a nossa cara. Tem gente que acha
que fiz os dois papéis. Muitos acham que somos irmãos.
Tem gente que pela voz descobre, depois de tanto assistir.”,
conta. O projeto, aliás, é levar para a internet os gêmeos que,
meio atrapalhados, explicavam aspectos da ciência de uma
maneira divertida. Um projeto que ele tӇ para fazer desde
a época do Castelo”. O assunto, aliás, não poderia ser outro,
Castelo Rá-tim-bum, exatos 20 anos depois.
improvisações e fazíamos grupos, alguns escreviam e outros encenavam. Muita coisa era inventada na hora.”, relembra. O grupo chegou a se apresentar no teatro ARENA, em
São Paulo, depois de tanto ensaiar em um galpão alugado
na Oscar Freire. Tudo depois de, finalmente, deixarem o improviso de lado – à época da ditadura, exigia-se aprovação
das peças, e a primeira a ser apresentada em um local público demandou planejamento e a pré-escrita para enviar o
roteiro a Brasília. A encenação da peça foi autorizada pelo
governo: “E foi assim que eu escrevi a primeira peça com
as outras pessoas. Embora eu já tivesse escrito outras peças. A primeira foi “O aniversário da pata Cristina e depois
“Suicidas em revista”. Como eu era bem tímido, muitas das
minhas ideias não eram aceitas e ninguém prestava muita
atenção em mim.. Mas eu achei muito legal escrever sozinho e continuei. Eu ainda tenho esses textos, eles são bem
estranhos e esquisitos!”, confessa Flávio. O grupo acabou e,
a essa altura, a experiência, ainda que aos 20 anos, o levou
a dar aula. No meio do caminho, a revista Recreio apareceu. A peça “Vida de cachorro”, incialmente escrita para a
revista ficou maior do que o esperado. Ele terminou a peça
e a inscreveu para um concurso: “E aí rolou... Foi a primeira peça que eu dirigi e foi o meu primeiro livro. Por causa
desse livro, me chamaram para a TV Cultura. Entrei na TV
Cultura em 1985, com 30 anos.”. Dali em diante, a história já
é sabida – o Rá-tim-bum foi o pontapé para a criação do seu
texto que está há mais tempo no ar.
LÁ PARA OS LADOS DA CIDADE GRANDE
ENQUANTO ISSO, NO LUSTRE DO CASTELO
A carreira de Flávio é uma mescla de bons contatos criados
ao longo da vida no teatro e nas faculdades que iniciou, uma
boa dose de repertório de leituras da infância e adolescência
e o dedo do pai, profissional respeitado da época em que a
editora Abril era uma das primeiras, mas uma pequena editora. Foi ali onde tudo começou: conta que o pai tinha dois
empregos e, por não poder assinar nada para uma editora
concorrente da Abril, colocava o nome do filho nas histórias
em quadrinhos que criava para a editora de um amigo. Nessa época, Flávio ainda estava no berço. A relação com os balões não terminaria aí. Já adolescente, foi chamado pelo pai
para traduzir histórias em quadrinhos no setor dirigido pelo
pai dentro da editora. Dali em diante, o talento só foi sendo aperfeiçoado. Passou um ano e meio na ECA (Escola de
Comunicação e Artes) da USP e também passou pela FAAP,
onde cursou um ano e meio de artes plásticas. A timidez não
foi aliada no curso de comunicação que exigia a apresentação constante de seminários. O refúgio foi a biblioteca da
ECA, onde com uma boa dose de curiosidade e outra de autodidatismo, leu tudo o que podia de dramaturgia.
Ali e no grupo Pod Minoga, ele, de alguma forma, começou a colocar algumas ideias no papel – quase sempre de
maneira coletiva: “É um caminho engraçado, história em
quadrinhos é só dialogo, né? E em inglês as palavras são
bem maiores né, então tínhamos que dar um jeito de caber
no quadradinho. Então, sempre escrevi coisas com gente
falando... Pouco antes disso comecei a fazer parte de um
grupo de teatro e lá, todo mundo tinha que fazer tudo. Algo
bem híbrido mesmo. Todo mundo fazia figurino, cenário e
bastante coisa de artes plásticas. As peças era a partir de
A encomenda da TV Cultura era uma continuação do Rá-tim-bum, programa educativo que já tinha feito sucesso na
emissora. “A gente ia tirar as coisas que não deram muito
certo e substituir por outras. E tem algumas coisas que continuaram não dando certo e iam para o ar mesmo assim porque não tinha dinheiro para regravar. O legal é que muita
gente participou de tudo e a gente teve mais liberdade do
que realmente se tem para fazer televisão, então as pessoas
podiam inventar. E aí a gente começou a inventar, inventar
e chegou uma hora que a gente inventou tanta coisa e quando fomos mostrar para eles, eles resolveram fazer outro
programa. Acharam melhor fazer alguma coisa totalmente nova, ao invés de gastar dinheiro com coisa que já tinha
sido feita. Então, deixa esse programa assim e vamos fazer
outro.”, conta. Na época, Flávio acrescenta que várias pessoas foram chamadas para integrar a equipe, mas somente
Flávio e Cao Hamburger finalizaram na direção. Fernando
Meirelles, diretor geral do programa, não poderia participar
da primeira fase em função de sua produtora (O2 Filmes):
“Por causa do Rá-tim-bum, ele tinha ficado longe da produtora dele e não deu muito certo. Era com isso que ele ganhava dinheiro.” Dinheiro, aliás, não foi um empecilho para
a realização do programa. Apesar de a TV Cultura ser uma
fundação mantida pelo governo de SP, o Castelo Rá-tim-bum foi um programa que teve patrocínio – o que o tornou
grande e caro. “Caríssimo. Vocês não têm ideia de como é
caro fazer um programa daquele. Tanto que não tem outro,
né? Nenhuma televisão de TV aberta quis fazer um programa tão grande quanto aquele.”, diz Flávio.
Entre todas as propostas apresentadas para a concepção
da ideia, apareceram algumas como o “Senta que lá vem
história” (que inclusive virou título da biografia de Flávio
de Souza posteriormente), com histórias maiores e uma
ideia que veio a partir de um curta-metragem de animação de Cao Hamburger feito com bonequinhos produzidos
pela Eliane Fonseca: a história era sobre um tal de Dr. Victor que tinha um castelo. A história continha aspectos do
Dr. Frankstein e era para adultos. A segunda, por fim, acabou por ser a base para a criação do Castelo Rá-tim-bum.
A essa altura, justamente na primeira fase de produção,
Flávio foi chamado para trabalhar no SBT, em virtude de
outro seriado de sucesso, O mundo da lua. “E o Mundo da
Lua foi um sucesso meio absurdo sabe? A gente não tinha
ideia que ia acontecer aquilo. Ia ser um seriado que ia acontecer uma vez por semana, no domingo, e não deu certo.
Aí quando tinham 15, mais ou menos, a Beth Carmona que
era diretora de programação na época disse: Vamos experimentar colocar todos os dias em horário nobre... e deu súper certo, porque virou meio uma opção para as pessoas
que não queriam assistir aquela novela que estava passando naquele canal, naquele horário. E aí por causa desse sucesso eu fui chamado para o SBT, porque na verdade a TV
Cultura teve uma audiência que nunca tinha tido. Mas não
foi da Globo que a gente pegou essa audiência e sim do
SBT. Por isso que o cara me chamou, sabe? E depois eu descobri que o principal objetivo dele era me tirar da TV Cultura para eu não fazer outro programa. Eu fiquei lisonjeado
e acabei aceitando o convite. Não deu nada certo. Escrevi
um seriado que virou da novela das seis, depois das sete e
das oito. Foi mudando, mudando, mudando... E daí eu acabei voltando para o Castelo e deu tempo de escrever ainda
metade dos roteiros porque o Tíbio e Perônio já tinha sito
feito. Foi a primeira coisa a ser gravada. O Cao deixou eu
refazer os roteiros com mais humor e atuar como o Tíbio
em paralelo.”, narra.
Por ter se afastado na primeira fase, outros roteiristas
acabaram criando episódios do Castelo Rá-tim-bum: “Num
determinado momento, a produção descobriu que tinha dinheiro para mais 20 episódios, já que já havia cenário, figurinos etc. Dos 70, devo ter feito uns 36, sei lá.”, fala Flávio. O
sucesso do programa pode ser constatado pela manutenção
no ar pelos 20 anos: estreou em três horários, manhã, tarde e
noite e não saiu da tevê. Flávio não sabe informar em quantos estados o programa foi passado, mas houve um acordo
com todas as televisões educativas do Brasil – o que trouxe
visibilidade a ele como ator e como roteirista. Com potencial para fazer sucesso fora do Brasil, a série ganhou o maior
prêmio que um programa de tevê pode se orgulhar de ter:
medalha de ouro no Festival Internacional de Cinema e Televisão de Nova Iorque. Por uma questão técnica, não pode
ser dublado para outras línguas e, em função da faixa etária, a legenda não era uma opção: “Os diálogos não estavam
separados da trilha, então não dava para vender em outros
países. Depois do prêmio, muita gente do mundo inteiro
queria comprar, mas não dava. Só foi para Portugal, porque
era o único país que não precisava de dublagem.”, lamenta.
A ausência em outros países não diminuiu o poder de influência da série em toda a geração anos 90. Tanto que o sucesso de J. K. Rolling, com a série Harry Potter, que, coincidentemente, conta a história de um aprendiz de feiticeiro e
influenciou parte da mesma geração e toda a geração 2000,
foi questionado por conter elementos muito próximos dos
ícones que constituíam a história de Nino: “É uma coincidência, né? Tem muita gente que acha que eu copiei. É uma
série de coincidências!”. Os personagens, aliás, não surgiram no Castelo. Parte deles veio da tentativa de manutenção do elo com Rá-tim-bum: “O nino, por exemplo, se chama
Nino porque no Rá-tim-bum tinha a Nina. Então ele foi uma
versão masculina dela. (A atriz que fazia a Nina ficou brava comigo durante vários anos). Depois, eu acabei juntando
outras coisas. O primeiro filme que eu vi foi o Fantasia do
Walt Disney, em que o Mickey era aprendiz de feiticeiro. Aí
como tinha a história do Dr. Victor, convenci o Cao a fazer o
cientista feiticeiro. E o Nino acabou virando o sobrinho que
era o aprendiz. E aquelas três crianças faziam parte do Rá-tim-bum 2, eram meio que a ligação. No Rá-tim-bum, a gente inventou uma coisa que era umas crianças que entravam
no lugar e tinham umas portas e elas passavam para outros
mundos. Uma coisa muito louca. Esse programa ia custar
tipo 1 milhão de dólares. Um absurdo.”, resgata.
Ainda que os programas tenham ido para caminhos diferentes e, posteriormente, a Ilha Rá-tim-bum tenha girado
em torno de outro núcleo, os dois programas eram completamente pedagógicos. “Por isso que a FIESP deu o dinheiro,
porque era um programa educativo. O Rá-tim-bum foi muito mais difícil de fazer do que o Castelo, porque era baseado
no currículo oficial da pré-escola da rede pública e tínhamos
que seguir rigorosamente. Por isso que tem, assim, 56 cenas
falando a palavra ‘vermelho’. A gente tinha que ensinar coisas assim... Depois, no Castelo, foi chamada uma pessoa de
fora e ela disse: ‘Tem coisas que a criança ou aprende em
casa ou não aprende e tem problema. Não adianta falar que
o vermelho é vermelho que ela não vai entender.’ Essa profissional olhou o currículo e viu o que poderia ser colocado
na televisão. Às vezes tinha coisa que não dava, como ensinar direita e esquerda, pois na TV fica do outro lado né?!
E daí tinha coisas de músicas que também não dava para
ensinar. Tinha que ser com um professor mesmo. A pessoa
que era responsável pelo currículo não era muito fácil de lidar... Sabe como é, né? Tivemos alguns problemas com isso!
Mas quando chegou no Castelo foi tudo bem mais fácil porque era outra pessoa que estava nesse cargo e as coisas do
currículo ficaram mais flexíveis de usar. Era para ser educativo. Já o Mundo da Lua era algo menos educativo, mas
que falasse de família, amigos e relacionamentos de uma
maneira mais leve, nada muito específico.”, provoca Flávio.
Os bordões e expressões que fizeram parte do processo de
ensino e se popularizaram com o sucesso da série, como
“Porque sim não é resposta”, “Raios e trovões”, ele lamenta,
não foi ele que inventou: “Podia dizer que eu inventei, né?
Mas é feio mentir. Aquilo lá foi coisa de muita gente, pois
muitos escreveram: 3 ou 4 pessoas escreveram os roteiros
principais e mais de 20 pessoas fizeram parte de todo o processo de criação.”. Além disso, elenca nomes e funções que
foram fundamentais para a construção da identidade do
programa: o responsável pelos figurinos, de maquiagem a
sapatos, como Carlos Cardin; Dionisio Jacob que escreveu
vários roteiros principais. André Abujamra, com as músicas e vinhetas do programa, além de outros profissionais.
O Castelo reuniu uma equipe de proporções grandes para
um programa infantil e profissionais de peso foram responsáveis por alavancar carreiras e lançar atores – que até hoje,
como Cássio Scarpin ou Luciano Amaral, carregam as marcas dos figurinos e dos personagens.
DEPOIS DA TV CULTURA
14
Além do emblemático castelo que sintetizava elementos
bem brasileiros e influenciou uma geração, Flávio de Souza
participou da criação de outros programas com um alcance
significativo em termos de audiência, já na TV Globo. Foi
ali, ao lado de Xuxa, que o seu trabalho no Castelo teve mais
reconhecimento e, de alguma forma, fez eco. A capacidade
de mesclar histórias conhecidas como contos de fada e dar
voz a personagens coadjuvantes foi o que fisgou Xuxa. Flávio conta que conhecê-la foi consequência de amigos em
comum, mas somente na casa dela, no meio de uma conversa, ela percebeu que era ele quem ela estava procurando.
Ao buscar uns livros que tinha como inspiração e mostrar
para o roteirista indicado pelo amigo, Xuxa trouxe exemplares de livros de Flávio sem associar a pessoa ao autor: “Eu
gosto de umas histórias que misturam outras. É exatamente
isso que eu quero fazer”, pedia a apresentadora. A surpresa
e a contratação para uma parceria que duraria 4 anos veio
justamente dos livros: “Eu sei fazer! Fui eu quem escreveu
isso!”, conta Flávio.
Ali, dava-se a entrada de Flávio n’O mundo da Imaginação e em todos os outros subprodutos da rainha dos baixinhos, de filmes ao programa, feito especialmente para a
Sasha. Durante um período, chegou a trabalhar somente
para ela, mas quando houve uma mudança de direção e o
programa acabou se tornando um programa de auditório, a
parceria foi encerrada. A influência de Monteiro Lobato é
nítida e orgulho para o autor que sempre leu muito e consumiu todo o tipo de arte: “Eu gostava também muito de cinema, então eu via tudo o que saía. Ou melhor, tudo o que me
deixavam ver, por causa da censura. Eu passava as férias em
uma cidade chamada Itanhaém, uma praia em São Paulo. E
lá tinha um cinema que não tinha muita lógica. Você não
podia ver um filme à noite, mas no outro dia à tarde era liberada a sessão. Então, tudo o que era censurado eu via lá.”.
Esse talvez tenha sido o maior combustível para as mais
de 60 peças que escreveu, algumas montadas, outras, guardadas ou incompletas: a censura que determinava aquilo
que podia ou não ver ou ler – que também o acompanhou
nas bibliotecas que tinha em casa. Apesar de a fama o colocar no patamar pouco reconhecido da literatura infantil e da
infanto-juvenil, grande parte do que escreveu é realmente
destinada ao mundo adulto. A prova disso é um programa
que fez sucesso na TV Globo, o Sai de Baixo, no qual ficou
responsável pelos roteiros e pela redação final em 1996 e
1997, e sua peça de maior sucesso: Fica comigo esta noite,
começou a ser escrita em 1980 e foi encenada em São Paulo,
Rio de Janeiro e outras cidades.
A ESCRITA AQUI, AGORA
E DE AGORA EM DIANTE
A habilidade artística de transitar o texto e a ilustração entre tevê, teatro e literatura, infantil ou adulta, é o que faz de
Flávio de Souza um artista, antes de tudo, talentoso, mas
extremamente indeciso. E é a capacidade de adaptação que
auxilia a experimentação. Ele brinca que sempre acha que
vai decidir sobre sua vida, mas sempre acaba fazendo tudo:
“Teve uma época que eu decidi que iria ser só escritor de
livros. Isso aconteceu há uns 7 anos. E realmente nesse tempo eu escrevi mais livros do que antes.”. Apesar dos mais
prováveis caminhos e convites aparecerem constantemente, é sempre da literatura, onde tudo começou, que atende
o chamado. A explicação talvez seja a timidez notável e o
processo de criação individual: “O mais gostoso é claro, é
escrever um livro porque eu brigo comigo mesmo, depois,
na hora de editar, eu brigo com outros. Mas é muito mais
fácil. Até porque não há um limite de páginas.” A inspiração
para tanta letra são, inevitavelmente, as pessoas e suas conversas: “Parece que eu sou espião. Fico reparando no que
elas falam. Isso me interessa. O que eu sei mesmo fazer é
escrever diálogo, né? Eu acho que tudo o que a gente faz
tem a ver com o que a gente viu, leu, histórias que te contaram... O ser humano é um bicho muito louco.”, reflexiona. A
casa, lotada de livros e uma boa coleção de filmes não nega
que a leitura é sua aliada na escrita e no processo de criação
e recriação de personagens. O livro Que história é essa?,
essencialmente intertextual e composto de quase uma investigação de repertório no qual brinca com personagens
coadjuvantes das histórias infantis conhecidas, é seu livro
mais vendido no Brasil. A tevê, deixou um pouco de lado, já
que, hoje, escrever literatura se tornou sua principal fonte
de renda. Confessa que a questão da criação se tornou um
fator importante também, a criação coletiva da tevê é um
processo delicado quando se pensa na função do autor e em
quem realmente criou alguma coisa. Flávio diz que, no teatro, essa relação acaba sendo mais fácil porque o autor é um
ponto-chave do processo: “Embora sempre falem que autor
bom é autor morto. Você pode fazer o que quiser, né? Cortar
uma frase ou não deixar fazer nada. Já no cinema, o filme é
do diretor e dos atores, então o roteirista é só o roteirista.
E o pior de tudo é a televisão que é a coisa mais coletiva
que tem. E desde que você escreve até ir ao ar, ele passa por
tantas mãos que até hoje, quando eu vejo o Castelo Rá-tim-bum, eu não sei se fui eu que escrevi, e olhe que o lugar
era respeitado. O mais fácil de fazer é sentar e escrever um
livro.”, assume. Fácil mesmo o processo pode até não parecer, mas com o repertório e carreira de Flávio, histórias não
faltam. Daqui para frente, aliás, pretende ficar mais em casa
e aproveitar essas histórias que a memória denuncia nos
momentos de ócio ou de uma vida mais tranquila: Como a
minha principal função é ser escritor, então eu fico escrevendo. Costumam dizer que escritor é meio louco porque
eles têm que ficar em casa sozinhos escrevendo. É algo que
leva muito tempo. Porque não é sentar escrever. Tem horas
que eu tô olhando para a parede e minha cabeça está pensando. Então, eu não saio muito de casa.”.
A introspecção, os óculos e alguns traços físicos lembram o diretor e também escritor Woody Allen – outro que
ainda está em processo de adaptação à superexposição causada pela internet. Flávio comenta sobre o excesso de informação e a incapacidade de selecionar uma informação relevante: “Tem muita gente que usa o celular o dia inteiro para
falar bobagem. Ficam mostrando as coisas que fazem, mas
que só é interessante para elas. Qual é a graça de mostrar o
sorvete que você vai tomar?”, questiona. Ainda assim, convites surgiram no meio digital – e o projeto Tíbio e Perônio
está em processo –, ele usa a internet com frequência, havia
aceitado o nosso convite em uma rede social enquanto essa
reportagem era escrita: “Eu tenho vontade de fazer coisas
digitais. Uma pessoa me convenceu de que a televisão vai
acabar. Tudo vai ser pela internet e as pessoas terão milhões
de opções para assistir.”, quem sabe, né, Flávio? A internet,
aliás, foi quem nos permitiu saber que o MIS (Museu de
Imagem e Som), em São Paulo, está planejando uma exposição que inaugurará em julho para homenagear o programa
que o projetou. Planos não faltam – no processo de escrita
de uma peça e de um livro, este ano, ano de mudança de cidade e de vida, promete pouco texto para quem já produziu
tanto: “Eu tô em várias confusões. Esse ano está meio louco
porque não tem nada muito acontecendo... O ano vai começar em agosto e termina em outubro, né?” Nossa conversa
se encerra por aqui, falando sobre a escrita como profissão.
Você não teve uma formação acadêmica completa e
mesmo assim teve reconhecimento pelo seu trabalho.
Ao que você atribui sua qualidade como profissional
e que recado você deixa para quem quer ser escritor?
Eu li muito, gostava de ler desde criança. Eu escrevi
demais, se eu mostrar uma parte, vocês vão ficar cansa−
dos só de olhar. Leia muito. Pra aprender a escrever, é
preciso ler.
E, como profissional, você já realizou o seu sonho?
Que pergunta difícil. Acho que não!
E qual é o seu sonho?
Ainda não sei, eu acho. Como escritor, eu quero ganhar
o prêmio Nobel de literatura. Como roteirista de cinema,
o Oscar. Uma coisa é que eu gostaria de sair do Brasil
e ser conhecido lá fora. Ser traduzido, quem sabe... Eu
falei pelos cotovelos, né? (risos)
Depois de tanto assunto e tanta história, difícil colocar um
ponto final, até porque, por aqui, sua vida está só começando. Seja bem-vindo a Curitiba, Flávio!
“[...] Então, é isso aí. As histórias
podem ser contadas de vários
jeitos. Você pode contar do
jeito que quiser. Pode mudar
o final. Pode mudar o começo.
Pode mudar o meio. Pode
mudar o nome. Pode tirar e
pôr personagens. Pode virar
de cabeça para baixo, que a
história vai continuar sendo
uma história.”
Trecho do livro Que história é essa?, gentilmente
presenteado pelo autor à Revista One e a esta
escrevente, aniversariante do dia 09 de maio de
2014, mesmo dia em que, coincidentemente, o
Castelo Rá-tim-bum completava 20 anos.
pretexto cotidiano
CARTA A UM HOMEM
SURPREENDENTEMENTE ÓBVIO
De: Tátila Pereira,
jornalista
Para: Luiz Felipe Scolari,
técnico da Seleção Brasileira
Caro Luizinho,
16
Tátila Pereira é jornalista que se
diverte com revista, se aventura
na TV e tem um affair com
o rádio. A paixão mesmo? O
esporte e o noivo - que, aliás, já
foi jogador de futebol também.
Eu já tinha conhecimento de que a surpresa não é uma convidada para as suas festas.
Uns chamam isso de previsível, eu caracterizo como coerente. Se você tivesse esquecido
antes a convocação em um guardanapo rabiscado, ao lado de minha mesa no restaurante,
a curiosidade não me atiçaria, porque sabia que sua lista seria baseada no trabalho dos
últimos meses e sem loucuras. No fim das contas, a lista foi, efetivamente, baseada no
trabalho dos últimos meses e sem loucuras.
Você sabe: Copa é um terreno arenoso de se desfilar; e, isso, antes mesmo de começar.
Até a senhora com o salto 15 na seção de congelados do supermercado comenta sua
escalação. Os argumentos? Lembra dos olhos, das pernas e do sorriso dos que ficaram
de fora. Calma, Luizinho. Desta vez, o zum-zum-zum é bem mais baixo. Não há um coro
nacional te xingando pela falta do Romário. Só uns e outros choramingando por Miranda.
Não seria ele quem ganharia a Copa pro Brasil, mas também não será Henrique quem
causará a derrota brasileira.
No grupo dos escolhidos, homens de confiança tiveram sua preferência. Normal. Eu
também trabalho mais segura tendo quem confio ao lado. Só que não dá para negar:
gera uma ponta de incômodo o Julio César continuar em posição de destaque. Ele deu
derrapadas, e digamos que estar jogando no futebol norte-americano/canadense é um
cartão de visitas longe das tradições da seleção. Porém, siga sua intuição.
Desconfianças à parte, vamos analisar os componentes do elenco. A zaga titular
é o setor do campo onde todos dizem “Amém!”. Thiago Silva e David Luiz – de nariz
novo e cabelo velho –, têm tudo para ser um escudo frente ao meu pé atrás quanto ao
goleiro. Nas laterais, uma torcida de nariz para o Maicon – acho que o bonde dele passou,
entende?! Até o Parreira não queria ele. Vamos lá, o veterano é banco e sei que Daniel
Alves, com ou sem banana, terá forças para não dar brecha.
O meio-de-campo tá cheio de jogador levinho, ousado, inteligente. Criatividade vai
ter, alguma coisa sai. Por ali, tem que ser multiuso, meu bem! Se precisar, tem que atacar,
se precisar, tem que defender. Estamos bem servidos e, além do que eu já tinha certeza, o
Hernanes veio completar o meu sorriso de orelha a orelha.
Ataque sem matador. A frase não é uma crítica. O Fred é um bom finalizador – um
baita de um sortudo –, mas, apesar de eu odiar essas comparações, ele não é um Ronaldo,
não é um Romário. No entanto, vamos pensar no conjunto. Os homens de frente formam
um ataque de respeito. Já achei um exagero o Robinho ter entrado no álbum da Copa,
ainda bem que você não precisou dele para completar a foto do Hexa – só perdemos um
excelente tocador de pandeiro. Já o Hulk preenche a cota reservada à abundância técnica.
Ele tem mostrado bons resultados no quesito.
Que cuecas, campanhas publicitárias fora de hora, a criação de novos penteados e
Brunas Marquezines não tirem o foco da nossa estrela (posso dizer a única?). Neymar tá
com um caminhão de responsabilidade nas costas e com o brio ameaçado Espanha afora,
porém, vejo uma gana danada naqueles olhos verdes – tá com vontade o menino.
Sua segurança é óbvia, Luizinho. Seu farto bigode não esconde a satisfação que você
tem em defender cada uma dessas peças escolhidas, e sei que qualquer argumento
será rebatido, cada opção tem uma importância na sua cabeça. Não questiono. Apenas
observo - eu e mais milhões de pseudotécnicos que surgem a cada convocação da
Seleção Brasileira. Cuide-se, porque, dentro de casa, o buraco é (bem) mais embaixo.
Esperemos que o fator surpresa não seja uma derrota em nossos domínios.
Abraços otimistas
etecétera
TRÊS DIAS,
OUTRA CIDADE
O arquiteto Juliano
Monteiro encabeça a
vinda de evento que
promete colocar muita
gente para pensar e
repensar Curitiba – e
trazer soluções para o
que encontrarem no
meio do caminho
Qual é a ideia do Projeto?
Como o nome já diz, a ideia é projetar e executar uma intervenção urbana que solucione os problemas locais em
apenas 3 dias, mostrando que é possível solucionar de maneira rápida e objetiva os principais erros da cidade.
As ações realizadas são de pequeno porte e têm como objetivo gerar transformações rápidas e certeiras.
Quem pode trabalhar ou colaborar com o “72 hours urban action”?
São selecionadas cem pessoas, e profissionais de qualquer área e de todo o mundo podem participar. Para isso,
é preciso fazer a inscrição online e aguardar a seleção da curadoria que, além de escolher os candidatos, forma
grupos de até 12 participantes. O projeto é um mix de visualizações, culturas, ideias e processos de produção.
Tudo isso dá a cada equipe um certo corpo que dá força ao projeto e faz com que a realização seja tranquila.
por Rayssa Baú
foto Rafael Dabul
Você acredita que as pessoas de fora que vêm pra cá, muitas sem conhecer a cidade, ao olharem Curitiba com
um olhar totalmente estrangeiro, podem auxiliar nesse processo de “pensar a cidade”?
A parte mais difícil por parte da organização é justamente colocar pessoas de fora que mal conhecem a cidade
para participar do projeto. Há dificuldade de concretizar que essas pessoas realmente realizem as ações e tenham
entendimento entre si para que a coisa realmente aconteça. Mas, ao mesmo tempo, elas vêm com uma certa
humildade por saber que estão participando de algo bem maior do que elas em prol de uma outra comunidade,
que não é a delas. Elas vêm até aqui, executam e vão embora, mas trazem muita bagagem cultural e profissional.
18
Como é o trabalho durante esses três dias?
Dentro dessas 72 horas, o tempo é bem dividido. No primeiro dia, acontece a discussão de ideias e a organização
das ações. Depois disso, o projeto passa por uma avaliação junto à banca de engenheiros e arquitetos da organização para então aprovar as ideias e começar a execução.
A profissão é mais complicada do que calça de polvo, mas não para todos. Juliano Monteiro foge à regra.
Formado há apenas seis anos, o arquiteto curitibano
já tem um currículo reconhecido lá fora e um certo
respeito por aqui. Estudou na faculdade de Belas Artes de Madri e desenvolveu o conhecido Ciclo Ponto
na cidade onde vive. O seu primeiro reconhecimento
como profissional veio através de concursos e trabalhos realizados fora do país, com projetos que falavam
do Brasil. Contraditório, não? Foi assim que tudo começou e aí foi só dar continuidade ao trabalho na capital paranaense e continuar investindo em pesquisas
de novos materiais e tecnologias – coisa aliás de que
gosta muito. Misturar o digital com o analógico, a impressão 3D com o manufaturado e a alta tecnologia
com a tecnologia de baixo custo é rotina nas suas pro-
duções e refletem um arquiteto preocupado com um
crescimento sustentável e que atinja a todos. Não à
toa, em 2010, o seu antigo ateliê foi um dos dez escritórios de arquitetura brasileiros listados no diretório
da revista britânica Wallpaper.
Não é à toa que foi ele o responsável pela realização do “72 Hour Urban Action” em Curitiba. O projeto
teve início no ano de 2010, em Bat-Yam, em Israel, com
a curadoria do israelense Kerem Halbrecht e de sua
amiga Gilly Karjevski. A intenção do projeto, como o
nome já diz, é realizar uma intervenção urbana que solucione os problemas existentes em um determinado
local em apenas 72 horas. A proposta é ousada, mas
Curitiba parece ter aceitado bem o aperitivo realizado
nos dias 2, 3 e 4 de maio. É sobre a degustação e o prato principal que Juliano fala com a gente.
No mês de maio aconteceu o teste e a discussão de ideias sobre o projeto. Qual é a sua expectativa depois
dessa primeira impressão?
O primeiro aquecimento foi muito legal e deu pra ter a dimensão da ideia que tínhamos na cabeça e abri-las
para as outras pessoas entenderem o projeto. No entanto, ainda há um processo muito longo de análise de lugares, encontro de locais específicos para as intervenções, avaliação de dados e de problemáticas dos ambientes,
para então fechar as missões e passar para as equipes.
Como foi possível trazer esse projeto a Curitiba?
Esse projeto foi pensado há quase um ano. Eu conheci o pessoal do 72 horas em uma das cidades que eles realizaram o evento no final de 2012. A partir disso, a gente tentou visualizar qual era a maneira de transformar esse
projeto europeu para conseguir trazê-lo para o Brasil. Estudamos, então, toda a planilha de custos, a parte da
administração e de informação do projeto para fazer uma captação via lei Rouanet. Teoricamente, a viabilização
do projeto é via IR, mas pode acontecer também através da ajuda de empresas privadas e/ou governamentais.
E como você vê Curitiba, tem muitas coisas para serem mudadas?
Eu acho que sim. É interessante porque as outras cidades realizadas sempre tinham problemas específicos. Já
Curitiba, acredito que, por seu modo de planejamento e pela sua história, acabou tendo processos que viabilizaram uma certa organização boa da cidade. Ainda assim, acaba tendo muita disparidade em pontos mais
críticos, como a favela da Vila Torres. Aí vamos para um leque de soluções arquitetônicas e urbanísticas bem
mais complexas do que víamos em outros projetos. Acho que em Curitiba há uma dualidade, com uma certa
área que não necessita de mudanças na linha do 72 horas e outras partes em que o problema chega a ser muito
mais complexo do que vemos pela Europa.
lifestyle
As relações, os modos de vida, o autoconhecimento: tudo está em
constante mutação. O caminho é sem volta. Compreenda como ele se
desenhou para algumas pessoas e como ele se apresenta para você
LOADING
– MUDANÇAS
EM CURSO
por Tátila Pereira
fotos Rafael Dabul
20
Seria bom ser ninguém para poder ser tudo e, mesmo assim, continuar a ser nada. Abolir os rótulos, os adjetivos. Quebrar
o campo das probabilidades e dirigir o olhar para as possibilidades. A rotina, o modo de viver, as mudanças trazidas com a
evolução miram essa transformação. É difícil apontar onde ela começou e para onde vai, no entanto, os tremores dessas alterações já podem ser sentidos nos mais variados campos. Pelo que parece, é a nova percepção dada pelas tecnologias que nos
fez notar todo esse alvoroço, já que o mix estava aí faz um tempão. Faz coro a essa ideia o comentário do psicólogo e professor
Daniel Rezinovsky: “A tecnologia diminuiu as distâncias entre nações, culturas e grupos sociais, e a internet integrou conhecimentos de todo o mundo, então essa ‘mistura’ se tornou mais evidente”, observa.
O caleidoscópio pode ter seu eixo no consumo da informação, já que, para onde se olha, ela está tentando atrair o público.
As empresas que detectam para onde vão os gostos de determinados públicos e quais serão as tendências que farão a cabeça
dessas mesmas pessoas se balizam principalmente nessa característica da sociedade da última década – tendo em vista os
prós e os contras de tudo isso. “Lemos milhares de notícias, mas o que nos falta é realmente fazer a conexão e tornar toda essa
informação estratégia para nossas empresas e projetos. Toda essa nova forma de consumir informação trouxe muitos benefícios, mas também alguns pontos críticos. Afinal, no Brasil não estávamos preparados para educar as crianças nesse novo cenário. Nem a formar adultos, profissionalmente falando e nem a ter empresas globais. Estamos em um processo de adaptação,
com muitas perspectivas para o nosso país”, detalha a especialista em tendência e consumo, Nina Rosa.
MODUS OPERANDI
DAS MUDANÇAS
22
Alessandro Martins é
jornalista e atuou por
10 anos em Curitiba
em diversos veículos.
Acredita nas mídias
sociais como forma
de divulgar trabalhos
criativos de maneira
abrangente e efetiva a
baixo custo. Atualmente,
é editor do blog Livros
e Afins e escreve uma
newsletter dominical
para 3 mil leitores.
Datada de agora ou de sempre, a hibridez não pode deixar de ser uma problemática –
ou seria uma solução? – a ser debatida. Alessandro Martins, jornalista, já escreveu em
veículos de comunicação do policial ao cultural. Há alguns anos, encontrou uma forma
mais livre de trabalho, sozinho, do seu jeito. Editor do Blog Livros e Afins e autor de uma
newsletter dominical, ele também reconhece que o que ocorre agora é a nitidez do que
já existia. “Antes os meios de comunicação só tinham espaço para o normativo. Agora,
temos acesso a tudo o que é diferente no mundo que nos cerca e estamos nos permitindo mais a ser diferentes. Se todos são diferentes e se permitem a isso, o resultado é
muita mistura e diversidade. Algumas pessoas têm mais facilidade para aceitar isso. São
flexíveis. Outras, não”, explica.
É saudável mudar de opinião e Alessandro fez isso para se sentir mais feliz pelo caminho – o que não ficou restrito ao campo do trabalho. Após a separação, ele começou
a olhar os relacionamentos de uma nova forma. Decidiu que, para ele, a monogamia não
era o melhor. “Tem a ver com autoconhecimento e com clareza do que se quer para si e o
que se pode dar para as outras pessoas”, ensina. Hoje, ele se relaciona com mais de uma
mulher por vez. Elas sabem e compactuam da forma que preferirem – proliferando o tipo
de relacionamento ou ficando apenas com ele. “Acredito que relacionamentos afetivos
são ricos demais e que as pessoas são diferentes demais para que se limitem a um único
tipo de relacionamento. O que serve para mim não serve para a maioria. E o mesmo vale
para qualquer pessoa”, aponta.
A reflexão frente aos relacionamentos foi tão profunda que Alessandro decidiu que
ofereceria outros de seus serviços, além dos textuais, pela internet. Criador do site www.
namoradodealuguel.com.br, hoje fora do ar, ele colocou à disposição seu tempo e sua
atenção às mulheres que disso carecessem. As tarefas disponíveis iam desde fazer compras com você até acordá-la com carinho – pacotes a serem definidos de acordo com a
necessidade da contratante. Por R$ 100,00 por hora, era possível ter algum – ou vários
– desses agrados. O jornalista não revela quantas mulheres clicaram em “alugar” no site,
no entanto, deixa claro que foi a interpretação errônea de muitas pessoas que o fez deixar
o projeto em stand by.
FRONTEIRA DA SEXUALIDADE
ROMPIDA
24
Maite Schneider também se sentia incomodada com a sua situação. Com um irmão mais
velho e uma irmã mais nova, sempre teve mais afeição pelo universo da caçula. Ela nasceu
ele e teve que enfrentar um espelho que a mostrava como suja e pecaminosa. Até suicídio
tentou. Com 16 anos, decidiu exteriorizar ao mundo o que realmente era, mas ainda faltava
algo. Na tentativa de romper a barreira da sexualidade, não só nas preferências, mas também fisicamente, ela tentou auto-operação. “O ato não deu certo, começou uma hemorragia, desmaiei e fui acordar num pronto-socorro em minha cidade. Quase fui internada
como louca, falei que não iria mais tentar, me costuraram novamente, mas não tirei a ideia
de tirar os ‘malditinhos testículos’ de lá de dentro”, relembra
A insistência se deu, mais uma vez, na clandestinidade. Foi à procura da liberdade sexual no Paraguai. Mesmo sem sedação, conseguiu se livrar daquilo que lhe importunava.
Só que uma infecção generalizada se espalhou pelo corpo de Maite. Com a ajuda de amigos e simpatizantes, ela conseguiu arrecadar dinheiro para, enfim, concluir o que ela chama de “encontro consigo mesma”. Toda a coragem para a transformação parecia ter apoio
incondicional. Porém, a família não olhava com bons olhos as alterações. Foram 10 anos
sem falar com a mãe. O porto seguro acabou sendo o pai. Fora o ambiente familiar, a sociedade como um todo a punia sem ter um motivo. “Polícia parando para me revistar, sem
ter motivo algum, somente para fazer chacota ou ficar criando desconforto. Andando pela
rua, já tive sacos de farinha jogados na cabeça, ovos jogados de janelas de carros, sacos de
lixo pelas costas. Também já sofri violência física pelo simples fato de existir. Inúmeros
estabelecimentos comerciais não me deixaram entrar e de outros tantos fui retirada, sem
motivo algum também”, conta.
Nesse cenário nada favorável, ela encontrou forças para lutar pelos outros também. A
causa LGBT passou a ser sua camisa: “Tornei-me militante para não ser morta. Tornei-me
militante para não matarem as pessoas que amo e estão no meu dia a dia. Serei verdadeiramente feliz o dia em que não precisarem existir mais paradas para reclamarmos da falta
de direitos e contabilizarmos publicamente nossos óbitos. Ficarei feliz e realizada quando
houver paradas pela felicidade de sermos quem somos, quando quisermos e pela vida que
possuímos”, protesta. A vontade de não só se orgulhar da vitória própria, mas querer que
outras pessoas também a conquistem, é algo raro – um relevante sinal do rompimento de
alguns paradigmas. “As possibilidades de se esquivar de si mesmo, da nossa condição
real, são múltiplas e onipresentes. Transcender as nossas máscaras sociais e encontrar o
outro é algo extremamente difícil hoje em dia”, aponta o psicólogo.
O que já oferece perspectivas melhores é que, junto do carrossel de mudanças, a aceitação começa a abrir suas portas. “A sociedade está mais aberta a ouvir, discutir e falar.
Nesse ponto, creio que a sociedade esteja mais bem preparada. Mas, do pensar para o agir,
ainda existe um grande abismo, assim como há um preparo para aceitar, quando é na família do vizinho, ok, dificilmente em nossa própria”, comenta Maite.
Maite Schneider é atriz
profissional, poetisa,
escritora, depiladora,
trabalha com TV,
rádio e webdesign.
Além disso, luta por
um mundo em que as
pessoas possam ser
elas mesmas, sem medo
de arrancarem seus
direitos e até perderem
sua vida.
A FORMA DE
CONSUMIR JÁ
MUDOU
26
As empresas seguem a mesma
trilha das alterações, também
com os olhos um pouco vendados, sem ter a total clareza do
que será encontrado pela frente.
E o conhecimento é buscado, digamos, na fonte. O século xxi é
marcado pelo estudo do cérebro
e, com isso, a criação de gadgets
ligados aos corpo humano. O
que será feito com isso? Estratégias de vendas. “As empresas
terão ainda mais dados e é aí
que entra o big data, que é um
conjunto imenso de dados e
informações à disposição das
empresas. As grandes empresas
já possuem muitas informações
e estão desenvolvendo formas
de transformá-las e utilizá-las
para decisões estratégicas. Porém, com esses novos gadgets,
teremos informações a respeito
das preferências e do processo
de tomada de decisão de cada
um, o que até o momento não
tínhamos”, ensina Nina Rosa.
O mercado, portanto, terá que
não apenas ter os produtos
que o seu cérebro exige, como
também formar profissionais e
empresas para lidar com essa
nova era de artimanhas baseadas no que o consumidor pensa
e decide – e quer.
E AMANHÃ,
SERÁ COMO?
Daniel Rezinovsky é psicólogo,
ministra cursos de psicologia
e filosofia, coordena grupos
de meditação e é estudioso
de filosofias orientais e das
implicações da física quântica
para novas teorias sobre a
natureza da consciência.
Na lida pela conquista da quebra de fronteiras, da hibridez total, a análise de como as
gerações enfrentam os problemas traz um esboço daquilo que ainda pode ser feito. “Por
um lado, a geração de agora está deparando com um mundo que se encontra numa crise
profunda e, a partir disso, está sendo forçada a contemplar novas formas de consciência e
de existência, como vimos emergir nas manifestações do ano passado. Por outro lado, as
últimas gerações são conservadoras, preferindo seguir caminhos bem estabelecidos a for−
jar uma trilha que os leve para as suas próprias vocações”, assegura o psicólogo Daniel.
O processo pode começar a se inverter, só que de forma menos intensa. À medida que
nos abrimos às possibilidades do mundo, também poderemos regredir e nos fechar – tudo
como ferramenta de autoconhecimento. “Parece que estamos perdidos e que com isso
não sabemos mais qual a nossa essência com tanta informação ao mesmo tempo. Por isso
esse movimento de nos isolarmos, tentarmos nos encontrar, entender o que está aconte−
cendo e qual o nosso papel no meio desse caos já está começando a acontecer. Acredito
que não teremos um movimento de se fechar por completo, mas momentos de se afastar
da internet e de tanta informação, e outros de utilizá−la de uma forma mais prudente e
produtiva”, prevê a especialista em tendências.
Rasgar os rótulos é um processo – lento, mas concreto. Os passos necessários para
ele Maite já sabe. “Está faltando pararmos de achar que tudo na vida é azul versus rosa,
macho versus fêmea, homem versus mulher, brancos versus negros. Não devemos aceitar
essas brigas desnecessárias que instigam o nosso cotidiano, mesmo que não percebamos,
parecendo que tudo isso é natural e está em nosso código genético”, completa. Alessan−
dro também explicita o que ele nota em suas relações. “As comunicações melhoraram
muito, particularmente, por conta da internet. Comunicação é uma das palavras−chave
para os relacionamentos. Se eu me comunico − e com clareza, isso é muito importante −
a pessoa ou as pessoas com quem dialogo têm uma imagem clara de quem sou, se têm
afinidade comigo, se querem se aproximar ou se afastar ou manter um posicionamento
neutro. A internet teve um papel como um meio de aplicar essa regra globalmente, agluti−
nando pessoas que pensam de modo parecido e oferecendo um ambiente de exercício da
aceitação do que é diferente. E, a partir dela, da internet, estamos aprendendo a aplicar
esse comportamento ao cotidiano. Não tenho o hábito dessa separação entre vida virtual
e vida real. Tudo é vida real. Então, considero que o mundo está cada vez mais preparado
para o que não é normativo”, contextualiza o jornalista.
Deu para perceber como, até mesmo, a forma dessa metamorfose se apresentar está
em cima do muro. A cada um ela sorri de uma maneira. No entanto, os discursos se en−
contram em um ponto em comum: a modificação está aí, ritmada com passos ora vagaro−
sos, ora acelerados, rumo a não se sabe onde. Continuamos nessa busca.
em casa
Falar sobre o processo criativo
está na moda. Como se fosse
fácil. Annette não fala sobre. Ela
o sente e o promove. Suas obras
estão sempre em curso numa
arte que é quase necessidade.
EM PROCESSO
por Julie Fank
fotos Rafael Dabul
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A amplitude da sala que nos recepciona em um branco interminável se mescla às brechas deixadas nas obras de sua
última composição. É com a mesma serenidade da cor escolhida para estrelar sua casa, que a artista plástica e procuradora Annette Skarbek nos dá boas-vindas. Tímida e reservada, ela confessa que, ao dar entrada no curso de pintura
com pouco mais de 17 anos, era sonhando com um curso de escrita que deu continuidade. Ainda que colocassem
um objeto na sua frente para que o desenhasse, não conseguia expressar através de traços o que sentia ou percebia
do objeto – o que acabou virando constante no trabalho paralelo à função pública que exerce. Desde a formação em
direito, na UFPR, até o período em que se afastou do trabalho para se preparar para concursos públicos, Annette passou por uma formação complementar em artes visuais que não deixa a desejar em relação à sua experiência jurídica:
foi desde um curso de desenho e pintura na École Nationale Supérieur dês Beaux-Arts, em Paris, em 1996, a um mestrado na New York University iniciado em 2011. No começo da carreira, esboçou alguns traços na conhecida oficina
do artista Jair Mendes, no Museu Guido Viaro e, na sequência, em 1983, estudou gravura em metal e litogravura no
ateliê livre do Solar do Barão com Uiara Bartira. Apesar de ter investido tempo e dedicação à formação livre em artes
plásticas, descarta qualquer possibilidade de depender financeiramente do sucesso na carreira. A liberdade de criar
em momentos espaçados e de lazer não aprisiona nem amedronta quem faz do trabalho ordinário combustível para
o trabalho que, finalizado, ganha o prefixo extra-. Os hiatos justificam a produção lenta e quase artesanal - praticamente noturna: “É engraçado, parece aquela história da Penélope, né? De noite, ela desfazia. Comigo é ao contrário.
Às vezes eu penso: vou fazer tal coisa, é realmente isso?, mas o que eu vivo durante o dia me tira daquilo. Então, o
trabalho que eu faço durante a noite é de me recolocar naquilo e não tanto o processo de fazer desde o início. Por
isso, essa lentidão”, compara. Sobre o processo de fazer e a ausência criativa que o trabalho do dia promove, não reclama: “Eu acho legal o que eu faço, acho que tem uma importância para o país. Isso faz bastante diferença para mim.
Nunca pensei em largar tudo para ser artista. Até porque isso tira muito a liberdade da pessoa, né? Então tá, estou
fazendo uma coisa legal, mas aí no outro ano eu faço alguma coisa que as pessoas não vão gostar.”. O trabalho acaba
sendo também a ponte para que suas obras ganhem paredes que as pendurem – seus colegas são seus maiores compradores. Recentemente, algumas de suas produções foram compradas para decorarem a Associação dos Procuradores. Na data em que recebeu a equipe da revista, uma prova do reconhecimento estava prestes a vir: comemorava
a aceitação em mais uma residência de verão fora do país. Contou que não terá muito tempo para discutir e aprofundar como no tempo da tese de mestrado, mas sabe que o momento é de experimentação. Lá fora, aliás, apesar de ter
tido contatos pontuais no período que estudou, sente que seu trabalho também é aceito e elogiado, mas se entristece
ao comentar que, aqui, antes de qualquer comentário sobre a qualidade técnica do que produz, vem a tentativa de
encaixá-la. “Acredito que a liberdade tem muito a ver com uma abertura de espírito. E as pessoas aqui estão muito
preocupadas em se encaixar dentro de uma proposta.”, lamenta. Mesmo assim, sua obra foi reconhecida por premiações e vários convites para mostras individuais e coletivas desde a década de 90 – em Curitiba e fora. A despeito de
qualquer academicismo, quando conta como começou, diz que no início produzia de maneira intuitiva e quase sem
planejamento – ainda que, durante, usasse a fotografia (vitrines e pessoas) e referências para criar. “Gosto bastante
da presença dos trabalhos antigos, algo mais instantâneo, sem muito planejamento.”, confessa.
Foi quando (re)descobriu a colagem que, de alguma forma, o trabalho ganhou um frescor, principalmente na última fase de seu trabalho. “Desde 2008, eu comecei a fazer colagem – uma coisa
que eu já fazia antes e voltei a fazer. Isso porque eu fiz uma exposição no MAC e, do lado da
minha, tinha uma mostra de trabalhos de colagem de crianças. E aí eu olhei pr’aquilo e pensei:
‘Nossa, mas tem tanta energia nisso aqui. É muito mais legal do que o que eu ‘tô fazendo!’”, lembra. Hoje, num caminho mais demorado, reproduz primeiro nas colagens o ritmo e o movimento do quadro, para depois começá-los e... parar por aí. Foi um professor do mestrado que disse
uma vez: “Se você fizer mais um traço neste trabalho, eu brigo com você!” – e, assim, ainda que
ansiasse por continuá-los, foi aceitando que eles precisavam ser interrompidos e deixando-os
respirar. E se nas primeiras fases do trabalho o que se vê é uma sobreposição de ícones visuais
mais reconhecíveis, nas últimas fases o abstrato e o branco tomam conta, quase como uma extensão da casa-ateliê,
um refúgio em um condomínio fechado na cidade que escolheu para morar e criar, Curitiba. Planejada para a procuradora, a casa, projetada por Luciana Maoski, abriga um espaço para a criação que se confunde com o espaço de
moradia e não, necessariamente, se encerra como casa. Embaixo, uma grande sala e uma cozinha pequena, mas sem
divisórias, desembocam em um espaço com pé-direito duplo e uma janela planejada para emoldurar seus trabalhos
e dar a sensação de que as árvores do bosque foram convidadas a fazer parte de seu processo criativo. Para chegar
ao andar de cima, uma escada ornada por uma de suas obras. Ao lado do quarto, um escritório também aberto – e um
quarto, o único cômodo da casa, completamente isolado. As aberturas e a casa em branco cheia de espaços a serem
preenchidos parecem retratar uma pessoa expansiva e extrovertida – o oposto da reservada Annette que se apresenta além dos quadros. De outras partes da casa, orgulha-se da reserva técnica, recentemente construída, e fala pouco
da garagem, inicialmente pensada para ser o local de seu ateliê – imaginado para ficar no subsolo. Foi uma exigência
trazê-lo para cima e aproveitar a inclinação do terreno, minimamente modificado, para se ver imersa no minibosque,
com um pinheiro inicialmente problema e posteriormente atrativo. As paredes brancas, nenhuma pintada, fazem
as vezes de suporte para as obras que, de respiro em respiro, são também, predominantemente, brancas – apesar de
noturnas. O ateliê individual, na casa que divide somente com ela mesma, é seu espaço de paz, de criação e de clareza – clareza, inclusive, que auxilia num paradoxal processo de entendimento de seu próprio processo, tão difícil de
explicar, tão claro nos traços e tão além dos processos com que tem que lidar durante o dia.
é tudo verdade
32
O Paraná, neste ano, ficou
órfão do maior evento de
moda produzido por aqui e nós
conversamos com pessoas que
podem nos ajudar a entender,
afinal, o que a moda paranaense
está produzindo e para quem e
onde vai tudo isso.
À MODA DA CASA
por Camila Rehbein, Julie Fank e Rayssa Baú
fotos Rafael Dabul
Todo botão precisa de uma casa. Seja ela a costura da blusa enfileirado na sequência vertical de outros três ou quatro -, a
caixinha no ateliê de costura ou a parede que abriga o resto
da coleção. E quando o botão quer casa e faltam blusas? Ou
quando o botão não quer mais ser esquecido na caixinha?
Há blusas e botões de sobra nas caixinhas do ateliê, mas
poucos que caibam dentro da costura reservada para eles.
E, nessa seara, é difícil conseguir botões impecavelmente
iguais. Da mesma forma, na moda paranaense, pensamentos divergentes fulguram no topo da pirâmide e transpõem
as fronteiras das áreas em que atuam. Para saber para onde
irão os botões nas próximas estações, a redação da Revista
One procurou peças fundamentais no processo de produção, idealização, divulgação e execução da moda no estado.
O bate-papo consistiu nas mesmas perguntas-base e rendeu
assuntos coadjuvantes com nossos protagonistas. São eles:
Nereide Michel, organizadora do Paraná Business Collection, Junior Gabardo, diretor artístico do Curitiba Lab Moda,
Marcelo Surek, empresário do setor e coordenador do Conselho Setorial da Indústria do Vestuário da FIEP, Alexandre
Linhares, estilista curitibano à frente da marca Heroína. O
assunto não se encerra aqui.
é tudo verdade
“A matériaprima da moda
é e sempre
será o desejo.
A necessidade
do “novo”, o
querer ter uma
determinada
peça.”
34
Nereide Michel foi o rosto feminino e antenado até a 7ª edição do Paraná Business
Collection. Jornalista por formação, hoje é diretora e editora do site Conceito Atual.
É a idealizadora, junto com Paulo Martins, do Prêmio João Turin de Incentivo aos
Novos Designers de Moda e do Curitiba Creative World e vice−presidente do Instituto
de Moda do Paraná, o IMOP. Ela expõe sua visão sobre a moda paranaense com um
olhar apurado e de quem sabe o que fala – a experiência não deixa mentir.
Como você enxerga a moda hoje?
A moda não é apenas uma foto em uma revista, ela é
tão dinâmica e ativa quanto as pessoas a quem veste.
Não apenas isso – ela reflete comportamentos, expressa
expectativas. Está intimamente associada ao ambiente
onde surge e por onde circula. Tanto que existe uma
“história da moda” que a cada capítulo conta em roupas
e acessórios a evolução da sociedade e dos seus usos e
costumes. Foi sempre assim. Não é diferente hoje. É só
parar alguns minutos para olhar o movimento nas ruas –
lá está a moda que veste as pessoas hoje!
Inovações, experimentações, pesquisas de materiais,
propostas inusitadas podem – e devem – surgir na pas−
sarela. Delas, surge o novo, o incomum, que demonstra
a evolução da moda no item criatividade. Sem esta, a
moda fica estagnada a padrões e acaba não refletindo
um dos instintos do ser humano: o da evolução. Saímos
da caverna para descobrir o que havia de novo e dife−
rente no mundo de fora. Por outro lado, a calçada é que
expressa comportamentos e atitudes. Podem parecer
contraditórias essas duas correntes, mas a moda nunca
se contentou apenas em “a quem tem frio ou vergonha”.
Em relação à moda de outros estados, por que o Paraná
ainda está engatinhando quando diz respeito a eventos?
Quando se compara o nosso com os outros estados, que
também contam com um calendário de lançamentos
para a temporada, podemos nos orgulhar que o Paraná
está muito bem situado nesta questão. Conquistamos
credibilidade nacional ao realizar eventos de moda que
valorizam os profissionais locais – tanto na passarela
quanto nos bastidores. Não temos necessidade de “im−
portar” equipes técnicas ou de produção para mostrar
coleções de nossos designers. E isso não aconteceu da
noite para o dia. São mais de duas décadas de eventos,
que ajudaram na formação de mão de obra especializada
neste segmento – que o diga Paulo Martins, que esteve
na direção artística do Crystal Fashion e, em seguida, do
Curitiba Fashion Art e do Paraná Business Collection,
até a 7ª edição, nestes dois últimos, dividimos a idealiza−
ção e a coordenação. Outro motivo de orgulho para nós
é que Curitiba foi pioneira em aliar Moda e Cultura em
seus eventos. O Curitiba Fashion Art, desde a primeira
edição em 2003, surgiu com essa proposta mostrando
na prática – em desfiles, exposições e instalações – esse
intercâmbio. Também o Prêmio João Turin de Incentivo
aos Novos Designers de Moda, direcionado a mais de 20
cursos de moda de todo o Paraná, tem como objetivo in−
centivar a pesquisa em temas da cultura do estado no de−
senvolvimento de roupas e acessórios. A décima edição
do concurso aconteceu no ano passado, em novembro,
em uma das salas expositivas do Museu Oscar Niemeyer
– aliás, pelo conceito cultural do concurso, foi a primeira
vez que o museu disponibilizou para um desfile de moda
um espaço anteriormente dedicado apenas a mostras de
arte. E o calendário de eventos da nossa moda já está as−
sinalando o Curitiba Creative World direcionado à moda
autoral e atemporal.
Qual a sua visão em relação ao boom das fast−fashions
estrangeiras no Brasil nos últimos cinco anos?
É uma evolução normal do mercado globalizado. Já não
existem fronteiras com a comunicação instantânea onli−
ne. Se as lojas não se instalam fisicamente em uma cida−
de, elas já estão presentes diante de olhos desejosos do
consumidor diante de telas e telinhas de tablets e smar−
tphones. Quando abrem portas, concretamente falando,
empresas nacionais e internacionais contratam funcio−
nários e dinamizam o comércio local.
O que você considera a matéria−prima da moda?
A matéria−prima da moda é e sempre será o desejo. A
necessidade do “novo”, o querer ter uma determinada
peça. A matéria−prima de lançamentos também está
embutida na sociedade, no seu desenvolvimento sócio−
−cultural e expectativas. É por isso que cada vez mais se
afirma o trabalho dos chamados caçadores de tendên−
cias, que têm a missão de detectar atitudes, comporta−
mentos – as chamadas “condições favoráveis” – para que
cores, tecidos e silhuetas tenham aceitação ao serem
lançados no mercado.
E quanto ao PBC?
Eu e o Paulo Martins traçamos para o Paraná Business
Collection (evento realizado pela FIEP, através do Con−
selho Setorial da Indústria do Vestuário do Paraná, e Se−
brae/PR) estratégias e objetivos para valorizar a moda
paranaense nos dois aspectos – o da produção industrial
e o da moda autoral. E nos sentimos tranquilos por ter−
mos trabalhado da forma como acreditamos que deve ser
um evento de moda, que se propõe a dar visibilidade ao
que tem de melhor nas fábricas e nos ateliês. A partir
da 8ª edição, o PBC passou a ser coordenado inteira−
mente pelo Conselho Setorial da Indústria do Vestuário,
que decidiu dar ênfase maior aos negócios e valorizar a
moda de outros estados.
Como você vê o processo de absorção da moda: rua−
−passarela ou passarela−rua?
Como você considera a representatividade da moda
paranaense no cenário nacional?
O Paraná vive duas realidades – as duas são importan−
tes para alavancar a sua economia. A das indústrias do
vestuário, o Estado está entre os quatro polos da confec−
ção do Brasil, localizados principalmente em Maringá,
Cianorte, Londrina e região sudoeste, que produzem em
grande escala e espalham etiquetas das nossas marcas
pelo Brasil todo. O outro segmento é o da moda auto−
ral, a que tem assinatura de designers, que lançam co−
leções, que buscam agregar às peças itens considerados
essenciais para confirmar uma moda com identidade
paranaense. Sem esta identidade, o que se produz no
estado pode perder competitividade diante de outros
produtos que carregam diferenciais que destacam sua
riqueza cultural. O consumidor que valoriza roupas e
acessórios resultados de um processo criativo, de inspi−
ração em elementos regionais e de pesquisa de materiais
tem poder aquisitivo para optar por estes lançamentos.
Em qualquer parte do mundo, Jefferson Kulig, Roberto
Arad, Silmar Alves, Alexandre Linhares, Juliana Moriya,
Francesca Córdova, Karina Kulig, Sílvia Döring, Marcos
Novak, Rodrigo Alarcon, Maria Dolores estão entre os
designers representativos da moda paranaense.
é tudo verdade
36
Diretor artístico do Lab Moda, professor e idealizador da Semana de Moda de
Curitiba, Junior Gabardo procurou nos responder uma das maiores perguntas
dos últimos tempos: para onde a moda está indo? A experiência de pensar um
evento que sempre foi além da moda e atinge outras plataformas ajuda a promover
questionamentos que vão além desse.
Como você enxerga a moda hoje?
Eu acho que hoje ela está bastante dividida e essa divi−
são foi criada por questões econômicas, então eu vejo
que, junto com a profissionalização da moda, veio a
questão do negócio e ele fez com que ela ganhasse uma
característica especial. Eu vejo grandes grupos pegando
algumas camadas, eu vejo estilistas tendo que ficar com
mercados locais, alguns regionais, mas eu vejo ela bem
dividida: tem marcas que vão poder atuar nacionalmen−
te, regionalmente e localmente e vai sobrar um mercado
dividido por variáveis econômicas.
E com relação à produção de moda em outros estados,
por que o Paraná ainda engatinha nesta questão?
Eu não acho que a gente engatinhe. O Paraná tem uma
característica que outros estados não têm e nós temos
o nosso jeitão de fazer o negócio andar e o nosso jeitão
foi construído confeccionando para os outros, foi assim
que o Paraná aprendeu a ter retorno com moda. Como
estado, a gente não tem aquilo que fica mais evidente na
cultura como um carnaval daqueles bam−bam−bam do
nordeste e nunca vamos ter, a gente não tem um ícone
musical, uma grande celebrity aqui em Curitiba ou no
Paraná. O que acontece, na verdade: o nosso estado é
essencialmente industrial, ele se desenvolveu assim. Ele
possui essa característica devido às pessoas empreen−
dedoras que investiram nesse aspecto e na questão da
moda. O que contribui muito é que o estado não tem
uma plataforma propícia para ela se desenvolver na
questão até do, quem sabe, o que eu costumo chamar
de celebrity. Nós temos em alguns pontos uma indústria
forte, um sindicato eventualmente forte, nós temos aqui
uma bela formação de mão de obra, nós temos subsí−
dios, um mercado razoável, mas a gente tão tem aqui
uma mídia de longo alcance. Por exemplo, se eu fizer um
barulho danado aqui, o máximo que eu vou conseguir é
aparecer ali em Campo Largo ou Fazenda Rio Grande,
isso eu consigo. Agora se eu fizer um barulhinho em São
Paulo, você aparece no país inteiro, e isso é fundamen−
tal para a moda, mas nós não temos essas plataformas.
Faltam essas mídias apesar de as pessoas dizerem: “Não,
mas com a internet não−sei−o−quê!” – ok, mas você não
tem uma televisão do seu lado falando de evento, por
exemplo. Você faz um São Paulo Fashion Week, o país,
quase o mundo inteiro fica sabendo e se você fizer o
mesmo evento aqui, ninguém vai ficar sabendo. A gente
não tem alcance. Nós não estamos em uma metrópole
daquele tamanho, com uma diversidade cultural igual à
deles. Não é só uma questão de costurar e fazer desfile,
tem uma série de outras questões que ao meu ver pre−
cisariam estar ali e que hoje a gente não tem. Mas eu
também não sei se precisa ter, acho que nós precisamos
tentar entender o papel na cadeia, tentar entender o que
eu faço e reforçar isso aí invés de tentar perseguir um
outro papel que talvez não seja o nosso.
Como você vê o fluxo da moda: rua−passarela ou
passarela−rua?
Eu considero que são as pessoas. Acho que tudo é nor−
teado pelas pessoas, então, quando elas estabelecem um
comportamento, elas estão moldando o que será uma
tendência. Quando um artista começa a ser apreciado
por alguém, aquilo está indicando um caminho que po−
derá se tornar uma tendência futura e eu acho que hoje a
moda vive muito disso, desse olhar sobre as pessoas. Eu
não gosto muito da classificação de tendência de moda,
o que existe é uma tendência de comportamento que im−
plica em consumo, nas mais diversas formas de consu−
mo. Como colocam, o modelo dos fast−fashion, ao meu
ver, é composto de empresários que entenderam o que
as pessoas queriam. Isso não foi inventado ou imposto,
e, sim, atendeu uma necessidade, as pessoas viram que
o negócio ia para aquele lado e simplesmente assimila−
ram: “Não, a roupa não é mais tão importante, eu quero
comprar o mais barato, eu quero ter mais e também a
moda não é mais tão importante assim, eu não quero
mais uma loja que invista na marca e seja mais cara!”.
Eu acho que esse processo e essas coisas estão muito
ligadas a isso e ao entendimento das pessoas no sentido
de “como eu posso reagir a isso?”.
E pegando esse gancho, como você vê a vinda dos fast
fashions estrangeiras para o Brasil?
Acho que vão se acentuar aquelas divisões que eu falei
no começo e vão ficar cada vez mais claros os papéis
que cada um vai desempenhar. O fast−fashion tem um
lugar garantido e é só uma questão de tempo para ele
se estabelecer, porque nós precisamos entender que vi−
vemos no meio da revolução do fast−fashion e, talvez,
no futuro, alguém estude isso e a nossa década talvez
seja lembrada com a vinda dos fast−fashions. Agora, a
chegada deles vai significar uma mudança nos papéis.
Se eu sou uma marca regional, cada vez mais eu tenho
que responder como marca regional, o que faz com que
tenha que produzir coisas que essas marcas globais não
vão conseguir: eu tenho que responder essa necessidade
local que as pessoas têm e não querer competir com uma
marca que é global. Esse é um processo natural, tem que
ser aceito e não é ruim. Vai haver uma queda de preço
absurda no vestuário por conta dessas gringas, por cau−
sa dessa comparação e vai forçar o vestuário a custar
menos, o que é bom porque está uma coisa meio absur−
da e logicamente vai custar emprego, vai custar fábricas
e vai ter que haver um rearranjo novo, tem que se buscar
coisas novas. Se eu sou uma costureira que hoje trabalha
em uma grande fábrica, não vai ter espaço para mim e
eu vou ter que buscar isso em uma outra situação, vou
ter que me adaptar. O brasileiro consegue se adaptar
porque sempre viveu em situações mais rudes, o povo
não está acostumado a viver bem e ele vai se adaptar
muito facilmente. Claro que vai ter aquela choradeira de
empresário, mas eu acho que é um processo inevitável e
necessário até. Eu não posso ficar para trás nisso e sim
aprender a conviver com essa situação – e é uma situa−
ção de redefinição de papéis.
Agora com relação aos eventos. Nós tínhamos a Se−
mana de Moda de Curitiba e o PBC, mas nesta edição
ele foi cancelado. Por que nós não conseguimos con−
solidar um evento de moda?
Eu sou o produtor artístico do Lab Moda, então, um even−
to de moda primeiramente precisa ter um objetivo e esse
objetivo tem que ser algo muito claro. Por que é que esse
evento existe? E essa resposta cabe aos organizadores e
“Você faz um São Paulo Fashion Week, o
é tudo verdade
país, quase o mundo inteiro fica sabendo
e se você fizer o mesmo evento aqui,
ninguém vai ficar sabendo. A gente
não tem alcance. Nós não estamos em
uma metrópole daquele tamanho, com
uma diversidade cultural igual à deles.
Não é só uma questão de costurar e
fazer desfile, tem uma série de outras
questões que ao meu ver precisariam
estar ali e que hoje a gente não tem. Mas
eu também não sei se precisa ter, acho
que nós precisamos tentar entender o
papel na cadeia, tentar entender o que
eu faço e reforçar isso aí invés de tentar
38
perseguir um outro papel que talvez não
seja o nosso.”
em cima dessa resposta organiza−se um evento. Essa é
uma premissa básica de qualquer coisa que se faça. Tal−
vez hoje, no nosso estado, a demanda que exista para
esse tipo de evento esteja um pouco ausente, talvez não
exista demanda para eventos de moda. Então, quando
eu digo que não existe demanda é o seguinte: não tem
marcas para desfilar, não tem público, não tem mídia in−
teressada, não tem gente querendo patrocinar, não tem
ninguém! Então, para quê?, já que você precisa amarrar
todas essas variáveis! Claro que a moda, com o tempo,
foi caminhando para se tornar um evento de entreteni−
mento e eu acho que o Lab Moda fez essa leitura muito
bem quando ele misturou tudo disse: “Não, não é só um
evento de moda. É um evento de música, é um evento
de dança, de artes cênicas e tudo isso dialogando com
moda!” – então, eu acho que ali funcionou legal, sabe?
Hoje, ele está um pouco parado porque nós estamos bus−
cando recursos de leis de incentivo e é um evento que vai
vir à tona de novo remodelado, mas ele é um evento que
está vivo, existe, não mais como um evento especifica−
mente de moda. Ele enxerga a moda como um fenôme−
no que pode estar em muitos lugares, por exemplo, em
uma gastronomia, na música, no cinema e a gente quer
misturar essas coisas! Porque a gente vê que a leitura do
público é de entretenimento e não uma leitura crítica de
moda, que precisa de uma súper passarela. As pessoas
vão a um desfile para serem vistas, para conversar, mu−
dou um pouco. Eu acho que o Lab Moda é o único evento
mundial que cobra para entrar e as pessoas pagam, o que
prova que elas vão lá com outros objetivos que não neces−
sariamente a moda. Quanto ao PBC, eu desconheço em
que pé ele está e porque teve os problemas que teve, mas
quanto ao Lab Moda, nós não fizemos essa edição por
motivo de adequação e também porque nós não concor−
damos com essa história de inverno e verão. Curitiba não
comporta um evento com duas edições ao ano, é muita
coisa, nem os estilistas conseguem, o pessoal não conse−
gue montar uma peça de teatro, um espetáculo de dança
e eu acho que é isso: não dá para ter São Paulo Fashion
Week em todo lugar, essa ideia não cola e as pessoas
precisam entender isso e organizar as coisas consciente−
mente, porque custa caro, custa muito dinheiro.
Coordenador do Conselho Setorial da Indústria do Vestuário da FIEP (Federação das
Indústrias do Paraná), Marcelo Surek possui uma empresa que o faz ter duas visões
sobre a moda: uma de quem organiza e outra de quem faz. De fala tranquila, é um dos
personagens relevantes para entender o que acontece aqui dentro de casa e porque
ela parece, em alguns momentos, tão bagunçada.
Como você enxerga a moda hoje?
A moda, na verdade, é um sentimento de quem está
criando, de quem está construindo algo pensando em
uma história, em uma ideia, em um sonho e na realiza−
ção desse sonho. Eu vejo a moda dessa forma.
Como você considera a representatividade da moda
paranaense no cenário nacional?
O Paraná está começando a aparecer em termos de
moda, mas ainda muito timidamente. Eu acho que as
empresas paranaenses se envolvem pouco em um even−
to de moda verdadeiramente, em um evento de moda
como a gente vê no mundo todo. Nós temos o PBC aqui
no Paraná, que começou a trazer essa informação, esse
cunho de moda, mas eu acho que o empresário de moda
ainda tem que se aplicar um pouco mais nesse exercício
de entender um pouco mais a moda, ver como ela fun−
ciona e tratá−la de uma forma positiva para a empresa.
Na verdade, o que sustenta a empresa são os pedidos,
são as vendas, mas é a moda que traz o glamour, que
traz o valor agregado e a valorização dela como um todo.
40
E por que você acha que os empresários aqui não se
importam com isso e ainda engatinham tanto no senti−
do de ter esse feeling?
Eu acho que principalmente porque o Paraná foi cria−
do como um faccionista, então, a cabeça do empresário
ainda está com essa coisa de fazer volume, fazer produ−
to com volume e não fazer um produto com valor agre−
gado, porque o que acontece: a moda depende de um
estudo antecipado de tendência, de cores e fazer moda
é você criar algo novo e não você copiar. Para criar algo
novo, você precisa estar antenado nisso. E o que a gen−
te vê muito no empresário paranaense é que a cabeça
dele precisa mudar um pouco e esse movimento está
começando, mas ele ainda é pequeno. São poucas em−
presas que a gente ainda vê com esse viés de trabalhar
um produto mais design, mais moda e isso em questão
de indústria. Existem muitos estilistas que, claro, traba−
lham nesse sentido. A gente sabe que os grandes estilis−
tas paranaenses que se sobressaem em função disso, já
vêm com o seu DNA voltado para a criação de moda. A
história do Paraná é ser faccionista. O Paraná era faccio−
nista de São Paulo e era faccionista de produto e não de
moda e muitas vezes a função daquele produto era abas−
tecer o grande atacadista que não trabalhava muito com
esse lado de moda e sim focava em ter produto para
abastecer o seu mercado. Para que esse cenário mude,
é necessária essa mudança de cultura, esse aprendizado
do que é fazer moda.
E você acha que por causa disso, essa dificuldade de
consolidar um evento de moda?
Com certeza, isso é fato! Se você tem um evento que fala
de moda e não está conseguindo essa fidelização dos em−
presários paranaenses nesse evento é porque alguma coisa
está faltando, porque é aquela história, a moda depende
do glamour, de um estudo antecipado, não é só da fábrica.
O que você considera a matéria – prima da moda?
O sonho. Na verdade, se você analisar, é o sonho ideali−
zado pelo estilista, pelo designer que desenvolveu aquilo
e fez acontecer. Por exemplo, se você pegar um grande
estilista, provavelmente, ele busca uma ideia, essa ideia
gera um sonho, e ele corre atrás disso para que idealize.
Uma das dificuldades que a gente percebe também é que
nós temos muito nos designers de moda essa história do
sonho, mas eles não veem que, dentro de uma empresa,
para que esse sonho seja realizado, ele tem que arregaçar
a manga e ir trabalhar. É que nem a gente fala, 5% de ins−
piração e 95% de transpiração, de trabalho – e o trabalho
dentro da indústria têxtil é muito árduo, muito corrido e
muito trabalhoso porque é uma logística muito grande
para que um produto fique pronto. E se você pega um
aluno que, por exemplo, está entrando e ele acha que
o trabalho dele é fazer o croqui, não vai ter empresário
querendo contratar, porque ele não precisa de alguém
que só desenhe. Ele precisa de alguém para fazer essa
logística do produto, porque é a partir do croqui que eu
vou ter um produto pronto e um produto bem pensado,
principalmente, na parte de produção, porque a gente vê
as grandes marcas hoje no país e no mundo fazendo os
desfiles glamurosos, mas eles ganham dinheiro fazendo
produto básico: o jeans, a camiseta, um produto que re−
almente gira no mercado.
Como você vê o fluxo da moda: é rua−passarela ou
passarela−rua?
Na verdade, são os dois. Nós estamos num contexto só,
a gente vive em um universo só, tudo é válido, tudo é
apanhado, você pega ideia de todos os lugares. Você vê
muitas vezes um estilista pegando ideia de um arquiteto,
de um museu antigo, eu acho que a ideia aflora de todo
o lugar, depende do momento do artista. Eu vejo o de−
signer como um artista que depende do que ele pensou,
viajou, sentiu, o que ele viu que seria interessante, mas
sempre pensando que, para que tudo isso aconteça, é ne−
cessário um estudo técnico muito grande. Não adianta
você ir de encontro com o que o segmento de moda está
fazendo, você tem que acompanhar em partes isso, até
por você ter a matéria−prima, ter o material para utilizar,
porque o que acontece hoje: você vai criar uma coleção
e tem que ter os teus parceiros desenvolvendo o material
para tudo isso, o que torna necessário você estar antena−
do com o que eles estão fazendo também, porque para
um produto nosso sair, de um designer para a loja, de−
mora praticamente um ano. E ele começa um ano antes
a trabalhar, a pensar essa coleção, mas para esse tecido,
esse corante estar pronto, a indústria têxtil começa a tra−
balhar, às vezes, 4 ou 5 anos antes. É toda essa logística
que é importante!
Você acha que a indústria paranaense está preparada
para abastecer toda essa logística?
A logística é da empresa, ela é quem tem que criar isso
e hoje você tem todo o processo de desenvolvimento,
criação, pilotagem, mostruário, abastecimento das em−
presas ou do lojista ou da pronta−entrega. Tudo isso é
muito importante, porque é o que faz ele ter sucesso, é
o que faz ele ser reconhecido pelo mercado como uma
empresa que faz um produto, que entrega esse bom pro−
duto da forma que ele apresentou e isso tudo é a logís−
tica do processo de fabricação: começa lá no designer e
termina no consumidor final.
Qual é a sua visão com relação à vinda dos fast−fashion
estrangeiros para o Brasil?
A gente vai ter uma mudança grande, porque, queira ou
não, esses fast−fashion são muito agressivos e os nos−
sos lojistas vão ter que se readaptar. É aquela história,
você está em um ambiente cômodo e chega alguém mais
agressivo, você vai ter que se mexer, mudar o teu pensa−
mento, a tua forma de agir. É o que tem acontecido com
a indústria têxtil, porque desde 2008 o mercado abriu
para os importados e a indústria está se reestruturan−
do, se reinventando, por quê? Porque começaram a vir
produtos com mark−up muito baixo e todo produto que
vem da Ásia é muito mais barato do que o que a gen−
te consegue produzir aqui e não é porque trabalhamos
com margens maiores, mas porque os custos do Brasil
fazem com o que o produto saia dessa forma e nós não
temos isso lá, nem geração de impostos em cima, o que
possibilita a chegada dele no Brasil com um preço mui−
to mais barato, além dos subsídios que os países de lá
oferecem para essas empresas. Eles têm uma situação
muito vantajosa que aqui nós não temos: o custo da mão
de obra. Nos últimos 8 anos, subiu demais sem ter a
contra−partida da produção, o que é o correto. Não é que
seja errado pagar bem para o seu colaborador, mas ele
também precisa ser produtivo e o que aconteceu é que
nós tivemos aumento de salário e tivemos diminuição de
produtividade – e isso é ruim. Esse é o diferencial, você
ser eficiente e ser eficiente é ter um bom designer, criar
um bom produto voltado para essa área de moda, por−
que a moda como glamour é uma coisa pontual, menor
e são poucas pessoas que consomem, mas é essa ponta
da pirâmide que traz toda a cadeia para baixo e traz toda
a estruturação dessa cadeia que vem vindo para as con−
fecções, para as facções, para as indústrias de tecido.
Se vamos pensar com esse viés de olhar, por exemplo,
por que um designer consegue vender um vestido carís−
simo? Porque ele agregou valor, ele agregou sonho. Se
você conseguir fazer isso mesmo que a tua marca seja
mais simples, é possível ter um mark−up melhor para
dar sustentabilidade para a empresa, você consegue um
preço justo e consegue vender a peça por esse preço.
E com toda essa mudança que a moda está enfrentando
nos últimos tempos, como ela afetou o PBC?
O PBC é o amadurecimento das empresas e o que nós
tínhamos era uma vitrine para o Paraná, porque toda a
moda precisa de uma vitrine que precisa estar exposta,
que precisa estar em um pedestal. A gente não conse−
guiu fazer com que as empresas paranaenses entendes−
sem dessa forma. Essa dificuldade a gente tem e eu acho
que é só isso, o empresário entender o PBC como uma
coisa importante, por quê? Porque é aquela história,
o empresário paranaense é muito assim: ele não quer
apostar para conquistar, ele quer que esteja funcionan−
do para ele participar, tanto que a gente ficou sabendo
de várias empresas que perguntaram: “Quem é que vai
estar lá para eu participar?” – e não “Eu acredito, eu vou
estar lá!”. Quem vai não interessa, o eu−vou e o eu−acho−
−importante é que é necessário. A gente sabe que isso
ainda está muito difícil no Paraná, provavelmente em
função de que o perfil da comercialização de produtos,
o perfil das empresas paranaenses não está focado nisso
“A moda como glamour é uma
coisa pontual, menor e são
poucas pessoas que consomem,
mas é essa ponta da pirâmide
que traz toda a cadeia para
baixo e traz toda a estruturação
dessa cadeia que vem vindo
para as confecções, para as
facções, para as indústrias de
tecido. Se nós trabalhos com
esse viés de olhar o que essa
empresa está fazendo, por
exemplo, porque um designer
consegue vender um vestido
caríssimo? Porque ele agregou
valor, ele agregou sonho. Se você
conseguir fazer isso mesmo que
a tua marca seja mais simples, é
possível ter um mark-up melhor
para dar sustentabilidade para
a empresa, você consegue um
preço justo e consegue vender a
peça por esse preço.”
e a gente sabe que um evento como o PBC é um evento
que traz contato para as empresas que lá estão e muitas
vezes ele quer um resultado imediato, ele quer venda lá
porque o empresário paranaense está acostumado com
uma pronta−entrega, daí, o cliente chega lá e ele quer
que ele saia com a sacolinha cheia. No PBC não, você
vai mostrar a tendência para o último ano, o que você
está planejando para a próxima coleção e aí você vai co−
meçar a ter um contato com o cliente e muitas vezes
com alguns pedidos já iniciados, mas principalmente
com contatos que futuramente vão ser bons pedidos –
tudo isso é uma somatória.
é tudo verdade
Como você enxerga a moda hoje?
Eu acho que a moda é mais do que o que você usa no
corpo. Eu acho que a moda é uma armadilha do merca−
do, na verdade, para te guiar e fazer com que você com−
pre algumas coisas sem que você precise delas, quase
como aquele sapatinho da chinesa que não deixa o pé
crescer, sabe? Acho que é algo que tenta te moldar e te
deixar cada vez mais pasteurizado e massificado, ou seja,
a moda quer deixar todo mundo o mais igual possível
em tudo: na maneira como você se veste, os lugares que
você frequenta, o carro que você anda, o tipo de comida
que você vai consumir. Acho que é assim, como uma
forma padronizadora.
E com relação à moda de outros estados, porque o Pa−
raná continua tão embrionário?
Eu acho que a gente tem estados e eventos em estados
que incentivam, de fato, a criação como acontece com o
Dragão Fashion, por exemplo, que incentiva o trabalho
autoral e a criação de algo novo – o trabalho é de pensa−
mento. O Paraná possui uma indústria de confecção bem
forte, principalmente no norte e sudoeste, então, como
tem esse foco de produção e venda, ela se torna uma in−
dústria de números e que busca esses números, é a lógi−
ca desse mercado. Nós estamos acostumados a produzir
para outras empresas maiores, mas e com essa busca tão
grande por esse mercado e esse estímulo de produção
desenfreada, eles buscam números e não a criação de
algo novo. Não tem espaço em uma indústria para você
fazer, de fato, algo novo, repensar e questionar as coisas
como elas são e como elas estão sendo usadas. Em uma
coleção, por exemplo, a gente dividiu em quatro tempos,
fazendo um paralelo da indústria com o trabalho artesa−
nal. A gente colocou o transgênico frente à agricultura
familiar e fizemos um paralelo da agricultura familiar
com o trabalho artesanal, autoral e criativo como aquela
família que planta unida, faz a troca com a chácara do
lado, que faz pequenas feiras de orgânicos e, do outro
lado, o organismo transgênico, que não se preocupa com
nada, não respeita nada, só busca o dinheiro e não se
preocupa com o efeito disso. Tudo o que a gente usa tem
um efeito sobre absolutamente tudo e esse processo de
transgênico também causa um efeito para o ecossistema,
para o planeta, para a nossa saúde e também para aquele
produtor pequeno, porque é como um rolo compressor
passando por cima dele. E aí nós dividimos essa temáti−
ca em 4 tempos, que também é uma forma diferente de
apresentar essa coleção, para que as pessoas pudessem
ter mais questionamento em cima das peças.
42
Basta apenas sentar ao seu lado e deixar a conversa fluir para perceber que a moda
é muito mais que uma simples peça, ela é o resultado de tudo. Conversamos com
Alexandre Linhares, a alma e o coração por trás da marca Heroína, conhecido por
suas coleções contestadoras e alheias ao processo alucinante de produção das grandes
indústrias. Ele não economizou palavras.
Como você enxerga a temporalidade da moda e o ter
que se encaixar em outono/inverno e primavera/verão?
Quando a gente faz roupa é porque estamos com um
novo assunto a ser tratado. Então primeiro eu vou ver o
assunto que vai estar na roupa, mas aí como a gente tem
uma loja e precisamos vender, porque nada é masturba−
tório, tudo é feito para venda até porque essa é a nossa
única fonte de renda, e, quando o assunto surge, nós ade−
quamos ele para a época do ano que está acontecendo.
A moda está sofrendo muitas alterações nos últimos
tempos. O idealizador do São Paulo Fashion Week,
Paulo Borges, chegou até a comentar que hoje desfile
não é mais para jornalistas dizerem se gostam ou não,
mas para discutir temas e assuntos. Como você vê essa
mudança? Os estilistas estão preparados para ela?
Eu acho que a maneira como a moda é vista e discutida
deva ser revista, porque eu já tive críticas... Não, não
foi de fato uma crítica porque foram sempre elogios, en−
tão, eu não consigo balizar se de fato eu estou fazendo
a coisa certa ou não, sabe? E eu ouvi que alguém disse
que não gostou porque não usaria aquela roupa ou, por
exemplo, em um desfile, a gente estava falando da nossa
cultura se esfarrapando, que tudo o que vinha de fora
estava acabando com o que era nosso de verdade e a jor−
nalista disse que era mal feito, porque estava desfiando.
Então, eu acho que falta se despir de que não é bonito
“porque eu não usaria” e sim encarar isso como de fato
um fenômeno da sociedade: de usar o pano como su−
porte para expressar algo e que você está usando em si
uma bandeira, que você é um outdoor e que é possível
expressar nesse outdoor o que você é de verdade.
Existem diversas formas de trabalho. Existem aqueles
que fazem aquilo que está se usando, a cor do momen−
to para vender e ele faz isso e ok, mas existem pessoas
como nós que usam a roupa para expressar uma ideia.
A gente nunca vai fazer aqui o que está se usando, a cor
que está se usando, nada disso! E tem mercado para todo
mundo, o que eu acho errado é você impor o que a pes−
soa tem que fazer ou olhar para mim e dizer: “Não, você
tem que fazer algo para vender” – ou olhar para o cara
que faz, de fato, roupa−tendência e falar: “Você tem que
parar de fazer tendência”. Cada um faz o seu trabalho.
Como você vê o fluxo da moda: rua – passarela ou
passarela−rua?
Eu acho que a roupa acontece de verdade na rua, quando
ela está no corpo, quando está sendo usada, quando ela
está no ônibus, está indo trabalhar, enfim, mas eu penso
na passarela como um palco, sabe? É o momento em que
eu posso mostrar quase como uma apresentação, uma
performance, um show. Acho que a música também tem
esse tipo de relação, porque a música acontece de ver−
dade dentro do carro, num bar, quando você escuta no
trabalho, mas existe um outro lado dela que é pensado
para ser apresentado com uma iluminação correta, com
figurino correto, com cortina ou não e na música existe
ainda uma terceira forma que é a mídia por meio da qual
ela vai ser distribuída. E eu acho que a roupa também
tem tudo isso. Se a tua roupa é mais que uma roupa e ela
vai estar na rua vestindo um ciclista, se ela é mais que
isso, ela também pode ser apresentada de outra forma
que também não precisa ser só na passarela. A gente
já apresentou e apresenta e busca sempre apresentar de
outras maneiras, mas eu acho que a passarela também é
um espaço válido. Eu não anulo o espaço da passarela,
eu só acho que de repente seja um custo alto demais e
que não se tem esse retorno financeiramente.
A moda como uma performance ainda é um show para
poucos, ela não alcança pessoas que não são especiali−
zadas nisso ou que são influentes o bastante...
Mas eu não acho que isso seja um problema da passare−
la, sabe porquê? Quando a gente faz desfile, quem que a
gente convida: os nossos clientes em primeiro lugar, aí
os nossos parentes, nossos amigos, os parentes da nossa
equipe e isso é legal porque a vó da minha costureira
nunca tinha ido a um desfile e saiu maravilhada. A mi−
nha mãe convidou as vizinhas, foram todas e todas mara−
vilhadas, sabe? Então eu acho que também é um espaço
que, como eu posso dizer, sabe a escola que te ensina
algumas coisas, que te abre espaços? Eu acho que, de
repente, nesse show, nós também estamos fazendo uma
escola, também estamos educando para um olhar apura−
do para que ela veja que é possível ela fazer o que quiser.
O problema é que as pessoas não difundem verdadeira−
mente e o processo acaba sendo mais excludente ainda.
Talvez esse panorama tenha mudado com os blogs de
moda. Qual a sua opinião sobre eles?
Eu acho que existem blogs excelentes e blogs ruins,
como existem revistas excelentes e revistas ruins, como
existem roupas excelentes e roupas ruins. Cada um de−
les é ruim ou excelente para mim e cada um deles tem
seu público e ele vai comunicar para os seus, com a lin−
guagem dos seus, falando a língua dos seus seguidores.
Eu sempre achei excelente o blog e a maneira acessível
como é divulgada, que já vem mastigada para a compre−
ensão. Só não acho legal, tanto no blog quanto na revis−
ta, quando se diz: “Agora é a vez de...”, copie e cole, use
isso é o que está se usando em tal lugar, sabe? Porque aí
cabeças menos preparadas tomam isso como regra e que
tem que ser assim, você não pode usar uma saia porque
não é a saia do momento.
44
E qual a sua visão sobre o boom dos fast−fashion es−
trangeiros vindo para o Brasil?
Eu tenho um pensamento, assim, de valorizar o que é
nosso, mas não de se fechar e excluir tudo o que é de
fora. É que eu acho que não se dá o devido respeito ao
que é daqui, se apregoa que o que vem de fora é mais
interessante, é mais importante, é mais bonito e deve
ser usado. Então, quando vem tudo para cá, isso acaba
dificultando o nosso trabalho, sabe? Porque eles são in−
dústrias de moda, que têm uma mão de obra baixíssima,
que compram matérias−primas mais baixas ainda e daí
não existe como competir com o preço disso. Daí já vem
com toda uma aura da passarela internacional, da crítica
de moda internacional, da crítica brasileira, paranaen−
se, curitibana, já enaltecendo e deixando a bola de neve
maior ainda. Quando se chega aqui, é óbvio que você
vai preferir comprar uma bolsa x do que uma bolsa de
feira, que demorou mais para ser feita, bordada à mão,
que foi feita com outro pensamento. Às vezes até se ri−
diculariza aquilo por ser “artesanato” e aí você paga a
bolsa x em quantas vezes for, se enterra em cartão de
crédito para comprar aquilo, às vezes deixa de comer, de
comprar outros produtos realmente importantes porque
estão escravizadas e cegas de que elas precisam daquela
bolsa, daquele sapato ou aquele it−qualquer−coisa para
ser aceita no meio. Eu acho que em alguma esfera disso
tudo, acaba sendo nocivo culturalmente, intelectualmen−
te e historicamente.
E quanto o PBC. O que mudou nesses anos todos?
Assim, existiu o Paraná Business Collection idealizado
pelo Paulo Martins e pela Nereide Michel que foi um
evento excelente. Antes de participar, eu participava as−
sistindo e achava sempre muito bem feito e que, de re−
pente, você tinha em uma mesma passarela Lafort, que
produz para o Brasil inteiro e para outras marcas e no
mesmo evento você tem eu fazendo um questionamen−
to, entrando com uma camiseta com a minha imagem
nu estampada. Ele mostrava que existe o lado da con−
sumidora, que consome aquela marca e tal e existe a
minha apresentação, com as minhas pessoas assistindo
e tudo acontecendo de forma harmoniosa, sempre com
exposições incríveis, extremamente bem organizado. A
relação direta com o Paulo e a Nereide na pizzaria aqui
da esquina comendo junto e discutindo como vai ser, o
que é possível colocar na passarela ou não, isso sempre
foi excelente. Eles vinham te convidar para desfilar aqui,
numa relação direta com eles. Sempre foi muito positivo.
Aí de repente, trazem um produtor de fora, que marcou
um horário para você enviar o material para ser analisa−
do – aí você já coloca uma barreira. Aí você desfila Triton
aqui, que é a mesma coleção desfilada em outros lugares
quase como um prêmio de consolação, assim: “Vocês,
provincianos, estão tendo a oportunidade de assistir
moda de verdade!” – e isso é terrível. Coloca Coca−Co−
la Clothing desfilando aqui, completamente irrelevante.
Eu vejo por mim, a gente vende só aqui na loja, mas a
gente queria vender em outras lojas apesar de ser uma
roupa completamente contestadora, que carrega tantos
significados. Além de tudo isso, ela continua sendo uma
peça de roupa que acaba sendo combinada com jeans,
uma bolsa e que dá para você usar onde quer que seja.
A marca tentou entrar em diversas lojas e nenhuma loja
de Curitiba quis vender a nossa roupa porque eles falam
que “isso não é comercial”, “isso não vende”, mas a gente
sobrevive há oito anos vendendo a nossa roupa e cons−
truindo a nossa história através daquilo que acreditamos
de verdade que deve ser vendido, não buscando lucro e
sim dando vazão ao nosso sonho e ao que acreditamos.
Aí você traz para um evento aqui marcas como essa e
você alimenta esse pensamento de que o que é legal é o
que vem de fora e o que tem aqui é palhaçada, é ego de
estilistas. Veja, eu fiz um desfile incrível, minhas clientes
maravilhosas saíram chorando do desfile, foram me feli−
citar no camarim e aí nessa reformulação unem−se todos
os estilistas que de fato têm um trabalho autoral e cria−
tivo, condensam−se todos eles como show dos horrores,
como eles chamam... show dos novos, qualquer coisa
assim, colocando todo mundo no mesmo balaio, desres−
peitando todo mundo e colocando uma Triton para des−
filar aqui, o que só aumenta o abismo entre pessoas que
querem fazer algo em que realmente acreditam e que re−
forçam a ideia de que, se precisa de um desfilão, é com
a Triton. Nada contra ela, mas ela já tem o seu espaço, já
vende no país inteiro e no mundo. Nós não precisamos
reforçar esse preconceito do lojista daqui, então quando
o PBC muda de organização e muda de evento, há um
declínio bem grande e esse declínio é tão notável que o
evento não existe mais. Um tentativa frustradíssima de
apresentar em Maringá e não apresentaram, não deram
qualquer explicação e é isso: um descaso com o que é
visto o que é produzido no Paraná.
“Eu acho que a moda é uma
armadilha do mercado, na
verdade, para te guiar e
fazer com que você compre
algumas coisas sem que
você precise delas, quase
como aquele sapatinho da
chinesa que não deixa o
pé crescer, sabe? Acho que
é algo que tenta te moldar
e te deixar cada vez mais
pasteurizado e massificado,
ou seja, a moda quer
deixar todo mundo o mais
igual possível em tudo: na
maneira com que você se
veste, os lugares que você
frequenta, o carro que você
anda, o tipo de comida que
você vai consumir.”
A forma como a gente vive hoje é híbrida. Esta−
mos em uma fase de transição do analógico para
o digital, do artesanal para o industrial, ou seja,
estamos passando por um processo de mudança
e isso de reflete em todas as nossas manifesta−
ções. Como isso se manifesta na roupa?
É ótimo que exista o digital e o analógico, um não
precisa anular o outro. Tudo pode viver em har−
monia, porque eu sou uma pessoa e você é outra
e com a roupa é a mesma coisa. Você pode ir ao
supermercado vivendo a sua vida, acontecendo e
se manifestando ou você pode se anular e ir ao
mercado. Não precisa acabar com uma indústria,
como o que aconteceu nessa coleção que esta−
mos falando como pano de fundo sobre o fim dos
cinemas de ruas. É ótimo que tenha cinema 4D,
experiência, cheiro, jato d’água na cara, mas não
precisa fechar todo o resto porque agora só se vai
no cinema de shopping. É importante também ter
essa sutileza de abrir um cinema espetacular, no
melhor shopping do mundo que está em Curitiba
e saber que todo mundo vai lá e o cinema de rua
vai ficar vazio por um tempo, mas não precisa fe−
char só porque abriu algo novo. Falta esse tato de
que tudo pode conviver em harmonia. Não precisa
jogar uma coisa velha só porque chegou uma coisa
nova, é quase como jogar o seu avô no asilo. Ele já
cumpriu o papel dele, criou filho, criou neto, agora
ele não é mais “socialmente útil”, então, só se des−
carta para ele não incomodar mais. Falta olhar de
forma mais humana para tudo!
editorial
46
A
CASA
DA
MODA
É na rua que tudo começa. É lá que se mede a audiência de uma música, de um artista de sinaleiro e
de um publicitário que imprimiu suas ideias em outdoors. É lá que a vida acontece - e são as histórias
que as pessoas carregam que vestem as roupas de significado. A Revista One, certa de que a moda
está passando por uma repaginada, foi em busca de referências mais sinceras, mais contemporâneas
para produzir um editorial em sequência aos entrevistados escolhidos para a edição. O que está faltando é aprimorar a capacidade crítica de visualizar o mundo além da tendência e além das marcas.
Faltam mecanismos para tornar fluente o leitor do espaço que quer se vestir com as palavras, que
quer pronunciar. Entendendo que é tudo uma questão de leitura de mundo, das identidades e das
pessoas, propusemos uma mistura entre o que acontece e o que não está previsto, do modelo que
modela e das pessoas que vivem, das pessoas que modelam e do modelo que toma coca-cola e faz
autoprodução, uma tentativa de entender a inversão de padrões de comportamento e de pensar a tecnologia como uma amiga próxima que diminui as distâncias dentro dos espaços urbanos; uma proposta para simplificar a vida e a moda como ela é e tem sido - em uma caminhada pelo espaço mais
híbrido que poderíamos encontrar: a cidade. Nela e nas roupas do nosso acervo e outras, garimpadas
em brechós, o que encontramos foram as histórias que cada uma delas quer contar. Você pode lê-las
aqui - na ordem e no idioma que quiser.
por Julie Fank fotos Rafael Dabul styling Flávio Machado direção de arte Anderson Maschio produção técnica Cassio Fabri
maquiagem Hildemor Hill Mafra (Pocket Beauty) assistentes Camila Rehbein e Rayssa Baú fotografados Barbara Grazielle, Bruno
Garcia, Fernanda Linero , Fernanda Marques , Jéssica Mello , Rafael Schorr e Tayná Bueno agradecimentos Ana Carolina K. Lima ,
Brechó Stop Wear , Brechó Trinca Z e Station Models
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voz da veste
FASHION DOWN
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Flávio Machado trabalha com comunicação de moda, personal
branding, consultoria de imagem e comportamento. Gosta
quando há menos “look do dia” e mais conteúdo. Tudo o que ele
busca é um espaço para reformular Clarice Lispector quando ela
diz que moda não é uma questão de inteligência e sim de sentir,
de entrar em contato. Ou toca, ou não toca.
Quem nunca vestiu a primeira peça que encontrou no guarda-roupa, pelo menos, já usou essa desculpa ao se apresentar com um look despretensioso. Saiba que a sua malha surrada, aquela peça confortável que é usada dentro de casa ou, no máximo, para ir à padaria, nunca esteve tão em alta, graças à
última palavra que saltou das revistas de moda: normcore.
O termo pode ser definido como uma consequência da nossa busca pela individualidade.
As estruturas da moda já foram marcadas por um episódio parecido. Nos anos 1970, jovens designers, aliados ao conceito grife, colaboraram para que o prêt-à-porter e a alta-costura se complementassem. Foram tantas informações que, ironicamente, a “antimoda” tornou-se moda. Homens e mulheres
estruturaram o vestuário em peças chaves, o jeans foi eleito o uniforme global e a camiseta tornou-se
essencial na moda.
As tendências são disparadas por todos os lados e com a força da mídia, qualquer “grito” pode
tornar-se o “novo preto”. Novamente, o impacto do detox fashion chegou ao poderoso triângulo de
ouro, formado pelas avenidas Montaigne, Georges V e Champs Elysées, em Paris. Foi inesperado ver
a forma como Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel, desconstruiu a alta-costura com modelos
calçando tênis enquanto desfilavam em um supermercado, projetado pelo próprio Kaiser, e com a
mesma proposta do sportwear, Raf Simons, diretor criativo da Dior, rejuvenesceu a Maison francesa
na edição verão 2014.
O normcore pode ser considerado uma extensão do termo High-Low; por meio do qual definimos a
mistura de estilos, etiquetas e texturas. Desta vez, sem o “high” na produção, tudo se torna “low”.
A proposta convida o indivíduo a simplificar sua aparência e o modo de viver. É compreensível
que essa influência seja pelos acontecimentos das esferas sociais, esportivas, políticas, culturais e outras manifestações internacionais. Personalidades distantes de qualquer ligação com a moda, como o
magnata no setor da informática, Steve Jobs, adotaram a estética anódina. Ele sempre vestiu roupas
confortáveis, criando um estilo próprio com peças básicas, comuns e discretas, sem o desejo de destaque na multidão. Manteve seus olhos fechados para o que os outros pensavam em relação às suas roupas. Quantos “Steves” vivem por aí, com a mesma audácia e despreocupação com o que vestir? Mas
como estamos falando sobre um movimento da moda, fashionistas de plantão como as irmãs Olsen,
sabem que bastam pequenos truques no styling e a transformação do comum para o superdescolado
está feita. Os cuidados pessoais tornam-se necessidades em primeiro plano como uma contribuição
para nos tornarmos contemporâneos. Um dia, estamos rindo daqueles que circulam por aí de moletom, no outro, nosso desejo por usá-lo é despertado. Cabe a você decidir se o movimento normcore faz
parte da sua melhor versão.
capa
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CONTRA
TODAS AS
CATEQUESES
Com a curadoria da arquiteta curitibana Consuelo Cornelsen, a
mostra Tupi or not Tupi, that is the question empresta o conceito
oswaldiano e reinterpreta o Manifesto Antropófago, publicado em
1928. A mostra, no entanto, vai muito além do modernismo.
por Julie Fank
fotos Rafael Dabul
“Gostei não”, foi a primeira reação do Secretário de Estado
da Cultura do Paraná Paulino Viapiana ao receber a proposta de uma exposição intitulada “Tupi or not tupi – that is
the question”. Na sequência, Consuelo Cornelsen, curadora geral do Museu Oscar Niemeyer, provocou: “Entendeu
não”. A sequência de e-mails veio depois da encomenda de
algo que fosse “diferente e abrangente” ao mesmo tempo.
A resposta negativa não atrapalhou o decorrer do planejamento que já estava desenhado na cabeça de Consuelo. A
curadora, que estava em São Paulo quando recebeu o convite, voltou a Curitiba e começou a colocar tudo no papel
para verificar a viabilidade de uma exposição que abarcaria
dez áreas das belas artes a partir da citação de Oswald de
Andrade. O mote veio de uma reportagem sobre o autor lida
durante a viagem e não saiu de sua cabeça: “Eu comecei a
me interessar sobre esse movimento da semana de 22 justamente por causa da antropofagia. Como eu te disse, eu não
conheço nenhuma cidade no mundo, e olha que já morei em
muitos lugares, que seja tão antropofágica quanto Curitiba:
um quer comer o outro, é impressionante!”.
62
NÓS QUEREMOS BACALHAU,
A GENTE QUER SARDINHA
A provocação de Oswald adotada para si encontrou eco em tudo o que Consuelo defende quando o assunto é arte. A subserviência ao primeiro mundo é o primeiro item das posturas que ela critica: “A gente ainda não saiu, não se libertou do primeiro mundo. O problema do brasileiro é que ele é subserviente e acha que tudo o que é de fora é muito melhor do que a gente
e eu não acho. Eu acho que tudo o que é nosso é muito melhor do que é dos outros, entende?”. A prova disso é o extremo
respeito pela criatividade e a liberdade total que deu aos curadores adjuntos – palavra, aliás, que explica a colocação de uma
libélula de elástico abraçando os painéis e espaços pensados para as artes. Ainda que de maneira abstrata, o inseto representa “um contexto de liberdade, a vontade de sair e voar” – um pouco próxima da dificuldade de Consuelo de se manter com os
pés no chão, assume. Partidária da criatividade como resultado de um processo coletivo de criação, defende a inserção de artistas jovens nos espaços sacralizados dos museus: “Para mim, museu é um pouco morto; eu prefiro museu com vida porque
você faz pulsar novas ideias. Claro que a gente tem a maior reverência por todo mundo que ficou famoso, por todo mundo
que já passou pela terra e fez alguma coisa de legal, fez alguma coisa bacana, mas, quando você consegue agregar cabeças
que pensem e que possam se manifestar de alguma forma, é legal! O Paulino abriu espaço pra gente nova no museu e isso eu
acho muito legal. Gente jovem, com cabeça nova. Eu acho que o que passou, passou.”, cutuca a curadora.
E se o conteúdo passa longe de estar no liame do senso comum, na forma, a exposição, de longe, supera expectativas – a
começar pelo tapete de revistas Klaxon logo na entrada. Reproduções de capas da revista que serviu de megafone aos propósitos modernistas estampam a rampa que leva às salas 4 e 5, local da exposição. O bônus é que qualquer capa pode ser
lida por um smartphone ou tablete e fornecer acesso ao miolo do número da publicação. Essas e outras intervenções digitais,
num cenário híbrido e provocativo que não poderia estar em outro espaço que senão no olho da cidade, conferem o aspecto jovem à exposição e servem de isca a todas as idades. Ainda que o recheio de cada área exija bastante do espectador em
termos de repertório, é no encantamento proposto por essas intervenções, algumas inéditas no MON, que reside o chamariz
da exposição que pretende chamar a atenção de todas as idades. Chamada por todos pelo museu de “Con”, a curadora brinca
que os jovens têm outro chip: “O chip já mudou e as pessoas não percebem.” – e isso foi levado em conta na hora de convidar
artistas under 30, como diz, para fazerem parte do processo de concepção e, por que não?, expor. A habilidade de conversar
na mesma língua com qualquer pessoa, independentemente da idade, foi o que contou pontos para a curadora reunir a equipe eclética e multigeracional: “O problema é que o pessoal da minha geração ficou na minha geração. Eu tenho um monte de
amigo, assim, da minha geração, com quem eu não consigo nem conversar porque eu não tenho o que falar. Eles estão com
uma outra maionese e eu não aguento.”, confessa.
arte fica melhor em serigrafia. Estabelecer regras é tolher a
Famosa no cenário cultural local por promover o que, na falcriação.” Ainda na mesma linha comenta que o trabalho da
ta de outra palavra, os outros chamam de “diferente”, Contrama que forma a libélula foi acolhedor nesse sentido: “o
suelo soube interpretar o mundo que já não conversa mais
trabalho manual, o trabalho da cabeça, o trabalho da criação
da mesma forma com a arte e precisa de outros canais para
é envolvente.”, acrescenta, e foi o que abriu a guarda para
ser visto. Em uma conversa que passeia pelas mostras que
que pessoas de todas as escolaridades, envolvidas ou não
ela já teve aqui, a curadora preconiza a criação como algo
com o museu, procurassem entender, participar, fazer.
que deve, sempre, subverter alguma ordem – algo difícil
Como se tivesse ajudado a escrever o trecho do manifespara uma cidade que, de acordo com ela, tem medo do novo,
o que a irrita profundamente. Ela cita uma conversa que
to “Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de
teve com o ex-ministro da cultura Gilberto Gil recentemenvelhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburte. Ele a acalmava dizendo: “Não se preocupe, Consuelo, nós,
bano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múnos criadores, estamos mais perto de Deus”, mas é a preocudi do Brasil.”, a senhora com espírito under 30 e disposição
que ignora datas, alocou a década de 30 na nova década de
pação com a fuga da mesmice o que move o seu trabalho.
10 e levantou a bandeira do autêntico e do brasileiro – hoje
Cita também uma conversa com o designer Sérgio Rodrimuito além das questões linguísticas que levavam Oswald a
gues em recente vinda à cidade, quando ele comparou Curirefutar lusitanismos. Não é só a colonização portuguesa que
tiba a uma caixa de caranguejos: “Pega um caixa de carané refutada aqui, mas qualquer referência ao tradicionalismo,
guejo e um caranguejo carioca. Ele puxa todo mundo para
qualquer apego ao que é de fora, qualquer desmerecimenfora. Se na mesma caixa tiver caranguejos de Curitiba, e um
resolve subir, o que tá dentro da caixa, pluft, puxa o outro
to do que é nosso – tudo com a mesma paixão que movia
para dentro também – e ninguém consegue sair de dentro
os modernistas a divulgarem a causa antropofágica, quase
da caixa.”. A declaração resume a sensação de Consuelo ao
100 anos depois. E paixão não tem explicação científica, não
propor uma situação que deveria ser interpretada por cada
é mesmo? Qualquer tentativa de entendimento, aliás, não é
um dos curadores adjuntos, numa espécie de libertação cobem vista. Não procure por uma libélula desenhada, não apeletiva que se sustentava como conceito a partir da libélule para o-que-quer-dizer?, não peça explicações, alerta. “Uma
vez fiz uma exposição do Jaime Bernardo de móveis e criei
la concebida no início: “Não é só você soltar suas amarras
umas coisas com aqueles aços e aquelas tevês e as pessoe não ligar para os outros. Eu quero que todo mundo saia
de dentro da caixa, que todo
as não entendiam: ‘Nossa, um
mundo se liberte. Por isso,
coração batendo, mas o que
procurei não interferir no proisso tem a ver com o móvel?’.
Aí as pessoas vinham me percesso de criação de cada um”
Recomenda-se ler esta reportagem ao som de
– provocados a partir de um
guntar para eu explicar e eu
ponto de partida e com total
fui embora. Ter que explicar
VAMOS
COMER
CAETANO?
liberdade de criar. Ela admite
a sensação, ter que explicar a
que, ainda que tenha vivido
criação... acabou a arte.”. Para
de Adriana Calcanhoto.
muito tempo fora daqui, é o
bom entendedor, meia palaamor pela cidade em que tem
vra basta; para espectadores e
raiz que a motiva a provocáamantes das belas artes, uma
exposição deste porte, diz Consuelo, deve bastar – esteve
-la: “Eu queria ajudar um pouco com essa liberdade, porque
pensando até em parar por aqui. “Agora, com essa exposieu acho que as pessoas têm muito medo, mas muito medo
mesmo do novo.”.
ção, eu vou ter que ver o que eu vou fazer porque eu coloquei
Os passos dados na carreira permitiram que fosse resaqui tudo o que eu acredito. Daqui pra frente, pra eu passar
desse chip, eu vou ter que colocar um novo porque aqui esponsável pelo direcionamento e por muito do que houvesse ali de pessoas de fora e daqui. “Não é que eu seja nada
gotou a minha geração. Aqui tudo no que eu acredito e nuncontra, só que eu não sou provinciana, tipo bairrista, eu luto
ca consegui colocar, eu coloquei aqui... Tudo o que eu apremuito com o que dizem de arte paranaense porque eu acho
cio, vamos dizer assim, que é a criatividade, que é a emoção,
que a arte é universal. Ela não é paranaense, ela não é brasique é a paz. Porque eu entro ali embaixo naquela libélula e
eu me sinto embaixo de uma teia, me sinto protegida ali e
leira, ela é universal! Porque a arte é arte.”, diz. A assimetria
me sinto abraçada por aquela coisa ali. A luz, que pra mim é
entre a quantidade de artistas paranaenses em um ou outro
uma coisa fundamental, eu não sei viver sem isso! Esses são
braço da exposição percebe-se pelo discurso dos curadores,
os fundamentos da minha vida. E agora, depois de falar tudo
o que não diminui o diálogo proposto com o que é feito fora
o que eu tinha pra falar, não sei se vou conseguir falar com
do Paraná e fora do Brasil – por brasileiros ou não. Admite
a mesma força e talvez eu pendure a chuteira, não sei, estou
que prevê críticas principalmente em relação a ausências,
pensando.”, desabafa.
presenças e critérios: “A exposição tem um pouco da cabeE se a cidade é medrosa, Consuelo segue na contracorça de cada um e tem muito da minha – por causa do direcionamento.”, mas celebra a chance que tiveram aqueles que
rente: “Não tenho teto de vidro.” – não à toa, também não
nunca puderam expor em museu antes – “O grande lance
tem papas na língua. Poderia ter sido ela a compor a músié que assim tudo fica mais democrático, né?”. E emenda:
ca que empresta trechos a este perfil e foi suavemente in“Até porque a arte é uma coisa perigosa, sabe? Existe muita
terpretada por Adriana Caetano “Vamos comer caetano”. O
coisa de curadores, no sentido de que eles fazem uma aura
que propõe, na cidade antropofágica, é banquetearmo-nos
meio assim: ‘Uau’. Não deveria ser assim. Acho que todos
da arte produzida aqui, no Paraná ou no Brasil. A ordem é
deveriam ter um pouco de liberdade para dizer que não fidevorá-la, degluti-la, mastigá-la. O banquete está montado.
Guardanapos, por favor.
cou legal e sugerir que não quer fazer desse jeito porque a
CONTRA TODOS
OS IMPORTADORES
DE CONSCIÊNCIA
ENLATADA
64
A ideia, que começou pequena,
fez do caminho mais percorrido
seus primeiros passos – as artes
visuais: “Daí não poderia faltar
fotografia, mas aí eu também
achei que não poderia faltar
performance. E se tem performance, música, dança, video,
cinema, literature, arquitetura
não poderiam ficar de fora. Daí
eu comecei a achar que não poderia faltar nada.”, complementa
a curadora. A partir da sensação
de que as libélulas precisariam
abraçar todas essas áreas e
bem amparada no repertório
para estar à frente da concepção, curadoria e museografia
de Tupi or not tupi – that is
the question, Consuelo contou
com um time, que conduziu sob
seus olhos atentos, todos os
braços que compõem o corpo
da exposição. Entre eles, Beto
Lanza, Denize Araujo, Diana
Moro, Eliana Borges, Fernando
Bini, Gabriel Machado, Henrique Cazes, Ivens Fontoura, Laís
Pires, Rafael Camargo, Ricardo Corona, Salvador Gnoato,
Sandra Fognagnoli, Thales
Quadros, Thiago Guimarães,
além de todo o escopo técnico
responsável pela parte tecnológica e estrutural que sustentou o
conceito de Oswald de Andrade.
De toda a equipe, conversamos
com alguns dos curadores e
participantes do processo para
compreender o olhar por trás
de algumas escolhas e como se
deu a interpretação do conceito
ser-ou-não-ser-tupi para parte
das cabeças que ajudaram a ilustrar a versatilidade da produção
artística brasileira do século xx.
PELA FRENTE,
A chegada à exposição já provoca um primeiro estranhamento. No vão livre, blocos das cores da tela
inspiração para toda a identidade visual dispostos em sentido oposto. Na ponta, a instalação Através,
montada pelo estúdio Aleph Zero, questiona os espaços fronteiriços a serviço da privacidade. Gustavo Utrabo, um dos arquitetos responsáveis pela instalação, explica que a proposta vinda de um escritório novo foi justamente o que a curadora Consuelo Cornelsen queria: um frescor e um olhar novo
sobre a arquitetura contemporânea. O briefing foi aberto e livre; a proposta veio em formato de estruturas verticais móveis que balançam conforme o movimento dos visitantes: “A instalação dala muito
sobre como você atravessa uma porta ou qualquer tipo de coisa hoje. É até meio filosófico, mas sempre existe uma forma de
ruptura quando você está
dentro e você está fora,
então você só sabe que
está dentro quando você
está dentro. Só que isso
acontece de uma maneira muito abrupta, é quase
uma epifania – ah, eu estou dentro agora – e isso,
na história da arquitetura, acontece de diversas
maneiras.”, explana. Uma
entrada que já se propõe
a pensar as nossas entradas e saídas causa a
primeira impressão e,
ao mesmo tempo que
introduz a reflexão sobre
a ruptura, tão presente
nos blocos da arquitetura e do design, esboça a
ruptura como um processo mais sutil em relação
ao tempo e ao espaço: A
porta, os portais são sempre rituais de passagem.
O nosso entendimento
de algumas coisas, vendo sob uma perspectiva
moderna, é muito de um
rompimento, com um
homem distante da natureza. Hoje, há um entendimento de que as coisas
estão interligadas e que
você pode atravessar as coisas sem necessariamente romper com elas.”, reflexiona Gustavo. O grupo
propõe também, por meio da instalação, uma reflexão sobre o presente, passado e futuro: “Porque
quando eu vou entrar em alguma coisa, eu estou no passado, mas a sensação do meu presente nesse
espaço de sempre estar me abraçando e esse espaço estar reagindo ao movimento do meu corpo é um
pouco dessa tentativa.”, complementa. A montagem das estruturas também estabelece uma reflexão
sobre a própria tecnologia, numa espécie de metalinguagem sobre a própria exposição, que explorou
tão bem os artefatos quase pós-modernos: a relação entre o que é público e o que é privado – através
de banquinhos estrategicamente posicionados entre os pendentes.
OSREV OLEP
66
Se você chegar pela região do café, é ali que você terá sua primeira experiência. Logo à frente, é nos
blocos de design ou de arquitetura, não necessariamente na ordem, que a aventura começa. Salvador
Gnoato, curador adjunto de arquitetura, falou sobre a concepção de cada um dos blocos à Revista One e
começou pelo conceito: “O que mais me fascinou em participar disso tudo foi o próprio conceito do Tupi
or not tupi, that is the question, brilhantemente colocado por Oswald de Andrade. E a questão que ele
coloca é – nós somos ou não somos índios, ou se nós somos ou não somos brasileiros e se nós somos ou
não somos modernos. E o legal dessa mostra é que, a partir da reflexão com o grupo, pudemos verificar
que nós somos efetivamente brasileiros e nós somos efetivamente modernos.”, introduz Gnoato. Ele explica que os nove blocos foram compostos não necessariamente de maneira homogênea, mas buscando
mesclar elementos essencialmente brasileiros com personalidades pontuais da arquitetura paranaense
– por meio de maquetes de papel e vídeos, alguns produzidos especialmente para a exposição. Os blocos dialogam na medida em que o mundo de hoje, de acordo com o curador, não divide mais os países
em centro e periferia e estabelece o Brasil também como vanguarda: “O Brasil foi tão vanguarda quanto
qualquer outro país europeu ou os Estados Unidos. Eles é que não nos enxergaram.”, avisa. Os cubos dão
corpo à arquitetura símbolo do Brasil desde a década de 20, no início do movimento modernista e encontra os olhos de um público leigo, por meio de uma tomada bem didática, ao mesmo tempo que encanta
os apaixonados por arquitetura. No primeiro cubo, Gnoato explica que sintetizou expoentes das vanguardas europeias que contrastam com o segundo cubo, utilizado para mostrar, já no Brasil, as primeiras
manifestações modernistas reflexo da Europa e, ao mesmo tempo, dotadas de uma identidade sincera. O
terceiro cubo marca a maturidade das manifestações modernistas brasileiras pelo mundo, principalmente representadas pela figura de Niemeyer, a propósito da própria sede da ONU. Nos cubos 4 e 5, Gnoato
destaca a arquitetura do Estado Novo e casas modernistas no Paraná e em São Paulo, prestando uma
homenagem a Lolô Cornelsen, arquiteto curitibano ainda vivo. Nos cubos 6 e 7, o foco é o urbanismo e os
brutalistas – dois momentos em que, novamente, Curitiba, recebe uma atenção especial. Gnoato lembra
aqui a importância de Curitiba num cenário de subversão aos moldes franceses e uma proposta diferente
em relação à cidade funcional clássica que foi Brasília. O destaque vai para a valorização do centro histórico, do pedestre, do transporte coletivo – ícones até hoje em foco quando a questão é urbanismo na capital. No cubo 8, Os premiados, o microfone aumenta a voz dos brilhantes arquitetos que o Paraná teve na
década de 70 – engajados politicamente, associavam estética e reflexão política sobre o espaço. O último
cubo é uma homenagem ao conceituado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, recentemente homenageado
em Milão, já indicado ao Prêmio Pritzker e com maturidade técnica e prestígio nacional e internacional
inquestionáveis. Sobre tentar inserir ideológica e esteticamente o Paraná em todos os momentos com
expoentes da nossa arquitetura, Gnoato acusa que “Em todas as áreas, o Paraná, dentro do Brasil, de maneira nem maior e nem menor, transcende as fronteiras e é legal poder mostrar isso para quem vai nos
visitar.”. Uma aula de arquitetura moderna em 9 passos.
Ivens Fontoura, referência em design na cidade, foi o escolhido
para a difícil tarefa de, como curador adjunto de design, passear
pelos objetos mais importantes do século xx Em vez de optar por
uma linha cronológica e usar as mesmas seis televisões e maquetes
destinadas para a arquitetura, teria que achar uma solução factível
para mostrar objetos de design que iam da moda ao transporte – o
que não seria comportado por uma unidade de tamanho das vitrines, como as maquetes. A proposta foi diminuir o número de tevês
de seis para duas e tomar o tema como uma outra ruptura: no lugar de um objeto por categoria, instaurou-se uma pergunta-título:
Onde estão os objetos? A partir disso, Ivens propôs que os objetos,
além de estarem em todos os lugares, estão na nossa imaginação.
Assim, passeou pelo design gráfico, pelo design de produto, entre
outras frentes do design de maneira mais pragmática e de um entendimento mais fácil para o público leigo, divididos em: objetos
para comunicar, objetos para vestir, objetos para serem lidos, objetos para a urbe, objetos para transportar, objetos para acondicionar, objetos para a casa, objetos para o serviço da casa, objetos para
trabalho e ócio. Dentro de um universo de “alfinete a helicóptero”,
como Ivens brinca, foi difícil o processo de escolha de ilustração
de cada uma das categorias. Ainda assim, ele se propôs a, para
cada um, escolher um objeto de um designer brasileiro que tenha
tido destaque ou que mereça destaque dentro do universo de aplicação, muitos deles vivos. Durante a experiencia, uma coleção de
imagens, rodando em looping, com um som ambiente, customizado
para servir de sonoplastia para a seleção de objetos, promove uma
espécie de investigação sonora para o espectador que, ao mesmo
tempo que vê, ouve e experiencia o design em um cubo colorido interagindo com uma mídia digital – o que provoca uma abrangência
muito maior do que o que se conseguiria somente através do objeto
em si. “A exposição deve mostrar que, dentro da temática da antropofagia, brasileiros, curitibanos, em particular, estão junto com
as maiores capacidades criativas do mundo sem nenhuma chancela particular. Competimos de igual para igual com outras cabeças
mundo afora.” Ele adianta que cada cubo, a partir da experiência
digital que se pretende mostrar, está completamente diferente do
outro em termos de experiência – para cada cubo, um mosaico sonoro e visual – mais de 100 objetos por categoria. O critério? “O
mundo é assim. Cada um coloca uma pedrinha e, de pedrinha em
pedrinha, construímos um castelo. Essa curadoria é só uma pedrinha. Não existe uma pretensão em dizer que aqui há um resumo do
design no século xx. A ideia é que cada um, ao participar, possa dar
continuidade respondendo à pergunta ‘Onde estão os objetos?’ no
seu dia a dia.”, provoca. Afinal, defende Ivens, são os objetos que
fazem o mundo funcionar e são eles também habitantes do mundo
– uma provocação ilustrada e com trilha sonora.
AS EXPECTATIVAS E
O ESCOPO TÉCNICO
- PELO ÓBVIO,
PELO INCERTO
68
A curadoria que abrange a escultura, a pintura, o desenho, a gravura e a fotografia, perpassando do bidimensional ao tridimensional, ficou por conta de Sandra Fognagnoli. Esse braço pretende mostrar a procura da identidade brasileira que atravessou o
século xix e como, nesse período, criamos nossa tradição nacional. Da mesma forma, a câmera, no século xx, começou a duplicar o mundo e a documentação dele através das lentes foi além do mero registro, para ser um meio de manifestação estética.
“Desenvolvi esse trabalho ao lado do professor Fernando Bini e de um profissional de São Paulo chamado Thiago Guimarães.
Evidenciando os artistas brasileiros, não poderíamos deixar de colocar o Paraná, representado por artistas como Guido Viaro,
Theodoro de Bona, José Antônio de Lima, Alfredo Andersen, Domicio Pedroso, Helena Wong e Miguel Bakun.”, explica Sandra. A ideia, ela conta, era se desvencilhar da nomenclatura “paranaense”, já que todos são, afinal, também brasileiros. A problemática, em processo desde novembro, foi mostrar em 18 painéis, com 36 faces, uma história da arte brasileira com excelentes expoentes. “Foi então que resolvemos pontuar a exposição por décadas. Nesses painéis, a gente tentou transmitir alguns
movimentos, alguns núcleos como ponto de partida.”, acrescenta. Foram quase cinco meses de pesquisa entre várias coleções
museológicas e particulares do Rio, de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Paraná. Várias coleções foram solidárias à
curadoria: Pinacoteca, Itaú Cultural, MASP, MAC, USP, Coleção Roberto Marinho, Pirelli, entre outras particulares. A curadora
lembra que vários desses artistas transitaram também por outras artes, pontuando seu talento na arquitetura, no design. “A
história não se desliga, todas as áreas estão amarradas por um único objetivo que era mostrar o novo rumo da arte brasileira,
não seguir modelos europeus ou americanos. Obviamente, eles tiveram influência de movimentos como o expressionismo, o
surrealismo, mas o que eles fizeram foi arte brasileira.” Em termos de inovação tecnológica, as artes visuais competem com
uma museografia de grande impacto estético e simbólico, quadros originais de instituições públicas e privadas e de colecionadores particulares. “Na fotografia, digitalmente, exploramos apenas o vídeo. A questão é que ela abriu um leque muito grande,
então pode ser que esse painel volte no futuro no formato de outra exposição.”, avisa. Nas artes visuais, a tecnologia vai estar
presente no painel da linha do tempo que situa artistas, tanto de relevância nacional como internacional, que já passaram pelo
MON. Sandra explica que o visitante poderá, ao avistar a linha do tempo, baixar um programa no tablet ou no celular em que,
ao clicar em um artista que já teve sua obra exposta no museu, vai ter acesso a um tour virtual da exposição individual. Bom
para o visitante, que poderá levar um pouquinho do museu para casa e acessar sempre que quiser.
ARTES
VISUAIS
EM
COMUNICAÇÃO
COM
O
SOLO
Ao abarcar 10 eixos dentro do universo artístico, Arquitetura, Design, Teatro, Literatura, Dança, Música,
Performance, Fotografia, Cinema e Artes Visuais, a
exposição se insere dentro do histórico do Museu Oscar Niemeyer como a mais abrangente e a com maior
quantidade de pessoas envolvidas. Ao todo, Cristiano
Augusto Solis de Figueiredo Morrissy, diretor presidente do museu, conta que foram quase 600 pessoas envolvidas, entre funcionários e colaboradores.
“Estamos com uma boa expectativa: esperam-se em
torno de duzentos mil visitantes no período de junho
a setembro, quando a exposição se encerra.”, diz o
diretor. A diretora cultural Estela Sandrini também
endossa o discurso sobre o esforço que a exposição
demandou e o que se pretende com o evento: “A
exposição une duas pontas: ícones do universo da
arte associados ao uso da tecnologia. Nesse modelos,
esta é a primeira exposição com tamanho caráter de
abrangência.”. A diretora também destaca que a questão dos direitos autorais foi a grande dor de cabeça
para o setor jurídico: “Foram mais de 300 contratos
de direitos autorais e licenças de uso de imagem”. De
imagens a textos, o que deu mais trabalho foram as
editoras – ela conta que algumas nem responderam, o
que ocasionou algumas trocas de títulos. Alguns que
receberiam destaque passaram a ser somente citados.
A exposição, que foi financiada pela Lei Rouanet e
teve como apoiadores empresas públicas e privadas,
foi planejada em outubro e, de acordo com Cristiano
Morrissy, foi apresentada ao Ministério da Cultura
em fevereiro. A aprovação, apesar de rápida, foi feita
só no começo de abril, o que deu aos organizadores
pouco menos que dois meses para a organização.
Divonsir Menarin, responsável pelos projetos técnicos, diz que não foi fácil colocar em prática as ideias
da curadoria: “Estou no projeto desde dezembro. Ele
passou por muitas e muitas horas de planejamento,
modificações e aprimoramentos. A gente fez alguns
testes da estrutura, principalmente, da estrutura de
alumínio. Fizemos maquetes, protótipos para serem
avaliados. Felizmente, tudo foi sem encaixando e
resultou em um final bem legal, bem bonito.”, relata animado. Ele frisa que, mesmo as dificuldades e
imprevistos geraram situações mais fáceis de lidar
e mais qualidade no resultado final: “O ineditismo
desta exposição é o que vai chamar a atenção. Não
é para uma visitinha rápida – as pessoas vão passar
horas aqui. A exposição inaugurou no dia 31 de maio
e vai até o dia 21 de setembro – até lá, se as expectativas se confirmarem, os números vão ser responsáveis
por recordes de público e de estrutura por aqui.
TETO DE
ELÁSTICO
Conversamos com o designer alemão Henning Kunow, responsável pela instalação verde e
amarela sob a qual os visitantes estarão, sobre o processo de construção das duas libélulas,
símbolo da exposição que cobrem os painéis das salas 4 e 5 do MON. Ele enfatizou o processo artesanal, social e sustentável que culminou na construção da estrutura completamente
planejada, do início ao fim, para ser somente parte de um processo, produzir a menor quantidade de lixo possível e, posteriormente, ser integralmente reaproveitada. Ele e sua mulher, a
arquiteta Letícia Kunow, também foram responsáveis pela cadeira Lambrequim, adaptação da
tradicional longarina, encontrada no teatro.
MANIFESTO
NO PALCO
Como foi o processo de execução da libélula, desde o processo de concepção dela até
o processo de execução?
Eu ajudei a Consuelo no desenvolvimento da exposição com as maquetes 3D e ela convi−
dou um outro escritório de arquitetura, a minha mulher, Leticia Kunow, e eu para pensar
em uma cobertura para essa exposição. Na verdade, ela falou para fazer só uma libélula
na cobertura, mas como sou designer, sempre estou experimentando – e propusemos um
pouco além disso. Já tinha há 2 anos na minha casa uma caixinha de elástico que um ami−
go comprou errado. Ele queria fazer um guia para turismo e prender com essas brochuras,
comprou errado, enfim, e deu pra nós, porque sabia que um dia nós íriamos fazer alguma
coisa com isso. E apodreceu no nosso banheiro. Depois de 2 anos, a minha mulher falou:
“Não, agora eu vou jogar fora” – Daí eu falei: “Não, vamos fazer uma coisa” – e como tenho
um interesse por biônica, pela natureza, princípios e geometria, fizemos uma coisa assim.
Por que hexágonos?
Os hexágonos são a forma da natureza, na minha opinião, mais eficiente para fazer uma
área; melhor que um quadrado. Precisa de menos material e as abelhas usam essa forma
para montar suas colmeias, né? E aqui também tem a ver um pouco com a copa do mun−
do, porque com a trama, você pode fazer um gol. Nós precisávamos fazer uma coisa que
não custasse muito, então optamos pelo elástico.
70
Quantos elásticos?
Foram 1100 quilos, aproximadamente 300 mil elásticos.
E quem te ajudou a fazer tudo isso?
Isso também faz parte do conceito. Desde o começo, nós queríamos envolver outras pes−
soas, por exemplo, o orfanato Pinheiros aqui perto de Curitiba. Eles ajudaram a fazer a
libélula verde. Aqui, tem também a ação educativa do Museu Oscar Niemeyer, que são
20 pessoas, mais ou menos, ajudando. Minha mulher é professora em Joinville, na PUC,
e ela tinha 100 estudantes da arquitetura ajudando a fazer também.
No total, foram quantas pessoas?
Ninguém sabe porque elas envolviam avô, pai, todo mundo. Tinha uma competição tam−
bém, os dez melhores de Joinville vão vir aqui, nós pagamos hotel, tudo. Ou seja, muita
gente deve ter ajudado.
Quanto tempo foi de preparação?
Acho que o primeiro pedaço a gente começou a fazer em abril.
Qual a tua visão de estrangeiro com relação a essa mostra, já que a mostra é essencial−
mente brasileira?
Eu moro aqui, agora há 3 anos, casado com brasileira, curitibana. Mas assim, como eu fui
envolvido no processo, consegui aprender muito mais sobre os artistas brasileiros. Não
achava que tinha tanta coisa. É muito bom saber disso! E outra, vocês precisam ter orgu−
lho e não olhar sempre para fora, como Europa, Estados Unidos, vocês têm que olhar para
a qualidade da arte que temos aqui. Outro fator legal aqui foi a sustentabilidade, porque
quando você faz uma exposição, você joga tudo fora depois e, aqui, não, pudemos pensar
em o que nós vamos fazer com isso.
E o que vocês vão fazer?
Primeiro, a Consuelo pensou em fazer outras exposições, mas não está nada certo ainda.
Depois que desmontarmos tudo isso, a trama de alumínio, por exemplo, vamos devolver
na fábrica, porque na fábrica eles podem reciclar 100% já que não foi usado parafuso, cola,
nada, tudo foi feito só com o próprio material.
Coordenador de atividades culturais e curador adjunto responsável pelo teatro, Beto Lanza conversou com a Revista One sobre a inserção de um palco associado à tecnologia no meio dos painéis de literatura e ao lado do corpo da libélula que representa o cinema. A partir do pedido inicial da curadoria geral, que pretendia fazer uma retrospectiva do modernismo até a arte
contemporânea, o desafio era materializar em uma exposição de arte, em um museu, o teatro. Lanza conta que o mote para
a montagem de três momentos fundamentais do teatro foi o questionamento: “O que é o teatro de forma retrospectiva?”. A
ideia de fazer uma abordagem histórica e levantar um material iconográfico não se sustentou e deu lugar a um simulacro do
próprio teatro no meio do museu, no meio da exposição de maneira a dialogar com as demais linguagens: “O que eu propus:
vamos simular o teatro propriamente e tentar, na medida do possível, trazer a presença do teatro para dentro da exposição.”,
conta. Pinçaram-se, então, três atores relevantes e ao mesmo tempo homenageados dentro da cena curitibana e na cena nacional: Ary Fontoura, Luiz Melo e Simone Spoladore, e três momentos da dramaturgia significativos a partir do modernismo:
“Convidamos o Ary para fazer o Manifesto Antropofágico, do Oswald de Andrade, o Luiz Melo para fazer Nelson Rodrigues –
Um conto da vida como ela é – e a Simone para fazer um trecho do conto do Luiz Felipe Leprevost , que é um escritor curitibano que está no cenário nacional. Com isso, nós conseguimos fazer, em vez de uma retrospectiva histórica, uma ação que
está acontecendo agora e por artistas que estão atuando e que têm uma excelente representatividade no cenário nacional e
internacional, seja no teatro, no cinema...”, defende Lanza.
Impossibilitados de manter um ator, durante toda a vigência da exposição, atuando em horários fixos e à disposição de
uma mostra, a solução foi produzir uma cena que se pudesse reproduzir sem causar no espectador a sensação de cinema. O
recurso para a “presentificação” dos atores foi tecnológico: a holografia. “A gente fez a cena no estúdio, só que de uma forma
teatral e não em forma de vídeo e nem de cinema. Aí essa imagem foi tratada para simular uma situação dentro do teatro
com elementos cenográficos tridimensionais dentro da cena e, posteriormente, com a montagem de um cenário teatral dentro deste espaço.”, explica. O resultado são três momentos significativos dentro da dramaturgia quanto à escola de interpretação e de atuação, três momentos significativos dentro da literatura em conversa e três atores que dialogam com o teatro
curitibano e nacional – tudo isso através de uma sensação, ainda que simulada, na essência, teatral.
Nossa dica é: comece por aqui, ouça Ary Fontoura recitando
o Manifesto Antropófago, e parta para o resto da exposição.
linhas de bamba
POR QUE VOCÊ OUVE MÚSICA?
72
Guga Azevedo é jornalista e acredita
no lado bom da vida. Curte pessoas,
valoriza as conversas de boteco e
manhãs ensolaradas de domingo. Para
(não) fugir do clichê, ele também é DJ e
editor do blog Grande Escape.
Esses dias eu estava vendo uma apresentação do David Byrne em uma edição do TED realizada em
2010. O líder do Talking Heads falava sobre como a arquitetura e as construções de espaços para música ao vivo podem influenciar ou não o processo de composição. Súper tema.
Com um reconhecimento que vai além de sua obra musical, Byrne traçou uma enorme linha do
tempo que começa com aldeias no Oeste da África e termina nos porta-malas de carros e MP3 players.
Lembrou como suas músicas soavam estranhamente melhores no caótico CBGB do que em um Carnegie Hall da vida. Mostrou lugares onde Bach e Mozart compunham, as barulhentas audiências das
salas de óperas italianas no século XVI e os pequenos clubes de jazz que existiam lá por 1910 – todos
os ambientes bem relacionados e influenciando diretamente o artista, mesmo que de uma forma inconsciente. O surgimento do microfone, a utilização de lugares com péssima acústica (estádios, parques, estacionamentos), os clubes e discotecas. A proximidade do público com o músico atuou da
mesma forma no nascimento do jazz e, anos depois, no surgimento do hip hop. Dançarinos pediam
que determinadas partes da música fossem repetidas para esquentar o baile. O primeiro gênero partiu
para um tema simples e bem colocado, com espaços para variações dos solos. O segundo usa e abusa
de loops até hoje.
Como era esperado, Byrne confirmou que o ser humano se adapta ao ambiente para poder expressar sua paixão, traduzir seus sentimentos e se comunicar. Pássaros fazem isso em diferentes
habitats, não seria diferente conosco. Não somos melhores que os animais quando o assunto é instinto. Pelo contrário.
Foi aí que caiu minha ficha. A paixão está lá na equação: a vontade de criar um contexto de aproximação entre obra, artista e ouvinte também. O músico quer manifestar suas ideias e sentimentos
de algum jeito. Como visto, o ambiente é importante, porém, temos agora adversidades contornadas
graças à utilização da tecnologia. Mas... E nós? Estamos fazendo a nossa parte? Você, eu e o carinha
ali ao lado com a mesma camiseta de banda que você ama. Ou aquela menina gata que fica no canto
da pista de dança fazendo tipinho, não dá bola para ninguém, mas sabe todas as letras decoradas? Se
existe uma discussão entre músicos, profissionais e técnicos, por que não a trazemos para refletirmos
sobre nossa responsabilidade nisso?
Sim. Desempenhamos relativamente bem nosso papel. Só estamos mais chatos.
Em algum momento histórico de posicionamento mais radical, nerdístico ou politicamente correto, esquecemos qual é o real motivo que nos leva a ouvir música. Essa iniciativa louca de sair dando play por aí em fones de ouvido, vitrolas, cd players ou programas de computador nos faz bem, diverte e emociona. O resto é apropriação de alguns junto à necessidade de autoafirmação de outros.
Ninguém vai salvar o mundo ouvindo música... Mas é um começo. Só não temos que nos levar tão a
sério nessa seara.
Vamos voltar para essa linha do tempo criada por Byrne. Nas aldeias e vilas não existia registro
sonoro ou grandes opções. Você ouvia somente as canções tradicionais de seu povo, e quando alguém resolvesse tocá-las. Depois disso, elas perambulavam entre assobios e banhos no lago (vamos
imaginar que nessas aldeias não existiam chuveiros, tá?).
Hoje temos a facilidade de ouvir a hora que quisermos, com os egoístas fones de ouvido e nosso
mundo de gosto particular. Temos opções. Não precisamos aceitar o que a maioria ouve – por mais
que esse seja um discurso batido da turma que curte meter o pau em música pop e grandes veículos
de massa – e possuímos um universo de surpresas sonoras a poucos cliques online. Estamos vivendo
bem melhor do que jovens aldeões sem perspectivas, mas não nos divertimos da mesma maneira.
De bate pronto eu posso levantar aqui vários motivos que nos levaram a isso, e todos envolvem
dinheiro. Estou bem longe de entrar nesse universo de discussões e frases feitas (até como você pode
observar com as poucas linhas que faltam para terminar esse texto), só que essa eterna discussão do
papel financeiro na música, influenciado pelas marcas e a crise das gravadoras nos transformou em
ouvintes chatos. Frequentamos bares, shows e grandes festivais com nosso dinheiro suado e esquecemos que fazemos isso por diversão. Para cantar, dançar, pular e vivermos um pouco mais.
Música ainda é uma manifestação artística que fala claramente sobre amor e sua ausência, sexo,
raiva, política, crimes, discursos, dias ensolarados, deuses e demônios, momentos históricos, conversas de botecos, uma noite vazia... A materialização em palavras e ritmos de sentimentos que temos e
não conseguimos verbalizar. De um jeito ou de outro alguns espertalhões encontraram uma maneira
de lucrar com isso, mas como em qualquer área do universo consumista, você tem a opção de comprar
o pacote ou não. A gana pelo dinheiro de alguns é equivalente à procura por novas emoções de outros.
Só depende de você dar o devido peso a cada medida na balança e... relaxar. A vida é assim. Solta o
play em algum disco favorito de adolescência e repita a pergunta, “por que eu ouço música?”.
spots
Coquetéis, um casarão de 120 anos
tombado pelo patrimônio e o tom
vermelho complementam a pegada
sessentista que um trio ousou
montar numa região residencial
do alto do São Francisco
ENTRE FLAMINGOS
E GAIOLAS
por Julie Fank e Rayssa Baú
fotos Rafael Dabul
74
NO HAY BANDA! THERE IS NO BAND! IL N’EST PAS DE
ORQUESTRA! THIS IS ALL... A TAPE-RECORDING. NO HAY
BANDA! AND YET WE HEAR A BAND. IF WE WANT TO
HEAR A CLARINETTE... LISTEN.
76
A atmosfera boêmia que circunda o casarão de 1893
no São Francisco é só um detalhe depois que você entra no banheiro de flamingos ou no de pelicanos. Os
anos 60 e 70 estão de volta – regados a coquetéis e
embalados a danças cuidadosamente estreladas por
gogô dancers em gaiolas. A moldura são cortinas vermelhas de veludo impecavelmente costuradas e uma
parede pintada por um verde cor-de-azulejo-do-banheiro-da-casa-da-vó. Na entrada, samambaias dão as
boas-vindas. Com todo esse cenário, a única coisa que
seu pé precisa fazer é dançar – sobre um piso também
vintage – uma parte dele, tacos de madeira, foi catada
no lixo, outra, respeita a granitina – auge das calçadas
e pisos de qualquer escola da nossa infância.
Por trás do novo integrante da cena curitibana,
um trio de amigos que transpira cumplicidade e companheirismo e suou durante o processo de confecção
da casa. Os trâmites burocráticos encompridaram a
obra para um ano, além do processo de pesquisa e
criação que havia demorado mais outro. Os dois anos
de espera para ver tudo funcionando valeram a pena,
atestam os sócios Isa Todt, Flávia Prieto e Tato Capora, além de todos os clientes que frequentam e visitam a boate. A preparação contou com uma profissional de consultoria que cuidou de todos os detalhes
referentes a atendimento, maquiagem e visual, responsáveis por deixar todo mundo no clima proposto
como diferencial: o atendimento impecável. A equipe
enxuta de 22 pessoas responde bem e já tem ouvido
elogios. Na equipe artística (produtores, DJs, gogôs,
fotógrafos etc., são mais 40 pessoas, em média - uma
equipe grande que vai se revezando. “A gente pesquisou muito. Estamos há dois anos colocando agulha
na ferida e vendo o que é legal e o que não é. Desde
o começo, primamos por uma equipe mais jovem e
que não tivesse experiência. E com todo o atraso por
parte da burocracia, tivemos tempo de lapidar essa
garotada com treinamentos de praticamente 6 meses, desde a parte de drinks até a nossa concepção
de casa.”, cutuca Tato. Os questionamentos vieram
de todos os lados – desde quem achava loucura montar uma boate depois do desastre acontecido no Rio
Grande do Sul a quem afirmava que o bairro não absorveria a estrutura toda.
O período generoso também auxiliou na construção da casa que precisou de grandes cuidados e modificações. O projeto é de Gerson Lima, mas as ideias
vêm das andanças e viagens do trio ou de cada um por
aí – e o mix todo foi sendo colocado em prática com
as orientações técnicas do arquiteto. Flavia conta que
a casa que abriga hoje o negócio dos três não tinha
nenhum investimento na parte de cima nem na parte de baixo. Um olhar de aproveitamento e meses de
paciência transformaram o porão no primeiro andar e
entrada da balada, tudo com a devida autorização dos
bombeiros. “A casa era de pessoas que queriam ter
um bar, mas não tinham uma proposta grande nem
ousada”, complementa. O marido Tato acrescenta que
a ideia era dar uma arrumada na casa e modernizá-la
para abri-la ao público. Depois de apresentá-la, revela que os planos são de isolar acusticamente a parte
de baixo para transformá-la numa espécie de lounge
com um som mais tranquilo. E por falar em acústica,
além de terem o casarão completamente mapeado
hoje hidráulica e eletricamente, contaram com a ajuda de um físico para promover a qualidade acústica e
o isolamento sonoro da balada – principalmente para
não arranjar brigas com a vizinhança. Tem dado certo.
A grande inspiração estética, eles confessam, foi
a ambientação intimista do Clube do Silêncio, coincidentemente localizado às labirínticas ruas da região histórica de Montmartre, na capital francesa. As
cortinas vermelhas não deixam dúvidas – os móveis
desenhados e a experiência acústica cumprem bem o
papel de, de alguma forma, remeter a ele. Tato adianta
que foi amor à primeira vista. A bagagem mochilística dos três também confirma: “Tudo o que tem aqui
no bar vem de várias referências. Não que nosso bar
seja a cara de tal coisa. Ele é o melhor de tudo aquilo
que a gente viu e viveu.”, conta Isa. As gaiolas surgiram como um brinde depois de várias ideias e não dá
para negar que são o chamariz da decoração. “A gente
já tinha as dançarinas, só que em um palquinho que a
gente chamava de queijo, aí quando vimos a estrutura
da casa, o pé direito e começamos a pirar na decoração, vieram as gaiolas.”, relembra Isa. Tato avisa que,
a princípio, o público não era o foco: “Mas só catando
pelos cabelos, porque todo mundo quer entrar nesse
troço agora. Virou o documento da casa.”.
Outra célula da casa é a conhecida festa “Só o soul
salva”, itinerante e tradicional há quatro anos. Foi ali
que ocorreu a fusão do trio. Isa, artista plástica, já tinha a festa. O casal Flavia, zootecnista, e Tato, coordenador de marketing, tinham a vontade de abrir um bar.
Aí promoveram uma edição juntos no bar CULT. Foi a
maior da história da festa e o começo de uma socieda-
de. “Era para 800 pessoas e foram 2 mil.”, comemora
Isa. A primeira “Só o soul salva” havia acontecido no
finado ON, também nos arredores do São Francisco,
e mostra que o bom filho à casa retorna, mas o evento de inauguração e também queridinho da casa é a
New Classic, estrela apresentada pela primeira vez na
festa de inauguração da Paradis, no dia 28 de abril e
mantida como atração aos sábados, regularmente. Ela
é uma espécie de gancho para as novas gerações e
para a galera que não conhece o que tem de legal nos
60 e 70. Com 80% da trilha sonora contemporânea, é a
partir dela que o pessoal conhece a casa e volta para
curtir e conhecer novas velhas trilhas. “No quesito
festa, a gente tem o privilégio de conhecer figurinhas
com um talento monstruoso que uma geração inteira
estava passando sem ter a possibilidade de ver colocar o vinil dele aí com uma trilha sonora maravilhos”,
comenta Tato. É respeitando a efervescência da década de 90 que formaram, de alguma forma, o repertório
artístico do trio e trazendo esses amigos, que a casa
tem feito barulho na cena noturna curitibana. “Acho
que a gente é um pouquinho de cada um desses bares
que a gente frequentou, mas um pouquinho de cada
um por a gente ter aspirado bastante fumaça e ter ralado tanto em noites de frio. Foi dessas coisas que a
gente tentou tirar o melhor de cada lugar e trazer para
cá. A gente respeita muito a cena de Curitiba que é
sempre muito legal, mas achávamos que ela andava meio morna e queríamos colocar um temperinho,
uma pimentinha, formatando o que a gente já pensava.”, complementa. Uma das principais queixas era o
fato de muita gente bacana sair de São Paulo, ir para
Porto Alegre e Florianópolis e nem colocar Curitiba
na rota - agora, a cidade passa a ter mais uma opção
de abrigo para esses artistas.
Aliás, abrigo mesmo por ali é a gaiola que recepciona bem qualquer pessoa com um tiquinho de desembaraço. É tão bem-cotado o lugar que para que
camarote? Toda a noite, os três recebem currículos de
pessoas que querem ocupar o lugar das gogôs. Flavia
relata que muitos perguntam como fazem para ser um
gogô. “A gente fala: ‘Sobe na gaiola e mostra o que
você sabe!’ E o pessoal vai e se joga!”. Sobre a mínima
possibilidade de isso ser encarado como vulgar, Tato
avalia que eles se preocuparam com aquela fronteira
tênue entre a coisa mais “classuda” e o vulgar, já que
desde o início sabiam que elas iam ter uma postura
realmente profissional: “O figurino delas mostra isso.”.
Mulholland Drive
David Lynch
2001
Isa menciona que são todas bailarinas, dançam ou fazem teatro e que eles não se preocuparam com estereótipos: “Temos todo o tipo de biótipo, desde a magrinha, loirinha, até a altona, baixinha. O importante
é saber dançar!”.
E se, para as gogôs, o importante é saber dançar,
para quem vai, o negócio é ter pré-disposição e deixar
a timidez bem longe do piso de granitina e dos globos
prateados - sem necessariamente subir na gaiola. O
negócio é aproveitar as festas que têm seu temperamento denunciado pelo nome Retrofilter, Crossdresserdiscodiva, Old Fashioned, Pérola Negra, Caliente,
Brasilidades e assim por diante, escolhendo-as pelo
humor do dia e tendo certeza de que vai ter resgate
de coisa boa aí - seja dos 60, dos 70 ou de algum vinil que você não conhece e já deveria ter adicionado
à playlist. A boate já conquistou seu lugar na cena e
deixou claro que seus donos acertaram na mão e na
dose, e a receita não é segredo - a questão é que ela
começa a dar pitaco sobre o que, afinal, pretende ser
na microcena do São Francisco: “A casa fala por si só
e tá começando a falar com a gente. Como uma amigo bem disse: é para a gente aproveitar esse prazer
de achar que é dono dela, porque daqui a pouco ela já
manda na gente.”, brinca Tato.
E enquanto o trio ainda manda por aqui, eles nos
indicam o Paradis como sua graça. A nota de fundo
do main drinque fica por conta da tequila, enquanto as frutas obviamente protagonizam a bebida que
empresta o nome da discoteca, já que é para ser vintage. Não é a cerveja que manda aqui, não. No carro-chefe das noites setentistas da Paradis, a tequila, o contreau, purê de abacaxi e morango mais um
suco de limão resumem o mood da noite enquanto a
identidade essencialmente francesa, cultura praticamente oficial na década de 60, também é endossada
pelo nome - que não necessariamente é pronunciado
com sotaque de biquinho. Paradis, assim, abrasileirado mesmo, vem de paraíso, ou melhor, da chácara de
uma tia de Flávia, onde tem bicho de tudo quanto é
tipo – até pavão. A ave (que o digam os pavões, flamingos e pelicanos espalhados pelo local), o paraíso
particular da tia e o nome simpaticamente europeizado trouxeram a inspiração que os donos precisavam
para batizar o que seria, dali para frente, o paraíso
dos três e de qualquer pessoa que esteja querendo
aproveitar a noite - na gaiola, ou não, num sábado à
noite ou em qualquer segunda-feira.
spots
Gin Hendrick’s chega a
Curitiba com a proposta de
recriar um sabor no cenário
da coquetelaria local
REPAGINADO
por Rayssa Baú
fotos Naideron Jr
78
Gin, pepino e pétalas de rosas. O que esses três elementos têm em comum? Aparentemente, nada, mas,
juntos, mesclam experiência e sabor. O Gin Hendrick’s é uma bebida inusitada no mundo do gin tônico e traz em sua essência um produto refrescante e
com aroma floral, já que é elaborado com infusões de
pepino e pétalas de rosas. A invenção peculiar veio
da empresa inglesa William Grant & Sons, fundada
há 125 anos e bastante reconhecida pela produção de
whiskys. Para fazer a bebida, a destilaria aposta em
alguns diferenciais, como o uso do alambique “Carter
Head”- uma raridade com apenas quatro exemplares
no mundo. Sua função? Banhar os ingredientes e as
onze ervas botânicas que o compõem em vapor, em
vez de cozi-los.
A bebida produzida artesanalmente é mais antiga
do que parece e já está presente em 60 países. Quem
nos diz isso é o diretor da importadora Porto a Porto Pedro Corrêa de Oliveira, responsável pela distribuição da bebida. No Brasil, o Hendrick’s começou
a aparecer em São Paulo, depois foi para no Rio de
Janeiro e só neste ano, atrasadinho, chegou a Curitiba. A terceira cidade foi escolhida a dedo e não deixa dúvidas de que há grandes expectativas por parte
de Tomas Vieira, gerente de produto de Hendrick’s
no Brasil. “Será um dos mercados foco para a marca
nos próximos anos. Queremos que as pessoas peçam
Hendrick’s e não gin tônica.” O Gin Hendrick’s é extremamente delicado e deve ser servido em um copo
largo, ou melhor, em uma taça de vinho tinto. Deve
também ser apreciado com calma, já que possui 44%
de álcool em seu conteúdo.
Para fixar o Gin Hendrick’s em Curitiba, foram
escolhidos alguns estabelecimentos que já possuem
uma considerável coquetelaria para comercializar o
produto na região, certo, Tomas? “Escolhemos a dedo
as casas que irão comercializar o produto. Queremos
pegar o consumidor pela boca e provar porque o nosso gin é diferente.”. A bebida chegou à cidade no dia
07 de maio e teve o seu lançamento no dia 21 do mesmo mês em um evento exclusivo promovido pela importadora Porto a Porto, na Vox. Atualmente, a bebida
já pode ser saboreada em alguns locais. São eles: Alessandro y Frederico, Durski, Edivino, Lagundri, Le Vouler du Velo, Madero Batel, Madero Prime, Pobre Juan,
Tesoros de Cuba e Vox. Se os lugares não parecem ter
muita coisa em comum, quem sabe não seja o Hendrick’s o elo que faltava.
spots
publieditorial
Entre luxo e rosas, os quinze anos das netas
Lupion marcam a tradição curitibana
ÁLBUM DE FAMÍLIA
da Redação fotos Iko Eventos
80
Nova confeitaria na Boca
Maldita promete resgatar
receitas de vó, tia, irmã,
sobrinha ou qualquer boa
cozinheira que tenha colocado
a mão na massa ou inventado
delícias nos anos dourados
ANOS 50 E 60
TRADUZIDOS
EM AÇÚCAR
por Gustavo Zielonka
fotos Tatiana Nasser
Depois da febre dos cupcakes e dos brigadeiros de colher, chegou a vez dos bolos caseiros
conquistarem o público curitibano. A pegada é
a nostalgia que acompanha esse tipo de produto. Afinal, quem não se recorda da vozinha que
fazia bolos assim para o lanche da tarde?
Seguindo essa linha do comfort food (termo
utilizado para se referir a comidas que mexem
com as memórias e trazem a sensação de bem-estar, de ser cuidado), foi inaugurada na Galeria Tijucas, Boca Maldita, a Sweet Lolla, uma
confeitaria que remete às lanchonetes americanas dos anos 50 e 60. A decoração, o cardápio
e a apresentação das comidinhas foram inspirados nos nostálgicos tempos da brilhantina.
O coquetel no início de maio reuniu imprensa e amigos da empresária Fernanda Guimarães
em um encontro intimista, no qual puderam
provar algumas das delícias da casa. Além dos
bolos, a maior parte produzida com receitas da
família, há bolachinhas diversas (amanteigadas,
nozes, castanhas, chocolate etc.), quindins, palha italiana, club cake (sanduíche de bolo), cinnamon rolls (bolo de canela), brownies, coberturas, bolos salgados (queijo e jardineira), sem
glúten e diet. Se depender da memória olfativa
e da saudade até do que ainda não experimentamos, pedidos de receitas não vão faltar.
Quem disse que os costumes se perderam no decorrer dos
anos, não conhece as famílias tradicionais de Curitiba. Em
pleno século XXI, as tradições não são mais as mesmas, assim como as cidades, a natureza, as pessoas, e todo o resto. Ainda assim, existem raízes que se fixam de tal forma
que não há vento ou tempestade que possa arrancá-las. A
família numerosa de Vera Amaral Lupion que o diga. A orgulhosa avó não abriu mão de debutar as quatro netas em
uma mesma noite na sua antiga casa, o Castelo do Batel.
A festa, realizada no dia 29 de março, ornou tons de
branco, dourado e rosé com candelabros, ânforas e decoração floral. Para dar as boas vindas aos convidados e
externar a felicidade em realizar muito mais do que um
aniversário, Vera Amaral Lupion fez questão de pegar o
microfone: “Aproveitem porque dificilmente vocês irão ver
uma festa como essa, com quatro netas e uma avó tão feliz.”
Para tornar realidade todo o conto de fadas, a família
contou com a ajuda de profissionais referência em seus
setores de atuação: Viviane Malucelli, Rossana Lazzarotto,
Denise Leal, Iko Eventos, Hermes Custódio, Nizo Gomide,
entre outros.
Certamente, essa cena dificilmente irá se repetir. Pelo
menos não com a elegância que reinava nos quatro cantos
do Castelo – muito menos com a emoção de um discurso
oferecido pelos pais e uma salva de palmas dos quase 700
convidados a cada uma das debûts: Esther, Julia, Gloria e
Carolina. Fazendo jus à tradição, as meninas não abriram
mão de dançar a valsa, brindar com taças de champagne e
cantar parabéns – que, diga-se de passagem, não deve cair
de moda nunca.
publieditorial
82
As curitibanas podem dar o último grito de vitória. Na luta contra
a gravidade, todas as armas são válidas e, na tentativa de colocar
tudo o que já esteve em cima em seu devido lugar, duas técnicas
prometem deixar a pele mais firme e reduzir a “papada”.
GRAVIDADE, DESATIVAR!
da Redação fotos Divulgação
Quem não gosta de massagem que atire a primeira pedra, ainda mais quando ela traz tantos benefícios. A massagem mioativadora é uma delas e serve bem àquelas mulheres que buscam melhorar
a aparência da pele e o tônus muscular. “A massagem tem como objetivo ativar as proteínas fundamentais para a oxigenação e tonificação da miosina e da mioglobina, que resulta na reafirmação da
pele”, explica a responsável pelo procedimento, Diva Ana Miranda. Para conseguir o efeito desejado, a massagem deve ser feita em 10 sessões, 2 vezes por semana. Após esse período, a manutenção é feita uma vez por semana ou a cada 15 dias, dependendo do caso.
Para as situações mais severas de flacidez, o tratamento mais indicado é a radiofrequência. Através
do calor, há o encurtamento das fibras de colágeno e elastina, responsáveis pela sustentação da
pele. “Com a continuidade das aplicações, o fibroblasto inicia a produção de novas fibras”, conta a
esteticista. Ponto para nós, que já temos muito com o que nos preocupar!
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Al. Pres. Taunay 321 – (41) 3091 8686
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3 BARES SENSACIONAIS
PARA FAZER AMIGOS
E CONHECER PESSOAS
Hacienda Café
Al. Prudente de Moraes, 1283
Centro, Curitiba
(41) 3018 9525
Choripan
84
R. Tapajós, 30
São Francisco, Curitiba
(41)
(41)
(41)
(41)
8484 6446 – Oi
9177 3033 – Vivo
8830 4004 – Claro
9650 5095 – Tim
BarBaran
Al. Augusto Stellfeld, 799
Centro, Curitiba
(41) 3322 2912
Camila Fabre é gerente de
projetos na Nort Criativo e a
descontração em pessoa. Não
poderia ser outra pessoa a nos
indicar onde encontrar gente
disposta a um bom papo.
Localizado na Prudente de Moraes, este bar promove um Happy Hour
com muito Rock ‘n Roll ao vivo nas quintas-feiras. O lugar é cheio de
charme: tem jardim de inverno anexo, salamandra (um tipo de lareira)
ligada no inverno, exposições de fotos e obras de arte rotativas,
comida gostosa, Chopp Diabólica bem gelado e bandas incríveis. Às
quintas, o bar fica tão cheio que metade do pessoal fica lá fora, nos
bancos da rua embaixo dos bougainvilles que cobrem a entrada. É o
bar perfeito para conhecer gente nova na hora de pegar cerveja ou lá
fora no meio das motos.
Quer ser feliz? Vá lá na Tapajós comer um Choripan, tomar uma cerveja
gelada e conhecer um lugar divertidíssimo. O Choripan fica na frente
de uma “praça/jardim” e não pensou duas vezes: aproveitou o espaço!
Lá fora tem páletes, redes, grama, slackline (sério! eu já vi, só não tive
coragem de brincar) e muita gente conversando e se divertindo. Mas
não é só isso, o bar é lindo e bem decorado, serve comidas maravilhosas
e oferece cervejas premiadas. O lugar é tão inusitado que de vez em
quando eles promovem a Massagem na Praça para clientes.
Este fica dentro da Sociedade Ucraniana e não tem placa. Vale a pena
procurá-lo pela Augusto Stellfeld. O bar está sempre cheio, mas não
se preocupe - o balcão é enorme e cabe todo mundo. Essa é a hora
de bater um papo com o amigo do lado, dividir mesa ou o que a
criatividade mandar. O gostoso é a comida: eles tem pão com bolinho
de carne e pratos típicos da Ucrânia. Lembre que se não encontrar
lugar pra sentar, dá pra ir pro Hacienda a pé!
minha curitiba
3 ESCONDERIJOS PARA
ACHAR INGREDIENTES
IMPECÁVEIS
Celeiro Municipal
Av. Sete de Setembro, 1865 > 12 – 13
Centro, Curitiba
(41) 3024 7266
Empório da Sissi
86
Av. Sete de Setembro, 1865 > 25 – 26
Centro, Curitiba
Além das bebidas especiais, com destaque para os vinhos, o Celeiro
Municipal oferece várias opções de temperos e iguarias exóticas.
Uma ótima pedida para quem quer comprar a bebida do jantar e
aproveitar para levar novos sabores para casa. As melhores castanhas
de Curitiba estão lá.
Procurando ingredientes paranaenses? O Empório da Sissi é o
endereço ideal. Da tradicional farinha de Morretes aos mais variados
preparos com bananas. O Paraná está no Empório.
(41) 3264 5271
Casa da Azeitona
Av. Sete de Setembro, 1865 > 33 – 36
Centro, Curitiba
(41) 3264 1132
Manu Buffara é chef conhecida para quem
é da cidade. A jornalista curitibana trocou a
comunicação pelos temperos e já estudou e
praticou gastronomia nos melhores spots do
mundo. Não poderia ser outra pessoa a nos
indicar os melhores celeiros de ingredientes.
Como o nome diz, lugar perfeito para encontrar os mais diferentes
tipos de azeitonas. Além disso, a casa trabalha com outros ingredientes
muito interessantes para quem ama gastronomia. Vale uma visita
semanal para conferir todas as novidades! Eles possuem um vasto
leque de opções de queijos, entre eles, os mais exóticos, e azeites de
diversas partes do mundo.
minha curitiba
3 CAFÉS PARA
MATAR A SAUDADE
DA FRANÇA
Provence
R. Bruno Filgueira, 548 d
Batel
(41) 3343 9911
88
Delices de France
Av. Sete de Setembro, 6130
Seminário
(41) 3244 7365
Café Babette
Al. Prudente de Moraes, 1101
Centro
(41) 3205 0955
Nieli Braz de Proença é designer
especialista em design emocional
e apaixonada pela cultura francesa.
Uniu a emoção e a saudade para
achar três lugares que a lembram os
momentos que viveu por lá.
Para provar um dos sanduíches que levam o nome de regiões da França ou para levar um pãozinho de azeite de oliva pra casa, o Provence te
recebe com ares de cidadezinha do interior. Além de sempre ter uma
seleção de músicas francesas rolando, a varandinha coberta é o melhor
lugar pra ler um livro e comer uma tartelette.
Comandada por um chef francês, a Delices tem a brioche mais deliciosa para seu café da manhã! Mas se a ideia for algo a mais, os
crepes salgados (o de Salmão é incrível!) são a melhor opção. Prefere
omelete? Ou quem sabe um fondue? Dá vontade é de passar o dia
todo degustando o cardápio das delícias francesas. Tem um jardim
lindo com lavandas e temperinhos bem cuidados.
Anexo à Aliança Francesa, foi o café que me ensinou a amar ainda mais
a culinária francesa. Quiche Lorraine ou croque monsieur, foi lá que descobri um universo novo de sabores, um preparativo para o que eu poderia encontrar em Paris. Não é raro deparar com professores da Aliança
conversando em francês e tomando um café nas pausas das aulas.
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a história da capa
texto Julie Fank
foto Rafael Dabul
concepção Anderson Maschio
ONE
92
QUER CIDADE MAIS
ANTROPOFÁGICA DO
QUE CURITIBA?
Consuelo Cornelsen
Depois de 5h de bastidores da exposição “Tupi or not tupi,
that is the question”, a equipe composta pelo diretor de arte,
Anderson Maschio, pelo fotógrafo, Rafael Dabul e por mim
não poderia sair do museu sem conferir a tela de Antonio
Claudio Carvalho, semimontada no espaço de artes visuais. O
recado sugestivo “A lot of cities could be Guernica.” inscrito
no pé de um quadro com a bandeira do Brasil e um xis sugere
o momento vivido pelo país e um ir e vir vivido nos bastidores
de qualquer grande evento – seja ele uma exposição ou uma
copa do mundo. A arquiteta e curadora do Museu Oscar Niemeyer Consuelo Cornelsen, nossa guia até o quadro que teremos que conferir completo depois de ajustados os detalhes
da exposição, é figura conhecida no entremeio cultural curitibano e, em tempos de chacoalhar de mentes e provocações
estéticas, foi a nossa escolhida para estrelar o tema da edição:
o híbrido, a ausência de fronteiras, a desnecessidade de rótulos, a heterogeneidade, o desconcertante, o incerto, o lábil, o
fluido, o descontínuo – tudo isso mais do que bem ilustrado
em uma carreira de curadora que se encerra (?) com uma exposição que pretende desencorajar tentativas de caixificação
das artes e acabar com a exaltação dos mesmos.
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Confira aqui uma parcela
do mood que guiou nossa
edição e uma agulha do
que vai rolar no nosso
novo site!
#ONE10
94
por Camila Rehbein
fotos Rafael Dabul e Camila Rehbein
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Alessandro y Frederico
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R. Sete de Setembro, 4615
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Lagundri
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R. Des. Costa Carvalho, 291
(41) 3243 1991
R. Jaime Reis, 254
(41) 3153 7550
—
—
Durski
Museu Oscar Niemeyer
www.durski.com.br
www.museuoscarniemeyer.org.br
Av. Jaime Reis, 254
(41) 3255 7893
R. Mal. Hermes, 999
(41) 3350 4400
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Edivino
Nizo Gomide
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www.nizogomide.com
Al. Pres. Taunay, 533
(41) 3222 0037
Av. Iguaçu, 1280, cjto. 4
(41) 9977 0649
—
—
Heroína
Paradis Club
www.h-al.com
Al. Prudente de Moraes, 445
(41) 3233 4810
—
R. Paula Gomes, 306
(41) 3156 3955
—
Sem CO2
www.semco2.com.br
Av. Cândido de Abreu, 140
(41) 3079 3666
—
Station Models
www.stationmodels.com.br
R. Hermes Fontes, 1010
(41) 3156 5557
—
Sweet Lolla
www.sweetlolla.com.br
Galeria Tijucas, 68
(41) 3117 5199
—
Tesouros de Cuba
www.tesorosdecuba.com.br
R. Comendador Araújo, 497
(41) 3029 2780
R. Munhoz da Rocha, 596
(41) 3029 2785
—
Torriton Beauty & Hair
www.torriton.com.br
Al. Pres. Taunay, 321
(41) 3091 8686
—
Viviane Malucelli
www.vivianemalucelli.com.br
R. José Cadilhe, 914
(41) 3022 0370
—
Iko Eventos
Pobre Juan
www.pobrejuan.com.br
R. Gumercindo Mares, 111
(41) 3338 6765
Shopping Pátio Batel, piso L1
Av. do Batel, 1868
(41) 3020 3670
www.voxbar.com.br
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Juliano Monteiro
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CURITIBA É FEITA DE HISTÓRIAS. E DE GENTE. DAS
BOAS. É AQUI QUE COLHEMOS A MATÉRIA-PRIMA PARA AS NOSSAS REPORTAGENS. SABEMOS
DIFERENCIAR O BOM DO MELHOR – E O QUE
RESTA É O NÉCTAR EMBALADO PELAS MÚSICAS
DA TEMPORADA E ASSINADO PELOS MELHORES
EMBELEZADORES DE GENTE DOS ÚLTIMOS TEMPOS DA ÚLTIMA SEMANA. É NA PROVOCAÇÃO
DAS GRANDES REVELAÇÕES QUE RESIDE O QUE
QUEREMOS, NO FIM DAS CONTAS, DIZER. O QUE
TEMOS PARA DIZER NÃO É POUCO. O QUE TEMOS PARA DIZER TEM QUE SER INTERPRETADO
NAS ENTRELINHAS DA MAIS PURA SINCERIDADE.
O QUE TEMOS PARA DIZER ESTÁ RECHEADO DE
IRREVERÊNCIA E DE DESCONSTRUÇÃO – QUE,
ALIÁS, É NOSSA PALAVRA DE ORDEM. É O QUE
PENSAMOS QUE RESTA NUM LUGAR ONDE TUDO
TENTA SER CONSTRUÍDO COM RETALHOS. O QUE
NOS RESTA É A GENTE. E A GENTE É UMA SÓ.
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98
O FINAL É SÓ UM DETALHE
Todas as histórias já foram contadas, é fato. Há uma chance de que a história seja sempre a mesma
contada através de diferentes personagens, a história do herói que vence ele mesmo seja através da
guerra, do amor, do riso ou da morte.
Podia escrever páginas e páginas aqui sobre o futuro do cinema, as convergências midiáticas que
apontam cada vez mais para um novo horizonte, mas se comecei afirmando que todas as histórias
já foram contadas, discorrer sob uma abordagem técnica não parece fazer sentido. Prefiro falar do
elemento essencial do cinema, daquele que não é perfeito, que tem rachaduras por onde a luz passa
como já disse certa vez o mestre Leonard Cohen, e que faz a diferença entre um filme e outro, entre
uma forma e outra, entre dois sentidos para uma mesma palavra: esse elemento sou eu, é você,
somos nós na nossa constante coleção de sucessos e fracassos diante da vida também chamada de
experiência. Se o domínio da técnica no cinema ou em qualquer outra área nos torna iguais, o viver
a vida abertamente, abraçando as diferenças e prestando atenção nas sutilezas é o que distingue um
roteirista, diretor, músico ou pintor de outro; é o que faz um filme ser diferente do outro mesmo que a
história seja sempre a mesma. O final feliz ou não é só um detalhe.
O cinema para mim é um espécie de bardo*, entre a vida e o sonho, o tempo e o espaço, o lugar
onde essas coisas se misturam e onde palavras e imagens ganham forma e sons capazes de romper a
barreira do eu em um movimento catártico que nos faz por um instante, dentro de uma sala escura ou
sentados no sofá de casa, chorar por uma amor que partiu (um amor que naquele momento é nosso),
matar dragões e escalar montanhas, achar respostas ou encontrar novas perguntas. As histórias
contadas através da sétima arte se confundem com a nossa vida por tornarem tão reais e palpáveis os
nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas dores e medos; elas desafiam o tempo e mudam a nossa
percepção do espaço nos permitindo ser vilões, mocinhos e mocinhas, loucos ou felizes, agora ou num
passado distante e ainda assim ancorados no aqui e agora.
O tempo, aliás - gostaria de falar um pouco mais a respeito desse velho senhor. Foi no tempo que
encontrei a minha paixão no cinema, e me refiro a ele aqui não como duração, algo possível de ser
expresso através de números, e sim como a subjetividade, aquele lugar para onde vamos de repente
no meio de uma reunião de trabalho enquanto todos falam. E mais uma vez aqui eu tento convencê-los
de que o cinema quebra a barreira da realidade e que isso não é diferente da nossa vida: a verdade é
que acordar todo o dia sem a possibilidade do sonho seria impossível, seria morrer ainda que o corpo
continuasse respirando.
A vida é assim, as coisas partem da gente para o mundo, o que está lá fora não é diferente daquilo
que vive dentro da gente. Somos criadores da nossa própria história e somos, sim, criadores do
mundo. As histórias estão aí para serem vividas e compartilhadas sem vergonha, sem medo: a ideia
é mudar, transformar e materializar. O tempo não existe para as histórias, o tempo para as histórias é
uma alegoria. Nós não sofremos de falta de tempo nesse mundo moderno, nós sofremos é de falta de
contato: contato com nós mesmos e com os outros. Decidir, mas decidir o que se muitas vezes nem
sei ao certo o que quero? Correr atrás de qual resposta se nem consegui formular direito a pergunta?
Então a gente assiste um filme, lê um livro, ouve uma música e de repente algumas respostas
aparecem, e de repente o real e o sutil se tornam um e a gente vai para outros lugares e vive outras
vidas, todas acontecendo agora, juntas, longe dos relógios, longe desse metrônomo da vida humana.
O tempo, senhor das vontades, algoz dos sonhos, nos leva para frente e ainda assim não existe
para as histórias. Sim, façamos as pazes com o tempo. Façamos as pazes com nós mesmos. O
tempo do mundo é o nosso tempo, é de dentro pra fora, eu insisto, é de dentro para fora. Somos os
criadores do mundo, somos todos escritores e diretores escrevendo e contando histórias, fazendo
o impossível, sonhando acordados, tocando o infinito através dos nossos olhos e bocas… e o final,
feliz ou não, é só um detalhe. Como disse Homer, o velho poeta de Asas do Desejo: “Ladies and
gentlemen, we have embarked”.
Vergínia Grando gosta
de divagar sobre ideias. É
alquimista na vida e, nas
horas vagas, diretora e
roteirista de cinema. Uma
obra em andamento.
* bardo: para o budismo
tibetano, um estado de
existência intermediária entre
a morte e a vida, o sonho e
o acordar ou ainda entre um
pensamento e outro.
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