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OLHOS URBANOS, CONSCIÊNCIA INDÍGENA: UMA ALTERNATIVA EM JOGO J. Rivelino R. Barreto1 1. Apontamentos iniciais O presente texto apresenta uma reflexão a partir de uma experiência de vida conectada à formação acadêmica e extensão etnográfica sobre as teorias Tukana. Ao mesmo tempo em que descreve uma ascensão da intelectualidade indígena mostra uma das metas que proporciona para essa dimensão que se estabelece das próprias teorias indígenas. É uma nova forma de fazer etnologia no noroeste amazônico em consonância com a antropologia e os saberes culturais do universo indígena; é um exercicio de uma etnoantropologia, uma antropologia tukana. Tendo nascido em 29 de Outubro de 1980 no “coração” da selva colombiana, precisamente nas proximidades da cidade de Mira Flores, Waupés, recebi dois nomes, um formalizado pelo batismo tukano2, Yuúpuri, e outro estabelecido pelo batismo católico, João Rivelino Rezende Barreto3. Sou filho do kumu (benzedor) Tukano Luciano Barreto, Yuúpuri, e da Tuyuka Maria Clélia Rezende (falecida); nesse caso é uma concretização do sistema da exogamia linguística (Ver C. Hugh-Jones, 1977 & 1979). Dos quatro filhos vivos da família nuclear sou terceiro, sendo uma mulher e três homens. Sou Tukano do Alto Rio Negro, sib Sararó Yuúpuri Búbera Põra, da Comunidade São Domingos Sávio, alto Rio Tiquié, Município de São Gabriel da Cachoeira, noroeste amazônico. Atualmente moro na cidade de Manaus, casado com a manauara Jussara Garcez e temos um filho de quatro anos que se chama João Carlos. Efetivamente, a consciência de que pertenço a um sib Tukano, portanto, a um grupo étnico e a uma cultura diferenciada com o passar do tempo passou a proporcionam-me um 1 É Tukano do sib Sararó Yuúpuri Búbera Põra de São Domingos Sávio, alto rio Tiquié, Município de São Gabriel da Cachoeira, noroeste amazônico. Possui Licenciatura plena em Filosofia pela Faculdade Salesiana Dom Bosco (fsdb-Manaus) e mestrado em antropologia social pela Universidade Federal do Amazonas (ppgasufam). É pesquisador do Núcleo de Estudo da Amazônia Indígena (neai-ufam) e professor de sociologia (nível médio) pela SEDUC-Manaus/AM. 2 Batismo Tukano a que me refiro é o benzimento de coração que toda criança recebe após o nascimento formalizado pelo kumu (benzedor) com um nome tukano ou nome de benzimento. 3 Geralmente os Tukano, enquanto falante de uma língua, possuem três nomes envolvendo o nome de benzimento, estrangeiro e apelido (Cf. HUGH-JONES STPHEN, 2002). 2 constante retorno cultural. Essa subjetividade trouxe a compreensão de que um retorno cultural não acontece apenas em físico, mas também em razão assimilativa de um saber indígena. São realidades que eu como Tukano passo a transmitir ao meu filho que nasceu em Manaus e cresce em um ambiente circunstanciado por uma “cultura urbana”, a partir de coisas simples como: tomar chibé de farinha, comer peixe cozido e beijú, as pinturas no rosto, os passos iniciais de algumas danças e principalmente conversando com a Língua Tukana e com a promessa de que o mesmo, enquanto Tukano vai conhecer a comunidade de base tradicional de seu sib. Por sua vez, a resposta vai se constituindo pela aceitação do meu filho sobre a vida do ser Tukano, isso porque, todos os procedimentos necessários foram realizados desde o seu nascimento. Assim, recebeu o nome de Yuúpuri estabelecido pelo seu avô, o kumu Luciano Barreto que se responsabilizou para os efetivos de benzimentos da formação inicial de um homem Tukano. Isso proporciona a compreensibilidade de que hoje, mesmo com a diáspora dos indígenas para diversos lugares, o sistema cultural tukano continua sendo extensivo na medida em que ultrapassa a noção de grupo para a coletividade, isto é, uma identificação tukana não se limita só a um grupo, mas na coletividade. Assim, temos Búbera Põra que vivem no Brasil e Colômbia e que nasceram fora do contexto de São Domingos Sávio, mas que tem identificação idêntica a dos que nasceram e continuam vivendo em São Domingos Sávio. São valores culturais que se estabelecem do autoconhecimento e fluxividade cultural indígena. Por outro lado, surgem desafios para muitos indígenas na medida em que tentam rejeitar o seu próprio ser indígena, é o que percebi quando conversava com uma senhora na Cidade de São Gabriel da Cachoeira que fazia seus comentários a respeito de seus sobrinhos que preferiam atravessar para outro lado da rua quando percebiam que ela seguia em sua direção com intuito de que seriam forçados a falar em Língua Tukana. Situações como essas, hoje em dia, me fazem pensar de que a contínua autoafirmação da consciência indígena se torna importante a cada momento da vida frente ao contexto urbano num efeito dinâmico de uma “indigenização da modernidade” (Sahlins, 2007). Precisamente, esse princípio crítico é que fez com que o Padre Justino Sarmento Rezende (2004:03 & 2010) afirmasse de que “temos sangue indígena, parecemos indígenas, mas não queremos ser indígenas. Chegamos a esse nível por falta de conhecimentos de nossos valores culturais, ou melhor, por falta de prática de nossos valores culturais”. Portanto, pertencer a uma cultura é também conhecer a sua cultura para conhecer e conviver com a cultura dos outros. 3 Em relação à minha formação acadêmica graças aos membros da Sociedade de São Francisco de Sales ou Salesianos de Dom Bosco pude cursar filosofia numa faculdade particular de propriedade da mesma ordem religiosa na cidade de Manaus. Isso, porque, tive a oportunidade de viver a formação de vida religiosa salesiana por seis anos, entre os anos de 2003 a 2008 quando me desliguei da vida religiosa para um planejamento familiar e projeto de pesquisa no âmbito de minha própria cultura (Tukana) que passou a se concretizar quando ingressei ao curso de mestrado em antropologia social da Universidade Federal do Amazonas no ano de 2009. Sendo eu o único indígena a conseguir uma vaga entre os onze aprovados do grupo de 72 concorrentes em um processo regular de seleção. Sendo eu um Tukano em contexto urbano precisava me identificar com aquela realidade, até porque não estava em minhas terras e muito menos junto aos meus conterrâneos; uma identificação conquistada através dos estudos. Não significa que tenha deixado de ser Tukano por isso, pelo contrário, foi possível me estabelecer em dois níveis de formação: a de um intelectual indígena em formação e a de um profissional urbano. A primeira envolve a formação em antropologia social e que continua fluindo nos passos de minhas pesquisas, enquanto que a segunda é uma realidade proporcionada pela Licenciatura em Filosofia que me condiciona a trabalhar como professor regular. Confesso que senti muitas dificuldades para ingressar, permanecer e sair do curso de mestrado em antropologia social, ainda mais porque estava entrando numa universidade em nível de formação onde nunca imaginara que fosse chegar. Mas meu currículum de superações fez com que transformasse os desafios em conquistas nesse universo. E quando digo que foi difícil entrar é porque participei de um processo seletivo regular, sem cotas, e isso fez com que participasse das quatro etapas estabelecidas pela comissão organizadora: homologação de projetos de pesquisa; prova de conhecimentos gerais; entrevista e prova de língua estrangeira, no caso, a Língua Inglesa que só consegui passar na terceira prova. Na primeira tentativa, além de mim, um grupo de colegas também não conseguiu. Na segunda tentativa só eu e mais outra colega é que não conseguimos e só foi possível melhorar na terceira prova. Então entendi que o problema não era só comigo, isto é, meus colegas que não eram indígenas também tinham dificuldades com a Língua Inglesa, portanto, o processo de aprendizado de uma língua estrangeira está ao alcance do índio também. Esse reflexo causou perplexidade para os docentes do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, porque, depois da segunda prova de Língua Inglesa em que não consegui alcançar novamente a nota mínima, um grupo de professores queria que eu fosse excluído do curso, enquanto que outros (etnólogos) defendiam pela minha permanência. Antes disso, tinha 4 em mente a ideia de que todo antropólogo gosta da cultura indígena, agora entendo que cada antropólogo se forma dentro de uma meta e linha específica de pesquisa. E penso que os antropólogos não são os “salvadores” das culturas indígenas, uma vez que a continuidade das culturas indígenas está na responsabilidade e convicções reificantes dos próprios indígenas em diálogo e relacionamento com outras culturas. Por outro lado, estando dentro do Programa de Pós-Graduação de uma instituição como a Universidade Federal do Amazonas (PPGAS-UFAM) a concepção que tinha era de um mestrando, mas nem toda concepção se realiza em prática quando não houver o esforço particular. Isso não só no contexto acadêmico, mas também no âmbito dos saberes tradicionais, ou seja, nem todo índio é detentor dos saberes indígenas. Assim, a cultura indígena é para todos os indígenas, mas nem todo indígena é conhecedor de sua cultura, vive dentro da cultura, mas não sabe o que é sua cultura. E o que é que envolve a cultura e o conhecimento indígena? Instigado por esse questionamento é que passei a esboçar o projeto de pesquisa que aos poucos foi sendo reformulada para enfim ser pensada a partir de “Formação e Transformação de coletivos indígenas do noroeste amazônico: do mito à sociologia das comunidades”. Posso afirmar que os passos iniciais para realizar coleta de dados não foram tão complicados, isso porque a linguagem, pelo fato de eu ser falante de Língua Tukana, contribuiu muito na medida em que as entrevistas com meu pai foram fluindo e também com outros Tukano do sib Sararó Yuúpuri Búbera Põra em Manaus, São Gabriel da Cachoeira, Parí-Cachoeira e São Domingos Sávio. Para mim, iniciava-se um estabelecimento da reflexividade do saber tradicional que se constituiu de várias gerações Tukana pensada hodiernamente por integrantes de um sib Tukano chamado Sararó Yuúpuri Búbera Põra, assim como outros grupos indígenas mantêm em dinamismo seus saberes. Além disso, os dados etnográficos da minha pesquisa estão equacionados pela arte do diálogo que se culmina em termos tukano como Uukunse e Mʉropaʉ Uusétise. Praticamente, essas noções são parte das noções de conhecimento indígena e como chave de leitura para entender e compreender do que estão falando. Até então, os livros apresentados pelos indígenas do alto Rio Negro fornecem os fatos, os dados; pelo contrário, em tempos hodiernos passa-se a buscar mais um fornecimento reflexivo sobre os fatos e os dados. Nesse caso, a reflexão acerca dos fatos envolve a questão da sociologia tukana que é diferente da antropologia consagrada. A antropologia é mais do que um exercício de análise e comparação, e a sociologia tukana está dentro da arte do diálogo, e ao mesmo tempo se estabelece como diferença envolvendo a teoria e prática, o pensamento e ação, a estrutura e a história. 5 É por isso que, em prática e no âmbito cultural indígena, existe uma diferença entre a cultura vivida que é no sentido da prática do dia a dia, como: pescar, fazer roça, torrar farinha etc! A cultura mais ritual de Uukunse: as festas e a forma de ser que coroam a cultura ritual. A cultura nesse sentido da prática é quase inconsciente e é uma coisa que é comum quase para toda população tukana, uma vez que todos fazem as mesmas roças, comem os mesmos peixes, e fazem os mesmos tipos de comidas. Porém, é a cultura ritual precisamente que faz a diferença entre os grupos, desta forma, então a cultura interna ritual é reflexiva. Isso é importante para a compreensão no exercício antropológico para focalizar melhor no interior da mala cultural com suas distinções. Mas a cultura quase inconsciente é importante, como acontece com os tukanos e outros indígenas que moram em Manaus, como no caso na preservação das comidas típicas, e nesse caso a comida não é só uma coisa necessária, mas também é parte essencial dos benzimentos, uma vez que dentro da cultura tukano muitos dos benzimentos tem a ver com a comida, e é exatamente isso que se sucede; precisamente muitos de nós (indígenas) que vivemos em Manaus continuamos comendo coisas tukana como beijú, quinhapira que são submetidos, dependendo da ocasião, aos benzimentos e observância tradicional para o consumo, entre os quais, os pais de uma criança recém nascida; e essas ramificações descrevem, então, a continuidade do ser indígena que vai se estendendo e se contextualizando no setor urbano a partir dos seus aspectos culturais. Em geral, os aspectos culturais indígenas são variantes, e é precisamente essa variação é que sustenta a autoafirmação do ser indígena através das artes do diálogo, das ideias utilizadas pelos mesmos diante do que os antropólogos denominam como mito, identidade e organização social, entre outros termos. Ao mesmo tempo, penso que (nós indígenas) temos que ser críticos-construtivos em relação ao que a antropologia descreveu etnograficamente por meio de renomados pesquisadores, isso é também uma arte do diálogo, um diálogo que não se neutraliza, mas um diálogo que se concretiza a partir de um olhar interno e de um olhar externo. De outra forma, o afloramento da descrição de uma linha de pensamento patrilinear que se condimenta da linha de fala e de nome precisa ser prevalecido e coletivizado, no caso a linha não é uma linha de sangue, não é uma linha de filiação nos termos dos antropólogos (linha de sangue), é uma linha de barsesé (benzimentos), heriponra barsesé (benzimento do coração). É o que Uukunse e Mʉnropaʉ Uusétise, a fala da mata, do tabaco, enquanto uma descrição, discurso e conceito da genealogia tukana demonstra, além de ser um diagrama de parentesco. Isto é uma arte do diálogo tukano que se sustenta de uma dimensão política onde, 6 evidentemente, cada etnia (cada sib também), marsa kurá em Língua Tukana, descreve sua historia. Assim, Uukunse e Mʉnropaʉ Uusétise são um discurso político em que cada grupo étnico e cada sib expressa seus pensamentos. Esse legado e vasto procedimento cultural fazem com que se tenha uma ideia promissora de que um dos caminhos que eleve para a concretização de uma educação diferenciada é a descrição das teorias e conceitos indígenas. Tudo isso existe, o que ainda falta é o afloramento maior dessas teorias, é o que tentaremos ilustrar na sequência. 2. Uukunse: uma arte reflexiva da dialética tukana Os valores associados aos saberes tradicionais fazem com que, ao tratar de um tema de grande importância referente a seus conhecimentos, os Tukanos tenham convicção de que aquilo que estão falando descreve sua culturalidade, o seu modo de pensar, ser, entender e viver. Neste contexto, destacam-se alguns conceitos importantes que reificam modelos práticos correspondentes às experiências no tempo e no espaço. Nesse aspecto, o que é descrito traz sempre um significado importante que está associado à própria experiência do narrador e, portanto, aos procedimentos transformativos de um determinado coletivo. Evidentemente que nesse âmbito, Uukunse e Mʉnropaʉ Uusétise, são exemplos que nos conduzem a este tipo e forma do “Pensamento Tukano”, ao mesmo tempo sendo estabelecido como um pensamento diferenciado. É importante notar que os Tukano têm momentos precisos para proferimentos de Uukunse enquanto forma de interpretação, como por exemplo, quando se trata dos feitos de Yepa Oãkhë (deus da mitologia tukana); da viagem da Sagrada Canoa de Transformação (Pamʉnri Yurkʉsʉ); das Casas de Transformação (Pamʉnri Wisery), etc. Esses fatos tratam, portanto, de questões que envolvem formas de interpretação sendo desenvolvidas através de Uukunse; é uma retrospectiva acerca dos procedimentos formativos e transformativos da formação do próprio pensamento tukano, é uma hermenêutica tukano intepretando o mito e o fator sociológico das unidades sociais do noroeste amazônico. Enquanto uma descrição e interpretação a prática de Uukunse é exclusiva às pessoas destinadas e preparadas para tal função, em certo momento, se bem pensada, é uma linha de pensamento que se constitui pela tradição e linha patrilinear hierarquizada. Numa comunidade tukana, por exemplo, os detentores de Uukunse são filhos ou netos daqueles que no passado exerceram aquela função, e que com isso, não está ao alcance de todos, mas, que envolve a 7 participação de todos. Na maioria das vezes são pessoas que se distinguem pelo conhecimento especializado: Yaí (pajé), kumu (benzedor) e Bayá (mestre de música). Segundo o kumu Luciano Barreto, justificando o porquê Uukunse não está ao alcance de todos, “embora que esteja aberto para todos ninguém pega, isso depende muito de pai para filho”, praticamente é uma vocação e destinação. Tal fundamento mostra a proporção de Uukunse como pensamento dominado por pessoas preparadas e destinadas como já afirmamos anteriormente, assim sendo, nem todos são mestres em Uukunse, mas envolve a participação em termos de comunidade e coletividade étnica. O kumu Luciano Barreto observa ainda que mesmo que Uukunse esteja aberto, acessível, nem todos têm e podem “pegar” (assimilar). Trata-se de um preparo que cada pai ou benzedor estabelece no dia do “benzimento do coração” (Ver ainda Stephen HUGH-JONES, 2002) de uma criança. Nesse caso, a ação do benzimento do coração de uma criança passa a estabelecer um dom específico onde futuramente o indivíduo passará a se formalizar para se tornar um benzedor (kumu), cantor (bayá), pajé (yaí), etc! Úukuse é, portanto, do ponto de vista tukano, uma forma de compreensão que exige certos conhecimentos míticos e ao mesmo tempo descreve o momento contemporâneo; é interpretação que teoriza o mundo e o conhecer das narrações, é um mediador que tanto possibilita teorizar quanto intervir no mundo. É a forma de descrição e interpretação do Pensamento Tukano envolvendo séries de conhecimentos e saberes, entre os quais envolvendo benzimentos, músicas envolvendo a cultura ritual (o modo de pensar e interpretar que cada etnia e sib descrevem o seu saber). Portanto, pensa-se como uma dialética tukana. 3. Mʉnropaʉ Uusétise: uma arte discursiva da dialética tukana Em termos práticos Mʉnroʉn4 é a planta que produz folhas de tabaco (pé de tabaco, de onde os indígenas colhem pra secar e posteriormente preparam seus cigarros), enquanto que Uusétise está na esfera de um discurso ritualizado. Desta forma, a fala, torna-se um ato cerimonial de grande responsabilidade e de grande significatividade. O que não diminui o lugar e importância de Uukunse, aliás, ambos estão interligados de um discurso para outro, 4 (singular) mʉnroʉn:planta de tabaco; (plural) mʉnropaʉ: pés de tabaco). As unidades sociais do alto rio negro, assim com os sibs são descritos metaforicamente como plantas de tabaco, assim cada grupo étnico e cada sib é representado por uma planta de tabaco ou praticamente se trata de um pé de tabaco. 8 não se isolam, é como se um não existisse sem o outro. É nessa esfera que Mʉnropaʉ Uusétise tem como metáfora a planta de Tabaco cujo significado remete à árvore da vida que cada etnia e sibs indígenas (tukano) possuem; enquanto que Uusétise passa a subsistir na esfera de um discurso aonde não é mais simplesmente falado, mas ritualizado, é uma alteridade da fala ritualizada. Entre os Tukano, Mʉnropaʉ Uusétise enquanto um discurso ritual é sempre posto em observação pelo fato de ser proferido pelos conhecedores e especialistas, assim, cada coletivo sistematiza a dinâmica do uso de Mʉnropaʉ Uusétise para descrever a formação das etnias indígenas e dos sibs (tukano) como forma de apresentação das hierarquias indígenas (tukano) e suas fundamentações e variações culturais, ou seja, um pensamento tukano difere do pensamento tuyuka e assim sucessivamente. Essa forma de interpretação e classificação acerca da formação (irmãos maiores e menores) das etnias e dos sibs (tukano) indígenas é o que se desenvolve no ritual de Mʉnropaʉ Uusétise. Se pensarmos precisamente dos sibs da etnia Tukana existem os que estão agrupados a Yuúpuri Waúro e os que estão agrupados a Ɨnremiri Sararó, ambos são nomes ancestrais fluidos da Canoa de Transformação de onde se formulou duas linhagens tukano, ou seja, os que estão ligados a Yuúpuri Waúro e outros que pertencem à linhagem de Ɨnremiri Sararó, e praticamente todas as etnias indígenas do noroeste amazônico apresentam essa dinâmica; de outra forma, Yuúpuri Waúro e Ɨnremiri Sararó são as raízes dos sibs tukano que se estabelecem sequencialmente formando a hierarquia tukana de irmãos maiores e de irmãos menores. Ambos passam a corresponder a fatos míticos que trazem informações acerca da formação e disposição hierárquica dos grupos de irmãos, nesses termos aqueles que se agruparam com Yuúpuri Waúro são todos Wauroa, enquanto os que se agruparam ou formaram a fila depois de Ɨnremiri Sararó são Sararoá5. É nesse âmbito e teor que os Tukano pensam e afirmam que são protagonistas de Mʉnropaʉ ao seu modo. Assim como cada uma das outras etnias indígenas (Tuyuka, Desana…) o ordenamento social Tukano é comparado a uma árvore que produz folhas de tabaco, assim, a vida (associadas aos galhos) determina o ordenamento hierárquico Tukano. Desse modo, seguindo a metáfora, cada galho representa um sib (ninka kurá) bem situado em seu devido lugar, acima de uns e abaixo de outros e cada unidade maior (uma etnia) pode ser representada por uma árvore semelhante: Tukano, Tuyuka, Desana, etc! Vale ressaltar que essa associação de árvores não condiciona uma igualdade, ou seja, a árvore Tukano não é a 5 Waúro e Sararó são cognomes dos ancestrais Tukano que saíram da Canoa de Transformação ocorrida segundo os relatos tukano na Cachoeira de Ipanoré, Rio Waupés, e que com o tempo passaram a designar nome de dois sibs Tukano, e conforme o pensamento dos Búbera Põra os dois ancestrais foram e são as matrizes da fundamentação hierárquica dos sibs tukano. 9 mesma dos Tuyuka. Aparentemente é semelhante, mas cada uma revela sua particularidade em forma e conteúdo de relações entre suas partes. Assim, do ponto de vista do pensamento dos Búbera Põra, Mʉnropaʉ Uusétise descreve uma hierarquização Tukano ou de qualquer etnia indígena (em que denominamos de unidade maior) do noroeste amazônico, como também pode descrever diferenças que extrapolam o coletivo Tukano e mesmo de outras etnias indígenas ao seu modo e conforme a sua descritividade e raciocínio. Fato é que Mʉnropaʉ Uusétise, enquanto arte do diálogo Tukano, é fórmula discursiva de uma cultura ritual, uma fala ritualizada que submete a um momento importante e que ocorre em ocasiões extraordinárias de barsá nʉmʉ (dia festivo), Poori nʉmʉ (festa de oferecimento), minria nʉnmʉ (festa das Flautas Sagradas), amoyese nʉnmʉ (festa de iniciação da mulher/moça nova como classificam os Ticunas), heripora barserí nʉnm (dia do “benzimento do coração”). Esses rituais são acompanhados do consumo de Epadú (pó resultante da folha de coca), cigarro e Karpí (Ayuhuaska), substâncias que potencializam palavras e sentidos, fermentando ainda mais o discurso de Mʉnropaʉ Uusétise que é sempre dirigido por um conhecedor/detentor, em especial um kumu, o chefe da maloca/comunidade, e Bayá (mestre de música). Seu significado e prática é expansivo, denso e variante, é amplo. Enquanto cultura ritual, é um discurso da estrutura social das etnias (unidades maiores: Marsa Kurári) e sibs (tukano: Darseá kurári) indígenas da região do alto Rio Negro; descreve a hierarquização patrilinear Tukano; apresenta a distinção de irmãos maiores e menores na formação dos sibs; descreve a forma de ser de cada sib enquanto um coletivo; fala do modo de ser das etnias indígenas (Tukana); das casas em que são habitadas pelos Tukano; em geral, é o que descreve no caso a socialidade Tukana. A cultura ritual de Mʉnropa Uusétise geralmente é acompanhado do cigarro (mʉnroro), a cuia contendo Epadú (paatu waharo), o bastão sagrado (yaigʉ), o banco (kumuro), o companheiro e os assistentes cerimoniais, isto é, aqueles que servem bebidas e acendiam cigarros, além dos demais participantes. Quando acontecem entre diferentes grupos de irmãos os anfitriões concentram-se em personagens centrais: o mestre de música (bayá); o chefe da casa (wii khʉn); o benzedor (kumu); em prática é o chefe da casa que determina ou encarrega a pessoa para ser responsável no discurso de Mʉnropaʉ Uusétise. É o momento em que os conhecedores Tukano trocam seus saberes (com integrantes de outro coletivo como Tuyuka, por exemplo) por meio do discurso de cultura ritual marcado por momentos específicos que não acontece de uma só vez. Chegada e partida marcam o início e o fim de um encontro entre grupos de irmãos hierarquizados. Quando o encontro é marcado pelo discurso 10 Mʉnropaʉ Uusétise ele é dividido em momentos específicos e distintos, como: Peeru Diáporo; Héri sahan durtíse; Naynho kunri barsamo; Mʉnropaʉ Tuaró; Mʉnropaʉ Uukunse e Bʉrʉ Sirinsé, são alguns dos momentos que nos cabem destacar em detalhes. Peeru Diáporo é o que acontece na abertura, é o discurso de recepção e troca cerimonial que acontece nos dias festivos de oferecimento (Poori Nʉnmʉ). Neste caso durante a realização do discurso ritualizado de Peeru Diáporo os visitantes efetuam a entrega do material da festa de oferecimento (em maior se trata de troca de alimentos e outros objetos), é o momento de troca de conhecimento entre os anfitriões e os visitantes, aonde o visitante oferece a produção de seu grupo e quando termina de fazer o discurso de Peeru Diáporo se inicia a dança. Geralmente quem realiza a dança é o grupo visitante, portanto, toda responsabilidade para apresentação das danças pertence ao grupo visitante. A dança depende do mestre de música (Bayá), pode ser Warpíri, Irki Punri (folha de inajá), Irkía (Inajá), Kertío barsá (dança dos chocalhos), Darsía Barsa (Dança do Camarão) e isso pertencem à parte inicial da festividade marcada por Peeru Diáporo. Esses momentos não se realizam em dia qualquer, não são como os benzimentos que podem acontecer a qualquer dia e hora. Assim, tudo deve se passar por um planejamento prévio. O segundo ato é o momento em que realizam Herisaha Durtise. É o momento em que o anfitrião e o visitante transmitem (verbalmente) calma dos seus espíritos, de forma geral significa o desejo de acalmar o coração de um para o outro. O terceiro momento é Naynha kunri Barsamo (ritual de boa noite) que ocorre a partir das 16 horas. Isso tudo sendo observado com rigidez tanto pelos anfitriões como também pelos visitantes, ou seja, cada um observando o comportamento e a ação de um para o outro, além disso, construindo uma dinâmica de relações sociais entre os diferentes grupos étnicos. Outro momento marcante é mʉnropaʉ tuaró (momento em que os mestres cerimoniais se aproximam com seus cigarros, munidos de bastão sagrado (Yagʉ) e cuias repletas de Epadú (Paatu Wahari) em suas proximidades, seguido pelo discurso ritualizado de Mʉnropaʉ Uusétise; é quando os mestres cerimoniais passam horas em discursos e o os cerimonialistas (kumu: benzedor; ou Baya: mestre de música) descrevem as etnias indígenas (unidades maiores) e a posição dos grupos de irmãos marcados hierarquicamente (Marsa Kurári’re bersemoronse). Tratam da vida dos homens, sua responsabilidade, sua habilidade, seu dom e sua característica; é o momento em que não há danças, pois é reservado somente para Mropa Uusétise. Tendo finalizado Mʉnropaʉ Uusétise (a partir das 3 horas da manhã) ocorre outro momento de dança, com outro ritmo e modalidade como o ritual de Buá Parká (flauta sagrada), é o momento que se estende até por volta das 13 horas. Por fim, ocorre o 11 momento de Bʉrʉ Sinriro, um espetáculo à parte. Estando a casa cheia, os jovens são quem passam a servir bebida, na verdade é a partilha coletiva onde todos consomem o caxiri (bebida fermentada), é o momento do consumo liberado na alegria de dinamizar a brincadeira no interior da casa. Mʉnropaʉ Uusétise não se manifesta em qualquer momento por ser um discurso efetivado em tempos de Poorí Nʉnmʉ (Festa de Oferecimento), Barsamonri na weerí Nʉnmʉn (no dia em que só apresenta música e dança tukana) conforme a combinação organizativa; quando há inauguração das malocas, por exemplo, faz-se a dança de Buá (tipo de flautas), Kenró (tipo de fruta), etc! No caso da festa de iniciação (Amoa Numia Nʉnmʉ: dia da primeira menstruação feminina) se faz a dança do camarão (Darsiá Barsa); no dia em que acontece o benzimento de peixe (waí barsé erkári nʉnmʉ) para o consumo da criança se realiza também o ritual da dança do camarão, isso também ocorre no dia do benzimento do coração, e no dia de Mîria Põra Nm (Flautas Sagradas/Yuruparí) se faz o ritual de Kay6 Barsa (Dança do miolo da fruta). Até o momento esses dados e informações nos levam a entender que tanto Uukunse como Mʉnropaʉ Uusétise são conceitos e teorias tukana que possibilitam a pensar os fatos míticos tukano, ao mesmo tempo condicionam para a contextualização da realidade sóciocultural no dia a dia. Enfim, são fontes da racionalidade dos coletivos, assim questão mítica não está desvinculada da vida, mas presente e sempre sendo repensada. 4. Variações e unanimidades A teorias indígenas, como é o caso de Uukunse e Mʉnropʉ Uusétise, entre os Tukano, não são homogeneizadas. Assim, por exemplo, a fala de um determinado darsea kurá (coletivo Tukano) não é idêntica ao pensamento manifestado por diversos darsea kurári (outros coletivos Tukano), mesmo que seja de um Darsea kurá. De um discurso para outro envolve um aspecto prático do sistema ético e moral, ou seja, os Tukano mesmo que pertençam ou formem diretamente um Darsea Kurá (subdivido por darsea kurári), manifestam pontos de vistas distintos e independentes fundados nos grupos de irmãos a que pertencem. “Ao mesmo tempo em que tratamos de uma mesma 6 Literalmente Kaí em Tukano significa miolho (animal/homem), mas também a castanha de alguma fruta em decomposição, ou seja, os indígenas do alto Rio Negro, por exemplo, costumam pegar os caroços de Omarí (fruta) e colocar por um tempo na água até que a mesma amoleça para depois coletarem a castanha amolecida pela água, portanto, não é uma coisa podre. 12 questão, como no caso da instituição do mundo e da formação do homem, apresentamos variações sobre o tema ou que nossa descrição depende muito da transmissão que ouvimos dos nossos pais” (kumu Luciano Barreto, 2010). Esse critério instaura certo equilíbrio na prática de Uukunse e Mʉnropaʉ Uusétise entre os Tukanos (darsea kurári) onde cada darsea kurá apresenta uma versão de acordo com seus conhecimentos e saberes, diferenciada pela inspiração e o desenvolvimento prático fundados na obediência à apreciação e restrições normativas. Por isso, não podem ser expostas discursivamente em quaisquer ocasiões, mas sim em momentos significativos onde se busca autoconhecimento especificamente do ponto de vista de Uukunse e Mʉnropaʉ Uusétise. E sendo Uukunse uma forma de pensamento, cada conhecedor descreve, interpreta ou discursa da sua forma mesmo tratando do mesmo assunto. É uma matriz, um arquétipo, uma raiz do pensamento Tukano. É nessa ramificação que, para os Tukano, a busca de autoconhecimento parte das noções míticas que, por sua vez, proporcionam um modo de pensar e essência de sua razão em busca de compreensibilidade acerca da formação do mundo e do próprio homem. Sendo Mʉnropaʉ Uusétise, de certo modo, uma compreensão particularizada, possibilita um alcance parcial da formação dos marsa kurári (etnias indígenas), em particular uma elucidação expansiva associada à formação de unidades sociais menores estabelecidas hierarquicamente. No caso Tukano, proveniente de darsea kurári. E para chegar a esta efetivação é preciso congregar-se à potencialidade da ação criadora de Yepa Oãkhë (deus), Yepa Bʉrkʉo (deusa) e Bʉrpó (Avô do Universo) 7 para situar uma investigação acerca da formação do mundo e da humanidade. Conforme informam os Sararó Yuúpuri Búbera Põra, quem instituiu o mundo e formou a humanidade foi Yepa Oãkhë (deus da mitologia Tukana), portanto, toda a atividade da formação dos homens foi desenvolvida por Yepa Oãkhë; nesse caso Yepa Bʉrkʉo (deusa) não é a criadora, mas uma co-criadora8. Assim informam os diálogos entre os conhecedores. Para o kumu Luciano Barreto “esses diálogos existiram desde o momento que nós (indígenas) surgimos como seres humanos e assim nossos saberes e pensamentos surgiram conosco também”. Assim, o modo de pensar Tukano que estamos recortando é uma descrição parcial, como vimos disponibilizada por um grupo específico (Darsea Kurá), Sararó Yuúpuri Búbera Põra. Isso possibilita a construímos um pensar que proporciona a noção parcial da formação do homem Tukano e suas respectivas unidades e hierarquizações. Vale lembrar 7 Para o pensamento dos Tukano Búbera Põra os feitos de Yepa Oãkhë, Yepa Bʉrkʉo e Bʉrpó são as bases fundamentais para a compreensão e interpretação da cosmogonia Tukana. 8 Maior parte dos livros publicados pelo Instituto Socioambiental (ISA) denominado “Narradores Indígenas” apresenta a figura de mulher como sendo a criadora do mundo e da humanidade indígena. 13 então que aqui não se busca alcançar uma descrição totalizadora, trata-se de uma construção estabelecida entre outras unidades com suas devidas criações descritivas e interpretativas. Desde os tempos passados, o diálogo do pensamento manifestado por diferentes Darseá Kurári não podia ser desvinculado do modo de compreensão que cada um havia herdado dos ancestrais na medida em que articulavam a vida coletiva. Isso marca os limites dos coletivos que continuam sendo demarcados como parte do pensamento deste ou daquele, isso é uma cultura ritual em ação. Isso quer dizer que o pensamento Tukano é algo que está sendo sempre (re)construído, o que significa também que tal processo de construção obedece certas continuidades. Uso o termo continuidades associado às questões dos saberes (Tukano) enquanto valores da vida, uma vez que transformação é a palavra que revela a estrutura da socialidade Tukana. Ela deve sempre seguir certos preceitos. Bem como expandir para um universo de conhecimento dos saberes indígena. 5. Breve reflexão sobre as Licenciaturas Indígenas Tendo passado o período ágrafo, a partir da ação missionária, os indígenas passaram a se submeter no período da escrita e fala da Língua Portuguesa. Para mim, essa fase marca o inicio de um período que começa a se abarcar no que Sahlins (2007) chama de “indigenização da modernidade”. Um dos fatores envolvendo tudo isso foi a implantação de escolas nos centros missionários, e escolinhas na zona rural. Isso precisamente a partir de 1914 quando os primeiros salesianos chegaram à região do alto Rio Negro para implantar uma linha de formação educativa inspirada nos planos pedagógicos de São João Bosco ou do sistema preventivo de Dom Bosco: razão religião e amorevolezza (Ver Costa, 2009). Não se pode esquecer de que houve em seus tempos grandes equívocos por parte dos salesianos que negaram a cultura do saber indígena, nesse caso podemos dizer que era uma ação missionária estabelecida pela Igreja Católica junto aos que estavam à frente dos trabalhos missionários na época. Por outro lado, é preciso reconhecer que, embora tenha havido grandes equívocos por parte dos missionários, a formação oferecida pelos salesianos foram cruciais para a vida intelectual e profissional que muitos indígenas passaram a obter no contexto urbano, e até mesmo para a instituição das “vozes indígenas” como organizações e 14 funções ocupadas junto a diferentes setores administrativos por indígenas. Assim, em tempos hodiernos, a formação do índio passou a se expandir, além da metodologia de formação tradicional, no âmbito escolar envolvendo Ensino Fundamental, Ensino Médio, Universidade, mestrado e doutorado. E, a partir da primeira década do Século XXI começaram a se especular as instituições de Licenciaturas indígenas, inclusive no Amazonas tanto a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), como Universidade do Estado do Amazonas (UEA), possuem licenciaturas indígenas; as licenciaturas que conheço são: Licenciatura Mura (UFAM) e Licenciatura intercultural indígena (UEA). Sendo que atuei como professor assistente na Licenciatura intercultural indígena na cidade de Amaturá, alto Solimões. Entendo que uma licenciatura possibilita a um acadêmico que se licencie em uma determinada disciplina, que se habilite para atuar como profissional a partir de sua formação. Mas pensar numa licenciatura indígena para mim é pensar na subjetividade que “integre consciência, liberdade, dialogalidade, criatividade, afetividade, responsabilidade e onde o ser humano (indígena) afirma-se como sujeito e emancipa-se como pessoa, sem renunciar a dimensão alguma de seu ser” (Arduini, 2002:23). Mas, afinal, como está se encaminhando o projeto de Licenciaturas Indígenas instituídas pelas diversas universidades no Brasil? Particularmente, não tenho conhecimento de todos os projetos, mas vou partilhar a partir de minha experiência pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), precisamente pelo Curso Licenciatura Pedagogia Intercultural Indígena. Por duas vezes, estive como professor assistente na Cidade de Amaturá, no Alto Solimões, isto, porque, o curso é ministrado por módulos. No caso, atuei no 5º e 6º módulos (2011 e 2012). Participei do perplexo processo seletivo para professor assistente, perplexo porque o processo seletivo foi invalidado, e assim muito professores foram nomeados sem mesmo terem participado do processo seletivo. Além disso, só pude seguir como professor porque houve uma desistência, já que estava no cadastro de reserva. Saindo de Manaus segui à cidade de Tabatinga pela TRIP Linhas Aéreas para em seguida prosseguir a viagem com um barco até cidade de Amaturá. Eu seguia como profissional que tinha Licenciatura plena em Filosofia e também como mestrando em antropologia social da Universidade Federal do Amazonas, mas essa carga acadêmica parece não ter chamado atenção para alguns alunos naquela cidade. Foi o que notei em certo momento quando na oportunidade chamei para uma conversa particular todos os acadêmicos. Para minha surpresa um dos acadêmicos que aparentava ser um não indígena, um forte comerciante do município, ao se aproximar de mim fez a seguinte afirmação: “professor, 15 posso compartilhar uma coisa com o senhor, mas o senhor não vai ficar com raiva de mim não?”. Eu respondi que não. Ele continuou: “professor, vou ser sincero com o senhor. Quando eu vi o senhor entrando em sala de aula com suas características indígenas logo pensei: „será que a UEA está se regredindo ao mandar para nós um professor indígena? É isso que pensei professor, mas eu gostaria de pedir desculpas por isso, pois, o senhor não é o que eu tinha pensado, o senhor é um profissional diferente dos índios que nós aqui estamos acostumados a ver aqui na nossa região, o senhor é preparado e não é por a caso que veio aqui como professor da UEA‟.” Essa questão foi socializada também em sala de aula com os demais acadêmicos e infelizmente também nós indígenas manifestamos um espírito de inferioridade em muitas ocasiões, como é o caso de alcoolismo, sendo um grande problema para muitos indígenas daquele município, inclusive na minha família biológica. Assim, para este cidadão, ver um indígena como professor universitário foi um espanto. Um espanto que começa a nortear uma alternativa de uma cultura diferenciada, ou seja, que todas as linhas de formação acadêmica estão ao alcance dos indígenas, mas que a presença indígena em diversos níveis e áreas de formações é um incomodo para muitos. E se pensamos na concretização das universidades indígenas é preciso partir dos fundamentos racionais das nossas culturas em diálogo com as culturas externas. E o que encontrei nesse curso Pedagogia Licenciatura Intercultural Indígena? Primeiramente, foi a experiência profissional. Enquanto o curso em geral funciona via IP.TV onde os professores titulares ministravam as aulas de um estúdio na capital amazonense; e os professores assistentes são os que fazem intermédio nas atividades em sala de aula, isso envolvendo 54 cidades do interior. A organização das apostilas é feita pela coordenação do curso. E é justamente essa questão que precisa ser refletida, ou seja, sobre a meta pedagógica do curso. Em um dos módulos (6º) foram ofertadas as seguintes disciplinas: “Criança, sociedade e cultura indígena, Educação de jovens e adultos indígenas; Língua Portuguesa e língua indígena; Linguagem e pensamento na criança indígena; Psicologia da aprendizagem e processos educacionais na educação escolar indígena”. O nome dessas disciplinas, a princípio, fez com que imaginasse estar participando de uma formação a partir das teorias e método do pensar indígena sobre a educação, mas que não condiziam com o que se apresentava nominalmente o curso. Em outras palavras, é um curso de pedagogia normal, com disciplinas sendo oferecidas a cada módulo, com professores brancos se comunicando em Língua 16 Portuguesa, os alunos construindo trabalhos para obtenção de notas, os alunos buscando o conhecimento a partir de um pensador explorado pelo professor, enfim, um curso normal. Diante desses aspectos, percebi que muitos alunos indígenas Ticuna se isolavam, e uma das dificuldades era o uso da Língua Portuguesa para apresentação de trabalhos e reflexões socializadas em sala de aula. De modo que minha presença enquanto indígena passou a motivar muito os alunos indígenas. Aliás, dentro do curso, pelo menos em Amaturá, entre os 44 alunos, só 16 eram indígenas, os demais, mesmo tendo as aparências, não se identificavam como indígenas, embora que a meu ver 99% dos moradores na cidade eram indígenas. Esses fatores fizeram com que passasse a pensar da seguinte forma: as licenciaturas indígenas hoje não são projetos perdidos, pelo contrário, são investimentos que dentro de pouco tempo terá resultado positivo desde que os próprios indígenas projetem a subjetividade cultural de uma educação diferenciada, pois, penso que uma Licenciatura Indígena passará a ser entendida enquanto uma linha de formação acadêmica diferenciada a partir do momento em que as próprias culturas indígenas estiverem disponíveis para oferecer conteúdos teóricosmetodológicos que propiciem uma pessoa a se licenciar em uma determinada área de formação, certamente assim poderemos ter pessoas Licenciadas em Língua Tukana, Licenciados em Língua Tuyuka, Licenciados em Língua Desana, Licenciados em Filosofia Tukana, em matemática, arte, enfim, tudo que envolve as teóricas de conhecimento e métodos de formação, educação e pensamento indígena dentro dos aspectos culturais de cada grupo étnico. Sem dúvida, a ideia de uma universidade indígena que tenho é uma universidade composta por metodologia-pedagógica de vários grupos étnicos, formando assim um ambiente acadêmico das populações indígena dentro dos parâmetros de cada região e município. Por este motivo é que não tenho nenhum pensamento desconstrutivo em relação às Licenciaturas Indígenas hoje sendo ofertadas por algumas universidades brasileiras. Se esse é o momento que temos como oportunidade para que os indígenas tenham uma formação acadêmica não podemos imaginar que os deuses das mitologias indígenas ressurjam para fazer a diferença, como em certo momento um indígena que trabalhou como representante no setor da educação indígena pelo MEC afirmou de que só “teremos universidade indígena quando tiver 50 doutores indígenas”. Esse tipo de pensamento é que muitas vezes atrapalha. E essa mesma pessoa acha que o movimento indígena só se sustenta quando é lançado na mídia. Certamente, um pensamento como esse pode gerar questionamentos referentes ao modelo de Licenciatura Indígena que eu proporia. Já fui questionado várias vezes sobre isso, e 17 até mesmo meus próprios parentes acham que sou muito radical em relação aos fundamentos e saberes indígenas. Mas entendo que o período em que estamos vivendo é o período em que as universidades estão indo ao encontro dos indígenas, portanto, estamos no processo, com as Licenciaturas Indígenas, de formação das Universidades para os indígenas para enfim podermos pensar na Universidade dos Indígenas, isso vai demorar um pouco, mas creio que vai se concretizar logo, logo. E uma universidade dos indígenas seria então a universidade sob a responsabilidade dos próprios indígenas, sendo os professores indígenas falando em línguas indígenas, com métodos específicos pensados pelos próprios indígenas como podemos ver na afirmação de um indígena, salesiano, padre e tuyuka em relação à educação indígena: a educação indígena é diferente do que uma escola indígena. A educação indígena é anterior à escola indígena, vai além de simplesmente ter alunos e professores indígenas na escola (estrutura física). Ter professores e alunos indígenas não faz de uma escola, uma escola indígena. E, a escola não é uma escola indígena só porque está no ambiente indígena. Uma escola não se torna escola indígena só porque transmite os conteúdos que vem nos livros elaborados pelos não-índios, na língua indígena. A educação indígena mostra a sua identidade pelos conteúdos, métodos de ensino e aprendizagem, métodos de avaliação segundo os critérios das etnias (REZENDE, 2004:03). Se minhas afirmações norteiam que em tempos hodiernos estamos vivendo o período da universidade para os indígenas é porque entendo que a noção de universidade dos indígenas só constituirá a partir da subjetividade cultural que nós próprios indígenas assumirmos a partir das formações acadêmicas que obtivermos, pelo contrário, continuaremos sendo universitários que buscam uma formação acadêmica em vista de uma profissionalização melhor remunerada. Não estou dizendo que a remuneração econômica não faça mais parte das nossas vidas, pois, a questão econômica faz parte da vida dos indígenas, ou seja, dependemos também hoje das questões econômicas pelas funções profissionais em que exercemos. Todavia, a partir das formações acadêmicas que vamos obtendo precisamos pensar na construção das metodologias de ensino-aprendizagem de uma educação indígena protagonizada pelos próprios indígenas, a princípio, e com a participação de profissionais não indígenas, bem como com a participação das diferentes áreas de formação acadêmica, como cursos de sociologia, antropologia, pedagogia, língua portuguesa, matemática, etc. Dito de outra forma, os acadêmicos indígenas que estão se formando nas Licenciaturas Indígenas deveriam pensar em construir material didático a partir de formulações de suas pesquisas, uma vez que a identificação de uma universidade dos indígenas requerer-se-á com material didático específico e propiciado, e, isso não significa a necessidade de um isolamento cultural, 18 pelo contrário, vai iniciar uma socialização acadêmica dos indígenas em diálogo e intercambio de um ensino-aprendizagem indígena. Considerações Finais Quando pensei em partilhar minha experiência como pesquisador a partir de um contexto acadêmico de antropologia não encontrei outro meio para o momento que ilustre o ponto de vista de uma “antropologia simétrica e cruzada” (Dias&Mendes, 2009 ) e especificamente de uma antropologia tukana, a não ser a partir de duas noções tukana, Uukunse e Mʉnropaʉ Uusétise, que são em prática uma das teorias de conhecimento Tukano. Embora que as duas noções hoje comecem a ser compartilhadas em diversos ambientes acadêmicos não foi fácil pensar a partir das mesmas ideias. Parece que, pelo fato de existirem muitas e densas pesquisas etnográficas sobre a cultura tukana, se tem ideia de que não há mais o que falar sobre os Tukano, como falou em certa ocasião um salesiano, amigo meu que faleceu recentemente em Manaus, Padre Benjamim Morando, quando o encontrei numa manhã de Domingo na Avenida Eduardo Ribeiro na capital amazonense: “mas já não foi falado tudo sobre a cultura tukano? E o que é que você tem a falar sobre isso então?”. Na ocasião, lembro que falei um pouco do meu projeto de pesquisa que tinha como meta pesquisar os conhecimentos tukano. A reação do padre me surpreendeu, mas eu estava consciente e me senti livre para continuar focalizado no meu projeto de pesquisa. Por outro lado, assim que defendi minha dissertação enviei um link de reportagem de uma TV local sobre minha defesa no qual ilustrava que eu era o primeiro antropólogo indígena a se formar pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas. Desta vez, o bom padre me respondeu com elogios: “Rivelino, sempre lembrado Rivelino. Recebi seu recado com satisfação, alegria e curiosidade. Eu sempre apoiei as pesquisas sobre as culturas do alto rio negro. Você sabe que eu trabalhei muito tempo como missionário nesta região. Sua pesquisa certamente vai incentivar e servir como orientação cultural e conhecimento dos nossos formandos. Fico muito satisfeito pela sua conquista. Estou nas missões e assim que retornar conversaremos”. Infelizmente, esse momento de encontro e conversa não foi possível, porque, estando nas missões em companhia de um visitador ou superior vindo de Roma-Itália, o padre sofreu acidente no pé ao transitar entre as cachoeiras do Rio Marauiá, e como o mesmo não teve 19 cuidado em pouco tempo a pequena ferida causou uma infecção generalizada, e consequentemente levando-o óbito. Penso que cada um tem suas expectativas e perspectivas, seja do ponto de vista do que é cultura indígena ou licenciatura indígena. Penso que, independentemente dos nossos pensamentos diferenciados o que está em jogo é a questão indígena. Se falamos hoje de licenciaturas indígenas é necessário trazer em nossas consciências uma reflexão exótica, isto é, tradicionalmente nós indígenas não tínhamos costumes de construir uma maloca se não houvesse pessoas que ritualizem comumente ou que não adianta arquitetar uma linda maloca se não tem ninguém que dê vida ou que não tem ninguém que promova danças e vivencias culturais. De outra forma, uma panela com água fervendo no fogo não vai oferecer comida para as famílias, sibs e etnias indígenas ou ainda um prato sem comida não atrai ninguém. Portanto, essas noções e reflexões não são ideológicas, mas são questões que nascem de minha própria experiência enquanto pesquisador, isto porque, antes de cobrar dos outros eu mesmo procuro protagonizar como pesquisador, como formando de intelectualidade indígena. Para mim, é tudo isso e mais um pouco que vem significar o que chamo de “olhos urbanos, consciência indígena”. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que tenhamos uma necessidade pela formação acadêmica no contexto urbano, precisamos estar conscientes de nossas próprias subjetividades culturais e o grande devir cultural de uma educação diferenciada nasce de nossa própria consciência étnica e cultural, sem se submeter ao subjetivismo cultural, ou seja, precisamos nos orientar para não reduzir nossas culturas ao intimismo, individualismo ou excluir a realidade exterior, mas sim acentuar no contexto de uma intersubjetividade. Bibliografia ARDUINI, Juvenal. Antropologia: ousar para reinventar a humanidade. – São Paulo: Paulus, 2002. COSTA, Mauro Gomes da (Org.). A ação dos salesianos de Dom Bosco na Amazônia. São Paulo: Editora Salesiana, 2009. Dias Jr. & Mendes dos Santos, “Ciência da Floresta: por uma antropologia no plural, simétrica e cruzada”, In: Revista de Antropologia, USP, 52(1), 2009:137-62. 20 HUGH-JONES, C. Skin and Soul: the round and the straight. Social time and social space in Pirá-Paraná society. In: Congrès International des Américanistes (Social time and social space in Lowland South American societies), XLII. Actes… Paris: Société des Americanistes, p.185-204, 1977. ______. From the Milk River: Spatial and Temporal Processes in Northwest Amazonia. Cambridge: Cambridge University Press, 1979. HUGH-JONES, S. Nomes secretos e riquezas visível: nominação no noroeste amazônico. Mana, 8 (2): 45-68, 2002. REZENDE, Justino Sarmento. A educação na visão de um Tuyuka. Manaus: Faculdade Salesiana Dom Bosco, 2010. ________. REZENDE, Justino Sarmento. Repensando a educação indígena. Yauaretê, 2004. SAHLINS, Marshall David. Cultura na prática. 2. ed. – Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007 (coleção etnologia), 672p.
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