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Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto Departamento de Química Programa de Pós-Graduação em Química “Tratamento de efluentes provenientes de curtumes utilizando os processos eletroquímico e fotoeletroquímico”. Carla Regina Costa Tese apresentada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, como parte das exigências para a obtenção do título de Doutor em Ciências, Área: Química Orientador: Prof. Dr. Paulo Olivi RIBEIRÃO PRETO - SP 2009 FICHA CATALOGRÁFICA Costa, Carla Regina Tratamento de efluentes provenientes de curtume utilizando os processos eletroquímico e fotoeletroquímico. Ribeirão Preto, 2009. 270 p. : il. ; 30cm Tese de Doutorado, apresentada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP – Área de concentração: Química. Orientador: Olivi, Paulo. 1. Efluentes de curtume. 2. Ânodos dimensionalmente estáveis. 3. Diamante dopado com boro. 4. Fotoeletroquímica. Dedico este trabalho: A Deus, pela saúde e disposição indispensáveis para a realização deste trabalho e por ter me dado forças para encarar e superar com maturidade todos os obstáculos que surgiram no seu decorrer. Ao meu esposo Márcio, por sempre apoiar minhas escolhas pessoais e profissionais e por ter abdicado de sua vida aqui no Brasil para me acompanhar até a Espanha. Essa foi a maior prova de amor que você me deu. Muito obrigada por tudo. Aos meus pais José e Marta, os quais sempre me incentivaram a estudar e com os quais eu aprendi a ter garra e determinação para batalhar, de forma honesta, pelos meus sonhos e ideais. Obrigada por todos os ensinamentos que me tornaram a pessoa que sou. Ao meu irmão Carlos, por ser um irmão maravilhoso que sempre torceu pela minha vitória. A minha amiga Cristina Amaro Silvério, a qual se dedicou e lutou incansavelmente pelo título de doutora, mas que lamentavelmente não conseguiu conquistá-lo. Espero que você consiga superar mais este obstáculo e dar a volta por cima. Agradecimentos Ao Prof. Paulo Olivi, por ter me dado a oportunidade de trabalhar em seu grupo de pesquisa e de aperfeiçoar os meus conhecimentos em duas áreas fascinantes da química: a química ambiental e a eletroquímica. Obrigada pela confiança, orientação e, sobretudo, por ter sido um orientador democrático que sempre se mostrou disposto a ouvir minhas opiniões. Obrigada também por ter permitido que eu interagisse cientificamente com outros grupos de pesquisa, dentro e fora do Brasil. Aos Profs. Herenilton Paulino de Oliveira e Julien Françoise Coleta Boodts, pelas valiosas dicas e conversas que muito contribuíram para o meu amadurecimento científico e pessoal. À Profa. Adalgisa Rodrigues de Andrade, a qual eu considero a primeira responsável pelo meu interesse pela área de eletroquímica. Sempre vou me lembrar com carinho das suas aulas de graduação, bem como daquela Gisa de cabelos negros cacheados. À Profa. Yassuko Iamamoto, por ter acreditado no meu potencial como pesquisadora e por ter me incentivado a prosseguir os estudos na pós-graduação, mesmo após saber que eu abandonaria o seu grupo de pesquisa ao finalizar o mestrado. À Profa. Emilia Morallón e ao Dr. Francisco Montilla (Paco), por terem orientado a parte do meu trabalho desenvolvida na Espanha. Sou muito grata à Emilia por ter me recebido em seu laboratório e por ter me dado a oportunidade de trabalhar com os famosos eletrodos de diamante dopado com boro (BDD). Ao Paco, o qual eu considero o fã número 1 dos eletrodos de BDD, agradeço pelas ricas discussões que me fizeram aprender muito sobre esses eletrodos. A todos com os quais eu convivi na Universidade de Alicante, especialmente aos colegas: Antonio, Carlos, Damián, Javier, Joaquin, José Miguel, Juan Manuel, Maria de los Ángeles, Milena, Nestor, Paco, Pedro, Raquel, Raúl e Teresa. Ao Heraldo Gallo do Instituto de Física da USP de São Carlos e ao Luciano Andrei Montoro do Departamento de Química da Filô, pelas análises de SEM e EDX. Ao Lourivaldo dos Santos Pereira do Departamento de Química da Filô, pelas análises de DRX. Ao Prof. Evaldo L. G. Espindola e à Dra. Clarice M. R. do Centro de Recursos Hídricos e Ecologia Aplicada da Escola de Engenharia de São Carlos (CRHEA/USP), pelos testes de toxicidade com Daphnia similis. Gostaria de agradecer também ao Amandio e ao Danilo, os quais sempre se mostraram dispostos a me ajudar quando estive no CRHEA realizando os testes de toxicidade. A todos os funcionários do Departamento de Química da Filô, os quais sempre foram muito gentis comigo, especialmente àqueles com os quais eu tive uma proximidade maior: André, Claudinei (Dias), Cynthia, Doralice (Dora), Isabel (Bel), Lâmia, Losane, Luiz Carlos (Zanatto), Luiza, Maria, Mercia, Losane, Olimpia, Ricardo, Sônia, Valdir, Vera e Wender. Aos grandes amigos que a química me trouxe ao longo dos dez anos de estudos no Departamento de Química da Filô: Adriano Pimenta, Aline Fernanda, Clayton (Bigode), Cristina Silvério, Daniela, Fábio Marçal, Fernando Grine, Helder, Josimar, Luiz Fernando (Pilão), Luiza, Márcia Eiko, Mariza Alves, Patrícia Riul, Roberta Coteiro, Shirley e Valdir. Todos vocês estarão sempre em meu coração. A todos os colegas do Laboratório de Eletrocatálise e Eletroquímica Ambiental com os quais eu convivi durante os quatro anos de doutorado: André (Andrezão), Ana Carolina (Carô), Ângelo, Aristeu, Camila, Evandro (Chicória), Élen, Émerson, Fabiana, Fernando (Carmona), Flávio (Xicó), Franciane, Helder, Hoel, Izabel, Josimar, Juliane, Liliane, Lívia, Luciano (Giraya), Luiza, Marlene, Paula, Sidney (Neto), Roberta, Rodrigo (XYZ), Talita, Tânia (in memorian), Thiago (Magri) e Thiago (Santos). A todos os professores que de alguma forma contribuíram com este trabalho: Prof. Antonio Cláudio Tedesco, Prof. Antonio Eduardo da Hora Machado, Prof. José Fernando de Andrade, Prof. Iouri Borissevitch, Profa. Laura Tieme Okano, Prof. Luciano Bachmann e Prof. Osvaldo Antonio Serra. A todos os guardas do Departamento de Química, pelos vários cafés que inauguraram meus longos dias de trabalho aos sábados e domingos. À Couroquimica Couros e Acabamentos Ltda, por ter fornecido as amostras de efluentes e os reagentes de curtimento que foram utilizados neste trabalho. À FAPESP, pela bolsa concedida para a realização deste trabalho. À CAPES, pela bolsa PDEE de estágio de doutorando no exterior. O ignorante não duvida porque desconhece o que não sabe. (Autor desconhecido) Sumário CAPÍTULO I: INTRODUÇÃO GERAL .......................................................................... 1 I.1 - O PROCESSO DE CURTIMENTO DAS PELES.....................................................2 I.1.1 - A estrutura da pele animal ...................................................................................... 2 I.1.2 - O processo de curtimento das peles ........................................................................ 5 I.1.3 - Conservação e armazenamento das peles ............................................................... 8 I.1.4 - A ribeira .................................................................................................................. 9 I.1.5 - O curtimento .........................................................................................................14 I.1.6 - O acabamento ....................................................................................................... 21 I.1.6.1 - O acabamento molhado...................................................................................... 21 I.1.6.2 - O pré-acabamento e acabamento final ............................................................... 26 I.2 - A INDÚSTRIA BRASILEIRA DE COURO E A GERAÇÃO DE EFLUENTES ................................................................................................................... 26 I.3 - OXIDAÇÃO DE CONTAMINANTES ORGÂNICOS E TRATAMENTO DE EFLUENTES ................................................................................................................... 33 I.4 - PARÂMETROS UTILIZADOS PARA AVALIAR A OXIDAÇÃO DE CONTAMINANTES .......................................................................................................47 I.4.1 - Carbono Orgânico Total (TOC) ............................................................................ 47 I.4.2 - Demanda Química de Oxigênio (COD)................................................................ 49 I.4.3 - Organo-Halogenados Adsorvíveis (AOX) ............................................................ 51 I.4.4 - Teste de toxicidade ............................................................................................... 53 I.4.5 - Fenóis totais .......................................................................................................... 57 I.4.6 - Cor ........................................................................................................................ 59 I.4.7 - Cromo (VI) ...........................................................................................................62 I.5 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................... 63 vi CAPÍTULO II: OBJETIVO ............................................................................................ 71 CAPÍTULO III: DEGRADAÇÃO DE REAL CURTUME E ELETROQUÍMICA SINTÉTICO UTILIZANDO DE EFLUENTES ELETRODOS DO TIPO DSA® ..................................................................................................................... 73 III.1 - INTRODUÇÃO .................................................................................................... 74 III.1.1 - Ânodos Dimensionalmente Estáveis (DSA®) .................................................... 79 III.1.2 - Eficiência de Corrente ........................................................................................83 III.2 - PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL ................................................................ 87 III.2.1 - Preparação dos eletrodos .................................................................................... 87 III.2.1.1 - Preparação e padronização da solução precursora de estanho ........................ 87 III.2.1.2 - Preparação e padronização da solução precursora de rutênio ......................... 89 III.2.1.3 - Preparação e padronização da solução precursora de irídio ............................ 90 III.2.1.4 - Preparação e padronização da solução precursora de titânio .......................... 91 III.2.1.5 - Pré-tratamento dos suportes de titânio ............................................................ 91 III.2.1.6 - Deposição dos filmes de óxido sobre o suporte de titânio ..............................93 III.2.1.7 - Confecção final dos eletrodos ......................................................................... 94 III.2.1.8 - Caracterização físico-química dos eletrodos ................................................... 95 III.2.2 - Coleta e caracterização de efluentes de curtume ................................................ 97 III.2.3 - Tratamento eletroquímico de um efluente de curtume real................................ 98 III.2.3.1 - Caracterização do efluente de curtume real .................................................... 98 III.2.3.2 - Degradação eletroquímica do efluente de curtume real .................................. 99 III.2.4 - Tratamento eletroquímico de um efluente de curtume sintético ...................... 101 III.2.4.1 - Preparação e caracterização do efluente de curtume sintético ......................101 III.2.4.2 - Degradação eletroquímica do efluente de curtume sintético ........................ 104 vii III.2.5 - Cálculos de eficiência de corrente, consumo de energia e constante de velocidade ...................................................................................................................... 106 III.3 - RESULTADOS E DISCUSSÃO ........................................................................ 107 III.3.1 - Caracterização físico-química dos eletrodos .................................................... 107 III.3.2 - Tratamento eletroquímico do efluente de curtume real: efeito da composição eletródica, da densidade de corrente e da adição de Na2SO4 .................... 114 III.3.3 - Tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético: efeito da concentração de cloreto e da presença de sulfato ..........................................................133 III.4 - CONCLUSÕES................................................................................................... 146 III.5 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................ 148 CAPÍTULO IV: DEGRADAÇÃO ELETROQUÍMICA DE UM EFLUENTE DE CURTUME SINTÉTICO E DO CORANTE PRETO ÁCIDO 210 UTILIZANDO BDD ............................................................................................................................... 151 IV.1 - INTRODUÇÃO .................................................................................................. 152 IV.1.1 - O modelo de Comninellis ................................................................................ 159 IV.2 - PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL.............................................................. 164 IV.2.1 - Determinação do coeficiente de transferência de massa .................................. 164 IV.2.2 - Degradação de um efluente de curtume sintético utilizando BDD .................. 167 IV.2.3 - Degradação do corante preto ácido 210 utilizando BDD ................................ 168 IV.2.4 - Cálculos de eficiência de corrente, eficiência de corrente instantânea, consumo de energia e constantes de velocidade. ........................................................... 170 IV.3 - RESULTADOS E DISCUSSÃO ........................................................................ 171 IV.3.1 - Tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético: efeito do pH, da densidade de corrente e da natureza do eletrodo ............................................... 171 viii IV.3.2 - Eletroxidação do corante AB-210 utilizando BDD na presença de íons fosfato: efeito da densidade de corrente, pH e íons cloreto ...........................................177 IV.4 - CONCLUSÕES .................................................................................................. 197 IV.5 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................ 199 CAPÍTULO V: DEGRADAÇÃO FOTOCATALÍTICA E FOTOELETROQUÍMICA DE UM EFLUENTE DE CURTUME SINTÉTICO..................................................... 204 V.1 - INTRODUÇÃO ................................................................................................... 205 V.1.1 - A fotocatálise heterogênea ................................................................................ 205 V.1.1.1 - A fotocatálise heterogênea combinada com outros processos oxidativos avançados ..................................................................................................... 214 V.1.2 - A fotoeletroquímica........................................................................................... 216 V.1.2.1 - O efeito fotogalvânico ....................................................................................217 V.1.2.2 - O efeito fotovoltaico.......................................................................................222 V.1.2.3 - A utilização de processos fotoeletroquímicos para a degradação de substâncias orgânicas..................................................................................................... 234 V.2 - PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL ............................................................... 244 V.2.1 - Tratamento fotocatalítico de um efluente de curtume sintético ........................ 244 V.2.2 - Tratamento fotoeletroquímico de um efluente de curtume sintético ................. 247 V.2.3 - Cálculos de consumo de energia e constantes de velocidade............................249 V.3 - RESULTADOS E DISCUSSÃO .........................................................................252 V.3.1 - Degradação fotocatalítica de um efluente de curtume sintético ........................ 252 V.3.1.1 - Caracterização do TiO2 suportado em uma placa de vidro e das lâmpadas de luz negra e germicida ................................................................................ 252 V.3.1.2 - Fotodegradação do efluente de curtume sintético ..........................................253 ix V.3.2 - Degradação fotoeletroquímica de um efluente de curtume sintético ................ 256 V.4 - CONCLUSÕES .................................................................................................... 262 V.5 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 264 CAPÍTULO VI: CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................. 268 x Lista de Figuras Figura 1.1: Estrutura da pele animal.................................................................................. 2 Figura 1.2: A molécula de tropocolágeno e a estrutura dos principais aminoácidos que a compõe. ............................................................................................... 4 Figura 1.3: Esquema das etapas envolvidas no processamento das peles, desde a ribeira até o acabamento final...............................................................................7 Figura 1.4: (A) Representação de um fulão. (B) Introdução das peles nos fulões para que sejam processadas. (C) Bateria de fulões e operários manuseando lotes de couros recém saídos da etapa de processamento. .................................................................................. 10 Figura 1.5: Reação 1 − Formação reversível de uma ligação dissulfeto pela oxidação de dois resíduos de cisteína. Reação 2 − Redução da cistina por sulfetos inorgânicos ou orgânicos. ........................................................................................................................ 12 Figura 1.6: Composição de uma solução de sulfato de cromo típica de curtimento, 0,4 mol L−1 em Cr3+ com basicidade de 33%. ..............................................15 Figura 1.7: Possíveis reações de complexação entre duas espécies de Cr(III) e os grupos carboxilatos da proteína colágeno (P). ......................................................... 16 Figura 1.8: Formação de ligações cruzadas a partir de complexos de cromo (P = proteína colágeno)....................................................................................................16 Figura 1.9: Taninos hidrolisáveis. ................................................................................... 18 Figura 1.10: Sistema de anel flavonóide no qual os taninos condensados são baseados. ................................................................................................................... 19 Figura 1.11: À esquerda, estrutura generalizada de dois taninos condensados, a procianidina e a prodelfinidina. À direita, unidades monoméricas dos taninos mimosa e quebracho. ....................................................................................................... 20 Figura 1.12: Representação das ligações de hidrogênio entre as substâncias polifenólicas e o colágeno...............................................................................................20 Figura 1.13: Estrutura química do corante preto ácido 210 (Color Index no. 300825 e CAS no. 99576-15-5)................................................................................. 23 Figura 1.14: Distribuição dos estabelecimentos curtidores no Brasil por região. ........... 28 Figura 1.15: A cadeia produtiva da indústria de couro. ..................................................29 Figura 1. 16: Produção do couro brasileiro por tipo de curtimento................................. 31 Figura 1.17: Ciclo catalítico da reação de Fenton.. ......................................................... 38 Figura 1.18: Representação esquemática da geração do par ecb−/hvb+ em semicondutores e suas respectivas reações.. ..............................................................40 Figura 1.19: Reação entre Cr(VI) e DPC em meio ácido. ............................................... 62 Figura 3.1: Reações envolvidas na eletroxidação do ácido tânico com os eletrodos Ti/TiRuO2 e Ti/PbO2, de acordo com Panizza e Cerisola . ............................. 78 Figura 3.2: Etapas envolvidas na preparação do precursor polimérico. . ........................ 81 xi Figura 3.3: Ilustração dos suportes de titânio utilizados para a deposição dos filmes de óxidos. ....................................................................................................... 92 Figura 3.4: Representação esquemática de um eletrodo recém preparado. ..................... 95 Figura 3.5: Representação esquemática da célula utilizada na caracterização eletroquímica dos eletrodos. ............................................................................................ 96 Figura 3.6: Célula eletroquímica utilizada nos estudos de degradação do efluente de curtume real. ............................................................................................... 100 Figura 3.7: Representação esquemática da célula filtro-prensa utilizada no tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético. Vistas frontal, lateral e superior da célula eletroquímica montada. ......................................................105 Figura 3.8: Micrografias dos filmes Ti/Ir0,01Sn0,99O2, Ti/Ir0,10Sn0,90O2 e Ti/Ru0,10Sn0,90O2 preparados pelo método de Pechini. Ampliação de (A) 500 vezes e (B) 2000 vezes. .. 109 Figura 3.9: Micrografias dos filmes Ti/Ru0,30Ti0,70O2, Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 preparados pelo método de Pechini. Ampliação de (A) 500 vezes e (B) 2000 vezes. .............................................................................................................. 110 Figura 3.10: Difratogramas de raios X dos filmes de óxidos preparados pelo método de Pechini ......................................................................................................... 111 Figura 3.11: Voltamogramas cíclicos registrados em solução de H2SO4 0,5 mol L−1, à velocidade de varredura de 50 mV s−1........................................................................... 113 Figura 3.12: Concentração de fenóis totais em função do tempo de eletrólise a 20 mA cm−2 para os experimentos realizados com diferentes composições eletródicas.117 Figura 3.13: TOC em função do tempo de eletrólise a 20 mA cm−2 para os experimentos realizados com diferentes composições eletródicas ................................ 117 Figura 3.14: (A) Espectro visível do efluente de curtume em função do tempo de eletrólise, para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. Absorbância em (B) 440 nm e (C) 600 nm em função do tempo de eletrólise a para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com diferentes eletrodos. ....................................................................................................................... 119 Figura 3.15: (A) Espectro UV do efluente de curtume diluído 50 vezes em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. (B) Absorbância em 228 nm em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com difrentes eletrodos. ..................... 120 Figura 3.16: Concentração de fenóis totais em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e com diferentes densidades de corrente ................................................................................................... 122 Figura 3.17: TOC em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e com diferentes densidades de corrente. .................................................................................................................... 123 Figura 3.18: (A) Espectro Vis do efluente de curtume em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 100 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 (B) Absorbância em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados utilizando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e diferentes densidades de corrente ................................................................................................... 124 xii Figura 3.19: (A) Espectro UV do efluente de curtume diluído 50 vezes em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 100 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. (B) Absorbância em 228 nm em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e com diferentes densidades de corrente. ...................................................................... 127 Figura 3.20: Porcentagem de microcrústáceos Daphnia similis imóveis após 48 h de exposição a soluções de efluente de curtume de concentração 5%, antes e após 5 h de tratamento eletroquímico utilizando diferentes eletrodos a 20 mA cm−2. ................ 131 Figura 3.21: Porcentagem de microcrústáceos Daphnia similis imóveis após 48 h e de exposição a soluções de efluente de curtume de concentrações (A) 5% e (B) 2,5%, antes e após 5 h de tratamento eletroquímico, utilizando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 em diferentes densidades de corrente.................................................132 Figura 3.22: Eficiência de corrente (CE) em função do tempo de eletrólise: (A) para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 e (B) para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 20, 50 e 100 mA cm−2 . ......................... 133 Figura 3.23: Efeito da concentração de cloreto e da presença de sulfato sobre a remoção eletroquímica dos compostos fenólicos do efluente de curtume sintético durante as eletrólise realizadas a 20 mA cm−2 utilizando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 e diferentes eletrólitos suporte.. ........................................................... 134 Figura 3.24: Espectros Vis do efluente de curtume sintético em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 na presença de 20, 50 e 100 mmol L−1 de NaCl. ................... 139 Figura 3.25: Diminuição de (A) TOC/TOC0 e (B) absorbância relativa em 228 nm (Abs/Abs0) do efluente de curtume sintético em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2. ............................................................................................................. 140 Figura 3.26: (A) Remoções de TOC e COD e (B) eficiências de corrente calculadas a partir dos valores de TOC e COD em função da concentração de cloreto para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2. . ...................141 Figura 3.27: Consumo de energia em função do tempo para as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2. ...............................................................145 Figura 4.1: Representação gráfica das predições do modelo de Comninellis para a COD e a ICE durante a oxidação eletroquímica de um composto orgânico.. ........... 162 Figura 4.2: Célula eletroquímica utilizada nos estudos com o eletrodo de BDD. Acima é mostrado um esquema dos constituintes dessa célula.. ................................... 165 Figura 4.3: Curvas de corrente-voltagem para a determinação de km na célula eletroquímica empregada nos estudos com BDD. . ............................................ 166 Figura 4.4: Efeito do pH sobre a remoção de (A) fenóis totais, (B) COD e (C) TOC durante o tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 a 25 mA cm−2, utilizando um eletrodo BDD como ânodo. .........................................................................................................174 xiii Figura 4.5: Efeito da densidade de corrente sobre a remoção de (A) fenóis totais, (B) COD e (C) TOC durante o tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 em pH =2,4, utilizando um eletrodo BDD como ânodo. ..................................................................................... 175 Figura 4.6: Efeito do material eletródico sobre a remoção de (A) fenóis totais, (B) COD e (C) TOC durante o tratamento eletroquímico de um efluente de curtume sintético na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 em pH =2,4, a 25 mA cm−2. .................................................................................................................. 176 Figura 4.7: Espectro de absorção de soluções aquosas de AB-210 50 mg L−1 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 em diferentes condições de pH.................................. 179 Figura 4.8: Efeito da densidade de corrente sobre a eletroxidação de 500 mg L−1 de corante AB-210 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 (pH =6,8), utilizando BDD como ânodo. (A) COD/COD0 e (B) ICE em função do tempo de eletrólise. ....................................................................................................................... 180 Figura 4.9: Diminuição da absorbância relativa (Abs/Abs0) em 320, 460 e 600 nm para a solução de corante AB-210 500 mg L−1 em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados em tampão fosfato 0,20 mol L−1 (pH =6,8), utilizando BDD em diferentes densidades de corrente. ......................................................................................................................... 182 Figura 4.10: Efeito do pH sobre a eletroxidação de 500 mg L−1 de corante AB-210 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 a 25 mA cm−2, utilizando BDD como ânodo. (A) COD/COD0 e (B) ICE em função do tempo de eletrólise....................................... 183 Figura 4.11: Diminuição da absorbância relativa (Abs/Abs0) em 320, 460 e 600 nm para a solução de corante AB-210 500 mg L−1 em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados em tampão fosfato 0,20 mol L−1, com ânodo de BDD a 25 mA cm−2 em diferentes condições de pH. .................................................... 184 Figura 4.12: Diminuição dos valores de COD em função da carga específica durante as eletrólises de 500 mg L−1 de AB-210 a 25 mA cm−2 utilizando BDD ............................................................................................................................... 188 Figura 4.13: (A) Remoções de COD e eficiências de corrente (CE) calculadas a partir de COD, após 1 h e (B) remoções de TOC após 5 h obtidas a partir da eletroxidação de 500 mg L−1 de AB-210 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 a 25 mA cm−2 sobre ânodo de BDD, na presença e ausência de 0,10 mol L−1 de NaCl em diferentes condições de pH. ....................................................................... 195 Figura 4.14: Concentração de AOX durante a eletroxidação de 500 mg L−1 de AB-210 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 a 25 mA cm−2 sobre ânodo de BDD, na presença de 0,10 mol L−1 de NaCl em diferentes condições de pH. .............. 197 Figura 5.1: Representação esquemática das bandas de valência (VB) e de condução (CB) nos materiais isolantes, semicondutores e condutores. ........................ 206 Figura 5.2: Posições das bandas de valência e de condução para alguns semicondutores, suas respectivas energias de bandgap e alguns pares redox relevantes (pH 0). ............ 207 Figura 5.3: Representação esquemática das etapas de produção do TiO2 P25 da Degussa. .................................................................................................................... 210 Figura 5.4: Esquema da célula fotogalvânica baseada na reação entre Thi+ e Fe2+. ........................................................................................................... 218 xiv Figura 5.5: Estrutura da: (A) tionina, Thi+; (B) semitionina, Sem+ e (C) leucotionina, Leu2+. .................................................................................................219 Figura 5.6: Esquema da célula fotogalvânica formada pelo sistema 2+ 3+ Ru(bpy)3 − Fe ........................................................................................................... 221 Figura 5.7: Estrutura do complexo Ru(bpy)32+, bpy = 2,2’-bipiridina. ......................... 221 Figura 5.8: Modelo de bandas para: (A) um semicondutor intrínseco, (B) um semicondutor extrínseco do tipo n e (C) um semicondutor extrínseco do tipo p.. ............................................................................................................................224 Figura 5.9: Representação esquemática da interface semicondutor-solução. . ............. 226 Figura 5.10: Tipos de região de carga espacial em um semicondutor do tipo n em função do potencial aplicado (V) com relação ao potencial de flat-band (VFB). (A) Não há região carga-espaço, (B) formação de uma camada de depleção e, (C) formação de uma camada de acumulação. ........................................... 227 Figura 5.11: Formação da zona de carga espacial na interface semicondutor/eletrólito: (A) antes do contato com o eletrólito e (B) em equilíbrio depois do contato com o eletrólito.. .............................................................. 230 Figura 5.12: Representação esquemática dos processos eletródicos fotoassistidos em: (a) um semicondutor do tipo n (SC-n) e (b) um semicondutor do tipo p (SC-p).. ......................................................................................................................231 Figura 5.13: Curvas de corrente vs. potencial para um semicondutor do tipo n. Curva 1: sem luz; Curva 2: com luz. ............................................................................. 231 Figura 5.14: Interface semicondutor/eletrólito: (A) após o equilíbrio com o eletrólito na ausência de luz e (B) sob iluminação. ....................................................... 233 Figura 5.15: Posições das bandas de valência (abaixo) e de condução (acima) para os semicondutores TiO2 e SnO2, suas respectivas energias de bandgap e alguns pares redox relevantes em pH 0 . ....................................................................... 241 Figura 5.16: Ilustração do princípio de separação de carga em eletrodos constituídos por SnO2 e TiO2. ....................................................................................... 242 Figura 5.17: Representação esquemática do fotorreator utilizado nos estudos de degradação fotocatalítica do efluente de curtume sintético com TiO2. .................... 246 Figura 5.18: Tubo de vidro constituinte do reator fotocatalítico: (A) vista lateral do tubo após o lixamento, sem TiO2 (acima) e com TiO2 nas paredes internas (abaixo) e (B) vista superior do tubo sem e com TiO2, respectivamente. .................... 247 Figura 5.19: Reator utilizado nos estudos de degradação fotoeletroquímica do efluente de curtume sintético: (A) lâmpada de vapor de mercúrio de alta pressão sem o bulbo, (B) ânodo de composição nominal Ti/Ru0,30Ti0,70O2, (C) malha de titânio utilizada como cátodo e (D) corpo de vidro cilíndrico contendo os eletrodos e o tubo de quartzo contendo a lâmpada. ....................................................... 250 Figura 5.20: Representação esquemática da vista superior do reator fotoeletroquímico utilizado na degradação do efluente de curtume sintético. .............. 251 Figura 5.21: Micrografias do filme de TiO2 suportado em uma placa de vidro jateada com areia. Ampliação de (A) 500 vezes e (B) 2000 vezes. .............................. 252 xv Figura 5.22: Espectros de emissão das lâmpadas (A) de luz negra e (B) germicida. ................................................................................................................253 Figura 5.23: Espectros do efluente de curtume sintético antes e após 5 h de tratamento fotoquímico utilizando as lâmpadas de luz negra e germicida à temperatura de 31,7 ± 1,0 oC: (A) espectros na região visível (a foto mostra o efluente antes e após a fotodegradação com a lâmpada germicida) e (B) espectros na região ultravioleta do efluente diluído 100 vezes. ..............................255 Figura 5.24: Diminuição de (A) TOC/TOC0 e (B) COD/COD0 para o efluente de curtume sintético em função do tempo para os experimentos realizados a 10 A com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 (processos eletroquímico e fotoeletroquímico) e utilizando uma lâmpada de vapor de mercúrio como fonte de radiação (processos fotoquímico e fotoeletroquímico). Temperatura = 42,0 ± 1,0 oC. ........................................................................................ 257 Figura 5.25: Efluentes antes e após 5 h de tratamento a 10 A com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 (processos eletroquímico e fotoeletroquímico) e utilizando uma lâmpada de vapor de mercúrio como fonte de radiação (processos fotoquímico e fotoeletroquímico). Temperatura = 42,0 ± 1,0 oC. .................................259 Figura 5.26: Consumo de energia em função do tempo para os experimentos realizados a 10 A com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 (processos eletroquímico e fotoeletroquímico) e utilizando uma lâmpada de vapor de mercúrio como fonte de radiação (processos fotoquímico e fotoeletroquímico). Temperatura = 42,0 ± 1,0 oC. ........................................................................................ 261 xvi Lista de Tabelas Tabela I.1: Composição média de efluentes de curtumes...............................................32 Tabela I.2: Potenciais padrões de redução ( E 0R ) de alguns oxidantes em meio ácido....36 Tabela I.3: Capacidade oxidante de diversos materiais anódicos usados em processos de mineralização eletroquímica em meio ácido...................................................................44 Tabela I.4: Toxicidades agudas de diferentes efluentes industriais para Daphnia magna...............................................................................................................57 Tabela I.5: Absorções típicas de cromóforos simples isolados.......................................60 Tabela III.1: Densidades dos óxidos estudados neste trabalho.......................................94 Tabela III.2: Valores de TOC, pH e cromo total dos efluentes de curtume................... 97 Tabela III.3: Constituintes da Solução Sintética 1 (SS1). Essa solução foi preparada pela dissolução das substâncias abaixo em 1 L de água Milli-Q..........................................102 Tabela III.4: Constituintes da Solução Sintética 2 (SS2). Essa solução foi preparada pela dissolução das substâncias abaixo em 1 L de água Milli-Q..........................................103 Tabela III.5: Aplicação da equação 3.14 para corrigir a variação de volume para as eletrólises realizadas na célula filtro-prensa..................................................................107 Tabela III.6: Porcentagens atômicas, nominais e experimentais (estas ultimas determinadas por EDX) dos metais constituintes dos filmes de óxidos preparados pelo método de Pechini.........................................................................................................108 Tabela III.7: Cargas voltamétricas obtidas para as várias composições eletródicas preparadas pelo método de Pechini, calculadas a partir dos voltamogramas apresentados na Figura 3.11................................................................................................................114 Tabela III.8: Características do efluente de curtume real utilizado nos estudos de degradação eletroquímica..............................................................................................115 Tabela III.9: Remoção de fenóis totais e TOC após 5 h de eletrólise a 20 mA cm-2....116 Tabela III.10: Concentração de Cr(VI) durante as eletrólises.......................................125 Tabela III.11: Características do efluente de curtume sintético....................................134 Tabela III.12: Constantes de velocidade para a remoção de compostos fenólicos do efluente sintético durante as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2 utilizando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 em diferentes concentrações de eletrólito suporte...............................135 Tabela III.13: Concentração de AOX no final das eletrólises realizadas a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2.....................................................................................143 Tabela III.14: Toxicidades agudas expressas em ATU (intervalo de confiança de 95%) para o efluente de curtume sintético antes e após 5 h de eletrólises a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 e na presença de diferentes concentrações de NaCl..............144 Tabela III.15: Energia consumida na remoção eletroquímica de compostos fenólicos do efluente de curtume sintético utilizando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 −2 a 20 mA cm .................................................................................................................145 xvii Tabela III.16: Energia consumida na remoção eletroquímica de TOC e COD do efluente de curtume sintético utilizando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 a 20 mA cm−2....................................................................................................................146 Tabela IV.1: Equações que descrevem ICE e COD durante a oxidação de compostos orgânicos sobre BDD.....................................................................................................163 Tabela IV.2: Eficiências de corrente calculadas a partir de COD e TOC e consumo de energia após 4 h de eletroxidação do efluente sintético na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 (pH inicial = 2,4)..............................................................................................173 Tabela IV.3: Constantes de velocidade para a remoção de COD e absorbância em 460 nm obtidas a partir da oxidação eletroquímica de 500 mg L−1 de AB-210 utilizando ânodo de BDD................................................................................179 Tabela IV.4: Remoção de TOC em função do tempo e consumo de energia na eletroxidação de 500 mg L−1 de AB-210 utilizando ânodo de BDD.............................186 Tabela V.1: Radiação global incidente verticalmente sobre a superfície da terra.........209 Tabela V.2: Exemplos de células fotoeletroquímicas com semicondutores do tipo n e do tipo p..............................................................................................................................234 Tabela V.3: Remoções de COD e fenóis totais e consumo de energia após 5 h de fotodegradação do efluente sintético de curtume à temperatura de 31,7 ± 1,0 oC.........254 Tabela V.4: Constantes de velocidade para a remoção de TOC e COD para os experimentos realizados a 10 A com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 (processos eletroquímico e fotoeletroquímico) e utilizando uma lâmpada de vapor de mercúrio como fonte de radiação (processos fotoquímico e fotoeletroquímico). Temperatura = 42,0 ± 1,0 oC.........................................................................................258 Tabela V.5: Remoções de compostos fenólicos do efluente sintético após 1e 5 h de tratamento a 10 A com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 (processos eletroquímico e fotoeletroquímico) e utilizando uma lâmpada de vapor de mercúrio como fonte de radiação (processos fotoquímico e fotoeletroquímico). Temperatura = 42,0 ± 1,0 oC.........................................................................................259 xviii Lista de Siglas e Abreviaturas 4-AAP (4-Aminoantipyrine): 4-Aminoantipirina AB-210 (Acid Black 210): Preto Ácido 210 AOP (Advanced Oxidation Process): Processo Oxidativo Avançado AOX (Adsorbable Organic Halogen): Organo-Halogenados Adsorvíveis BDD (Boron-Doped Diamond): Diamante Dopado com Boro BOD (Biochemical Oxygen Demand): Demanda Bioquímica de Oxigênio CB (Conduction Band): Banda de Condução CE (Current Efficiency): Eficiência de Corrente COD (Chemical Oxygen Demand): Demanda Química de Oxigênio CONAMA: Conselho Nacional do Meio Ambiente 4-CP (4-Chlorophenol): 4-Clorofenol CVD (Chemical Vapor Deposition): Deposição Química a partir da fase Vapor DPC (Diphenylcarbazide): Difenilcarbazida DSA® (Dimensionally Stable Anode): Ânodo Dimensionalmente Estável EDX (Energy Dispersive X-Ray): Energia Dispersiva de Raios X EC (Energy Consumption): Consumo de Energia EC50 (Median Effective Concentration): Concentração de um contaminanteque causa um efeito agudo a 50% dos organismos EMATER: Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural EMBRAPA: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária FID (Flame Ionization Detector): Detector de Ionização de Chama HTCO (High Temperature Catalytic Oxidation): Oxidação Catalítica à Alta Temperatura IC (Inorganic Carbon): Carbono Inorgânico xix ICE (Instantaneous Current Efficiency): Eficiência de Corrente Instantânea JCPDS: Joint Committee on Powder Diffraction Standards LC50 (Median Lethal Concentration): Concentração de um contaminante que causa a morte de 50% dos organismos LOEC (Lowest Observed Effect Concentration): Concentração de Efeito Observado MBTH (2-Hydrazono-3-methylbenzothiazoline): 2-Hidrazona-3-metilbenzotiazolina NDIR (Nondispersive Infrared): Infravermelho não Dispersivo NHE (Normal Hydrogen Electrode): Eletrodo Normal de Hidrogênio NOEC (No Observed Effect Concentration): Concentração de Efeito não Observado NPOC (Nonpurgeable Organic Carbon): Carbono Orgânico Não Purgável PNP (para-Nitrophenol): p-Nitrofenol RHE (Reversible Hydrogen Electrode): Eletrodo Reversível de Hidrogênio SCE (Saturated Calomel Electrode): Eletrodo de Calomelano Saturado SEM (Scanning Electron Microscopy): Microscopia Eletrônica de Varredura TC (Total Carbon): Carbono Total TPC (2,4,6-Trichlorophenol): 2,4,6-Triclorofenol TOC (Total Organic Carbon): Carbono Orgânico Total UV: ultravioleta VB (Valence Band): Banda de Valência Vis: visível WCO (Wet Chemical Oxidation): Oxidação Química Úmida XRD (X-Ray Diffraction): Difração de Raios X xx Resumo Neste trabalho foi estudada a degradação de efluentes de curtume utilizando os processos eletroquímico, fotocatalítico e fotoeletroquímico. Nesses estudos foram utilizados efluentes coletados em uma indústria e soluções preparadas em laboratório que simularam os efluentes reais. No processo eletroquímico, os efeitos do material anódico, da densidade de corrente, da presença de íons sulfato e cloreto, da concentração de cloreto e do pH foram avaliados. Eletrodos do tipo DSA® de diferentes composições, SnO2-Sb2O5 e BDD foram utilizados como ânodo. A oxidação eletroquímica do corante preto ácido 210 utilizando o eletrodo de BDD em soluções tampões de fosfato também foi estudada. A degradação eletroquímica dos efluentes de curtume foi capaz de promover a diminuição da concentração de fenóis totais, do TOC, da COD, da absorbância nas regiões UV-Vis e da toxicidade para Daphnia similis. Maiores concentrações de cloreto resultaram em remoções mais rápidas de fenóis totais, TOC e COD. Apesar disso, a redução da toxicidade do efluente foi menor para maiores concentrações de cloreto, devido à formação de maiores concentrações de AOX. A presença de Na2SO4 dificultou a oxidação das substâncias orgânicas presentes no efluente. Na ausência de cloreto, os melhores resultados foram obtidos quando BDD foi utilizado como ânodo e esses resultados não foram afetados pelo pH. Entretanto, os melhores resultados para a degradação eletroquímica do corante preto ácido 210 foram obtidos em solução alcalina contendo íons fosfato, provavelmente devido à formação de espécies oxidantes a partir desses íons. O tratamento fotocatalítico do efluente de curtume foi realizado utilizando TiO2 P25 da Degussa suportado sobre as paredes do foto-reator. Duas lâmpadas de 15 W, uma de luz negra e a outra germicida, foram utilizadas para avaliar o efeito da fonte de radiação. A lâmpada de luz negra não modificou as características do efluente e os resultados obtidos com a lâmpada germicida na presença e ausência de TiO2 foram equiparáveis. O tratamento fotoeletroquímico foi realizado utilizando uma lâmpada de vapor de mercúrio de alta pressão de 125 W como fonte de radiação e um eletrodo de composição nominal Ti/Ru0,30Ti0,70O2 como ânodo. O efeito dos íons sulfato e cloreto sob a eficiência do processo fotoeletroquímico foi avaliado. Os resultados obtidos com o processo eletroquímico na presença de cloreto foram melhores do que aqueles obtidos com o processo fotoeletroquímico na presença de sulfato. Além disso, os resultados alcançados com o processo fotoeletroquímico na presença de NaCl foram melhores do que os alcançados com os processos eletroquímico e fotoquímico aplicados separadamente. xxi Abstract In this work the degradation of tannery wastewaters using electrochemical, photocatalytic and photoelectrochemical processes was studied. Wastewaters collected in an industry and solutions prepared in the laboratory, which simulated real wastewaters, were used in these studies. Effects of the anodic material, current density, presence of sulfate and chloride ions, chloride concentration, and pH on the electrochemical process were evaluated. Different compositions of DSA®-type electrodes, SnO2-Sb2O5 and BDD were employed as anode. The electrochemical oxidation of acid black 210 dye in phosphate buffer solutions was also studied using the BDD electrode. The electrochemical degradation of tannery wastewaters was able to promote the decrease in the concentration of total phenols, TOC, COD, absorbance in the UV-Vis region, and toxicity for Daphnia similis. However, the higher the chloride concentration in the wastewater, the lower the toxicity reduction because of the higher AOX concentration. The presence of Na2SO4 made the oxidation of organic compounds in the wastewater more difficult. In the absence of chloride, the best results were obtained when BDD was used as anode, and these results were not affected by the pH. However, the best results for the electrochemical degradation of acid black 210 dye were reached in alkaline solution containing phosphate ions, which is probably due to the formation of oxidizing species from these ions. The photocatalytic treatment of the tannery wastewater was performed with TiO2 P25 Degussa supported on the photoreactor walls. Two 15 W-lamps, a black light lamp and a germicide lamp, were used to evaluate the effect of the radiation source. The black light lamp did not change the wastewater characteristics, while the results obtained with the germicide lamp in the presence and absence of TiO2 were similar. The photoelectrochemical process was performed using a 125 W high-pressure mercury vapor lamp as radiation source and an electrode of nominal composition Ti/Ru0.30Ti0.70O2 as anode. Effects of sulfate and chloride ions on the efficiency of the photoelectrochemical process were evaluated. The results obtained with the electrochemical process in the presence of chloride were better than those obtained with the photoelectrochemical process in the presence of sulfate. Moreover, the results obtained with the photoelectrochemical process in the presence of chloride were better than those obtained with the electrochemical and photochemical processes applied separately. xxii Capítulo I: Introdução Geral Capítulo I I.1 - O processo de curtimento das peles I.1.1 - A estrutura da pele animal A pele animal é utilizada como matéria prima na produção de artigos de couro. Ela é vital para a sobrevivência do animal porque atua como um cobertor térmico resistente e protetor. Sua estrutura física é responsável por suas propriedades. Em geral, as peles dos mamíferos são compostas por uma camada central fibrosa e densa que recebe o nome de derme, uma estreita camada externa constituída por pêlos expostos, denominada epiderme e uma camada interna gordurosa e afrouxada que se encontra fixada por músculos subjacentes, chamada de hipoderme ou tecido subcutâneo 1,2. Na Figura 1.1 é apresentada a estrutura da pele animal. Figura 1.1: Estrutura da pele animal 2. A epiderme é constituída por camadas sobrepostas. As camadas superiores são ricas em queratina e são constituídas por células mais velhas. As camadas mais próximas da derme possuem células cheias de vitalidade que vão sendo empurradas em direção às camadas superiores à medida que vão envelhecendo. Além dessas camadas, o 2 Capítulo I sistema epidérmico é constituído por pêlos, glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas 1,2,3. A derme é a parte mais importante para o processo de curtimento, pois é ela que será transformada em couro. Ela é composta por duas camadas com estruturas distintas. A porção superior é a camada granular, também conhecida como flor, que é penetrada por glândulas sebáceas e sudoríparas e também por folículos pilosos. Cada folículo piloso encontra-se associado à região epidérmica adjacente e a uma glândula sebácea, uma glândula sudorípara e a um músculo eretor. A camada inferior da derme é denominada camada reticular. Essa camada apresenta uma estrutura mais simples do que a camada granular e é composta, na maioria das vezes, por pacotes espessos de fibras de colágeno 1,2,3. A hipoderme é constituída por tecidos adiposos e conectivos amarelos, vasos sanguíneos, nervos e músculos. Na linguagem dos curtidores ela é chamada de carne. Para a produção do couro, tanto a epiderme quanto a hipoderme necessitam ser removidas 3. A principal proteína constituinte da pele é o colágeno. A família dessa proteína inclui mais de vinte tipos de colágenos. Essa proteína encontra-se organizada em fibras insolúveis de grande resistência. Uma fibra de colágeno consiste de uma tripla hélice, chamada de tropocolágeno, com três cadeias polipeptídicas (referidas como cadeias α) torcidas sobre si mesmas, como uma corda trançada (Figura 1.2) 4,5,6. Cada uma das três cadeias possui uma sequência repetida de três aminoácidos, X-Pro-Gly ou X-HyproGly, onde a primeira posição, designada por X, pode ser ocupada por qualquer aminoácido. Prolina e hidroxiprolina também ocupam a posição X com grande frequência. A hidroxiprolina é formada a partir da prolina após os polipeptídios do 3 Capítulo I colágeno terem sido sintetizados. A hidroxilação é catalisada por uma enzima específica, a prolil-hidroxilase. A reação de hidroxilação é ativada por Fe2+ e necessita de oxigênio molecular, α-cetoglutarato e ácido ascórbico. A presença de hidroxiprolina no colágeno é importante, pois é ela que dá estabilidade à estrutura da proteína. Na seqüência de aminoácidos do colágeno, cada terceira posição encontra-se ocupada pela glicina. Isso é necessário porque, em cada uma das cadeias da tripla hélice, todos os terceiros resíduos encontram-se no interior da hélice e somente a glicina é pequena o suficiente para acomodar-se no espaço disponível 4,7,8. Cadeias α COO + H3N C H H Glicina Gly Tropocolágeno COO H + C CH2 H2N H2C CH2 COO H + C H2N1 2 3CH2 H2C5 4C OH H COO HH + C H2N1 2 3C OH H2C 5 4CH2 Prolina Pro 4-Hidroxiprolina Hypro 3-Hidroxiprolina Hypro Figura 1.2: A molécula de tropocolágeno e a estrutura dos principais aminoácidos que a compõe 7. As três cadeias individuais do colágeno são hélices. Cada cadeia está torcida em volta das demais em um arranjo super-helicoidal, formando um bastão rígido. O tropocolágeno possui peso molecular de aproximadamente 300000 daltons, 300 nm de comprimento e 1,5 nm de diâmetro. As três cadeias α são mantidas unidas por ligações 4 Capítulo I de hidrogênio envolvendo principalmente os resíduos de hidroxiprolina. Cada fita do colágeno contém cerca de 800 resíduos de aminoácidos 6. Além das ligações de hidrogênio entre os resíduos de hidroxiprolina, as fibras do colágeno são estabilizadas por ligações cruzadas intra e intermoleculares. As ligações cruzadas intramoleculares ocorrem entre resíduos de lisina na região N-terminal de uma molécula de tropocolágeno. As ligações cruzadas intermoleculares ocorrem entre a região N-terminal de um tropocolágeno e a região C-terminal de um tropocolágeno adjacente e envolvem a formação do íon hidroxipiridínio a partir de um resíduo de lisina e dois resíduos de hidroxilisina 7. A quantidade de ligações cruzadas em um tecido aumenta com a idade e é por isso que a carne dos animais mais velhos é mais dura do que a dos mais jovens 6. Outras proteínas estão presentes na pele nativa, tais como a queratina e a elastina (proteínas fibrosas) e a albumina e a globulina (proteínas globulares), mas estas são removidas durante os primeiros estágios de processamento do couro, juntamente com outros compostos como glicosaminoglicanas (polímeros lineares compostos de unidades de dissacarídeos repetidos), proteoglicanas (macromoléculas da superfície celular ou matriz extracelular na qual uma ou mais cadeias glicosaminoglicanas estão ligadas covalentemente a uma proteína de membrana ou a uma proteína secretada) e triacilgliceróis 4,7,9. I.1.2 - O processo de curtimento das peles O curtimento das peles animais tem a finalidade de transformá-las em um produto inalterável e imputrescível 4. De forma geral, couro é a pele animal que passou por processos de limpeza, estabilização e acabamento, para a confecção de calçados, 5 Capítulo I peças de vestuário, revestimento de mobília e de estofamentos de automóveis, bem como de outros artigos 10. O processo de transformação das peles em couros é normalmente dividido em três etapas principais, conhecidas por ribeira, curtimento e acabamento 10,11. Esse último, por sua vez, é usualmente dividido em acabamento molhado, pré-acabamento e acabamento final 10. Na Figura 1.3 é apresentado um fluxograma contendo todas as etapas envolvidas na fabricação do couro e os principais estágios de geração de resíduos. Em função da realização parcial ou total das etapas envolvidas no processo de curtimento, os curtumes são normalmente classificados em 10: • Curtume integrado: capaz de realizar todas as operações apresentadas na Figura 3, desde o couro cru (pele fresca ou salgada) até o couro totalmente acabado. • Curtume de wet-blue a: processa desde o couro cru até o curtimento ao cromo ou até o enxugamento. • Curtume de semi-acabamento: utiliza o couro wet-blue como matéria-prima e o transforma em couro semi-acabado, também chamado de crust. Sua operação compreende as etapas desde o enxugamento ou rebaixamento até o engraxe, cavaletes ou estiramento. • Curtume de acabamento: transforma o couro crust em couro acabado. Realiza as operações que vão desde cavaletes, estiramento ou secagem até a etapa de estoque e expedição. Os curtumes que processam o couro wet-blue até o acabamento final também são incluídos nessa categoria. Figura 1.3 a Wet-blue é o nome dado ao couro após o curtimento ao cromo devido ao seu aspecto úmido e azulado. 6 L L G L Lavagem Descalcinação e purga Lavagem L L S G L L S S Remolho Depilação e caleiro Lavagem Descarne Recorte L Condicionamento Secagem Estiramento Cavalete Engraxe Tingimento Recurtimento Neutralização Rebaixamento e recorte L L L L L L S S Recorte Amaciamento Estaqueamento S S Desempoamento Lixamento G G Impregnação Acabamento Prensagem Medição Pré-acabamento e acabamento final Acabamento molhado Curtimento Ribeira Expedição / estoque 10 . G: Resíduo gasoso S: Resíduo sólido L: Resíduo líquido Figura 1.3: Esquema das etapas envolvidas no processamento das peles, desde a ribeira até o acabamento final Divisão Raspa S L Píquel L S Pré-descarne Flor L Curtimento L Pré-remolho L L Enxugamento Descanso L S G Classificação e pesagem Conservação das peles Capítulo I 7 Capítulo I I.1.3 - Conservação e armazenamento das peles A qualidade do couro depende de uma série de fatores, dentre os quais podem ser destacados os cuidados que se iniciam durante a criação dos rebanhos, como o controle de parasitas e formas adequadas de identificação, condução, confinamento e transporte dos animais. A partir do abate desses animais, deve-se evitar que suas peles sejam degradadas por microorganismos para que seu processamento seja eficiente e sejam obtidos couros de boa qualidade. Isso se consegue por meio do manuseio, conservação e armazenamento adequados das peles 10,12. Quando o período de tempo decorrido entre o abate e o início do curtimento é curto – entre 6 e 12 horas, dependendo da temperatura – as peles podem aguardar sem nenhum pré-tratamento. Ao contrário, quando as peles necessitam ser estocadas por um tempo maior e/ou transportadas, principalmente em temperaturas altas, elas devem passar por um pré-tratamento para serem conservadas. Esse processo de conservação das peles é conhecido como cura. Em geral, a cura é realizada empilhando-se as peles e intercalando camadas de NaCl entre elas. Em alguns casos, as peles podem ser imersas em salmoura antes de serem empilhadas em camadas. A cura pode ser realizada nos frigoríficos, por meio de intermediários (salgadores de peles) ou, ainda, nos próprios curtumes. Após a cura, as peles podem ser armazenadas por meses até que sejam processadas 3,10. A pele fresca contém aproximadamente 62% de água e a pele após a cura, aproximadamente 40%. A cura se mostra mais efetiva contra o ataque bacteriano quando há remoção do sangue e das proteínas solúveis das peles antes destas serem submetidas ao tratamento com NaCl. Em geral, quanto maior a quantidade de proteína solúvel, maior é a quantidade de NaCl necessária para prevenir a ação bacteriana 5. A 8 Capítulo I conservação das peles também pode ser realizada por resfriamento ou secagem, mas estes processos são menos utilizados 2,10. As peles salgadas apresentam boa resistência aos microorganismos, porém o sal as desidrata. Além do sal, alguns fornecedores de couros usam inseticidas e/ou biocidas para auxiliarem na conservação das peles durante o seu estoque e transporte 9,10. I.1.4 - A ribeira A ribeira é uma etapa do processo de curtimento que tem como objetivo limpar e eliminar as substâncias e as partes da pele que não irão compor o couro. Além disso, essa etapa prepara a matriz do colágeno para reagir adequadamente com as substâncias químicas das etapas seguintes 10. Normalmente, os tratamentos químicos das peles, os quais são denominados banhos, bem como algumas etapas intermediárias de lavagem são realizados em equipamentos chamados fulões (Figura 1.4). Os fulões são cilindros horizontais fechados, frequentemente de madeira, dotados de dispositivos para rotação em torno de seu eixo horizontal. Eles possuem uma porta na superfície lateral para carga e descarga das peles e para a adição de produtos químicos. Na ribeira, as etapas realizadas nos fulões são: pré-remolho, remolho, depilação/caleiro, descalcinação/purga, píquel e lavagens. As outras etapas da ribeira são realizadas manualmente com o auxílio de máquinas específicas e têm como objetivo remover as impurezas aderidas à superfície interna das peles, como gorduras, carne e apêndices (pré-descarne e descarne), bem como ajustar as extremidades das peles (recortes) 2,10. Na Figura 1.3 são apresentados os processos que constituem a etapa de ribeira. A seguir serão descritos cada um desses processos. (b) (c) 9 Capítulo I (A) (B) (C) Figura 1.4: (A) Representação de um fulão2. (B) Introdução das peles nos fulões para que sejam processadas 10. (C) Bateria de fulões e operários manuseando lotes de couros recém-saídos da etapa de processamento 10. Pré-remolho: consiste na lavagem das peles com água com o objetivo de retirar o sal e promover a hidratação parcial das mesmas 12. Pré-descarne: tem por finalidade retirar os restos de gordura, carne e fibras deixados pelo frigorífico. O resíduo produzido nessa etapa pode ser utilizado como matéria prima para a produção de sebo 12. Remolho: tem como objetivo devolver às peles o teor de água que tinham quando ainda revestiam o corpo do animal. Nessa etapa, a eliminação de impurezas, proteínas e materiais interfibrilares resulta em um couro mais maleável para ser direcionado para os estágios seguintes 11,12. O remolho geralmente compreende duas etapas. A primeira etapa consiste na lavagem das peles com água por aproximadamente 1 h para remover todo lodo e sal. A segunda etapa emprega um banho contendo bactericidas, tensoativos, hidróxido de sódio, enzimas proteolíticas e agentes umectantes e tem como objetivo reidratar as fibras do colágeno. Essa última etapa é limitada a 6 h porque tempos maiores podem deteriorar as peles e afrouxar os pêlos 2. 10 Capítulo I Depilação e caleiro: Como mencionado anteriormente, somente a derme será convertida em couro. Por esse motivo, os pêlos e a epiderme precisam ser separados da derme. Para isso faz-se uso da diferença de reatividade entre a queratina (principal proteína da epiderme) e o colágeno (principal proteína da derme) frente a soluções ácidas e alcalinas. Em soluções alcalinas, a queratina hidrolisa mais rapidamente do que o colágeno enquanto que, em soluções ácidas, comportamento contrário é observado. Sulfeto reage com a queratina originando um produto que hidrolisa mais rápido em solução alcalina do que a própria queratina. Por esse motivo, é dito que a adição de pequena quantidade de um sal de sulfeto solúvel acelera a hidrólise da queratina 5. A queratina é constituída principalmente pelo aminoácido cisteína 2,5. Resíduos de cisteína são facilmente oxidados para formar um aminoácido dimérico chamado cistina (Figura 1.5), no qual dois resíduos de cisteína encontram-se unidos por uma ligação dissulfeto. Essas ligações estabilizam a estrutura da queratina e de muitas outras proteínas e podem ser reduzidas pelo sulfeto (Figura 1.5) 13. Vários são os sistemas de depilação e caleiro utilizados. O sistema mais comum é o que emprega cal hidratada (hidróxido de cálcio hidratado) combinada com um sal de sulfeto solúvel, o qual recebe o nome de cal-sulfeto 12. O sal mais utilizado como agente de depilação é o Na2S, mas outros sais de sulfeto solúveis, como o NaHS, bem como sulfetos orgânicos também podem ser utilizados. A adição de sulfato de dimetilamônio ao banho de cal pode tornar o processo de depilação mais efetivo. Entretanto, seu uso tem sido descontínuo porque nitrosamina, uma substância carcinogênica, pode ser formada no processo 2. Ao final da depilação e caleiro, o pêlo liberado durante o processo é separado das águas residuais por filtração e pode ser aproveitado como adubo agrícola. O tempo de permanência das peles nos banhos de cal e sulfeto não pode 11 Capítulo I ser muito longo porque isso acarretaria na dissolução do pêlo, o que impossibilitaria sua separação por filtração 3. Cisteína _ COO + H3N C H CH2 SH SH CH2 + H C NH3 _ COO _ 2 H+ + 2 e- + - 2H +2e COO + H3N C H CH2 S S CH2 + H C NH3 _ COO 2 RSH _ R S S CH2 + H C NH3 _ COO Cistina Cisteína Reação 1 COO H3N C H CH2 S S R + Reação 2 Figura 1.5: Reação 1 − Formação reversível de uma ligação dissulfeto pela oxidação de dois resíduos de cisteína. Reação 2 − Redução da cistina por sulfetos inorgânicos ou orgânicos. Descarne, recorte e divisão: Além da epiderme, a hipoderme (carne) também deve ser removida para a confecção do couro. Assim, o processo de descarne tem como objetivo eliminar os materiais aderidos ao tecido subcutâneo e adiposo para facilitar a penetração dos produtos químicos que serão aplicados nas etapas posteriores. Esse processo é realizado por uma máquina de descarnar. Em seguida, a pele obtida sofre recortes com o objetivo de aparar e remover apêndices. Posteriormente, ela é dividida em duas partes pela máquina de divisão: a camada superficial (camada granular da derme - flor) e a camada inferior (camada reticular da derme - crosta ou raspa). O resíduo gerado nessa etapa é chamado de lodo de carnaça 3,12. 12 Capítulo I Descalcinação e purga: A cal utilizada no processo anterior (depilação e caleiro) e outras substâncias alcalinas devem ser removidas das peles para que estas possam ser curtidas posteriormente 11. Na etapa de descalcinação, também conhecida como desencalagem, são utilizadas substâncias que reagem com a cal originando produtos solúveis que são facilmente removidos pela lavagem com água. Dessa forma conseguese impedir o intumescimento (inchaço) da pele desprovida de pêlo. Os reagentes comumente utilizados nesse processo são sais amoniacais como cloreto e sulfato de amônio e sais ácidos como o bissulfito de sódio 3. A purga tem como objetivo limpar a estrutura fibrosa da pele por meio da ação de enzimas proteolíticas, originando a uma pele mais fina e sedosa 3,12. Uma pele purgada é mais permeável ao ar e à água do que uma que não foi submetida à purga. Peles não purgadas apresentam tato áspero, o que favorece a intensificação de certos defeitos nas operações complementares 3. Píquel: Tem como objetivo preparar as fibras do colágeno para uma fácil penetração dos produtos químicos que serão utilizados no curtimento. Nessa etapa ocorrem a complementação da descalcinação, a desidratação das peles e a interrupção da atividade enzimática 3,11,12. A operação de piquelagem é muito importante para a etapa que a sucede, o curtimento. Uma pele não piquelada apresenta pH elevado e é capaz de conferir aos agentes curtentes minerais uma basicidade elevada. Isso pode provocar o sobrecurtimento das camadas externas da pele e impedir a difusão do curtente para suas camadas mais internas, o que resultaria na contração da flor e na precipitação do agente mineral curtente hidrolisado sobre a mesma 3. Os produtos químicos mais utilizados no 13 Capítulo I píquel são: cloreto de sódio, ácido sulfúrico e ácido fórmico. Sais de alumínio também podem ser utilizados 12. I.1.5 – O curtimento O curtimento é a etapa onde ocorre a transformação das peles pré-tratadas na ribeira em material estável e imputrescível 10. Nessa etapa ocorre o aumento da estabilidade de todo o sistema colágeno, diminuindo a capacidade de intumescimento das peles e as tornando mais resistente à degradação biológica 12. O curtimento pode ser classificado em dois tipos principais: o curtimento mineral e o curtimento vegetal. No primeiro, o agente curtente mais conhecido e utilizado é à base de cromo, enquanto que no segundo, taninos são utilizados como curtentes 1,2,4,11. Esses dois tipos de curtimento serão descritos a seguir. Curtimento ao cromo: O curtimento ao cromo geralmente é realizado pela adição da pele acidificada a uma solução aquosa de sulfato de cromo trivalente com basicidade compreendida entre 30 e 50%. Soluções curtentes de sais de cromo possuem um grande número de espécies de Cr(III) que apresentam diferenças quanto ao grau de polimerização, à carga, ao número de ligantes aqua e hidroxo e à estabilidade do campo ligante 14. Assim, a afinidade das várias espécies contidas nessas soluções pelos sítios de ligação do colágeno é diferente, o que resulta em variações na labilidade cinética dessas espécies. Uma solução de sulfato de cromo com basicidade de 33% apresenta em sua composição aproximadamente dez complexos. As estruturas de seis dessas espécies são apresentadas na Figura 1.6 1. Cr(III) possui uma notável capacidade para formar complexos 2. A reação entre o colágeno e os complexos de cromo envolve a ligação destes aos grupos carboxilatos das 14 Capítulo I cadeias laterais do colágeno 1,2. O grupo carboxilato pode substituir uma molécula de água do complexo [Cr(H2O)6]3+ para formar ligações monodentadas ou formar ligações coordenadas bidentadas com complexos binucleares (Figura 1.7). Ligações cruzadas também podem ser formadas por dois mecanismos: pela entrada direta de dois íons carboxilatos no mesmo complexo de cromo ou por olação, a qual envolve a formação de uma ligação entre dois complexos com a concomitante eliminação de uma molécula água (Figura 1.8). A reação de olação é favorecida pelo aumento da alcalinidade da mistura reacional 1. À medida que as reações de olação avançam e que os complexos multinucleares são formados, íons H+ são liberados e pontes de oxolação altamente estáveis são formadas (Figura 1.8). H2O H2O + OH2 2SO4 SO4 Cr H2O H2O H2O OH2 10% OH2 Cr H2O 3+ OH2 - H2O OH H2O OH2 2+ OH2 OH Cr OH2 H2O 9% - OH 2- SO4 O3SO H2O OH2 Cr H2O 0 H OH2 O Cr O H H2O OSO3 H2O OH2 H2O OH2 Cr H 11% OH2 O O H2O 4+ H Cr OH2 OH2 H2O 5% 2- -SO4 H2O H2O OH2 Cr O O 2+ H OH2 O Cr O H S O O 32% OH2 OH2 H2O H2O OH2 Cr H2O H O O OH2 Cr H H2O H O OH2 H Cr O O H H2O H O n = 1, 2, ... 20% Figura 1.6: Composição de uma solução de sulfato de cromo típica de curtimento, 0,4 mol L−1 em Cr3+ com basicidade de 33% 1. 15 Capítulo I P C O H2O + H2O O- OH2 Cr H2O 2+ P 3+ OH2 O OH2 C OH2 O H2O Cr H2O + OH2 H2O OH2 + P O P + C O OH2 H OH2 H2O OH2 O Cr Cr H2O O OH2 O H O S O O O- 2+ OH2 H OH2 O OH2 O Cr Cr H2O O OH2 O H O S O O C + P H2O H2O O Cr O O C H O O H S O Cr O OH2 OH2 O Figura 1.7: Possíveis reações de complexação entre duas espécies de Cr(III) e os grupos carboxilatos da proteína colágeno (P) 1. 3+ P O P C O O Cr HO Cr C O O H OH + O O C - O H Cr OH P - H2O C O O Cr OH Cr Cr C O C O P P Olação -H C O Cr O Cr O O P Complexação P O C O P Oxolação Figura 1.8: Formação de ligações cruzadas a partir de complexos de cromo (P = proteína colágeno) 1. 16 Capítulo I As velocidades de penetração dos complexos de Cr(III) no colágeno e da reação entre eles são dependentes do pH. Por esse motivo, o processo de curtimento é iniciado em uma condição de pH que favorece a penetração do cromo no colágeno (pH 2,5 - 3,0) e finalizado em um pH que favorece a reação entre eles (pH 3,5 - 4,0) 4. O curtimento ao cromo é realizado principalmente com sulfatos de cromo (III). Caso seja necessário modificar as propriedades do Cr(III), agentes complexantes, como o formato, podem ser utilizados. Nesse caso, a razão entre as concentrações de Cr(III) e de ligante dependerá do efeito que se deseja obter 4. O aumento na concentração de ligantes carboxilados faz com que os complexos catiônicos de cromo se tornem aniônicos e com que as moléculas de água coordenadas ao metal sejam expelidas 2. A redução da carga catiônica torna as espécies de Cr(III) menos reativas e acentua sua velocidade de penetração no colágeno. Além disso, a complexação pode estender a solubilidade do cromo para valores de pH em que ele precipitaria se não estivesse complexado 4. À medida que a solução torna-se mais alcalina, alguns aqua ligantes dos complexos de Cr(III) são convertidos a hidroxo ligantes, os quais podem se ligar a outros complexos por meio de pontes hidroxilas. A elevada estabilidade das pontes hidroxilas e a forte ligação entre o cromo e ligantes carboxilados, a qual faz com que os complexos de cromo sejam resistentes à dissociação, são as principais responsáveis pela excelente ação curtente do cromo em comparação a outros curtentes minerais como o alumínio, ferro, titânio e zircônio 2. Ao final do curtimento ao cromo, obtém-se o couro semi-acabado wet blue 11. 17 Capítulo I Curtimento com taninos: Taninos são metabólitos secundários de natureza polifenólica extraídos de plantas 15. Eles são solúveis em água, apresentam peso molecular compreendido entre 500 e 3000 daltons e são capazes de formar complexos insolúveis com proteínas, gelatinas e alcalóides 16. Eles são responsáveis pelo típico odor do couro e, em solução, muitos deles sedimentam sob repouso 2. Eles são divididos em dois grupos: os taninos hidrolisáveis e os taninos condensados 1,2,4,15. Os taninos hidrolisáveis são derivados do pirogalol. Eles são ésteres do ácido gálico ou dímeros deste com monossacarídeos, principalmente com a glicose. São divididos em galotaninos e elagitaninos. Quando hidrolisam, galotaninos produzem ácido gálico e elagitaninos produzem ácido elágico (Figura 1.9) 1,2,4,15. OG H GO H GO H OG OG H HO H HO Galotanino H H GO O OG OG H + HO H HO H H OH HO OH OH H Ácido Gálico O OH H H OH Glicose GO GO H O OH H H O OH H O H OH HO O O OH Glicose OH H + HO OH HO OH HO OH Ácido Hexaidroxidifênico Elagitanino HO O OH G= O HO OH OH O OH OH O Ácido Elágico Figura 1.9: Taninos hidrolisáveis. 18 Capítulo I Taninos condensados constituem a segunda fonte de polifenóis do reino vegetal, perdendo apenas para a lignina. Aproximadamente a metade da matéria seca da casca de muitas árvores é constituída por esses taninos. Além de serem antioxidantes potentes, possuem larga aplicação na complexação com proteínas, sendo, por isso, muito empregados pelos curtumes 15. A estrutura dos taninos condensados é baseada no sistema de anel flavonóide mostrado na Figura 1.10. O anel A contém pelo menos um substituinte hidroxo e o anel C confere a ele próprio e ao anel A, reatividade para a formação de ligações carbono-carbono com grupos substituintes. O anel B não exibe a mesma reatividade que os anéis A e C. Os taninos condensados também são chamados de taninos catecóis porque o anel B frequentemente contém dois substituintes hidroxo na posição orto 4. O A C B Figura 1.10: Sistema de anel flavonóide no qual os taninos condensados são baseados4. Os taninos condensados não hidrolisam, ao invés disso, quando em solução, formam produtos resultantes de reações de condensação, podendo originar pequenas partículas insolúveis. Eles tornam-se vermelhos quando expostos à luz, provavelmente devido a sua oxidação à benzoquinona. Na Figura 1.11 são apresentadas a estrutura generalizada dos taninos condensados e as unidades monoméricas de dois destes taninos 2,4. Os taninos se ligam ao colágeno principalmente por meio de ligações de hidrogênio (Figura 1.12), mas interações eletrostáticas também podem ocorrer entre 19 Capítulo I eles. Os taninos penetram nas fibras de colágeno mais lentamente do que os agentes curtentes de cromo 2,4. Ao final do curtimento com taninos, obtém-se o couro semiacabado chamado de atanado b. R R OH HO O OH HO OH O OH OH OH R R Mimosa OH OH HO HO O OH n OH OH OH HO R R O R O OH R OH OH HO OH O Quebracho OH OH R R = H, procianidina R = OH, prodelfinidina Figura 1.11: À esquerda, estrutura generalizada de dois taninos condensados, a procianidina e a prodelfinidina. À direita, unidades monoméricas dos taninos mimosa e quebracho 4. HO O H δ- O H H δ- O OH O H δ- OH O H δ- O O O O δ+ δ+ δ+ δ+ N C CH N C CH N C CH N C CH H R H R2 H R3 H R4 Figura 1.12: Representação das ligações de hidrogênio entre as substâncias polifenólicas e o colágeno. b Atanado é o nome dado ao couro após o curtimento com taninos vegetais. 20 Capítulo I I.1.6 - O acabamento Como mencionado anteriormente e apresentado na Figura 1.3, o acabamento pode ser divido em: acabamento molhado, pré-acabamento e acabamento final. A seguir serão descritas cada uma dessas etapas. I.1.6.1 - O acabamento molhado O acabamento molhado ou pós-curtimento compreende as etapas desde o descanso/enxugamento até o engraxe dos couros. Essas etapas visam complementar o curtimento principal realizado anteriormente, conferindo ao couro algumas propriedades físicas e mecânicas desejáveis, como cor, resistência à tração, impermeabilidade, maciez, flexibilidade, toque e elasticidade 10. Descanso, enxugamento, rebaixamento e recorte são operações físicas, enquanto que as demais consistem de banhos químicos realizados nos fulões 10. A seguir serão descritas as principais etapas químicas constituintes do acabamento molhado. Neutralização: O cromo ainda é o agente curtente mais utilizado pelos curtumes, o que se deve não somente a sua superioridade em relação a outros curtentes minerais, mas também à menor quantidade de reagente necessária parar curtir as peles com relação ao processo de curtimento vegetal 2,3. Ao final do processo de curtimento ao cromo, o pH do couro wet blue situa-se abaixo do ponto isoelétrico do colágeno, o qual é 5,4 após o processo de calagem, o que faz com que sua estrutura esteja na forma catiônica. A neutralização, a qual é realizada com sais alcalinos, tem como objetivo promover a redução da carga superficial do colágeno pelo aumento do pH do couro wet blue até um valor próximo do ponto isoelétrico do colágeno. Isso é importante porque a maioria dos 21 Capítulo I corantes utilizados no tingimento do couro possui estrutura aniônica. Se o couro estiver na sua forma catiônica, o corante aniônico precipitará rapidamente sobre a sua superfície e ficará retido nas camadas superficiais. Assim, a neutralização retarda a interação entre o colágeno e o corante aniônico, permitindo uma maior penetração deste último no couro wet blue 1,3. Recurtimento: O recurtimento é o tratamento do couro wet blue com uma ou mais substâncias, com o objetivo de conferir a ele propriedades que não foram atingidas somente com o curtimento. Assim, o recurtimento torna a estrutura do couro mais uniforme 2,3. Nessa etapa são empregados sais de cromo, taninos naturais e/ou sintéticos, tensoativos, dispersantes, corantes, óleos, resinas acrílicas, sais de alumínio e ácidos orgânicos 11. Geralmente, as etapas de recurtimento, tingimento e engraxe são realizadas sucessivamente no mesmo fulão e, por esse motivo, alguns autores não fazem distinção entre os termos acabamento molhado e recurtimento 1,2. A etapa de recurtimento também afeta a carga superficial do couro. Muitos dos sintans c empregados nessa etapa são sais de naftalenossulfonatos ou de outros sulfonatos orgânicos. Devido a sua natureza aniônica, eles ocupam muitos dos sítios catiônicos do couro modificando, dessa forma, sua carga líquida e afetando a penetração do corante 1. Tingimento: A fixação do corante ocorre principalmente na superfície do couro e é controlada pela natureza iônica deste e pelo teor de cromo que ele apresenta. Além c Sintans são polímeros de baixo peso molecular, resultantes da condensação de fenóis com formaldeído. Eles geralmente são sulfonados para aumentar a solubilidade em água. 22 Capítulo I disso, a natureza do corante e a acidez e a temperatura da solução também influenciam a absorção e a impregnação dos corantes no couro. Grande parte dos couros produzidos atualmente são tingidos com corantes sintéticos solúveis em água 2. Os curtidores dividem os corantes em três classes: corantes ácidos, básicos e diretos. Os corantes ácidos reagem com o colágeno em pH menor do que 5, enquanto que, os corantes básicos reagem em pH maior do que 5. Esse comportamento está de acordo com a natureza anfotérica do colágeno, que atua como base em pH menor do que 5 e como ácido em pH maior do que 5. Os corantes diretos são ácidos ou sais extremamente fracos. Por esse motivo, o poder de dissociação deles é muito baixo, o que dificulta sua interação com o couro curtido com taninos. Por outro lado, o couro curtido ao cromo é capaz de absorver rapidamente os corantes diretos da solução, mas, por causa disso, pequenas quantidades desses corantes penetram no couro e a sua fixação acaba ocorrendo exclusivamente na superfície 5. Na Figura 1.13 é apresentada a estrutura de um corante ácido bastante utilizado pelos curtumes. . o Figura 1.13: Estrutura química do corante preto ácido 210 (Color Index n . 300825 e CAS no. 99576-15-5) Os corantes mais utilizados na indústria do couro são os aniônicos. A velocidade e a força de fixação desses corantes no couro vão depender fortemente da carga catiônica do colágeno. Auxiliares de tingimento aniônicos, como os sintans, protegem a carga catiônica da superfície do couro porque competem por elas com os corantes 23 Capítulo I aniônicos. Detergentes não iônicos e emulsões de óleo aniônico em água favorecem a penetração dos corantes no couro e reduzem a sua concentração na superfície 2. O tingimento geralmente é finalizado pela adição de 1 ou 2% de ácido fórmico, acético ou lático. Nessa etapa o sal do corante é parcialmente convertido à forma ácida, a qual é menos solúvel do que o sal de origem. O couro tingido é resistente à lavagem, à limpeza a seco, fricção, migração e luz 2. Engraxe: Emulsões de óleo em água também são aplicadas ao couro. Sua aplicação usualmente sucede o processo de tingimento, embora em alguns curtumes a aplicação dessas emulsões são realizadas simultaneamente a dos corantes 1. Em geral, para produzir um couro macio e flexível e aumentar sua resistência à tração e à ruptura, óleos e graxas são incorporados a ele com o objetivo de lubrificar suas fibras 5. Embora a lubrificação das fibras seja importante, a principal função da emulsão óleo-água é reduzir a coesão entre as fibras durante o processo de secagem 1. Essas emulsões geralmente são constituídas por óleo e água na razão 1:3 em volume e são aplicadas a temperaturas relativamente elevadas (60 oC) 2. As emulsões óleo-água podem ser aniônicas, não iônicas ou catiônicas. As primeiras são as mais utilizadas. Quando o couro é colocado em contato com a água, ele adquire uma carga elétrica positiva em relação à água. Por outro lado, as gotículas de óleo suspensas em uma emulsão óleo-água possuem uma carga negativa. Quando o couro e a emulsão óleo-água são colocados em contato, a estrutura do couro carregada positivamente e as gotículas de óleo carregadas negativamente tendem a se neutralizar e a emulsão é rompida, não por coalescência das gotículas, mas devido a sua condensação na superfície das fibras do couro 1,5. 24 Capítulo I Nas emulsões óleo-água, as gotículas de óleo não penetram completamente no couro, mas são acomodadas nas suas camadas mais externas. Quando óleos neutros são usados, eles tendem a penetrar mais intensamente no couro durante a etapa seguinte de secagem, substituindo a água perdida por evaporação. Esse tipo de penetração também ocorre quando, ao invés de uma emulsão óleo-água, óleo ou graxa são aplicados sobre o couro úmido. Devido à capacidade de penetração dos óleos neutros, é comum a utilização de misturas de óleos não iônicos com óleos iônicos. Óleos catiônicos também são usados, embora em menor frequência. Geralmente eles são combinados com os óleos aniônicos formando emulsificantes neutros os quais penetram mais facilmente no couro. Tensoativos não iônicos podem ser utilizados para prolongar a estabilidade do óleo após sua carga aniônica ou catiônica ter sido neutralizada. Resinas e proteínas também podem ser usadas para essa finalidade 1,5. Emulsões aniônicas usualmente são preparadas a partir da mistura de óleos sulfatados e sulfonados com óleos brutos. Emulsões catiônicas geralmente são constituídas por óleo bruto e misturas de aminas alquiladas de cadeias longas. Os componentes polares dessas emulsões tendem a se ligar às proteínas provavelmente por interações íon-dipolo 1. Acabamento hidrofóbico: Os tensoativos usados nos processos úmidos aumentam a hidrofilicidade do couro. Isso torna o couro muito sensível à água depois da secagem, sendo que qualquer gota de água aplicada em sua superfície é imediatamente absorvida. Para corrigir isso e evitar o umedecimento do couro, ele deve ser tratado com compostos químicos hidrofóbicos como silicones ou clorofluoropolímeros. Emulsões de 25 Capítulo I água em óleo também são empregadas. Para uma proteção permanente, o couro deve conter de 5 a 10% de agente impermeabilizante 2. I.1.6.2 - O pré-acabamento e o acabamento final As operações compreendidas na etapa de pré-acabamento vão desde o cavalete até a impregnação (Figura 1.3). Todas essas operações são mecânicas, sendo que nessa última, produtos químicos são aplicados à superfície dos couros, manualmente ou por meio de máquinas específicas 10. O pré-acabamento tem como objetivo selar a superfície do couro, tornando-a mais resistente e firme. Ele também diminui os defeitos da superfície e confere ao couro uma coloração mais uniforme. Graxas, vernizes e outros produtos são aplicados com essa finalidade. Dispersões poliméricas, em especial poliacrilatos, são usados para recobrir a superfície do couro e garantir que o material seja resistente à absorção de líquidos 2. O acabamento final envolve o conjunto de operações que confere ao couro apresentação e aspecto definitivo. Ele compreende as operações de acabamento, prensagem e medição apresentadas na Figura 1.3 10. I.2 - A indústria brasileira de couro e a geração de efluentes O setor coureiro brasileiro começou a se desenvolver no início do século XIX com a chegada de imigrantes alemães e italianos no Rio Grande do Sul. Nessa época, o processo de curtimento utilizado era o vegetal e a produção do couro era voltada para a fabricação de artigos de montaria (rédeas e selas) 17. Em 1858, existiam no Brasil 32 curtumes que produziam lombilhos (conjunto para montaria que substituía a sela comum), rédeas e outras peças de montaria. Calçados (chinelos, tamancos e botas) eram 26 Capítulo I produzidos a partir de aparas de couros. Nesse período, a produção do couro ainda era muito pequena. Somente mais tarde, com o fornecimento público de energia elétrica, tornou-se possível a produção do couro em maior escala 18. Com a Guerra do Paraguai (1864-1870) a produção de couro aumentou significativamente devido à alta demanda de calçados para militares, o que impulsionou o desenvolvimento dos curtumes e resultou no surgimento das primeiras máquinas de processamento das peles, dando início ao processo de industrialização. Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), couros e calçados começaram a ser exportados, mas a expansão das exportações ocorreu somente após a Segunda Guerra (1939-1945), devido ao fornecimento de coturnos para os exércitos brasileiros e venezuelanos. Na década de 80, os curtumes concentravam-se nas regiões Sul e Sudeste do país 17,18. Atualmente, a indústria brasileira de couro é constituída por aproximadamente 450 curtumes, sendo que aproximadamente 80% deles são considerados de pequeno porte, ou seja, possuem entre 20 e 99 empregados. As regiões Sul e Sudeste ainda possuem o maior número de curtumes, o que faz com que a produção brasileira de couro esteja concentrada nestas regiões (Figura 1.14). Juntas, elas são responsáveis por cerca de 70% da produção de couro. Os principais estados produtores de couro são Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná e Minas Gerais, os quais são responsáveis por 23,5%, 23,0%, 12,0% e 10,0% do volume de couro produzido, respectivamente 19. Apesar de ser o segundo maior produtor de couros do país, atrás apenas do Rio Grande do Sul, o estado de São Paulo lidera a exportação de couro brasileiro 10,20. Os dados do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) mostram que, em 2007, a indústria brasileira do couro exportou US$ 2,19 bilhões, sendo o estado de São Paulo responsável por quase US$ 800 milhões, seguido pelo Rio Grande do Sul que responde 27 Capítulo I por pouco mais que US$ 500 milhões 20. No estado de São Paulo, Franca é a cidade que apresenta o maior número de curtumes e também é a maior produtora de calçados do país, possuindo mais de 1000 indústrias de grande e médio porte, o que lhe rende o título de capital brasileira do calçado masculino 21. A cidade de Jaú, também no estado de São Paulo, é considerada a capital do calçado feminino 21. Figura 1.14: Distribuição dos estabelecimentos curtidores no Brasil por região 19. A cadeia produtiva do couro (Figura 1.15) começa com o setor da pecuária, o qual se dedica à criação de gado visando principalmente a produção de leite e de carne. No Brasil, progressos na criação do rebanho bovino e na qualidade da carne têm sido alcançados graças ao apoio de algumas instituições de pesquisa (EMBRAPA e a EMATER) e de universidades. Apesar disso, a higiene do animal ainda é muito precária porque o pecuarista vê a venda da carne bovina como única fonte de negócio. Desde que o couro não é considerado nas negociações entre o frigorífico e o pecuarista, este não se 28 Capítulo I preocupa em preservá-lo como matéria-prima de qualidade para as etapas seguintes da cadeia de produtividade. Assim, é comum encontrar nas peles animais cicatrizes de cerca de arame farpado, marca de ferro incandescente na região nobre da pele, furos de berne ou calcificação provocada por carrapatos, além de ferimentos provocados pelo transporte inadequado, o que faz com que os curtumes e as indústrias calçadistas tenham grandes perdas de matéria-prima e de insumos no processamento 18,22. Figura 1.15: A cadeia produtiva da indústria de couro 20. Nos frigoríficos as peles são salgadas antes de serem vendidas aos curtumes. No Brasil, poucos frigoríficos realizam o controle de qualidade dos animais adquiridos e, por isso, deixam de ter como fornecedores somente os criadores que oferecem animais 29 Capítulo I com peso mais uniforme e com couro de melhor qualidade. A mão-de-obra utilizada no abate e no processamento das peles nos frigoríficos é numerosa, mas de baixa qualificação. Os prejuízos provocados na qualidade do couro não afetam diretamente os frigoríficos porque, na maior parte deles, as peles são vendidas sem que haja qualquer avaliação ou classificação prévia do produto 18. A falta de cuidados com as peles por parte dos pecuaristas e frigoríficos faz com que apenas 8,6% do couro brasileiro seja de alta qualidade. Nos EUA esse índice é de 85%. Estima-se que o Brasil perca cerca de US$ 2 bilhões ao ano nas exportações de couro devido a sua baixa qualidade 20. Os curtumes processam as peles salgadas total ou parcialmente e abastecem as empresas nacionais (principalmente as indústrias de calçados) e o mercado externo (Figura 1.15) 17,18,23. Em 2007, houve um aumento nas exportações dos couros crust e acabado, os quais responderam por 67% do volume total de couro exportado 20. Embora a exportação do couro wet blue tenha sofrido uma redução nos últimos anos, o Brasil continua sendo um dos maiores exportadores mundiais deste produto, o que se deve, em parte, às rígidas políticas ambientais existentes nos países desenvolvidos. Por esse motivo, esses países preferem pagar um sobrepreço pelos custos ambientais envolvidos na produção do couro wet blue, para que eles possam dar continuidade ao processo de agregação de valor a este produto 23. No Brasil, aproximadamente 94% de todo couro produzido é curtido ao cromo 23. Como já apresentado anteriormente, o cromo utilizado nos processos de curtimento encontra-se no estado de oxidação III. Cr(III) possui menor mobilidade e é menos tóxico do que o Cr(VI) 24. Apesar disso, existe uma preocupação com o descarte de Cr(III) no ambiente porque ele pode ser oxidado a Cr(VI) 25. Ao contrário dos contaminantes orgânicos, os quais podem ser oxidados a CO2 e H2O, os contaminantes 30 Capítulo I metálicos são indestrutíveis. Assim, os metais potencialmente tóxicos devem ser separados do efluente e convertidos em formas menos biodisponíveis para que possam ser estocados com segurança. No caso do cromo, uma vez que ele esteja no estado de oxidação III, uma das formas mais fáceis de separá-lo do efluente é precipitá-lo como Cr(OH)3, utilizando carbonato de sódio como agente precipitante. Figura 1. 16: Produção do couro brasileiro por tipo de curtimento 23. Os curtumes são considerados um dos maiores geradores de efluentes contendo contaminantes potencialmente tóxicos para os solos e as águas superficiais e subterrâneas. A grande variedade de substâncias químicas empregadas no processamento das peles denuncia a complexidade dos efluentes aquosos gerados por essas indústrias. Além do cromo, várias outras substâncias orgânicas e inorgânicas podem estar presentes nos efluentes de curtumes, tais como: taninos naturais e sintéticos, surfactantes, óleos sulfonados, corantes, biocidas, resinas acrílicas, sulfeto, cloreto e amônio 26. Efluentes de curtumes apresentam composições bastante variáveis e dependentes do tipo de curtume, tipo de reagentes empregados e do tipo de pele animal que está sendo curtida. Na Tabela I.1 são apresentados as principais constituintes dos efluentes de curtumes, bem como o intervalo de concentração em que eles são frequentemente encontrados nestes efluentes 27,28. Além dos elevados valores de COD e 31 Capítulo I BOD, uma característica marcante dos efluentes de curtumes é a presença de alta concentração de cloreto em sua composição 27,28,29,30. Isso se deve à utilização de NaCl, o qual é frequentemente usado em quantidade muito maior do que a necessária devido ao seu baixo valor comercial 22. Um curtume médio processa aproximadamente 1000 peles por dia. Estima-se que cada pele consuma em média de 500 a 700 litros de água durante o processo 22. Assim, ao final do processo de curtimento é gerado um grande volume de efluente aquoso contendo compostos químicos de alta complexidade e baixa biodegradabilidade 31,32,33,34,35. Por esse motivo, esse efluente deve ser tratado para que possa ser reaproveitado no próprio processo de curtimento das peles ou descartado nos corpos d’água. Tabela I.1: Composição média de efluentes de curtumes 27,28 Parâmetro Intervalo COD (mg L−1) 180 – 27000 BOD5 (mg L−1) * 210 – 4300 −1 Fenóis totais (mg L ) 0,4 – 100 −1 Óleos e gorduras (mg L ) 49 – 620 −1 Surfactantes aniônicos (mg L ) −1 Sólidos suspensos (mg L ) * 10 – 400 925 – 36000 Amônio (mg L−1) 17 – 380 Cromo total (mg L−1) 3 – 350 Cloreto (mg L−1) 1500 – 28000 Sulfato (mg L−1) 1000 – 7000 Sulfeto 1 – 500 pH 1 – 13 Determinados pelo método de Folin-Ciocalteu 32 Capítulo I I.3 - Oxidação de contaminantes orgânicos e tratamento de efluentes Durante décadas, o desenvolvimento de processos químicos industriais ocorreu baseado somente em aspectos econômicos. Com o passar do tempo, a ocorrência de acidentes industriais de forte impacto social mostrou que, além de atenderem aos benefícios econômicos, os processos industriais deveriam respeitar o meio ambiente e a segurança das pessoas que trabalham nas indústrias e das que vivem próximas a elas 36. Aos poucos, essa cultura foi sendo difundida e mostrando que era necessário o desenvolvimento de processos industriais alternativos menos poluentes. Apesar disso, o desenvolvimento e a instalação de novos processos industriais não são tarefas fáceis e podem demandar elevados investimentos 37. Por esse motivo, nos últimos anos vários processos de tratamento de efluentes, principalmente de oxidação de substâncias orgânicas, têm sido estudados com o objetivo de superar algumas das limitações apresentadas pelos processos convencionais. Dentre os métodos convencionais usados para o tratamento de efluentes industriais, encontram-se a coagulação / floculação e o tratamento biológico. No processo de coagulação, também chamado de tratamento primário, um agente coagulante é adicionado ao efluente. Sais de alumínio, como Al2(SO4)3, e de ferro, como Fe2(SO4)3 ou FeCl3, são usados como agente coagulante 3,34. Uma vez em solução, Al3+ e Fe3+ hidrolisam, originando espécies iônicas monoméricas e/ou poliméricas que interagem com os contaminantes do efluente e resultam na formação de partículas coloidais que posteriormente se agregam e sedimentam 38,39. Em alguns casos, além do agente coagulante, pode ser necessário adicionar um polieletrólito (policloreto de dimetilamônio, por exemplo), o qual auxilia o processo de floculação, tornando mais rápida a decantação dos flocos 3,40. Após a coagulação / floculação, a porção 33 Capítulo I sedimentada, chamada de lodo primário, é separada do efluente tratado. Embora esse processo seja eficiente para remover os contaminantes das águas residuais, resultando na diminuição de COD dos efluentes 40, ele é simplesmente um processo de transferência de fase, no qual não há oxidação completa ou parcial dos contaminantes. Além disso, os lodos resultantes desse processo são depositados em aterros industriais e podem causar a contaminação do solo e das águas superficiais e subterrâneas caso ocorra lixiviação dos contaminantes. Contrário ao tratamento primário, o tratamento biológico é capaz de promover a oxidaçao de contaminantes orgânicos. Os processos biológicos podem ser divididos em aeróbios e anaeróbios. Nos processos aeróbios, O2 é o receptor de elétrons e as substâncias orgânicas são oxidadas a CO2 e H2O. Nos processos anaeróbios, O2 está ausente, NO3− e SO42− atuam como receptores de elétrons e CO2 e CH4 são os produtos da degradação das substâncias orgânicas 41. Apesar do tratamento biológico permitir o tratamento de grandes volumes de efluente com custos relativamente baixos, ele também apresenta limitações. A capacidade de certos microorganismos para degradar alguns compostos orgânicos é limitada, o que faz com que estes compostos não sejam removidos pelo tratamento biológico 42. Alguns grupos de taninos, por exemplo, possuem estruturas químicas complexas que são difíceis de serem degradadas pelos microorganismos em condições aeróbias ou anaeróbias 30,43. Corantes também são resistentes ao tratamento biológico aeróbio, o qual é capaz de remover somente 10−20% da cor dessas substâncias 44,45. Entretando, a cor é um parâmtero que pode ser eficientemente removido por meio da biodegradação anaeróbia 46. Apesar disso, a remoção da cor de azo corantes pelo processo anaeróbio está relacionada à clivagem das ligações azo (−N=N−) e à formação de aminas aromáticas, as quais podem ser mais 34 Capítulo I tóxicas do que os próprios corantes 44,46,47. Além dos problemas citados anteriormente, processos biológicos são sensíveis às condições ambientais e às caracteristícas do efluente, sendo que qualquer variação no pH, no tipo, na estrutura e na concentração do contaminante, bem como na composição do meio, pode atrapalhar o funcionamento do sistema biológico e inibir ou paralisar o metabolismo dos microorganismos. Além disso, esses processos requerem um tempo longo para que os efluentes atinjam os padrões exigidos 37,42. Muitos dos processos estudados para degradar contaminantes orgânicos são baseados na geração de radical hidroxila (HO●), uma espécie altamente oxidante e não seletiva que é capaz de promover a mineralização de diversas substâncias orgânicas 48,49,50,51. O radical HO● possui um potencial de redução padrão de 2,80 V em meio ácido, o qual é maior que o de muitos oxidantes fortes como ozônio, peróxido de hidrogênio, permanganato e espécies de cloro ativo (Tabela I.2). Ele pode ser produzido por meio de reações químicas, fotoquímicas, sonoquímicas e eletroquímicas e pode reagir com as substâncias orgânicas por adição eletrofílica (eq. 1.1), abstração de hidrogênio (eq. 1.2) e transferência de elétrons (eq. 1.3). Os processos nos quais esse radical é formado são chamados de processos oxidativos avançados (AOP) e têm atraído o interesse da comunidade acadêmica e industrial. R R ● HO + R R R → R R OH R (1.1) HO● + RH → R● + H2O (1.2) HO● + RX → RX●+ + HO− (1.3) 35 Capítulo I Tabela I.2: Potenciais de redução padrão ( E 0R ) de alguns oxidantes em meio ácido 50 Oxidante 0 E R (V vs. NHE) Flúor (F2) 3,03 Radical hidroxila (HO●) 2,80 Ozônio (O3) 2,07 Peróxido de hidrogênio (H2O2) 1,77 Permanganato de potássio (KMnO4) 1,67 Ácido hipobromoso (HBrO) 1,59 Dióxido de Cloro (ClO2) 1,50 Ácido Hipocloroso (HClO) 1,49 Cloro (Cl2) 1,36 Bromo (Br2) 1,09 Iodo (I2) 0,54 Um dos AOP mais simples é o que utiliza H2O2 combinado com radiação ultravioleta (UV). Peróxido de hidrogênio é um oxidante limpo porque gera água como subproduto da reação de oxidação, não resulta na formação de nenhum subproduto clorado, é comercialmente disponível, pode ser facilmente estocado e é altamente solúvel em água 49,52. Além disso, os processos nos quais ele é utilizado são operacionalmente simples e não são limitados por transferência de massa 49. Apesar disso, sozinho ele não é capaz de oxidar muitas substâncias orgânicas 50. Entretanto, quando combinado com radiação UV, radicais hidroxilas são formados a partir da quebra homolítica da ligação HO−OH (eq. 1.4). A baixa absortividade molar do H2O2 (18,6 L mol−1 cm−1 em 253,7 nm) se caracteriza como a principal desvantagem desse processo, principalmente nos casos em que as substâncias orgânicas atuam como filtros internos 49,53. Desde que H2O2 é consumido no processo de oxidação, ele deve ser continuamente adicionado à solução. A adição de uma única dose de H2O2 em alta 36 Capítulo I concentraçao também é inviável porque, nestes casos, o próprio H2O2 pode atuar como sequestrador de radicais hidroxilas (eq. 1.5) 54. H2O2 + hν → 2 HO● (1.4) H2O2 + HO● → HO2● + H2O (1.5) A reação de Fenton é outro AOP bastante utilizado para degradar contaminantes orgânicos 49,50,51. Nessa reação, radicais hidroxilas são formados a partir da reação entre íons ferro e peróxido de hidrogênio (eq. 1.6 e 1.7). Desde que Fe2+ e Fe3+ participam do mesmo ciclo catalítico, sais de Fe2+ e Fe3+ podem ser utilizados como fonte de ferro, mas degradações mais rápidas ocorrem quando a reação é iniciada pelo Fe2+ (Figura 1.17). A combinação da reação de Fenton com radiação ultravioleta acentua a velocidade de degradação das substâncias orgânicas, o que se deve à regeneração de Fe2+ pela foto-redução de Fe3+, com a concomitante geração de OH● (eq. 1.8). Além de ser necessário que o H2O2 seja continuamente reposto ao sistema reacional, o pH deve ser rigorosamente controlado (pH ≤ 3) para evitar a precipitação do ferro e a geração de um lodo que é indesejável para aplicações tecnológicas 49,50,51. A primeira limitação pode ser superada pela eletrogeração in situ do H2O2 a partir da redução do O2 55,56,57. A reação entre H2O2 gerado eletroquimicamente e íons ferro adicionados à solução recebe o nome de eletro-Fenton e sua principal limitação é a baixa velocidade de produção do H2O2, a qual se deve à baixa solubilidade do oxigênio em água e à baixa eficiência faradaica do processo em condição ácida 51,58. Visando aumentar a solubilidade do ferro até valores de pH próximos a 7, complexos de ferro podem ser utilizados 59. A complexação do ferro também estende sua banda de absorção para a região espectral visível, o que possibilita o uso da luz solar como fonte de radiação no processo foto37 Capítulo I Fenton 60. Apesar disso, em alguns casos, a utilização de complexos de ferro pode favorecer a formação de espécies ferro oxo de alta valência, as quais são menos reativas e mais seletivas do que os radicais hidroxilas 51. Fe2+ + H2O2 → Fe3+ + OH− + HO● (1.6) Fe3+ + H2O2 → Fe2+ + HO2● + H+ (1.7) Fe(OH)2+ + hν → Fe2+ + HO● (1.8) Figura 1.17: Ciclo catalítico da reação de Fenton. As reações iniciadas por Fe2+ são denominadas reação de Fenton e as iniciadas por Fe3+ recebem o nome de reação do tipo Fenton. A constante de velocidade da reação (1) é maior do que a da reação (2). Radicais HO● também podem ser produzidos a partir do ozônio (O3) 49,50,61. Em solução ácida (pH ≤ 4), o próprio O3 atua como oxidante e o processo é referido como ozonização direta. Ozônio reage preferencialmente com substâncias orgânicas que apresentam grupos funcionais específicos, principalmente com compostos insaturados como alquenos, alquinos e aromáticos. As reações de oxidação via O3 são seletivas, relativamente lentas (as constantes de velocidade são da ordem de 10−1 a 103 L mol−1 s−1) e não promovem mineralização dos compostos orgânicos 61. Em soluções alcalinas (pH ≥ 9), O3 se decompõe a HO● (eq. 1.9 e 1.10) e, nesse caso, o 38 Capítulo I processo de oxidação é denominado ozonização indireta. Quando o pH da solução está compreendido entre 4 e 9, ambas, ozonização direta e indireta, podem ocorrer 50. Radical HO● também pode ser gerado por meio da fotólise do O3 (eq. 1.11 e 1.12) 49. Nesse processo também pode ser formado H2O2 (eq. 1.13), o qual é fotoliticamente decomposto a HO● (eq. 1.4) 49. Desde que absortividade molar do O3 (3300 L mol−1 cm−1 em 253,7 nm) é muito maior que a do H2O2, a fotólise do primeiro é mais eficiente que a do segundo para a produção de HO● 50. A baixa solubilidade do O3 em água e os problemas de transporte de massa associados a gases são as principais limitações dos processos que utilizam O3 49. Além disso, Schrank et al. 62 mostraram recentemente que o tratamento de um efluente de curtume com ozônio resultou na diminuição da sua toxidade para Vibrio fischeri e Daphnia magna, mas levou ao aumento da sua atividade estrogênica devido ao aumento da concentração de compostos desreguladores endócrinos no efluente. O3 + OH− → O2− + HO2● (1.9) O3 + HO2● → 2 O2 + HO● (1.10) O3 + hν → O2 + O (1D) (1.11) O (1D) + H2O → 2 HO● (1.12) O3 + H2O + hν → H2O2 + O2 (1.13) A fotocatálise heterogênea é um AOP no qual um semicondutor é empregado como fotocatalisador 37,49,50. Quando um semicondutor fotoativo é submetido à radiação com energia suficiente para superar sua energia de bandgap, ocorre a formação do par elétron/lacuna (ecb−/hvb+) por meio da promoção de um elétron da banda de valência para a banda de condução (eq. 1.14, Figura 1.18). As lacunas podem oxidar as 39 Capítulo I moléculas de água adsorvidas no semicondutor a radicais HO● (eq. 1.15) ou oxidar diretamente os contaminantes orgânicos por transferência de carga (Figura 1.18) 50,63,64. Concomitantemente a esse processo, os elétrons podem reduzir moléculas de O2 a radicais O2●− e HO2● (eq. 1.16 e 1.17), os quais originam H2O2 (eq. 1.18) que, por sua vez, origina radicais HO● (eq. 1.4). Os elétrons também podem reduzir diretamente contaminantes metálicos como Ag+, Cr2O72−, Cu2+ e Fe2+. Vários semicondutores como TiO2, ZnO, WO3, Fe2O3, CdS e ZnS podem ser utilizados em processos fotocatalíticos, em suspensão ou imobilizados 37,63. Utilizar o semicondutor em suspensão é vantajoso porque, nessa condição, o processo não é limitado por transferência de massa, mas nesse caso, torna-se necessária a introdução de uma etapa adicional de filtração que permita separar o fotocatalisador da solução tratada ao final do processo, o que pode ser complicado em grande escala, uma vez que as partículas do semicondutor são muito pequenas e que o volume de efluente tratado pode ser grande 65. Por esse motivo, utilizar o fotocatalisador imobilizado sobre um substrato sólido pode ser mais interessante 66,67,68. Figura 1.18: Representação esquemática da geração do par ecb−/hvb+ em semicondutores e suas respectivas reações. CB é a banda de condução e VB é a banda de valência 37. 40 Capítulo I Semicondutor + hν → ecb− + hvb+ hvb+ + H2O(ads) → HO●(ads) + H+(ads) O2(ads) + ecb− → O2●−(ads) O2●−(ads) + H+ (1.14) (1.15) (1.16) HO2●(ads) (1.17) 2 HO2●(ads) → H2O2(ads) + O2 (1.18) O uso do ultra-som para a oxidação de compostos orgânicos tem recebido atenção nos últimos anos 69. O ultra-som é uma onda sonora com frequências superiores a 18 kHz e que, portanto, não pode ser escutado pelo ouvido humano 70. Existem duas categorias distintas de ultra-som 70: (a) o ultra-som de alta frequência ou ultra-som diagnóstico, cuja frequência pode estar compreendida entre 2 e 10 MHz e que é usado principalmente para aplicações médicas, como na ultra-sonografia pré-natal, e (b) o ultra-som de baixa frequência ou ultra-som de alta potência (power ultrasound), o qual possui frequência entre 20 kHz e 2 MHz e é responsável pela cavitação. A propagação de ondas acústicas em um meio líquido provoca a cavitação 71. Essa é definida como o fenômeno que envolve a formação, o crescimento e o colapso violento (implosão) de bolhas ou cavidades de vapor e gases à alta pressão acústica 71,72. Uma onda sonora consiste de ciclos de compressão (pressão positiva), e expansão (pressão negativa) 72,73. A formação e o crescimento das bolhas ocorrem na fase de expansão, enquanto que na fase de compressão, as bolhas se contraem e implodem. O colapso das bolhas gera espécies radicalares altamente reativas e calor 71,74,75. Sob tais condições drásticas, espécies oxidantes são geradas pela clivagem homolítica de moléculas de gases ou do solvente. Em solução aquosa, radicais HO● são formados (eq. 1.19 d). d Na eq 1.19, o símbolo ))) simboliza o ultra-som. 41 Capítulo I H2O + ))) → HO● + H● (1.19) A freqüência ótima para a geração de radical HO● a partir da sonólise da água está compreendida entre 200 e 400 kHz 74. Além de reações via radical HO●, reações termolíticas também podem ocorrer e, por isso, o local e o tipo de reação de degradação dos compostos orgânicos por processos sonoquímicos vão depender da natureza desses compostos 76,77,78. Substâncias voláteis são degradadas por meio de reações termolíticas dentro das bolhas enquanto que, substâncias hidrofílicas reagirão exclusivamente com radicais hidroxilas e outras espécies oxidantes no bulk da solução. Compostos hidrofóbicos não voláteis e surfactantes são oxidados na interface bolha-solução por meio de reações termolíticas ou reações com radicais HO●. Embora a sonoquímica seja um processo de oxidação bem sucedido em escala de laboratório, somente com a aplicação do ultra-som é difícil mineralizar todos os contaminantes presentes em uma mistura porque a potência dissipada e o tempo necessário para que isso ocorra tornam o processo economicamente inviável 79,80. Um dos processos mais promissores para a oxidação de contaminantes orgânicos é o eletroquímico. De forma geral, processos eletroquímicos apresentam algumas características que os tornam interessantes para a prevenção e a remediação de problemas associados à poluição. Dentre essas características encontram-se 81,82,83,84: • Versatilidade: vários tipos de processos eletroquímicos podem ser aplicados, como a oxidação e a redução direta e/ou indireta; a separação de fases e a concentração ou diluição de soluções. Além disso, processos eletroquímicos mostram-se adequados para o tratamento de diversos contaminantes e de diferentes volumes de efluente. • Compatibilidade ambiental: nesses processos ocorre a injeção ou retirada de 42 Capítulo I elétrons diretamente através da superfície de um eletrodo, não sendo necessário adicionar outros agentes químicos. O elétron é um reagente limpo e eficaz, cuja reatividade pode ser ajustada pela escolha de um eletrocatalisador adequado. • Eficiência energética: processos eletroquímicos geralmente requerem baixas temperaturas quando comparados a alguns processos químicos, como a incineração. Além disso, o potencial pode ser facilmente controlado e os parâmetros operacionais podem ser projetados de forma a minimizar o consumo de energia. • Custo reduzido: processos eletroquímicos são dispendiosos quando comparados a processos biológicos. Apesar disso, as suas vantagens para o tratamento de substâncias tóxicas e/ou persistentes, podem torná-los competitivos. Nesses casos, os processos eletroquímicos podem ser utilizados combinados com outros processos como uma das etapas do tratamento. Isso deve contribuir para a diminuição do custo total do tratamento. A oxidação eletroquímica pode ser utilizada no tratamento de efluentes que contenham altas concentrações de substâncias potencialmente poluentes, principalmente de natureza orgânica. Ela pode ocorrer por meio dos processos direto e indireto e sua eficiência vai depender das condições de oxidação e da natureza do material eletródico 28,85,86. A primeira etapa da eletroxidação de contaminantes orgânicos consiste na oxidação das moléculas de água pelos sítios ativos do eletrodo (M), resultando na formação de radicais HO● adsorvidos (eq. 1.20) 84,87,88. Esses radicais podem oxidar os contaminantes orgânicos da solução (eq. 1.21) ou resultar no desprendimento de oxigênio (eq. 1.22). Isso irá depender fortemente do tipo de interação entre HO● e o eletrodo, sendo que quanto mais fraca a interação entre eles, menor a atividade eletroquímica do material para a reação de desprendimento de oxigênio e maior sua 43 Capítulo I reatividade química para a oxidação de compostos orgânicos (Tabela I.3). O processo de oxidação de contaminantes orgânicos via radicais hidroxilas adsorvidos no eletrodo é denominado oxidação eletroquímica direta 83,84. H2O + M → M(●OH)ads + H+ + e− (1.20) R(aq) + x M(●OH)ads → x M + produtos da mineralização + y H+ + y e− (1.21) M(●OH)ads → M + 1 O2 + H+ + e− 2 (1.22) Tabela I.3: Capacidade oxidante de diversos materiais anódicos usados em processos de mineralização eletroquímica em meio ácido 87 Eletrodo Potencial de oxidação (V) Sobrepotencial de desprendimento de O2 (V) Força de adsorção M−●OH Capacidade oxidante do ânodo RuO2−TiO2 (DSA−Cl2) 1,4−1,7 0,18 forte baixa IrO2−Ta2O5 (DSA−O2) 1,5−1,8 0,25 Ti/Pt 1,7−1,9 0,30 Ti/PbO2 1,8−2,0 0,50 Ti/SnO2−Sb2O5 1,9−2,2 0,70 p-Si/BDD 2,2−2,6 1,00 fraca alta O material usado como ânodo tem grande influência sobre o desempenho do processo eletroquímico, bem como sobre os produtos finais de oxidação e a eficiência de corrente 89. Dois tipos de comportamento anódico têm sido identificados considerando a tendência da superfície do eletrodo em sofrer transformações químicas durante o processo de oxidação. Nesse sentido, os eletrodos podem ser classificados em ativos e não ativos 84,89. Eletrodos ativos sofrem significantes mudanças durante o processo de oxidação porque o elemento metálico que o constitui não está completamente oxidado e, por isso, 44 Capítulo I pode sofrer transformações durante o processo eletroquímico. São exemplos desse tipo de eletrodo: IrO2, RuO2, Pt e aço inoxidável. Nesses eletrodos, a polarização anódica resulta na formação de óxidos superiores MO devido à forte interação entre o eletrodo (M) e os radicais HO● adsorvidos na sua superfície (eq. 1.23). Óxidos superiores atuam como mediadores na oxidação de compostos orgânicos (eq. 1.24), mas eles são menos eficientes e mais seletivos do que os radicais HO●. Óxidos superiores também podem se decompor a oxigênio molecular (eq. 1.25). Eletrodos ativos possuem baixo sobrepotencial para a reação de desprendimento de oxigênio (Tabela I.3) 84,89. M(●OH)ads → MO + H+ + e− (1.23) MO + R → M + RO (1.24) MO → M + 1 O2 2 (1.25) Contrário aos eletrodos ativos, os eletrodos não ativos agem simplesmente como poços de elétrons e não sofrem transformações durante os processos eletroquímicos. Exemplos típicos desse tipo de material eletródico incluem os eletrodos de diamante dopado com boro (BDD) e óxidos metálicos completamente oxidados como SnO2 e PbO2. A fraca interação entre esses eletrodos e os radicais HO● adsorvidos faz com que eles exibam alto sobrepotencial para a reação de desprendimento de oxigênio (Tabela I.3) e sejam capazes de oxidar completamente os compostos orgânicos a CO2 e H2O (eq. 1.21). Na ausência de compostos orgânicos, os radicais HO● podem reagir entre si para formar H2O2, o qual é posteriormente oxidado a oxigênio molecular (eq. 1.22) 84,89 . 45 Capítulo I A oxidação eletroquímica de contaminantes orgânicos também pode ocorrer por meio de um mecanismo indireto, no qual espécies altamente oxidantes, tais como Cl2, O3, S2O82‒, P2O84‒ e C2O62‒, são produzidos eletroquimicamente 83,84 . Esses oxidantes podem reagir com as substâncias orgânicas na superfície do eletrodo e no bulk do eletrólito. A oxidação de compostos orgânicos e efluentes via espécies de cloro ativo (cloro, ácido hipocloroso e hipoclorito) produzidas eletroquimicamente pela eletroxidação de íons cloreto tem sido bastante estudada por diversos autores e tem se mostrado eficiente para a remoção de COD, TOC e cor 86,90,91,92,93,94,95,96. Materiais eletródicos que não mostram bom desempenho para a eletroxidação direta de substâncias orgânicas podem ser eficientes para eletroxidação indireta dessas substâncias. A eletroxidação direta do corante azul de metileno utilizando um ânodo dimensionalmente estável (DSA®) resultou na remoção de 26% de COD após 8 h de eletrólise, enquanto que na eletroxidação indireta mediada por espécies de cloro ativo eletrogeradas, uma diminuição de COD de 71% foi atingida em apenas 1,5 h 97. A eficiência dos processos eletroquímicos pode ser acentuada pela combinação do sistema eletroquímico com a radiação ultravioleta (UV) e/ou visível (Vis). Esse processo é conhecido como fotoeletroquímico ou fotoeletrocatalítico e basicamente consiste na percolação da solução a ser tratada através de um reator eletrolítico que possui um ânodo revestido com óxidos metálicos que permanece sob a incidência de luz. A combinação de processos eletroquímicos e fotocatalíticos aplicados à oxidação de substâncias orgânicas tem mostrado um efeito sinérgico, sendo que as velocidades de degradação observadas são até uma ordem de grandeza maior do que aquelas resultantes da aplicação dos processos separados 98,99,100. 46 Capítulo I I.4 - Parâmetros utilizados para avaliar a oxidação de contaminantes A oxidação de substâncias orgânicas pode resultar na formação de vários intermediários (compostos mais oxidados do que os compostos de partida) e/ou CO2 e H2O. Geralmente, é difícil identificar todos os compostos formados nos processos de oxidação, principalmente quando o composto de partida possui uma estrutura complexa ou quando a amostra tratada é um efluente constituído por várias substâncias. Nesses casos, parâmetros globais são utilizados para caracterizar as amostras de partida e para monitorar o processo de oxidação 101. Dentre esses parâmetros encontram-se: TOC, COD, AOX, teste de toxidade, fenóis totais e cor. Apesar de serem análises relativamente simples, algumas dificuldades podem surgir durante a interpretação dos valores medidos 101. A seguir serão apresentados os fundamentos básicos das análises utilizadas na determinação de todos os parâmetros citados anteriormente e de Cr(VI). Esses parâmetros foram utilizados para avaliar os processos de oxidação estudados neste trabalho. I.4.1 - Carbono Orgânico Total (TOC) TOC é definido como a soma de todos os carbonos ligados organicamente em substâncias dissolvidas e não dissolvidas. Para determinar a quantidade de TOC em uma amostra, as moléculas orgânicas devem ser oxidadas a CO2, o qual é quantificado em seguida. O CO2 pode ser medido diretamente por um analisador de infravermelho não dispersivo (NDIR), pode ser reduzido a metano e medido com um detector de ionização de chama (FID) ou pode ser titulado quimicamente 101. Duas técnicas são frequentemente utilizadas para converter a matéria orgânica em CO2. Em uma delas, chamada de Oxidação Química Úmida (WCO), a mineralização 47 Capítulo I da matéria orgânica ocorre na presença de persulfato e radiação ultravioleta à baixa temperatura, após os íons carbonato e bicarbonato terem sido removidos por acidificação e aeração. Na segunda técnica, conhecida como Oxidação Catalítica à Alta Temperatura (HTCO), um catalisador é utilizado à temperatura de 650-900 oC. Nessa técnica, platina suportada em óxido de alumínio ou óxido de cério são utilizados como catalisador e a combustão da amostra ocorre sob fluxo de oxigênio constante 102,103,104. Na técnica de HTCO, basicamente dois métodos podem ser utilizados para a determinação de TOC: o método TC ‒ IC e o método NPOC 101,105. No método TC ‒ IC, uma fração da amostra é diretamente injetada no tubo de combustão contendo o catalisador e o parâmetro TC (Carbono Total) é determinado. Em seguida, uma segunda fração da amostra é injetada em uma câmara contendo solução de ácido fosfórico ou clorídrico, onde ela é continuamente purgada com gás. A corrente de gás que passa por esta câmara é diretamente direcionada ao detector de CO2 sem passar pela etapa de combustão. O CO2 medido neste momento é exclusivamente IC (Carbono Inorgânico), o qual é definido como a fração de carbono da amostra na forma de carbonato, bicarbonato e dióxido de carbono dissolvido. TOC é então calculado pela diferença entre TC e IC 101. No método NPOC (Carbono Orgânico não Purgável), a amostra é acidificada a pH ≤ 2 usando ácido livre de carbono (ácido fosfórico ou clorídrico). Em seguida, a amostra é purgada à temperatura ambiente com um gás isento de carbono (O2 ou N2) e o CO2 formado durante a etapa de acidificação é removido. A medida de TC da amostra purgada é então reportada como TOC 101. O método NPOC é mais rápido do que o método TC ‒ IC e consome menos amostra. Entretanto, algumas substâncias orgânicas voláteis não são detectadas por esse método porque elas são eliminadas antes da etapa 48 Capítulo I de combustão. Além disso, esse método não é aconselhável para amostras que espumam 105. I.4.2 - Demanda Química de Oxigênio (COD) COD é usada para medir o conteúdo de matéria orgânica de uma amostra susceptível à oxidação por K2Cr2O7, um oxidante químico forte. A quantidade de K2Cr2O7 consumida é expressa em termos da quantidade equivalente em oxigênio e, portanto, a unidade usual da COD é mg O2 L‒1. Análises de TOC e Demanda Bioquímica de Oxigênio (BOD) são complementares à análise de COD 101,102. Embora a COD seja frequentemente utilizada para medir o conteúdo de poluentes orgânicos em efluentes aquosos e águas naturais, espécies inorgânicas tais como Fe2+, S2‒ e Mn2+ podem ser oxidadas nas condições do teste e, por esse motivo, quando presentes em altas concentrações são interferentes. Íons Cl‒, Br‒, I‒ e NO2‒ também são interferentes porque podem ser oxidados pelo Cr2O72− a Cl2, Br2, I2 e NO3−, respectivamente. Íons Cl‒, Br‒ e I‒ podem ainda precipitar com Ag+, a qual é utilizada como catalisador nas análises de COD, inibindo sua atividade catalítica 101,102. Cl‒ frequentemente é encontrado nas águas naturais e nos efluentes aquosos. Para eliminar a interferência desse íon, HgSO4 pode ser utilizado 101,102. Hg2+ reage com Cl‒, formando o complexo solúvel HgCl2 (eq. 1.26) 106. Cl‒ + Hg2+ → HgCl2 (aq) (1.26) NO2‒ apresenta COD de 1,1 mg O2 / mg NO2‒. Como a concentração desse íon nas águas naturais raramente excede 1-2 mg L‒1, sua interferência é considerada insignificante e é ignorada 101,102. Quando a quantidade de NO2‒ não pode ser 49 Capítulo I desprezada, este interferente pode ser eliminado com ácido sulfâmico (HO.SO2.NH2), o qual promove a redução de íons NO2‒ a N2 (eq. 1.27) 101,102,106. HNO2 + HO.SO2.NH2 → N2 (g) + 2 H+ + SO42‒ + H2O (1.27) Três métodos podem ser utilizados para a determinação de COD: o método do refluxo aberto, o método do refluxo fechado com determinação titrimétrica e o método do refluxo fechado com determinação colorimétrica 102. O primeiro método é adequado para vários tipos de efluentes, mas apresenta como desvantagem o fato de ser necessário um volume grande de amostra. Além disso, o volume de resíduo gerado ao final do teste quando esse método é utilizado é maior do que nos outros dois, o que se caracteriza como um problema, uma vez que esse resíduo é constituído por íons metálicos potencialmente tóxicos (cromo, mercúrio e prata). Nos métodos de refluxo fechado, menores quantidades de reagentes são utilizadas o que os torna mais econômicos e permite diminuir a quantidade de resíduo tóxico gerado. Durante a digestão da amostra, Cr2O72‒ oxida a matéria orgânica em meio de ácido sulfúrico a 150 oC, sendo reduzido a Cr3+ (eq. 1.28). Cr2O72‒ + 14 H+ 6 e‒ 2 Cr3+ + 7 H2O (1.28) No método do refluxo aberto e no método do refluxo fechado com determinação titrimétrica, Cr2O72- remanescente é titulado com sulfato ferroso amoniacal (eq. 1.29). Na titulação é empregado o indicador ferroína que no ponto de viragem resulta em uma coloração vermelha forte devido à redução do complexo FeL33+ a FeL32+(eq. 1.30). 50 Capítulo I Cr2O72‒ + 6 Fe2+ + 14 H+ FeL3 + e- e- 3+ Forma oxidada (Azul Clara) 2 Cr3+ + 6 Fe3+ + 7 H2O (1.29) FeL32+ Forma reduzida (Vermelha) (1.30) L= N N o-fenantrolina (1,10-fenantrolina) Ferroína No método do refluxo fechado com determinação colorimétrica mede-se a absorbância na região visível do espectro. Como Cr2O72- e Cr3+ absorvem nessa região pode-se determinar a quantidade de Cr2O72- remanescente ao final do teste medindo a absorbância da solução em 420 nm ou determinar a quantidade de Cr3+ formado medindo a absorbância em 600 nm e. I.4.3 - Organo-Halogenados Adsorvíveis (AOX) AOX é definido como a quantidade equivalente de cloro, bromo e iodo presente em compostos orgânicos, expresso como cloreto quando determinado de acordo com o padrão internacional 107. Na determinação de AOX, a primeira etapa consiste na adsorção dos compostos orgânicos halogenados e não-halogenados sobre carvão ativado 107. A extração em fase sólida (adsorção sobre carvão ativado) pode ser realizada por meio de três processos: por agitação sem barra magnética (shaking), por agitação com barra magnética (stirring) ou por adsorção em coluna. Após essa etapa, os haletos inorgânicos adsorvidos são removidos do carvão ativado pela lavagem deste com solução de NaNO3 acidificada com HNO3. Em seguida, o carvão ativado contendo a matéria orgânica adsorvida é e Cr2O72− apresenta uma absorção máxima em 440 nm e não absorve em 600 nm enquanto que Cr3+ possui uma absorção máxima em 600 nm e mínima na região de 400 nm. Por isso, nas análises de COD, Cr2O72− é determinado em 420 nm e Cr3+, em 600 nm. 51 Capítulo I completamente oxidado e os haletos presentes nos compostos orgânicos são liberados para a solução e quantificados. Após a etapa de adsorção da matéria orgânica sobre carvão ativado, dois métodos podem ser usados para oxidar a matéria orgânica e quantificar os íons haletos: (1) pirólise da amostra na presença de O2 e determinação microcoulométrica dos haletos 102,107,108 e (2) digestão da amostra na presença de peroxodissulfato e determinação colorimétrica dos haletos 109,110. No primeiro método, o carvão ativado contendo a matéria orgânica é submetido à combustão em temperatura aproximada de 950 oC sob fluxo de oxigênio constante. Em seguida, os haletos produzidos nesse processo são determinados microcoulometricamente utilizando prata metálica como ânodo e ácido acético como eletrólito suporte. À medida que os íons Ag+ são produzidos pela eletroxidação do ânodo de prata, os haletos são precipitados como AgX (X = Cl‒, Br‒ e I‒). Após a precipitação quantitativa dos haletos, a concentração de Ag+ no eletrólito aumenta e o ponto final da titulação é atingido, o qual pode ser identificado por meio de um par de eletrodos indicadores polarizados. Então, a concentração de haleto pode ser calculada por meio da lei de Faraday, considerando a quantidade de carga consumida até a precipitação completa dos haletos 102,107,108. No segundo método, o carvão ativado contendo os compostos orgânicos é digerido a 120 oC por 30 min na presença de solução de peroxodissulfato de potássio. Em seguida os haletos resultantes da oxidação da matéria orgânica são determinados fotometricamente. O método fotométrico de quantificação de haletos é baseado na substituição do SCN‒ do Hg(SCN)2 pelo haleto X‒ (eq. 1.31) e a subsequente reação do SCN‒ liberado com Fe3+ em condições ácidas (eq. 1.32). Nessas condições é formado o 52 Capítulo I complexo amarelo-alaranjado [Fe(SCN)]2+, o qual absorve em 480 nm e cuja intensidade da cor é proporcional à concentração dos haletos 109,110. Hg(SCN)2 + 2 X‒ → HgX2 + 2 SCN‒ (1.31) SCN‒ + Fe3+ → [Fe(SCN)]2+ (1.32) I.4.4 - Teste de toxicidade A toxicidade é uma propriedade que reflete o potencial de uma substância em causar um efeito danoso a um organismo vivo. Ela depende da concentração e das propriedades da substância química à qual o organismo é exposto e também do tempo de exposição 111. Tradicionalmente os testes de toxicidade aquática são utilizados para medir os efeitos tóxicos de substâncias específicas e de águas contaminadas. Os testes com substâncias específicas são realizados com o propósito de obter informações para registros químicos enquanto que os testes com águas contaminadas e efluentes são utilizados para verificar se há concordância dos valores obtidos com os padrões permitidos. Neste último caso, as águas podem ser coletadas em pontos de descarga de efluentes ou no próprio corpo d’água receptor 112. Dados de toxicidade são utilizados para comparar diferentes substâncias químicas, além de permitir comparar a sensibilidade de diferentes espécies a uma mesma substância 111. Testes de toxicidade também são importantes na avaliação de efluentes industriais. No Brasil, esses testes já são exigidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). No capítulo IV da Resolução no. 357 do CONAMA, referente às condições e padrões de lançamento de efluentes, é estabelecido nos § 1 e 2 do artigo 34 que o efluente não deverá causar ou possuir potencial para causar efeitos tóxicos aos organismos aquáticos no corpo receptor 53 Capítulo I e que os critérios de toxicidade devem se basear em resultados de ensaios ecotoxicológicos padronizados utilizando organismos aquáticos. É recomendável que o efeito tóxico de uma amostra seja avaliado para mais de uma espécie representativa da biota aquática, de preferência pertencentes a diferentes níveis tróficos da cadeia alimentar 113,114,115. Apesar disso, por razões práticas e econômicas, muitas vezes os testes de toxicidade são realizados com uma única espécie de organismo-teste 113. Em princípio, qualquer espécie aquática pode ser utilizada em testes de toxicidade 116. Entretanto, as espécies utilizadas devem apresentar as seguintes características 102,111,117: seletividade constante e elevada aos contaminantes, elevadas disponibilidade e abundância, uniformidade e estabilidade genética nas populações, representatividade de seu nível trófico, significado ambiental em relação à área de estudo, ampla distribuição e importância comercial e, facilidade de cultivo e adaptação às condições de laboratório. Além disso, devem ser utilizadas espécies cuja fisiologia, genética e comportamento sejam bem conhecidos, o que pode facilitar a interpretação dos resultados. Dentre as espécies utilizadas em testes de toxicidade encontram-se: a bactéria luminescente Vibrio fischeri; as algas Chlorella vulgaris, Scenedesmus subspicatus e Pseudokirchneriella subcapitata; microcrústáceos de água doce do gênero Daphnia (Daphnia magna e Daphnia similis) e Ceriodaphnia (Ceriodaphnia dúbia e Ceriodaphnia silvestrii); o microscrustáceo de água salgada Artemia salina e os peixes Danio rerio e Pimephales promelas 118. Os testes de toxicidade podem ser classificados em agudos e crônicos. Esses testes diferem-se na duração e nas respostas finais que são medidas. Os testes de toxicidade aguda são utilizados para medir os efeitos de agentes tóxicos sobre espécies aquáticas durante um curto período de tempo em relação ao período de vida do 54 Capítulo I organismo-teste. Eles têm como objetivo estimar a dose ou concentração de um agente tóxico que seria capaz de produzir uma resposta específica mensurável em um organismo-teste ou população, em um período de tempo relativamente curto, geralmente de 24 a 96 h 114. Os efeitos tóxicos medidos em testes de toxicidade aguda incluem qualquer resposta exibida por um organismo-teste ou população resultante de um estímulo químico. Normalmente, o efeito medido em estudos de toxicidade aguda com organismos aquáticos é a letalidade ou alguma outra manifestação do organismo que a antecede, como, por exemplo, o estado de imobilidade. Os testes de toxicidade aguda permitem que valores de EC50 f e LC50 g sejam determinados por vários métodos estatísticos computacionais. Geralmente os valores de concentrações efetivas e letais são expressos em relação a 50% dos organismos porque estas respostas são mais reprodutíveis, podem ser estimadas com maior grau de confiabilidade e são mais significativas para serem extrapoladas para uma população. No ambiente aquático, efeitos agudos provocados por agentes tóxicos nos organismos podem resultar de aplicações inadequadas de agrotóxicos, de acidentes ambientais e de situações em que efluentes industriais não tratados são lançados nos corpos d’água receptores 102,111,112,114,116,117. Testes de toxicidade crônica são realizados para medir os efeitos de substâncias químicas sobre espécies aquáticas por um período que pode abranger parte ou todo o ciclo de vida do organismo-teste. O fato de uma substância química não produzir efeitos tóxicos sobre organismos aquáticos em testes de toxidade aguda não indica que ela não seja tóxica a eles. Testes de toxicidade crônica permitem avaliar os possíveis efeitos f EC50 (Concentração Efetiva Média): concentração de amostra que causa um efeito agudo (imobilidade, por exemplo) a 50% dos organismos no tempo de exposição e nas condições do teste. g LC50 (Concentração Letal Média): concentração de amostra que causa mortalidade de 50% dos organismos no tempo de exposição e nas condições do teste. 55 Capítulo I tóxicos de substâncias químicas sob condições de exposições prolongadas a concentrações sub-letais, ou seja, concentrações que permitem a sobrevivência dos organismos, mas que afetam suas funções biológicas tais como reprodução, desenvolvimento de ovos, crescimento e maturação, dentre outras. Os resultados obtidos em testes de toxicidade crônica são geralmente expressos como NOEC h ou LOEC i, mas também podem ser expressos como EC50. O lançamento contínuo de efluentes aquosos tratados nos corpos d’águas pode provocar efeitos crônicos, uma vez que os organismos são expostos a certos contaminantes, mesmo em baixas concentrações, durante longos períodos de tempo 102,111,112,114,116,117. Os resultados dos testes de toxicidade para substâncias específicas são comumente expressos em mg L‒1, enquanto que para efluentes ou águas contaminadas, os resultados são expressos em %. Os valores numéricos de toxicidade aguda e crônica, expressos como LC50, EC50, NOEC e LOEC, exprimem uma relação inversa à toxicidade, ou seja, menores valores numéricos indicam maiores toxicidades 114. Para facilitar a comparação e fazer com que esses parâmetros exprimam uma relação direta com a toxicidade, eles podem ser transformados em unidades tóxicas aguda (ATU) ou crônica (CTU) pelas seguintes equações 114,119: 100 EC50 ou ATU = 100 LC50 (1.33) 100 NOEC ou CTU = 100 LOEC (1.34) ATU = CTU = h NOEC (Concentração de Efeito não Observado): maior concentração de agente tóxico que não causa efeito deletério estatisticamente significativo nos organismos no tempo de exposição e nas condições do teste. i LOEC (Concentração de Efeito Observado): menor concentração de agente tóxico que causa efeito deletério estatisticamente significativo nos organismos no tempo de exposição e nas condições do teste. 56 Capítulo I Dessa forma, quanto maior o valor numérico em unidade tóxica, maior será a toxicidade da amostra. Na Tabela I.4 são apresentados valores de LC50 em % e ATU para Daphnia magna em diferentes efluentes industriais 52. Os resultados indicam a seguinte sequência crescente de toxicidade: efluente (3) < efluente (4) < efluente (5) = efluente (6) < efluente (2) < efluente (1) < efluente (7). Tabela I.4: Toxicidades agudas de diferentes efluentes industriais para Daphnia magna 119 Efluente Origem do Efluente LC50 – 48 h (%) UTA – 48 h 1 Hospital (1) 0,4 ± 0,2 250,0 2 Hospital (2) 33,2 ± 6,6 3,0 3 Fabricante de materiais para escritórios e escolas 70,8 ± 15,2 1,4 4 Fabricante de peças para automóveis 54,5 ± 5,3 1,8 5 Fabricante de produtos de higiene 51,0 ± 11,4 2,0 6 Companhia farmacêutica 49,1 ± 10,3 2,0 7 Indústria Têxtil 0,2 ± 0,1 500,0 I.4.5 - Fenóis totais Compostos fenólicos e polifenólicos são comumente encontrados em efluentes de muitas indústrias, tais como: indústrias petroquímicas e refinarias de petróleo; indústrias farmacêuticas, de pesticidas, de tintas e de corantes; indústrias de papel e celulose e curtumes 80. Efluentes industriais podem conter em sua composição compostos fenólicos de diferentes naturezas e estruturas, o que impossibilita a quantificação de cada um deles. Por esse motivo, os métodos mais utilizados para quantificar os compostos fenólicos são aqueles tradicionalmente empregados na quantificação do fenol. Quando esses métodos são usados para a determinação de 57 Capítulo I compostos fenólicos, estes compostos são referidos como fenóis totais 27 ou índice de fenóis 120. Três métodos colorimétricos são frequentemente utilizados na determinação de compostos fenólicos: (a) o método da 4-aminoantipirina (4-AAP), (b) o método de Folin-Ciocalteu e (c) o método da 2-hidrazona-3-metilbenzotiazolina (MBTH). 4-AAP reage com fenol na presença de ferricianeto em meio ácido, formando um composto de coloração marrom avermelhado que absorve em 490 nm. Esse é um método bastante sensível para a determinação de fenol, mas a 4-AAP não reage com fenóis p-substituídos a não ser que o grupo substituinte seja um halogênio, uma carboxila, um ácido sulfônico, uma hidroxila ou uma metoxila. Além disso, um grupo nitro na posição meta é capaz de inibir a reação e um grupo nitro na posição orto pode até bloquear a reação 121. O método de Folin-Ciocalteu se baseia na reação entre os ácidos tungstofosfórico e molibdofosfórico (3H2O.P2O5.13WO3.5MoO3.10H2O e 3H2O.P2O5.14WO3.4MoO3.10H2O) e os grupos hidroxilas aromáticos presentes nas substâncias fenólicas, em solução alcalina. Nessa reação, os ácidos tungstofosfórico e molibdofosfórico são reduzidos originando produtos que absorvem em 700 nm. Qualquer substância capaz de reduzir o reagente de Folin-Ciocalteu é interferente. São exemplos de substâncias interferentes, proteínas, substâncias húmicas, frutose, aminas, hidrazina, cloreto de hidroxilamina, Fe(II), Mn(II), NO2‒, CN‒, HSO3‒, SO32‒ e S2‒ 102,121. MBTH reage com fenóis em meio ácido ou alcalino na presença de um agente oxidante. Fe3+ e [Fe(CN)6]3− são frequentemente utilizados como oxidantes em meio ácido e alcalino, respectivamente, e os maiores rendimentos para o produto colorido são 58 Capítulo I alcançados em pH 8-10. O máximo de absorção dos produtos de reação varia entre 495 e 610 nm, dependendo da estrutura do composto fenólico 122. Quando a concentração do fenol é determinada pelos métodos apresentados anteriormente, o resultado obtido deve ser o mesmo. Por outro lado, quando a concentração de fenóis totais em uma mistura complexa contendo compostos fenólicos e polifenólicos de diferentes naturezas é analisada por esses métodos, resultados diferentes podem ser obtidos desde que a estrutura do composto fenólico pode ter influência sob a reação. Por esse motivo, na análise de fenóis totais é importante especificar o teste utilizado. I.4.6 - Cor Quando uma molécula absorve radiação ultravioleta ou visível, ela sofre uma mudança na sua configuração eletrônica de valência. Nas moléculas orgânicas, os elétrons de valência ocupam os orbitais σ, π e n e podem ser excitados para os orbitais desocupados σ* e π*, os quais se encontram frequentemente próximos, em termos de energia, dos orbitais ocupados 123. A energia característica de uma transição e o comprimento de onda da radiação absorvida por uma molécula são propriedades de um grupo de átomos presente nessa molécula, o qual é denominado grupo cromóforo. Mudanças estruturais no grupo cromóforo podem causar modificações na energia e na intensidade de absorção da molécula, mas é difícil predizer como se dará a mudança na absorção quando a estrutura do cromóforo for modificada 124. Nos espectros UV-Vis, quatro tipos de transições eletrônicas são contabilizados: σ → σ*, n → σ*, π → π* e n → π*. Dessas transições, as mais importantes são n → σ* e π → π*, porque elas envolvem alguns grupos funcionais característicos e comprimentos de onda facilmente 59 Capítulo I acessíveis 123. Na Tabela I.5 são apresentadas as transições e os comprimentos de onda de absorção de alguns grupos cromóforos 124. Tabela I.5: Absorções típicas de cromóforos simples isolados 124 Classe Transição λmáx (nm) R−OH n → σ* 180 R−O−R n → σ* 180 R−NH2 n → σ* 190 R−SH n → σ* 210 R−C=C−R π → π* 175 R−C≡C−R π → π* 170 R−C≡N n → π* 160 R−N=N−R n → π* 340 R−NO2 n → π* 271 R−CHO π → π* 190 n → π* 290 π → π* 180 n → π* 280 R−COOH n → π* 205 R−COOR n → π* 205 R−CONH2 n → π* 210 R2−CO A cor é um parâmetro importante na caracterização de efluentes industriais. Ela deve ser removida antes que eles sejam lançados nos corpos d’água para evitar a supressão dos processos fotossintéticos naturais, o que afetaria todo o sistema aquático. A cor da água ou de um efluente (cor verdadeira) é aquela observada após a remoção da turbidez. Quando a cor de uma amostra é medida sem a remoção da turbidez, ela recebe o nome de cor aparente. Dentre os métodos usados para a remoção de turbidez 60 Capítulo I encontram-se a filtração e a centrifugação. A filtração leva a resultados que são reprodutíveis em diferentes laboratórios. Entretanto, alguns procedimentos de filtração podem remover parte da cor verdadeira. A centrifugação evita a interação das substâncias responsáveis pela cor com os materiais dos filtros, mas os resultados obtidos variam com a natureza da amostra e com o tamanho e a velocidade da centrífuga 102. O método da platina-cobalto é um método padrão para a medida da cor. Nesse método, a cor de uma amostra é determinada por comparação com a cor de soluções de diferentes concentrações de uma mistura de cloroplatinato de potássio, K2PtCl6, e cloreto de cobalto(II), CoCl2.6H2O. Uma solução que contém 1,246 g L−1 do primeiro e 1,000 g L−1 do segundo apresenta cor de 500 unidades. Esse método é adequado para a medida da cor de água potável e de águas nas quais a cor é devida a materiais que ocorrem naturalmente. Ele não é aplicável a muitos efluentes industriais que apresentam coloração intensa 102. O método mais simples para a medida da cor de uma amostra consiste em registrar o seu espectro e determinar o valor de absorbância em um ou mais comprimentos de onda característicos de cada amostra. A cor de uma amostra é normalmente associada à absorção na região espectral visível (400-800 nm), mas isso nem sempre é válido. O azo corante preto ácido 210 (AB-210), por exemplo, apresenta três bandas de absorção bem definidas nas regiões de 320, 460 e 600 nm. Durante os estudos de eletroxidação do AB-210, o qual será apresentado no capítulo IV desta tese, foi observado que a solução de corante ainda apresentava cor quando as bandas em 460 e 600 nm haviam sido completamente removidas. Entretanto, completa remoção da cor da solução foi observada quando a absorbância em 320 nm atingiu o valor zero. 61 Capítulo I I.4.7 - Cromo (VI) Cr(VI) pode ser determinado pelo método colorimétrico da difenilcarbazida (DPC). Em meio ácido, Cr(VI) e DPC participam de uma reação de oxi-redução, na qual Cr(VI) é reduzido a Cr(II) e DPC é oxidada a difenilcarbazona (Figura 1.19). Em seguida, Cr(II) e difenilcarbazona formam um complexo de coloração violeta que absorve fortemente em 540 nm. Sais de Mo(VI) e de mercúrio podem reagir com a DPC, mas a cor resultante do produto formado entre eles é menos intensa do que aquela produzida na reação entre Cr(VI) e DPC e, por isso, altas concentrações daqueles metais são toleráveis 102. Figura 1.19: Reação entre Cr(VI) e DPC em meio ácido 106. 62 Capítulo I I.5 - Referências bibliográficas 1 BAILEY, D. G.; BUECHLER, P. R.; EVERETT, A. L.; FEAIRHELLER, S. H. Leather. Em: Kirk-Othmer Encyclopedia of Chemical Technology, 3 ed. USA: John Wiley & Sons, vol. 14, p. 200–231, 1981. 2 HEIDEMANN, E. Leather. Em: Ullmann’s Encyclopedia of Industrial Chemistry, 6 ed. 2002. 3 BARROS, M. A. S. D.; ARROYO, P. A.; SOUSA-AGUIAR, E. F. Capítulo 4: O processamento das peles. 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Journal of Applied Electrochemistry, v. 30, p. 953-958, 2000. 100 AN, T; ZHANG, W.; XIAO, X.; SHENG, G.; FU, J.; ZHU, X. Photoelectrocatalytic degradation of quinoline with a novel three-dimensional electrode-packed bed photocatalytic reactor. Journal of Photochemistry and Photobiology A: Chemistry, v. 161. p. 233- 242, 2004. 101 VOGEL, F.; HARF, J.; HUG, A.; ROHR, P. R. V. The mean oxidation number of carbon (MOC) - A useful concept for describing oxidation processes. Water Research, v. 34, p. 2689-2702, 2000. 102 AMERICAN PUBLIC HEALTH ASSOCIATION, AMERICAN WATER WORKS ASSOCIATION, WATER POLLUTION CONTROL FEDERATION. Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater. 20th ed., Washington, D.C.: American Public Health Association, 1998. 103 BOURGEOIS, W.; BURGESS, J. E.; STUETZ, R. M. On-line monitoring of wastewater quality: a review. Journal of Chemical Technology and Biotechnology, v. 76, p. 337-348, 2001. 104 ANALYTIK JENA. IDC, TOC - Analisator, TOC Analyzer micro N/C – User’s manual. 105 SHIMADZU. TOC-VCPH/CPN Total Organic Carbon Analyzer - User’s manual. 2001. 106 SVEHLA, G. Vogel’s textbook of macro and semimicroqualitative inorganic analysis. 5 ed. London: Longman, 1979. 107 International Standard, Water quality - Determination of adsorbable organically bound halogens (AOX), ISO 9562, 3rd ed. Geneva, Switzerland, 2004. 108 ANALYTIK JENA. IDC Analytical System multi X 2000 - Operating instructions. 1997. 109 SPECTROQUANT® MULTY. Normas para el análisis y soluciones patrón. 2007. 110 UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME, GLOBAL ENVIRONMENT MONITORING SYSTEM, INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY, Analytical methods for environmental water quality, Ontario, 2004. 111 RAND, G. M. Fundamentals of aquatic toxicology: effects, environmental fate, and risk assessment. 2nd ed., Washington: Taylor & Francis, 2000. 112 KLAASSEN, C. D. Casarett and Doull’s Toxicology – The Basic Science of Poisons. 6th ed., New York: MacGraw-Hill, 2001. 113 RIBO, J. M. Interlaboratory comparison studies of the luminescent bacteria toxicity bioassay. Environmental Toxicology and Water Quality, v. 12, p.283- 294, 1997. 114 GHERARDI-GOLDSTEIN, E.; BERTOLETTI, E.; ZAGATTO, P. A.; ARAÚJO, R. P. A.; RAMOS, M. L. L. C. Procedimentos para utilização de testes de toxicidade no controle de efluentes líquidos. São Paulo: Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB), 1990. 69 Capítulo I 115 REGINATTO, V. Avaliação do ensaio de toxicidade com a alga Scenedesmus subspicatus para o estudo de efluentes industriais. 1998. Tese de Doutorado – Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas, SP, Brasil. 116 de KRUIJF, H. A. M.; DE ZWART, D. Manual on Aquatic Ecotoxicology. Dordrecht: Kluwer Academica Publishers, 1988. 117 MORALES, G. C. Ensayos Toxicológicos y Métodos de Evaluación de Calidad de Aguas - Estandarización, Intercalibración, Resultados y Aplicaciones. Ottawa: Centro de Investigaciones para el Desarrollo, 2004. 118 COSTA, C. R.; OLIVI, P.; BOTTA, C. M. R.; ESPINDOLA, E. L. G. A toxicidade em ambientes aquáticos: discussão e métodos de avaliação. Química Nova, v. 31, p. 18201830, 2008. 119 VILLEGAS-NAVARRO, A.; SANTIAGO, M. R.; PÉREZ, F. R.; TORRES, R. R.; ABULARACH, T. D.; REYES, J. L. Determination of LC50 from Daphnia magna in treated industrial wastewaters and non-treated hospital effluents. Environment International, v. 23, p. 535-540, 1997. 120 GERNJAK, W.; KRUTZLER, T.; GLASER, A.; MALATO, S.; CACERES, J.; BAUER, R.; FERNÁNDEZ-ALBA, A.R. Photo-Fenton treatment of water containing natural phenolic pollutants. Chemosphere, v. 50, p. 71-78, 2003. 121 BOX, J. D. Investigation of the Folin-Ciocalteau phenol reagent for the determination of polyphenolic substances in natural waters. Water Reearch, v. 17, p. 511-525, 1983. 122 POSPÍSILOVÁ , M.; POLASEK, M.; SVOBODOVÁ, D. Spectrophotometric study of reactions of substituted phenols with MBTH in alkaline medium: the effect of phenol. Mikrochimica Acta, v. 129, p. 201-208, 1998. 123 HARVEY, D. Modern analytical chemistry. USA: Mc Graw Hill, 2000. 124 PAVIA, D. L.; LAMPMAN, G. M.; KRIZ, G. S. Introduction to spectroscopy – a guide for students of organic chemistry. 2nd ed., Orlando: Saunders College Publishing, 1996. 70 Capítulo II: Objetivo Capítulo II II - Objetivo Este trabalho teve como objetivo estudar a aplicação dos processos eletroquímico, fotocatalítico e fotoeletroquímico no tratamento de efluentes de curtume para compará-los quanto à eficiência de degradação, diminuição da toxicidade do efluente e consumo de energia. Os efeitos do material anódico, da densidade de corrente, da natureza e concentração do eletrólito suporte, do pH e da radiação incidente sobre o eletrodo foram investigados. 72 Capítulo III: Degradação eletroquímica de efluentes de curtume real e sintético utilizando eletrodos do tipo DSA® Capítulo III III.1 - Introdução A escolha de um processo de tratamento de efluente depende de diversos fatores como a eficiência do processo, o custo e a compatibilidade ambiental. Além disso, as características do efluente devem ser consideradas para a escolha do melhor processo de tratamento. Desde que os efluentes gerados pelos curtumes geralmente apresentam elevada condutividade devido ao seu alto conteúdo salino (Tabela I.1), o processo eletroquímico pode ser adequado para o tratamento desses efluentes. Alguns trabalhos da literatura apresentam a aplicação do processo eletroquímico 1 2 3 4 5 6 7 ao tratamento de efluentes de curtume 1-8. Szpyrkowicz et al. 1 utilizaram os eletrodos Ti/Pt e Ti/Pt/Ir (porcentagem molar: 60% de Pt e 40% de Ir) no tratamento de efluentes provenientes de diferentes etapas da estação de tratamento de um curtume: efluente bruto após o tratamento primário (E1); efluente após tratamento aeróbio (E2); efluentes E1 e E2 combinados na razão 2:3 (E3) e efluente final depois do tratamento aeróbio, nitrificação e desnitrificação (E4). A célula eletroquímica utilizada nesse estudo possuía dimensões de 350 x 100 x 50 mm. Dentro dessa célula foram rearranjados dois pares de eletrodos ânodo-cátodo, sendo que a distância entre os eletrodos era de 5 mm e cada um possuía uma área de 1 dm2. Quando o eletrodo Ti/Pt foi utilizado para tratar o efluente E4, a concentração de íons NH4+ diminuiu de 24,2 mg L−1 para 2,2 mg L−1 depois de 10 min de eletrólise à densidade de corrente de 2 A dm−2. Quando a mesma composição eletródica foi utilizada para tratar o efluente E2, o qual continha uma concentração inicial de NH4+ de 150 mg L−1, completa eliminação desse íon foi obtida em 40 min de eletrólise à densidade de corrente de 2 A dm−2 e em 30 min a 3 A dm−2. Em se tratando do efluente E1, o qual possuía alta concentração de substâncias orgânicas, foram necessários 40 min de eletrólise a 4 A dm−2 para remover completamente 125 mg L−1 de 74 Capítulo III NH4+. O eletrodo Ti/Pt/Ir também se mostrou bastante eficiente para a oxidação de NH4+, inclusive na presença de alta concentração de compostos orgânicos. Com esse eletrodo, 125 mg L−1 de NH4+ foram completamente removidos do efluente E1 após 22 min de eletrólise à densidade de corrente de 3 A dm−2. Nas mesmas condições, aproximadamente 20% de NH4+ foi oxidado utilizando o eletrodo Ti/Pt. Em relação à remoção de COD, o eletrodo Ti/Pt mostrou-se mais eficiente, promovendo uma redução de aproximadamente 70% no efluente E2 em 30 min de eletrólise à densidade de corrente de 3 A dm−2, enquanto que para o efluente E1 essa redução foi próxima de 60% em 40 min a 4 A dm−2. Quando o eletrodo Ti/Pt/Ir foi utilizado, a remoção de COD foi menor do que 10%. O eletrodo Ti/Pt/Ir mostrou maior eficiência para a remoção de NH4+ e menor eficiência para a remoção de COD. Esse comportamento foi atribuído à oxidação direta dos íons NH4+ nesse eletrodo e pôde ser confirmado pelo fato de que, nos tempos finais de eletrólise, as concentrações de cloreto nos efluentes tratados foram maiores quando o eletrodo Ti/Pt/Ir foi utilizado, indicando que esse material é melhor para a eletroxidação direta dos contaminantes do efluente. Esses resultados sugerem que as espécies de cloro ativo geradas eletroquimicamente a partir dos íons cloreto foram as principais responsáveis pela oxidação dos contaminantes orgânicos do efluente e, desde que o eletrodo Ti/Pt mostrou-se melhor para a geração dessas espécies, melhores resultados de remoção de COD foram obtidos quando esse eletrodo foi utilizado. Em outro trabalho, Szpyrkowicz et al. 7 apresentaram voltamogramas cíclicos registrados para o eletrodo Ti/Pt/Ir (porcentagem molar: 70% de Pt e 30% de Ir) em uma solução de NaCl 5,500 g L−1, antes e após a adição de um efluente bruto de curtume. Os voltamogramas foram registrados no intervalo de potencial de −1,5 a 1,8 V vs. SCE. Nesse intervalo de potencial, as reações de desprendimento de oxigênio e 75 Capítulo III hidrogênio também ocorrem. Em ambos os voltamogramas observou-se um pico catódico em ≈ 1 V, o qual é atribuído à redução da fração de cloro gasoso que permanece adsorvida na superfície do eletrodo. Nesses voltamogramas não há evidência de nenhum processo relacionado à oxidação direta dos contaminantes. Voltamogramas cíclicos registrados para os eletrodos Ti/RhOx-TiO2 e Ti/Pd-Co na presença de NaCl mostraram comportamento análogo ao observado para o eletrodo Ti/Pt/Ir 8. Esses resultados suportam a hipótese de que, na presença de cloreto, o mecanismo indireto é o principal responsável pela eletroxidação dos contaminantes do efluente. Szpyrkowicz et al. 5 também investigaram a utilização dos ânodos Ti/PbO2 e Ti/MnO2 no tratamento eletroquímico de um efluente de curtume. As eletrólises resultaram na remoção da cor do efluente. Além disso, a formação de espuma contendo sólidos suspensos foi observada. Quando o eletrodo Ti/MnO2 foi utilizado à densidade de corrente de 0,2 A dm−2, a remoção da cor foi de ≈ 91%. Resultados equiparáveis a esse foram obtidos com o eletrodo Ti/PbO2 à densidade de corrente maior do que 0,67 A dm−2 e com o eletrodo Ti/Pt à densidade de corrente maior do que 5,56 A dm−2. O ânodo Ti/Pt mostrou-se mais eficiente para a remoção de COD e NH4+. Quando esse eletrodo foi utilizado à densidade de corrente de 1 A dm−2, as eficiências para a remoção de COD e NH4+ foram, respectivamente, 0,802 kg h−1 A−1 m−2 e 0,270 kg h−1 A−1 m−2. Com o ânodo Ti/PbO2, as maiores eficiências para a remoção de COD e NH4+ foram obtidas à densidade de corrente de 0,67 A dm−2. Nessa condição a eficiência foi cinco vezes menor para a remoção de COD e treze vezes menor para a remoção de NH4+ do que as eficiências obtidas com o eletrodo Ti/Pt. Com o ânodo Ti/MnO2, as melhores eficiências para a remoção de COD e NH4+ foram obtidas à densidade de corrente de 0,204 A dm−2. Nessa condição as remoções de COD e NH4+ foram, respectivamente, 24 76 Capítulo III e 30 vezes menor do que aquelas obtidas com o eletrodo Ti/Pt. Nesse estudo a formação de tetracloroetano foi observada, a qual foi atribuída à reação entre as espécies de cloro ativo geradas eletroquimicamente e os contaminantes orgânicos do efluente. Panizza e Cerisola 6 estudaram a oxidação eletroquímica de dois efluentes de curtume sintéticos. Um desses efluentes (S1) tratava-se de uma solução simplificada constituída somente por ácido tânico e dois sais inorgânicos (1,50 g L−1 de ácido tânico, 7,00 g L−1 de NaCl e 8,00 g L−1 de Na2SO4). A segunda solução sintética (S2) simulou um efluente de curtume real após o tratamento biológico. Essa solução foi preparada com ácido tânico, NaCl e Na2SO4 nas mesmas concentrações que na solução S1, além de 2,00 g L−1 de NH4Cl, 0,10 g L−1 de H2S e 0,05 g L−1 de tensoativos. As eletrólises foram realizadas em uma célula em fluxo com um único compartimento, sob condições galvanostáticas. Ti/PbO2 e Ti/TiRuO2 foram utilizados como ânodo e foram escolhidos como representantes dos eletrodos não ativos e ativos, respectivamente. Como cátodo, foi utilizado um eletrodo de aço inoxidável. Ambos os eletrodos, cátodo e ânodo, tinham a forma de um quadrado com área geométrica de 25 cm2 e a distância entre eles era de 0,5 cm. Esse estudo mostrou que ambos os eletrodos foram capazes de oxidar o ácido tânico nas primeiras duas horas de eletrólise a 600 A m−2. O eletrodo Ti/PbO2 resultou em uma remoção mais rápida de COD do que o eletrodo Ti/TiRuO2, o que foi atribuído às diferenças nos mecanismos de oxidação entre os dois eletrodos. Quando o eletrodo Ti/TiRuO2 é utilizado, o mecanismo de oxidação direta é insignificante em soluções contendo cloreto e os contaminantes orgânicos são removidos exclusivamente pela reação com as espécies de cloro ativo eletrogeradas. Por outro lado, quando Ti/PbO2 é utilizado, os poluentes orgânicos são removidos pelo mecanismo de oxidação indireta via espécies de cloro ativo, mas também por meio da oxidação direta via 77 Capítulo III radicais hidroxilas adsorvidos na superfície do eletrodo. Por esse motivo, a velocidade de remoção de ácido tânico foi maior quando Ti/PbO2 foi utilizado como ânodo (k = 0.9342 h−1 a 600 mA cm−2, pH 6,5 e 20 oC) do que quando Ti/TiRuO2 foi utilizado nas mesmas condições de eletrólise (k = 0.7515 h−1 a 600 mA cm−2, pH 6,5 e 20 oC). Na Figura 3.1 são apresentadas as principais reações que ocorrem nas zonas de reação anódica e química, quando os eletrodos Ti/TiRuO2 e Ti/PbO2 são utilizados. Figura 3.1: Reações envolvidas na eletroxidação do ácido tânico com os eletrodos Ti/TiRuO2 e Ti/PbO2, de acordo com Panizza e Cerisola 6. A estabilidade do eletrodo e a energia consumida no processo de oxidação devem ser avaliadas e consideradas na escolha do material eletródico para aplicações industriais. Os resultados apresentados por Panizza e Cerisola 6 mostraram que o consumo de energia para remover 100% de COD foi ≈ 40 kWh m−3 quando o eletrodo Ti/TiRuO2 foi utilizado, mas foi superior a 120 kWh m−3 com o eletrodo Ti/PbO2. Além 78 Capítulo III disso, quando Ti/PbO2 foi utilizado, constatou-se que o efluente foi contaminado com íons chumbo durante as eletrólises. A erosão de Pb4+ dos eletrodos de PbO2, além de representar um sério problema ambiental devido à alta toxicidade do chumbo, resulta na diminuição do tempo de vida do eletrodo. Essas características fazem do eletrodo Ti/TiRuO2 um material mais interessante do que o Ti/PbO2 para o tratamento de efluentes de curtume em escala industrial. No tratamento do efluente S2 com o eletrodo Ti/TiRuO2, completa oxidação do ácido tânico, do íon sulfeto e dos tensoativos foi atingida depois de 2 h de eletrólise a 600 A m−2, pH 10 e temperatura de 40 oC. Nessas condições, nitrogênio amoniacal foi totalmente removido depois de 3 h de eletrólise e COD, depois de 6 h. Os resultados apresentados anteriormente sugerem que processos eletroquímicos são capazes de oxidar eficientemente os contaminantes contidos em efluentes de curtumes. Apesar disso, o desempenho de outros materiais eletródicos deve ser avaliado com o objetivo de buscar atingir melhores resultados no tratamento desses efluentes e contribuir para a compreensão dos mecanismos envolvidos nesses processos. III.1.1 - Ânodos Dimensionalmente Estáveis (DSA®) Eletrodos DSA® recebem este nome por serem óxidos insolúveis e não sofrerem alterações nas suas dimensões (tamanho) à medida que eles são utilizados 9. Esses eletrodos têm sido estudados e desenvolvidos desde 1969. Entre 1968 e 1976, o grupo de pesquisa De Nora investigou a utilização dos eletrodos DSA® como eletrocatalisadores para as reações de desprendimento de cloro e oxigênio 10. Na indústria de cloro-soda, eletrodos DSA® substituíram os ânodos de grafite, os quais eram consumidos no processo e, por isso, necessitavam constantemente de ajustes 79 Capítulo III dimensionais. Eletrodos DSA® são constituídos por um suporte metálico, geralmente titânio, sobre o qual é depositada uma camada de óxido eletricamente condutor de poucos micrômetros de espessura. A deposição do óxido é realizada pela decomposição térmica de um precursor adequado dissolvido em água ou em solventes orgânicos. A solução contendo o precursor é mecanicamente espalhada sobre o suporte, o qual é, em seguida, calcinado a uma determinada temperatura 9. Um dos métodos de preparação de filmes de óxidos consiste na decomposição térmica de precursores poliméricos, também conhecido como método de Pechini ou método de Pechini-Adams 11. Esse método é baseado na habilidade que certos ácidos hidroxicarboxílicos apresentam de formar quelatos com diversos cátions metálicos. Inicialmente ocorre a complexação entre o ácido orgânico e o cátion metálico de interesse e, em seguida, a reação de poliesterificação do quelato formado com um álcool poli-hidroxilado. Ao final do processo obtém-se uma matriz polimérica na qual os cátions metálicos encontram-se fortemente incorporados e homogeneamente distribuídos. A decomposição térmica dessa matriz polimérica leva à obtenção do óxido de interesse. As etapas reacionais envolvidas nesse processo são apresentadas na Figura 3.2. A principal vantagem desse método é que ele permite obter filmes uniformes, com superfícies homogêneas, além de possibilitar um controle eficiente da composição dos filmes 12-14. Além disso, alguns trabalhos reportam que os eletrodos 12 13 Ti/RuO2 e Ti/IrO2 apresentam maiores tempos de vida e maiores áreas eletroquimicamente ativas quando preparados pelo método de Pechini 15. 80 Capítulo III OH O C CH2 C CH2 C OH HO C O OH O + Mn+ - H+ OH O C CH2 C CH2 C HO OH C O - O O HO CH2 CH2 OH + Formação do complexo + HO CH2 CH2 OH Mn+ - H2O Esterificação OH O C CH2 C CH2 C O CH2 CH2 OH O C O - O O HO CH2 CH2 R Mn+ Polimerização R O CH2 CH2 OH + HO CH2 CH2 O R - HOCH2CH2OH R O CH2 CH2 O R Figura 3.2: Etapas envolvidas na preparação do precursor polimérico. No exemplo acima, ácido cítrico é o ácido hidroxicarboxílico e etilenoglicol é o álcool poli-hidroxilado. 81 Capítulo III Eletrodos do tipo DSA® consistem de uma mistura de óxidos de metais de transição. Alguns dos óxidos constituintes dessas misturas atuam como eletrocatalisadores (RuO2, IrO2, Co3O4), enquanto que outros são aditivos introduzidos com o objetivo de melhorar a seletividade e a estabilidade do material eletródico (TiO2, SnO2, Ta2O5, ZrO2, CeO2) 9. RuO2 and IrO2 são eletrocatalisadores ativos para a reação de desprendimento de cloro, sendo o primeiro mais ativo do que o segundo 7. Apesar disso, IrO2 é anodicamente mais estável do que RuO2 16. RuO2 é insolúvel até certo valor de potencial. À medida que óxidos de alta valência (RuO3 e RuO4) são formados sobre os sítios superficiais, o eletrodo começa a ser gradativamente dissolvido 17. Quando IrO2 e RuO2 são constituintes da mesma mistura de óxido, IrO2 impede a dissolução anódica do RuO2, deslocando a formação do RuO3 e do RuO4 para potenciais mais positivos. Apesar disso, a presença de IrO2 diminui a atividade eletrocatalítica do RuO2 18. TiO2 é um componente típico dos eletrodos DSA®. Desde que o suporte desses eletrodos é frequentemente titânio, TiO2 é introduzido para oferecer melhor adesão dos filmes de óxido sobre o suporte metálico. TiO2 pode existir principalmente em duas formas cristalinas: a anatase e a rutila. Em muitos casos, TiO2 puro é obtido na forma anatase. Entretanto, nos filmes de óxidos constituídos por TiO2 e RuO2 ele aparece na forma rutila, mesma forma assumida pelo RuO2, devido ao fenômeno de isomorfismo 9. SnO2 é usado como aditivo nos eletrodos industriais para aumentar sua seletividade para a reação de desprendimento de cloro. Ele tem sido investigado como um substituto do TiO2 e como uma matriz a ser dopada com óxidos catalíticos de metais de transição 9. SnO2 é capaz de promover a completa oxidação de substâncias orgânicas e por isso é um material eletródico promissor para a remoção dessas substâncias de 82 Capítulo III efluentes industriais 19. A condutividade e o tempo de vida útil do SnO2 são acentuados por meio de sua dopagem com Sb2O5. Este é um dopante interessante para o SnO2 porque ele não altera a estrutura cristalina do SnO2, o que se deve à similaridade entre os raios iônicos do Sn4+ (0,69 Å) e do Sb5+ (0,71 Å) 14,20. Eletrodos comerciais nunca são constituídos por um único óxido. Em geral eles são constituídos por uma mistura de óxidos, na qual cada um dos óxidos constituintes possui uma função bem definida: eletrocatalisador, promotor de estabilidade, intensificador de seletividade, etc. Geralmente uma mistura de óxidos é empregada para evitar o uso de grandes quantidades de óxidos eletrocatalisadores caros e para modular as propriedades do eletrodo. O efeito de cada óxido vai depender das suas estruturas cristalina e eletrônica e do grau de interação entre os componentes da mistura 9,18. A eletrocatálise é uma área que desperta o interesse da comunidade acadêmica e industrial. O termo eletrocatálise se refere aos efeitos que os materiais eletródicos exercem sobre a velocidade das reações eletródicas. Esses efeitos podem ser primários e secundários. Os efeitos primários são aqueles que envolvem a interação dos reagentes, produtos e/ou intermediários com a superfície do eletrodo. Ligações são formadas e quebradas devido a um efeito direto sobre a energia de ativação da etapa determinante da velocidade da reação. Efeitos secundários estão relacionados à estrutura diversificada da dupla camada elétrica. Se não fossem os efeitos secundários, a velocidade de uma reação seria independente do material eletródico 17,18. III.1.2 - Eficiência de Corrente A eficiência de corrente (CE) é um parâmetro importante para caracterizar os processos eletroquímicos. Ela é definida como a fração da corrente utilizada para que a 83 Capítulo III reação de interesse ocorra 21. Quando a reação de interesse é a oxidação de uma ou mais substâncias orgânicas em solução aquosa, a CE é definida de acordo com a eq. 3.1. CE = I org I total (3.1) onde Iorg é a corrente utilizada para a oxidação das substâncias orgânicas da solução e Itotal é a corrente aplicada ao sistema eletroquímico. A CE para a oxidação de substâncias orgânicas é frequentemente calculada a partir dos valores de COD, a qual é expressa em mg de O2 por litro de solução. A reação de desprendimento de oxigênio (eq. 3.2) é a principal reação paralela à oxidação das substâncias orgânicas em meio aquoso. Desde que a corrente é proporcional à massa de oxigênio produzida na reação, CE pode ser expressa de acordo com a eq. 3.3. 2 H2O → O2 + 4 H+ + 4 e− CE = I org I total = m O 2org m O 2 total (3.2) (3.3) A massa de O2 correspondente à fração orgânica da solução que foi oxidada ( m O 2org ) é relacionada à COD e ao volume de solução (V) pela equação abaixo: m O2org = (COD 0 - COD t ) × V (3.4) onde COD0 e CODt são a Demanda Química de Oxigênio nos tempos 0 e t, respectivamente. A massa total de O2 ( m O2total ) pode ser calculada considerando que toda corrente aplicada ao sistema eletroquímico foi utilizada para a produção de O2 (eq. 3.2). Assim, temos que: 84 Capítulo III m O 2 total = 1 mol O 2 32 g O 2 1 mol elétron 8It × × It × = 4 mol elétrons F 1 mol O 2 F (3.5) onde F é a constante de Faraday, I é a corrente aplicada e t é o tempo de eletrólise. Substituindo as equações 3.4 e 3.5 na eq. 3.3, obtemos a eq. 3.6 22. CE = FV COD 0 - COD t 8It (3.6) onde COD0 e CODt são a Demanda Química de Oxigênio (g L‒1) nos tempos 0 and t (s), respectivamente; I é a corrente aplicada (A); F é a constante de Faraday (96487 C mol‒1) e V é o volume de solução (L). CE é um parâmetro adimensional e seus valores estarão compreendidos entre 0 e 1, ou, entre 0 e 100% quando expressos em porcentagem. A Eficiência de Corrente Instantânea (ICE), é calculada por uma equação semelhante à eq. 3.6, mas considerando a derivada da curva COD vs. t (eq. 3.7) 23. ICE = - FV dCOD 8I dt (3.7) Uma aproximação da eq. 3.7 é dada pela eq. 3.8, onde CODt e CODt+t são a Demanda Química de Oxigênio nos tempos t e t + t, respectivamente 22. Essa aproximação só é válida quando intervalos de tempo curtos são considerados. ICE = FV COD t - COD t +Δt 8IΔt (3.8) A CE calculada a partir dos valores de COD indica a eficiência do processo eletroquímico para a oxidação de átomos de C, N e S presentes em diferentes estados de 85 Capítulo III oxidação nos compostos orgânicos e também para a oxidação de substâncias inorgânicas oxidáveis que podem estar presentes nos efluentes industriais. Teoricamente, supondo que a oxidação total dos compostos orgânicos tenha ocorrido, a razão entre os valores de COD e TOC é 2,67, a qual corresponde à razão entre as massas molares do oxigênio molecular (32 g mol−1) e do átomo de carbono (12 g mol−1). Na prática, essa razão pode variar de 0, quando a matéria orgânica é bastante resistente à oxidação ao dicromato (piridina, por exemplo), até 6,33 para o metano ou ainda, até valores superiores quando substâncias inorgânicas redutoras estão presentes na solução ou no efluente 24. Apesar disso, uma razão COD/TOC próxima de 2,67 é frequentemente encontrada para vários efluentes aquosos 25. Assim, a CE pode ser calculada a partir dos valores de TOC de acordo com a eq. 3.9. CE = 2,67FV TOC0 - TOC t 8It (3.9) onde TOC0 e TOCt são o Carbono Orgânico Total (g L−1) nos tempos 0 e t (s), respectivamente. Para exemplificar a diferença entre as eficiências de corrente calculadas a partir de COD e TOC, vamos considerar a eletroxidação do álcool benzílico em solução aquosa. Se o álcool benzílico for oxidado a benzaldeído e ácido benzóico, mas não a CO2, a CE calculada a partir da eq. 3.6 será diferente de zero e dependerá das concentrações de cada composto formado no processo de oxidação, mas a CE calculada a partir da eq. 3.9 será igual a zero porque o TOC da solução terá se mantido constante, já que não houve formação de CO2. Uma vez que a oxidação de compostos orgânicos nem sempre resulta na sua mineralização, remoções de COD mais rápidas do que de TOC são geralmente obtidas e, portanto, as eficiências de corrente de oxidação 86 Capítulo III (calculadas a partir de COD, eq. 3.6) são maiores do que as eficiências de corrente de mineralização (calculadas a partir de TOC, eq. 3.9). III.2 - Procedimento experimental III.2.1 - Preparação dos eletrodos Seis composições eletródicas foram preparadas e caracterizadas para posteriormente serem aplicadas ao tratamento eletroquímico de efluentes de curtume. São elas: (1) Ir0,01Sn0,99O2; (2) Ir0,10Sn0,90O2; (3) Ru0,10Sn0,90O2; (4) Ru0,30Ti0,70O2; (5) Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e (6) Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2. Esses materiais eletródicos foram preparados pelo método de Pechini. III.2.1.1 - Preparação e padronização da solução precursora de estanho O citrato de estanho foi utilizado na preparação da solução precursora de estanho. Esse sal foi sintetizado a partir do ácido cítrico (C6H8O7.H2O - Merck) e do cloreto de estanho (SnCl2.2H2O - Merck) na proporção molar 1:2 26. Inicialmente preparou-se 250 mL de solução de ácido cítrico 0,25 mol L−1. Em seguida essa solução foi transferida para um béquer e, sob agitação magnética, o cloreto de estanho foi lentamente adicionado, obtendo-se uma solução turva esbranquiçada. Após 2 h de reação, a turbidez da solução já havia diminuído significativamente. Então, uma solução de NH4OH (Merck) aproximadamente 2 mol L−1 foi adicionada até ser atingido pH 3. À medida que a solução de NH4OH foi adicionada, o citrato de estanho foi precipitando. Posteriormente, o sólido de cor branca obtido foi filtrado a vácuo, lavado duas vezes com 100 mL de água desionizada e em seguida foi seco em estufa a 75 oC por 24 h. A reação envolvida nesse processo é indicada pela eq. 3.10. 87 Capítulo III 2 SnCl2.2H2O + C6H8O7.H2O + 4 NH4OH → C6H6O8Sn2 + 8 H2O + 4 NH4Cl O O C OH C O CH2 CH2 HO C C O CH2 OH C OH O . H2O (3.10) SnOH C O CH2 O HO C C O Sn O Para preparar a resina precursora de estanho, ácido cítrico (C6H8O7.H2O Merck) e etilenoglicol (C2H6O2 - Mallinckrodt) foram utilizados na razão 50%:50% em massa. A quantidade de citrato de estanho empregada foi a necessária para se obter a proporção de 1 mol de estanho para 3 mols de ácido cítrico. Primeiramente o ácido cítrico foi dissolvido no etilenoglicol a 65 oC sob agitação magnética. Após a dissolução do ácido, a temperatura foi elevada a 90 oC e nesse ponto o citrato de estanho foi adicionado. A temperatura foi rigorosamente controlada de forma a não exceder 95 oC. Após a adição de todo citrato de estanho, HNO3 concentrado (Quimis) foi adicionado gota a gota até a completa dissolução do sal. Observou-se um intenso desprendimento de NO2 e um acentuado aumento da viscosidade da solução, obtendo-se, assim, a solução precursora de estanho de cor amarelada. A concentração de estanho na solução precursora foi determinada por gravimetria. Para isso, 1 g da solução foi precisamente pesado em um cadinho e submetido à calcinação a 550 oC por quatro horas. Em seguida, o cadinho contendo o produto da calcinação foi deixado em um dessecador até atingir a temperatura ambiente. Então, ele foi pesado até ser obtida massa constante. Essa determinação foi realizada em 88 Capítulo III triplicata. O produto obtido foi o SnO2, de cor levemente bege. A concentração de Sn determinada foi da ordem de 10−4 mol de Sn / g de resina. Antimônio foi adicionado à solução precursora de estanho na quantidade de 2,0% em mol em relação ao número de mols de estanho. Sb2O3 (Riedel-de Haën) foi utilizado como fonte de antimônio. Ele foi dissolvido na solução precursora de estanho à temperatura de 60 oC sob agitação magnética. Algumas gotas de HNO3 concentrado (Nuclear) foram adicionadas para auxiliar a dissolução. A solução foi aquecida até ser observada a completa dissolução do Sb2O3. III.2.1.2 - Preparação e padronização da solução precursora de rutênio Para preparar a solução precursora de rutênio, ácido cítrico (C6H8O7.H2O Merck) e etilenoglicol (C2H6O2 - Mallinckrodt) foram utilizados na razão 50%:50% em massa. Também foi utilizada uma solução de cloreto de rutênio (III) hidratado (Aldrich) de concentração 0,164 mol L-1 preparada em HCl (Vetec) 1:1 (v:v). Primeiramente, o ácido cítrico foi dissolvido no etilenoglicol a 65 oC sob agitação magnética. Após a dissolução do ácido, a temperatura foi elevada a 90 oC e nesse ponto a solução de cloreto de rutênio foi adicionada em quantidade suficiente para se obter a proporção de 1 mol de rutênio para 3 mols de ácido cítrico. A temperatura foi rigorosamente controlada de forma a não exceder 95 oC. A mistura foi mantida sob aquecimento até eliminação completa do HCl, monitorada pelo seu odor característico. Ao final desse processo foi obtida a solução precursora de rutênio de cor avermelhada. A concentração de rutênio na solução precursora foi determinada por gravimetria de acordo com o procedimento descrito no item III.2.1.1. O produto obtido 89 Capítulo III após a calcinação foi o RuO2, de cor preta. A concentração de Ru determinada foi da ordem de 10−4 mol de Ru / g de resina. III.2.1.3 - Preparação e padronização da solução precursora de irídio Para preparar a solução precursora de irídio, ácido cítrico (C6H8O7.H2O - Merck) e etilenoglicol (C2H6O2 - Mallinckrodt) foram utilizados na razão 50%:50% em massa. Em um béquer contendo 20 mL de HCl (Vetec) 1:1 (v:v), foram adicionados 1,20 g de cloreto de irídio(III) tri-hidratado (Acros). Essa solução foi mantida sob aquecimento e agitação magnética. Para garantir a completa solubilização do sal, foram adicionadas 13 gotas de H2O2 30% (Synth). O H2O2 tem a função de oxidar Ir3+ a Ir4+ facilitando a solubilização do sal, uma vez que o último é mais solúvel em água do que o primeiro. Em outro béquer, o ácido cítrico foi dissolvido no etilenoglicol a 65 oC sob agitação magnética. Em seguida a temperatura foi elevada a 90 oC e nesse ponto a solução de cloreto de irídio preparada anteriormente foi adicionada. A razão molar entre irídio e ácido cítrico foi de 1:3. A temperatura foi rigorosamente controlada de forma a não exceder 95 oC. A mistura foi mantida sob aquecimento até a eliminação completa do HCl. Ao final desse processo foi obtida a solução precursora de irídio de cor marrom esverdeada. A concentração de irídio na solução precursora foi determinada por gravimetria de acordo com o procedimento descrito no item III.2.1.1. O produto obtido após a calcinação foi o IrO2, de cor preta. A concentração de Ir determinada foi da ordem de 10−4 mol de Ir / g de resina. 90 Capítulo III III.2.1.4 - Preparação e padronização da solução precursora de titânio Para preparar a solução precursora de titânio, ácido cítrico (C6H8O7.H2O Merck) e etilenoglicol (C2H6O2 - Mallinckrodt) foram utilizados na razão 1:4 em mol. Em um béquer dissolveu-se todo o ácido cítrico em metade do volume de etilenoglicol a 65 oC – Solução A. Em seguida a temperatura foi elevada e mantida a 80 oC. Em outro béquer foram misturados, à temperatura ambiente, o restante do etilenoglicol, o isopropóxido de titânio (C12H28O4Ti - Acros) e HNO3 concentrado (Synth) – Solução B. O isopropóxido de titânio foi utilizado em quantidade suficiente para se obter a proporção de 1 mol de titânio para 4 mols de ácido cítrico. A razão molar entre HNO3 e Ti foi de 3,5:1. Posteriormente a solução B também foi aquecida até 80 oC e a ela foi adicionada a solução A. Nessa etapa a temperatura foi rigorosamente controlada de forma a não ultrapassar 85 oC. A mistura foi mantida sob aquecimento e agitação magnética até não se observar desprendimento de bolhas e formação de espuma. Ao final desse processo foi obtida a solução precursora de titânio de cor levemente amarelada. A concentração de titânio na solução precursora foi determinada por gravimetria de acordo com o procedimento descrito no item III.2.1.1. O produto obtido após a calcinação foi o TiO2, de cor branca. A concentração de Ti determinada foi da ordem de 10−4 mol de Ti / g de resina. III.2.1.5 - Pré-tratamento dos suportes de titânio Placas de titânio foram utilizadas como suporte para os filmes de óxidos. As dimensões e os dois modelos de placa utilizados na preparação dos eletrodos são apresentados na Figura 3.3. O modelo 1, que conta com uma área geométrica total de 91 Capítulo III 2 cm2 (os filmes de óxidos foram depositados nos dois lados do suporte), foi utilizado para a caracterização eletroquímica das diversas composições e para os ensaios preliminares de oxidação do efluente de curtume real. O modelo 2, que conta com uma área geométrica de 44,79 cm2 (os filmes de óxidos foram depositados somente em um dos lados do suporte), foi utilizado no reator do tipo filtro-prensa, nos estudos de oxidação do efluente de curtume sintético. Haste Suporte 4,0 cm 1 cm 4,8 cm Haste 0,40 cm Suporte 0,40 cm 1 cm 8,65 cm 9,45 cm Modelo 1 Modelo 2 Figura 3.3: Ilustração dos suportes de titânio utilizados para a deposição dos filmes de óxidos. Além desses suportes, os filmes de óxidos também foram depositados em placas de dimensões 1 cm x 1 cm e 0,5 cm x 1,0 cm (somente em um dos lados). A primeira placa contendo o depósito de óxido foi submetida à análise de Difração de Raios X (XRD) e a segunda, às análises de Microscopia Eletrônica de Varredura (SEM) e Energia dispersiva de Raios X (EDX). Os suportes de titânio foram submetidos aos seguintes pré-tratamentos: 1) Jateamento com granalha de aço: Todos os suportes de titânio, com exceção daqueles destinados à deposição de óxidos para análise de XRD, foram submetidos 92 Capítulo III a esta etapa de tratamento. Ela tem como objetivo aumentar a rugosidade do suporte de titânio possibilitando uma melhor aderência do filme de óxido sobre o mesmo. 2) Imersão em água desionizada em ebulição durante 30 min: Essa etapa tem como objetivo remover as impurezas presentes no titânio. 3) Ultra-sonicação em isopropanol (CH3CHOHCH3 - Mallinckrodt) durante 30 min: Essa etapa permite eliminar as impurezas orgânicas. 4) Imersão em solução de HCl (Vetec) 20% (v) em ebulição por 5 min: Essa etapa tem como objetivo remover o ferro remanescente da etapa 1. 5) Imersão em solução de ácido oxálico (H2C2O4 - Synth) 10% (m) em ebulição por 20 min: Essa etapa visa remover a camada de TiO2 que se forma sobre o titânio metálico. III.2.1.6 – Deposição dos filmes de óxido sobre o suporte de titânio Partindo-se das soluções precursoras de estanho, rutênio, irídio e titânio, misturas precursoras foram preparadas levando-se em consideração as frações molares dos metais esperadas nas misturas de óxidos (composições nominais). As misturas precursoras muito viscosas foram diluídas com etilenoglicol para facilitar a etapa posterior de pincelamento e evitar o esfarelamento dos filmes de óxidos. Uma vez preparadas, as misturas precursoras foram pinceladas sobre os suportes de titânio previamente tratados. Após o pincelamento, os suportes foram mantidos em estufa a 120-130 oC por 5 min (etapa na qual ocorre a polimerização da mistura precursora na superfície do suporte). Em seguida, o suporte foi calcinado a 450 oC e fluxo de oxigênio de 5 L min−1 por 5 min. Essas etapas foram repetidas até se obter a 93 Capítulo III massa de óxido desejada. Após isso, o eletrodo foi calcinado por 1 h, na temperatura e fluxo de oxigênio mencionados anteriormente. A massa de óxido a ser depositada no substrato foi calculada considerando uma espessura nominal de 2 m (com exceção do filme destinado à analise de XRD, cuja espessura considerada foi de 10 m). Dispondo-se da área geométrica dos suportes, das densidades dos óxidos formados e da fração molar de cada óxido, a massa a ser depositada no suporte (m) foi calculada por meio da seguinte equação: n m = e × A × ∑(X i × ρ i ) (3.11) i =1 onde e é a espessura do filme, A é a área do suporte na qual será depositada o óxido, Xi é a fração molar do óxido i, i é a densidade do óxido i e n é o número de óxidos constituintes (nesse trabalho n = 2 ou n = 3). Na Tabela III.1 são apresentadas as densidades dos óxidos estudados neste trabalho. Tabela III.1: Densidades dos óxidos estudados neste trabalho 27-29 27 Óxidos 28 Densidade (g cm−3) SnO2 6,95 RuO2 7,05 IrO2 11,70 TiO2 rutila 4,23 III.2.1.7 - Confecção final dos eletrodos Após a calcinação por 1 h, a haste do suporte metálico (Modelo 1 - Figura 3.3) foi lixada para retirar a camada de óxido de titânio formada durante o processo de calcinação. Após a remoção da camada de TiO2, um contato elétrico foi estabelecido 94 Capítulo III entre um fio de cobre e a haste do eletrodo por meio de pontos de solda. A outra extremidade do fio de cobre foi soldada a um fio de cobre de espessura maior. Após isso, o eletrodo foi embutido em um tubo de vidro de modo a deixar exposto somente o filme de óxido. Posteriormente as extremidades do tubo foram vedadas com cola de silicone. Na Figura 3.4 é apresentada uma ilustração de um eletrodo recém preparado. Filme de óxido Contato elétrico ... Cola de silicone Fio de cobre Cola de silicone Figura 3.4: Representação esquemática de um eletrodo recém preparado. III.2.1.8 - Caracterização físico-química dos eletrodos A morfologia e a composição dos filmes de óxidos foram analisadas por SEM e EDX utilizando um microscópio eletrônico de varredura da Zeiss DSM 940 acoplado a um microanalisador de raios x Link Analytical QX 2000. Análises de SEM também foram realizadas utilizando um microscópio eletrônico de varredura da Zeiss modelo EVO 50. Os filmes também foram submetidos à análise de XRD nos difratômetros de raios X Rigaku D/Max 2500 PC e SIEMENS D5005, ambos utilizando radiação Kα do Cu, equipados com um monocromador de grafite. Voltamogramas cíclicos das seis composições eletródicas preparadas foram registrados em solução de H2SO4 (Merck) 0,5 mol L−1 utilizando um potenciostato/galvanostato da Autolab PGSTAT30 acoplado a um microcomputador. O eletrodo de referência utilizado foi o eletrodo reversível de hidrogênio (RHE). Como 95 Capítulo III contra-eletrodos foram utilizados dois fios de platina platinizada enrolados em espiral. Antes dos experimentos a solução de H2SO4 foi desaerada com nitrogênio A célula eletroquímica utilizada na caracterização eletroquímica dos eletrodos tem capacidade de 250 mL e é composta por um corpo central destinado ao eletrodo de trabalho que conta com uma entrada para o sistema de desaeração. Além do compartimento central, a célula conta ainda com três compartimentos separados: um compartimento do tipo Luggin é destinado ao eletrodo de referência e os outros dois compartimentos laterais, separados por placas de vidro sinterizado, são destinados aos contra-eletrodos. Na Figura 3.5 é apresentada uma ilustração dessa célula. Figura 3.5: Representação esquemática eletroquímica dos eletrodos. da célula utilizada na caracterização 96 Capítulo III III.2.2 – Coleta e caracterização de efluentes de curtume O curtume que cedeu os efluentes para este trabalho foi a Couroquimica Couros e Acabamentos Ltda. Ele está localizado na cidade de Franca e trata-se de um curtume de acabamento que processa o couro wet-blue até o acabamento final. Por esse motivo, os principais contaminantes presentes nos efluentes gerados por esse curtume são orgânicos. Esse curtume submete seus efluentes ao tratamento primário. A estação de tratamento primário conta com três tanques: o tanque de equalização, o tanque de decantação e o tanque de aeração. O tanque de equalização é o primeiro a ser ocupado pelo efluente. Nesse tanque se dá a homogeneização entre os distintos efluentes gerados durante o processo de curtimento. Após ser equalizado, o efluente segue para o tanque de decantação onde se dá o processo de coagulação. Posteriormente, o lodo primário é separado da água residual e esta é então transferida para o tanque de aeração, onde permanece até o seu descarte. A água residual pode ser reutilizada no processamento de couros com cores escuras. Para as análises preliminares, efluentes foram coletados nos três tanques da estação de tratamento. Os valores de TOC, pH e cromo total obtidos para esses efluentes são apresentados na Tabela III.2. Tabela III.2: Valores de TOC, pH e cromo total dos efluentes de curtume Efluente Tanque de coleta TOC (mg L−1) pH Cr total (mg L−1) 1 Tanque de decantação (antes do tratamento primário) 342,0 4,6 13,0 2 Tanque de aeração 568,8 7,1 0,2 3 Tanque de equalização 263,3 3,7 12,7 4 Tanque de equalização 1023,0 8,0 1,5 5 Tanque de equalização 1005,0 4,0 49,8 97 Capítulo III Como pode ser observado pela Tabela III.2, os efluentes apresentam características bastante distintas. As características do efluente dependem do tipo de couro que está sendo processado, bem como do tanque, do dia e do horário de realização da coleta. Embora os efluentes 4 e 5 apresentem diferentes concentrações de cromo total e diferentes valores de pH, eles possuem valores de TOC semelhantes. Esses dois efluentes foram coletados por volta da 14:00 h de dois dias distintos. Segundo os funcionários do curtume, esse é o horário em que frequentemente se dá o descarte do efluente mais crítico no tanque de equalização. O efluente 5 foi utilizado nos estudos de degradação eletroquímica. III.2.3 - Tratamento eletroquímico de um efluente de curtume real III.2.3.1 - Caracterização do efluente de curtume real O efluente 5 (Tabela III.2), o qual foi submetido ao tratamento eletroquímico, foi caracterizado quanto aos seguintes parâmetros: TOC, fenóis totais, espectro UV-Vis entre 200 e 800 nm, cromo total, cromo (VI), cloreto, condutividade e pH. Testes de toxicidade aguda com Daphnia similis também foram realizados. TOC foi medido em um analisador de carbono orgânico TOC-VCPN da Shimadzu. Fenóis totais foram quantificados pelo método de Folin-Ciocalteu 30 e Cr(VI), pelo método da difenilcarbazida 30, usando um espectrofotômetro da Hewlett Packard modelo 8452A. Espectros UV-Vis foram registrados em um espectrofotômetro da Varian modelo Cary 50 Conc. Cromo total foi determinado por absorção atômica usando um espectrômetro de chama da Shimadzu modelo AA-680 e uma lâmpada de cátodo oco para cromo (Hamamatsu Photonics K.K.) operando em 357,9 nm com uma fenda de 0,5 nm. Cloreto foi quantificado por titulação potenciométrica com uma 98 Capítulo III solução de AgNO3 0,1 mol L−1 usando um eletrodo indicador fio de prata combinado acoplado a um pHmetro/potenciômetro da Minipa modelo 207. Medidas de condutividade foram realizadas em um condutivímetro Orion modelo 105A+ da Thermo Electron Corporation e o pH foi medido com um eletrodo de pH acoplado a um pHmetro da Qualxtron modelo 8010. Testes de toxicidade com Daphnia similis foram realizados para determinar a concentração efetiva média capaz de imobilizar 50% dos organismos em um período de tempo de 48 h (EC50) 31. Esses testes foram realizados em recipientes de 30 mL de capacidade. Para o efluente inicial, foram utilizadas quatro réplicas por concentração, sendo usados em cada recipiente-teste 10 mL de solução-teste e cinco organismos com idade compreendida entre 6 e 24 h. As concentrações-teste foram 5,00%, 2,50%, 1,25%, 0,63% e 0,32% e foram preparadas com água de diluição a. Depois de 48 h de exposição a 23 ± 1 oC, a porcentagem de organismos imóveis foi registrada e a EC50 foi estimada estatisticamente pelo método trimmed Spearman-Karber 32. III.2.3.2 - Degradação eletroquímica do efluente de curtume real As eletrólises do efluente 5 (Tabela III.2) foram realizadas em uma célula de um único compartimento de 50 mL de capacidade (Figura 3.6), à temperatura ambiente e sob agitação magnética. Os eletrodos de trabalho utilizados foram os de composições nominais: Ti/Ir0,01Sn0,99O2, Ti/Ir0,10Sn0,90O2, Ti/Ru0,10Sn0,90O2, Ti/Ru0,30Ti0,70O2, Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2. Como eletrodo de referência foi utilizado o Eletrodo Reversível de Hidrogênio (RHE) e como contra-eletrodos, dois fios de platina platinizada em forma de espiral. As eletrólises foram realizadas em modo a Água de diluição: água extraída de um poço e filtrada para remover partículas em supensão, cuja dureza encontra-se compreendida no intervalo de 40 a 48 mg L−1 como CaCO3 e o pH entre 7,0 e 7,6. 99 Capítulo III galvanostático utilizando o potenciostato/galvanostato Autolab PGSTAT30 acoplado a um microcomputador, à densidade de corrente de 20 mA cm−2 e em intervalos de tempo de 1, 3 e 5 h. Os parâmetros avaliados durante as eletrólises foram: TOC, fenóis totais, espectro UV-Vis, Cr(VI) e pH b. Para avaliar a influência da densidade de corrente no tratamento proposto, eletrólises também foram realizadas a 50 e 100 mA cm−2 utilizando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. O efeito da condutividade do meio também foi avaliado. Para isso uma eletrólise foi realizada na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 à densidade de corrente de 100 mA cm−2 utilizando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. Figura 3.6: Célula eletroquímica utilizada nos estudos de degradação do efluente de curtume real. b Para as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2, o pH permaneceu constante ao longo do tempo (pH inicial = 4.0). Para as eletrólises realizadas com o o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 50 e 100 mA cm−2 na ausência de Na2SO4 e a 100 mA cm−2 na presença de Na2SO4, o pH atingiu os valores de 4,7, 4,9 e 4,5, respectivamente, após 5 h de eletrólise. 100 Capítulo III Testes de toxicidade com Daphnia similis também foram realizados para os efluentes tratados eletroquimicamente por 5 h utilizando os seguintes eletrodos e densidades de corrente: Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 a 20 mA cm−2, Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 a 20 mA cm−2 e Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 20, 50 e 100 mA cm−2. O procedimento foi análogo ao realizado para o efluente inicial, mas foram utilizadas três réplicas por concentração. Para eleminar a influência do Cr(VI) formado e das espécies de cloro ativo remanescentes após as eletrólises, foram adicionados 24 L de solução de Na2SO3 1,0 mol L−1 para cada 1 mL de efluente tratado. A quantidade de Na2SO3 adicionada foi calculada considerando a completa oxiidação de Cr(III) a Cr(VI) e de Cl− a hipoclorito. Desde que em nehuma das eletrólises Cr(III) foi totalmente oxidado a Cr(VI), considera-se que um excesso de Na2SO3 foi adicionado. Uma solução controle foi preparada em água de diluição (24 L de solução de Na2SO3 1,0 mol L−1 para cada 1 mL de água de diluição) e submetida aos testes de toxicidade. Os resultados foram expressos como porcentagem de organismos imóveis em uma determinada concentração. III.2.4 - Tratamento eletroquímico de um efluente de curtume sintético III.2.4.1 - Preparação e caracterização do efluente de curtume sintético O efluente sintético foi preparado com 30 reagentes, baseando-se em algumas receitas de recurtimento cedidas pela Couroquimica Couros e Acabamentos Ltda. Inicialmente, duas soluções sintéticas foram preparadas. Na Tabela III.3 e na Tabela III.4 são apresentadas as massas de todos os reagentes utilizados na preparação dessas soluções pela ordem de adição na solução. Uma vez preparadas, essas soluções foram filtradas em um filtro de placa de vidro sinterizado da Kimax 60 M. 101 Capítulo III Tabela III.3: Constituintes da Solução Sintética 1 (SS1). Essa solução foi preparada pela dissolução das substâncias abaixo em 1 L de água Milli-Q N.o Produtos Massa (g) 1 Formiato de sódio (s) - OXIQUIM 0,634 2 Miltopan DBE SPP-20 (s) - COGNIS 0,041 3 Beije Duacouro MN (s) – A CHIMICAL 0,030 4 Bicarbonato de sódio (s) - BICARBONATO 0,100 5 Castanho Duacouro. MFR (s)- A CHIMICAL 0,032 6 Extrato de quebracho (s) - MARK 0,300 7 Relugan D (s) - BASF 0,300 8 Cinza Sellasolido CLL (s) - TFL 0,003 9 Preto Duacouro BA (s) - A CHIMICAL 0,052 10 Basyntan LB-2 (s) - BASF 0,250 11 Castanho Duacouro RL (s) - A CHIMICAL 0,041 12 Extrato de castanheiro (s) - MARK 0,300 13 Tancurt NA-85 (s) - TANQUÍMICA 0,301 14 Castanho Duacouro. NGB (s) - A CHIMICAL 0,191 15 Tancurt D-920 (s) - TANQUÍMICA 1.204 16 Preto Duacouro MK (s) - A CHIMICAL 0,554 17 Extrato natural de acácia (s) - SETA NATUR N 0,954 18 Ácido fórmico (l) - BASE QUÍMICA 1,524 19 Busan 1086 (l) - BUCKMAN 0,032 20 RSU 100 (l) - DISSOLTEX 0,353 21 Dissogras CTE (l) - DISSOLTEX 0,162 22 Tanicor PSL-BR (l) - CLARIANT 1,355 23 Leukotan 1028 (l) - CORIUM QUÍMICA 0,606 24 Leukotan 1084 (l) - CORIUM QUÍMICA 1,405 25 Preto Dermacarbon AF (l) - CLARIANT 0,033 26 Sedaflor STF (l) - COGNIS 0,273 27 Densotan A (l) - BASF 0,012 28 Sellasol NG (l) - TFL 0,321 29 Derminol Licker L-198 (l) - CLARIANT 0,203 30 Derminol Licker AS-1-BR (l) - CLARIANT 1,550 s: sólido, l: líquido 102 Capítulo III Tabela III.4: Constituintes da Solução Sintética 2 (SS2). Essa solução foi preparada pela dissolução das substâncias abaixo em 1 L de água Milli-Q N.o Produtos Massa (g) 1 Formiato de sódio (s) - OXIQUIM 1,267 2 Miltopan DBE SPP-20 (s) - COGNIS 0,081 3 Bicarbonato de sódio (s) - BICARBONATO 0,200 4 Relugan D (s) - BASF 0,600 5 Tancurt NA-85 (s) - TANQUÍMICA 0,602 6 Tancurt D-920 (s) - TANQUÍMICA 2,407 7 Extrato natural de acácia (s) - SETA NATUR N 1,908 8 Ácido fórmico (l) - BASE QUÍMICA 3,047 9 Busan 1086 (l) - BUCKMAN 0,064 10 RSU 100 (l) - DISSOLTEX 0,706 11 Dissogras CTE (l) - DISSOLTEX 0,324 12 Tanicor PSL-BR (l) - CLARIANT 2,709 13 Leukotan 1028 (l) - CORIUM QUÍMICA 1,211 14 Leukotan 1084 (l) - CORIUM QUÍMICA 2,810 15 Sedaflor STF (l) - COGNIS 0,546 16 Densotan A (l) - BASF 0,023 17 Sellasol NG (l) - TFL 0,641 18 Derminol Licker L-198 (l) - CLARIANT 0,406 19 Derminol Licker AS-1-BR (l) - CLARIANT 3,100 s: sólido, l: líquido Duas considerações foram levadas em conta na preparação das soluções SS1 e SS2: (1) produtos contendo cromo não foram utilizados na preparação da solução, uma vez que o objetivo principal deste trabalho foi estudar a degradação dos constituintes orgânicos do efluente; (2) a SS1 possui em sua composição pelo menos um representante de cada classe mencionada a seguir: tanino natural e sintético, corante, óleo sulfonado, tensoativo, microbiocida, resina acrílica, ácido e sal. O efluente sintético foi preparado pela mistura das soluções SS1 e SS2. Para cada 100,0 g de efluente foram adicionados 1,5 g da SS1, 14,6 g da SS2 e 83,9 g de 103 Capítulo III água Milli-Q. A caracterização do efluente sintético foi realizada de acordo com os procedimentos descritos no item III.2.3.1. Para a caracterização desse efluente, análises de COD também foram realizadas pelo método colorimétrico do refluxo fechado, utilizando um bloco digestor da Hach e um espectrofotômetro da Hewlett Packard modelo 8452A. III.2.4.2 - Degradação eletroquímica do efluente de curtume sintético O tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético foi realizado em uma célula filtro-prensa de um único compartimento (Figura 3.7). As eletrólises foram realizadas em condições galvanostáticas, à densidade de corrente de 20 mA cm−2 por 5 h, usando um potenciostato/galvanostato Autolab PGSTAT30 acoplado a um booster de corrente (BRTS10A) e a um microcomputador. Um eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 e uma placa de aço inoxidável foram usados como ânodo e cátodo, respectivamente. A preparação do eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 foi apresentada no item III.2.1. Os eletrodos utilizados na célula filtro-prensa apresentam uma área total de 44,79 cm2 (Modelo 2 - Figura 3.3), mas apenas 14 cm2 entram em contato com a solução eletrolítica. A distância entre o ânodo e o cátodo foi de 0,6 cm. O efluente (145 mL) foi estocado em um reservatório de vidro e mantido sob agitação magnética e à temperatura ambiente (≈ 25 oC). Ele foi recirculado pela célula eletrolítica por uma bomba peristáltica da Cole-Parmer acoplada a um controlador de rotação Masterflex, a um fluxo de 152 mL min−1. NaCl e Na2SO4 foram utilizados como eletrólito suporte nas seguintes concentrações: (a) Na2SO4 100 mmol L−1, (b) Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 20 mmol L−1, (c) Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 50 mmol L−1, (d) NaCl 20 mmol L−1, 104 Capítulo III (e) NaCl 50 mmol L−1, (f) NaCl 100 mmol L−1, (g) NaCl 200 mmol L−1 e (h) NaCl 500 mmol L−1. Figura 3.7: Acima, representação esquemática da célula filtro-prensa utilizada no tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético 33: (A) placa de aço; (B) placa de Teflon, (C) borracha para impedir o vazamento de solução; (D) cátodo (placa de aço inoxidável); (E) espaçador de borracha; (F) espaçador de Teflon e (G) ânodo (Ti/Ir0,10Sn0,90O2). Abaixo, vistas frontal, lateral e superior da célula eletroquímica montada. Durante as eletrólises, alíquotas de efluente foram coletadas em intervalos de tempo de 1 h. Essas amostras foram submetidas às seguintes análises: fenóis totais, espectro UV-Vis entre 200 e 800 nm e TOC. A fim de calcular as constantes cinéticas 105 Capítulo III para a remoção de fenóis, amostras foram coletadas a cada 15 min nos casos em que houve uma rápida diminuição na concentração desses compostos. Análises de toxicidade, COD, condutividade e pH foram realizadas somente para os efluentes iniciais e finais (após 5 h de tratamento). Análises de AOX também foram realizadas para os efluentes tratados na presença de NaCl, utilizando um analisador de AOX da Analytik Jena modelo multi X 2000. Antes dos testes de toxicidade com Daphnia similis, Na2SO3 (J. T. Baker) foi adicionado às amostras a fim de eliminar as espécies de cloro ativo remanescentes após o tratamento eletroquímico. A quantidade de Na2SO3 adicionada foi calculada considerando que todo Cl− foi oxidado a ClO−. Depois da adição de Na2SO3, o pH das amostras foi ajustado entre 7,5 e 8,5, usando soluções de NaOH 0,1 e 1,0 mol L−1. III.2.5 - Cálculos de eficiência de corrente, consumo de energia e constante de velocidade As eficiências de corrente foram calculadas de acordo com as equações 3.6 e 3.9. O consumo de energia (EC) foi calculado em in kWh m−3 de acordo com a eq. 3.12. EC = UIt 1000 V (3. 12) onde U é o potencial médio de célula durante a eletrólise (V), I é a corrente aplicada (A), t é o tempo de eletrólise (h) e V é o volume de efluente (m3). A constante de velocidade (k) para a remoção de compostos fenólicos do efluente sintético foi calculada de acordo com a eq. 3.13. 106 Capítulo III ln [Fenóis] = - kt * [Fenóis]0 (3.13) onde [Fenóis] e [Fenóis]0 são as concentrações de compostos fenólicos totais nos tempos t* (h) e 0, respectivamente e t* é o tempo corrigido de acordo com a eq. 3.14, considerando a variação de volume causada pela amostragem. O método utilizado para a correção do volume foi o descrito por Choo et al. 34 para reações de primeira ordem. t *n = t *n -1 + Vo Δt para n ≥ 2 Vn -1 n (3.14) Nos experimentos com a célula filtro-prensa, a eletrólise foi iniciada com 145 mL de efluente e a cada 1h, 3,5 mL de efluente foram coletados. Na Tabela III.5 é ilustrada a aplicação da eq. 3.14 para essa condição de amostragem. Tabela III.5: Aplicação da equação 3.14 para corrigir a variação de volume para as eletrólises realizadas na célula filtro-prensa n tn-1 (h) Vo (mL) Vn-1 (mL) Δtn (h) tn* (h) 2 1 145 141,5 1 2,02 3 2 145 138,0 1 3,07 4 3 145 134,5 1 4,15 5 4 145 131,0 1 5,26 III.3 - Resultados e discussão III.3.1 - Caracterização físico-química dos eletrodos As composições reais (composições experimentais) dos filmes de óxidos foram determinadas por EDX. Os resultados obtidos são apresentados na Tabela III.6. Eles mostram que há boa concordância entre as composições nominais e experimentais, o 107 Capítulo III que indica que o método de Pechini permite controlar de maneira eficiente a composição dos filmes de óxidos. Tabela III.6: Porcentagens atômicas, nominais e experimentais (estas últimas determinadas por EDX) dos metais constituintes dos filmes de óxidos preparados pelo método de Pechini Composição Filmes de óxidos Nominal (%) Experimental (%) Ir0,01Sn0,99O2* Ir 1,00 Sn 99,00 Ir 1,72 Sn 98,28 Ir0,10Sn0,90O2* Ir 10,00 Sn 90,00 Ir 10,86 Sn 89,14 Ru0,10Sn0,90O2* Ru 10,00 Sn 90,00 Ru 9,24 Sn 90,76 Ru0,30Ti0,70O2 Ru 30,00 Ti 70,00 Ru 26,66 Ti 73,34 Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2* Ir 15,00 Ru 15,00 Sn 70,00 Ir 18,68 Ru 14,98 Sn 66,34 Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2* Ir 30,00 Ti 30,00 Sn 40,00 Ir 31,34 Ti 25,71 Sn 42,94 * estes filmes também contêm Sb na razão de 2,0% em mol com relação ao Sn. O aspecto morfológico dos filmes de óxidos pode ser observado nas micrografias apresentadas na Figura 3.8 e na Figura 3.9. Todas as composições apresentam aspecto homogêneo de barro rachado, típico dos filmes de óxidos preparados por decomposição térmica. Esse tipo de morfologia confere alta área superficial aos eletrodos. Os filmes Ti/Ir0,01Sn0,99O2 e Ti/Ir0,10Sn0,90O2 apresentam estrutura mais compacta e com poucas trincas. Para as demais composições, um número maior de trincas é observado. 108 Capítulo III Figura 3.8: Micrografias dos filmes Ti/Ir0,01Sn0,99O2, Ti/Ir0,10Sn0,90O2 e Ti/Ru0,10Sn0,90O2 preparados pelo método de Pechini. Ampliação de (A) 500 vezes e (B) 2000 vezes. 109 Capítulo III Figura 3.9: Micrografias dos filmes Ti/Ru0,30Ti0,70O2, Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 preparados pelo método de Pechini. Ampliação de (A) 500 vezes e (B) 2000 vezes. Análises de XRD foram realizadas para se obter informações sobre a estrutura cristalina dos filmes de óxidos. Os difratogramas dos vários óxidos são apresentados na Figura 3.10. As posições dos picos referentes a cada óxido foram atribuídas de acordo 110 Capítulo III com os padrões JCPDS. Nesses óxidos, SnO2 encontra-se na forma cassiterita e IrO2, RuO2 e TiO2, na forma rutila. Devido à baixa concentração de IrO2 no material de composição Ti/Ir0,01Sn0,99O2, não foi possível atribuir os picos referentes àquele óxido para esta composição. Em alguns difratogramas foi possível observar alguns picos referentes ao titânio metálico do suporte. Embora os filmes para as análises de XRD tenham sido preparados com uma espessura nominal de 10 m, é possível que os raios X atinjam o suporte metálico por meio das trincas presentes nesses filmes. Figura 3.10: Difratogramas de raios X dos filmes de óxidos preparados pelo método de Pechini: (──) SnO2, (──) IrO2, (──) RuO2, (──) TiO2 e (──) Ti. 111 Capítulo III Na Figura 3.11 são apresentados os voltamogramas cíclicos registrados para as seis composições eletródicas em solução de H2SO4 0,5 mol L−1. Todos os eletrodos apresentaram o perfil voltamétrico esperado em solução de H2SO4. SnO2 e TiO2 são óxidos metálicos em estados de oxidação mais elevados que não sofrem transições redox. Por outro lado, RuO2 e IrO2 sofrem transições redox no intervalo de potencial em que os voltamogramas foram registrados. As composições Ti/Ru0,10Sn0,90O2 e Ti/Ru0,30Ti0,70O2 apresentam picos anódicos em 1,16 e 0,81 V, respectivamente, os quais podem ser atribuídos à transição Ru(III)/Ru(IV). As composições Ti/Ir0,01Sn0,99O2 e Ti/Ir0,10Sn0,90O2 apresentam um pico anódico em 1,10 V e a composição Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2, em 0,89 V, os quais podem ser atribuídos à transição Ir(III)/Ir(IV). Os valores de potenciais reportados por Pourbaix para as transições Ru(III)/Ru(IV) e Ir(III)/Ir(IV) são respectivamente 0,930 e 0,926 V 35. No entanto, a diferença entre esses valores e os valores de potenciais observados nos voltamogramas da Figura 3.11 é justificada pelo fato de que os valores reportados por Pourbaix se referem a potenciais termodinâmicos e por isso eles podem sofrer variações em função das características específicas de cada eletrodo. A partir dos voltamogramas cíclicos também é possível obter uma medida relativa da área eletroquimicamente ativa do eletrodo, desde que o número de sítios ativos superficiais é proporcional à carga voltamétrica (q*). A carga voltamétrica pode ser calculada por meio da integração da parte anódica do voltamograma (e considerando a velocidade de varredura em que ele foi registrado) em um intervalo de potencial onde o solvente não é decomposto eletroquimicamente. É importante conhecer a área eletroquimicamente ativa do eletrodo para diferenciar os fatores intrínsecos dos fatores 112 Capítulo III geométricos quando diferentes materiais eletródicos ou diferentes métodos de preparação desses materiais estiverem sendo comparados 18. Figura 3.11: Voltamogramas cíclicos registrados em solução de H2SO4 0,5 mol L−1, à velocidade de varredura de 50 mV s−1. 113 Capítulo III Os valores de q* apresentados na Tabela III.7 indicam a seguinte sequência crescente de área eletroquimicamente ativa: Ti/Ir0,01Sn0,99O2 < Ti/Ru0,10Sn0,90O2 < Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 ≈ Ti/Ir0,10Sn0,90O2 < Ti/Ru0,30Ti0,70O2 < Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2. Tabela III.7: Cargas voltamétricas obtidas para as várias composições eletródicas preparadas pelo método de Pechini, calculadas a partir dos voltamogramas apresentados na Figura 3.11 Eletrodos q* / mC Ti/Ir0,01Sn0,99O2 19,0 Ti/Ir0,10Sn0,90O2 33,3 Ti/Ru0,10Sn0,90O2 29,6 Ti/Ru0,30Ti0,70O2 67,8 Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 32,7 Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 82,6 III.3.2 - Tratamento eletroquímico do efluente de curtume real: efeito da composição eletródica, da densidade de corrente e da adição de Na2SO4 Na Tabela III.8 são apresentados os resultados de caracterização do efluente de curtume de acabamento utilizado nos estudos de degradação eletroquímica. Os principais constituintes dos efluentes gerados por esse curtume são de natureza orgânica. Os parâmetros avaliados durante o tratamento eletroquímico foram TOC, fenóis totais, absorbância e toxicidade. Sais contendo sulfeto e amônia, os quais são facilmente reconhecidos pelos seus odores característicos, não são utilizados pelos curtumes de acabamento e, portanto, não se encontram presentes nos efluentes gerados por esses curtumes. O efluente analisado também apresentou cromo e cloreto em sua composição. A presença de cromo era esperada porque ele é utilizado pelos curtumes de 114 Capítulo III acabamento. Íons cloreto são provavelmente remanescentes de etapas de curtimento anteriores, realizadas por outros curtumes. Tabela III.8: Características do efluente de curtume real utilizado nos estudos de degradação eletroquímica Parâmetro −1 TOC (mg L ) Valor 1005,0 Fenóis totais (mg L−1) 47,3 Absorbância 440 nm – efluente não filtrado 0,742 Absorbância 440 nm – efluente filtrado 0,323 Absorbância 600 nm – efluente não filtrado 0,433 Absorbância 600 nm – efluente filtrado 0,165 Absorbância 228 nm – efluente diluído 50 vezes 1,343 EC50 Daphnia similis – 48 h (%) 2,25 Cromo total (mg L−1) 49,8 Cromo (VI) (mg L−1) n.d. −1 Cloreto (mg L ) 787,0 −1 Condutividade (mS cm ) 6,1 pH 4,0 n.d.: não detectado (Cr(VI) < 0,09 mg L−1) A cor do efluente, a qual foi relacionada à absorção da amostra na região Vis, deve-se principalmente à presença de corantes. O efluente também apresentou sólidos suspensos, o que foi confirmado pelas diferenças entre os valores de absorbância na região Vis obtidos com o efluente filtrado e não filtrado. Esse efluente também absorve na região UV devido à presença de compostos que contêm duplas ligações conjugadas, tais como compostos aromáticos. 115 Capítulo III Nos testes de toxicidade com Daphnia similis, o efluente apresentou um valor de EC50 de 2,25%. Quanto menor o valor de EC50 em porcentagem, mais tóxico é o efluente, o que indica que o efluente analisado é altamente tóxico para Daphnia similis. Os eletrodos de composição Ti/Ir0,01Sn0,99O2, Ti/Ir0,10Sn0,90O2, Ti/Ru0,10Sn0,90O2, Ti/Ru0,30Ti0,70O2, Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 foram utilizados no tratamento do efluente de curtume real (Tabela III.8), em modo galvanostático e à densidade de corrente de 20 mA cm−2. Nessa condição, todos os eletrodos foram capazes de reduzir a concentração de compostos fenólicos no efluente. A Figura 3.12 apresenta a concentração de fenóis totais em função do tempo de eletrólise. Os eletrodos de composição Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 foram os mais eficientes para a oxidação dos compostos fenólicos. Com relação à remoção de TOC (Figura 3.13), todos os eletrodos mostraram-se pouco eficientes. Após 5 h de eletrólise a 20 mA cm−2, os eletrodos Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2, que foram os mais eficientes para a remoção de compostos fenólicos, também foram os melhores para a remoção de TOC (Tabela III.9). Tabela III.9: Remoção de fenóis totais e TOC após 5 h de eletrólise a 20 mA cm-2 Eletrodos Remoção de fenóis totais (%) Remoção de TOC (%) Ti/Ir0,01Sn0,99O2 69,3 10,5 Ti/Ir0,10Sn0,90O2 65,5 10,6 Ti/Ru0,10Sn0,90O2 57,7 11,0 Ti/Ru0,30Ti0,70O2 82,6 14,3 Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 80,4 14,2 Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 72,1 12,7 116 Capítulo III Fenóis totais / mg L -1 50 40 30 20 10 0 0 1 2 3 4 5 Tempo h Tempo/ (h) Figura 3.12: Concentração de fenóis totais em função do tempo de eletrólise a 20 mA cm−2 para os experimentos realizados com as seguintes composições eletródicas: (──) Ti/Ir0,01Sn0,99O2, (──) Ti/Ir0,10Sn0,90O2, (──) Ti/Ru0,10Sn0,90O2, (──) Ti/Ru0,30Ti0,70O2, (──)Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e (──) Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2. 1000 TOC / mg L -1 980 960 940 920 900 880 860 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 3.13: TOC em função do tempo de eletrólise a 20 mA cm−2 para os experimentos realizados com as seguintes composições eletródicas: (──) Ti/Ir0,01Sn0,99O2, (──) Ti/Ir0,10Sn0,90O2, (──) Ti/Ru0,10Sn0,90O2, (──) Ti/Ru0,30Ti0,70O2, (──) Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e (──) Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2. 117 Capítulo III A remoção da cor do efluente foi avaliada por meio dos espectros registados entre 400 e 800 nm em função do tempo de eletrólise. Na Figura 3.14(A) são apresentados os espectros obtidos para as eletrólises realizadas com eletrodo de composição Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 20 mA cm-2. Um comportamento análogo foi obtido para as outras composições eletródicas. Para comparar o desempenho das seis composições eletródicas para a remoção da cor do efluente, curvas de absorbância em 440 e 600 nm em função do tempo foram construídas (Figura 3.14). A composição Ti/Ru0,30Ti0,70O2 mostrou-se superior às demais quando avaliada quanto à diminuição da absorbância em 440 nm, mas em 600 nm os valores de absorbância não variaram significativamente de uma composição para outra. Espectros do efluente diluído 50 vezes também foram registrados na região espectral UV (200-400 nm). Esses espectros permitem avaliar a remoção dos compostos orgânicos que absorvem nessa região, principalmente os que contêm duplas ligações conjugadas. Esse é o caso dos compostos aromáticos, os quais absorvem na região UV devido às transições * 36 . Na Figura 3.15 são apresentados os espectros UV obtidos quando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 foi utilizado a 20 mA cm−2 e as curvas de absorbância em 228 nm vs. tempo de eletrólise para todas as composições eletródicas utilizadas. O comprimento de onda 228 nm foi escolhido devido à presença de uma banda bem definida nessa região espectral. Outra banda pode ser observada em 279 nm, entretanto, neste comprimento de onda foram obtidos valores de absorbância similares para todos os eletrodos. O eletrodo Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 apresentou o melhor desempemho para a degradação dos compostos orgânicos que absorvem em 228 nm. 118 Capítulo III Absorbância 0,4 Tempo / h 0 1 3 5 0,3 0,2 0,1 (A) 0,0 400 500 600 700 800 Comprimento de onda / nm Absorbância em 440 nm 0,35 0,30 0,25 0,20 0,15 0,10 (B) 0 1 2 3 4 5 4 5 Tempo / h Absorbância em 600 nm 0,18 0,15 0,12 0,09 0,06 0,03 0,00 (C) 0 1 2 3 Tempo / h Figura 3.14: (A) Espectro visível do efluente de curtume em função do tempo de eletrólise, para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. Absorbância em (B) 440 nm e (C) 600 nm em função do tempo de eletrólise a para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com os seguintes eletrodos: (──) Ti/Ir0,01Sn0,99O2, (──) Ti/Ir0,10Sn0,90O2, (──) Ti/Ru0,10Sn0,90O2, (──) Ti/Ru0,30Ti0,70O2, (──) Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e (──) Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2. 119 Capítulo III 1,5 Tempo / h 0 1 3 5 Absorbância 1,2 0,9 0,6 0,3 (A) 0,0 200 250 300 350 400 Comprimento de onda / nm Absorbância em 228 nm 1,4 1,3 1,2 1,1 1,0 0,9 0,8 0,7 (B) 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 3.15: (A) Espectro UV do efluente de curtume diluído 50 vezes em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. (B) Absorbância em 228 nm em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com os seguintes eletrodos: (──) Ti/Ir0,01Sn0,99O2, (──) Ti/Ir0,10Sn0,90O2, (──) Ti/Ru0,10Sn0,90O2, (──) Ti/Ru0,30Ti0,70O2, (──) Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e (──) Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2. 120 Capítulo III Os resultados apresentados anteriormente mostraram que, dentre as composições eletródicas utilizadas no tratamento eletroquímico do efluente de curtume a 20 mA cm−2, Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 foram os mais eficientes para a remoção de fenóis totais, TOC e cor. O eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 foi o mais eficiente para a remoção da absorbância em 440 nm e o eletrodo Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 apresentou o melhor desempenho para a degradação dos compostos orgânicos que absorvem em 228 nm. Os dois eletrodos com os quais foram alcançados os melhores resultados de degradação do efluente de curtume são constituídos por 30% de eletrocatalisador e apresentam RuO2 em suas composições. Do ponto de vista fundamental, era esperado que o eletrodo Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2, o qual possui maior área eletroquimicamente ativa (Tabela III.7), apresentasse o melhor desempenho. Entretanto, o fato dos melhores resultados terem sido atingidos com os eletrodos Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2, principalmente com este último, deve-se provavelmente à atividade catalítica intrínseca de cada um desses materiais. O efeito da densidade de corrente no tratamento eletroquímico do efluente de curtume também foi investigado utilizando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. A variação na concentração de fenóis totais e TOC em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20, 50 e 100 mA cm-2 são apresentados na Figura 3.16 e Figura 3.17, respectivamente. Após 1 e 3 h de eletrólise, maiores densidades de corrente resultaram em maiores remoções de fenóis (Figura 3.16), mas depois de 5 h de eletrólise, as concentrações de fenóis totais obtidas foram semelhantes, atingindo 82,6% a 20 mA cm−2, 78,5% a 50 mA cm−2 e 83,9% a 100 mA cm−2. Em relação à remoção de TOC, maiores remoções foram obtidas com maiores densidades de correntes em todos 121 Capítulo III os intervalos de tempo (Figura 3.17). Depois de 5 h de eletrólise, a remoção de TOC foi de 14,3%, 31,3% e 40,5% a 20, 50 e 100 mA cm−2, respectivamente. Na2SO4 foi adicionado ao efluente de curtume para avaliar a influência da condutividade do meio sobre o tratamento eletroquímico. A adição desse sal no efluente resultou em um aumento de condutividade de 6,1 para 20,3 mS cm−1. O tratamento eletroquímico do efluente na presença de Na2SO4 utilizando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 100 mA cm−2, resultou em remoções de fenol e de TOC de 81,7% (Figura 3.16) e 25,7% (Figura 3.17), respectivamente, após 5 h de eletrólise. A remoção de fenol a 100 mA cm−2 na presença de Na2SO4 foi similar à obtida a 50 mA cm−2 na ausência desse sal e a remoção de TOC quando Na2SO4 estava presente foi menor do que aquelas obtidas a 50 e 100 mA cm−2 na ausência do sal, mas maior do que a atingida a 20 mA cm−2. Fenóis totais / mg L -1 50 40 30 20 10 0 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 3.16: Concentração de fenóis totais em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e com as seguintes densidades de corrente: (──) 20 mA cm−2, (──) 50 mA cm−2, (──) 100 mA cm−2 e (──) 100 mA cm−2 na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4. 122 Capítulo III TOC / mg L -1 1000 900 800 700 600 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 3.17: TOC em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e com as seguintes densidades de corrente: (──) 20 mA cm−2, (──) 50 mA cm−2, (──) 100 mA cm−2 e (──) 100 mA cm−2 na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4. Na Figura 3.18 são apresentados os espectros registrados na região Vis para as amostras de efluente obtidas a partir das eletrólises realizadas com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 100 mA cm−2 e as curvas de absorbância dessas amostras em 440 e 600 nm vs. tempo para os experimentos realizados com esse eletrodo em diferentes densidades de corrente. As eletrólises realizadas a 50 e 100 mA cm−2 resultaram em remoções de absorbância em 600 nm mais rápidas do que aquela realizada a 20 mA cm−2. Entretanto, um aumento nos valores de absorbância em 440 nm foi observado depois de 3 h de eletrólise a 50 e 100 mA cm−2. Esse comportamento não foi observado para as eletrólises a 20 mA cm−2. O aumento dos valores de absorbância em 440 nm pode ser atribuído à presença de cromo no efluente. Cr(III) apresenta uma absorção máxima em 600 nm, enquanto que Cr(VI) absorve fortemente na região de 400 nm 30. O aumento dos valores de absorbância em 440 nm concomitantemente à 123 Capítulo III diminuição dos valores em 600 nm pode ser um indicativo de que Cr(III) está sendo oxidado a Cr(VI). A fim de confirmar essa hipótese, análises de Cr(VI) foram realizadas. Os resultados são apresentados na Tabela III.10. Absorbância 0,4 Tempo / h 0 1 3 5 0,3 0,2 0,1 (A) 0,0 400 500 600 700 800 900 Comprimento de onda / nm 0,35 Absorbância 0,30 0,25 0,20 0,15 440 nm 0,10 0,05 0,00 600 nm (B) 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 3.18: (A) Espectro Vis do efluente de curtume em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 100 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 (B) Absorbância em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados utilizando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e as seguintes densidades de corrente: (──) 20 mA cm−2, (──) 50 mA cm−2, (──) 100 mA cm−2 e (──) 100 mA cm−2 na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4. 124 Capítulo III Tabela III.10: Concentração de Cr(VI) durante as eletrólises Condição de eletrólise Cr(VI) / mg L−1 1h 3h 5h -2 n.d. n.d. 3,9 -2 Ti/Ir0,10Sn0,90O2 a 20 mA cm n.d. 5,8 9,3 Ti/Ru0,10Sn0,90O2 a 20 mA cm-2 n.d. n.d. n.d. Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 a 20 mA cm-2 n.d. n.d. n.d. Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 a 20 mA cm-2 n.d. n.d. n.d. Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 20 mA cm-2 n.d n.d n.d Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 50 mA cm-2 n.d. 0,4 16,8 Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 100 mA cm-2 n.d. 15,6 25,1 Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 100 mA cm-2 * 0,1 2,0 17,8 Ti/Ir0,01Sn0,99O2 a 20 mA cm n.d.: não detectado (Cr(VI) < 0,09 mg L−1) *na presença de Na2SO4 0,1 mol L−1 Cr(VI) não foi detectado nos efluentes obtidos após o tratamento a 20 mA cm−2, exceto quando os eletrodos Ti/Ir0,01Sn0,99O2 e Ti/Ir0,10Sn0,90O2 foram utilizados (Tabela III.10). Embora Cr(III) não tenha sido oxidado a Cr(VI) nas eletrólises realizadas a 20 mA cm-2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2, Cr(VI) foi detectado nas eletrólises realizadas com este eletrodo a 50 e 100 mA cm−2. Na presença de Na2SO4, Cr(VI) também foi detectado. Embora Cr(VI) tenha sido detectado depois de 1 h de eletrólise a 100 mA cm−2 na presença de Na2SO4, nos demais intervalos de tempo a concentração de Cr(VI) foi maior para as eletrólises realizadas a 100 mA cm-2 na ausência de Na2SO4. Na Figura 3.19 são apresentados os espectros UV do efluente diluído 50 vezes em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados com Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 100 mA cm−2 e as curva de absorbância em 228 nm em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados com esse eletrodo em diferentes densidades de 125 Capítulo III corrente. As bandas em 228 e 279 nm diminuem em função do tempo, indicando que os compostos que absorvem nestas regiões são degradados pelo processo eletroquímico. O aumento da densidade de corrente resultou em mais rápidas degradações desses compostos. A diminuição no valor de absorbância em 228 nm para a eletrólise realizada a 100 mA cm−2 na presença de Na2SO4 foi similar àquela obtida a 50 mA cm−2 na ausência desse sal. A oxidação dos constituintes orgânicos do efluente de curtume, verificada pela diminuição dos valores de fenóis totais, TOC e de absorbância, pode ser atribuída: (1) à oxidação direta dos componentes do efluente no eletrodo pelos radicais hidroxilas da superfície ou pelos óxidos superiores e (2) à oxidação indireta dos componentes do efluente por agentes oxidantes intermediários formados em reações paralelas, por exemplo, pelos íons ClO− formados a partir de íons Cl− 37. A degradação efetiva dos contaminantes é baseada no processo eletroquímico direto e depende principalmente da reação com os radicais HO● da superfície do eletrodo 2. Eletrodos do tipo DSA possuem elevada atividade catalítica para a reação de desprendimento de cloro. Em solução aquosa, a reação de desproporcionação do cloro formado na superfície dos eletrodos DSA origina ácido hipocloroso e íon hipoclorito de acordo com as equações 3.15 e 3.16 8. A concentração de cada espécie de cloro ativo em solução depende da temperatura e do pH 38. Abaixo de pH 5 e acima de pH 10, mais de 99% das espécies de cloro ativo estão na forma de HClO e ClO−, respectivamente 39. Cl2 + H2O HClO HClO + H+ + Cl− H+ + ClO− (3.15) (3.16) 126 Capítulo III 1,8 Tempo / h 0 1 3 5 Absorbância 1,5 1,2 0,9 0,6 0,3 (A) 0,0 200 250 300 350 400 Comprimento de onda / nm Absorbância em 228 nm 1,4 1,2 1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 (B) 0 1 2 3 4 5 Tempo // h Tempo h Figura 3.19: (A) Espectro UV do efluente de curtume diluído 50 vezes em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 100 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2. (B) Absorbância em 228 nm em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e com as seguintes densidades de corrente: (──) 20 mA cm−2, (──) 50 mA cm−2, (──) 100 mA cm−2 e (──) 100 mA cm−2 na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4. 127 Capítulo III Embora as espécies de cloro ativo possam atuar como mediadoras no tratamento de efluentes, elas não são capazes de promover a completa oxidação dos constituintes orgânicos à água e dióxido de carbono 2. Além disso, as reações entre essas espécies e as substâncias orgânicas podem produzir compostos organoclorados 40. De fato, a formação de compostos organoclorados foi observada durante a oxidação eletroquímica do fenol na presença de cloreto utilizando um eletrodo DSA 41. Os resultados obtidos neste trabalho indicaram que a degradação dos contaminantes orgânicos presentes no efluente de curtume ocorrem por meio dos mecanismos direto e indireto. A diminuição dos valores de TOC ao longo do tratamento evidencia a ocorrência de oxidação direta, enquanto que o forte odor característico de espécies de cloro ativo, verificado durante as eletrólises, indica que a oxidação indireta também ocorre. A adição de Na2SO4 ao efluente de curtume resultou em uma oxidação mais lenta das espécies orgânicas quando comparada com as eletrólises realizadas na mesma densidade de corrente na ausência desse sal. Observou-se também que o potencial do eletrodo assumiu um valor menor durante a eletrólise na presença de Na2SO4. Uma vez que a densidade de corrente aplicada nos dois casos foi a mesma, é possível que a presença dos íons SO42− tenha favorecido a reação de desprendimento de oxigênio e inibido a formação das espécies de cloro ativo e a oxidação direta e indireta dos compostos orgânicos. Embora as espécies de cloro ativo não sejam capazes de promover a mineralização das substâncias orgânicas, é provável que os produtos originados nessas reações sejam mais facilmente mineralizados pelos processos de eletroxidação direta. Além disso, radicais Cl●, os quais também são capazes de 128 Capítulo III mineralizar as substâncias orgânicas, podem ser formados no processo de eletroxidação 42. RuO2 e IrO2 são eletrocatalisadores ativos para a reação de desprendimento de cloro, sendo o primeiro mais ativo do que o segundo 7. No caso das eletrólises realizadas a 20 mA cm−2, somente os eletrodos contendo irídio e estanho foram capazes de promover a oxidação de Cr(III). Isso pode ser explicado pela competição entre as reações de oxidação de Cl− e Cr(III) a menores densidades de corrente, o que não foi observado com os eletrodos contendo irídio e rutênio ou somente rutênio como eletrocatalisador. O eletrodo Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 também não foi capaz de oxidar Cr(III) a Cr(VI) a 20 mA cm−2, indicando que a maior quantidade de irídio e/ou a presença de titânio no eletrodo pode inibir a oxidação de Cr(III) em densidades de corrente menores. A presença de Na2SO4 no efluente fez com que a concentração de Cr(III) oxidada durante a eletrólise fosse menor do que na ausência desse sal. Cr(VI) não foi detectado quando as eletrólises foram realizadas a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2, mas foi detectado nas eletrólises realizadas com este eletrodo a 50 e 100 mA cm−2. Esses resultados indicam que a oxidação do Cr(III) a Cr(VI) depende da composição do material eletródico e da densidade de corrente aplicada. A oxidação de Cr(III) a Cr(VI) é uma desvantagem do processo eletroquímico, desde que Cr(VI) é mais tóxico do que Cr(III). Entretanto, essa desvantagem pode ser facilmente contornada pela utilização de um agente redutor capaz de reduzir Cr(VI) a Cr(III). Sulfito de sódio (Na2SO3) e seus análogos bissulfito de sódio (NaHSO3) e metabissulfito de sódio (Na2S2O5) são os redutores mais indicados neste caso porque, além de promoverem a redução de Cr(VI) produzindo sulfato como subproduto (eq. 3.17) 43, eles são utilizados no processamento das peles 44. Ao final do processo, 129 Capítulo III Cr(III) pode ser precipitado como Cr(OH)3 usando Na2CO3 43. Além de promover a redução de Cr(VI), Na2SO3 pode ainda reduzir as espécies de cloro ativo remanescentes (eq. 3.18). Cr2O72− + 3 SO32− + 8 H+ → 2 Cr3+ + 3 SO42− + 4 H2O ClO− + SO32− → Cl− + SO42− (3.17) (3.18) Além de promover a oxidação direta e indireta dos contaminantes do efluente, o processo eletroquímico também pode levar à agregação de contaminantes por eletroflotação, provocada pelos gases hidrogênio e oxigênio gerados a partir da eletrólise da água 37,45. É possível que este processo tenha ocorrido durante o tratamento eletroquímico do efluente de curtume porque foi observada a formação de pequena quantidade de sólidos suspensos. Na Figura 3.20 são apresentados os resultados dos testes de toxicidade realizados com os efluentes resultantes do tratamento eletroquímico utilizando os eletrodos Ti/Ru0,30Ti0,70O2, Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 a 20 mA cm−2. Esses resultados mostram que o tratamento eletroquímico foi capaz de diminuir a toxicidade do efluente de curtume. Os resultados obtidos a 20 mA cm−2 resultaram em uma diminuição de toxicidade de 53,3%, 40,0% e 66,7% (para as soluções de efluentes diluídas 20 vezes) com os eletrodos Ti/Ru0,30Ti0,70O2, Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2 e Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2, respectivamente. A solução controle de Na2SO3 apresentou uma toxicidade inexpressiva. Esse resultado indica que os resultados do teste de toxicidade não foram afetados pela presença desse sal, desde que as concentrações de Na2SO3 nos efluentes tratados são menores que na solução controle porque ele foi consumido nas reações de redução do 130 Capítulo III Cr(VI) e das espécies de cloro ativo. Além disso, esse resultado sugere que Na2SO3 é um bom agente redutor para ser utilizado em testes de toxicidade com Daphnia similis e para ser utilizado em uma etapa posterior ao tratamento eletroquímico de efluentes de curtumes. Inicial Efluente inicial 20 Ti/Ru0,30TiRu30Ti70 0,70O2 46,7 % Ti/Ir0,15Ru0,15Ir15Ru15Sn70 Sn0,70O220 60,0 % 33,3 % Ir30Ti30Sn40 20 Ti/Ir0,30Ti0,30Sn 0,40O2 Solução controle Na2Na2SO3 SO3 6,7 % 0 20 40 60 80 100 Organismos imóveis (%) Figura 3.20: Porcentagem de microcrústáceos Daphnia similis imóveis após 48 h de exposição a soluções de efluente de curtume de concentração 5%, antes e após 5 h de tratamento eletroquímico utilizando diferentes eletrodos a 20 mA cm−2. Na Figura 3.21 são apresentados os resultados dos testes de toxicidade realizados com o efluentes resultantes do tratamento eletroquímico com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 em diferentes densidades de corrente. Esses resultados mostram que a toxicidade do efluente tratado a 50 mA cm−2 foi menor do que a 20 mA cm−2. No entanto, o efluente resultante da eletrólise realizada a 100 mA cm−2 mostrou-se menos tóxico do que o resultante do tratamento a 20 mA cm-2, mas mais tóxico do que o tratado a 50 mA cm−2. Desde que a remoção de fenóis totais, TOC e compostos 131 Capítulo III orgânicos insaturados foi maior a 100 mA cm−2, a maior toxicidade do efluente obtido nesta condição deve-se, provavelmente, à formação de compostos organoclorados, a qual pode estar sendo favorecida nessa condição de densidade de corrente. Inicial Efluente inicial 60,0 % Inicial Ru30Ti70 20 mA cm-220 46,7 % Ru30Ti70 50 mA cm-250 10,0 % -2 Ru30Ti70 100 mA cm100 20 6,7 % Ru30Ti70 100 6,7 % 0 0% Ru30Ti70 50 33,3 % Na2SO3 Na2SO3 (controle) 13,3 % Ru30Ti70 20 (A)Na2SO3 0 % 40 60 80 Organismos Imóveis (%) 100 0 (B) 20 40 60 80 100 Organismos Imóveis (%) Figura 3.21: Porcentagem de microcrústáceos Daphnia similis imóveis após 48 h de exposição a soluções de efluente de curtume de concentrações (A) 5% e (B) 2,5%, antes e após 5 h de tratamento eletroquímico, utilizando o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 em diferentes densidades de corrente. Na Figura 3.22 são apresentados os valores de CE, calculados a partir do TOC (eq. 3.9) em função do tempo de eletrólise. Os valores de CE obtidos para as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2 diminuíram em função do tempo, exceto para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2. Com este eletrodo, o valor de CE foi de 28,8%, 38,5% e 31,9%, respectivamente depois de 1, 3 e 5 h de eletrólise. Os eletrodos Ti/Ir0,01Sn0,99O2, Ti/Ir0,10Sn0,90O2, Ti/Ru0,10Sn0,90O2 e Ti/Ir0,30Ti0,30Sn0,40O2 apresentaram elevados valores de CE depois de 1 h de eletrólise, o que indica que neste intervalo de tempo tais eletrodos foram mais ativos para promover a mineralização dos contaminantes e menos ativos para a reação de desprendimento de oxigênio. Quando Ti/Ru0,30Ti0,70O2 foi utilizado a 20 e 100 mA cm−2, os valores de CE diminuíram em função do tempo. A 50 mA cm−2, a CE foi de 21,6% depois de 1 h e atingiu 28,1% 132 Capítulo III depois de 5 h. A 100 mA cm−2 e na presença de Na2SO4, CE foi 9,1% depois de 1 h e atingiu 11,6% depois de 5 h. Esses resultados mostram que os valores de CE diminuem com o aumento da densidade de corrente porque maiores densidades de corrente favorecem a oxidação de Cr(III) e, principalmente, a reação de desprendimento de oxigênio. Na2SO4 também favorece a reação de desprendimento de oxigênio desde que menores valores de CE foram atingidos na sua presença. Figura 3.22: Eficiência de corrente (CE) em função do tempo de eletrólise: (A) para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 e (B) para os experimentos realizados com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 20, 50 e 100 mA cm−2 (*eletrólise realizada na presença de Na2SO4). III.3.3 - Tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético: efeito da concentração de cloreto e da presença de sulfato O eletrodo de composição Ti/Ir0,10Sn0,90O2 foi utilizado no tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético, cujas características são apresentadas na Tabela III.11. A Figura 3.23 mostra a variação da concentração de fenóis totais em função do tempo para as eletrólises realizadas na presença de diferentes eletrólitos suportes. A 133 Capítulo III remoção dos compostos fenólicos do efluente sintético seguiu uma cinética de primeira ordem e apresentou um comportamento típico de reação controlada por transporte de massa. Tabela III.11: Características do efluente de curtume sintético Parâmetro Valor TOC (mg L−1) 932 ± 18 COD (mg L−1) 3087 ± 45 Fenóis totais (mg L−1) 190 ± 5 Absorbância em 228 nm (efluente diluído 100 vezes) 0,99 ± 0,04 pH 3,3 ± 0,1 1,0 [Fenóis]/[Fenóis]0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 3.23: Efeito da concentração de cloreto e da presença de sulfato sobre a remoção eletroquímica dos compostos fenólicos do efluente de curtume sintético durante as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2 utilizando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 e os seguintes eletrólitos suporte: (──) NaCl 20 mmol L−1, (─▼─) NaCl 50 mmol L−1, (─∆─) NaCl 100 mmol L−1, (─+─) NaCl 200 mmol L−1, (──) NaCl 500 mmol L−1, (──) Na2SO4 100 mmol L−1, (─▲─) Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 20 mmol L−1 e (─◊─) Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 50 mmol L−1. 134 Capítulo III Todas as curvas ln([Fenóis]/[Fenóis]0) vs. tempo de eletrólise apresentaram coeficientes de correlação R maiores do que 0,99, exceto a curva obtida quando 100 mmol L−1 de Na2SO4 foi utilizado como eletrólito suporte. Nesse caso, o R obtido foi de 0,92. Os valores de k, os quais são apresentados na Tabela III.12, refletem a contribuição das reações de eletroxidação direta e indireta dos compostos fenólicos. É evidente pelos valores de k que a remoção desses compostos do efluente depende da concentração de cloreto, sendo que quanto maior a concentração deste íon no efluente, mais rápida é a remoção dos compostos fenólicos. Uma remoção mais lenta foi obtida para a eletrólise realizada na presença de 100 mmol L−1 de Na2SO4. Nessa condição, a remoção de fenóis foi somente 29,8% após 5 h de eletrólise, enquanto que nas eletrólises realizadas na mesma concentração de Na2SO4, na presença de 20 e 50 mmol L−1 de NaCl, a remoção de fenol foi de 87,5% e 95,2%, respectivamente, no mesmo intervalo de tempo. Tabela III.12: Constantes de velocidade para a remoção de compostos fenólicos do efluente sintético durante as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2 utilizando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 em diferentes concentrações de eletrólito suporte Eletrólito suporte k (h−1) NaCl 20 mmol L−1 0.60 −1 0.72 NaCl 50 mmol L −1 0.97 −1 NaCl 200 mmol L 1.34 NaCl 500 mmol L−1 3.00 Na2SO4 100 mmol L−1 0.08 Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 20 mmol L−1 0.40 Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 50 mmol L−1 0.55 NaCl 100 mmol L 135 Capítulo III Os resultados apresentados na Tabela III.12 mostram também que a presença de sulfato inibe a remoção dos compostos fenólicos desde que os valores de k obtidos para as eletrólises realizadas na presença de cloreto são maiores do que aqueles obtidos nas eletrólises realizadas com a mesma concentração de cloreto e na presença de sulfato. Esse comportamento está de acordo com aquele observado nas eletrólises do efluente de curtume real realizadas após a adição de Na2SO4, confirmando que a presença deste sal inibe a oxidação dos compostos orgânicos. Análises de pH do efluente sintético, realizadas antes e após 5 h de tratamento eletroquímico, podem explicar o efeito dos íos SO42−. Nas eletrólises realizadas na presença de 100 mmol L−1 de Na2SO4, na presença e ausência de 20 mmol L−1 de NaCl, o pH do efluente se manteve constante. Entretanto, um aumento do pH de 3,3 para 4,7 foi observado quando a eletrólise foi realizada na presença de 20 mmol L−1 de NaCl e na ausência de Na2SO4. Quando o efluente foi tratado na presença de 50 mmol L−1 de NaCl, com e sem Na2SO4, o pH também aumentou para 4,3 e 6,0, respectivamente. Nas eletrólises realizadas com 100, 200 e 500 mmol L−1 de NaCl, valores de pH próximos de 7,0 foram atingidos. No ânodo, várias reações podem ocorrer concomitantemente: a reação de desprendimento de cloro, a eletroxidação direta de compostos orgânicos e a reação de desprendimento de oxigênio. No cátodo ocorre a reação de desprendimento de hidrogênio. Desde que as eletrólises do efluente foram realizadas em uma célula com um único compartimento, seria esperado que os íons H+ produzidos no ânodo pela reação de desprendimento de oxigênio (eq. 3.2) fossem consumidos no cátodo pela reação de desprendimento de hidrogênio (eq. 3.19) e que, portanto, o pH do efluente premanecesse constante. Em algumas condições de eletrólito suporte o pH aumenta porque a reação de desprendimento de oxigênio é desfavorecida. Nessas condições, a 136 Capítulo III quantidade de H+ produzida no ânodo não é suficiente para manter o pH constante. Esta característica é acentuada na ausência de sulfato e pelo aumento da concentração de cloreto no efluente. 2 H+ + 2 e− → H2 (3.19) Durante as eletrólises, espectros do efluente sintético foram registrados na região Vis a fim de avaliar a eficiência do processo eletroquímico para a remoção da cor desse efluente. As eletrólises realizadas na presença de NaCl, com ou sem Na2SO4, mostraram-se eficientes para a remoção da cor do efluente. Entretanto, quando a eletrólise foi realizada na presença de Na2SO4 apenas, a cor do efluente permaneceu intensa, sofrendo uma alteração de verde para marrom. Embora maiores concentrações de cloreto tenham resultado em remoções mais rápidas da cor, não foi possível comparar os valores de absorbância da região Vis porque, além da cor, esses valores refletiram a turbidez do efluente. Maiores concentrações de sal no efluente resultaram em maiores turbidez e, consequentemente, em maiores valores de absorbância na região Vis (Figura 3.24). Na Figura 3.25(A) é apresentada a variação nos valores de TOC/TOC0 em função do tempo de eletrólise obtida nas diferentes condições de eletrólito suporte. A remoção de TOC do efluente também foi dependente da concentração de cloreto, sendo que maiores concentrações de cloreto resultaram em diminuições mais rápidas de TOC. O aumento da concentração de cloreto no efluente também resultou em remoções mais rápidas de COD (Figura 3.26(A)). A diminuição de COD foi mais acentuada do que a de TOC, indicando que o tratamento eletroquímico foi capaz de promover a oxidação das substâncias, porém nem todas foram mineralizadas e continuaram em solução em 137 Capítulo III estados bastante oxidados. As eficiências de corrente (CE) calculadas a partir de COD e TOC apresentaram perfis similares aos obtidos para a remoção de COD e TOC (Figura 3.26(B)). Espectros do efluente diluído 100 vezes também foram registrados na região UV para avaliar a oxidação dos compostos que absorvem nesta região. Uma banda em 228 nm similar àquela observada para o efluente real (Figura 3.15) foi observada para o efluente sintético. Quanto maior a concentração de cloreto no efluente, mais rápida a diminuição dos valores de absorbância relativa em 228 nm (Figura 3.25(B)). A adição de Na2SO4 ao efluente dificultou a oxidação dos compostos orgânicos que absorvem nesse comprimento de onda, desde que menores remoções de absorbância foram obtidas na presença deste sal. Na presença de Na2SO4 apenas, não houve mudança significativa nos valores de absorbância em 228 nm. O fato das remoções de fenóis totais, absorbância em 228 nm, TOC e COD aumentarem com o aumento da concentração de cloreto no efluente indica que a degradação dos compostos orgânicos deve ser causada pelas espécies de cloro ativo geradas eletroquimicamente. Contrário ao cloreto, sulfato é um eletrólito suporte inerte nas condições de eletrólise estudadas e, por isso, nenhuma espécie oxidante é formada a partir dele. Assim, a presença de sulfato no efluente favorece a eletroxidação direta dos contaminantes orgânicos. A remoção de compostos fenólicos e a diminuição de absorbância em 228 nm obtidas para a eletrólise realizada na presença de Na2SO4 e ausência de NaCl foram menores do que nas demais condições estudadas. 138 Capítulo III Absorbância Absorbância Absorbância 2,0 -1 −1 NaCl 20NaCl mmol 20Lmmol L 0h 1h 2h 3h 4h 5h 1,5 1,0 0,5 0,0 400 500 600 700 800 Comprimento de onda nm Comprimento deonda onda /nm Comprimento de / /nm Absorbância Absorbância Absorbância 2,0 -1 −1 NaCl 50NaCl mmol 50Lmmol L 0h 1h 2h 3h 4h 5h 1,5 1,0 0,5 0,0 400 500 600 700 800 Comprimento de onda nm Comprimento deonda onda /nm Comprimento de / /nm Absorbância Absorbância Absorbância 2,0 -1 100 mmol L−1 NaCl NaCl 100 mmol L 0 h0 h 1 h1 h 2 h2 h 3 h3 h 4 h4 h 5 h5 h 1,5 1,0 0,5 0,0 400 500 600 700 800 Comprimento deonda onda/ nm /nm Comprimento de Figura 3.24: Espectros Vis do efluente de curtume sintético em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 na presença de 20, 50 e 100 mmol L−1 de NaCl. 139 Capítulo III 1,0 TOC / TOC0 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 (A) 0 1 2 3 4 5 4 5 Tempo / h Abs /Abs0 (228 nm) 1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 (B) 0 1 2 3 Tempo / h Figura 3.25: Diminuição de (A) TOC/TOC0 e (B) absorbância relativa em 228 nm (Abs/Abs0) do efluente de curtume sintético em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2: (──) NaCl 20 mmol L−1, (─▼─) NaCl 50 mmol L−1, (─∆─) NaCl 100 mmol L−1, (─+─) NaCl 200 mmol L−1, (──) NaCl 500 mmol L−1, (──) Na2SO4 100 mmol L−1, (─▲─) Na2SO4 −1 −1 100 mmol L e NaCl 20 mmol L e (─◊─) Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 50 mmol L−1. 140 Capítulo III 70 TOC COD Remoção / % 60 (A) 50 40 30 20 10 0 20 50 100 200 500 -1 Concentração de cloreto / mmol L Eficiência de corrente 0,7 TOC COD 0,6 (B) 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0,0 20 50 100 200 500 -1 Concentração de cloreto / mmol L Figura 3.26: (A) Remoções de TOC e COD e (B) eficiências de corrente calculadas a partir dos valores de TOC e COD em função da concentração de cloreto para os experimentos realizados a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2. Tempo de eletrólise: 5 h (exceto para a eletrólise realizada com 20 mmol L−1 de NaCl. Neste caso, o tempo de eletrólise foi de 5,2 h). 141 Capítulo III As espécies de cloro ativo podem reagir com as substâncias orgânicas via três mecanismos 25: adição a duplas ligações (eq. 3.20), substituição para formar compostos N-clorados (eq. 3.21) ou C- clorados (eq. 3.22) e oxidação por transferência de elétrons (eq. 3.23). Os dois primeiros mecanismos resultam na formação de compostos organoclorados. H H C C R1 H H R2 + HClO → R1 C C R2 (3.20) OH Cl H R N H O R C H + HClO → R N Cl + H2O (3.21) O CH3 + 3 HClO → R C OH + CHCl3 + 2 H2O RCHO + HClO → RCOOH + H+ + Cl− (3.22) (3.23) Para avaliar a formação de compostos organoclorados durante o tratamento eletroquímico do efluente de curtume na presença de cloreto, análises de AOX foram realizadas. Os resultados são apresentados na Tabela III.13. O aumento na concentração de cloreto no efluente resultou na formação de maiores concentrações de AOX. Para as eletrólises realizadas na presença de cloreto e sulfato, menores valores de AOX foram obtidos quando comparados àqueles obtidos para as eletrólises realizadas na mesma concentração de cloreto e na ausência de sulfato. 142 Capítulo III Tabela III.13: Concentração de AOX no final das eletrólises realizadas a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 Eletrólito suporte AOX (mg L−1) NaCl 20 mmol L−1 144,0 NaCl 50 mmol L−1 160,0 NaCl 100 mmol L−1 196,0 NaCl 200 mmol L−1 232,0 NaCl 500 mmol L−1 212,0 Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 20 mmol L−1 62,0 Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 50 mmol L−1 128,0 Embora compostos organoclorados tenham sido formados no tratamento eletroquímico do efluente de curtume, observou-se uma diminuição da toxicidade para todas as amostras de efluente tratado submetidas aos testes de toxicidade com Daphnia similis. Os resultados desses testes são apresentados na Tabela III.14. O aumento na concentração de cloreto resultou no aumento da toxicidade inicial do efluente. A maior remoção de toxicidade foi atingida com a eletrólise realizada na presença de 50 mmol L−1 de NaCl. Embora menores remoções de fenóis totais, TOC e COD tenham sido atingidas nessa condição de eletrólito suporte, a menor toxicidade do efluente tratado nessa condição se deve à menor concentração de AOX produzida durante a eletrólise (Tabela III.13). Além disso, diferentes quantidades de Na2SO3, proporcionais à concentração inicial de cloreto, foram adicionadas em cada condição e maiores concentrações desse sal podem contribuir para aumentar a toxicidade do efluente tratado. 143 Capítulo III Tabela III.14: Toxicidades agudas expressas em ATU (intervalo de confiança de 95%) para o efluente de curtume sintético antes e após 5 h de eletrólises a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 e na presença de diferentes concentrações de NaCl Concentração Condutividade de cloreto do efluente (mmol L−1) (mS cm−1) EC50 antes do tratamento (ATU) EC50 depois do tratamento (ATU) Redução da toxicidade (%) 0 0,7 141 (106 – 185) _ _ 50 7,0 141 (116 – 172) 30 (15 – 62) 78,7 100 13,5 151 (122 –185) 85 (67 – 109) 43,7 500 56,3 200 (161 – 250) 119 103 – 139) 40,5 A condutividade do efluente é um fator importante para o processo de tratamento eletroquímico. Quanto maior a condutividade do efluente, menor a queda ôhmica através da célula eletroquímica e maior a eficiência energética do processo. A Figura 3.27 mostra que o consumo de energia aumentou linearmente em função do tempo de eletrólise e que maiores concentrações de cloreto no efluente resultaram em menores consumos de energia. Na Tabela III.15 e na Tabela III.16 são apresentados os principais resultados de remoção de fenóis totais, TOC e COD em comparação com o consumo de energia. Esses resultados mostram que maiores concentrações de cloreto resultaram em remoções mais rápidas de fenóis totais, TOC e COD com menor consumo de energia. 144 Consumo de energia / kWh m -3 Capítulo III 70 60 50 40 30 20 10 0 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 3.27: Consumo de energia em função do tempo para as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2 com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2: (──) NaCl 20 mmol L−1, (─▼─) NaCl 50 mmol L−1, (─∆─) NaCl 100 mmol L−1, (─+─) NaCl (──) NaCl 500 mmol L−1, (──) Na2SO4 200 mmol L−1, −1 −1 100 mmol L , (─▲─) Na2SO4 100 mmol L e NaCl 20 mmol L−1 e (─◊─) Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 50 mmol L−1. Tabela III.15: Energia consumida na remoção eletroquímica de compostos fenólicos do efluente de curtume sintético utilizando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 a 20 mA cm−2 Tempo de eletrólise (h) Remoção de fenóis totais (%) Consumo de energia (kWh m−3) NaCl 20 mmol L−1 5,2 96,3 70,3 NaCl 50 mmol L−1 4,0 100,0 39,9 NaCl 100 mmol L−1 3,0 100,0 25,4 NaCl 200 mmol L−1 3,0 100,0 23,7 NaCl 500 mmol L−1 2,0 100,0 13,8 Na2SO4 100 mmol L−1 5,0 29,8 40,2 Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 20 mmol L-1 5,0 87,5 39,1 Na2SO4 100 mmol L−1 e NaCl 50 mmol L-1 5,0 95,2 39,0 Eletrólito suporte 145 Capítulo III Tabela III.16: Energia consumida na remoção eletroquímica de TOC e COD do efluente de curtume sintético utilizando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2 a 20 mA cm−2 Concentração de cloreto (mmol L−1) Tempo de eletrólise (h) Remoção de TOC (%) Remoção de COD (%) Consumo de energia (KWh m−3) 20 5,2 14,8 16,5 70,3 50 5,0 20,8 21,0 51,0 100 5,0 27,8 34,5 43,9 200 5,0 33,6 49,5 40,8 500 5,0 44,6 60,8 36,0 III.4 - Conclusões No tratamento eletroquímico do efluente de curtume real, os valores de TOC diminuíram em função do tempo de eletrólise, mas a remoção máxima atingida foi de apenas 40,5% depois de 5 h a 100 mA cm−2. Embora a remoção de TOC tenha sido pouco eficiente nas condições de eletrólises estudadas, todos os eletrodos utilizados na degradação do efluente mostraram-se capazes de remover eficientemente os compostos fenólicos, a absorbância na região UV-Vis e a toxicidade do efluente. Para as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2, os melhores resultados foram obtidos com os eletrodos Ti/Ru0,30Ti0,70O2 e Ti/Ir0,15Ru0,15Sn0,70O2. Eletrólises realizadas com o eletrodo Ti/Ru0,30Ti0,70O2 a 50 e 100 mA cm−2 resultaram em maiores remoções de TOC do que as eletrólises realizadas a 20 mA cm−2. Entretanto, naquelas condições, Cr(III) foi oxidado a Cr(VI) e menores eficiências de corrente foram atingidas. A oxidação de Cr(III) a Cr(VI) mostrou-se dependente da composição eletródica e da densidade de corrente aplicada. A concentração de cloreto influenciou o tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético, sendo que maiores concentrações de cloreto resultaram em mais 146 Capítulo III rápidas remoções de compostos fenólicos, TOC, COD, compostos com duplas ligações conjugadas e cor. Maiores eficiências de corrente e menores gastos de energia também foram obtidos quando maiores concentrações de cloreto foram utilizadas. O aumento na concentração de cloreto no efluente também resultou na formação de maiores concentrações de AOX. Apesar disso, testes de toxicidade realizados com Daphnia similis mostraram que a toxicidade do efluente tratado em diferentes concentrações de cloreto foi menor do que a do efluente inicial. 147 Capítulo III III.5 - Referências bibliográficas 1 SZPYRKOWICZ, L.; NAUMCZYK, J.; ZILIO-GRANDI, F. Electrochemical treatment of tannery wastewater using Ti/Pt and Ti/Pt/Ir electrodes. Water Research, v. 29, p. 517524, 1995. 2 VLYSSIDES, A. G.; ISRAILIDES, C. 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Chemical Society Reviews, v. 35, p. 1324-1340, 2006. 43 ABREU, D. G.; COSTA, C. R.; ASSIS, M. D.; IAMAMOTO, Y. Uma proposta para o ensino da química analítica qualitativa. Química Nova, v. 29, p. 1381-1386, 2006. 44 PACHECO, J. W. F. Curtumes. São Paulo: CETESB, 2005. 45 CHEN, G. Electrochemical technologies in wastewater treatment. Separation and Purification Technology, v. 38, p. 11-41, 2004. 150 Capítulo IV: Degradação eletroquímica de um efluente de curtume sintético e do corante preto ácido 210 utilizando BDD Capítulo IV IV.1 - Introdução Nos últimos anos, grande atenção tem sido dada à utilização de diamante dopado com boro (BDD) aplicado à oxidação eletroquímica de compostos orgânicos refratários e/ou potencialmente tóxicos 1-3. Contrário aos materiais anódicos convencionais que 1 2 apresentam limitações como a rápida perda de atividade (grafite), liberação de íons tóxicos (PbO2), tempo de vida limitado (SnO2) e a impossibilidade de resultar na completa oxidação de compostos orgânicos (IrO2), BDD é um material com características excepcionais 4. O diamante possui muitas propriedades tecnologicamente interessantes como extrema dureza, elevada resistência elétrica, alta condutividade térmica, alta mobilidade de elétrons e lacunas, transparência óptica, baixo coeficiente de expansão térmica, baixa fricção, elevada velocidade de propagação do som, compatibilidade biológica e é quimicamente inerte. Embora ele seja um isolante, a dopagem com boro lhe confere condutividade elétrica significativa, tornando-o 5 adequado para aplicações eletroquímicas 5-9. 6 7 8 BDD é um eletrodo não ativo que tem se mostrado mais eficiente para a oxidação de contaminantes orgânicos do que outros eletrodos 10,11. Esse comportamento é devido aos radicais HO● produzidos a partir da oxidação da água, os quais provavelmente estão envolvidos nos mecanismos de oxidação que ocorrem na superfície do diamante 3. Geralmente, a eficiência de mineralização é baixa quando eletrodos convencionais são utilizados para a oxidação anódica 2. De fato, Ti/BDD apresentou melhor desempenho para a oxidação de fenóis p-substituídos do que Ti/SnO2-Sb e Ti/SnO2-Sb/PbO2. Entretanto, a concentração de radicais HO● detectada na célula quando Ti/BDD foi utilizado como ânodo foi similar àquela obtida quando Ti/SnO2-Sb foi utilizado e menor do que a obtida utilizando Ti/SnO2-Sb/PbO2. Isso indica que a 152 Capítulo IV maior capacidade de mineralização dos ânodos de BDD não deve estar relacionada à quantidade de radicais HO● produzida, mas ela pode ser explicada considerando a existência de diferentes tipos de radicais HO● 11. SnO2 e PbO2 também são eletrodos não ativos, mas, contrário ao BDD, eles apresentam fortes propriedades de adsorção. Os radicais HO● se adsorvem fortemente sobre esses eletrodos e permanecem confinados nas suas superfícies. Esse tipo de radical HO● pode facilmente resultar na geração de oxigênio molecular, o que explica a menor eficiência do SnO2 e PbO2 para a oxidação de compostos orgânicos. Por outro lado, a interação entre o BDD e os radicais HO● é tão fraca que esses radicais são considerados como quasi livres e podem ser transferidos para as vizinhanças da superfície do eletrodo 11,12. Esse tipo de radicais HO● tem alto poder de oxidação e, na ausência de compostos orgânicos, pode reagir com outro radical HO● e formar H2O2, o qual é posteriormente oxidado a oxigênio molecular 12,13. Assim, a fraca interação entre radicais HO● e BDD faz com que esse eletrodo apresente baixa atividade eletroquímica para a reação de desprendimento de oxigênio 10,12. O potencial para reação de desprendimento de oxigênio sobre o eletrodo Si/BDD em solução de H2SO4 0,5 mol L−1 é aproximadamente 2,3 V vs. NHE, maior do que sobre PbO2 e SnO2 7. Além do desempenho catalítico, o tempo de vida é outra característica importante que deve ser considerada na escolha do material eletródico para aplicações práticas. Nesse caso, a utilização de eletrodos de BDD também é vantajosa porque ele é altamente resistente à corrosão em soluções ácidas e alcalinas e ele apresenta tempo de vida mais longo do que outros materiais 11,14,15. Em solução de H2SO4 3,0 mol L−1 e à densidade de corrente de 500 A m−2, o eletrodo Ti/BDD apresentou um tempo de vida 153 Capítulo IV de 386 h enquanto que, nas mesmas condições, os tempos de vida dos eletrodos Ti/SnO2-Sb e Ti/SnO2-Sb/PbO2 foram 20 e 115 h, respectivamente 11. Cloro molecular pode ser produzido pelo ânodo de BDD a partir de eletrólito contendo cloreto. Entretanto BDD não o material mais adequado para a reação de desprendimento de cloro. De fato, o eletrodo DSA®, o qual é muito utilizado na indústria de cloro-soda, apresenta um potencial para a reação de desprendimento de cloro muito menor do que o eletrodo de BDD: no primeiro o potencial é de 1.0 V, enquanto que no segundo é de 1,9 V vs. SCE 16. A eletroxidação de compostos orgânicos e efluentes mediada por espécies de cloro ativo tem sido estudada por 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 vários autores e tem se mostrado eficiente para a remoção de COD, TOC e cor 16-29. 28 BDD apresentou melhor desempenho do que DSA® para a eletroxidação direta do azul de metileno: a remoção de COD foi quase 100% depois de 8 h de eletrólise com BDD e atingiu somente 26% quando um eletrodo DSA® foi utilizado. Por outro lado, na presença de cloreto, a remoção de COD atingida depois de 1,5 h de eletrólise foi de 54% com BDD e 71% com DSA®. Com ambos os eletrodos a degradação do azul de metileno foi significativamente mais rápida e energeticamente mais eficiente na presença de cloreto 17. Entretanto, a principal desvantagem da eletroxidação mediada por cloro ativo é a geração de compostos organoclorados, o que tem sido reportado por alguns autores 22-24. Alguns estudos com BDD têm demonstrado que ele também é adequado para a eletrossíntese de outros oxidantes inorgânicos como peroxodissulfato (S2O82−) 30, perxodifosfato (P2O84−) 31,32 e percarbonato (C2O62−) 33, os quais são produzidos a partir de fosfato, sulfato e carbonato, respectivamente. Da mesma forma que as espécies de cloro ativo, esses agentes oxidantes podem participar da oxidação de compostos 154 Capítulo IV orgânicos na região próxima à superfície do eletrodo e/ou no bulk do eletrólito. Em cada caso, a quantidade de oxidante eletrogerado dependerá das características do eletrólito suporte, como pH e concentração, e das condições de operação, como densidade de corrente e temperatura 3,30-33. A eletrogeração de S2O82−, P2O84− e C2O62− a partir do eletrólito suporte é uma propriedade interessante do eletrodo de BDD porque essas espécies são agentes oxidantes fortes que podem ser aplicadas para degradar compostos orgânicos. Além disso, elas são oxidantes mais limpos do que as espécies de cloro ativo porque não resultam na produção de compostos organoclorados. Os peroxossulfatos são derivados dos ácidos peroxomonossulfúrico e peroxodissulfúrico. Ambos são poderosos agentes oxidantes com potenciais de redução padrão de 1,81 e 2,08 V, respectivamente. A eficiência do processo de eletrossíntese do peroxodissulfato é fortemente dependente do material eletródico empregado como ânodo. Em princípio, qualquer material com elevado sobrepotencial para a reação de desprendimento de oxigênio poderia ser utilizado na sua produção. Entretanto, muitos materiais, principalmente PbO2 e SnO2, podem ser atacados pelo oxidante gerado. Platina tem sido o material eletródico mais utilizado para a produção de S2O82−. Apesar disso, eletrodos de platina apresentam como desvantagem o fato de ser necessário o uso de aditivos para aumentar o rendimento do processo. Esses problemas desaparecem quando eletrodos de diamante são utilizados porque eles permitem que S2O82− seja eletrossintetizado com grande eficiência sem a necessidade de adicionar qualquer reagente no meio reacional e, além disso, eles não são quimicamente atacados por nenhum dos componentes do eletrólito. A eficiência faradaica do processo de eletrossíntese de S2O82− aumenta com a concentração de H2SO4 e com a densidade de 155 Capítulo IV corrente aplicada, mas diminui com o aumento da temperatura, devido à decomposição do peroxodissulfato a oxigênio (eq. 4.1) 30,34. S2O82− + H2O → 2 HSO4− + 1 O2 2 (4.1) O peroxodifosfato também é um agente oxidante potente ( E 0R = 2,07 V) , estável em soluções neutras ou básicas à temperatura ambiente, mas que se decompõe a peroxomonofosfato em soluções ácidas (eq. 4.2) e a pirofosfato quando aquecido (eq. 4.3). Esse oxidante também é frequentemente produzido utilizando eletrodos de platina, mas da mesma forma que na eletrossíntese de S2O82−, maiores rendimentos só são obtidos na presença de aditivos, como fluoreto ou tiocianato, o que não é necessário quando eletrodos de diamante são utilizados. Os maiores rendimentos na produção eletroquímica de P2O84− são obtidos em soluções alcalinas e em temperaturas baixas 31,32,34. H4P2O8 + H2O → H3PO5 + H3PO4 P2O84− → P2O74− + 1 O2 2 (4.2) (4.3) A denominação percarbonato inclui dois tipos de compostos: peroxocarbonato (C2O62−), o qual contém o grupo C−O−O e carbonato peroxoidratado (Na 2CO3-H2O2), o qual contém moléculas de peróxido de hidrogênio inseridas na estrutura do sal de carbonato. A primeira forma do percarbonato pode ser produzida eletroquimicamente utilizando eletrodos de diamante. A eficiência do processo é afetada pela densidade de corrente e temperatura 33,34. 156 Capítulo IV Geralmente, filmes de diamante são sintetizados por deposição química a partir da fase vapor (CVD) 7,9,35. O método CVD baseia-se na deposição de um filme de diamante sobre um substrato sólido, sob condições termodinamicamente metaestáveis, a partir da ativação de uma fase gasosa introduzida em um reator 35. No começo, a síntese de diamante por CVD era realizada exclusivamente sobre substratos de diamante pela decomposição térmica de gases contendo carbono (CH4 ou CO) a temperaturas entre 600 e 1200 oC. A velocidade de crescimento dos filmes de diamante por esse processo era 0,01 µm h−1, muito baixa para ser de importância comercial. Além disso, o material era frequentemente contaminado com carbono e interrupções eram necessárias para remover o grafite acumulado. Essa remoção era realizada com hidrogênio à temperatura superior a 1000 oC e pressão superior a 50 atm. Em meados de 1970, Derjaguin e Fedoseev reconheceram o papel crucial do hidrogênio atômico na remoção de depósitos de grafite e sintetizaram diamante sobre substratos diferentes do diamante, a velocidades de deposição comercialmente práticas (> 1 µm h−1) 7. Isso foi um marco histórico no desenvolvimento de técnicas CVD de síntese de diamante. No início de 1980, Matsumoto et al. revelaram os detalhes da síntese dos filmes de diamante de alta qualidade sobre substratos de Si e Mo usando o método do filamento quente para ativação da fase gasosa 7. As condições de deposição foram: a concentração de metano foi de 1% em hidrogênio, a temperatura do substrato estava compreendida entre 700-1000 oC, a temperatura do filamento foi de aproximadamente 2000 oC, a pressão gasosa total foi de 13-133 mbar e o tempo de reação foi de 3 h. Desde então, novos métodos de ativação dos gases foram desenvolvidos, como: plasma, microondas e descarga DC 7. Qualquer que seja o método utilizado, a temperatura do substrato deve ser mantida entre 700 e 1200 oC durante a 157 Capítulo IV síntese e o gás precursor deve estar diluído em um excesso de hidrogênio. Ao final do processo é obtido um filme de diamante policristalino, cuja morfologia dependerá das condições de crescimento empregadas. A velocidade de crescimento é um dos principais fatores a ser considerado, desde que a qualidade (quantidade de carbono sp3) do filme gerado diminui com o aumento da velocidade de crescimento. Assim, é evidente que o principal desafio das técnicas de síntese do diamante é o aumento da velocidade de crescimento dos filmes para tornar o processo economicamente viável, mas sem possibilitar que este aumento resulte na diminuição da qualidade dos filmes 9. Atualmente, as velocidades de crescimento dos filmes de diamante são da ordem de 0,1 a 1000 µm h−1, demonstrando uma boa perspectiva dos filmes de diamante para aplicações industriais 7. A dopagem dos filmes de diamante com boro pode ser atingida pela adição de B2H6 ou B(OCH3)3 à corrente de gás de alimentação, ou depositando boro em pó nas bordas do substrato, antes que ele seja introduzido na câmara de CVD. A concentração típica de agente dopante utilizada na síntese do diamante encontra-se compreendida no intervalo de 500 a 8000 mg dm−3. Concentrações inferiores resultam na formação de um filme de diamante com alta resistividade e concentrações superiores destroem a estrutura do diamante, formando um material com péssimas características eletroquímicas. A relação em peso entre boro e carbono empregada na produção de eletrodos de diamante dopado com boro varia entre 10−6 a 2 x 10−2. A escolha do substrato é outro fator importante na síntese dos eletrodos de diamante. Um substrato tem a função de favorecer o fluxo de corrente até o eletrodo depositado e servir de suporte mecânico. Os materiais utilizados com essa finalidade devem apresentar boa estabilidade química e eletroquímica, alta resistência mecânica, 158 Capítulo IV baixo coeficiente de expansão térmica e boa condutividade térmica e elétrica. Além disso, seu custo não deve ser elevado. Os substratos metálicos apresentam todas essas características, mas eles apresentam uma grande tendência a sofrer ataques por parte do hidrogênio no processo de síntese dos filmes de diamante. Atualmente, silício é o material mais empregado como substrato para os filmes de diamante porque atende a maioria dos requisitos citados anteriormente. Apesar disso, a utilização de filmes de BDD suportados em silício talvez represente a principal limitação para o uso desses filmes em processos industriais em grande escala, desde que silício é um substrato muito frágil. Nessa perspectiva, titânio, o qual é utilizado como suporte para os eletrodos DSA®, é um material atrativo como substrato 36. Apesar de alguns trabalhos na literatura mencionarem o uso de eletrodos Ti/BDD 11, sabe-se que a diferença entre os coeficientes de expansão térmica do diamante (0,8 x 10−6 K−1 à temperatura ambiente) e do titânio (8,5 x 10−6 K−1 à temperatura ambiente) é a principal responsável pela pobre aderência do diamante no substrato de titânio 37. Apesar disso, desde que os melhores resultados de oxidação de substâncias orgânicas são obtidos com BDD, ele serve como um material de referência na avaliação do desempenho de outros materiais eletródicos que possam vir a ser aplicados para o tratamento de efluentes em escala industrial. IV.1.1 - O modelo de Comninellis O grupo do Prof. Christos Comninellis elaborou um modelo matemático que é capaz de predizer o valor de COD e de ICE durante a eletroxidação de substâncias orgânicas em solução aquosa quando BDD é utilizado como ânodo. Esse modelo assume que os radicais HO● eletrogerados a partir da oxidação das moléculas de água 159 Capítulo IV (eq. 4.4) são intermediários da oxidação de substâncias orgânicas (reação principal, eq. 4.5) e da reação de desprendimento de oxigênio (reação lateral, eq. 4.6). BDD + H2O → BDD(●OH) + H+ + e− (4.4) x BDD(●OH) + R(aq) → x BDD + produtos da mineralização + y H+ + y e− (4.5) x BDD(●OH) → BDD + 1 O2 + H+ + e− 2 (4.6) O modelo de Comninellis foi desenvolvido para sistemas em batelada sob recirculação assumindo as seguintes suposições: (a) a adsorção de compostos orgânicos na superfície do eletrodo é negligenciável; (b) todos os compostos orgânicos têm o mesmo coeficiente de difusão; (c) a mineralização eletroquímica dos compostos orgânicos é uma reação rápida controlada por transporte de massa desses à superfície do ânodo, ou seja, a velocidade da reação de mineralização não depende da natureza química dos compostos no eletrólito; (d) o eletrólito, na célula eletroquímica e no reservatório, está bem misturado; (e) o volume de eletrólito no reservatório (VR) é muito maior do que na célula eletroquímica (VE); (f) a oxidação dos compostos orgânicos por outros agentes oxidantes (Cl2, H2O2, O3, S2O82−, P2O84− ou C2O62−) não é considerada. Sob essas condições, a relação entre a densidade de corrente limite e a COD é dada pela seguinte equação: i lim (t ) = 4Fk m COD(t ) (4.7) onde ilim(t) é a densidade de corrente limite (A m−2) em um determinado tempo t, F é a constante de Faraday (C mol−1), km é o coeficiente de transferência de massa na célula 160 Capítulo IV eletroquímica (m s−1) e COD(t) é a COD (mol m−3) da solução eletrolítica no tempo t. De acordo com a densidade de corrente aplicada (iappl), é possível identificar dois regimes operantes: (i) iappl < ilim: a cinética da reação é controlada por transferência de carga, ICE é 100% e a velocidade de remoção de COD é constante, ou seja, COD diminui linearmente com o tempo (Figura 4.1); (ii) appl > ilim: a cinética da reação é controlada por transferência de massa. Reações secundárias, tais como a reação de desprendimento de oxigênio, começam a ocorrer resultando em uma diminuição de ICE em função do tempo. Nesse caso, a diminuição de COD com o tempo tem um comportamento exponencial (Figura 4.1). Na Figura 4.1, tc é o tempo crítico. Ele corresponde ao instante em que o processo deixa de ser controlado por transferência de carga e passa a ser controlado por transferência de massa. Na Tabela IV.1 são apresentadas as funções matemáticas de ICE e COD de acordo com o modelo proposto por Comninellis. Detalhes sobre essas equações podem ser obtidos na referência 12. Quando iappl > ilim, o balanço de massa em uma célula eletroquímica em fluxo (do tipo filtro-prensa) pode ser expresso de acordo com a eq. 4.8. dCOD Ak COD =− m dt VR (4.8) onde A é a área do ânodo (m2), km é o coeficiente de transferência de massa na célula eletroquímica (m s−1), VR é o volume do reservatório (m3), COD é a Demanda Química de Oxigênio (mol m−3), and t é o tempo (s). 161 Capítulo IV (I) (II) COD COD0 COD(tc) 0 Tempo ICE 1 (I) (II) 0 tc Tempo Figura 4.1: Representação gráfica das predições do modelo de Comninellis para a COD (acima) e a ICE (abaixo) durante a oxidação eletroquímica de um composto orgânico. Em (I), a cinética da reação é controlada por transferência de carga (iappl < ilim). Em (II), a cinética da reação é controlada por transferência de massa (iappl > ilim). 162 Capítulo IV Tabela IV.1: Equações que descrevem ICE e COD durante a oxidação de compostos orgânicos sobre BDD iappl ICE COD iappl < ilim ICE(t) = 1 COD(t) = COD0 ( 1 - iappl > ilim ICE(t) = exp ( - αAk m t ) VR Ak m 1- α Ak m 1- α t+ t+ ) COD(t) = αCOD0 exp ( ) VR α VR α A equação que descreve COD em função do tempo quando iappl > ilim é obtida a partir da integração da eq. 4.8 de t = tc a t e de COD = αCOD0 a COD(t). Nesse caso, a equação obtida é válida a partir de tc para eletrólises que foram iniciadas em uma condição controlada por transferência de carga (iappl < ilim) e que após certo intervalo de tempo passou a ser controlada por transferência de massa (iappl > ilim). Se a eletrólise é iniciada a uma densidade de corrente maior que ilim, condição em que todas as eletrólises deste trabalho foram realizadas, a eq. 4.8 deve ser integrada de 0 a t e de COD0 a COD(t). Essa integração leva à obtenção da eq. 4.9. Ak COD(t ) = COD0 exp − m t VR (4.9) ICE pode ser calculada combinando as equações 4.9 e 4.10 a. ICE = − a 4 FV dCOD I dt (4.10) A eq. 4.9 difere da eq. 3.7 apenas nas unidades de COD. Na eq. 4.9, COD deve ser expressa em mol m−3, enquanto que na eq. 3.7, ela deve ser expressa em g L−1. 163 Capítulo IV IV.2 - Procedimento experimental IV.2.1 - Determinação do coeficiente de transferência de massa Os experimentos de degradação eletroquímica utilizando BDD foram realizados em uma célula filtro-prensa similar à mostrada na Figura 4.2. Um eletrodo de Si/BDD (fornecido e sintetizado pela Adamant Technologies, Suíça) e uma placa de aço inovidável foram utilizados como ânodo e cátodo, respectivamente. Ambos os eletrodos possuíam área geométrica de 20 cm2 e a distância entre eles era de 1,4 cm. Para facilitar a utilização do eletrodo de BDD na célula filtro-prensa, um contato elétrico foi estabelecido entre Si/BDD e uma placa de aço inoxidável usando uma pasta de prata. Todos os experimentos foram realizados utilizando 250 mL de solução, os quais foram recirculados nessa célula por uma bomba centrífuga da Sanso, modelo PMD-211, à velocidade de fluxo de 90 L h−1. A temperatura da solução foi mantida em em 30 ± 3 oC. O coeficiente de transferência de massa (km) foi determinado por meio da técnica de corrente limite de difusão utilizando soluções constituídas por misturas equimolares de ferricianeto de potássio (K3[Fe(CN)6)].3H2O - Merck) e ferrocianeto de potássio (K4[Fe(CN)6)].3H2O) - Merck) com concentrações compreendidas no intervalo de 0,010 a 0,075 mol L−1 na presença de NaOH 0,1 mol L−1. Cada solução (250 mL) foi recirculada na célula a um fluxo constante (90 L h−1). A diferença de potencial aplicada entre o cátodo e o ânodo foi gradativamente aumentada e os valores de corrente foram registrados. Na Figura 4.3 são apresentadas as curvas de corrente vs. potencial de célula obtidas para as várias concentrações de [Fe(CN)6]3− e [Fe(CN)6]4− uitilizadas. 164 Capítulo IV Saída de solução Entrada de solução Figura 4.2: Célula eletroquímica utilizada nos estudos com o eletrodo de BDD 38. Acima é mostrado um esquema dos constituintes dessa célula. Apesar de serem mostrados dois distribuidores e um separador (arranjo em que o compartimento anódico é separado do catódico), nos estudos realizados neste trabalho, a célula foi montada com um único distribuidor e sem separador (arranjo com um único compartimento). Além disso, uma malha de titânio é mostrada como ânodo. No lugar dessa malha foi utilizado um eletrodo de BDD de 5 cm x 4 cm (placa contínua). 165 0,35 0,30 Corrente /A 0,25 Corrente limite / A Capítulo IV 0,20 0,25 0,20 0,15 0,10 0,05 0,00 0,00 0,02 0,04 0,06 0,08 [Fe(CN)6]3+ + [Fe(CN)6]4+ / mol L-1 0,15 0,10 0,05 0,00 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 Potencial de célula / V Figura 4.3: Curvas de corrente-voltagem para a determinação de km na célula eletroquímica empregada nos estudos com BDD. As curvas são referentes às seguintes concentrações equimolares de [Fe(CN)6]3− e [Fe(CN)6]4−: (─■─) 0,010 mol L−1, (─●─) 0,025 mol L−1, (─▲─) 0,050 mol L−1 e (─▼─) 0,075 mol L−1. Acima é mostrada a dependência da corrente limite com a concentração de [Fe(CN)6]3− + [Fe(CN)6]4−. Na célula contendo [Fe(CN)6]3− e [Fe(CN)6]4−, as reações indicadas pelas equações 4.11 e 4.12 ocorrem no cátodo e no ânodo, respectivamente 39. [Fe(CN)6]3− + e− → [Fe(CN)6]4− (4.11) [Fe(CN)6]4− → [Fe(CN)6]3− + e− (4.12) À medida que o potencial de célula aumenta, a corrente do processo redox [Fe(CN)6]3−∕[Fe(CN)6]4− também aumenta até atingir um patamar onde ela não varia significativamente com o potencial aplicado. A altura desse patamar é proporcional à 166 Capítulo IV concentração de espécies de ferro em solução e é chamada de corrente limite do processo redox para o par [Fe(CN)6]3−∕[Fe(CN)6]4−. Se o potencial de célula é elevado ainda mais, a corrente aumenta bruscamente devido à reação de oxi-redução do eletrólito ou do solvente 38. A relação entre km, corrente limite (Ilim) e concentração de [Fe(CN)6]3−∕[Fe(CN)6]4− é dada pela eq. 4.13 38,39. onde n é o número km = 1 I lim 2+ nFA [Fe / Fe3+ ] de elétrons envolvidos (4.13) na reação redox (para [Fe(CN)6]3−∕[Fe(CN)6]4−, n = 1), F é a constante de Faraday, A é a área do eletrodo e Ilim/[Fe2+/Fe3+] é o coeficiente angular da reta mostrada na Figura 4.3. O valor de km determinado para a célula eletroquímica foi de 1,4 x 10−5 m s−1. IV.2.2 - Degradação de um efluente de curtume sintético utilizando BDD O efluente de curtume sintético foi preparado de acordo com o procedimento descrito no item III.2.4.1, mas sem os reagentes Leukotan 1028 e Densotan A. Ele foi caracterizado quanto aos seguintes parâmetros: TOC, COD e fenóis totais. TOC foi determinado em um analisador da Analytik Jena micro N/C. COD foi analisada pelo método colorimétrico do refluxo fechado usando o teste em cubeta para COD Spectroquant® (Merck), um bloco digestor Stuart Scientific, e um espectrofotômetro Spectroquant® Nova 60. Fenóis foram medidos utilizando o teste em cubeta para fenol (método da MBTH) e o mesmo espectrofotômetro descrito anteriormente. As eletrólises do efluente de curtume sintético foram realizadas em condições galvanostáticas por 4 ou 5 h utilizando uma fonte Blausonic DC. Na2SO4 0,1 mol L−1 foi utilizado como eletrólito suporte em todas as eletrólises. Alíquotas de efluente foram 167 Capítulo IV coletadas a cada 1 h para serem analisadas. Os efeitos do pH, do material anódico e da densidade de corrente foram investigados. As eletrólises foram realizadas nas seguintes condições: (a) Si/BDD, 25 mA cm−1 e pH 2,4; (b) Si/BDD, 25 mA cm−1 e pH 7,3; (c) Si/BDD, 25 mA cm−1 e pH 12,0; (d) Si/BDD, 50 mA cm−1 e pH 2,4; (e) Si/BDD, 100 mA cm−1 e pH 2,4; (f) Ti/SnO2-Sb, 25 mA cm−1 e pH 2,4 e (g) Ti/Ir0,10Sn0,90O2-Sb, 25 mA cm−1 e pH 2,4. Os eletrodos Ti/SnO2-Sb e Ti/Ir0,10Sn0,90O2-Sb foram preparados pelo método de decomposição térmica de solução etanólica de sais precursores 40. Os sais precursores foram: cloreto de irídio (III) hidratado da Aldrich, cloreto de estanho (IV) pentahidratado da Aldrich e cloreto de antimônio (III) da Fluka. IV.2.3 - Degradação do corante preto ácido 210 utilizando BDD A degradação eletroquímica do corante preto ácido 210 (AB-210) foi realizada em soluções tampões fosfato utilizando o eletrodo de BDD. O corante preto ácido 210, o qual é vendido no Brasil com o nome comercial de Preto Duacouro MK (A Chimical) foi fornecido pela Couroquímica Couros e Acabamentos Ltda. H3PO4 (Merck), Na2HPO4 (Panreac), NaH2PO4.H2O (Merck) e Na3PO4.12H2O (Merck) foram utilizados no preparo das soluções tampões. As soluções tampões fosfato (0,50 mol L−1) foram preparadas a partir dos seguintes reagentes: NaH2PO4.H2O (a) tampão 0,25 mol L−1; fosfato (b) tampão pH 1,9 ± 0,1: fosfato H3PO4 pH 6,8 ± 0,1: 0,25 mol L−1 e NaH2PO4.H2O 0,20 mol L−1 e Na2HPO4 0,30 mol L−1 e (c) tampão fosfato pH 11,7 ± 0,1: Na2HPO4 0,25 mol L−1 e Na3PO4.12H2O 0,25 mol L−1. 168 Capítulo IV As soluções do corante submetidas às eletrólises foram preparadas na presença de 0,20 mol L−1 de tampões fosfato. Cada 250 mL de solução foi preparado pela mistura de 125 mg de corante, 100 mL de tampão fosfato 0,50 mol L−1 e água, resultando em uma concentração de corante de 500 mg L−1. NaCl (0,10 mol L−1) também foi adicionado a algumas soluções. A célula utilizada nas eletrólises, bem como as condições de fluxo, temperatura e os equipamentos utilizados foram descritos anteriormente. Um eletrodo Ag/AgCl/KCl sat. foi utilizado como referência. A fim de avaliar a influência da densidade de corrente, pH e íons cloreto na eletroxidação de 500 mg L−1 de AB-210 sobre BDD, na presença de 0,20 mol L−1 de tampão fosfato, eletrólises foram realizadas nas seguintes condições: (a) 25 mA cm−2 e pH 6,8 ± 0,1; (b) 50 mA cm−2 e pH 6,8 ± 0,1; (c) 100 mA cm−2 e pH 6,8 ± 0,1; (d) 25 mA cm−2 e pH 1,9 ± 0,1; (e) 25 mA cm−2 e pH 11,7 ± 0,1; (f) 25 mA cm−2, pH 1,9 ± 0,1 e NaCl 0,10 mol L−1; (g) 25 mA cm−2, pH 6,8 ± 0,1 e NaCl 0,10 mol L−1 e (h) 25 mA cm−2, pH 11,7 ± 0,1 e NaCl 0,10 mol L−1. Uma eletrólise também foi realizada em solução de NaOH (Merck) 0,20 mol L−1 a 25 mA cm−2, para comparar os resultados com aqueles obtidos na presença de íons fosfato. Amostras foram coletadas a cada 1 h por um período total de 5 h. Para calcular as constantes de velocidade para a remoção de COD e absorbância, as eletrólises acima foram repetidas e alíquotas foram coletadas a cada 10 ou 15 min durante 1 h. As análises de COD e TOC foram realizadas como descrito no item IV.2.2. Espectros UV-Vis foram registrados entre 200 e 800 nm utilizando dois espectrofotômetros: um espectrofotômetro Heλios γ da Thermo Electron Corporation e o outro da Shimadzu modelo UV-2401 PC. O pH de todas as soluções foi ajustado em 169 Capítulo IV 6,8 ± 0,1 com uma solução 0,50 mol L−1 de tampão fosfato (pH 6.8 ± 0.1), antes dos espectros serem registrados. Para as eletrólises realizadas na presença de cloreto, análises de AOX foram realizadas utilizando o teste em cubeta para AOX Spectroquant® (Merck) e o mesmo bloco digestor e espectrofotômetro utilizados nas análises de COD. IV.2.4 - Cálculos de eficiência de corrente, eficiência de corrente instantânea, consumo de energia e constantes de velocidade. As eficiências de corrente média e instantânea foram calculadas, a partir de COD, de acordo com as equações 4.14 e 4.15. CE = FV COD 0 - COD t 8It (4.14) FV dCOD 8I dt (4.15) ICE = - onde COD0 e CODt são a COD (g L‒1) nos tempos 0 and t (s), respectivamente, I é a corrente aplicada (A), F é a constante de Faraday (96487 C mol‒1), V é o volume de solução (L) e dCOD/dt é a derivada da curva COD vs. t obtida com o programa Microcal Origin®, considerando um decaimento exponencial de primeira ordem. A eficiência de corrente a partir de TOC foi calculada de acordo com a eq. 4.16. CE = 2,67FV TOC 0 - TOC t 8It (4.16) onde TOC0 e TOCt são o TOC (g L−1) nos tempos 0 e t (s), respectivamente. 170 Capítulo IV O consumo de energia (EC) foi calculado em kWh m−3 de acordo com a eq. 4.17. EC = UIt 1000 V (4. 17) onde U é o potencial médio de célula durante a eletrólise (V), I é a corrente aplicada (A), t é o tempo de eletrólise (h) e V é o volume de efluente (m3). As constantes de velocidade para a remoção COD e absorbância em 460 nm do efluente sintético foram calculadas de acordo com as equações 4.18 e 4.19, respectivamente. COD = - k COD t * COD 0 (4.18) Abs = - k Abs-460 nm t * Abs 0 (4.19) ln ln onde COD e COD0 são as COD nos tempos t* (h) e 0, respectivamente, Abs e Abs0 são os valores de absorbância em 460 nm e t* é o tempo corrigido considerando a variação de volume causada pela amostragem de acordo com o método descrito por Choo et al. 41 para reações de primeira ordem. IV.3 - Resultados e Discussão IV.3.1 - Tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético: efeito do pH, da densidade de corrente e da natureza do eletrodo O efluente de curtume sintético utilizado nos estudos de degradação com BDD apresentou uma concentração de fenóis totais média de 73 ± 2 mg L−1, um COD médio de 2366 ± 28 mg L−1 e um TOC médio de 756 ± 6 mg L−1. 171 Capítulo IV Na Figura 4.4 são apresentadas curvas de diminuição de fenóis totais, COD e TOC em função do tempo para as eletrólises do efluente sintético com BDD em três diferentes condições de pH. Observa-se que a variação do pH não afetou significativamente a remoção de fenóis totais, COD e TOC. O pH do efluente se manteve constante para as eletrólises realizadas em pH 2,4 e 7,3, mas diminuiu para 7,6 depois de 5 h de eletrólise quando a eletrólise foi iniciada em pH 12,0. Os potenciais de célula foram similares para as três condições. Na Figura 4.5 pode ser observado o efeito da densidade de corrente sobre o tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético com BDD. À medida que a densidade de corrente aumenta, as velocidades de remoção de fenóis totais, COD e TOC também aumentam. A 100 mA cm−2, as remoções de fenóis totais e TOC foram de 100% e 98% após 3 e 4 h de eletrólise, respectivamente. O pH do efluente permaneceu constante durante as eletrólises realizadas a 25 e 50 mA cm−2, mas aumentou para 11,2 após 5 h de eletrólise a 100 mA cm−2. Na Figura 4.6 são apresentadas as curvas de fenóis totais, COD e TOC em função do tempo obtidas a partir da eletroxidação do efluente sintético a 25 mA cm−2, com diferentes materiais eletródicos. Como pode ser observado, Si/BBD foi o eletrodo que apresentou o melhor desempenho, seguido pelo Ti/SnO2-Sb. Apesar do bom desempenho do eletrodo Ti/SnO2-Sb, após 4 h de eletrólise ele sofreu desativação. O baixo tempo de vida desse eletrodo impossibilita seu uso para aplicações industriais. Mudanças pouco significantes ocorreram quando o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2-Sb foi aplicado ao tratamento eletroquímico do efluente sintético, confirmando que eletrodos do tipo DSA® não são bons para a oxidação direta de substâncias orgânicas, principalmente porque apresentam baixo sobrepotencial para a reação de 172 Capítulo IV desprendimento de oxigênio. Apesar disso, como apresentado no capítulo III desta tese, os resultados obtidos com esse tipo de eletrodo podem ser significativamente melhorados na presença de cloreto. Na Tabela IV.2 são apresentados os valores de CE e de energia consumida após 4 h de eletrólise nas diferentes condições estudadas. Embora o aumento da densidade de corrente resulte em remoções mais rápidas de COD e TOC, os valores de CE diminuem porque maiores densidades de corrente favorecem a reação de desprendimento de oxigênio. Além disso, o consumo de energia aumenta com o aumento da densidade de corrente. As eficiências de corrente aumentaram na seguinte ordem: Ti/Ir0,10Sn0,90-Sb < Ti/SnO2-Sb < Si/BDD. Ti/Ir0,10Sn0,90-Sb foi o eletrodo que resultou no menor gasto de energia em kWh m−3, mas, desde que ele foi pouco eficiente para a oxidação das substâncias orgânicas do efluente, a energia foi gasta na geração de oxigênio. Assim, a melhor relação custo-benefício foi alcançada com o eletrodo Si/BDD. Tabela IV.2: Eficiências de corrente calculadas a partir de COD e TOC e consumo de energia após 4 h de eletroxidação do efluente sintético na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 (pH inicial = 2,4) Eficiência de corrente COD TOC Consumo de energia (kWh m−3) 0,73 0,66 50,0 0,46 0,39 131,2 0,22 0,21 407,2 Ti/SnO2-Sb, 25 mA cm 0,49 0,48 43,6 Ti/Ir0,10Sn0,90-Sb, 25 mA cm−2 0,05 0,02 40,0 Condição de eletrólise −2 Si/BDD, 25 mA cm −2 Si/BDD, 50 mA cm −2 Si/BDD, 100 mA cm −2 173 Capítulo IV [Fenóis]/[Fenóis]0 1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 (A) 0,0 0 1 2 3 4 5 4 5 4 5 Tempo / h 1,0 COD/COD0 0,8 0,6 0,4 0,2 (B) 0,0 0 1 2 3 Tempo / h 1,0 TOC/TOC0 0,8 0,6 0,4 0,2 (C) 0,0 0 1 2 3 Tempo / h Figura 4.4: Efeito do pH sobre a remoção de (A) fenóis totais, (B) COD e (C) TOC durante o tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 a 25 mA cm−2, utilizando um eletrodo BDD como ânodo: (──) pH =2,4, (──) pH =7,3 e (─▲─) pH = 12,0. 174 Capítulo IV [Fenóis]/[Fenóis]0 1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 (A) 0,0 0 1 2 3 4 3 4 3 4 Tempo / h 1,0 COD/COD0 0,8 0,6 0,4 0,2 (B) 0,0 0 1 2 Tempo / h 1,0 TOC/TOC0 0,8 0,6 0,4 0,2 (C) 0,0 0 1 2 Tempo / h Figura 4.5: Efeito da densidade de corrente sobre a remoção de (A) fenóis totais, (B) COD e (C) TOC durante o tratamento eletroquímico do efluente de curtume sintético na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 em pH =2,4, utilizando um eletrodo BDD como ─ânodo: ( ─) 25 mA cm−2, (──) 50 mA cm−2 e (─▲─) 100 mA cm−2. 175 Capítulo IV [Fenóis]/[Fenóis]0 1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 (A) 0,0 0 1 2 3 4 3 4 3 4 Tempo / h 1,0 COD/COD0 0,8 0,6 0,4 0,2 (B) 0,0 0 1 2 Tempo / h 1,0 TOC/TOC0 0,8 0,6 0,4 0,2 (C) 0,0 0 1 2 Tempo / h Figura 4.6: Efeito do material eletródico sobre a remoção de (A) fenóis totais, (B) COD e (C) TOC durante o tratamento eletroquímico de um efluente de curtume sintético na presença de 0,1 mol L−1 de Na2SO4 em pH =2,4, a 25 mA cm−2: (──) Si/BDD, (──) Ti/SnO2-Sb e (─▲─) Ti/Ir0,10Sn0,90O2-Sb. 176 Capítulo IV IV.3.2 - Eletroxidação do corante AB-210 utilizando BDD na presença de íons fosfato: efeito da densidade de corrente, pH e íons cloreto Preto ácido 210 (AB-210) é um corante com três grupos azo−N=N−) ( em sua estrutura (Figura 1.13) que é bastante utilizado no tingimento de couros. Na Figura 4.7 são apresentados os espectros UV-Vis obtidos a partir da solução de AB-210 em três diferentes condições de pH. Nessa figura, três bandas bem definidas podem ser observadas nas regiões de 320, 460 e 600 nm, cujas intensidades e/ou λmáx são afetados pelo pH. Quando o pH aumenta de 1,9 para 6,8, não há mudanças significativas nas bandas em 320 e 600 nm, mas a intensidade da banda em 460 nm diminui. Em pH 11,7, a banda em 460 nm é similar àquela observada em pH 1,9, mas as bandas em 320 e 600 nm são mais intensas do que aquelas em pH 1,9 e 6,8. Além disso, quando o pH aumenta de 6,8 para 11,7, ocorre um alargamento da banda na região de 600 nm e é observado um deslocamento batocrômico de λseu máx de 600 para 629 nm. Esse comportamento espectral do AB-210 é reversível, desde que as soluções de corante preparadas em pH 1,9 e 11,7 apresentaram espectros similares depois do pH ser ajustado em 6,8. O efeito do pH sobre o espectro de absorção do corante deve-se às diferentes formas assumidas por ele em solução aquosa, as quais apresentam diferentes propriedades espectrais. Em valores de pH muito baixos, os grupos amina e hidroxil do corante estão todos protonados (R2−NH3+, R3−NH2+−R4, R5−OH). À medida que o pH aumenta, esses grupos começam a ser gradualmente desprotonados a partir do grupo ácido mais forte (com menor pKa) para o grupo ácido mais fraco (com maior pKa). Em valores de pH altos, o corante encontra-se completamente desprotonado (R1−SO3−, R2−NH2, R3−NH−R4, R5−O−). Durante a oxidação eletroquímica do corante AB-210, a diminuição dos valores de absorbância em 320, 460 e 600 nm foi avaliada. Embora a cor de uma solução seja 177 Capítulo IV frequentemente associada à absorção na região visível, foi observado para as soluções de AB-210 que quando os valores de absorbância em 460 e 600 nm atingiam zero, a solução ainda apresentava cor, mas completa ausência de cor foi observada quando o valor de absorbância em 320 nm foi igual a zero. Desde que o cromóforo azo simples isolado apresenta um λmáx em 340 nm devido às transições n → π* 42, é provável que a banda em 320 nm seja devida a estes grupos e que o deslocamento de λmáx de 340 para 320 nm seja causado pelos grupos substituintes R1 e R2 (R1−N=N−R2). Embora 320 nm seja o melhor comprimento de onda para avaliar a remoção da cor para as soluções do corante AB-210, cálculos cinéticos foram realizados λpara = 460 nm porque a diminuição dos valores de absorbância nesse comprimento de onda seguiu uma cinética de primeira ordem em todas as condições de eletrólise estudadas. A Figura 4.8 mostra a variação de COD e ICE em função do tempo durante a oxidação eletroquímica do corante AB-210 em tampão fosfato em diferentes densidades de corrente. Uma solução de AB-210 500 mg L−1 apresenta uma COD média de 273 ± 6 mg L−1 e um TOC médio de 122 ± 3 mg L−1. A densidade de corrente limite inicial para essa solução na célula eletroquímica utilizada, calculada pela eq. 4.7, foi 4,6 mA cm−2. Desde que em todas as eletrólises realizadas para o corante AB-210 a densidade de corrente aplicada excedeu a densidade de corrente limite, elas foram controladas por transferência de massa. A diminuição de COD nas soluções de corante seguiu uma cinética de primeira ordem, comportamento típico de reações controladas por transferência de massa (Figura 4.8(A)). O aumento da densidade de corrente resultou em remoções mais rápidas de COD e, consequentemente, maiores constantes de velocidade foram obtidas (Tabela IV.3). ICE também diminuiu exponencialmente em função do tempo e, desde que maiores densidades de corrente favorecem a reação de 178 Capítulo IV desprendimento de oxigênio, menores valores de ICE foram obtidos em cada instante de tempo à medida que a densidade de corrente aumentou (Figura 4.8(B)). 1,2 460 320 Absorbância 0,9 600 0,6 0,3 pH = 1,9 ± 0,1 pH = 6,8 ± 0,1 pH = 11,7 ± 0,1 0,0 200 300 400 500 600 700 800 Comprimento de onda / nm Figura 4.7: Espectro de absorção de soluções aquosas de AB-210 50 mg L−1 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 em diferentes condições de pH. Tabela IV.3: Constantes de velocidade para a remoção de COD e absorbância em 460 nm obtidas a partir da oxidação eletroquímica de 500 mg L−1 de AB-210 utilizando ânodo de BDD kCOD (h-1) kAbs-460 nm (h-1) pH 1,9 ± 0,1, 25 mA cm-2 0,27 (R = 0,999) 0,49 (R = 0,991) pH 6,8 ± 0,1, 25 mA cm-2 0,30 (R = 0,996) 0,32 (R = 0,999) -2 pH 6,8 ± 0,1, 50 mA cm 0,47 (R = 0,999) 0,89 (R = 0,998) pH 6,8 ± 0,1, 100 mA cm-2 0,78 (R = 0,999) 1,86 (R = 0,996) -2 0,83 (R = 0,997) 2,28 (R = 0,993) 0,33 (R = 0,999) 0,95 (R = 0,999) pH 1,9 ± 0,1, 25 mA cm com 0,10 mol L NaCl 1,44 (R = 0,999) 9,53 (R = 0,994) pH 6,8 ± 0,1, 25 mA cm-2 com 0,10 mol L-1 NaCl 1,30 (R = 0,999) 2,61 (R = 0,990) 1,20 (R = 0,999) 1,09 (R = 0,999) Condição de eletrólise pH 11,7 ± 0,1, 25 mA cm pH 12,9 ± 0,1, 25 mA cm-2 em 0,20 mol L-1 NaOH* -2 -2 -1 -1 pH 11,7 ± 0,1, 25 mA cm com 0,10 mol L NaCl * Todas as eletrólises, exceto esta, foram realizadas na presença de 0,20 mol L−1 de tampão fosfato. R são os coeficientes de correlação obtidos a partir da regressão linear de ln(COD/COD0) vs. t* e ln(Abs/Abs0) vs. t*. 179 Capítulo IV 1,0 Densidade de corrente / mA cm-2 25 50 COD/COD0 0,8 100 0,6 0,4 0,2 0,0 (A) 0 1 2 3 4 5 Tempo / h 0,16 Densidade de corrente / mA cm-2 25 50 100 ICE 0,12 0,08 0,04 0,00 (B) 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 4.8: Efeito da densidade de corrente sobre a eletroxidação de 500 mg L−1 de corante AB-210 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 (pH =6,8), utilizando BDD como ânodo. (A) COD/COD0 e (B) ICE em função do tempo de eletrólise. 180 Capítulo IV A absorbância relativa da solução de corante em 320, 460 e 600 nm também diminui em função do tempo de eletrólise e diminuições mais rápidas foram obtidas a densidades de correntes mais altas (Figura 4.9). Os valores de constantes de velocidade para a remoção da absorbância em 460 nm são apresentados na Tabela IV.3. As diminuições de absorbância em 460 e 600 nm são mais rápidas do que em 320 nm. Depois de 2 h de eletrólise a 100 mA cm−2, os valores de absorbância em 460 e 600 nm atingem zero, enquanto que em 320 nm, esse valor só é atingido depois de 3 h. A Figura 4.10 mostra a variação de COD e ICE em função do tempo durante a eletroxidação do corante AB-210 em tampão fosfato a 25 mA cm−2, em diferentes condições de pH. Os valores das constantes de velocidade (Tabela IV.3) e o perfil das curvas na Figura 4.10(A) mostram claramente que a velocidade de remoção de COD em pH 1,9 é similar à velocidade em pH 6,8, mas é muito maior a pH 11,7. Neste pH, ICE inicial é maior do que 0,4 enquanto que, em pH 1,9 e 6,8, ICE assume valores iniciais menores do que 0,2 (Figura 4.10(B)). Depois de 1,5 h, ICE em pH 11,7 torna-se menor do que aqueles obtidos nas demais condições. Com relação à diminuição dos valores de absorbância em função do tempo, comportamentos similares foram observados em 320 nm para as eletrólises realizadas em pH 1,9 e 6,8 (Figura 4.11). Entretanto, quando os valores em 460 e 600 nm são avaliados, a absorbância diminui levemente mais rápida em pH 1,9 do que em pH 6,8. Para os três comprimentos de onda, a remoção de absorbância é mais eficiente em tampão fosfato com pH 11,7. 181 Capítulo IV 1,0 Densidade de corrente / mA cm-2 25 50 100 Abs/Abs0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 320 nm 0 1 2 3 4 5 Tempo / h 1,0 Densidade de corrente / mA cm-2 25 50 100 Abs/Abs0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 460 nm 0 1 2 3 4 5 Tempo / h 1,0 Densidade de corrente / mA cm-2 25 50 100 Abs/Abs0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 600 nm 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 4.9: Diminuição da absorbância relativa (Abs/Abs0) em 320, 460 e 600 nm para a solução de corante AB-210 500 mg L−1 em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados em tampão fosfato 0,20 mol L−1 (pH =6,8), utilizando BDD em diferentes densidades de corrente. 182 Capítulo IV 1,0 pH = 1,9 ± 0,1 pH = 6,8 ± 0,1 pH = 11,7 ± 0,1 COD/COD0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 (A) 0 1 2 3 4 5 Tempo / h 0,5 pH = 1,9 ± 0,1 pH = 6,8 ± 0,1 pH = 11,7 ± 0,1 0,4 ICE 0,3 0,2 0,1 0,0 (B) 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 4.10: Efeito do pH sobre a eletroxidação de 500 mg L−1 de corante AB-210 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 a 25 mA cm−2, utilizando BDD como ânodo. (A) COD/COD0 e (B) ICE em função do tempo de eletrólise. 183 Capítulo IV 1,0 pH = 1,9 ± 0,1 pH = 6,8 ± 0,1 pH = 11,7 ± 0,1 Abs/Abs0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 320 nm 0 1 2 3 4 5 Tempo / h 1,0 pH = 1,9 ± 0,1 pH = 6,8 ± 0,1 pH = 11,7 ± 0,1 Abs/Abs0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 460 nm 0 1 2 3 4 5 Tempo / h 1,0 pH = 1,9 ± 0,1 pH = 6,8 ± 0,1 pH = 11,7 ± 0,1 Abs/Abs0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 600 nm 0 1 2 3 4 5 Tempo / h Figura 4.11: Diminuição da absorbância relativa (Abs/Abs0) em 320, 460 e 600 nm para a solução 500 mg L−1 de AB-210 em função do tempo de eletrólise para os experimentos realizados em tampão fosfato 0,20 mol L−1, com ânodo de BDD a 25 mA cm−2 em diferentes condições de pH. 184 Capítulo IV A eletrólise realizada em pH 11,7 e a 25 mA cm−2 também mostrou melhor desempenho para a remoção de COD e absorbância em 460 nm do que aquela realizada em pH 11,7 e a 25 mA cm−2. A constante de velocidade para a remoção de COD na primeira condição é um pouco maior do que na segunda e a remoção de absorbância em 460 nm é muito mais rápida na primeira condição (Tabela IV.3). Entretanto, completa remoção de absorbância é atingida em 320 nm depois de 3 h de eletrólise em pH 6,8 e a 100 mA cm−2, enquanto que em pH 11,7 e a 25 mA cm−2 isso acontece somente depois de 4 h. A partir as curvas de COD vs. tempo para as eletrólises realizadas em pH 6,8 e a 100 mA cm−2 (Figura 4.8(A)) e em pH 11,7 e a 25 mA cm−2 (Figura 4.10(A)), observase que a COD não atinge zero, mas ela permanece constante após 3 h de eletrólise. Além disso, os valores de COD na primeira condição são levemente maiores do que na última (a partir de 3 h de eletrólise). É provável que esse comportamento seja devido à produção de H2O2, o que pode ocorrer quando BDD é utilizado como ânodo. De fato, H2O2 foi detectado quando BDD foi utilizado na eletroxidação de ácido clofíbrico 43. Durante eletrólises de 100 mL de soluções contendo 179 mg L−1 de ácido clofíbrico, em pH 3,0 e a 25 oC, a concentração de H2O2 atingiu 0,5 mol L−1 após 2 h a 33 mA cm−2, e aproximadamente 1,0 mol L−1 depois de 4 h a 100 mA cm−2. Em ambas as condições, estas concentrações de H2O2 permaneceram constantes até 7 h de eletrólise. A presença de H2O2 na solução pode influenciar as análises de COD porque Cr2O72− é capaz de oxidá-lo a oxigênio molecular de acordo com a eq. 4.20 44. Um mol de H2O2 apresenta uma demanda de oxigênio teórica de 16 g 45. 3 H2O2 + Cr2O72− + 8 H+ → 3 O2 + 2 Cr3+ + 7 H2O (4.20) 185 Capítulo IV Análises de TOC também foram realizadas para avaliar o efeito da densidade de corrente sobre a mineralização do AB-210. Na Tabela IV.4 são apresentadas as percentagens de remoção de TOC em função do tempo, bem como o consumo de energia para as várias condições de eletrólise estudadas. Em pH 6,8, maiores densidades de corrente levaram a maiores remoções de COD com mais altos gastos de energia. Além disso, nesse pH e à densidade de corrente de 100 mA cm−2, completa remoção de TOC foi atingida depois de 3 h de eletrólise. Para as eletrólises realizadas a 25 mA cm−2, a remoção de TOC obtida depois de 5 h em pH 1,9 foi levemente maior do que a obtida em pH 6,8, mas em pH 11,7, 100% de remoção de TOC foi atingida no mesmo intervalo de tempo. Além do bom desempenho da eletrólise em pH 11,7 para a remoção de TOC e dos demais parâmetros avaliados, ela foi energeticamente mais eficiente do que as outras condições. Tabela IV.4: Remoção de TOC em função do tempo e consumo de energia na eletroxidação de 500 mg L−1 de AB-210 utilizando ânodo de BDD Remoção de TOC (%) 1h 3h 5h Consumo de energia no fim da eletrólise (kWh m−3) -2 17,9 47,8 70,7 72,0 -2 25,5 51,0 64,6 59,0 -2 27,7 74,0 96,8 166,0 -2 46,3 100,0 − 288,0 30,1 68,7 100,0 53,0 Condição de eletrólise pH 1,9 ± 0,1, 25 mA cm pH 6,8 ± 0,1, 25 mA cm pH 6,8 ± 0,1, 50 mA cm pH 6,8 ± 0,1, 100 mA cm -2 pH 11,7 ± 0,1, 25 mA cm -2 -1 pH 12,9 ± 0,1, 25 mA cm em 0,20 mol L NaOH* 17,2 40,2 60,3 50,0 -2 -1 42,2 56,8 67,8 64,0 -2 -1 pH 6,8 ± 0,1, 25 mA cm com 0,10 mol L NaCl 21,6 52,6 60,3 55,0 pH 11,7 ± 0,1, 25 mA cm-2 com 0,10 mol L-1 NaCl 24,6 62,1 73,8 pH 1,9 ± 0,1, 25 mA cm com 0,10 mol L NaCl 52,0 −1 * Todas as eletrólises, exceto esta, foram realizadas na presença de 0,20 mol L de tampão fosfato. 186 Capítulo IV A fim de melhor compreender o efeito dos íons fosfato sobre a oxidação eletroquímica do corante AB-210 utilizando BDD, uma eletrólise foi realizada na ausência de fosfato. As curvas de COD vs. carga específica para a eletrólise realizada em solução de NaOH 0,20 mol L−1 a 25 mA cm−2 e para as outras eletrólises realizadas na mesma densidade de corrente são apresentadas na Figura 4.12. Os valores de COD obtidos a partir da eletrólise realizada em NaOH coincidiram com os valores teóricos obtidos a partir do modelo de Comninellis. Nessa condição, a constante de velocidade para a remoção de COD foi levemente maior do que aquelas obtidas em tampões fosfato com pH 1,9 e 6,8, mas muito menor do que aquela obtida em tampão fosfato com pH 11,7. A constante de velocidade de remoção de absorbância em 460 nm em solução de NaOH também foi maior do que as obtidas em tampões fosfato com pH 1,9 e 6,8 a 25 mA cm−2, mas menor que a obtida em tampão fosfato com pH 11,7 (Tabela IV.3). A remoção de TOC em função do tempo para a eletrólise realizada em solução de NaOH a 25 mA cm−2 mostrou um perfil similar àqueles observados em tampões fosfato pH 1,9 e 6,8 na mesma densidade de corrente, mas o consumo de energia no primeiro caso foi menor (Tabela IV.4). A eletrólise realizada em tampão fosfato 0,20 mol L−1 a pH 11,7 mostrou o melhor desempenho para a oxidação de AB-210 e os resultados de remoção de COD foram melhores do que aqueles previstos pelo modelo de Conmninellis. Isso indica que espécies reativas formadas a partir dos íons fosfato devem participar do mecanismo de oxidação do corante e que condições alcalinas devem favorecer a produção dessas espécies. Tem sido relatado na literatura que peroxodifosfato (P2O84−) pode ser eletroquimicamente produzido sobre ânodo de BDD e que bons rendimentos são 187 Capítulo IV somente obtidos em soluções fortemente alcalinas (o intervalo de pH ótimo está compreendido entre 12 e 13) 3,31,32. 300 0,20 0,16 COD / mg L -1 ICE 250 0,12 0,08 0,04 200 0,00 0 2 4 6 8 10 Carga específica / Ah L-1 150 100 50 0 0 2 4 6 8 10 -1 Carga específica / Ah L Figura 4.12: Diminuição dos valores de COD em função da carga específica durante as eletrólises de 500 mg L−1 de AB-210 a 25 mA cm−2 utilizando BDD: (■) tampão fosfato 0,20 mol L−1, pH 1,9, (●) tampão fosfato 0,20 mol L−1, pH 6,8, (▲) tampão fosfato 0,20 mol L−1, pH 11,7 e (♦) solução de NaOH 0,20 mol L−1, pH 12,90. A linha em verde representa a predição do modelo proposto por Comninellis. Weiss et al. 32 observaram, a partir de voltamogramas cíclicos registrados a 100 mV s−1 utilizando BDD como eletrodo de trabalho em soluções de fosfato 0,20 mol L−1, o aparecimento de um pico de oxidação muito próximo daquele devido à reação de desprendimento de oxigênio. Um aumento no tamanho do pico e um deslocamento em direção a potenciais menores ocorrem à medida que a solução de fosfato torna-se mais alcalina. Desde que quatro formas de fosfato podem existir em solução aquosa (H3PO4, H2PO4−, HPO42− e PO43−) e que sua especiação depende do pH da solução (pKa1 = 2,16, pKa2 = 7,21 e pKa3 = 12,32 46), as mudanças causadas pelo pH 188 Capítulo IV nos voltamogramas do BDD podem ser atribuídas à eletrogeração de espécies diferentes de radicais fosfato (eq. 4.21, 4.22 e 4.23). H2PO4− → H2PO4● + e− (4.21) HPO42− → HPO4−● + e− (4.22) PO43− → PO42−● + e− (4.23) Embora os potenciais de redução dos radicais fosfato não sejam precisamente conhecidos, evidências experimentais mostram que eles podem diferir significativamente. Tem sido reportado que PO42−● oxida I− ( E0r (I2/I−) = 0,54 V), HPO4−● também pode oxidar Br− ( E0r (Br2/Br−) = 1,07 V) e H2PO4● pode até oxidar Cl− ( E0r (Cl2/Cl−) = 1,36 V) 46,47. Esses resultados sugerem que os potenciais de redução dos radicais fosfato aumentam na ordem PO42−● < HPO4−● < H2PO4●, ou seja, H2PO4● é m oxidante mais forte do que HPO4−●, o qual é mais forte do que PO42−● 48. Isso é consistente com os resultados obtidos a partir dos voltamogramas cíclicos com BDD em soluções de fosfato desde que a eletrogeração de PO42−● (eq. 4.23) ocorre em um potencial menor do que aqueles onde HPO4−● (eq. 4.22) e H2PO4● (eq. 4.21) são produzidos 32. De acordo com Cañizares et al. 3, a eletroxidação de fosfato sobre BDD pode ocorrer por dois mecanismos: a oxidação direta sobre a superfície do ânodo (equações 4.21, 4.22 e 4.23) e a oxidação mediada por radicais hidroxilas (equações 4.24, 4.25, 4.26). Ambos os mecanismos levam à formação de radicais fosfato, os quais podem se combinar entre si para formar peroxodifosfato (eq. 4.27). As constantes de velocidade para as reações entre radical HO● e H3PO4, H2PO4− e HPO42− são 2,6 x 106 L mol−1 s−1 189 Capítulo IV (eq. 4.24), 2,2 x 106 L mol−1 s−1 (eq. 4.25), and 0,8 x 106 L mol−1 s−1 (eq. 4.26), respectivamente 49. Desde que a produção de peroxodifosfato é favorecida em meio alcalino (condição na qual o radical PO42−● predomina) e que a constante de velocidade para a formação de PO42−● a partir da reação entre HPO42− e o radical HO● é menor do que a velocidade das reações que originam os outros radicais fosfato, é provável que a oxidação de fosfato ocorra principalmente via oxidação direta sobre BDD. Ainda de acordo com Cañizares et al. 3, a oxidação direta é o mecanismo predominante quando o potencial anódico é menor do que 3,95 V vs. Ag/AgCl, o que ocorre em todas as condições estudadas neste trabalho (potencial anódico compreendido entre 2,6 e 3,6 V vs. Ag/AgCl), indicando que esse é o mecanismo que predomina nas condições estudadas. H3PO4 + HO● → H2PO4● + H2O (4.24) H2PO4− + HO● → H2PO4●/HPO4−● + HO−/H2O (4.25) HPO42− + HO● → HPO4−●/PO42−● + HO−/H2O (4.26) PO42−● + PO42−● → P2O84− (4.27) Considerando que os radicais fosfato estejam envolvidos no mecanismo de oxidação do corante AB-210 e que estes radicais sejam produzidos pelo mecanismo de oxidação direta, é provável que as mudanças causadas pelo pH na eficiência de oxidação do corante seja devido às diferenças nas propriedades de adsorção das várias espécies de radical fosfatos. A diminuição no tamanho do pico à medida que o pH diminui, observada por Weiss et al. 32 a partir dos voltamogramas cíclicos, ajuda a suportar essa hipótese. Se H2PO4● e HPO4−● se adsorverem fortemente sobre a superfície do BDD, a oxidação do corante ocorrerá principalmente na região próxima à 190 Capítulo IV superfície do eletrodo. Além disso, desde que radicais fosfato são menos reativos e mais seletivos do que radicais HO●, a formação deste último seria inibida. Nesse caso, uma remoção de COD inferior à prevista pelo modelo de Comninellis seria esperada (Figura 4.12). Por outro lado, radicais PO42−● parecem se adsorver mais fracamente sobre BDD do que H2PO4● e HPO4−●. Por causa disso, além de reagir na região próxima ao eletrodo, PO42−● pode reagir no bulk do eletrólito e pode ainda resultar na produção de P2O84− com alto rendimento. PO42−● ( E0r = 2,50 V) e P2O84− ( E0r = 2,07 V) são fortes agentes oxidantes capazes de degradar compostos orgânicos 50. Esse comportamento torna-os interessantes para a oxidação de contaminantes orgânicos e para o tratamento de efluentes. Da mesma forma que os radicais HO●, radicais fosfato podem reagir com compostos orgânicos por três mecanismos: abstração de hidrogênio a partir de compostos orgânicos saturados, adição eletrofílica a compostos insaturados e oxidação por transferência de elétrons 48,50. PO42−● tem um potencial de redução menor do que o do radical hidroxila em condições ácidas ( E0r = 2,80 V ). Entretanto, a eficiência de um oxidante não depende somente do seu potencial de redução. Embora radical HO● seja um poderoso oxidante para reações de transferência de elétrons, geralmente ele não reage com compostos orgânicos por meio desse mecanismo, mas por um mecanismo de adição. Isso ocorre porque a ligação formada na adição estabiliza o estado de transição. Quando HO● é adicionado a benzenos substituídos, por exemplo, radicais hidroxiciclohexadienil são formados. Nesse caso, os produtos de reação são tipicamente aqueles originados da dimerização ou desproporcionação desses radicais. A heterólise da ligação C−OH dos radicais hidroxiciclohexadienil levaria à formação dos produtos de transferência de elétrons (o cátion radical e o ânion hidróxido). Entretanto, uma vez que o grupo OH− é um péssimo 191 Capítulo IV grupo de saída, a heterólise espontânea é muito lenta e os produtos de transferência de elétrons seriam observados somente em condições muito ácidas, onde a protonação do grupo –OH o converteria em –H2O+, o qual é um excelente grupo de saída 51. A eficiência de uma reação depende da reatividade de todas as espécies que participam dela. Assim, para explicar o melhor desempenho do processo de oxidação eletroquímico do corante AB-210 em solução alcalina contendo fosfato, a reatividade do corante também deve ser considerada. Como descrito anteriormente, a forma assumida pelo corante AB-210 em solução aquosa depende do pH. As diferentes formas do corante, além de apresentarem propriedades espectrais diferentes, podem diferir significativamente quanto as suas reatividades. Durante a oxidação do 2,4,6triclorofenol (TCP) pelo H2O2 catalisada por uma ferro-tetrassulfoftalocianina, completa conversão do TCP foi atingida em pH 7 e 8, enquanto que pobres conversões foram obtidas em pH 5 e 6 no mesmo intervalo de tempo 52. Desde que TCP tem um pKa de 6,2, os autores sugeriram que o melhor desempenho do processo em pH 7 e 8 deve-se à presença de 100% do TCP na forma fenolato. Essa forma é mais oxidável do que o fenol, o qual predomina em pH menor do que 6,2. Geralmente, as constantes de velocidade entre radicais fosfato e compostos orgânicos aumentam na seguinte ordem: PO42−● < HPO4−● < H2PO4●. Entretanto, na reação com a glicina (H2NCH2CO2H), PO42−● apresentou uma constante e velocidade de 2,6 x 107 L mol−1 s−1 em pH 12,7 enquanto que H2PO4● apresentou uma constante menor do que 105 L mol−1 s−1 at pH 4.5 53. Desde que PO42−● reage com H2NCH2CO2− e H2PO4● com +H3NCH2CO2−, é provável que a primeira forma da glicina seja mais reativa do que a última forma. Recentemente, Murugananthan et al. 54 observaram que durante a eletroxidação do bsifenol A com BDD, conversões mais rápidas desse composto foram obtidas em 192 Capítulo IV solução alcalina, condição em que bisfenol A está na forma fenolato. Assim como TCP, glicina e bisfenol A, a forma assumida pelo corante AB-210 em solução alcalina deve ser mais reativa do que as outras formas. O efeito de íons cloreto sobre a eletroxidação do corante AB-210 sobre BDD em tampão fosfato também foi avaliada. Na Figura 4.13(A) são apresentadas as remoções de COD e os valores de CE obtidos depois de 1 h de eletrólise a 25 mA cm−2 na presença e ausência de NaCl. Para as eletrólises realizadas na ausência de cloreto, maiores remoções de COD e maiores valores de CE foram obtidos em maiores valores de pH. Por outro lado, quando cloreto estava presente no eletrólito, os melhores desempenhos foram obtidos em menores valores de pH. A oxidação anódica de cloreto resulta no desprendimento de cloro. Em água, cloro desproporciona rapidamente formando HClO e ClO− 20. Desde que HClO é mais eletrofílico do que ClO−, o primeiro é mais reativo para as reações de adição e substituição eletrofílica. Nessas reações, o átomo de Cl no HClO comporta-se como Cl+, o qual é atacado pelo nucleófilo com o qual ele reage 55,56. HClO é também mais reativo do que ClO− para as reações de transferência de elétrons. BDD apresenta alto sobrepotencial para a reação de desprendimento de cloro, o que se deve provavelmente à pobre adsorção dos átomos de cloro sobre a sua superfície 6. Entretanto, íons Cl− reagem com radicais HO● para gerar HOCl●− (eq. 4.28), o qual se decompõe a radicais Cl● (eq. 4.29) 57,58. Esses radicais também podem ser produzidos a partir da oxidação de íons Cl− pelos radicais H2PO4● (eq. 4.30) 59. Na presença de excesso de ions Cl−, radicais Cl● são imediatamente sequestrados, formando radicais Cl2●− (eq.4.31) 57,59. Como os radicais HO● e os radicais fosfato, Cl● e Cl2●−, principalmente o primeiro, reagem com as substâncias orgânicas 193 Capítulo IV por abstração de hidrogênio, adição a alquenos e alquinos e oxidação por transferência de elétrons 60. HO● + Cl− HOCl●− + H+ HOCl●− (4.28) Cl● + H2O (4.29) H2PO4● + Cl− → Cl● + H2PO4− (4.30) Cl● + Cl− Cl2●− (4.31) Desde que HClO é um oxidante mais eficiente do que ClO−, a eletroxidação de compostos orgânicos na presença de cloreto apresenta melhor desempenho em condições ácidas do que em condições alcalinas, principalmente com relação à remoção de cor 28. Durante a eletroxidação de AB-210 sobre BDD na presença de cloreto, quanto menor o valor de pH, mais rápida foi a remoção de absorbância em 460 nm (Tabela IV.3). Além disso, a diminuição dos valores de absorbância em 460 nm foi mais rápida na presença de íons cloreto do que na sua ausência, exceto em pH 11,7. Embora espécies de cloro ativo (Cl2, HClO e ClO−) sejam capazes de oxidar as substâncias orgânicas, resultando em rápidas diminuições de COD e absorbância, elas não são capazes de mineralizar esses compostos. Por outro lado, radicais cloro (Cl● e Cl2●−) podem resultar na mineralização dos compostos orgânicos e a formação desses radicais depende da concentração de cloreto e do pH. Na eletroxidação de AB-210 na presença de cloreto, mais de 97,0% de COD foi removido depois de 2 h de elétrolise, em todas as condições de pH. Entretanto, depois de 5 h de elétrolise, TOC ainda era detectado e as remoções deste parâmetro haviam sido menores do que àquelas obtidas na ausência de cloreto (Figura 4.13(B)). 194 Capítulo IV 100 0,60 com cloreto sem cloreto (A) 0,50 80 0,40 60 0,30 40 0,20 20 0,10 0 1,9 6,8 CE Remoação Remoção de COD / % 120 0,00 11,7 pH Remoção de TOC / % 120 100 com cloreto sem cloreto (B) 80 60 40 20 0 1,9 6,8 11,7 pH Figura 4.13: (A) Remoções de COD e eficiências de corrente (CE) calculadas a partir de COD, após 1 h e (B) remoções de TOC após 5 h obtidas a partir da eletroxidação de 500 mg L−1 de AB-210 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 a 25 mA cm−2 sobre ânodo de BDD, na presença e ausência de 0,10 mol L−1 de NaCl em diferentes condições de pH. 195 Capítulo IV Reações de adição e substituição entre compostos orgânicos e espécies de cloro ativo e/ou radicais cloro são as principais responsáveis pela formação de compostos organoclorados. Na Figura 4.14 são apresentadas as concentrações de AOX em função do tempo de eletrólise obtidas na presença de cloreto em diferentes condições de pH. Em pH 1,9, a rápida remoção de TOC depois de 1 h de eletrólise (Tabela IV.4) ocorre concomitantemente à formação de alta concentração de AOX, indicando que radicais cloro devem participar da oxidação do corante nesta condição. Embora a produção de espécies de cloro ativo compete com as reações em que radicais fosfato são gerados, radicais Cl● também podem ser formados a partir da ração com H2PO4● (eq. 4.30), a forma de radical fosfato que predomina em soluções com pH < 5,7. Após 3 e 5h de eletrólise, a remoção de TOC aumentou levemente (Tabela IV.4), enquanto que a concentração de AOX permaneceu praticamente constante (Figura 4.14). Isso indica que os compostos organoclorados inicialmente produzidos podem ser resistentes à oxidação. Em pH 6,8, a concentração de AOX aumentou até 3 h de eletrólise e diminuiu depois de 5 h enquanto que em pH 11,7, ela atingiu um valor máximo de 1 h, o qual diminuiu com o tempo de eletrólise. Nessas condições de pH, as concentrações de AOX foram menores do que aquelas em pH 1,9 porque as espécies de cloro presentes nessas soluções são menos reativas nessas condições de pH. Esses resultados mostram que a cinética de formação de AOX depende do pH e que, embora compostos orgânicos sejam formados durante a eletroxidação do corante AB-210, eles são degradados no próprio processo. Os consumos de energia para as eletrólises realizadas usando tampão fosfato 0,20 mol L−1 e NaCl 0,10 mol L−1 como eletrólito suporte foram menores do que 196 Capítulo IV aqueles para as eletrólises realizadas na presença de tampão fosfato 0,20 mol L−1 apenas. 120 pH = 1,9 ± 0,1 pH = 6,8 ± 0,1 pH = 11,7 ± 0,1 AOX / mg L-1 100 80 60 40 20 0 1 3 5 Tempo / h Figura 4.14: Concentração de AOX durante a eletroxidação de 500 mg L−1 de AB-210 em tampão fosfato 0,20 mol L−1 a 25 mA cm−2 sobre ânodo de BDD, na presença de 0,10 mol L−1 de NaCl em diferentes condições de pH. IV.4 - Conclusões Nos estudos de eletroxidação do efluente de curtume sintético, os melhores resultados foram obtidos quando Si/BDD foi utilizado como ânodo e esses resultados não foram afetados pelo pH inicial do efluente. Ti/SnO2-Sb também mostrou bom desempenho, mas após 4 h de eletrólise ele sofreu desativação. As remoções de COD, TOC e fenóis totais, principalmente as duas primeiras, foram pouco significativas com o eletrodo Ti/Ir0,10Sn0,90O2-Sb. A eletroxidação do corante AB-210 com ânodo de BDD na presença de tampão fosfato 0,20 mol L−1 em diferentes condições de pH também foi investigada. Considerando as eletrólises realizadas a 25 mA cm−2 na presença de tampão fosfato 197 Capítulo IV como eletrólito suporte, os melhores resultados foram obtidos em pH 11,7. Nessa condição, os valores de COD em função da carga específica foram maiores do que aqueles obtidos a partir do modelo proposto por Comninellis e maiores remoções de TOC e cor também foram atingidas com menor consumo de energia. O melhor desempenho obtido para a oxidação de AB-210 em pH 11,7 deve-se provavelmente aos radicais fosfato e ao íon peroxodifosfato, os quais são agentes oxidantes fortes que podem ser eletrogerados sobre BDD com bons rendimentos, principalmente em condições alcalinas. Eletrólises realizadas na presença de tampão fosfato e NaCl resultaram em remoções mais rápidas de COD do que aquelas realizadas na ausência de cloreto. A remoção de cor foi mais rápida em pH 1,9 e 6,8 quando cloreto estava presente, mas em pH 11,7, a cor foi removida mais rapidamente quando cloreto não estava presente. Remoções de TOC na presença de cloreto foram menores do que na ausência deste íon. Além disso, compostos organoclorados (medidos como AOX) foram detectados em todas as condições de eletrólise realizadas na presença de NaCl, mas esses compostos começaram a ser degradados nas próprias eletrólises. Esses resultados mostram que BDD é o melhor material eletródico para a oxidação direta de substâncias orgânicas e que, além do cloro, ele é capaz de eletrogerar outras espécies oxidantes a partir do eletrólito suporte, como radicais fosfato e peroxodifosfato, as quais podem degradar eficientemente substâncias orgânicas, sem resultar na formação de compostos organoclorados. 198 Capítulo IV IV.5 - Referências bibliográficas 1 MARTÍNEZ-HUITLE, C. A.; QUIROZ, M. A.; COMNINELLIS, C.; FERRO, S.; DE BATTISTI; A. Electrochemical incineration of chloranilic acid using Ti/IrO2, Pb/PbO2 and Si/BDD electrodes. Electrochimica Acta, v. 50, p. 949-956, 2004. 2 FLOX, C; GARRIDO, J. A.; RODRÍGUEZ, R. M.; CENTELLAS, F.; CABOT, P.-L.; ARIAS, C.; BRILLAS, E. Degradation of 4,6-dinitro-o-cresol from water by anodic oxidation with a boron-doped diamond electrode. Electrochimica Acta, v. 50, p. 36853692, 2005. 3 CAÑIZARES, P.; SÁEZ, C.; LOBATO, J.; PAZ, R.; RODRIGO, M. A. 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Eletrodos do tipo DSA® mostram bom desempenho somente quando cloreto está presente na solução a ser tratada. Desde que efluentes de curtumes apresentam altas concentrações desse íon na sua composição, eletrodos do tipo DSA® poderiam ser utilizados no tratamento eletroquímico desses efluentes. Um dos obstáculos para que a eletroxidação via espécies de cloro ativo seja aplicada ao tratamento de efluentes industriais é a formação de compostos organoclorados. Embora a formação desses compostos tenha sido observada nas oxidações eletroquímicas realizadas na presença de cloreto, a toxicidade aguda do efluente diminuiu mesmo quando altas concentrações de AOX foram detectadas. Devese considerar que AOX inclui substâncias químicas de diferentes estruturas, que podem conter diferentes números de átomos de cloro e que, portanto, podem apresentar diferentes perfis toxicológicos. Além disso, o fato da toxicidade aguda ter diminuído não significa que esse efluente não tenha toxicidade crônica. Embora a formação de compostos organoclorados seja uma desvantagem da eletroxidação indireta mediada por cloreto, este trabalho mostrou que os compostos organoclorados formados na eletrólise podem ser degradados no próprio processo. Sem dúvida nenhuma, BDD é o melhor material eletródico que existe atualmente para a eletroxidação direta de substâncias orgânicas. A vantagem de eletroxidação direta é que compostos organoclorados não são formados. Outra característica bastante interessante dos eletrodos de BDD é que, ao contrário de outros materiais eletródicos, eles são capazes de produzir, além do cloro, outros oxidantes a 269 Capítulo VI partir do eletrólito suporte, como o peroxodifosfato, com altos rendimentos. Esses oxidantes podem ser aplicados para a degradação de compostos orgânicos. A fotoeletroquímica é uma técnica promissora para o tratamento de efluentes desde que ela apresenta melhor desempenho, em termos de degradação de substâncias orgânicas, do que os processos fotoquímico e eletroquímico aplicados de forma independente. Apesar disso, os custos associados ao processo fotoeletroquímico são mais altos, o que pode inviabilizar sua aplicação para fins industriais. Esse problema poderia ser superado se energia solar pudesse ser utilizada como fonte de radiação ao invés de uma lâmpada. Os custos dos processos eletroquímico e fotoeletroquímico também poderiam ser reduzidos se esses processos fossem utilizados em uma etapa que antecedesse ou sucedesse outro processo de tratamento, por exemplo, o tratamento biológico. Assim, se um efluente possui substâncias recalcitrantes em sua composição, mas que não são tóxicas aos microorganismos, o processo eletroquímico (ou fotoeletroquímico) poderia ser utilizado após o tratamento biológico. Por outro lado, se o efluente é tóxico para os microorganismos, o tratamento eletroquímico (ou fotoeletroquímico) poderia ser aplicado antes do tratamento biológico para remover a toxicidade do efluente e permitir que, em seguida, ele seja tratado biologicamente. Cabe salientar ainda que o tratamento eletroquímico só é economicamente vantajoso se o efluente apresentar elevada carga orgânica. Caso contrário, a eficiência faradaica do processo será muito baixa. Em outras palavras, a energia estará sendo gasta para gerar oxigênio. Em se tratando de efluentes com baixa concentração de compostos orgânicos, os processos oxidativos avançados tradicionais devem ser mais eficientes. 270 Livros Grátis ( http://www.livrosgratis.com.br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação - Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo